terça-feira, 14 de maio de 2013

Chegou o 15º Festival Bananada!!! (Em Goiânia, de 13 a 19 de Maio...)


É, macacada: nos próximos dias, em Goiânia, não vai faltar banana! A 15ª edição anual consecutiva do festival Bananada, patrocinado pela Petrobrás e produzido pela Construtora, traz uma semana de intensa efervescência cultural à capital goiana. Vão rolar cerca de 50 shows, incluindo duas atrações internacionais: Brendan Bendon (comparsa de Jack White no The Racounteurs e um dos mais talentosos cantores-compositores de power-pop e indie-rock melódico da atualidade) e o stoner-rock apunkalhado do Mondo Generator (banda do carequinha porralouca Nick Oliveri, ex-Queens of The Stone Age, famoso por ter ido em cana ao tocar peladão em uma de suas passagens pelo Brasil).

Dentre as atrações nacionais, muitos destaques, dentre os quais: o grunge gaúcho dos Walverdes, a estrondosa guitarrice garageira do Amp, a florida MPB da Tulipa, a festança ska esfuziante do Fusile (que já encantou o público de Goiânia em uma edição do Vaca Amarela), a orquestra guitarrística dos Camarones, a espetacular revelação do rock de Natal Far From Alaska - banda que mereceu uma matéria só dela lá no site dos trutas, A Gambiarra. Além disso, o cenário de Goiânia Rock City vai poder mostrar toda sua diversidade e força com shows de algumas das principais bandas da cidade: Black Drawing Chalks, Cambriana, Hellbenders, MQN, Johnny Suxxx, Cherry Devil, Gloom, Rollin' Chamas, Aurora Rules, Dry... e por aí vai!

Além disso, vai rolar festival de gastronomia, exposição de arte, debates e palestras (UnConvention). "Tudo isso no já consagrado formato “Quanto Vale o Show?”, no qual o público paga o valor que acha justo para ver os shows, entre 5 e 100 reais." Acesse o site oficial e confira a programação completa.

Brendan Benson, atração internacional do Bananada 2013

The Raconteurs, banda que Brendan Benson integrou junto com Jack White: 
confira um show completo.


PRINCIPAIS ATRAÇÕES - BANANADA 2013


14 DE MAIO (TERÇA-FEIRA)

Centro Cultura UFG (Praça Universitária)
19h30 – BRUNA MENDEZ
20h15 – GLOOM
21h00 – TULIPA RUIZ

16 DE MAIO (QUINTA-FEIRA)
Diablo Pub
00h – OVERFUZZ
01h – AMP
Toda a noite: MARCELLE VAZ (dj set)

17 DE MAIO (SEXTA-FEIRA)

Centro Cultural Oscar Niemeyer
18h – NUVENS INVISÍVEIS (Palco Esplanada)
18h30 – DRY (Palácio da Música)
19h – CHERRY DEVIL (Palco Esplanada)
19h30 – DI BIGODE (Palácio da Música)
20h10 – UH LA LÁ! (Palco Esplanada)
20h50 – FAR FROM LASKA (Palácio da Música)
21h30 – MQN (Palco Esplanada)
22h10 – WALVERDES (Palácio da Música)
23h15 – BLACK DRAWING CHALKS (Palácio da Música)
00h30 – MONDO GENERATOR (Palácio da Música)
Pista Ambiente: PABLO KOSSA (dj set) / FRANÇOIS CALIL (dj set)

18 DE MAIO (SÁBADO)

Centro Cultural Oscar Niemeyer
18h – BOOGARINS (palco esplanada)
18h30 – VALENTINA (palácio da música)
19h – JOHNNY SUXXX AND THE FUCKIN' BOYS (palco esplanada)
19h30 – MEDIALUNAS (palácio da música)
20h10 – SINGLE PARENTS (palco esplanada)
20h50 – CAMARONES ORQUESTRA GUITARRÍSTICA (palácio da música)
21h30 – ROLLIN' CHAMAS (palco esplanada)
22h10 – FUSILE (palácio da música)
23h15 – CAMBRIANA (palácio da música)
00h30 – BRENDAN BENSON (palácio da música)
Pista Ambiente: LUCAS MANGA (dj set) / FREDY Xistecê (dj set)

19 DE MAIO (DOMINGO)

Centro Cultural Oscar Niemeyer
17h – AURORA RULES
17h50 – GIRLIE HELL
18h40 – KAMURA
19h30 – ELMA
20h20 – MUGO
21h10 – HELLBENDERS
Pista Ambiente: RENATÃO (dj set) / ROBSÃO (dj set)


Programação completa: http://festivalbananada.com/









domingo, 12 de maio de 2013

GRASSHOPPER NIGHT: O show de Paul McCartney em Goiânia...



GRASSHOPPER NIGHT
Uma Gonzo-Reportagem


"...a imperecível necessidade humana de viver em beleza." 
Johan Huizinga em "Homo Ludens"
(Ed. Perspectiva, pg. 71)




"Remember to let her into your heart, 
Then you can start to make it better
The minute you let her under your skin,
Then you begin to make it better.
So let it out and let it in...
Hey Jude, begin!
Don't carry the world upon your shoulders..."





Paul McCartney teve que percorrer uma longa e tortuosa estrada até vir parar, com mais de 70 anos rodados pelas trilhas da vida, aqui nas terras dos Goyazes... 

Em sua primeira infância, na Inglaterra de 1942, durante a 2ª Guerra Mundial, o garoto de Liverpool brincava pelos territórios bombardeados pelo III Reich, como ele mesmo narra no início do Beatles Anthology: "We played on bomb-sites a lot and I grew up thinking the word 'bomb-site' almost meant 'playground'. Reminders of the war were all around..." (p. 17). 

Foi por pouco que Hitler e sua gangue de arianos genocidas não adicionaram ao seu horrendo catálogo de atrocidades a morte da família McCartney: estima-se que 4.000 pessoas morreram durante os ataques da Luftwaffe que ficaram conhecidos como Liverpool Blitz.


Filho de um pai protestante que tocava piano, e que desde o berço fez o pequeno Paul "mergulhar" no mundo do jazz e do folk, e de uma enfermeira católica, que sempre cuidou de sua saúde com muito esmero, McCartney desde cedo esteve rodeado e possuído pelas musas da música. 

Desde tenra idade, decorava os hits do rádio, tocava piano em festinhas familiares, compunha cantigas ao violão e ia atrás de conhecer e se amigar com os melhores músicos de Liverpool: antes dos 16 anos de idade, já impressionava os músicos ao seu redor com suas versões bem-timbradíssimas de Eddie Cochran, Little Richard e Elvis Presley, dentre outros roqueiros das antigas. E logo o mocinho integraria a Banda de Besouros, a Banda do Sargento Pimento e do Submarino Amarelo, aquela que se tornaria um dos monumentos musicais mais importantes do século 20 e uma das cerejas no bolo do Sonho Hippie...

E hoje em dia, me parece, McCartney prossegue, apesar de ser um perfeito gentleman britânico, um hippão de coração. Talvez o hippie, neste planeta, com a maior conta bancária (sua fortuna é estimada em mais de U$1.000.000... um bilhão de doletas!), e cujo ideário hippie decerto não inclui como ideal norteante a pobreza voluntária. McCartney ainda fala em favor da legalização da maconha, que, conta a lenda, teria sido apresentado aos Beatles em 1964 por Bob Dylan, o que parece ter sido para Paul o início de um caso de amor de fidelidade ímpar, com o cânhamo sagrado, já que ele segue pró-cannabis mesmo tendo sido preso algumas vezes, em alguns países, por posse de fontes de THC. McCartney também ilita em prol dos direitos animais,  sendo talvez o vegan com maior apelo de massas no atual showbizz global, capacitado para gerar discussão e debate público sobre um tema ainda tabu (os bilhões de criaturas mortas para serem consumidas por humanos na forma de hambúrgueres, salsichas e fatias de bacon)

Outro índice de hippiedade é que em  muitas ocasiões ele já escancarou, em suas declarações, uma mui-hippie predileção intensa pela psicodelia. Teve uma experiência existencial significativa quando olhou através dos telescópios e microscópicos lisérgicos, nos anos 60, época em que ingeriu muitas doses da Poção de Hoffmann que o Dr. Leary andava louvando por aí (o LSD... homenageado singelamente em "Lucy in the Sky With Diamonds", dentre outras cantigas). Os pendores de Paul McCartney ao louvor arrebatado e hiperbólico às substâncias psicodélicas ficam claros, por exemplo, em declarações como a seguinte, que foi pescada do Anthology e em que ele relata sua experiência com  o LSD:


"After I took LSD, it opened my eyes: we only use one-tenth of our brain. Just think what we could all accomplish if we could only tap that hidden part. It would mean a whole new world. If the politicians would take LSD, there wouldn’t be any more war or poverty or famine."

McCARTNEY
No "The Beatles Anthology"
(Chronicle Books, San Francisco, Pg. 255)
[ Re-blogar citação no Tumblr ]

McCartney, hoje em dia? Um setentão que aguenta 3 horas de show sem precisar beber uma gota d'água. E esta turnê pelo Brasil, em 2013, certamente deixará lembranças indeléveis nos corações e mentes dos cerca de 150.000 brasileiros que o viram de perto em Belo Horizonte (no Mineirão), Goiânia (no Serra Dourada) e em Fortaleza (no Canecão).




Foi uma oportunidade magnífica ver em carne-e-osso esse mito-vivo, em sua primeira aparição por Goiás, com um showzaço que satisfez com folga o público que encheu o Serra Dourada. Até agora não conversei com ninguém que não tenha descrito o espetáculo com os mais entusiásticos e gratos dos termos. Foram 38 músicas, com um repertório repleto de clássicos dos Beatles (com destaque para "Hey Jude", "Let It Be", "Eleanor Rigby", "Get Back", "Helter Skelter", "The Long and Winding Road", "Yesterday", "Back in the U.S.S.R"...) e dos Wings (incluindo as estupendas "Live and Let Die" e "Maybe I'm Amazed"). 

Num espetáculo grandioso, cheio de pirotecnias, com psicodelia bem-bolada rolando nos telões, e acompanhado por uma bandaça impecável, Paul McCartney passou por Goiânia impressionando geral com sua vivacidade, sua simpatia e seu embriagante e revigorante tônico musical, bebido com tanta sede e deleite pelas massas-em-festa... Em suma: reativando a beatlemania nestas noites brasileiras repletas de histerias ultra-admirativas e aclamações esfuziantes, Macca encantou geral com sua voz e suas melodias, dando farto alimento à "imperecível necessidade humana" (pois nem só de pão vive o homem...) "de viver em beleza" - como diz no Homo Ludens o Huizinga. 

"Goiânia Grasshopper Stage Invasion!" 
[Vídeo oficial do PaulMcCartney.com]

Sem dúvida, o elemento pitoresco do show em Goiânia, e que ficará indelével na memória do público e do músico, foi a alegre invasão daqueles beatlemaníacos alados que não perderam a chance de fazer o que muito mortal fica só passando vontade: tocar a carne de um mito. Viraram até notícia internacional! Goiânia fez jus a sua fama de "roça asfaltada" e, ao mesmo tempo, esta imprevista irrupção de vida fez com que o ambiente, saturado da artificialidade ultra-tecnológica daquele palco hi-techse reconectasse com a natureza. Como notório defensor dos direitos dos animais, Paul McCartney em nenhum momento foi agressivo contra os visitantes inesperados - aliás bastante inofensivos, desprovidos que são de malícia e de ferrão. Ao invés de enxotá-los com tapões ou piparotes que poderiam equivaler, para tão frágeis criaturas, a severos hematomas, ou mesmo a golpes fatais, McCartney divertiu-se como um pirralho com os bichinhos - dotados, aliás, de excelente gosto musical. 

Tem gente dizendo que eram grilos-esperança, outros que eram gafanhotos, outros ainda "insetos vetores"; pouco importa. O que importa é aquilo que o episódio revelou sobre a personalidade de Paul, seu espírito lúdico tão vivaz e seu senso-de-humor tão espontâneo. Também se tornou clara a capacidade enorme de empatia com outros terráqueos que é uma marca de personalidade de McCartney, que aliás criou uma das máximas mais célebres da história do vegetarianismo (que era também praticado por Linda): "se os abatedouros tivessem paredes de vidro, todos seriam vegetarianos". O estádio Serra Dourada foi proibido de vender espetinhos de carne no espaço do show, por pedido do próprio McCartney, que é militante pelos direitos animais há muitos anos. O que se escancarou com este episódio é que não é somente em prol de vacas, bois, galinhas, porcos e perus - dentre outros animais que os humanos devoram!  - que McCartney milita e defende. Que coerência genuína de pensamento e ação o episódio com os grasshoppers revelou! 

Pego de surpresa, McCartney mostrou excelente capacidade de improviso: usou o acaso a seu favor e transformou os bichos numa atração à parte. Um deles (ou seria uma delas?), particularmente obstinado em manter-se coladinho no Beatle, foi batizado de Harold e convidado a saudar a platéia no microfone. Mas Harold se intimidou diante dos mais de 45 mil humanos presentes e manteve-se calado. Quando veio o clássico "Hey Jude", um dos muitos ápices emocionais do show, com 40 mil vozes se juntando no coro de "nánáná", ocorreu um momento mágico: o grasshopper beatlemaníaco estava pousado nos ombros de McCartney quando veio o verso "The movement you need is on your shoulder", e Macca, veloz e sagaz, não perdeu a ocasião da alusão.

(Lembrei de uma das melhores cenas do documentário sobre Raul Seixas, O Início, o Fim e o Meioquando o diretor Walter Carvalho recebeu, também, um presente do acaso muito bem aproveitado: entrevistando Paulo Coelho em Genebra, cidade onde quase não existem moscas,  Carvalho viu o "set" ser invadido por uma inesperadíssima aparição alada; Paulo Coelho não perdeu a ocasião de apontar: "deve ser o Raul...". Depois de ser esmagada a mosca pelo místico higienista, a sacada do documentário, aliás brilhante, está edição de som, que faz com que Raulzito, eterno mosca-na-sopa da caretice e do quadradismo, entre cantando logo na sequência: "E nem adianta vir me dedetizar... Pois você mata uma e vem em outra em seu lugar!")



O que mais me assombra e me impressiona é uma pessoa com tamanha capacidade (intacta!) para as alegrias fáceis, para as cantorias vivazes, para as melodias memoráveis, quando sabemos quantas tragédias e lutos ele não teve que enfrentar nesta longa e tortuosa estrada da vida! Fora os horrores da guerra, experenciados na infância, que relatamos no começo desta gonzo trip, cabe lembrar que Paul, na adolescência, quando tinha 14 anos de idade, perdeu a mãe para o câncer - foi quando viu seu pai chorar pela primeira vez. Resistiu vivo através de outras tempestades, sobrevivendo ao assassinato que levou Lennon em 1980, ao câncer que matou sua esposa (e mãe de seus filhos) Linda em 1998, tendo também se despedido do caixão de George Harrison em 2001. É uma lição de vida testemunhar que nada disso aniquilou o senso de humor e a capacidade de empatia com os viventes deste artista com espírito perpétuo de menino e que encantou com sua graça os mais de 45 mil mortais que encheram o Serra Dourada para prestigiá-lo.



É bem verdade que este espetáculo Out There usa e abusa da pirotecnia, não economizando no tamanho dos telões, na coloridice extrema das imagens, na variedade de holofotes e luzes, na profusão de fogos de artifício e lançadores-de-chama (que fazem sua estrondosa aparição-clímax em "Live and Let Die"). Há algo de arrasa-quarteirão roliudiano no show, que pretende ser uma torrencial chuva de estímulos sensíveis sobre um público que McCartney deseja levar ao delírio, ao êxtase coletivo, depois recolhendo com deleite as aclamações, as salvas de palmas e os ursinhos de pelúcia lançados sobre o palco por mocinhas apaixonadas. 


Um crítico de arte que conhecesse de Adorno e Horkheimer, que soubesse das críticas de Guy Debord à "sociedade do espetáculo", talvez pudesse destroçar criticamente este show como mero showbusiness alienante, como uma criação do capitalismo hi-tech que serve para algo similar ao que o "Pão & Circo" fazia para o Império Romano. Acho plausível, aliás, que nosso governador tucano e cachoeirista, Marconi Perillo, tenha investido dinheiro público neste show com intenções de, através de uma pão-e-McCartney grandioso e crowd-pleaser, fazer com que os goianos esquecessem de suas tenebrosas e escusas relações com o Al Capone do Cerrado, o gangter Carlinhos Cachoeira, pra não falar do esquema de espionagem escancarado recentemente pela revista Carta Capital.


Só que, me parece, o show de McCartney jamais poderia ser reduzido a isso, um instrumento político na mão de um governo corrupto, pois é um evento cultural que transcende o presente: foi uma oportunidade de receber um "banho de imersão" na história da música pop inglesa em algumas de suas mais geniais criações nas últimas décadas, um embarque numa viagem que nos carrega de volta para os anos 60 e 70, que nos dá um vislumbre do que foi o frenesi da beatlemania, que nos deixa instigados a criar uma cultura cuja efervescência aspire a igualar aquela que incendiou o pop nos crazy sixties. 


McCartney escapa do "imediatismo" do showbizz, que costuma dar ao público algo que ele possa consumir e logo esquecer (a fila das mercadorias anda!). McCartney parece desejar que cada um no público leve para casa uma lembrança indelével, algo a ser carregado pelo resto da vida, por isso não se economiza, não poupa seu coração, não retêm seu sentimento; sentimos algo de genuinamente humano e caloroso sobressaindo sobre aquela parafernália técnica toda. McCartney anda fazendo, ao vivo, um ritual auto-celebratório em que resgata seus mais de 70 anos de vida e seus quase 50 anos de carreira, arrastando o público numa jornada colorida, lisérgica, psicodélica, às vezes kitsch, sempre emotiva e emocionada, por uma vida cuja criatividade e talento os milhões de beatlemaníacos não param de celebrar. 

Aliás, McCartney consegue muito bem, sem tecnologia pesada o acompanhando, encantar uma multidão com simplicidade e frugalidade: sozinho ao violão, quando canta "Blackbird" ou "Yesterday", não precisa de pirotecnia alguma para nos deixar encantados. Na homenagem à imortal canção de George Harrison, "Something", soube deixá-la graciosa em seu despojamento ao re-interpretá-la no ukelele.

Talvez tenha razão quem disse que a música é a única língua universal: Mozart ou Bach, tocados em qualquer latitude, em qualquer continente, independente do idioma que ali domine, são deleitáveis experiências para os tímpanos humanos; e "nánáná" em inglês, em japonês e em português é sempre "nánáná". Os sons, como anarquistas desrespeitadores de todos os arames farpados, não respeitam as fronteiras: caçoam delas, velejando no vento, voando por sobre os muros e atravessando as paredes. Talvez não haja nada, dentre as criações humanas, nada com mais benéfico potencial de congraçamento do que a música. Quando 50 mil pessoas houvem a mesma música, no mesmo espaço, quando suas vozes se unem para cantar uma melodia, podem sentir-se unidas em um sentimento como só deve ocorrer em raríssimas ocasiões e para raríssimas massas, quiçá só equiparável à fervura de um levante revolucionário... O mínimo que se pode dizer de Sir Paul McCartney é que ele tem uma capacidade de comunicação afetiva com as massas que é rara; que sua música prossegue tendo uma graça que transborda e que não envelhece; que com mais de 70 anos, prossegue com espírito de menino, legítimo espécimen do homo ludens; que muitas de suas melodias tem vocação para a eternidade e muito provavelmente poderão agradar também a nossos bisnetos e tataranetose que os Beatles não deixarão mais a história da música do século 20 como um de seus acontecimentos mais dourados. 

"And in the end
The love you take
Is equal to the love 
You make."


"Live and Let Die" e "Hey Jude"
(ao vivo em Goiânia, Maio de 2013)

Siga viagem em outras criações do Mega-Macaco Macca...


ÁLBUNS DE ESTÚDIO (COMPLETOS)

MCCARTNEY (1970)
MCCARTNEY II (1980) 
RUN DEVIL RUN (1999) 


ALGUMAS CANTIGAS MEMORÁVEIS

“WHEN I’M 64” DO SGT PEPPERS
“SHE’S LEAVING HOME” OUTRA DO SARGENTO PIMENTA

THE BEATLES ANTHOLOGY (ÁUDIO)
(6 horas de Beatles!)


quinta-feira, 25 de abril de 2013

"Juventude e Violência no Brasil Contemporâneo", por Luiz Eduardo Soares

JUVENTUDE E VIOLÊNCIA NO BRASIL CONTEMPORÂNEO
Artigo de Luiz Eduardo Soares 

(Antropólogo e cientista político; professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro; co-autor de “Elite da Tropa”. Compartilhar no Facebook.)


Está em curso no Brasil um verdadeiro genocídio. A violência tem se tornado um flagelo para toda a sociedade, difundindo o sofrimento, generalizando o medo e produzindo danos profundos na economia. Entretanto, os efeitos mais graves de nossa barbárie cotidiana não se distribuem aleatoriamente. Como tudo no Brasil, também a vitimização letal se distribui de forma desigual: são sobretudo os jovens pobres e negros, do sexo masculino, entre 15 e 24 anos, que têm pago com a vida o preço de nossa insensatez coletiva.

O problema alcançou um ponto tão grave que já há um déficit de jovens do sexo masculino na estrutura demográfica brasileira. Um déficit que só se verifica nas sociedades que estão em guerra. Portanto, apesar de não estarmos em guerra, experimentamos as consequências típicas de uma guerra. Nesse caso, uma guerra fratricida e autofágica, na qual meninos sem perspectiva e sem esperança, recrutados pelo tráfico de armas e drogas (e por outras dinâmicas criminais), matam seus irmãos, condenado-se, também eles, a uma provável morte violente e precoce, no círculo vicioso da tragédia. 

Cerca de 45 mil brasileiros são assassinados por ano no Brasil. Em algumas regiões das grandes cidades, marcadas pelo drama da desestruturação familiar, do desemprego, da degradação da auto-estima, da falta de acesso à educação, à cultura, ao esporte e ao lazer, os números chegam a patamares ainda mais alarmantes. Por outro lado, enquanto o crime se organiza e penetra as instituições públicas, as polícias tem sido, com frequência inaceitável, ineficientes - e, muitas vezes, desrespeitosas dos direitos humanos e das leis que lhes cabe defender. Os milhares de policiais honestos, competentes e dedicados, que arriscam diariamente suas vidas, têm trabalhado em condições técnicas e organizacionais precárias e não têm recebido o reconhecimento que merecem.

Várias são as matrizes da criminalidade e suas manifestações variam conforme as regiões do país e os estados. O Brasil é tão diverso que nenhuma generalização se sustenta. Sua multiplicidade também o torna refratário a soluções uniformes. A sociedade brasileira, por sua complexidade, não admite simplificações nem camisas-de-força. Em São Paulo, a maioria dos homicídios dolosos encerra conflitos interpessoais, cujo desfecho seria menos grave caso não houvesse tamanha disponibilidade de armas de fogo. No Espírito Santo e no Nordeste, o assassinato a soldo ainda prevalece, alimentando a indústria da morte, cujo negócio envolve pistoleiros profissionais, que agem individualmente ou em “grupos de extermínio”, dos quais, com frequência, participam policiais. Na medida em que prospera o “crime organizado”, os mercadores da morte tendem a ser cooptados pelas redes clandestinas que penetram as instituições públicas, vinculando-se a interesses políticos e econômicos específicos, aos quais nunca é alheia a lavagem de dinheiro, principal mediação das dinâmicas que viabilizam e reproduzem a corrupção e as mais diversas práticas ilícitas verdadeiramente lucrativas. 

É indispensável destacar a gravidade da violência doméstica e da violência de gênero, contra as mulheres, assim como de crimes como o racismo e a homofobia. São menos conhecidos, publicamente, porque menos delatados e oficialmente registrados, mas intensamente vividos, na privacidade, ou em situações públicas que as formalidades institucionais mantêm à sombra da lei, sob o manto da negligência (quase cúmplice).

Um jovem pobre e negro caminhando pelas ruas de uma grande cidade brasileira é um ser socialmente invisível. A invisibilidade decorre principalmente do preconceito ou da indiferença. Uma das formas mais eficientes de tornar alguém invisível é projetar sobre ele ou ela um estigma, um preconceito. Quando o fazemos, anulamos a pessoa e só vemos o reflexo de nossa própria intolerância. Tudo aquilo que distingue a pessoa, tornando-a um indivíduo, tudo o que nela é singular desaparece. O estigma dissolve a identidade do outro e a substitui pelo retrato estereotipado e a classificação que lhe impomos. 

Quem está ali na esquina não é o Pedro, o Roberto ou a Maria, com suas respectivas idades e histórias de vida, seus defeitos e qualidades, suas emoções e medos, suas ambições e desejos. Quem está ali é o “moleque perigoso” ou a “guria perdida”, cujo comportamento passa a ser previsível. Lançar sobre uma pessoa um estigma corresponde a acusá-la simplesmente pelo fato de ela existir. Prever seu comportamento estimula e justifica a adoção de atitudes preventivas. Como aquilo que se prevê é ameaçador, a defesa antecipada será a agressão ou a fuga, também hostil. Quer dizer, o preconceito arma o medo que dispara a violência, preventivamente.

O preconceito provoca invisibilidade na medida em que projeta sobre a pessoa um estigma que a anula, a esmaga e a substitui por uma imagem caricata, que nada tem a ver com ela, mas expressa bem as limitações internas de quem projeta o preconceito. Por isso seria possível dizer que o preconceito fala mais de quem o enuncia ou projeta do que de quem o sofre, ainda que, por vezes, sofrê-lo deixe marcas. O processo lembra, em parte, histórias de terror nas quais o vampiro se apodera do corpo de sua vítima e absorve sua identidade, depois de sorver sua vida.”

* * * * * 

“Como seria entrar num restaurante, numa noite fria, e levar consigo, dentro de você, a imagem do menino de rua, com frio e fome, desamparado? Aquele mesmo com o qual você topou na porta do restaurante. Como portar uma imagem que contrasta tão duramente com o aconchego que lhe dá prazer? Como extrair prazer da refeição se os meninos estiverem presentes em sua memória, em sua consciência, em sua imaginação? Você perderia o apetite. Como trazer para casa a imagem desoladora do menino ao relento? A pregnância emocional e o magnetismo moral dessa imagem invadiriam o sono e o matariam. Como compatibilizar essa presença perturbadora, constante, dentro de você, com seus pequenos prazeres cotidianos? Como divertir-se, amar, celebrar a vida, usufruir as amizades? Seria inviável.

Para nos proporcionar a indispensável paz interior, para nos apaziguar o espírito e devolver o mínimo indispensável de equilíbrio psíquico, nossa mente nos submerge em uma amnésia seletiva, cauterizando os canais da percepção, sempre seletivamente. A alienação, este alheamento de que falamos, é o preço a pagar pela modesta cota de felicidade que nos cabe. Eu sei que é ruim, é desagradável e ainda por cima soa cínico: como a felicidade de alguém pode sustentar-se em meio à desgraça; pior ainda: na cegueira seletiva proporcionada por essa caprichosa negação? Mas é isso mesmo que acontece… Se nos repugna esse filtro, essa forçada naturalização do inaceitável, essa resignação ao intolerável, muito bem, procuremos participar do esforço coletivo de mudança.

Se houver mudança, ela terá de atingir as condições sociais e econômicas que produzem o abandono das crianças e dos adolescentes; ela terá de alcançar e cortar fundo o mundo da educação. Essas seriam mudanças possíveis e eficazes. Não digo que sejam politicamente viáveis hoje, porque custariam caro e afetariam a lógica econômica dominante, que privilegia o mercado e o capital, celebrando o lucro. Talvez não haja ainda força política acumulada e suficientemente estruturada para enfrentar os grandes interesses, nacionais e multinacionais, vocalizados pela mídia. De todo modo, a mudança exigiria um imenso mutirão educativo e protetor dos menores de 18 anos, pelo menos. Essa galera que, retoricamente, políticos e mídia intitulam “o futuro do país”, mas que continua por aí, arrastando os pés, e só pisa o salão nobre da agenda pública quando se discute a redução da idade de imputabilidade penal.”


* * * * * *


“Ninguém cria sozinho ou escolhe para si uma identidade como se tirasse uma camisa do varal. Não se porta ou carrega uma identidade, como se faria com uma carteira, um vestido ou um terno. A identidade só existe no espelho, e esse espelho é o olhar dos outros, é o reconhecimento dos outros. É a generosidade do olhar do outro que nos devolve nossa própria imagem ungida de valor, envolvida pela aura da significação humana, da qual a única prova é o reconhecimento alheio. Nós nada somos e valemos nada se não contamos com o olhar alheio acolhedor, se não somos vistos, se o olhar do outro não nos recolhe e salva da invisibilidade…

Por força da projeção de preconceitos ou por conta da indiferença, perambulam invisíveis pelas grandes cidades brasileiras muitos jovens pobres, especialmente os negros - sobre os quais se acumulam, além dos estigmas associados à pobreza, os que derivam do racismo. Um dia, um traficante dá a um desses meninos uma arma. Quando um desses meninos nos parar na esquina, apontando-nos esta arma, estará provocando em cada um de nós um sentimento - o sentimento do medo, que é negativo, mas é um sentimento. Ao fazê-lo, saltará da sombra em que desaparecera e se tornará visível. A arma será o passaporte para a visibilidade.

Quando nos ameaça na esquina, pela primeira vez, o menino não aponta para nós sua arma do alto de sua arrogância onipotente e cruel, mas do fundo de sua impotência mais desesperada. O menino lança a nós um grito de socorro, um pedido de reconhecimento e valorização. Surge diante de nós da treva em que o metemos, desembaraçando-se aos trancos e barrancos do manto simbólico que o ocultava. O sujeito que não era visto impõe-se a nós. Exige que o tratemos como um sujeito. Recupera visibilidade, recompõe-se como sujeito, se reafirma e reconstrói. Põe-se em marcha um movimento de formação de si, de autocriação.

Quando seria necessário reforçar a auto-estima dos jovens transgressores no processo de recuperação e mudança, as instituições jurídico-políticas os encaminham na direção contrária: punem, humilham e dizem a eles: “Vocês são o lixo da humanidade!” É isso que lhes é dito quando são enviados às instituições “socioeducativas”, que não merecem o nome que têm - o nome mais parece uma ironia. Sendo lixo, sabendo-se lixo, pensando que é este o juízo que a sociedade faz sobre eles, o que se pode esperar? As instituições públicas lançam ao fogo do inferno carcerário-punitivo os grupos e indivíduos mais vulneráveis - mais vulneráveis dos pontos de vista social, econômico, cultural e psicológico. 

Esmagando a auto-estima do adolescente que errou, a sociedade lava as mãos, mais ou menos consciente de que está armando uma bomba-relógio contra si mesma, contudo feliz, estupidamente feliz por celebrar e consagrar seus preconceitos. O preço dessa consagração autocomplacente é a violência.”


SOARES, L.E. Em: “Juventude e Sociedade - Trabalhado, Educação, Cultura e Participação”. Org: Regina Novaes e Paulo Vannuchi. Ed. Perseu Abramo. Imagem: Cidade de Deus, de Fernando Meirelles. O debate está aberto! Compartilhem e comentem à vontade!


Ônibus 174, de José Padilha
Documentário Completo

Hendrix, The Who, Led Zeppelin, Sonics, Standells e muito mais... "Rock'n'Roll Não É Poluição Sonora!" [3a Edição]


Saiu a 3ª coletânea da série “Rock’n’roll Não É Poluição Sonora”, batizada em homenagem à sonzeira do AC/DC que fecha o Back in Black; nesta edição, tem Hendrix ao vivo em Monterey, uma “suíte” com 3 canções-siamesas do Abbey Road dos Beatles, “Gallows Pole” do Led Zeppelin… E ainda The Kinks, Love, Sonics, The Standells, The Electric Prunes, e por aí vai… Ouça já! Quem quiser ajudar a disseminar estes sons, compartilhe no Facebook. Capa: Jimi Hendrix por David Lloyd Glover.  Veja 120 ilustrações de Glover em homenagem a ícones da música.

Setlist: 
01) THE BEATLES, “Golden Slumbers”, “Carry that Weight” e “The End”;  02) THE WHO, “The Seeker”;  03) LED ZEPELLIN, “Gallows Pole”;  04) THE KNICKERBOXERS, “Lies”;  05) THE SONICS, “Strycnine”;  06) THE REMAINS, “Don’t Look Back”;  07) THE CHOCOLATE WATCHBAND, “Are You Gonna Be There (At The Love-in);  08) THE STANDELLS, “Dirty Water”;  09) THE COUNT FIVE, “Psychotic Reaction”;  10) LOVE, “7 and 7 Is”;  11) THE ELECTRIC PRUNES, “I Had Too Much To Dream Last Night” ;  12) THE STRANGELOVES, “Night Time”;  13) JIMI HENDRIX, “Foxy Lady” (Ao vivo no festival de Monterey).

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Planet Hemp no Lollapalooza 2013: Show completo em HD



PLANET HEMP @ LOLLAPALOOZA 2013 
SHOW COMPLETO EM HD

Um revival supimpa de uma banda lendária! Marcelo D2 e B Negão, os dois MCs à frente do Planet Hemp ressuscitado, mostraram que seguem com todo o pique e fizeram uma retrospectiva brilhante da carreira desta caravana que não pára quando os cachorros latem. Eles continuam queimando tudo até a última ponta e exigindo: “mantenha o respeito!” Pupilas dilatadas, cabeça ativa e muita astúcia e ousadia nas letras tornam o Planet Hemp uma banda ímpar na história da música brasileira. 

O show no Lollapalooza mostrou que eles continuam levantando a bandeira da legalização da maconha com uma saraivada impressionante de argumentos e rimas que querem “fazer a sua cabeça”: “uma erva natural não pode te prejudicar”. Em tempos em que o Uruguai do presidente Mujica já legalizou a cannabis, que a Holanda já a vende há anos nos coffee shops de Amsterdam e em que muitos estados importantes dos EUA já embarcaram nessa (inclusive Washington e Califórnia), o Brasil se mostrará retrógado e covarde caso prossiga aferrado a uma política proibicionista que já mostrou o quanto é absurda e ineficaz. 

São milênios de uso, décadas de proibição (aliás, o proibicionismo é fruto de uma política do DEA dos yankees, altamente racista e xenófoba, destinada ao controle da população de negros e hispânicos…). Em muitas culturas do mundo, como na Índia, a cannabis é sagrada e reverenciada por seu potencial místico, comunal, artístico. São mais de 200 usos terapêuticos, incluindo efeitos benéficos para pacientes de câncer, AIDS e depressão - e nenhuma morte por overdose registrada na História. 

Dúzias e dúzias de pesquisas científicas já evidenciaram que a maconha é espetacularmente mais benéfica do que drogas legalizadas como álcool e tabaco (leia, por exemplo, a opinião de Leslie Iversen, PHD em farmacologia da Universidade de Oxford). São dezenas de usos possíveis para o cânhamo, além do THC: ele pode servir para fabricar papel, roupas, biodiesel… Enfim: são infindáveis os benefícios que a maconha legalizada pode trazer para a sociedade brasileira. E o Planet Hemp continua berrando isso nos alto-falantes, por mais que os broncos queiram calá-los e metê-los em cana: “Legalize já, legalize já! Uma erva natural não pode te prejudicar!”



quarta-feira, 27 de março de 2013

"...quando o discurso dos fundamentalistas sai dos subterrâneos e vem à tona, provoca o repúdio público...” - Jean Wyllys (PSOL-RJ)


Que país bizarro é este nosso que põe uma figura grotesca - um sujeito racista, homofóbico, machista e fanático! - para presidir justamente a comissão que deve cuidar de lutar contra o racismo, a homofobia, o machismo e o fanatismo? É o equivalente a eleger Hitler para a Comissão do Anti-Semitismo ou Gobineau para a Comissão da Igualdade Racial.

Em seu texto da Carta Capital desta semana, a Cynara Menezes (@Socialista Morena) explora o tema e soa os alarmes: o pastor Feliciano é só um dentre muitos outros políticos da bancada evangélica, esta que despreza a laicidade do Estado, que deseja trazer de volta ao cenário público uma carolice conservadora preconceituosa e uma medievalidade teológica altamente cruel contra as minorias. 

Enquanto isso, no Uruguai, o Mujica dá um show de bola com suas campanhas pela legalização da cannabis, pelo desarmamento e pela secularização… A solução me parece clara: mujiquemo-nos!

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O EXÉRCITO DE FELICIANOS
por Cynara Menezes (@ Socialista Morena
na Carta Capital#741, 27 de Março de 2013

Os mais de 450 mil cidadãos indignados que assinaram uma petição na internet a favor da destituição do deputado e pastor Marco Feliciano da presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara terminaram a semana esperançosos. (…) Tudo caminha para a renúncia do obtuso parlamentar. Será, porém, um pequeno revés na crescente influência evangélica no Congresso Nacional.

Um livro lançado recentemente faz uma retrospectiva das relações entre a religião e a política e aponta um recrudescimento do poder evangélico no Parlamento nos últimos dois anos. “Religião e Política: Uma análise da atuação de parlamentares evangélicos sobre direitos das mulheres e LGBTs no Brasil”, dos pesquisadores Christina Vital e Paulo Victor Leite Lopes, relata como os evangélicos se tornaram, no âmbito dos costumes, os porta-vozes do discurso conservador, a partir da análise de dois acontecimentos emblemáticos: a utilização do aborto na campanha eleitoral de 2010 e a polêmica sobre o “kit anti-homofobia” que o MEC pretendia lançar nas escolas no início do governo Dilma Rousseff e descartado diante das pressões.

Segundo os autores, embora cresça paulatinamente, a influência dos evangélicos no Congresso oscilou nos últimos anos. Em 2006, quando se organizaram em uma frente parlamentar, os evangélicos somavam 90 parlamentares. Com o escândalo dos sanguessugas, esquema de fraudes nas licitações para a compra de ambulâncias durante a gestão de José Serra no Ministério da Saúde, a bancada religiosa emagreceu. Na legislatura seguinte, era composta de 30 congressistas, pois a maioria não se reelegeu. No fim de 2010, a Frente Parlamentar Evangélica havia aumentado novamente e somava mais de 50 integrantes.

A campanha presidencial parece ter fortalecido a bancada. Relembremos os fatos: em 2010, em sua primeira eleição, a presidenta Dilma Rousseff foi vítima de ataques religiosos, evangélicos e católicos. Era chamada de “a candidata do aborto”. O tucano José Serra surfou na onda conservadora, assumiu um discurso moralista e carola. Sua mulher, Mônica, chegou a dizer a eleitores que a petista era “a favor de matar criancinhas”. No horário gratuito de TV, o PSDB exibia imagens de mulheres grávidas para atingir a adversária. Para evitar a sangria de eleitores, Dilma assinou um acordo com os evangélicos no qual se comprometia a não defender projetos pró-aborto. A hipocrisia de Mônica seria mais tarde desmascarada. Como se soube, a mulher de Serra havia praticada um aborto quando mais jovem. O assunto rendeu, no entanto, uma plataforma eleitoral conveniente para os religiosos.

Atualmente, 68 deputados e 3 senadores integram a frente. É a segunda maior, atrás apenas daquela dos ruralistas, com quem os evangélicos, aliás, ocasionalmente se juntam. Estão representados em várias comissões de seu amplo leque de interesses, que não se restringe à dos Direitos Humanos e Minorias. (…) Se confirmada, apesar de simbolicamente importante por ser um deputado acusado de racismo e homofobia, a saída de Feliciano não vai significar grandes mudanças na estrutura da comissão, pois o novo indicado terá de ser do PSC. Partido ligado à Assembleia de Deus, igreja com maior poder na Casa, o PSC possui outros 5 integrantes na comissão. Há 14 evangélicos entre 18 deputados.

Como boa parte dos 42,3 milhões de evangélicos, segundo o IBGE, se concentra na classe C, sua influência se estende ao consumo. Recentemente, os evangélicos promoveram um boicote à novela “Salva Jorge”, de Glória Perez, cujo título foi associado ao orixá Ogum, no candomblé.Para agradar o público, a Globo planeja uma personagem evangélica para sua próxima novela das 9… a personagem Valdirene será uma “periguete” convertida que se torna cantora gospel. “Não é de hoje que a Globo se rende à força e à influência dos evangélicos. A emissora patrocina vários eventos relacionados à música gospel”, explica o administrador Pedro Paulo Burgarim, autor de um estudo sobre a influência das igrejas evangélicas no comportamento de consumo de seus fiéis.

“O que torna o evangélico um membro bem-sucedido, respeitado na igreja, é a conquista material. A igreja orienta, interfere e estimula a exteriorização do sucesso”, afirma Bugarim. (…) Segundo o pesquisador, existe uma troca entre entre as empresas e as igrejas. A empresa procura a igreja e oferece um produto diferenciado para o evangélico, e o pastor e as lideranças promovem o produto aos fiéis, que costumam buscar orientação na hora de comprar. Isso aconteceu com um fabricante de computadores de Santa Catarina que tinha como atrativo uma Bíblia digital que passou a ser recomendada pela igreja. Ou com o fabricante de celulares que vinha com um pacote de músicas gospel. “Eles trabalham juntos. A Igreja Universal, por exemplo, faz reuniões semestrais com empresários em que decidem o que será lançado.”

Há uma frase do sociólogo Ricardo Mariano que desanima quem acredita em um Estado laico de fato na terra do Cristo Redentor: “A laicidade não constitui propriamente um valor ou um princípio nuclear da República Brasileira nem a sociedade brasileira é secularizada como a francesa e a inglesa, por exemplo, o que por si só constitui séria limitação às pretensões mais ambiciosas de laicistas de todos os quadrantes.” O que parece ilusório é acreditar que o Brasil conseguirá, algum dia, chegar à separação entre Igreja e Estado no Uruguai, onde o presidente Mujica explicou que não foi a Roma ver a posse do papa Francisco por ser ateu.

A virtual saída de Feliciano da presidência da Comissão de Direitos Humanos é comemorada pelo deputado Jean Wyllys (PSOL-RJ). “Mesmo que ele seja substituído por outro religioso na presidência da Comissão, os fundamentalistas entram socialmente derrotados. Eles se deram conta de que, quando o discurso deles sai dos subterrâneos e vem à tona, provoca um repúdio público”, disse Wyllys.

Texto: Cynara Menezes
Ilustrações: Eric Drooker e Laerte


"Por que não viver neste mundo... Se não há outro mundo?" (Novos Baianos)


Coletânea fresquinha saindo, só com as brasileiragens! A viagem começa eufórica mas deságua na melancolia. No cardápio… 01) Novos Baianos, “Besta é Tu”; 02) Wado, “Uma Raiz e uma Flor”; 03) Ellen Oléria, “Testando…”; 04) Gal Costa canta Chico Buarque, “A História de Lily Brown”; 05) Los Hermanos, “O Vento”; 06) Mundo Livre S.A., “Super Homem Plus”; 07) Diego e o Sindicato, “Quase Nada”; 08) Vinicius de Moraes e Baden Powell, “Tempo de Amor”; 09) Baden Powell, “Sorongaio”; 10) Céu, “10 Contados”; 11) Transmissor, “Aquática”; 12) Lenine, “O Silêncio das Estrelas”.


Outras “fitinhas” de boa música? Chega mais: http://8tracks.com/depredando

"...a fanática missão contra a heresia dos nativos se confundia com a febre que, nas hostes da conquista, era causada pelo brilho dos tesouros do Novo Mundo.” (Galeano)


EDUARDO GALEANO
“As Veias Abertas da América Latina”
 (392 pgs., RS44)

Compre na Livraria Cultura: http://migre.me/dO8Pi


O SIGNO DA CRUZ NAS EMPUNHADURAS DAS ESPADAS: O ano de 1492 não foi apenas o do descobrimento da América, o novo mundo nascido daquele equívoco de grandiosas consequências (Colombo morreu convencido de que havia alcançado a Ásia pelas costas). Foi também o ano da recuperação de Granada… o último reduto da religião muçulmana em solo espanhol. Esta era uma guerra santa, a guerra cristã contra o Islã, e não é casual, de resto, que no mesmo ano de 1492, 150 mil judeus declarados tenham sido expulsos do país. A Espanha adquiria realidade como nação, erguendo espadas cujas empunhaduras traziam o signo da cruz.

A rainha Isabel fez-se madrinha da Santa Inquisição. A façanha do descobrimento da América não poderia se explicar sem a tradição militar da guerra das cruzadas que imperava na Castela medieval, e a Igreja não se fez de rogada para atribuir caráter sagrado à conquista de terras incógnitas do outro lado do mar. O papa Alexandre VI converteu a rainha Isabel em dona e senhora do Novo Mundo. A expansão do reino de Castela ampliava o reino de Deus sobre a Terra. Três anos após o descobrimento, Colombo, pessoalmente, comandou uma campanha militar contra os indígenas da Dominicana. Dizimaram os índios e mais de 500, enviados para a Espanha, foram vendidos como escravos… 

A América era um vasto império do Diabo, de redenção impossível ou duvidosa, mas a fanática missão contra a heresia dos nativos se confundia com a febre que, nas hostes da conquista, era causada pelo brilho dos tesouros do Novo Mundo.” (pgs. 30-31)

“Os europeus traziam, como pragas bíblicas, a varíola e o tétano, várias enfermidades pulmonares, intestinais e venéreas, o tracoma, o tifo, a lepra, a febre amarela, as cáries que apodreciam as bocas. (…) Os índios morriam como moscas; seus organismos não opunham resistência às novas enfermidades, e os que sobreviviam ficavam debilitados e inúteis. O antropólogo brasileiro Darcy Ribeiro estima que mais de metade da população aborígine da América, Austrália e ilhas oceânicas morreu contaminada logo ao primeiro contato com os homens brancos.” (pg. 38)

“Entre 1503 e 1660, desembarcaram no porto de Sevilha 185 mil quilos de ouro e 16 milhões de quilos de prata. A prata levada para a Espanha em pouco mais de um século e meio excedia três vezes o total das reservas europeias. E essas cifras não incluem o contrabando. Com base em dados fornecidos por Alexander von Humboldt, estimou-se em 5 bilhões de dólares atuais a magnitude do excedente econômico evadido do México entre 1760 e 1809, apenas meio século, através das exportações de prata e ouro.

Os metais arrebatados aos novos domínios coloniais estimularam o desenvolvimento europeu e até se pode dizer que o tornaram possível… formidável contribuição da América para o progresso alheio. No primeiro tomo de O Capital, Karl Marx escreve: ‘o descobrimento das jazidas de ouro e prata da América, a cruzada de extermínio, a conversão do continente africano em campo de caça aos escravos negros: são todos fatos que assinalam a alvorada da era da produção capitalista.’ O saque foi o meio mais importante de acumulação primitiva de capitais. (…) Essa gigantesca massa de capitais deu um grande impulso à revolução industrial…” (pg. 51)

“A economia colonial americana atuava a serviço do capitalismo nascente em outras comarcas. Afinal, tampouco em nosso tempo a existência de centros ricos do capitalismo pode ser explicada sem a existência das periferias pobres e submetidas: uns e outros integram o mesmo sistema.” (p. 53)

* * * * 

“A prata e o ouro da América, no dizer de Engels, penetraram como um ácido corrosivo em todos os poros da moribunda sociedade feudal na Europa, e ao serviço do nascente mercantilismo capitalista os empresários mineiros converteram indígenas e escravos negros num multitudinário ‘proletariado externo’ da economia europeia. A escravidão greco-romana ressuscitava num mundo distinto; ao infortúnio dos indígenas dos impérios aniquilados na América hispânica deve-se somar o terrível destino dos negros arrebatados às aldeias africanas para trabalhar no Brasil e nas Antilhas.

A violenta maré de cobiça, horror e bravura não se abateu sobre essas comarcas senão ao preço do GENOCÍDIO NATIVO: atribui-se ao México pré-colombiano uma população entre 25 e 30 milhões, e se calcula que havia uma número parecido de índios na região andina; na América Central e nas Antilhas, entre 10 e 13 milhões de habitantes. Os índios das Américas somavam não menos do que 70 milhões, ou talvez mais, quando os conquistadores estrangeiros apareceram no horizonte; um século e meio depois, estavam reduzidos tão só a 3,5 milhões.” (pg. 64)

“Os índios padeceram e padecem - síntese do drama de toda a América Latina - a maldição de sua própria riqueza. Quanto mais ricas são essas terras virgens, mais grave se torna a ameaça que pende sobre suas vidas; a generosidade da natureza os condena à espoliação e ao crime.” (pg. 78)

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VILA RICA E RIO DE JANEIRO: Ao longo do século XVIII, a produção brasileira de ouro superou volume total de ouro que a Espanha extraiu em suas colônias durante os dois séculos anteriores. Choviam aventureiros e caçadores de tesouros. O Brasil tinha 300 mil habitantes em 1700; um século depois, ao final dos anos do ouro, a população já se multiplicara 11 vezes. Não menos de 300 mil portugueses emigraram para o Brasil durante o século XVIII, ‘um contingente de população maior do que aquele que a Espanha transferiu para todas as suas colônias na América’, segundo Celso Furtado. Calcula-se em uns 10 milhões o total de negros escravos trazidos da África, desde a conquista do Brasil até a abolição da escravatura. Salvador da Bahia foi a capital brasileira do próspero ciclo do açúcar no Nordeste, mas a “idade do ouro” de Minas Gerais transferiu para o Sul o eixo econômico e político do país e, a partir de 1763, fez do Rio de Janeiro, o porto da região, a nova capital do Brasil…” (pg. 82)

CONTINUA...

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"We did not weave the web of life, we are merely strands in it..."

“Isto nós sabemos: a Terra não nos pertence, nós pertencemos à Terra. Nós não tecemos a teia da vida - somos meramente fios nela. O que quer que façamos para a teia, fazemos a nós mesmos.”
Chief Seattle em carta ao presidente dos EUA.
Confira a declamação de Joseph Campbell (legendado):

Os Empanzinados do Hiperconsumo, por Serge Latouche (in: Tratado do Decrescimento Sereno, ed. Martins Fontes, 2012)


“O CRESCIMENTO INFINITO 
É INCOMPATÍVEL COM UM MUNDO FINITO”

 por Serge Latouche, filósofo e economista francês, 
em “Tratado do Decrescimento Sereno” (Editora Martins Fontes). 


“Há perguntas demais neste mundo aqui de baixo, nos diz Woody Allen: de onde viemos? Para onde vamos? E o que vamos comer hoje à noite? Se, para dois terços da humanidade, a terceira questão é a mais importante, para nós, do Norte, os empanzinados do hiperconsumo, ela não é uma preocupação. Consumimos carne demais, gordura demais, açúcar demais, sal demais. O que nos assombra é antes o sobrepeso. Corremos o risco de sofrer de diabetes, cirrose do fígado, colesterol e obesidade: esta atinge 60% da população dos EUA, 30% da Europa e 20% das crianças na França. Estaríamos melhor se fizéssemos dieta. Esquecemos as duas outras perguntas que, menos urgentes, são contudo mais importantes.

Para onde vamos? De cara contra o muro. Estamos a bordo de um bólido sem piloto, sem marcha a ré e sem freio, que vai se arrebentar contra os limites do planeta. (…) Mas, com a nossa refeição desta noite garantida, não queremos escutar nada. Ocultamos, em particular, a questão de saber de onde viemos: de uma sociedade de crescimento - ou seja, de uma sociedade fagocitada por uma economia cuja única finalidade é o crescimento pelo crescimento. É significativa a ausência de uma verdadeira crítica da sociedade de crescimento na maioria dos discursos ambientalistas, que só fazem enrolar nas suas colocações sinuosas sobre o desenvolvimento sustentável.

Dizer que um crescimento infinito é incompatível com um mundo finito e que tanto nossas produções como nossos consumos não podem ultrapassar as capacidades de regeneração da biosfera são evidências facilmente compartilháveis. Em compensação, são muito menos bem-aceitas as consequências incontestáveis de que essas mesmas produções e esses mesmos consumos devem ser reduzidos, e que a lógica do crescimento sistemático e irrestrito (cujo núcleo é a compulsão e a adição ao crescimento do capital financeiro) deve portanto ser questionada, bem como nosso modo de vida.”

SERGE LATOUCHE

Conferência completa sobre o decrescimento (em francês)

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sexta-feira, 8 de março de 2013

"Those who have suffered understand suffering and thereby extend their hand..." Patti Smith em "Rock and Roll Nigger"


ESPECIAL DIA INTERNACIONAL DA MULHER

Textos que valem a pena conferir: Sakamoto, Averbuck, Aline Valek.

Trilha sonora com as gênias (só álbuns completos):
…to be continued!
(aceitamos sugestões!)

Só a mulherada cantando as blueseiras! Rememorando uma de nossas coletas mais ouvidas... 01) Janis Joplin, "Try (Just a Little Bit Harder); 02) Bessie Smith, "After You've Gone"; 03) Big Mama Thornton, "Willie Mae's Trouble"; 04) Nina Simone, "I Wish I Knew How It Felt to be Free"; 05) Susan Tedeschi, "It Hurt So Bad"; 06) Aretha Franklin, "The Thrill is Gone"; 07) Portishead, "Numb"; 08) Eleni Mandell, "Moonglow, Lamp Low"; 09) Lisa Germano, "Red Thread"; 10) Os Mutantes & Rita Lee, "Meu Refrigerador Não Funciona".

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

"A arte de realizar o impossível" (Grito Rock Goiânia 2013)



"Aqueles que não sabiam que era impossível, foram lá e fizeram!" – celebrou Pablo Capilé, uma das lideranças do Fora do Eixo, durante os encontros do último Canto da Primavera, em Pirenópolis (GO). A frase de Capilé, que parafraseou um verso do artista francês Jean Cocteau ("Ele não sabia que era impossível. Foi lá e fez." ), poderia ser o lema do Grito Rock. Há 10 anos atrás, alguém ousaria profetizar o surgimento, no Brasil do novo século, de um festival que se espalharia por 300 cidades de 30 países? Não seria este profeta ridicularizado como um otimista lunático e um sonhador de impossibilidades? Em 2013, porém, o impossível foi feito.

Nascido em 2003 como iniciativa do coletivo cultural Espaço Cubo (de Cuiabá-MT), o Grito Rock expandiu-se pelo mundo e hoje é um festival integrado pra lá de consolidado e grávido de um futuro promissor. "É uma honra imensurável estar tocando pela primeira vez no Grito Rock", comenta Leandro Sacs no backstage do Centro Cultural Oscar Niemeyer, após o show da banda da qual é vocalista, Os Viscondes, de Rio Verde (GO). "É muito bacana as pessoas estarem se juntando para realizar um festival colaborativo, algo que é muito raro e muito massa". Enfatizando um dos conceitos que estão mais na crista da onda, o de artes integradas, já posto em prática em alguns festivais brasileiros como o Vaca Amarela, Leandro frisa: "Acho muito importante incentivar a união das artes, fazer a junção dos músicos com o pessoal das artes cênicas, das artes plásticas, juntar todo a galera das artes num evento só".

Durante este Carnaval, 20 festivais Grito Rock aconteceram. Milhares de pessoas compareceram às "células" deste novo organismo vivo da cultura brasileira. O evento produzido em Goiânia pela produtora Fósforo Cultural (também responsável pelas 11 edições anuais consecutivas do já popular Festival Vaca Amarela), contou com a apresentação de 28 bandas, oferecendo ao público uma alternativa bem-vinda aos clichês do Carnaval Globeleza.

João Lucas e Naya de Souza, organizadores do evento, estimam um público de 6.000 pessoas e uma arrecadação de 6 toneladas de alimentos não-perecíveis. Estes serão encaminhados a entidades como OVG, Secretaria Municipal de Assistência Social, Casa da Acolhida e várias creches. Em sua 7ª edição anual consecutiva, o longevo Grito Rock Goiânia firmou-se como mais um festival de música vencedor da capital goiana (que também é a terra-natal do Bananada, do Goiânia Noise, da Tatoo Rock Fest...).

Apostando no conceito inovador de festival em rede, o Grito Rock conecta 300 células como um grande organismo, permitindo algo que uma banda independente brasileira não sonhava concretizar uma década atrás: realizar turnês regionais ou nacionais sem necessidade de grandes recursos. A prática da hospedagem solidária, potencializada pela comunicação via Internet, torna possível a realização do sonho de "cair na estrada" e tocar pelo país afora. É o caso de bandas como o The Neves, de Brasília, que ganhou através do portal Toque No Brasil o direito de mostrar seu trabalho em várias cidades goianas. A turnê, batizada de "Arroz-com-Pequi", atravessou Piracanjuba, Anápolis e Goiânia. "Para nós é sempre uma grande alegria participar do Grito Rock. Este é um ótimo momento de circulação de bandas no Brasil", disse Fernando Jatobá, guitarrista da banda, que fez questão de elogiar "a galera que vem prestigiar o rock autoral".


Bandas já consagradas no cenário, como Hellbenders e Violins, que já possuem muitas participações nos festivais da cidade, dividiram o espaço com talentos emergentes, como rock-brasa do Ultravespa, o grunge-punk do Orange Crush, o stoner-rock do Dry e do Cherry Devil, o heavy metal do A Última Theoria. Reações entusiásticas da platéia povoaram todo o festival, mas foram particularmente intensas nos shows de Overfuzz e Aurora Rules, bandas com um séquito de fãs em Goiânia.

Com uma tal quantidade de bandas, é de se esperar que a diversidade – de estilos e temáticas – tome conta do festival. Apesar do "Rock" que o Grito carrega no nome, outros gêneros também puderam se manifestar, como o hip hop e o funk, que marcaram presença com Calango Negro e Sapabonde. Alguns instrumentos pouco usuais em conjuntos de rock também deram o ar de sua graça: foi o caso do violino que se juntou ao indie-rock sofisticado do West Bullets. Até mesmo o glam rock setentista do "camaleão" David Bowie foi homenageado por Johnny Suxxx & The Fucking Boys, que encerraram seu show tocando o hit "Rebel Rebel".

Também houve espaço para mensagens de protesto "em defesa das prostitutas" e contra o "tráfico de mulheres" (caso, respectivamente, das bandas de hardcore Vero HC e Solicitude). Os Piratas do Cachimbo gritaram contra a grande mídia, com o refrão "Parem de ouvir a imprensa!". Já as brasilienses do Sapabonde, grupo 100% feminino composto por 4 MCs e uma DJ, incendiaram a platéia com um estilo musical que elas descrevem como "neo-funk-proibidão-lésbico-de-boteco". Um dos momentos mais memoráveis do show foi uma crítica contundente à homofobia, tendo como alvo principal o deputado Bolsonaro, célebre por comentários que despertaram a indignação de toda a comunidade GLBTT. Contra o discurso intolerante de Bolsonaro, assim cantaram as meninas: "O meu modo de vida não é nenhum pecado / Eu só quero ser feliz com quem tiver do meu lado / Não te dou o direito de me julgar assim! / Abaixa esse dedo que tu aponta pra mim! / Homofobia é crime, acorda, deputado!"

Cabe lembrar também que há poucos meses faleceu o maior arquiteto brasileiro, Oscar Niemeyer. Suas obras prosseguem vivas no coração do cerrado e o Centro Cultural que leva o seu nome foi o cenário desta edição do Grito Rock Goiânia. Este amplo espaço demonstrou ser mais belo quando ocupado, servindo como catalisador da interação e expressão cultural da juventude. Em meio aos papos regados a cerveja, música e hot dog, os novos agentes da Cultura brasileira arregaçaram as mangas e somaram forças para edificar sua própria construção. Inspirando-se no lema do movimento punk americano, o "faça-você-mesmo", a juventude Fora do Eixo re-inventa o mesmo espírito de autonomia com outro emblema: o "façamos-juntos".

Ao contrário do que sugere a revista Carta Capital, que em uma de suas edições mais recentes lamenta o "vazio da cultura" e a "imbecilização do Brasil", a realidade do Grito Rock é prova de que há algo de fervilhante e inédito ocorrendo na cultura independente brasileira. Cabe a nós cuidarmos para que o Grito sobreviva e se expanda, reconhecendo-o como essencial para a criação, expressão e interação coletivas. Nossa música só tem a ganhar com uma rede tão imensa de festivais, que, como o próprio Universo, não dá sinais de reduzir a velocidade de sua expansão. E àqueles que não compreendem como isso foi possível, vale lembrar o dito de Capilé: "aqueles que não sabiam que era impossível, foram lá e fizeram!“











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