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terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Weapons of Mass Distribution! (...) Um Manifesto


A Internet é uma arma de distribuição em massa. Mas a elite econômica do planeta têm alergia e pavor diante do que representa esta "terrível" palavrinha: distribuição... O capitalismo sempre teve simpatias muito mais intensas por outra prática... a da concentração. Ainda que precise defender os privilégios dos que concentram capital através da... repressão e da destruição. Tudo aquilo que a Internet possui de mais revolucionário e mais libertário está hoje sob ameaça de perecer nas mãos homicidas dos que querem um mundo onde nada seja de graça, onde tudo seja pago e tudo tenha dono. Preferem reduzir a pó uma imensa biblioteca pública, com o pretexto de que ela não dá lucro aos que já possuim mais do que precisam, para instalar no lugar... um shopping center. 

Em Auto-de-Fé, magistral romance de Elias Cannetti, há uma cena memorável em que o protagonista, Peter Kien, em meio aos 25.000 volumes de sua majestosa biblioteca particular, exalta-se num monólogo shakespeareano diante dos livros mudos nas estantes. Sua imaginação quixotesca o faz imaginar gigantes onde há tão somente moinhos-de-vento: cada obra, transfigurada por sua fantasia delirante, aparece-lhe como que dotada de "espírito", receptáculo pulsante de uma vida condensada em palavras. Cada um daqueles volumes, parecendo-lhe ter um coração pulsando entre suas letras e frases, é uma fonte onde ele tenta encontrar a sabedoria, o diálogo, a companhia. Relembrando catástrofes há muito esquecidas pelo comum dos mortais, Kien entoa para os guardiões da "sabedoria de séculos":

"Na história de um país ao qual todos nós devotamos igual veneração... houve um acontecimento horroroso, um crime de dimensões míticas, cometido contra vós [livros] por um poderoso demônio, por sugestão de um conselheiro muito mais diabólico ainda. No ano 213 a.C., por ordem do imperador chinês Shi-Hoang-Ti, usurpador brutal que ousou arrogar-se os títulos de 'o Primeiro, o Sublime, o Divino', foram queimados todos os livros existentes na China. Esse celerado, cruel e supersticioso, era por demais inculto para compreender a importância dos livros que continham argumentos contra o seu regime despótico." (Ed. Cosac & Naify, pg, 124)

A China, em 213 a.C., não foi o único palco na História para um "assassínio de centenas de milhares de livros", como sabemos: a Biblioteca de Alexandria, ao ser incendiada pelos cristãos, também arrastou para o pó um inestimável e precioso tesouro "para sempre consumido pelo fogo". Alguém conseguiu chegar ao fim de Ágora, o filmaço de Alejandro Amenábar, sem a sensação de ter o peito transpassado por uma lança? "O horror! O horror!" O trabalho de gerações, os frutos da reflexão de centenas de poetas e sábios, trucidado para sempre e conduzido à noite infinda do esquecimento total!

Também foram reduzidos à cinza, história humana afora, muitos livros "heréticos" de livres-pensadores da Idade Média (Giordano Bruno foi até assado vivo pela Inquisição Católica...), muitos livros "libertinos" de iluministas, "avançadinhos" demais no questionamento das autoridades políticas e religiosas, e demasiado "atrevidos" em suas exaltações da desrepressão sexual... Até bem perto de nós chega este fenômeno histórico, que tanto merecia já estar ultrapassado e aposentado: o Salman Rushdie, escritor indiano, depois de publicar seu romance Os Versículos Satânicos, foi condenado à morte pelo aiatolá xiita do Irã, fulminado por uma fatwa muçulmana, perseguido por uma teocracia e seu séquito de fanáticos!... E continuamos ouvindo muita lenga-lenga sobre o tal do "progresso"...

Farenheit 451, a distopia sci-fi de Ray Bradbury, não me parece tão longe de nós: não é inteiramente implausível que se instaure em algum canto deste planeta um Estado totalitário que teria uma espécie de "Esquadrão de Bombeiros" destinado a varrer da face da Terra a informação "perigosa" retida nas bibliotecas, livrarias, revistarias... Ou um "ministério" do governo que investigaria e dizimaria todos os porões e sótãos de indivíduos muito fissurados em "cultura alternativa", e portanto suspeitos... Novas fogueiras alimentadas com zines, poemas, reportagens, manifestos... Hecatombes de servidores e sites que, na nossa realidade "cibercultural", equivalem a pequenas Bibliotecas de Alexandria. Ai! Lá vêm os vândalos incultos com seus lança-chamas! E seguram suas armas com a empáfia de quem possui um distintivo do FBI - ou do BOPE...


O agente complicador, a pedra na engrenagem dos novos totalitarismos que tentam surgir, é que, na era da Internet, se por um lado os holocaustos não necessitam de lança-chamas (faz-se tudo com o dedão descendo sobre o delete...), por outro lado o DELETE deles não consegue barrar a profusão descontrolada e anárquica do nosso COPY. Eles matam o Napster, assassinam o Megaupload, apagam contas de Rapidshare e Mediafire, ameaçam-nos com SOPAS, PIPAS e ACTAS, perseguem e criminalizam "downloadadores", mas o intercâmbio de arquivos prossegue firme e forte, abrindo vias novas quando as vias outrora transitadas são "tesouradas" pelas otôridades.

Um dos aspectos mais fascinantes da Internet é que... tornou-se impossível DESLIGÁ-LA. Não existe a possibilidade de nenhum tirano neste planeta trazer abaixo a rede mundial de computadores: não existe um "PC central", uma espécie de "Headquarters da Net", que servisse como uma espécie de Casa Branca ou Pentágono, e que bastaria destruir com um míssel teleguiado para que a conexão global caísse. Não!

Como explicam tão bem os dois documentários Steal This Film, a natureza descentralizada da tecnologia internética torna virtualmente impossível a repressão absoluta sonhada pelos tiranos totalitários: a Internet não tem centro. Cada PC é um centro. Cada PC é um replicador. Cada PC é um potencial pirata. Para matar a pirataria, eles precisariam "cortar" todos os fios desta imensa teia. Mas jamais o permitiríamos. Uma rebelião global explodiria se o tentassem. "No pasaran!" McLuhan ensina: uma vez inventada, uma tecnologia não pode ser "des-inventada"; ela incorpora-se à "condição humana", vêm somar-se às "extensões do homem", gera uma necessária reconfiguração das mídias que a precederam. A Internet veio para ficar. Cabe a nós defendê-la contra os que querem reduzi-la ao poder do dinheiro e à lei do trabuco.

Talvez os historiadores do futuro, lá em 2.250 ou 2.400, irão olhar para trás e perceber com muito mais clareza do que nós, que estamos no centro do turbilhão, que a Primavera Árabe, por exemplo, não teria podido acontecer sem a Internet. As tais das "redes sociais" mostraram ser exatamente isso que o nome sugere: não algo meramente "fantasmagórico" e "virtual", mas uma força concreta de organização social. A mídia tradicional foi chutada para escanteio diante desta nova mídia que permite que nos comuniquemos e nos organizemos sem a necessidade de um intermediário estatal ou corporativo.

Cairo, Egito - Comemoração do triunfo da Revolução de 2011

A guerra à pirataria fica mais truculenta do que nunca, mais até do que na época do "bombardeio" yankee ao Napster, justamente agora que a Internet mostra sua força de revolução social e política. Não deve ser mera coincidência... Também não me parece ser por mera coincidência que os coletivos culturais que compõe o Circuito Fora do Eixo tenham aparecido só com a popularização da Internet: o FDE e sua imensa rede, sempre em expansão, que possibilitou estes 200 GRITOS em 2012, é também um filho da net, um fruto da cibercultura, um empreendimento gigantesco que mostra o potencial imenso das redes-em-rede.

Querem parar essa força a qualquer preço. Uma nova "caça às bruxas" se inicia, e os "vermelhos comedores de criancinha" agora são... os "piratas", diabólicos e imorais ladrões da obra de sublimes e mau-pagos artistas! Reza a ladainha deles que a indústria do entretenimento passa por maus bocados, que têm tido prejuízos por causa da orgia desse troca-troca virtual. Tadinhos!

Como todo mundo sabe muito bem, os CEOs da Sony e da Warner agora mendigam pelas ruas de Bangladesh, vestidos em andrajos, fedendo a cachaça, implorando uma esmola... Os artistas na folha-de-pagamento dos grandes estúdios de Hollywood ou das grandes gravadoras multinacionais, estes também, coitados, hoje correm o risco de morrer de inanição, de tão desnutridos e esqueléticos que ficaram por culpa... da pirataria na Internet. É...

Na real, a Indústria debulha-se em prantos, chora histericamente pelo leite derramado dos lucros, feito uma criancinha mimada que, acostumada a ganhar do paizão um presente de Natal de 1 bilhão de dólares todos os anos, fica dando faniquitos de playboyzinho frustrado diante da perspectiva de um presente... de "só" uns 500 milhões...

O capitalismo de modelo norte-americano, tão obcecado com especulação financeira e lucros provindos de juros, parece não enxergar mais um palmo diante do próprio nariz: não enxerga que a Internet não pode ser "possuída" no sentido "totalitário" que eles desejam, que não há possibilidade de controle do modo como eles gostariam, que há algo de profundamente anárquico em pleno desabrochar quando pessoas fazem brotar blogs, tumblrs, torrents... Cada vez mais as pessoas vão percebendo o potencial da Internet como uma tecnologia que, mais que qualquer outra já inventada pela humanidade, permite uma liberdade de expressão impensável não só nos totalitarismos do passado, mas também nas democracias de décadas atrás. É uma nova democracia que nasce junto com a Aldeia Global. Uma outra globalização possível, menos perversa que a globalização da Tirania do Capital.

Qualquer um de vocês, que está lendo isso agora, e qualquer um dos milhões que estão fazendo outras coisas na Internet neste instante, é um potencial criador de conteúdo. Feito um vasto coração de mãe, ou um salão de festas imenso, na Internet... sempre cabe mais um. Componha e grave uma canção e encontre na Internet um palco e uma platéia. Escreva um conto e um poema, e lance-os nos oceanos da rede, como outrora faziam aqueles que entregavam às águas de um rio uma mensagem numa garrafa, e tenha a convicção de que achará leitores. Crie um movimento social, uma "causa" para militância, uma revolta organizada, e com certeza a Internet te fará encontrar pessoas com afinidades às tuas, dispostas a entrar na tua luta, comprar tua briga, somar forças contigo.

A Internet é nossa. E cabe a nós transformar essa bagaça, de tão imenso potencial, em algo que nos faça avançar para além desta tirania-do-lucro que se traveste de democracia cristã e o caralho à quatro... Cada pessoa detrás de cada PC é um não só um potencial criador de conteúdo, contribuidor do grande projeto coletivo da construção de cultura, mas têm em mãos uma máquina de cópia e disseminação. Nunca antes na história da humanidade existiu a possibilidade de "condensar" em espaços minúsculos uma quantidade tão estonteante de informação. A Biblioteca de Alexandria, se fosse inteirinha convertida para zeros e uns, caberia num pen-drive. Em breve, será a coisa mais comum do mundo que as pessoas tenham em casa HDs de capacidade mensurável em terabytes. A minha HD externa, por exemplo, que apelidei de Funésia - A Memoriosa, em homenagem ao clássico conto do Borges, guarda em suas entranhas uma quantidade de filmes, séries e álbuns musicais que seria preciso umas 7 vidas para conhecer na íntegra.

Cada um de nós possui, tendo um PC conectado à Internet, a possibilidade de acesso a uma biblioteca multimídia que centenas de gerações, por milênios e milênios atrás de nós, não conheceram. A humanidade finalmente criou weapons of mass distribution - o que se esconde por trás de siglas como .mp3, .divx e .pdf é uma fantástica tecnologia que esqueceu de ser sonhada por H.G. Wells e que possibilita a compactação de gigantescos amontoados de informação em miudíssimos recantos do espaço físico. A distribuição em massa da produção cultural humana é essencial para que nos informemos, nos cultivemos, tomemos decisões mais conscientes e sejamos menos enganados pelas tramóias, lorotas e falcatruas de políticos, publicitários, padres, papas, programas de TV e outros tiranos e ideólogos.

O poder treme de pavor, é claro, diante de uma população bem-informada, ativa, organizada, que se expressa e se une, que combina passeatas por Twitter e discute revoluções no Facebook. Uma campanha, anos atrás, comparava a arte de baixar MP3 ao "download de comunismo". Nesse ponto, acho que acertaram na mosca: o que a Internet ajuda a criar, decerto, é uma mentalidade mais comunitária do que competitiva, em que a cultura é vista como patrimônio comum da humanidade e não como posse e privilégio de algumas empresas e alguns milionários. Cada PC é uma arma de distribuição em massa de informação, de cultura, de música, de cinema, de poesia, de filosofia, de arte, do que quer que seja. E "distribuição gratuita" é um termo que faz aqueles que se sentam no topo da pirâmide social temerosos, prontos prum xilique.


Afinal de contas, o capitalismo nunca gostou muito da idéia de distribuição equânime, justiça social ou acesso universal à educação e à cultura. Querem-nos consumidores submissos e incultos, manipuláveis por propagandas escrotas, sorrindo nos templos do consumo cego, "trampando em trabalhos que odiamos para comprar um monte de merda de que não precisamos" (como diz Tyler Durden). E é só a Internet mostrar seu potencial de transformação do sistema e sugestão de novas vias, que o capitalismo-em-crise (vejam o que virou a Grécia!), tendo que encarar o duro confronto com os Occupys Wall Street que pipocam e as revoluções árabes que triunfam, apela para o último expediente da impotência:  a truculência autoritária. Que está, aliás, tão perto de nós: vejam o que o tucanato paulista vêm fazendo para lidar com a "dissidência", seja dentro do câmpus da USP ou lá em Pinheirinho.

 É só a gente quer expandir o âmbito da distribuição, sugerir que este mundo precisa de uma distribuição mais igualitária de capital, de propriedade, de moradia, de acesso a bens culturais, que os CEOs e acionistas de Wall Street fazem cara feia e soltam seus cachorros. E alguns políticos escrotos, que são praticamente paus-mandados de multinacionais, que obedecem cegamente a quem pagar mais, dão seu aval aos concentradores de capital - os 1% que roubam os 99%. E são os 1% que pagam a polícia para protegê-los da classe que produziu a riqueza que eles roubaram. A propriedade que possuem os milionários, nem é preciso ser Proudhon pra saber, é de fato um roubo. 

Mais de 30.000 crianças morrem de fome ou em virtude de doenças evitáveis TODO SANTO DIA por causa deste roubo. Isso para falar só das crianças. Isso sem mencionar os danos ecológicos ao ecossistema do planeta causados por um sistema que premia a ganância e que é gerido por ladrões que se locomovem em limusines blindadas. E é só alguém mencionar a imensa disparidade entre os que vivem na opulência e os que vivem na mendicância, e é só alguém alegar que seria preciso expropriar os exploradores e distribuir a riqueza, para que eles corram a chamem a Tropa de Choque, que avança com seu séquito de sprays de pimenta, bombas de gás lacrimogêneo, escudos e escopetas.

Neruda sabe, porém, que "poderão cortar todas as flores, mas não hão de deter a primavera!"


Nota Fúnebre: todos os mais de 800 discos outrora compartilhados aqui no blog foram DELETADOS pelo Mediafire, provavelmente por pressão do FBI nestes tempos pós-Megaupload. Eram mais de 54 gigabytes de música que foram gradativamente postos na roda durante os últimos 4 anos de trampo e que, duma hora pra outra, desintegraram. 

"o de cima sobe e o de baixo desce"
(chico science)

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

SWU: Provocações, Dúvidas, Inquietações, Impressões...


Não é nova a idéia de pôr um festival de música a serviço de uma causa política, seja o auxílio a refugiados e famintos, seja vítimas de guerras ou catástrofes naturais: do Concert For Bangladesh (organizado por George Harrison no começo dos anos 1970) ao Tibetan Freedom Concert, do Live Aid (de Bod Geldof, que falou na SWU-2011) ao Porão do Rock brasiliense (que já arrecadou 174 toneladas de alimentos em suas 14 edições), para ficar em poucos exemplos. 

Em sua segunda edição, o festival SWU, realizado com verba de 6 milhões e 200 mil reais liberados pelo Ministério da Cultura Brasileiro, reuniu quase 180 mil pagantes em Paulínia (SP) em três dias de shows, conferências, mesas-redondas e muita CHUVA e LAMA. O que é um tanto inquietante, além desta quantidade de verba pública do MinC aí investida, é que a SWU não é exatamente um evento "benificiente" cujos lucros seriam revertidos em prol da Sustentabilidade Ambiental, tão propalada pela organização como uma espécie de eixo temático do festival. 

Um evento tão faraônico, que recebe um público que bate nos 200.000 pagantes (e que ainda por cima consomem em quantidades colossais dentro do festival), deixa no ar o mistério: quanta grana se ganha com isso? E ela vai para o bolso de quem? Não há muitos lucros privados envolvidos neste evento realizado com verba pública? Tenho muita curiosidade de saber qual o faturamento da SWU e qual o destino que será dado a esta dinheirama. Acho até que o festival deveria ser obrigado, em nome da transparência, a divulgar estes números diante da sociedade para que possamos ter uma idéia mais clara do que está rolando nos bastidores deste mega-evento que promete acompanhar-nos década afora, ano a ano, sempre com atrações internacionais de alto calibre. E caso esteja servindo para o enriquecimento de poucos, ou seja, para a piora da condição já terrível de concentração de capital e má distribuição de renda, teremos que olhar o festival e suas pretensões benévolas com ceticismo e confrontação!

Suspeitar é necessário. Quem não pergunta não pensa. Quem não põe em questão acaba engambelado, manipulado, feito de trouxa. Cabem as questões: a tal da "sustentabilidade" é uma genuína preocupação do SWU ou seria mais uma espécie de fachada filantrópica que esconde outros interesses inconfessáveis? Claro que é de bom-tom, muito politicamente correto, dizer que o objetivo por trás de tudo é ajudar a salvar o planeta Terra. Mas será que isso é dito meio que da boca-pra-fora, com o talento maquiavélico dos sofistas contemporâneos, mestres na arte do lobby, como uma justificativa aceitável perante o Estado, ou existe de fato algo equivalente a um movimento cultural/social de relevância sendo colocado em movimento? Sei não, sei não... é conveniente demais este bom-mocismo todo, gerador de tamanhos dividendos e lucros, ornado de tamanha espetaculosidade e campanhas midiáticas, para que uma pulga atrás da orelha não fique a me cochichar nos ouvidos: aí tem coisa, aí tem mutreta!

No intervalo entre os shows, os telões lá em Paulínia foram dominados pelas "vinhetas" oficiais da SWU. Mensagens edificantes sobre a necessidade de cuidarmos com carinho de nosso planetinha ameaçado mesclavam-se a tuitagens escolhidas por uma única razão: a auto-glorificação do festival. Não me lembro de nenhum tweet minimamente contestador, questionador, minimamente politizado. Só um amontoado de "valeu SWU, você é demais, que coisa foda, parabéns, concretizei meu sonho" - e por aí vai. Já as liçõezinhas de edificação, destinadas aparentemente a despertar no público a "consciência ecológica", vinham num estilo altamente publicitário, não sendo muito diferentes do que se veria nos reclames do plim-plim da rede Globo...

E sempre batia-se na mesma tecla: "começa com você". Um slogan que não ficaria mal se escolhido pela Nike ou pelo McDonalds. Me incomoda a dimensão marketeira da bagaça toda. A SWU nos cutuca as orelhas com um matraquear cansativo sobre o "starts with you!", mas... não faz muita coisa além disso: sugerir que a mudança começa no indivíduo. E que "pequenas atitudes geram grandes mudanças". Que simplismo! O que pode um indivíduo solitário, por exemplo, para que as Guerras do Petróleo cessem no Oriente Médio? E isso tem tudo a ver com sustentabilidade: caso o Império Norte-Americano, maior consumidor mundial de petróleo e maior poluidor atmosférico do mundo, recuse-se a diminuir a marcha de seu desenfreado "progresso" e continue a cagar em cima de Protocolos de Kyoto e resoluções da ONU, a bioesfera vai tornar-se cada vez menos capaz de sustentar a Vida em toda a sua diversidade... E não ouço a SWU falar nada sobre o tema.

Só estive lá no 3o dia de festival e não acompanhei o Fórum de Sustentabilidade, que teve cerca de 3.000 presentes (segundo a Super Interessante), um índice mísero que representa MENOS DE 2% do público total do festival. As "iniciativas que podem mudar o mundo" que a matéria da Super relata que saíram do debate me parecem mais como paliativos ou soluções parciais do que como idéias realmente revolucionárias. Parece que em momento algum se põe em questão o principal: que este sistema econômico capitalista-neoliberal, cujo combustível é um petróleo que tende a uma escassez progressiva, baseado no consumismo desenfreado que transforma nossas metrópoles em lixões poluídos e selvas-de-pedra desarvorizadas, é o X da questão. Eis aí uma "verdade inconveniente" (bem mais que aquela do Al Gore!) e que um festival como SWU, que está inserido neste sistema, não tem a coragem (ou o interesse) de questionar. O Occupy Wall Street e o Movimento Zeitgeist, por exemplo, estão dizendo que a solução passa necessariamente pela derrubada da Tirania das Finanças e do Capital Especulativo: não há como falar em Sustentabilidade sem falar numa radical transformação do próprio capitalismo. Sobre isso a SWU se cala. E é um silêncio inquietante.

 Mas convenhamos: uns 90% do público presente estava lá pelas bandas, pela festa, pela bebedeira, pela azaração, não ligando a mínima para debate ideológico, discussão política, fórum ambiental... É, no mínimo, um enorme desperdício de potencial quando um festival que se diz preocupado com Sustentabilidade não faz mais esforços no sentido da conscientização da multidão que ali estava.

Na Praça de Alimentação, é verdade, havia a opção de rango vegetariano, ainda que com preço salgado (tudo acima de 10 conto e tudo refeições em doses míseras...). Havia também uns cartazetes, bem pequenos, que perguntavam: "Se você ama alguns animais, por que come outros?" Acho uma bela iniciativa oferecer esta alternativa à alimentação carnívora e despertar este tipo de questionamento naqueles que amam seus cãezinhos e gatinhos e não vêm nenhuma contradição em devorar pedaços de cadáver de boizinhos e franguinhos...

Tudo bem. Mas por que uns cartazinhos miúdos ao invés de outdoors gigantescos? E por que não fazer uma campanha mais bem-bolada para explicar aos presentes qual a relação entre vegetarianismo e sustentabilidade? Pois grande parte da galera não tem a mínima noção de que existe uma relação entre o consumo de carne, o aquecimento global e o desmatamento da Amazônia. Se a SWU se diz tão dedicada à ampliação da consciência social a respeito de problemas ambientais, deveria utilizar meios mais eloquentes e poderosos para fazer-nos compreender que a devoração maciça de hot-dogs, hambúrgueres e almôndegas é bem menos "inocente" do que muitos carnívoros com consciência-tranquila pensam. Para responder à demanda dos consumidores por carne, as empresas precisam, por exemplo, derrubar florestas para colocar no lugar suas "fábricas de carne". O Pulmão do Mundo, a Amazônia, sendo retalhada, substituída por uma pecuária-de-linha-de-montagem, onde os animais vivem nas condições mais grotescas e degradantes, e isso porque milhões, inconscientemente, não querem trocar seu strogonoffe por soja-e-legumes... Cadê a SWU chamando a atenção para a questão do consumo consciente?


Outra questão que não vejo colocada: a SWU aconteceu por duas vezes no interior de São Paulo, em Itu (em 2010) e em Paulínia (em 2011), sendo que uns 95% do público presente teve que chegar ao local do evento... utilizando algum tipo de transporte emissor de CO2. A organização do festival não foi ridícula a ponto de dizer "venha de bicleta pra SWU!" pois ninguém encararia a odisséia de pedalar umas 30 horas e chegar já moído no festival. O que a SWU fez foi bombar o preço do estacionamento para a estratosfera – 100 REAIS a diária para os carros com 1 ou 2 passageiros! E com um bônus: carros atolados na LAMA! Convenhamos que é um tremendo incentivo para que não se vá de caranga até lá. Mas e daí? Vai-se de busa, de van, de moto... E as emissões de poluentes desses quase 200 MIL migrantes, em um fim-de-semana, são algo considerável. E aí, como é que fica o papinho de Festival Sustentável diante deste quadro?

E o quadro se complica ainda mais quando pensamos no seguinte: a SWU não quer nos deixar entrar no recinto com comida e bebida que trazemos de casa. Na entrada, uma revista rigorosa nos priva dos "excessos" de comes-e-bebes: cada pessoa só pode entrar com um mísero copinho de 200ml de água mineral e 2 pacotinhos míseros de salgadinho/bolacha/etc. A intenção por trás disto, como me parece óbvio, é nos prender dentro dos muros e NOS FORÇAR A CONSUMIR. Se eu quiser levar para a SWU um sanduíche natural feito em casa, uma garrafa de 2 litros de suco de laranja caseiro, uma salada de frutas, não me deixarão entrar com o rango e me forçarão a gastar uma FORTUNA para comer e beber lá dentro. E comendo lá dentro encherei o bolso de alguma empresa de grana. E bebendo por lá encherei o bolso da Heineken de grana. E assim gira o mundo "sustentável"...

Ora, é como se a SWU fingisse não perceber nenhum tipo de vínculo entre CONSUMISMO e DESTRUIÇÃO AMBIENTAL. A SWU se faz de boba nesse ponto. Quer-nos consumindo loucamente (o que não faltavam naquele lugar eram CAIXAS!) e jamais faz o mínimo esforço no sentido de conscientizar o público de que o estilo-de-vida consumista é um dos fatores que está esmerdeando nossa biosfera.

O preço do ingresso, aliás, já é evidência suficiente de que a SWU – tal qual outros grandes festivais como o TIM, o Planeta Terra, o Rock In Rio... - interessa-se pelos bolsos da classe média para cima. Pagar 200 paus para um dia de balada não é mole. Pagar mais de 500 mangos para 3 dias... é um tremendo luxo. E enquanto nós nos divertimos com nossos shows prediletos, alguns penam com um isopor de bebidas sobre a cabeça ou pesando nas costas, como burros-de-carga que circulam por entre o público em horário de penosa labuta... 

Não querem politizar ou conscientizar o público mais do que é conveniente para garantir um desenrolar impecável do mecanismo lucrativo. Não nos deixemos enganar: SWU não é o nome de uma ONG. Não é filantropia, humanitarismo, beneficência... A SWU me parece ser uma das manifestações de uma Sociedade do Espetáculo sobre a qual Débord nos alertou já fazem algumas décadas. E ainda nem começamos a nos questionar de verdade se nosso Entretenimento e nosso Consumo são tão "inocentes" quanto gostamos de acreditar - ou se realizamos, em plena inconsciência, aqueles atos que, repetidos por centenas de milhões, pesam sobre o lombo do Planeta a ponto dele entrar em pane...

E outra: cadê a força do SWU para as bandas independentes? Aquele palco menor, toda hora que eu passava por lá, estava bem meia-boca, tomado por bandinhas bem paia. Seria muito mais interessante que houvesse um palco dedicado ao Cenário Independente brasileiro, que poderiam ser escolhidas em várias seletivas estaduais durante o ano, ganhando a chance para se apresentar para o maior público de suas vidas... O fato do Black Drawing Chalks ter sido escalado no ano passado me pareceu um ótimo sinal, mas a SWU 2011 deu um passo atrás. Por mais polêmicas e hostilidades que o Circuito Fora do Eixo esteja despertando, acho que seria imensamente mais bacana se este palco menor da SWU fosse "gerido" pelo FDE, que com certeza traria um conteúdo e uma diversidade muito maiores àquele espaço. A SWU quer realmente auxiliar a música independente brasileira a ampliar sua repercussão e sua ressonância, quer apostar nos novos talentos que estão surgindo às pencas no excitantíssimo cenário dos Festivais FDE/Abrafin, ou vai abraçar de vez o mainstream, trazer só figurões gringos e botar mais lenha na fogueira da americanização da cultura brasileira? 

Ficam as questões. Seguimos aguardando as respostas.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

<<< O Veneno Está na Mesa (doc de Silvio Tendler) >>>


"Filme de um dos maiores documentaristas do Brasil, o premiadíssimo Silvio Tendler, que mostra o cenário assustador que se encontra o país em relação ao uso indiscriminado de agrotóxicos.

Você sabia que o Brasil é o país que mais pulveriza agrotóxicos nos alimentos? Que é o recordista em consumo desses químicos? Que um brasileiro consome em média 5,2 litros de agrotóxicos anuais? Que os agrotóxicos provocam uma série de problemas de saúde, desde lapso de memória em crianças até má formação dos fetos? Que apesar do Governo tentar proibir uso de muitos químicos, a justiça concede liminares a favor das grandes corporações químicas? Que para conseguir crédito junto aos bancos o pequeno trabalhador é obrigado a usar transgênicos e pesticidas? Que as doenças provocadas por esses químicos nos trabalhadores do campo consomem 1,8% do PIB em tratamentos médicos?

Se não sabia, talvez seja a hora de saber disso e muitas outras coisas mais."

quinta-feira, 7 de julho de 2011

<<< If Slaughterhouses Had Glass Walls... >>>


"Comer carne ou não?" - eis a questão que tem me apoquentado nos últimos tempos como se fosse um dilema hamletiano. Assisti aos principais documentários produzidos sobre o tema e todos eles  me causaram um grande impacto e me fizeram sentir a necessidade de uma revolução nos hábitos alimentares humanos: Earthlings - Terráqueos, A Carne é Fraca, Food Inc., Meat The Truth, Food Matters (todos recomendadíssmos!). Jamais vou poder olhar para a comida que ponho no prato e mando goela abaixo do mesmo modo depois de ter me conscientizado de todo o sistema que está por detrás da produção destes itens de consumo que só  as crianças e os tontos imaginam que já nascem no supermercado: as salsichas, os hambúrgueres e todo o resto do cardápio carnívoro. Li também boa parte das argumentações do Peter Singer, talvez o maior "guru" ativista do movimento da Libertação Animal, um intelectual que pretendo estudar mais a fundo nos próximos tempos; de qualquer modo, considero que Singer tem muito de relevante a nos dizer e que faremos muito bem em emprestar-lhe ouvidos atentos, discutir acaloradamente suas idéias e se aliar a muitas de suas lutas. 

Muitas figuras que admiro são vegans confessos e militantes, de Paul McCartney (que é o "âncora" do filme"If Slaughterhouses Had Glass Walls Everyone Would Be Vegetarian", produzido pela PETA - People for the Ethical Treatment of Animals) a Morrissey (lembrem-se do nome daquele álbum dos Smiths: "Meat Is Murder", ou "Carne é Assassinato"). Até mesmo a adorável Lisa Simpson aderiu ao vegetarismo num clássico episódio da sétima temporada dos Simpsons, e até mesmo os porra-louquinhas altamente inescrupulosos de South Park revoltaram-se em outro episódio impagável contra o crudelíssimo tratamento infligido aos vitelos (criados no mais horroroso cativeiro, impedidos de movimentar suas perninhas para que seus músculos infantis não se desenvolvam, o que gera uma carne mais tenra, e que serão assassinados ainda na infância para serem vendidos a preços carésimos nos restaurantes mais chiques de Nova Yorke, Paris ou Genebra...).


Em primeiro lugar, acho crucial quebrar o tabu que ainda envolve a questão da carne e levantar um debate público tão intenso sobre este assunto quanto está sendo aquele sobre a descriminalização da maconha e do aborto ou a união civil de pessoas do mesmo sexo. Nós, adeptos ou simpatizantes do vegetarianismo, não queremos ser tratados simplisticamente como mero estraga-prazeres que só querem zuar o churrasco dos outros apontando sempre para o fato, que os carnívoros tanto gostam de manter ignorado, de que estão mastigando e engolindo pedaços de bichos mortos, fragmentos de cadáveres... Vegetarianos não são uns "metidos a bonzinhos" que querem atrapalhar a diversão dos que gostam de rodeios e para quem Barretos é a balada do ano. Vegetarianos não são uns hippies-bundamole cheios de frescura que ficam cheios de nhém-nhém-nhém pra comer e que deveriam ter apanhado mais quando criança para deixarem de serem frescos.

Não se trata de acabar com a festa carnívora com discursinhos moralistas e sentimentalóides, mas sim de levar a sério a responsabilidade que temos como sujeitos pensantes e cidadãos de um planeta em risco de pôr em questão problemas globais de primeiríssima importância: o aquecimento global causado pelo efeito estufa e as possíveis relações que isto possa ter com o modelo de agropecuária hoje dominante; o tratamento instrumental cruel e desumano que é dispensado a seres vivos sencientes (para usar um termo caro aos budistas e hinduístas) nas grandes "fábricas de carne" do capitalismo neoliberal; sem falar em questões de saúde pública: uma dieta baseada em carne é realmente o supra-sumo da nutrição mais rica acessível a humanos, ou haveriam outras dietas muito mais nutritivas e que fariam com que diminuíssem as torrentes de sangue animal que jorram pelo planeta como se este fora o Inferno de Dante?...

Há muito tempo já abandonei a visão bucólica e idílica que muitos ainda possuem sobre os "animaizinhos lindinhos" que coabitam pacificamente conosco neste planetinha. As embalagens da Sadia ou da Perdigão, que mostram franguinhos sorridentes e alegres, como se fosse por pura dádiva que eles se oferecem às nossas bocas para serem devorados, são altamente enganadoras e "ideológicas" (no sentido marxista do termo: uma imagem invertida da realidade). Não é novidade alguma que os publicitários mentem pra caralho. 

Pois a realidade que enfrentam estes animais não é nada sutil: os pintinhos logo depois de nascer têm seus bicos cortados numa espécie de "guilhotina" de linha-de-montagem; são amontoados em imensos galpões, que fedem a urina e fezes, onde vivem sem ver a luz do Sol por um único minuto de suas vidas; são engordados à força, ou seja, obrigados a engolir alimentos goela abaixo (a sensação deve ser semelhante àquela vítima de Seven - Os Sete Pecados Capitais que é punida pelo serial killer por sua gula...); a lotação, o desconforto e a imundície são tamanhos que os animais "enlouquecem" e ficam furiosos a ponto de serem capazes de se matar a bicadas (donde a "sábia" precaução da debicagem adotada pelas grandes corporações...). Abaixo, dois exemplos eloquentes retirados do Food Inc.: a super-lotação absurda e a "obesidade" forçada:

 
Não é minha intenção fazer ninguém vomitar o jantar. Mas acho que já passou da hora de acordarmos todos para o fato de que o modelo massivamente disseminado nos dias de hoje não tem nada a ver com aquela Fazendinha ou Granja familiar idealizada, ao estilo do Cocoricó, o programa infantil da TV Cultura; boa parte da carne que compramos nos supermercados provêm de fábricas, não de fazendas; é produto de um sistema industrial que trata a vida como mercadoria e os lucros como deus, e não de uma agro-pecuária que mantivesse viva qualquer noção de reverência à Mãe Natureza e dependência mútua entre todos os seres vivos. Seria urgentíssimo e necessário que aquela concepção do Fritjof Capra em Ponto de Mutação fosse mais conhecida e disseminada como contraponto à atual doutrina capitalistóide que faz com que milhões de animais vivam vidas inteiras - do berço ao túmulo - em condições piores que aquelas dos campos de concentração de Dachau ou Auschwitz. 

O seguinte trecho do Isaac Bashevis Singer, judeu polonês emigrado para os EUA, Prêmio Nobel de Literatura e um dos melhores contistas que já tive o prazer de ler, sublinha o fato de tratarmos os animais de modo "nazista", sem respeito algum por sua dignidade - devida e merecida, ao menos, pelos milhões de anos em que estes organismos foram engendrados pelo processo de evolução (eles nos precederam, nesta longuíssima estrada, aliás!), o que os torna organismos de complexidade raríssima no Universo por nós conhecido...

“Há muito eu chegara à conclusão que o tratamento do homem para as criaturas de Deus torna ridículos todos os seus ideais e todo o pretenso humanismo. Para que este estufado indivíduo degustasse seu presunto, uma criatura viva teve de ser criada, arrastada para sua morte, esfaqueada, torturada e escaldada em água quente. O homem não dava um segundo de pensamento ao fato de que o porco era feito do mesmo material e que este tinha de pagar com sofrimento e morte para que ele pudesse saborear sua carne. Pensei mais uma vez que, quando se trata de animais, todo homem é um nazista.” (…) “Do derramamento de sangue animal ao derramamento de sangue humano há um passo”. (…) “Tu não matarás também inclui animais”. —— ISAAC BASHEVIS SINGER (1904-1991). Prêmio Nobel de Literatura.


Falar sobre vegetarianismo e libertação animal, pra mim, é pôr em questão uma das mais graves alienações de massa que ameaça hoje o nosso planeta. Digo "alienação" querendo dizer o seguinte: aquele que se depara com uma salsicha ou uma caixa de hamburgueres ou almôndegas e não tem a mínima capacidade intelectual de refletir sobre a origem daquele produto, ou que não tem a mínima empatia em relação ao ser vivo, de carne-e-osso, cujo sangue teve que ser derramado para que aquele fragmento de seu cadáver estivesse ali, disponível para consumo humano, está alienado das realidades humanas mais fundamentais e está cego a mecanismos econômicos cruciais que determinam nossa sociedade. (mas que podem ser transformados, se o quisermos). E ignorar estas questões me parece perigoso: o consumidor que se proclama inocente usando como álibi sua ingenuidade e seu desconhecimento é na verdade cúmplice desta engrenagem grotesca - já que a financia. Concordo plenamente com o mais célebre dos "slogans" do movimento vegan: "se os matadouros tivessem paredes de vidro, todos seríamos vegetarianos". E se cada um de nós tivesse que matar sua própria janta com as próprias mãos (pensem em Alexander Supertramp, em Into The Wild - Na Natureza Selvagem, naquela cena altamente impactante em que ele papa um urso), iríamos certamente preferir que existisse uma alternativa. A boa notícia é: existe.

Volto ao assunto qualquer hora, assim que pensar mais sobre o tema e tiver algo mais a dizer. Quem quiser debater, a caixa de comentários abaixo está aí, disponível justamente para isso. Alguns documentários excelentes estão na íntegra na Internet e compartilho-os abaixo. Informe-se!