Traficando informação. Pirateando conhecimento. Plugando consciências no amplificador. Dentre outros atentados ao pudor... Você está no http://www.depredando.blogspot.com
Esparrame o blues pelo chão da garagem, taque por cima um pouco de gasolina, risque um fósforo e siga o velho preceito: "em caso de incêndio, deixe queimar!" Está aí, talvez, a fórmula do Jon Spencer Blues Explosion, power-trio de punk-blues garageiro que dispensa o baixo (tal qual os fabulosos Thee Butchers Orchestra e as adoráveis Sleater-Kinneys) e homenageia tudo que é sujo e meio insano.
Dia 30 de Julho, em Brasília, o JSBX será o headliner do Porão do Rock - que, como de praxe, será di-grátis (mas pede-se às almas caridosas aquele sempre bem-vindo quilo de alimento não-perecível: quando um kg multiplica-se por 30.000 presentes, estas 30 toneladas de rango servem para minorar o ronco no estômago de um bocado de gente!).
No mesmo dia e palco, tocam ainda Wander Wildner, Bílis Negra, Camarones Orquestra Guitarrística e Bang Bang Babies (que faturou a seletiva-Goiânia). Jon Spencer e cia tocam também em Sampa, no Bourbon Street, antro da grã-finagem, no dia 28, mas o preço, suspeito, deve ser altamente brochante.
E aí, vamos com alguns incendiários itens da discografia spenceriana para aquecer os motores?
“Are you ready to be liberated? On this sad side city street! Well the birds have been freed from their cages. I got freedom and my youth.
My name is Brody I’m from Melbourne, Fitzroy Melbourne. I grew up on Bell St., then on Bennett St. My mum kicked out my dad for battery. She found a way out of spiritual penury, working single mother in an urban struggle, blames herself now cause I grew up troubled. It hit me: I got everything I need.
My one heart felt too much from the start. I’ve seen people come and go, living large and living low. You can build up your walls sitting on death row. Let the curtain fall on your murdered soul.
You can wash it all down, swallow your story. Get smacked off your head, go down in drum roll glory. You won’t solve it committing self inflicted crime. Go on, pull the trigger, this will be the last time. It hit me: I got everything I need.
I speak of the truth. The truth of the heart. Like a desperate thirst in a raging drought. Hey youth: time flies by! There’s an everlasting battle for eternal life. I love a man from California, he’s the prettiest thing, we got the same disorder. The way you feel it’s OK. it’s never gonna change anyway. It hit me I got everyone i need.
Are you ready to be liberated? On this sad side city street! Well the birds have been freed from their cages. I got freedom and my youth.”
Chegando a sua sétima edição anual consecutiva, a Tatoo Rock Fest, que ocorreu em Goiânia no começo deste mês de Julho, no Centro Cultural Oscar Niemeyer (espaço precioso, que enfim está sendo plenamente utilizado, fazendo jus aos mais de R$60 milhões nele investidos), trouxe uma porrada de artistas da tatuagem, nacionais e gringos, para mostrarem seu talento na arte da cicatriz voluntária. Paralelamente à intensa tatuação, as atrações musicais serviram como um cardápio riquíssimo para os batedores-de-cabeça, moicanados, cabeludos, motoqueiros e roqueiros sujos em geral - especialmente aqueles que apreciam as vertentes mais extremas e violentas do rock nacional, como o punkão old-school com laivos de death metal dos veteraníssimos Ratos de Porão, que estão há quase 30 anos espalhando a pestilência e a balbúrdia infernal, e o hardcore melódico dos capixabas do Dead Fish, que apesar de desdenhados como "proto-emos" por alguns mostraram-se capazes de convocar uma festa punque da melhor qualidade.
Dentre as atrações locais, destaque mais uma vez para o stoner chapado repleto de fritações dos Black Drawing Chalks, bandaça que vem acumulando experiência nos palcos do Brasil e do exterior (acabaram de voltar de uma turnê pela Inglaterra...), e os sempre entusiasmantes Space Monkeys, que estão a cada show mais afiados e precisos, indo bem além da sina de "Foo Fighters do cerrado" e fazendo-nos suspeitar que o disco de estréia de Edimar, Fredox e companhia, previsto para Setembro de 2011, será o mais fino petardo do rock goiano neste ano.
O destaque supremo vai, no entanto, não para uma banda específica, mas para o público que esteve no Niemeyer na sexta e no domingo (os dois dias em que pude marcar presença, já que no sábado o headliner Mombojó, muito malemolente pro meu gosto, não animou-me a sair de casa). Como já ocorreu em outras ocasiões, na Tatoo Rock Fest cheguei à conclusão de que a platéia, em Goiânia Rock City, é o verdadeiro espetáculo: nos shows de Ratos e Dead Fish, ambos com o som lindamente no talo, a ponto de estourar tímpanos de freiras, contaram com intensa participação de muitos malucos que subiram no palco e fizeram toda sorte de piruetas e mortais ao se lançar de volta para a galera, sem falar nas lindas rodas de pogo e nas extasiantes transgressões de regras policialescas impostas pelos guardas... É sempre tão massa ver a juventude agindo com a maior alegria enquanto põe em prática o mais descarado desacato à autoridade! Nada adiantou que os seguranças chatonildos tentassem acabar com a festa do stage diving: a repressão só incendiou ainda mais os ímpetos rebeldes, e no fim das contas a anarquia camaradística estava instaurada.
E pensem bem: só mesmo quem muito confia em seus camaradas, muitos deles desconhecidos e anômimos, lança seu corpo nos ares, com risco de espatifar a cuca no chão; ninguém se arrisca a fratura e fodição à toa, mas só por acreditar "piamente" na brodagem punk: "ninguém há de me deixar quebrar meus ossos contra o asfalto", pensa cada um daqueles que mergulha do palco para a pista, "sei que estou entre camaradas que hão de sustentar minha queda!" É a camaradagem mais genuína, e não a misantropia, o que dá o tom num ritual emocionante desses!
Kropotkin (1842 - 1921), anarquista russo e profeta-punk de longas barbas
O Hobbes (1588-1679), filósofo político que justifica o absolutismo, me parece um misantrópico que acredita que a selvageria e a violência grassariam caso o Leviatã do Estado não colocasse seus poderes de coerção e repressão no sentido da domesticação da besta-fera chamada homem; nisto, possui uma visão sobre a natureza humana muitíssimo pessimista quando comparada com aquela de meu querido Kropotkin, russo anarquista que, apostando que o coração humano não é assim tão podre quanto querem nos sugerir os defensores da tirania, sustenta que, na ausência de autoridades autoritárias e poderes estatais, saberemos cuidar uns dos outros tendo como guia a camaradagem. O que tem a ver? Tudo, para minha cabecinha de filósofo entusiasta do Movimento Punk: pois há vezes que um show punk nos traz boas notícias sobre a humanidade e nos fez crer que Kropotkin tinham mais razão que Hobbes. A anarquia é mais doce que o autoritarismo.
“I’ve learned everything from loss.
(For what’s gained there’s an inner cost).”
JOHN FRUSCIANTE
"Em 18 de maio de 2011, o Tumblr contabilizava aproximadamente 19 milhões de blogs", informa-nos a Wikipedia. Entusiasta da blogosfera como sou, resolvi experimentar. Acabei por viciar. E agora o Depredando também está soltando das suas lá no Tumblr, com fotos e citações, ilustras e tirinhas, versos e pinturas... Já estão on-line mais de 100 posts que formam uma coleta multi-mídia de conteúdos bacanas encontrados aí pelo cyber-espaço. O foco, por aquelas bandas, é mais visual do que verbal; mais colírio para os olhos do que papo furado. E grande parte do conteúdo é repostado de outros blogs bacaníssimos que tenho frequentado (nameless here forevermore || a fine high lonesome madness ||high on revoluion || utopy now || tapetes sirios || ateísmo e peitos || youth against fascism || innombrable || hypnotically insane || crackity jones || innerspeakin || revolt riot...). Gosto muito dessa ferramenta de "reblogagem" do Tumblr, aliás: é pura brodagem. Construção coletiva de conteúdo. Mais colaboração que competição. Mais disseminação que retenção. Menos nóia com direito autoral e mais interesse em compartilhamento cultural. São coisas destas que só a Internet nos permite. Foxy lady!
"At a time when rock was evolving further and further away from the forces that had made the music possible in the first place, Creedence Clearwater Revival brought things back to their roots with their concise synthesis of rockabilly, swamp pop, R&B, and country. Though CCR was very much a group in their tight, punchy arrangements, their vision was very much singer, songwriter, guitarist, and leader John Fogerty's. Fogerty's classic compositions for Creedence both evoked enduring images of Americana and reflected burning social issues of the day. The band's genius was their ability to accomplish this with the economic, primal power of a classic rockabilly ensemble.
When the Beatles broke up in early 1970, CCR was the only other act that provided any competition in the fine art of crafting bold, super-catchy artistic statements that soared to the upper reaches of the charts every three or four months. Although they hailed from the San Francisco area, they rarely succumbed to the psychedelic indulgences of the era. John Fogerty also proved adept at voicing the concerns of the working class in songs like "Fortunate Son," as well as partying with as much funk as any white rock band would muster on "Travelin' Band" and "Down on the Corner."- Richie Unterberger (AMG ALL Music Guide)
Ao-vivão no porão, o Radiohead exibe a quantas anda o experimentalismo vertiginoso com eletrônica, kraut-rock, free-jazz e outras doideras que se iniciou com Kid A e completa uma década de ousada exploração com The King Of Limbs. Música hipnótica, kraftwerkiana, de pôr em transe quem a ela entrega os sentidos, e que, goste-se dela ou não, é decerto algo que só Thom Yorke, Johnny Grenwood e companhia são capazes de fazer hoje em dia. Inimitáveis! Confira aí O vídeo completo desta session, com 55 minutos de duração, acaba de ser censurado pela estraga-prazeres da BBC, mas como pirata não é bobo nem nada... está inteirinho disponível para baixar no The Pirate Bay. Se preferir, baixe só as MP3s (via @anadedownllanda). Abaixo, as Basement Sessions do penúltimo álbum dos caras, In Rainbows:
Ritinha Lee, a mutante tutti-frutti maluca-beleza, revela no vídeo abaixo detalhes de sua relação com Caetano e Gil, rememora a fase de ouro do Tropicalismo, fala sobre os bons tempo de alto consumo de "baurets" (cigarrillos de haxixe) e ácido, cita Tom Zé e Torquato Neto... Eis aí um depoimento sensacional sobre um dos momentos de maior efervescência cultural da história brasileira (e em plena ditadura militar pós AI-5!). Este é um trecho-pérola do DVD Biografitti que resolvi up-ar pro YouTube. Espero que curtam! (Link curto pra quem quiser disseminar: http://bit.ly/qPWjOM.)
O começo dos anos 90, olhado em retrospecto, foi mesmo uma Era de Ouro (apesar de enferrujado, encardido e retorcido pela distorção) para o rock independente americano: Pixies ainda na ativa; Fugazi com todo o gás; riot grllll no auge; o grunge em plena efesvescência, com Nirvana, Pearl Jam, Alice in Chains e Soundgarden tomando de assalto o mainstream enquanto Mudhoney, Screaming Trees e The Gits, ainda que restritos ao underground, realizavam alguns de seus melhores trabalhos... E as pequenas gravadoras, nascidas com a cartilha punk do-it-yourself debaixo dos braços (e inscrita nos corações), começavam o percurso que as levaria a se tornar lendárias: caso da Sub Pop (em Seattle) e da Dischord (em Washington).
Esta última foi a responsável pela "revelação" do Nation of Ulysses, bandaça punk noventista altamente confrontadora, nervosa e intensa que durou só por um punhado de anos - mas foi o suficiente para gravar dois clássicos: Nação de Ulisses Toca Bonitinho Para Os Bebês (1991) e Programa de 13 Pontos Para Destruir a América (1992). Anti-americanismo anarquista movido à chacota e insanidade dava o tom "ideológico" para esta banda que, nascida em 1988 na capital dos EUA, não parecia nada feliz com os tempos Reagan-Tatcher e parecia querer criar uma máquina de som revolucionária - misturando MC5, X-Ray Spex, Dead Kennedys, pós-hardcore fugazístico... - para trazer abaixo o reinado dos tiranos caretas.
Ian Svenonius, vocalista do
Nation of Ulysses e do Make-Up
Como aponta a AMG, "any discussion of NoU inevitably comes to rest on their conceptual foundation: a relentlessly provocative (and entertaining) jumble of teenage rock & roll rebellion, leftist radicalism, anarchist punk polemics, and abstract intellectual rambling. This filled not only their lyrics but their loquacious liner notes, which the group itself often referred to as "propaganda." Much debate ensued over how firmly the group's collective tongue was planted in its cheek; they seemed far too over the top to be completely serious about their pose, but threw so much effort into it that their hearts seemingly had to be in it to some degree. In person, they carried it off with style and swagger, dressing in sharp business attire and staging theatrical, high-energy live shows.
The fascination with NoU's abundant surface trappings often drew attention away from their generally excellent music, an amateurish but potent blend of garagey, Detroit-style crash 'n' bash and Fugazi-influenced post-hardcore punk. Moreover, their multi-ethnic makeup pushed them to incorporate elements of R&B (as filtered through the MC5) and avant jazz, the latter chiefly through manic frontman Ian Svenonius' primitive trumpet squalling. Although the Nation of Ulysses issued only two albums during their lifetime, their sound, style, and sloganeering had a far-reaching impact; not only did they breathe fresh air into a stagnant anarchist-punk movement, they inspired a new crop of bands both locally and abroad, particularly Swedish punkers like the Hives, the (International) Noise Conspiracy, and Refused."
Aí vai, portanto, a discografia completa dos caras! Aprecie sem moderação.
"Comer carne ou não?" - eis a questão que tem me apoquentado nos últimos tempos como se fosse um dilema hamletiano. Assisti aos principais documentários produzidos sobre o tema e todos eles me causaram um grande impacto e me fizeram sentir a necessidade de uma revolução nos hábitos alimentares humanos: Earthlings - Terráqueos, A Carne é Fraca, Food Inc., Meat The Truth, Food Matters (todos recomendadíssmos!). Jamais vou poder olhar para a comida que ponho no prato e mando goela abaixo do mesmo modo depois de ter me conscientizado de todo o sistema que está por detrás da produção destes itens de consumo que só as crianças e os tontos imaginam que já nascem no supermercado: as salsichas, os hambúrgueres e todo o resto do cardápio carnívoro. Li também boa parte das argumentações do Peter Singer, talvez o maior "guru" ativista do movimento da Libertação Animal, um intelectual que pretendo estudar mais a fundo nos próximos tempos; de qualquer modo, considero que Singer tem muito de relevante a nos dizer e que faremos muito bem em emprestar-lhe ouvidos atentos, discutir acaloradamente suas idéias e se aliar a muitas de suas lutas.
Muitas figuras que admiro são vegans confessos e militantes, de Paul McCartney (que é o "âncora" do filme"If Slaughterhouses Had Glass Walls Everyone Would Be Vegetarian", produzido pela PETA - People for the Ethical Treatment of Animals) a Morrissey (lembrem-se do nome daquele álbum dos Smiths: "Meat Is Murder", ou "Carne é Assassinato"). Até mesmo a adorável Lisa Simpson aderiu ao vegetarismo num clássico episódio da sétima temporada dos Simpsons, e até mesmo os porra-louquinhas altamente inescrupulosos de South Park revoltaram-se em outro episódio impagável contra o crudelíssimo tratamento infligido aos vitelos (criados no mais horroroso cativeiro, impedidos de movimentar suas perninhas para que seus músculos infantis não se desenvolvam, o que gera uma carne mais tenra, e que serão assassinados ainda na infância para serem vendidos a preços carésimos nos restaurantes mais chiques de Nova Yorke, Paris ou Genebra...).
Em primeiro lugar, acho crucial quebrar o tabu que ainda envolve a questão da carne e levantar um debate público tão intenso sobre este assunto quanto está sendo aquele sobre a descriminalização da maconha e do aborto ou a união civil de pessoas do mesmo sexo. Nós, adeptos ou simpatizantes do vegetarianismo, não queremos ser tratados simplisticamente como mero estraga-prazeres que só querem zuar o churrasco dos outros apontando sempre para o fato, que os carnívoros tanto gostam de manter ignorado, de que estão mastigando e engolindo pedaços de bichos mortos, fragmentos de cadáveres... Vegetarianos não são uns "metidos a bonzinhos" que querem atrapalhar a diversão dos que gostam de rodeios e para quem Barretos é a balada do ano. Vegetarianos não são uns hippies-bundamole cheios de frescura que ficam cheios de nhém-nhém-nhém pra comer e que deveriam ter apanhado mais quando criança para deixarem de serem frescos.
Não se trata de acabar com a festa carnívora com discursinhos moralistas e sentimentalóides, mas sim de levar a sério a responsabilidade que temos como sujeitos pensantes e cidadãos de um planeta em risco de pôr em questão problemas globais de primeiríssima importância: o aquecimento global causado pelo efeito estufa e as possíveis relações que isto possa ter com o modelo de agropecuária hoje dominante; o tratamento instrumental cruel e desumano que é dispensado a seres vivos sencientes (para usar um termo caro aos budistas e hinduístas) nas grandes "fábricas de carne" do capitalismo neoliberal; sem falar em questões de saúde pública: uma dieta baseada em carne é realmente o supra-sumo da nutrição mais rica acessível a humanos, ou haveriam outras dietas muito mais nutritivas e que fariam com que diminuíssem as torrentes de sangue animal que jorram pelo planeta como se este fora o Inferno de Dante?...
Há muito tempo já abandonei a visão bucólica e idílica que muitos ainda possuem sobre os "animaizinhos lindinhos" que coabitam pacificamente conosco neste planetinha. As embalagens da Sadia ou da Perdigão, que mostram franguinhos sorridentes e alegres, como se fosse por pura dádiva que eles se oferecem às nossas bocas para serem devorados, são altamente enganadoras e "ideológicas" (no sentido marxista do termo: uma imagem invertida da realidade). Não é novidade alguma que os publicitários mentem pra caralho.
Pois a realidade que enfrentam estes animais não é nada sutil: os pintinhos logo depois de nascer têm seus bicos cortados numa espécie de "guilhotina" de linha-de-montagem; são amontoados em imensos galpões, que fedem a urina e fezes, onde vivem sem ver a luz do Sol por um único minuto de suas vidas; são engordados à força, ou seja, obrigados a engolir alimentos goela abaixo (a sensação deve ser semelhante àquela vítima de Seven - Os Sete Pecados Capitais que é punida pelo serial killer por sua gula...); a lotação, o desconforto e a imundície são tamanhos que os animais "enlouquecem" e ficam furiosos a ponto de serem capazes de se matar a bicadas (donde a "sábia" precaução da debicagem adotada pelas grandes corporações...). Abaixo, dois exemplos eloquentes retirados do Food Inc.: a super-lotação absurda e a "obesidade" forçada:
Não é minha intenção fazer ninguém vomitar o jantar. Mas acho que já passou da hora de acordarmos todos para o fato de que o modelo massivamente disseminado nos dias de hoje não tem nada a ver com aquela Fazendinha ou Granja familiar idealizada, ao estilo do Cocoricó, o programa infantil da TV Cultura; boa parte da carne que compramos nos supermercados provêm de fábricas, não de fazendas; é produto de um sistema industrial que trata a vida como mercadoria e os lucros como deus, e não de uma agro-pecuária que mantivesse viva qualquer noção de reverência à Mãe Natureza e dependência mútua entre todos os seres vivos. Seria urgentíssimo e necessário que aquela concepção do Fritjof Capra em Ponto de Mutação fosse mais conhecida e disseminada como contraponto à atual doutrina capitalistóide que faz com que milhões de animais vivam vidas inteiras - do berço ao túmulo - em condições piores que aquelas dos campos de concentração de Dachau ou Auschwitz.
O seguinte trecho do Isaac Bashevis Singer, judeu polonês emigrado para os EUA, Prêmio Nobel de Literatura e um dos melhores contistas que já tive o prazer de ler, sublinha o fato de tratarmos os animais de modo "nazista", sem respeito algum por sua dignidade - devida e merecida, ao menos, pelos milhões de anos em que estes organismos foram engendrados pelo processo de evolução (eles nos precederam, nesta longuíssima estrada, aliás!), o que os torna organismos de complexidade raríssima no Universo por nós conhecido...
“Há muito eu chegara à conclusão que o tratamento do homem para as criaturas de Deus torna ridículos todos os seus ideais e todo o pretenso humanismo. Para que este estufado indivíduo degustasse seu presunto, uma criatura viva teve de ser criada, arrastada para sua morte, esfaqueada, torturada e escaldada em água quente. O homem não dava um segundo de pensamento ao fato de que o porco era feito do mesmo material e que este tinha de pagar com sofrimento e morte para que ele pudesse saborear sua carne. Pensei mais uma vez que, quando se trata de animais, todo homem é um nazista.” (…) “Do derramamento de sangue animal ao derramamento de sangue humano há um passo”. (…) “Tu não matarás também inclui animais”. —— ISAAC BASHEVIS SINGER (1904-1991). Prêmio Nobel de Literatura.
Falar sobre vegetarianismo e libertação animal, pra mim, é pôr em questão uma das mais graves alienações de massa que ameaça hoje o nosso planeta. Digo "alienação" querendo dizer o seguinte: aquele que se depara com uma salsicha ou uma caixa de hamburgueres ou almôndegas e não tem a mínima capacidade intelectual de refletir sobre a origem daquele produto, ou que não tem a mínima empatia em relação ao ser vivo, de carne-e-osso, cujo sangue teve que ser derramado para que aquele fragmento de seu cadáver estivesse ali, disponível para consumo humano, está alienado das realidades humanas mais fundamentais e está cego a mecanismos econômicos cruciais que determinam nossa sociedade. (mas que podem ser transformados, se o quisermos). E ignorar estas questões me parece perigoso: o consumidor que se proclama inocente usando como álibi sua ingenuidade e seu desconhecimento é na verdade cúmplice desta engrenagem grotesca - já que a financia. Concordo plenamente com o mais célebre dos "slogans" do movimento vegan: "se os matadouros tivessem paredes de vidro, todos seríamos vegetarianos". E se cada um de nós tivesse que matar sua própria janta com as próprias mãos (pensem em Alexander Supertramp, em Into The Wild - Na Natureza Selvagem, naquela cena altamente impactante em que ele papa um urso), iríamos certamente preferir que existisse uma alternativa. A boa notícia é: existe.
Volto ao assunto qualquer hora, assim que pensar mais sobre o tema e tiver algo mais a dizer. Quem quiser debater, a caixa de comentários abaixo está aí, disponível justamente para isso. Alguns documentários excelentes estão na íntegra na Internet e compartilho-os abaixo. Informe-se!
Um dia perguntaram à Jimi Hendrix: "qual o sentimento de ser o melhor guitarrista do mundo?" E o voodoo child respondeu: "Não sei, vá perguntar ao Rory Gallagher". Para entender a hiperbólica exaltação hendrixiana à Gallagher (1948-1995), basta ouvir - de preferência em companhia da embriaguez etílica - alguns clássicos do cara (compartilhados abaixo). Este brilhante irlandês foi seguramente um dos maiores guitarristas de blues-rock da história: apesar de nascido na terra de Beckett e Joyce, tinha os pés afundados no blues, no country, no folk e no rock'n'roll primitivo dos EUA e da Inglaterra: Albert King, Leadbelly, Chuck Berry, Muddy Waters, Woody Guthrie, Buddy Guy, Eddie Cochran e John Lee Hooker são algumas de suas mais marcantes influências.
Nos anos 60, liderou o power-trio Taste (nascido antes do Cream, de Eric Clapton e cia), que gravou três álbuns de estúdio e fez shows antológicos em festivais como o Isle of Wight. Após o fim da banda, embarcou numa prolífica carreira solo que atravessaria mais de duas décadas, gerando discaços como Irish Tour, Calling Card, Deuce e Fresh Evidence. Cerca de 30 milhões de discos vendidos mundo afora o sedimentaram como um dos branquelos bluseiros mais formidáveis que já fez travessuras com uma Fender Stratocaster. Em 1995, aos 47 anos, com o fígado fodido pelo excesso de álcool e medicamentos, Rory Gallagher morreu após complicações decorrentes de um transplante.
Abaixo, partilhamos alguns itens de destaque na discografia do cara; quem quiser mais, é só dar um pulo no The Pirate Bay e baixar estes finíssimos torrents: discografia completa de Rory Gallagher e do Taste (já baixamos ambas e, para usar a linguagem do Rotten Tomatoes, it's certified fresh!). Boa curtição!
Tempin' atrás, rabisquei uns comentários sobre o ilustre Tom Zé, maluco beleza de primeira grandeza, quando de sua mais recente incursão pelas roças asfaltadas de Goiânia, quando ele nos brindou com um showzaço de encher os olhos e alegrar o zouvido lá no câmpus da UFG. Eu tinha compartilhado naquela ocasião um punhado de álbuns do hómi, especialmente os de começo de carreira, e tinha prometido pôr na roda o restante do que possuo da discografia caso a galera pedisse. Voilà pois, atendendo a pedidos e xingos, tudo o que tenho do tropicalista doidão em minha musicoteca pessoal... esbaldem-se!!! >>> TOM ZÉ, Discografia Seleta: Grande Liquidação (1968); Tom Zé (1970); Se o Caso É Chorar (1972); Todos os Olhos (1973); Estudando o Samba (1976); Correio da Estação do Brás (1978); Nave Maria (1984); Parabelo (1997; com José Miguel Wisnick); Com Defeito de Fabricação (1998); Imprensa Cantada (2003).
E aí embaixo, ó só que divertido (dica do Dieguito): Tom Zé fala sobre Rita Lee e suas canções "sexo-pedagógicas"... antológico!
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(DIGRESSÃO: Relendo esses dias uns contículos de Guimarães Rosa, pipocou-me na mente a figura de Tom Zé quando li "Sorôco, Sua Mãe, Sua Filha" (lá no Primeiras Histórias); me pareceu que "cantigas de desatino" é um ótimo batizado para a arte tom-zezista... "Num rompido - ele começou a cantar, alteado, forte, mas sozinho para si - e era a cantiga, mesma, de desatino, que as duas tanto tinham cantado. (...) E foi sem combinação, nem ninguém entedia o que se fizesse: todos, de uma vez, de dó do Sôroco, principiaram também a acompanhar aquele canto sem razão... Foi o de não sair mais da memória. Foi um caso sem comparação." Sei lá se foi produto de cuca ajeitada ou desatinada, mas fato que foi dos meus miolos a surgida conexão: Tom Zé, feito um Sorôco do tropicalismo ou um Quixote d'além-mar, fazendo a cantiga docemente desatinar... pois é confundindo que ele vai nos esclarecer, e é enloucrescendo que há de nos a-libertar!...)