Sexta-feira, 10 de Julho de 2009

:: o começo do r.e.m. ::

R.E.M.

"MURMUR"
por Carlos Eduardo Lima

(Discoteca Básica Rock Press - ano v, #24)


Estamos caminhando pelas alamedas da Universidade de Georgia. É o fim da década de 70, mais precisamente o ano de 1978. Michael Stipe sai apressado de uma de suas aulas do curso de pintura e fotografia. Hoje ele pretende comprar alguns discos na cidade. Após revirar as prateleiras da Wustry Records, em Athens, sua cidade natal, atrás de coisas como Television, Patti Smith, Velvet Underground e Sex Pistols, Stipe é atendido por um vendedor com cara de nerd. O cara gostava das mesmas coisas que ele e dali eles trocaram telefones e endereços.

Michael Stipe e o vendedor (e guitarrista amador) Peter Buck formaram neste dia a medula óssea do R.E.M. Dias depois conheceram a outra metade da vindoura banda, Bill Berry e Mike Mills, numa festa e formaram de fato o grupo. Ensaiaram durante dois anos até o primeiro show, realizado em uma igreja nos arredores de Athens. A partir daí, o R.E.M. (sigla de rapid eye movement, nome dado ao movimento dos globos oculares durante os sonhos) passou a frequentar o circuito alternativo da cidade e dos arredores, tocando em todos os lugares possíveis.

Nesta via crúcis, comum a todas as bandas iniciantes, o R.E.M. tocava suas primeiras composições, mas também atendia às solicitações das platéias, que poderiam varias de "Anarchy In The UK" dos Pistols a "All I Have To Do Is Dream", dos Everly Brothers. No ano seguinte, eles resolvem gastar suas economias na produção de um single, "Radio Free Europe", que disparou nas paradas independentes, chegando a ser considerado o single do ano pelo jornal Village Voice.

De volta ao circuito de shows, passaram a ser observados pelos executivos de selos indepentes, entre eles o dono da IRS, Miles Copeland, que ficou tão impressionado com a performance de Stipe e cia que assinou com eles ali mesmo, no camarim. Copeland bancaria a distribuição do recém-lançado EP Chronic Town e colocaria os rapazes em estúdio imediatamente. Assim foi feito. Murmur foi gravado em janeiro de 1983 no estúdio Reflection, em Charlotte, na Carolina do Norte, sob a batuta de Don Dixon e Mitch Easter, o mesmo produtor de Chronic Town.

Poucas vezes uma banda foi tão bem sucedida em uma estréia. Não que Murmur seja de fato o debut do R.E.M. em disco, mas certamente foi seu primeiro LP (lembram-se dessa sigla?). O crossover de folk, new wave e atitude punk desceu redondo nas gargantas alternativas. Bill Berry tinha o polimento dos bateristas new wave, econômico e eficaz; Mills, o homem do baixo, faz de seu instrumento uma espécie de violão mais grave, enquanto Buck conseguia um mix de Roger McGuinn (ex-Byrds) e Alex Chilton (ex-Box Tops e Big Star), com jeito de Neil Young. Stipe já destilava seu quase incompreensível sotaque sulista, chegando a soar quase ininteligível em alguns momentos.

Como se não bastasse esse background sonoro, as letras de Stipe eram inteligentes o bastante para fundir latim, citações da mitologia grega, em "Talking About the Passion", e libelos anti-conformistas, como a própria "Radio Free Europe", sobre famosa rádio aliada que transmitia mensagens anti-nazismo e, posteriormente, anti-comunismo na Europa dos anos 40.

Miles Copeland gostou tanto do resultado que chamou seu irmão, um certo baterista de nome Stewart Copeland, para assistir um de seus shows. O sujeito ficou tão impressionado que levou os novatos para abrirem as apresentações de sua própria banda, um certo trio chamado The Police, nos EUA.

Murmur acabou sendo, pelos motivos certos, um divisor de águas no som jovem americano, além de ter sido o marco zero do que se convencionou chamar de "rock alternativo", "college rock" e afins.

'Murmur' [1983] (63 MB - 192 kps):
http://www.mediafire.com/?myztwm2nw2w

* * * * * *

"RECKONING"
por Matt LeMay
(Pitchforkmedia, Julho de 2009)

It may be R.E.M.'s insistence upon operating as a fully democratic entity that has allowed them to shapeshift so completely and convincingly. Whether crafting a subdued folk song or an over-the-top glam rock stomper, R.E.M. have always embraced their chosen approach completely, even if it means former drummer Bill Berry laying low for an acoustic number or singer Michael Stipe handing off a lead vocal to bassist Mike Mills. On their sophomore LP, Reckoning, those polymorphous tendencies find root as palpable, electrifying, yet-unexplored potential. (...) Reckoning couples the energy of Murmur with the experience of a group that has spent a few years touring and recording, documenting that crucial moment when a band's ideas and ambitions are overtaken by the unique chemistry of its players.

Many of the best songs on Reckoning follow the formula set forth on this debut track: a methodical verse followed by a sly turnaround into a cathartic chorus. Bill Berry's drum parts are at times virtually indistinguishable from song to song, and Michael Stipe tends to sing verses and choruses in the same respective registers. But Reckoning is far from formulaic-- instead, it is host to a kind of determined minimalism, each song building via subtle variations in performance and instrumentation. "Discipline" is not a word that gets thrown around a lot when discussing rock music, but it is key to Reckoning's success.

Case in point: As with countless songs written before and after it, "So. Central Rain" takes up the simple phrase "I'm sorry" as its chorus. But the combination of Stipe's strong-yet-unmistakably-fragile voice, Berry's nervous drumming, and the melodic interplay of Mills' bass and Peter Buck's guitar imbue these well-worn words with remarkable force and meaning. For all the arty, pretentious gestures the band was given to, Reckoning shows that they were not afraid to embrace the universal, to transfigure clichés rather than ham-fistedly avoiding them (see also "Everybody Hurts").

As with its predecessor, Reckoning finds R.E.M. touching upon different styles while working within a fairly consistent aesthetic. The latter half veers a bit towards Americana, without sacrificing any of the momentum built over the album's stunning opening tracks. Slight embellishments go a long way towards highlighting the band's versatility-- a propulsive piano line in "(Don't Go Back to) Rockville" elevates the homespun whimsy of Stipe's voice, and hand percussion on "Time After Time (Annelise)" hints at the more understated turn the band would take with Fables of the Reconstruction.

Declaring Reckoning to be R.E.M.'s "best" album sells short just how many different kinds of great albums R.E.M. have released. But, more so than any other R.E.M. record, Reckoning is unified and energized by the very restlessness that has driven the band to explore so many different ideas and identities. It is this paradoxical engine of transparency and mystery that has made the band so unique, regardless of the particular approach they choose to take for a given record. Any way you look at it, this is R.E.M.

'Reckoning' [1984] (57 MB - 192 kps):
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Quarta-feira, 8 de Julho de 2009

:: Chris Joss ::


Manual de uma festinha moderna
– Por Marco Souza –

Aqueles que acompanham o sensacional Blog do Nirso já devem conhecer essa nova pérola de 2009. Para os que não acompanham (comecem a acessar ) apresento aqui o último trabalho de Chris Joss: Sticks, um instrumental funkjazzeado tirado dos anos 60 e 70. 

O francês em questão é um produtor-multinstrumentista-autodidata que montou esse ótimo disco, ideal para colocar naquela festinha bacanuda em sua casa. O LP abre com bateria, baixo, orgão e cítara(!) num clima lounge relax, que é quebrado por um refrão muito bem ritmado e demasiado grudento. A faixa "Little Nature" se mantém com sutis solos de guitarra e baixo, além de suaves vocais. Perfeita composição pra receber a galera.

Em "Surrounded" o orgão Hammond queima solto a lá Mr. Medeski. Incersões de flauta e solos de guitarra constrõem essa trilha, que irá fazer todos mexerem os quadris, ou no mínimo a cabeça.

É recomendado um LSD para os convidados entrarem no clima de psicodélia moderna-retro(-caipira?) de "Charmer". Tudo no melhor timbre acústico de violão. As palminhas começarão a tomar conta da festança em "Danger Buds" com os outros clichês sonoros (muito bem empregados) de pianos e sax.

Um dos fortes de Chriss Joss são as excelentes linhas e timbres de baixo, que carregados de swingue dão o tom no álbum inteiro e em "Rififi Rococco" elas têm o seu ápice. Em contraponto a cítara novamente dá um tom oriental e distinto a todo o conjunto, mas sem perder o caráter dançante. Chega a hora da vitamina rápida "Root Juice" pra ninguém perder o pique.

No ponto alto da festa tem de se manter a diversidade, num ambiente mais intimista em que são adicionados pequenos ruídos não pelo estranhamento, mas pra tudo ficar perfeito. Clima de meia luz deve acompanhar o misterioso funk-sci-fi "Melisma Mercury". Depois disso a segunda parte começa.

Para aqueles ainda empolgados recomeçamos com "Night Scare" que, a partir de baixo acústico e bateria, gradativamente traz o pessoal de volta à quebradeira sonora. No clímax, quem não dançou vai dançar, e quem já dançou vai quebrar tudo. Cuidado.

Hora de baixar o tom, se acomodar no sofá e ter um descanso merecido com "Tune Down". Com todo mundo levemente recuperado chega o momento de cantar junto os "uás" e "dadas" da contagiante "Zingy Twangs", para a empolgação não acabar. Seguindo deve-se utilizar uma faixa tranquila, de preferência uma versão leve do que tocou, "A Soft Reprise", pra cada um aproveitar sua viagem de forma tranquila, uns bêbados, outros apagados.

"Tea Age Sea" é servido no fim. Aqui não temos a empolgação da festa, mas uma precisa faixa de despedida, mais lenta e comedida, porém com o todo o groove, além da cítara, que marca o disco. Pra quem quiser manter a festa, sempre existe o botão repeat.

DOWNLOAD: 61 Mb - 12 Faixas

*imagens tiradas do clipe de "Danger Buds"

Sábado, 4 de Julho de 2009

:: os primórdios da Sub Pop ::


:: VÁRIOS ARTISTAS - Sub Pop 200 (1988) ::

Seattle fuckin' rocks! Coletinha firmezura e histórica que oferece um passeio panorâmico por 20 bandas que estiveram debaixo do guarda-chuva da Sub Pop antes do estouro do grunge. Hoje em dia, em que já é ultra-reconhecido o papel seminal que a gravadora teve para o rock independente americano daqueles frutíferos tempos, poucos conhecem como eram as gravações e as barulheiras nos primórdios da cena. Criada por Jonathan Poneman e Bruce Pavitt, verdadeiros "kings of the scene" na cidade natal de Jimi Hendrix na época da ebulição grungy, a Sup Pop reunia, já no fim dos anos 80, praticamente todas as bandas fodásticas da região. A coleta bacanuda que agora disponibilizamos traz algumas bandas que depois se tornariam grandes (Nirvana, Soundgarden, Mudhoney, Screaming Trees), mas o grosso do material é de bandas underground que nunca atingiram a fama, apesar de terem gravado material de primeira e contribuído para fermentar um movimento musical que viria a marcar os anos 90 como poucos. Para saber mais a respeito, a melhor pedida é o documentário Hype!, do qual postamos um trechinho you-tubado abaixo. Nóóóise!

TRACKLIST: 1. Tad - Sex God Missy (4:27) / 2. The Fluid - Is It Day I'm Seeing? (2:56) / 3. Nirvana - Spank Thru (3:22) / 4. Steven Jesse Bernstein - Come Out Tonight (2:43) / 5. Mudhoney - The Rose (4:04) / 6. The Walkabouts - Got No Chains (5:37) / 7. Terry Lee Hale - Dead Is Dead (3:33) / 8. Soundgarden - Sub Pop Rock City (3:15) / 9. Green River - Hangin' Tree (4:14) / 10. Fastbacks - Swallow My Pride (3:02) / 11. Blood Circus - The Outback (3:39) / 12. Swallow - Zoo (3:10) / 13. The Chemistry Set - Underground (4:42) / 14. Girl Trouble - Gonna Find a Cave (2:53) / 15. Nights and Days - Split (2:22) / 16. Cat Butt - Big Cigar (3:28) / 17. Beat Happening - Pajama Party in a Haunted Hive (3:57) / 18. Screaming Trees - Love or Confusion (3:21) / 19. Steve Fisk - [Untitled Track] (3:09) / 20. The Thrown Ups - You Lost It (3:11).

DOWNLOAD (192kps - 96 MB):
http://www.mediafire.com/?yzmzmmtrzmy

Quinta-feira, 2 de Julho de 2009

:: da série PÃO QUENTINHO ::

RANCID - Let the Dominoes Fall
http://www.mediafire.com/?4y1zed1zxlz


SUNN O))) - Monoliths & Dimensions
http://www.mediafire.com/?0i2kokmzfjt



KASABIAN - West Ryder Pauper Lunatic Asylum
http://www.mediafire.com/?dwztfnmo4df



MARIANA AYDAR - Peixes Pássaros Pessoas
http://www.mediafire.com/?3ijwvznzemw


SPINNERETTE - Spinnerette
http://www.mediafire.com/?zkcgnkn2gdb

Terça-feira, 30 de Junho de 2009

:: John Zorn toca Ornette Coleman ::


:: JOHN ZORN ::
Spy Vs. Spy - The Music Of Ornette Coleman (1989)


Mais uma desconstrução radical dos temas de Ornette Coleman que uma homenagem "tradicional", Spy Vs Spy estabeleceu John Zorn como um mestre inigualável da improvisação "incansavelmente violenta". Tal como acontecia como Ornette, para Zorn a improvisação coletiva sobrepõe-se à autônoma. E com essa missão, o saxofonista alto e o seu grupo de jovens colaboradores nova-iorquinos fizeram abalar as fundações cimentadas do jazz para criar a sua própria "shape of jazz to come".

O que é aqui demonstrado é jazz vulcânico em forma de jogo com saxofones que soam em diferentes canais de estéreo (Zorn, à direita, contra Tim Berne, à esquerda) sobre uma panóplia de baterias em duelo (Joey Baron contra Michael Vatcher) e dissonâncias de baixo (Mark Dresser). Uma peça preparada propositadamente para alienar os puristas sicofantas do jazz? Talvez, mas depois de fazer explodir a pirotecnia bebop num momento contronado por minimalismo trash-jazz em "Word For Bird", o grupo passa a misturar blues, swing, free-jazz e as infames teorias melódicas de Ornette para formar algo diferente. "Rejoicing" e "Peace Warriors" chocam e assombram os ouvintes ao introduzir referências tonais descodificadass, que até aí apenas se ouviam em temas speed metal ou nas composições caricaturais de Carl Stalling.

As caricaturas reaparecem na capa assinada por Mark Beyer, que encaixa na perfeição (e com humor) na declaração contra os cânones estabelecidos para o jazz. Bem-vindos ao jazz da geração pós-punk. Como diz Zorn no texto de apresentação: "FUCKING HARDCORE RULES". --- 1.001 DISCOS PARA OUVIR ANTES DE MORRER

Quinta-feira, 25 de Junho de 2009

:: Donald Byrd ::


FUNKIN' BYRD!
- por Eduardo Carli de Moraes -
Um dos meus jazzistas prediletos! Donald Byrd, trompetista magistral, foi um grande aventureiro. Um explorador e expandidor de limites para o jazz. Não era afeito à radicalismos tão extremos quanto os de Ornette Coleman, John Zorn, Peter Brotzman e outros insanos do free jazz, mas suas experimentações, se não soam tão vanguardistas, são certamente muito deliciosas. Apostando mais no groove, no balanço e na melodia, seu som é smooth, funky, cool e malemolente - perfeito para um chill out ou um sossego bem curtido.

Seguindo nas trilhas abertas por Miles Davis, sua maior influência, Byrd nos mostra quantos diferentes mundos sônicos se pode visitar ao realizar a mágica alquimia que apelidou-se de fusion: partindo das lições dadas por Bitches Brew (de Davis) e Headhunters (de Hancock), Byrd não temeu inserir no jazz o groovão e o balanço da música negra nas formas tradicionais de bop, quase sempre com magistrais resultados.

Fez explorações com a inserção de corais gospel em jazzões cabulosos no clássico A New Perspective (que têm a ilustre presença de Herbie Hancock no piano); arriscou uma sonoridade bem R&B no blockbuster Black Byrd, que na época de lançamento atingiu o posto de disco mais vendido da história da Blue Note; chegou perto dum som à la Sly & The Family Stone / Funkadelic / James Brown em muitos de seus discos de jazz-funk dos 70, em especial Ethiopian Knights, Places and Spaces e Street Lady; e teve muitos parceiros de renome, como Stan Getz, com quem gravou alguns duetos sensacionais.

Abaixo, compartilhamos alguns pit-stops obrigatórios na longa discografia do cara, a quem o mundo do jazz deveria agradecer, de joelhos, nos seguintes termos: "thanks for funking up my bop!" =)



Byrd In Flight (1960)
http://www.mediafire.com/?gwt4mmzy4yl



Terça-feira, 23 de Junho de 2009

:: The Black Crowes ::

BLACK CROWES
"By Your Side" (1998)

por Eduardo Carli de Moraes


By Your Side
, o disco dos Crowes que mais ouvi na vida, é uma fodástica aula de rock and roll ministrada por caras que são pHds no assunto. Ouvindo este álbum dos mestres - ou qualquer dos outros álbuns, na real! - não é absurdo concluir: eles merecem entrar na linhagem do Led, dos Stones, do Cream e dos Faces como mestres absolutos na história do "blues-rock" - ou simplesmente do rock fucking roll. Há quem prefira The Southern Harmony and Musical Companion, o clássico de 1992, que trazia o hit fantástico "Remedy", mas pra mim By Your Side é um disco ainda mais empolgante, flamejante, apaixonante! Foi o primeiro álbum deles que descobri, lá pelos 15 aninhos de idade, e ele me fez tocar air guitar até que me doessem as juntas e me esgoelar até ficar rouco no chuveiro. E me fez, desde então, colocá-los no topo do meu panteão musical, nos céus, agradecendo-os com ardor por serem desses que vivem para dizer: "rock and roll ain't noise pollution, rock and roll ain't gonna die!" (AC/DC).

Pra mim o Black Crowes é como o Led Zeppelin, se este se libertasse de todas as suas pretensões artísticas e se abandonasse, com todo o entusiasmo de que era capaz, ao mais puro hedonismo rocker. A vontade de “fazer boa arte” parece pra lá de secundária para esses Corvos Alucinados, capazes de deixar nossos tímpanos em estado de completa folia. A "missão", muito mais urgente e atraente do que criar "obras de arte", parece ser realizar um rock and roll que é pura exaltação da vida - como tanta boa arte, por vezes, consegue ser. E deve ser! Eles fazem pela via rocker o que a boa arte - especialmente quando é dionisíaca e embriagada! - por vezes é capaz de fazer: exaltar a vida e fazer-nos amá-la! Tanto que imagino que eles talvez concebam o rock and roll como uma religião sem transcendência, que trata de levar-nos a precários paraísos, aqui e agora, nas asas do som. Como as estrelas fazem com o céu, as roupas com os corpos, os perfumes e os sons musicais com o ar, estas músicas decoram a vida: deixando-a mais bela, mais bem-vestida, mais excitante e tão fodidamente cool que sentimos que jamais nos faltará tesão para vivê-la e devorá-la.

Quase todas as canções por aqui tem uma garota como interlocutora, o que não nos deve fazer saltar de imediato para a conclusão de que são simplesmente “canções de amor”. Há, por aqui, monumentais canções românticas, algumas que entram fácil para o rol das mais belas já compostas, mas o buraco é mais embaixo e o leque temático é mais aberto. “Stop Kicking My Heart Around” é um quase-irado anátema contra uma mulher sádica e sapeca, que não pára de chutar por aí o coração do nosso pobre eu-lírico. Tadinho! É um blues-rock fluido, líquido, empolgantérrimo, que lembra um cruzamento entre o Cream e o AC/DC, entre os Small Faces e o Aerosmith.

Nele parece que se consegue, através da terapêutica do cantar e do tocar, uma superação das forças corrosivas do ódio através de uma catarse ao mesmo tempo irada e bem-humorada. Chris Robinson, de modo algum, soa como um homem ferido, que lambe suas feridas no escuro ou que chora suas lamúrias como um emo ou um gótico. Não se deixa derrubar pelo tumultuado chutar-pra-cima-e-pra-baixo que realiza a diabinha, como uma futebolista pé-de-bagre no esporte dos corações, mas soa muito mais como um homem inabalável, selvagem, aos reclamos contra a crueldade feminina ao mesmo tempo que ruge sua força feito um leão plantiano! E como é que pode o animal cantar desse jeito?!? É como Robert Plant, Bon Scott, Mick Jagger, Steven Tyler e Rod Stewart liquidificados e anfetaminados! Bloody hell!


“I've been down, but never on my knees”, canta ele em “By Your Side”, e talvez seja, ao mesmo tempo, uma lembrança de suplícios enfrentados (“i've been down...”) e uma orgulhosa demonstração de força de superação (“but never on my knees”!). A sensação, ao ouvir essa belíssima balada, é a que o cantor está nos dizendo: a vida tenta me derrubar, mas não consegue. Que chovam sobre mim rasteiras e carrinhos, não importa: ao chão não me tacam!

E é essa sensação interna de potência e de intensidade vital, que jorra do cantar de Chris Robinson, e que parece sintoma claro de sua personalidade, o que garante que ele possa fazer tantas promessas à amada: “If you feel your heart is breaking / And all your friends are faking / When it's giving and not taking / I will be by your side”, promete. E sentimos que, mais que açúcar, é força o que ele fornece. Esta não é uma canção de amor idiota, em que um paspalhão derrete-se em promessas impossíveis a uma mulher que chora por não poder ter, mas sim a emanação exaltante de uma alma tão confiante em si mesma que sente-se capaz de ser apoio sólido para outra alma.

Oferecer apoio e amparo à amada, através de uma música, com certeza não é idéia nova: já rendeu, além de cerca de um milhão e 400 mil péssimos pops românticos chicletudos que infestaram os tops-of-the-pops história afora, alguns lindos clássicos do soul, como “Lean On Me”, de Bill Withers, alguns hits irresistíveis de R&B, como “I'll Be There For You”, e alguns belos folks. Mas raras vezes esta promessa, na história da música pop, soou tão crível, e tão apaixonadamente expressa, quando na voz de Chris Robinson.

A primeira estrofe de “By Your Side” parece ironizar os antagonismos humanos, retratando sem dó como a miséria de alguns constrói a riqueza de outros e a dor testemunhada pode gerar em quem a vê secretas alegrias. “When you're lost, then I am found / When you slip, I hold my ground / When I fall, please take a bow / And when you're up, just remember I am down”. Na segunda estrofe, a ironia se transmuta em crítica, quase em lição de moral, quando Chris canta: “People looking for fortune and fame / They don't know that it's all the same / It's like any other game / You know there's a loser, but it's allright”. Quem busca fama e fortuna sabe muito bem que a conquistará ao preço da miséria e do anonimato dos que não as terão e ficarão pelas sarjetas, e que são sempre a imensa maioria. Como um vencedor da medalha de ouro que não sente nem uma lágrima de piedade e tristeza vir a seus olhos ao presenciar o decepcionado sofrimento do lanterninha ou do segundo no pódio.

“Heavy” é uma eufórica celebração de um amor que começa, repleto de encantamento e excitação, quando as incertezas quanto ao vínculo tornam-se uma confortável solidez e os pombinhos podem se dizer com absoluta convicção: “somos um do outro”. E às vezes um deles sai, enlouquecido de tão contente com o início de seu êxtase, com o desencadeamento do pacto que tantas flores e orgasmos lhe trará, e corre para fazer um rock and roll. Surgem assim pérolas como “Heavy”. Se esta "mina" é chamada de “pesada”, não é certamente por ser gorduchinha ou por ser um fardo nos ombros do cara. É "pesada" no sentido de pesar na vida e no coração, como só sabem pesar as coisas que são significativas e transformadoras, benignas e tonificantes. “You're so heavy, heavy, heavy...”, canta Chris, e é um elogio, uma palavra de amor , e não uma punhalada de escárnio ou de um reclamo de irritação. Você pesa para mim: para mim você conta muito, e não tem a leveza necessária para ser arrastada do meu galho como uma folha que qualquer brisa branda faz voar pelos ares. “For the first time, I know you're mine!”, diz o refrão, e é essa alegria extrema de descobrir que pela primeira vez a realidade fulgurante e inegável de um amor sólido o que faz esse foguete em forma de música decolar com tamanho estardalhaço.

Talvez digam que estou "forçando a barra" e transformando versos bestalhões em bela poesia. Pode até ser. Se pegarmos, por exemplo, uma canção tão clichêzenta e com gosto de comida requentada como “Diamond Ring”, vai ser difícil negar que a poesia é tosca e o lirismo pobríssimo: “You're the reason I want to sing / You make me feel like a king / I love the sunshine that you bring / I think I'll buy you a diamond ring!” Esse rompante de consumismo, no final, até nos deixa com medo de que se trate de um eu-lírico ricão tentando comprar o amor da moça com presentes deslumbrantes! Mas certamente não é o caso aqui: a sensação que nos passa a música é de uma embriaguez de alegria tão envolvente que nos faz sair pôr aí passarinhando e assobiando melodias solares, a cantar de felicidade quase sem razão (ora, Ela é a razão!), sentindo-nos como reis, deliciados debaixo das carícias que nos faz o sol - ou seja, todos esses rompantes de euforia que às vezes têm os amantes e os apaixonados e que soam tão abomináveis e irritantes aos solitários e aos deprimidos. Os Black Crowes nunca tiveram medo da felicidade, e é nada menos que felicidade que eles, por vezes, espalham pelo mundo como a peste. There's nowhere to run, nowhere to hide, their bliss is gonna get ya!

"Diamong Ring", pois, pode ter uma letra que soa, lida no papel, como uma imensa bobagem; mas aquelas palavras, quando cantadas, nos contaminam de excitação e alegria até que essa coisa chamada "boa poesia" pareça uma imensa idiotice. E logo já estamos, como aquele eu-lírico, transbordantes de gratidão e querendo sair correndo para comprar o que de mais precioso há na terra para dizer, com ele, à mulher amada, do tamanho do nosso “obrigado”. Há também por ali momentos brilhantes, como “When you smile it should be a crime / And you do it to me everytime”, que lembra o lado extremamente sagaz e espirituoso dos românticos meio sacanas. Chico Buarque já escreveu algo parecido em seu hiário "Tango Do Covil" quando disse: "Sua beleza é quase um crime". E um pouco de sacanagem faz bem a todo bom romântico!

“Only a Fool”, por sua vez, é uma das mais lindas. Não se enganem: é assim que soa, que deveria soar, que não pode deixar de cantar, um homem que é feliz no amor! É essa a canção que cria uma alma masculina que achou seu complemento, seu fermento, sua alegria, seu apoio, numa alma feminina que abraça e por quem é abraçado. “You're my lover, my soul, my best friend / And I don't want this to ever end”, canta Chris. E, mais uma vez, lidas no papel, essas palavras podem parecer bestices e clichês, presentes como parecem estar em mil outras canções que no palco do pop já desfilaram seus 15 minutos de fama. Mas, ouvidas na voz de Chris Robinson, soam como testemunhos muito verdadeiros e acreditáveis de um sentimento interno de potência e força que só o toque do amor é capaz de desencadear.

Já “Go Tell The Congregation” concebe a comunidade religiosa como uma espécie de divã de psicanálise gratuito, onde as pessoas desabafam seus fantasmas e cospem fora seus demônios. Até a visão de religião do Black Crowes é catártica! Não surpreende, pois, que a visão de vida e de arte do Black Crowes seja, pois, pura catarse, e no bom sentido: purificadora, purgadora, higienizadora da alma. É uma música religiosa, no sentido estrito da palavra? Não: pois não é música de pregação, que tenta convencer os incréus a abraçar a fé, nem muito menos uma música em louvor do Criador e sua hoste de anjinhos. É, muito mais, um libelo em favor da solidariedade humana, como se a igreja pudesse gerar certos vínculos sociais úteis às pessoas presentes naquela agremiação. “When you want to lose your blues / When there's nothing left that you can do / When you want to tell the truth / When the devil's gotta a hold on you”, canta ele, e um insistente coral gospel adiciona, ao fim de cada verso, a conclamação imperativa: “Go tell the congregation!” Trata-se da religião como uma espécie de grupo de ajuda mútua , que cria uma rede de solidariedade onde uns possam ouvir os problemas dos outros, apoiando-se uns aos outros, mais ou menos como um encontro da Alcóolatras Anônimos ou das Estupradas Traumatizadas.


Tô um pouco de sacanagem, claro. Mas é só pra justificar pra mim mesmo o fato estranhíssimo de eu ser capaz de amar tanto uma música de temática profundamente religosa. É que o Black Crowes é uma banda tão fodida de boa que até fazendo certos róques altamente GOSPEL eles soam legal pra caralho (e legal-pra-caralho certamente não é o qualificativo que mais costumo usar para falar de música gospel!). Em vários momentos do álbum, um coro sensacional de negonas, cantando no background como se estivessem tomadas pelo Espírito Salto no altar da Capela Sistina, cantam de um modo tão fodástico que sou obrigado a admitir: não não não, os ateus não são capazes de cantar assim!

Das melhores bandas da história do rock, o Black Crowes foi aquela que parece ter se apropriado com mais espírito e entusiasmo da “elevação” da música gospel, quando grande parte das outras gigantes do estilo – o Led Zeppelin, os Rolling Stones, os Faces, o Lynyrd Skynyrd... – se enlamearam muito mais nos lodaçais do blues. O Black Crowes me soa como um bando de hippies cabeludos, fedorentos, cool as fuck e autenticamente apaixonados por rock and roll - e que invadem a Igreja para mostrar aos caretas como é que se celebra uma missa fodástica. São os profetas de uma religião que é, com absoluta certeza, tão melhor que todos os monoteísmos ocidentais e todas as místicas orientais: o rock and roll! Taí uma boa definição, talvez: o Black Crowes faz música como se o rock and roll fosse uma espécie de religião, e uma que nos dá acesso a tais êxtases e elevações que nunca mais precisaremos de um Cristo.

DOWNLOAD: http://www.mediafire.com/?qg2irzammyz
ouça com o volume no talo!

Quinta-feira, 18 de Junho de 2009

:: pão quentinho! ::

ELVIS COSTELLO - Secret, Profane & Sugarcane
http://www.mediafire.com/?mgniyzcx4d2


MEAT PUPPETS - Sewn Together
http://www.mediafire.com/?ej2jfzzjymj



IGGY POP - Preliminaires
http://www.mediafire.com/?zjk5ljmjunk


JASON LYTLE [do GRANDADDY] - Yours Truly, The Commuter
http://www.mediafire.com/?ymte2yjyxdh


PLACEBO - Battle For The Sun
http://www.mediafire.com/?4mj2iherr4o

Terça-feira, 16 de Junho de 2009

:: Dave Matthews Band ::


DAVE MATTHEWS BAND,
Big Whiskey and the Groogrux King (2009)

Uma banda que mistura free jazz, vocais sincopadamente africanos, jams country-roqueiras e um naipe de metais só poderia ser coisa de americano, certo? Mais ou menos. Formada por Dave Matthews, um sul-africano criado na Carolina do Sul com sotaque de garçon de drive-in, a Dave Matthews Band pode surpreender os caçadores de clichês. Com uma cozinha matadora comandada pelo baterista-mestre Carter Beauford, violino elétrico, sax, metais e eventuais guitarras, a banda é muito conhecida (não só na terra do Tio Sam) por seus inúmeros álbuns ao vivo, todos constituídos basicamente das mesmas músicas. Daí é possível tirar que o forte da banda é o improviso – e que improviso.

Pergunte a qualquer fã da DMB por onde começar a exploração musical e ele certamente indicará o álbum “Before These Crowded Streets” (1998), aclamado por público e crítica e considerado o melhor trabalho da banda até então. Pois bem, atento leitor: se quiser conhecer a Dave Matthews Band, comece mesmo pelo final, o fresquíssimo “Big Whiskey and the GrooGrux King”. Produzido por Rob Cavallo (sim, aquele do Green Day e do, pasmem, MybChemical Romance), o novo trabalho traz basicamente tudo o que fez da banda uma explosão de sabores: bateria furiosa, naipes que sobem e gritam junto com o gutural Dave, pitadas country e uma ótima pop music.

A mesma seqüência inicial de “Before” - intro instrumental seguida de duas porradas deliciosas - mostra que o disco não veio à toa. “Shake me Like a Monkey” traz o vocalista brincando em mil vozes com a arma mais forte da banda: versos metricamente falados e refrão pegajoso, com arranjos mastodônticos de metais. Sem fôlego, o ouvinte segue para “Funny The Way it is”, escolhida como primeiro single e liberada para download free no site da banda. A música mostra o violino melódico de Boyd Tinsley e avisa também que o violão ainda está presente, mas consegue conviver com a guitarra de Tim Reynolds, parceiro de Dave Matthews em inúmeros projetos, cuja última aparição em um álbum do grupo havia sido – sem coincidências - no mesmo “Before These Crowded Streets”.

Reynolds aplica inusitadas guitarras e sola, como em “Why I Am”, em todo o álbum – o “inusitada” explica-se: o instrumento não é muito a cara da banda, que vive do som mais orgânico do violão-de-mil-notas do vocalista. A última tentativa de colocar guitarras nas músicas da banda resultou no fraco “Everyday” (2001), que ganhou até vaias dos fãs e cartazes nos shows exigindo que Steve Lillywhite, antigo produtor do grupo, retomasse os trabalhos com a DMB.

Os slides do guitarrista chegam em “Lying in the Hands of God”, balada que começa ingênua como o medo de amar que a letra revela. “Dive In” e “Spaceman” seguem a toada de rotação mais baixa, que esquenta aos poucos e, ao chegar em “Squirm”, traz outra característica marcante da banda: a dinâmica perfeita que cresce e explode, muitas vezes, de forma épica.

E, se alguém duvidava que riffs e bandolins poderiam conviver bem, basta ir até “Alligator Pie”. Relaxe: a música é só pra aquecer os ouvidos dos fãs mais ortodoxos, que vão estranhar também a grave “Seven” a princípio, com seu riff em escala menor. Para os mais fanáticos, basta correr até “Baby Blue”, a balada violônica do álbum, que se despede com a também básica “You & Me”.

Pode-se dizer que o diferencial de “Big Whiskey” dos álbuns anteriores está em uma presença e uma ausência. A presença é da guitarra e da virtuose de Tim Reynolds; e a ausência, do saxofonista LeRoi Moore, morto em outubro de 2008 e substituído aqui por Jeff Coffin. Moore havia deixado algumas linhas de saxofone gravadas que deram origem a sete músicas do novo álbum – batizado com esse nome em homenagem ao saxofonista, apelidado de Groogrux em conjunto com outros membros. O nome, explicou o batera Carter à MTV, traduz um pouco da energia selvagem que eles colocam na pegada das músicas.

Ouça e comprove.

Sábado, 13 de Junho de 2009

:: Once ::


:: ONCE - Trilha Sonora Original ::
por Francine Micheli

Fácil mesmo é contar histórias apaixonadas. Bota ali uma conversa ao pé do ouvido e dois pares de mãos inquietas que tá pronto, só faltando o narrador sussurrando os sentimentos ardentes do casal que se come enlouquecidamente há mais de dois dias.

Todo mundo, aliás, já teve coisa dessa na vida real e achou que era amor, engano fácil e muito mais corriqueiro do que se imagina.

Por ser algo muito menos ordinário e infinitamente menos compreendido, o amor vive às nossas margens e é realmente difícil encontrar quem saiba transcrevê-lo de forma genuína em forma de música, filme, poesia, gestos, atitudes.

Viver e falar e de amor é tarefa árdua. E, pegando rabeira no dia dos namorados, é ainda mais fácil ver a a diferença entre o cavalo e a égua através de um filme nem tão assim novo, mas atual em qualquer época.

Lançado em 2007, o irlandês Once é do tipo pequeno gigante e muito provavelmente você já deve tê-lo assistido ou ouvido comentários sobre, já que ganhou o Oscar de melhor canção original. A música vencedora foi “Falling Slowly”, composta por Glen Hansard, que também fez uma ponta como protagonista do filme.

Assim como a canção, toda a trilha é como a alma da produção e casou-se tão perfeitamente com a história que é impossível desvincular uma coisa da outra. Daí o reconhecimento veio a jato dos queixos caídos dos bambambans do cinema e do público comum, obviamente.

Hansard compôs todas as músicas e em muitas delas contou com Marketa Iglova, a segunda protagonista do filme não menos talentosa. Da parceria nasceu uma obra-prima. Contando desde a dor de amores abortados à perda do que ainda não se teve, toda a trilha de Once tem o peso do vazio e a insatisfação com sentimentos médios.

Além de uma voz bastante característica, Glen Hansard é bom no violão, nunca deixando a peteca cair no comum. Adicionando ai a voz doce e emociontante de Marketa Iglova, o dueto impressiona e, pessoalmente, me lembra bastante a melancolia e o bombardeio melancólico de Damien Rice e Lisa Hannigan nos áureos tempos em que eram uma boa dupla.

A trilha toda é irretocável, sendo que os destaques ficam também para a desopiladora-de-fígado “Say it to me now”, a filosofante “When your mind's made up” e a cortadora-de-pulsos “All the way down”. E, assistindo ao filme primeiro é ainda mais fácil entender o porquê de a produção barata ter ganhado espaço na prateleira das coisas bacanudas do fim da década.

Falar muito de Once é chover no molhado, entretanto. Curto, grosso, intenso e uma pedra no sapato dos romeus e julietas. O filme é todo sobre possibilidades, inclusive do amor tido com não-possível, assunto já trabalhada com sucesso em filmes como Lost in Translation e a adaptação do livro A Insustentável Leveza do Ser. Sobre a consequência de estar ali e não lá, de fazer isso assim e não assado, de escolher o amarelo e não o roxo. E de tudo isso, a gente tira boas lições de vida, inclusive de como essas possibildades lidam com as diferentes formas de amor, todas cantadas em canções dilaceradoras de corações quentes, mornos ou gelados.

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Terça-feira, 9 de Junho de 2009

:: da série: FRESH LITTLE BREADS ::

SUPER FURRY ANIMALS - Dark Days / Light Years
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THE MARS VOLTA - Octahedron
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PHOENIX - Wolfgang Amadeus Phoenix
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THE GATHERING - The West Pole
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CONDO FUCKS [YO LA TENGO B] - Fuckbook
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Segunda-feira, 8 de Junho de 2009

:: Dusty ::


DUSTY SPRINGFIELD,
Dusty In Memphis (1969)

Tinha se tornado mais do que evidente para toda a gente desde 1968: o pop tinha se convertido em rock e as vocalistas femininas tinham grandes dificuldades em chegar aos postos mais elevados das listas de vendas. Dusty não era uma exceção: os seus últimos êxitos mais significativos datavam do Verão de 1968. Apesar diso, Ahmet Ertegun, a mente visionária da Atlantic Records, sabia que ela era uma intérprete tão estupenda quanto Aretha Franklin e quis que a cantora gravasse em estúdio com a mesma banda que tinha ajudado a lançar para a fama Franklin, Wilson Pickett e The Box Tops. Quando Dusty chegou em Memphis, ficou horrorizada com o material que lhe era oferecido (baladas adultas e elegantes em vez de funk pedregoso) e pediu que todos os arranjos se fizessem antes de gravar, adicionando apenas a sua voz à mistura final (os músicos e os produtores pretendiam algo espontâneo e livre, uma base rítmica sober a qual Dusty poderia cantar). A cantora teve um ataque de nervos, discutiu com todos os membros do pessoal e acusou os produtores de serem prima-donas; cinzeiros voaram pelo estúdio e a sessão de gravação foi cancelada. Dusty apanhou o avião de volta para Nova York, na esperança de gravar numa atmosfera mais calma. O resultado, sem dúvida, não poderia ter sido melhor. O material é de grande qualidade, composto por autores de primeira no melhor momento das suas carreiras. Os arranjos são incríveis; e a voz, impetuosa. O primeiro single, "Son Of A Preacher Man", posicionou-se entre os 10 primeiros lugares do top. Dusty teve que esperar um ano para escutar o álbum. Mas os compradores de discos não foram tão condescendentes e Dusty In Memphis foi um fracasso comercial. Apesar das críticas terem sido excelentes, o disco conseguiu apenas ocupar o 99º lugar da lista de vendas americana. A sua carreira nunca viria a se recuperar. --- 1.001 DISCOS PARA OUVIR ANTES DE MORRER

DOWNLOAD (192kps - 45 mb -11 faixas):
http://www.mediafire.com/?xnv2zimzgdw

crássico!



Dusty cantada por Jack White em clipe de Sofia Coppola!

Quinta-feira, 4 de Junho de 2009

:: Richard Hell ::


RICHARD HELL
"Blank Generation"



"MATE-ME POR FAVOR!", dizia a camiseta dum maluco que andava pelo CBGB's de New York em meados dos anos 70 e que botava lenha na Cena formando bandas, rabiscando poemas, tomando picos e tentando tacar veneno na caixa d'água da cultura americana. A frase que Richard Hell carregava estampada no peito depois se tornaria o nome de um dos mais clássicos livros que conta "A História Sem Censura Do Punk" (organizada por Legs McNeil e Gillian McCain). Sem falar que o próprio Malcolm McLaren muito se influenciou pelo vestuário dele quando começou a bolar as roupas e cabelos que se tornariam a "moda punk". Mas até hoje sua obra ainda permanece cult e desconhecida demais do grande público para um artista de tamanha relevância na constituição do raw power punk na década do prog e da discow.

Richard Hell foi um dos maiores poetas dentre os maiores artistas do Punk. Suas letras se equiparavam às de Patti Smith, Lou Reed e Tom Verlaine, tríade reconhecida pela maestria literária com quê semearam os campos dos primórdios do punk. Mas o som que fazia com os Doidoids remetia muito mais à urgência, à fúria e ao debochado humor dos Ramones, dos Undertones e dos Heartbreakers. Essa mistura de sofisticação lírica e ataque sônico furioso, demonstrando que a poesia podia ser cool e que o punk podia ser literatura, fez da obra de Richard Hell, dentro da Cena Punk, algo ímpar. Só lançou, de fato, um disco clássico: este Blank Generation, de 1977. O segundo, Destiny Street, surgiu 5 anos depois, mas é tão chocho que sepultou para sempre os Voidoids e fez com que Hell abandonasse a música e abraçasse de vez a literatura. O brilhantismo e a excitação daquele primeiro álbum, porém, permanecem intactos, tornando-o um dos mais fodásticos álbuns punk de sua década - o que não é dizer pouco, já que tivemos ainda, naqueles anos dourados do barulho enfezado, London Calling, Rocket To Russia, Never Mind The Bollocks, Raw Power, Undertones, Singles Going Steady, Inflammable Matterial, Entertainment!, My Aim Is True, I'm Stranded, L.A.M.F., Marquee Moon, Damned Damned Damned, Horses, The Modern Lovers, Lust For Life, New York Dolls, Funhouse e tantos e tantos outros clássicos...

Richard Hell foi amigo de infância e de adolescência de Tom Verlaine. Eram tão inseparáveis que muitos pensavam que fossem irmãos. Conta-se que os dois, que tavam mais pra outsiders do que pra CDFs, bolavam juntos um meio de realizar uma mini rebelião juvenil e um ficava tentando "pôr pilha um no outro com um plano pra fugir da escola". O que eles de fato fizeram: o pimentinha Richard, expulso pelo diretor por tomar sementes de ipoméia, caiu na estrada junto com Verlaine querendo tudo: ser artista e poeta, virar "rato de praia", comer muitas garotas, experimentar tudo quanto é tipo de psicotrópicos e ser um caroneiro kerouaquiano pela América Selvagem, inclusive sendo um incendiário das paisagens sulistas ("estávamos muito revoltados com o Alabama!", troveja ele em algum ponto de um relato surreal de Mate-Me Por Favor onde conta como pôs fogo numa floresta). Chegou a tocar contra-baixo no que viria a ser o Television, mas saiu da banda antes da gravação de Marquee Moon - um dos grandes álbuns dos anos 70 e marco eterno do que hoje chamamos de "indie" e "guitar rock".

Admirador de Patti Smith, que depois se tornaria a namorada de Tom Verlaine, Richard Hell foi um dos nomes daquela cena proto-punk que depois mais fundo mergulhou na carreira literária. "Fui ver Patti ler, e ela costumava se apresentar naqueles clubes gays, como Le Jardin, e iam à loucura por causa dela", conta ele em Mate-me Por Favor. "Isto me surpreendeu. 'Essa multidão está aqui por causa dessa garota fazendo poesia?' Patti ficava apenas desfiando coisas, e aquilo era o maior barato, e ela era muito intensa, mas ao mesmo tempo muito doce e muito vulnerável. Ela era o máximo, sem dúvida." (pg. 131)

Hell foi daqueles jovens apaixonados por poesia, desde moleque, mas que descobriu paralelamente a sedução fatal e a energia primal do punk rock: "Era muito mais excitante fazer rock & roll do que ficar sentado em casa escrevendo poesia", relata Hell. "Quer dizer, eu podia lidar com os mesmos temas com os quais eu ficaria penando sozinho no meu quarto pra publicar em revistinhas mimeografadas que só umas cinco pessoas iriam ver. E definitivamente a gente se achava tão cool quanto os outros, então por que não...?" (181) Depois da música, acabou virandoator de cinema (encarnou, por ex., o namorado de Madonna em Desperately Seeking Susan) e se tornou um autor de romances que se inserem na linhagem de William Burroughs, Norman Mailer e Irvine Welsh: literatura contra-cultural e de colhões.

Como não poderia deixar de ser naqueles tempos bem Trainspotting-da-vida-real, o danado não poupou suas veias e, seguindo o zeitgeist, adotou com ardor o estilo-de-vida do junkie/boêmio/artista. "Não tive nenhuma restrição quanto à droga pesada", confessa. "No meu modo de ver, era simplesmente o estado ideal. Não apenas fazia você se sentir fisicamente tão bem quanto é possível - no fim das contas, é um analgésico -, como também parecia ser a realização de todas as minhas fantasias, no sentido de que você sonha, mas dirige seus sonhos como um diretor de filme." (184) Que a junk pudesse ser um armadilha, ele sabia: tanto que mais tarde viu alguns grandes amigos, como Johnny Thunders (com quem fundou os Heartbreakers), perdendo a vida nos trilhos da overdose. Mas, na época, conta Hell, havia uma ilusão de que picar-se não tinha nada de perigoso: "A heroína pareceu muito segura na época, sabe? Porque é verdade que você tem que usar todos os dias por duas ou três semanas para começar a desenvolver o vício. E isto pareceu uma coisa muito fácil de evitar. Como as pessoas podiam ter medo daquilo? Que tipo de risco é este? Risco nenhum - mas é impressionante como te pega." (185)

Em suma: Richard Hell estava lá, como um dos mais importantes pivôs da cena, quando o fogo começou a se alastrar. O que emergia ali era o punk como o conhecemos hoje, em sua versão '77, liberto do experimentalismo elitista e um tanto inacessível do Velvet, do excesso de verborragia literária de Patti e das viadagens espalhafatosas dos Dolls e do glam, adquirindoem sua forma mais clássica: catarse concentrada, crua e trovejante. "A cena definitivamente começou a crescer como uma bola de neve", rememora. "O CBGB's era sem dúvida o lugar onde as coisas estavam acontecendo, desde a primeira vez que a gente tocou lá. Na real éramos os únicos. Não havia no mundo nenhuma outra banda de rock & roll com cabelo curto. Não havia nenhuma outra banda de rock & roll com roupas rasgadas. Todo mundo ainda estava usando purpurina e roupa de mulher. Éramos uns chinelões, arruaceiros sem teto, tocando uma música poderosa pra caramba, apaixonada, agressiva e também lírica." (191)

Blank Generation é o petardo sônico de uma juventude que de "vazia" não tinha nada.



DOWNLOAD (54 MB - 192 kps - 12 faixas):
http://www.mediafire.com/?vyomiyw2iqy

SITE OFICIAL --- TROUSER PRESS ---MOFO --- ALLMUSIC

Sábado, 30 de Maio de 2009

:: Atittude Screaming Girls ::

ATTITUDE SCREAMING GIRL
- por Joh, do Excambau -

Um apanhado musical temático: vocais femininos que estão no meu itunes neste momento. Sem credibilidade ou fundamentação teórica, apenas gosto pessoal. Sempre me chamou atenção vocais femininos, principalmente quando fugiam da esperada vozinha angelical pasteurizada. E com o tempo percebi que essa especificidade de gosto não era uma coisa muito comum. Bateu a nóia. FETICHE? Caraca! Não... as minas se destacam, pô!

01) "The House That Jack Built" - Aretha Franklin (1968)

Pra abrir a exclusiva seleção histórica ATITUDE SCREAMING GIRLS, trago essa pedrada da diva, mestra e rainha do soul/gospel/R&B/ e quase todos os outros ritmos negros americanos: Aretha é foda, sempre foi! Segura o cetro e senta na cadeira mais alta da minha categoria A.S.G.

Nessa música ela chega mandando o título da música, sem instrumental, puxando como quem manda na parada - e manda mesmo! A batida segue groovada, acompanhada pelos tradiças backing vocals (u-uuu) trocando frases com os naipes de metais - sensacional! Não é a toa que está no TOP LIST deste que vos escreve!

Conheci Aretha através do antológico filme do mago John Landis: The Blues Brothers, tb aconhecido no Brasilzão (a terra da dublagem) como "Irmãos Cara-de-Pau" (?) - huahuahua! A gente às vezes não percebe como é tosco traduzir nomes de filmes, mas relaxa, porque em terras lusas o filme é apelidado de "O Dueto da Corda" (!!!!!!!!!) Afff. Naquela época não tinha internet, muito menos mp3, mas eu tinha um videocassete e um gravador de fitas, assim gravei o filme quando RE-passou na sessão da tarde e depois captei o áudio para uma fitinha k-7 que tocou até gastar (literalmente)!

02) "Open the Gate"- No Doubt (1995) - Não somente a MINHA faixa preferida do meu disco preferido do No Doubt, mas essa música contém o primeiro refrão que minhas filhas conseguiram decorar mesmo antes de conseguir/saber falar a língua pátria! Confirmando a teoria de que "uma boa intro é 50%" (ou como dizem os truqueiros: a primeira é caminhão de pinga), "Open the Gate" inicia com as cordas todas juntas: guita e baixo martelando o martelão. Seguidos pelo teclado agudo no "CRESCENDO" até chegar à voz de Gwen Stefani.

Hoje, a banda "deu um tempo" e Gwen trilha seu caminho em um projeto solo do qual eu nunca quis saber muito, mas fui atrás do The Beacon Street lá pra 98, por dois motivos: 1º - vi um cover de NO DOUBT num show da faculdade no qual pensei: "porra! Será que o original tem essa pegada?". 2º - custava 12,90 no bacião de uma lojinha num shopping da zona sul e arrisquei - me dei bem! :D

03) "Debbie" - The B-52's (1998)

Sons que lembram a juventude não tem explicações e nem porquês. Mas camarada, uma voz dessas não se acha por aí e, quando se trata de B'52, são 2 VOZES FODÁSTICAS!!! Eu já estava na minha fase Pantera-Rage Against the Machine, mas era impossível ignorar B'52 tocando nas rádios. Fui no último show deles no Credicard Hall num esquema muito pró (fui como FOTÓGRAFO!!! huhuhu). Vi tudo bem de perto, e pude conferir que hoje em dia as pernocas de Kate Pierson e Cindy Wilson já não são as mesmas, mas as vozes, PQP! O show é aquilo: um misto de roupas estranhas em pessoas estranhas, nostalgia e empolgação-comedida-de-uma-platéia-que-realmente-não-sabe-se-comportar-em-um-show: tempos de lei seca... sem álcool, sem festa, mas pra quem gosta do som, basta fechar os olhos e lembrar "ah! como era bom".


04) "Little Birdie" - Wynton Marsalis (de Joe Cool's Blues, 1995)

Quem lembra de "A Turma do Charlie Brown" viaja com esse disco! Imagina um mestre do jazz chamando os brothers (literalmente) para fazer uma homenagem a um dos desenhos da sua infância! Mesmo sendo quase todo instrumental, esse disco é uma éspecie de Jazz-sem-chatisse (pra quem acha jazz chato), e eu escolhi a única faixa com voz do disco que se destaca não somente por isso: Ela, a voz desconhecida, mesmo não mencionada na ficha técnica do disco no site oficial, além de encontrar seu "espaço" no meio de músicos geniais e improvisações, ainda consegue dar os seus pulinhos e fazer dessa faixa a minha preferida do disco. Impossível não imaginar Woodstock (o clássico passarinho amarelo) voando em volta do Snoopy pra acordá-lo em uma manhã com o chão repleto de neve.

05) "Hey Little Rich Girl" - Amy Winehouse

Eu não conheço A FUNDO o lado musical dessa tal de Amy Winehouse (pq do lado pessoal, as fofocas estão estampadas por todos lados), mas esse The Other Side dela me agradou muito em algumas faixas. O disco tem vários "FEAT." de seus clássicos (?) com rappers (?rs): aquelas versões "YO! YO! YO!" que pegam uma música que já não pára de tocar, e põe um versinho de rapper no meio pra tocar mais e mais ... sei lá... rsss

A verdade é que eu escutei esse disco de lados B primeiro que o álbum sucesso-de-vendas e entendi que realmente ela gosta de soar "old school" flertando com o ska por diversas vezes. ISSO É BEM LEGAL! NÃO ACHAM!?!? Essa faixa foi escolhida entre tantos "sucessos" por ter uma cara de versão de algo dos anos 50, algo como Toots and the Maytals (ISSO É LEGAL! SIM!!!).
Podem falar o que quiserem da vinhodacasa: que ela bebe e não pára em pé no palco, que ela se droga e gosta de ser sodomizada - WHATEVER! A garota realmente tem uma voz sensacional.


06) "A cidade ideal" - Saltimbancos (Chico Buarque, Nara Leão, MPB-4, Bebel Gilberto, Miúcha, outros).

Disco infantil para adultos? Caraca! como explicar essa música aqui? Tem um jogo de vozes femininas animais! (rsss). Esse disco talvez tenha sido minha primeira referência de vocal feminino (depois veio a Simony no Balão Mágico, mas essa não tive coragem de inserir na lista! huahuahua). A história clássica dos Saltimbancos ORIGINS é alemã, e secular, muito antiga mesmo. Foi sendo trazida através dos tempos em forma oral, depois transcrita e reescrita (pelos irmãos Grimm), até chegar nas mãos do Chico Buarque, que aí sim fez uma obra-prima. Além de toda mensagem revolucionária popular e individual que o disco traz (numa época de Ditadura), esse disco é muito rico musicalmente, por isso escolhi a faixa-exemplo que mais pudesse quebrar o preconceito sobre música "infantil".

Bebel Gilberto, que nessa época era uma pirralha (já cantava bem viu? adoro a voz dela quando criança), acompanhada de sua mãe Miúcha, Nara Leão, orquestradas por Chico Buarque em 1977?!?! Esse disco é catalogado no itunes como "infantil" mas vê-lo assim é ser raso e triste. Quem escutar e não achar ROCK, PSICODELIA, e REVOLUÇÃO merece ouvir Roberto Carlos 100 anos sem parar!

07) "Hot Kiss" - Juliette and the Licks (de Four on the Floor, 2002)

OMFG!!!! O que eu poderia falar da THE MOST ATTITUDE SCREAMING GIRL da face de todo este miserável planeta?! Confesso que o dia que eu escutei Juliette (pés descalços e sujos) and the Licks a primeira vez, meu cérebro literalmente EXPLODIU! Se um dia o diabo inventou o rock para "rolar" e a intenção era misturar paixão e selvageria e sair por ai destruindo tudo sem pensar um minuto nas consequências, com certeza a trilha sonora seria essa.

Exclua da mente o ícone que Juliette Lewis se tornou pelos papéis que escolheu no cinema, mas também esqueça tudo que você prometeu ao padre na confissão da primeira comunhão porque se você procura a música do pecado, você encontrou. huahuahuahuahua! Exemplo clássico da "intro é 50%", "Hot Kiss" já começa com o refrão (pra mostrar como é que é bão) e segue pela velha pergunta-resposta entre voz e guitarras que não tem como não conquistar. A mudança de tom depois do segundo canto precede um crescendo perfeito que culmina no "pra-que-o-rock-foi-feito" e a partir dai, "jesus me abane".

08) "See Saw" - Aretha Franklin

Fechei com Aretha pra fechar com chave de ouro e pra deixar bem claro o que quero dizer quando digo ATTITUDE SCREAMING GIRLS: Elas não passam despercebidas e com elas não tem "nhé-nhé-nhé".

Elas tem que gritar!

Elas tem atitude!

Elas são ATTITUDE SCREAMING GIRLS muthafuckers!

Pei!


DOWNLOAD: http://www.mediafire.com/?nmtg3qmvujv

Quarta-feira, 27 de Maio de 2009

:: Still Crazy ::

O roque do tiozinho doido
- Bernardo Santana –


“History teaches us that men behave wisely
once they have exhausted all other alternatives…”

Ainda Muito LoucosStill Crazy, no original — é um filme inglês lançado em 1998, que conta a história fictícia de uma velha banda de rock tentando armar uma volta por aqueles bons e velhos trocados. Apesar de (bizarramente) desconhecido por aqui, o filme foi bem recebido internacionalmente na época de seu lançamento. As duas indicações ao Globo de Ouro (Melhor Filme Comédia/Musical e Melhor Canção Original), a atuação impagável do britânico Bill Nighy e o roteiro ishperto já deveriam valer uma conferida.

Mas, é claro, é na trilha sonora mesmo que fica o creme de Still Crazy.

Sobre a própria, vale dizer que o ouvinte não deve se deixar enganar pelo começo baladento com The Flame Still Burns e What Might Have Been (a menos que já tenha visto o filme, porque ai o caso é só tentar não lacrimejar demais pra não pega mal com os camaradas). Dali em diante, é só hard rock do bom, com aquela bica de psicodelia, glam e decadência anunciada que só os anos 70 mesmo pra trazer pra você.

Além das músicas F%$¨#@ do Strange Fruit — o nome da tal banda de tiozinhos —, o disco ainda guarda uma pérola psicodélica deslocada no tempo: Live For Today. Tente ouvir as guitarras serpenteantes e as cordas beatlenescas da música emoldurando o vocal viajandão de Hans Matheson e não pensar seriamente que você nasceu na década errada.

O certo seria postar aqui o próprio longa-metragem, porque ver o filme (como sempre) dá uma dimensão emocional impressionante às músicas. No entanto, como o Depredando ainda não evoluiu (?!) para esse tipo de piratagem malandra, fica aqui a trilha pra pelo menos provocar curiosidade em relação a um dos filmes sobre rock mais subestimados dos anos 90.

STILL CRAZY - Soundtrack (94,4 MB)
http://www.mediafire.com/download.php?4jmlziw5uyo


[Ah, sim! E o link para o show inteiro do Medeski, Martin & Wood em São Paulo tá aqui! Ops!]

:: da série PÃO QUENTINHO ::

MANIC STREET PREACHERS - Journal For Plague Lovers
http://www.mediafire.com/?mmtddgyij1m


ISIS - Wavering Radiant
http://www.mediafire.com/?mmjnumyzjzy



JIMI TENOR & KABU KABU - "4th Dimension"
http://www.mediafire.com/?nn55jdzykzj



THE MACCABEES - Wall Of Arms
http://www.mediafire.com/?4zdozzelykq



MELODY GARDOT - My One and Only Thrill
http://www.mediafire.com/?dnnygu2jnmj


COLDPLAY - Left Right Left Right Left [live]
http://www.mediafire.com/?zjz2diqnjmk


E mais: links do Sonic Youth, Wilco e Móveis já consertados!

p.s.: Quem quiser dar uma força pro blog, depositando em nosso porquinho-de-economias uns trocados, é só clicar nos reclames do plim-plim no menu ao lado!

:: da série VIDEODROME ::

:: VIDEODROME ou DEPREDANDO A TELEVISÃO ::
volume I

TV de cu é rola! Assista é o Videodrome Depredando, novo projeto do blog que pretende peneirar o VocêTubo em busca de material firmeza! Toda semana, postaremos aqui alguns vídeos bacanas que lá pescamos e aqui compartilhamos, seguidos de rápidos comentários. Tune in and drop out!




:: MOGWAI + IGGY POP, "PunkRock" --- Iggy Pop, provavelmente chapadaço, dá aulinhas sobre punk rock em algum Jô-Soares-de-meia-tijela da TV americana. No background, ruídos, dedilhadinhos e atonalismos do Mogwai, os luminares do post-rock escocês. Falando sempre em frases de efeito, Iggy vocifera contra o rótulo "punk", explica a importância visceral da música para uma fração da juventude, compara Johnny Rotten a Sigmund Freud e ainda faz um descarado elogio próprio de narcisismo extremoso: "what sounds to you like a big load of trashy old noise is in fact the brilliant music of a genius: myself". Impagável! É a música que abre Come On Die Young, disco de 99 do Mog.




:: TERENCE MCKENNA, "Culture Is Your Operating System" --- O guru da psicodelia Terence McKenna, uma das maiores sumidades mundiais em matéria de chapação, estados expandidos de consciência, viagens místicas quimacamente induzidas e cogumelos mágicos da Amazônia, conta um pouco de suas idéias sobre cultura, capitalismo, tecnologia, xamanismo e condicionamentos sociais. Ele é uma mistura de Timothy Leary, Marshall McLuhan, Pierre Lévy, Carlos Castañeda e Ken Kesey e escreveu pelo menos um livro que Depredando recomenda entusiasticamente a todos que procuram uma interessantérrima leitura: The Food Of The Gods. O cara é genial! Pago mó pau...



:: AL GREEN, "Let's Stay Together" --- O endiabrado capetinha do soul se esgoela e se despiroca cantando um dos maiores crássicos da música romântica universal. Vendo isso, além de umas gargalhadas (ele num parece um pastorzão da Universal?!), também me ocorreu a sensação de que é isso o que significa ser um Showman do Caralho, que leva um auditório ao delírio, embriagado com o poder de sua própria canção (e suspeito que embriagado de alguma outra coisinha mais... que eu queria muito descobrir qualé!). Sei que é meio queima-filme admitir que gosto de um pop romântico melado, mas não resisto: o Al Green é mór barato!

Quinta-feira, 21 de Maio de 2009

:: Stoner Rock - pt 1 ::

:: STONER ROCK ::
A Estética Americana Contra-Ataca

Junte riffs do Black Sabbath, psicodelia da década de 70 e longas jams de guitarra, em músicas que podem ultrapassar 10 minutos. Adicione a estética flower power dos 60, com carrões e motos envenenados atravessando grandes desertos, e você terá a mais nova facção do rock made in America: o stoner rock. A formação das bandas adeptas do stoner rock costuma ser um trio, ou no máximo um quarteto, em que eventuais teclados podem aparecer, e o vocalista também é opcional. O que importa é baixo, guitarra e batera, tudo no talo.

Já identificado há cerca de 10 ou 15 anos, o estilo tem como precursor o tripé formado por Kyuss, Soundgarden e Cathedral, grupos de origens distintas, mas que convergiram para o mesmo tipo de som. Mas não fica só nisso. Outras bandas ajudam na construção do stoner rock, estilo mutante e ainda em formação, considerando-se que possui grupos originários de várias tendências da música contemporânea, do blues ao heavy metal, do grunge ao hardcore, passando até pela hot rod music.

Embora já tenha se espalhado pelo mundo afora, com ecos na Europa e até no Brasil, o stoner é tipicamente americano, onde existem várias gravadoras que praticamente só têm em seu cast bandas afins, como a Tee Pee e a Mia Records, de Nova York. Algumas delas já lançaram coletâneas reunindo os principais nomes, e revelando ainda outros mais obscuros. Depredando e Rock Press não mediram esforços para identificar raízes, influências, tendências e desdobramentos da vertente que está sacudindo o mercado do rock em todo o mundo. Enjoy it! (Marcos Bragatto, na Rock Press #30)


::: CLÁSSICOS STONER :::


KYUSS, Blues For The Red Sun. Rock pesado e viajandão, guiado por uma guitarra malandramente ligada num amplificador de contrabaixo: ainda não inventaram nada parecido com Blues For The Red Sun, álbum definitivo do Kyuss. Formada na cidade californiana Palm Desert, a banda durou cerca de 6 anos (1990-95) e lançou 4 álbuns. A época é relativa à adolescência do guitarrista Josh Homme, que fundou a banda na tenra idade de 16 anos, ao lado do baixista Nick Oliveri (que tinha 17), do vocalista John Garcia e do baterista Brant Bjork (hoje no Fu Manchu). Josh afinava sua guitarra o mais grave possível, pisava no fuzz e saía compondo riffs turbinados com a urgência de um garoto que acabara de tirar a habilitação para dirigir. É por isso que a sequência inicial de Blues For The Red Sun, com “Thumb", “Green Machine”, “Molten Universe” e “50 Million Year Trip (Downside Up)”, cheira à estrada empoeirada. O grupo, que no início de carreira promovia grandes festas no meio do deserto californiano usando geradores, onde tocava por horas a fio, transporta o ouvinte para esse ermo. Quente, seco, duro. Mas com um suingue atmosférico quase sensual, culpa do baixo do então cabeludo e desbarbado Nick Oliveri. Dave Grohl, Billy Corgan, Mellisa Auf Der Maur e muita gente boa da cúpula do rock bota Blues For The Red Sun entre os dez discos da vida (há os que preferem o abusado Welcome to the Sky Valley, com suas três suítes musicais, cada uma dividida em várias partes). E um pouco da magnitude do Kyuss pode ser medida pela qualidade das bandas que excursionaram junto: Faith No More, Smashing Pumpkins, Ween... Ver Josh tirando aquele som lindo era (e sempre será) uma experiência mais do que incandescente. (por José Flávio Jr.).

DOWNLOAD: http://www.mediafire.com/?y2mxdmibb6x. Leia tb o texto completo!



SOUNDGARDEN, Badmotorfinger. De toda a geração grunge, o Soundgarden foi o que mais se aproximou do heavy metal / heavy rock. Embora tenha começado como uma autêntica banda de garagem, e lançado álbuns em que o esporro e a gritaria tiveram predominância sobre qualquer outra característica, o Soundgarden lançou álbuns altamente palatáveis para o mercado, como Superunkonwn (94) e Down On The Upside (96). Mas foi Badmotorfinger (91), identificado com o metal e abusando das referências ao Sabbath, que acabou sendo a maior influência para o Stoner Rock, além, é claro, dos ecos setentistas encontrados também nos dois (já citados) últimos álbuns. Os solos longos e cheios de riffs, o peso lento e arrastado, os vocais firmes e a estética psicodélica, sobretudo nos vídeos, são as principais influências que germinaram no SR. Depois do fim, o batera Matt Cameron foi tocar com o Pearl Jam; Kym Thail, guitarra, participou do WTO Combo, banda de Jello Biafra; e o vocalista Chris Cornell gravou 3 álbuns à frente do Audioslave e agora defende uma modesta carreira solo (por Marcos Bragato).
NEBULA, Let It Burn e To The Center. O grupo, que é de Los Angeles, começou a se formar como um projeto paralelo do Fu Manchu, com Mark Abshire (baixo) e Ruben Romano (batera), como integrantes comuns, lá pelos idos de 96. A formação se consolidou com a entrada do guitarrista Eddie Glass, vidrado em distorções e amplificadores. As viagens propostas pelo Nebula lembram muito a psicodelia do Cream, no final dos 60, mas com o peso de um Ted Nugent, considerando o mercado contemporâneo. Mas, diferente de outros grupos stoner, o Nebula não faz músicas tão longas, e é considerado por muitos como "punk" em meio à galera S.R. Tocando am algumas espeluncas na Califórnia, o grupo atingiu notório reconhecimento pelas suas eletrizantes performances ao vivo, nas quais os ruídos produzidos o associam a Sonic Youth & Cia. Já tiveram disco (To The Center) lançado pela "grunge" Sub Pop, e produzido por Jack Endino, que trazia como curiosidade a cover para "I Need Somebody", dos Stooges, uma de suas influências (por Marcos Bragato).
DOWNLOADS:



SPIRITUAL BEGGARS, Ad Astra. Tal qual o Orange Goblin, o Spiritual Beggars chegou ao SR via death metal. Iniciou suas atividades em 92, como um projeto de Michael Amott, que tocara no carniceiro Carcass, e apenas queria levar um som com seus amigos. Junto com o som contemporâneo aos anos 90, grupos como Captain Beyond, Deep Purple e Mountain eram frequentemente citados nesses ensaios. O primeiro álbum saiu em 94, com grandes citações ao trio canadense Rush, mas com o peso de um certo Black Sabbath. Another Way To Shine (96), o segundo álbum, demonstra uma certa maturidade ao passo que o som praticado pelo quarteto adquire características próprias. Mas é Mantra III, de 98, que conquistou o merecido reconhecimento e elevou o Beggars a um papel relevante na cena stoner em todo o mundo. Ad Astra, seu sucessor, é um petardo fodástico que mantêm a estética hippie/flower power, e aproxima-os mais ainda do velho Sabbath. (por Marcos Bragato).
DOWNLOAD (80 MB): http://www.mediafire.com/?jjmzymgtjkj

(Quem curtiu o stoner-post, dá um grito! Se ouvir gritaria o suficiente, logo mais vem aí a parte 2 com Fu Manchu, Monster Magnet, Orange Goblin, Cathedral e Gov't Mule. Nóóóise!)

Terça-feira, 19 de Maio de 2009

:: David Bowie ::

:: DAVID BOWIE ::
Hunky Dory

por Eduardo Carli de Moraes e Pedro Só

“If Bowie had a virtue at the end of the Sixties, it was that he reacted to the identity crisis affecting rock as a culture and as a generation of musicians, after the Woodstock jag and the loss of a series of guiding lights who were mowed down by heroin abuse, as the Sixties slid into the Seventies. (...) Bowie was undecided between Velvet Underground and Stones-style heroin-soaked decadence (the post-Brian Jones Stones), or Pink Floyd’s psychedelic trips towards an electronic-mystic future, enhanced by the colors of LSD. So in the end he sort of found a middle ground, got rid of his Mod gear, and with increasing authority turned into a musician who knew he was between a disappearing world and the dawn of a new world. The Sixties were on their way out (they didn’t go away completely until 73 or 74) but at that time the Seventies seemed like some awful imitation, vulgar and impoverished. Bowie became the symbol of this indecision, this ambiguity, this loss of direction.” - - - (Assante)



Antes de mergulhar fundo em Hunky Dory, o álbum bowiano que ouvi com mais voracidade e fascinação dentre todos do Mestre, o maluco era para mim mais uma fascinante incógnita do que um ídolo pra quem eu babava ovo. David Bowie me parecia um incoerente e caótico artista mutante, que talvez nem terráqueo ou humano fosse, capaz de assumir tantas facetas e personas que era dureza decidir: "mas quem é esse cara? E como julgar, numa discografia tão vasta e heterogênea, o que presta e o que não?" Com Hunky Dory, pela primeira vez, tive certeza de estar frente a um artista de primeiríssima grandeza, mistura de poeta, profeta e maluco-beleza, que fazia uma gororoba com as melhores lições do folk, do glam e do rock and roll num liquidificador absolutamente próprio. Bowie, a partir de então, me apareceu como o parteiro de uma obra musical sem par, que semeou originalidade e insanidade nos campos da música pop como poucos antes (ou depois) dele haviam logrado fazer.

Hunky Dory permanece sendo o disco artisticamente mais completo e admirável do músico mais influente da década de 70. E, se me perguntarem, é simplesmente um dos grandes álbuns da história do rock. Um crítico disse uma vez que, neste álbum, Bowie adotou uma atitude de “posso ser Dylan, Lou Reed e Syd Barrett de uma vez só!” – e foi bem isso mesmo. Assumindo cada vez mais uma persona andrógina e brincando cada vez mais com a ambiguidade sexual, Bowie aparecia na capa parecendo uma moçoila loira frígida de uma fotografia antiga. Conta-se que ele chegou à sessão de fotografias louco para parecer com Marlene Dietrich – e a foto vintage que estampa a capa de Hunky Dory “tem um carisma próximo ao de uma rainha do cinema em decadência” (BM).

Hunky Dory contêm uma filosofia difícil de descrever, mas que soa como uma mescla de Nieztsche, Crowley, Darwin, Warhol, Dylan e anfetaminas. Bowie, feito um Zaratustra do Pop, faz referência à chegada de uma certa era em que a humanidade ficaria obsoleta e fora-de-moda, uma raça tornada quase inútil (“homo sapiens have outgrown their use”, canta ele), tendo que ser substituída por uma outra leva de super-homens que a juventude teria como missão inventar.

“The children that you spit on as they try to change their worlds / Are immune to your consultations / They’re quite aware of what they’re going through”,
cantava ele, com mais veneno ainda do que Dylan tinha feito em seu ataque às gerações mofadas e jurássicas em "The Times They Are A-Chagin'". Desnecessário dizer que, para o doidão iluminado que era Bowie então, esta nova Humanidade seria sexualmente desreprimida, poeticamente lúdica, musicalmente aventureira, comportalmente provocativa, explorando mil diferentes personas com completa desenvoltura e implodindo todos os clichês de comportamento ditados pela sociedade careta. Enfim: uma humanidade feita à imagem e semelhança de... David Bowie!

Hunky é uma espécie de auge artístico de uma década prolífica e geniosa para Bowie. Nela, o velho camaleão do rock passou por várias metamorfoses, soltando uma meia-dúzia de álbuns clássicos em suas diferentes encarnações. Gravou um dos discos mais seminais do glam rock com Ziggy Stardust, em 1972, quando assumiu o personagem um tanto andrógino e esquisitão de um extraterrestre que descia à Terra trazendo o rock de outras galáxias. E nós, pasmos terráqueos, ficamos para sempre contagidos com o som que fazia aquela criatura sexualmente ambígua que vinha acompanhada por uma banda de aranhas marcianas soltando chispas de eletricidade da boa. Assumindo o papel do messiânico e amaldiçoado rock star Ziggy Poeira Estelar, Bowie caiu fundo na brincadeira de ser uma estrela pop, vestindo roupas futuristas, maquiagem pesada e cabelos laranja resplandencentes.

Seu sucessor, o também brilhante Alladin Sane, “continuava na mesma plataforma genial de Ziggy e oferecia um relato brutal de um artista em ascensão.” Na sequência veio o álbum conceitual Diamond Dogs, baseado na distopia política seminal de George Orwell, 1984. Numa fase posterior, depois do fim de seu casamento com Angie e problemas de dependência à cocaína e álcool, Bowie, conta-se, estava “cada vez mais paranóico e obcecado com ovnis, ocultismo e Adolf Hitler” (CSh). Influenciado pelo novo rock vanguardista alemão de Can, Neu! e Kraftwerk, Bowie se meteu a fazer um disco que é sua versão do soul (Station to Station, de 1976) e depois compõs a famosa Trilogia de Berlim – cujo ponto alto é Low (de 1977), com a contribuição de Brian Eno.

Bowie nos 70's também faria importantes trabalhos como produtor de discos que se tornariam clássicos, como o Transformer de Lou Reed e o Raw Power de Iggy Pop com os Stooges. Sem falar que ajudou a parir o hino do glitter que o Mott the Hoople imortalizou, “All The Young Dudes”. Iniciou também uma carreira cinematográfica paralela, atuando no The Man Who Fell To Earth de Nicolas Roeg, contracenando com Kim Novak em Just a Gigolo e vivendo Pôncio Pilatos no A Última Tentação de Cristo de Martin Scorcese, entre outros papéis menos notáveis.

* * * * *

Para explicar em mais detalhes o charme e o impacto de Hunky Dory, passo a palavra para Pedro Só (extraído do Discografia Básica da Bizz, Abril de 2001):

O LADO MALUCO-BELEZA DA REVOLUÇÃO GLAM

Enquanto exaltava a nova raça andrógina e mutante, Hunky Dory também trazia recados de David Bowie para a garotada viciada em TV e sexualmente confusa diante das portas abertas pelos anos 60

- por Pedro Só -


Não era exatamente como divindade pop que aquele suburbano magrelo, ex-mímico, ex-mod, com três álbuns incoerentes no currículo, era tratado em Londres. Aos 24 anos, David Bowie já ensaiara passos como cantor-compositor hippie e tentara ser o que os ingleses chamam de "music hall entertainer" (uma coisa meio Ivon Curi). No começo daquele 1971, havia lançado um disco de rock pesado, The Man Who Sold The World, aparecendo na capa metido num vestidinho. De escassa repercussão, o trabalho despertou a atenção de um empresário canalha americano, Tony DeFries. Embarcado para os EUA, Bowie trocou figurinhas com Lou Reed e Andy Warhol. Começava o plano marqueteiro que o estouraria em 1972, impulsionado pelo rock'n'roll energético de Ziggy Stardust. A incipiente revolução glam já estava em curso, mas o futuro astro demorou um disco para cair dentro musicalmente.

Esse disco foi Hunky Dory. A partir dele, Bowie deixou de ser uma nebulosa promessa. Logo na abertura, "Changes" ("Mudanças"), inspirada pela gravidez da então esposa Angie, assumia sua natureza mutante e avisava: "Essas crianças em quem você cospe / Enquanto tentam mudar seus mundos / São imunes aos seus consolos / Eles sabem muito bem o processo pelo qual estão passando". O arranjo, porém, era típico de café-teatro, baseado no piano de Rick Wakeman (do Yes) e com mudanças de direção na estrutura harmônica a perseguir aquele truque Cole Porter de traduzir a letra em música.

Em seguida, mais uma adorável frescura pianística, "Oh! You Pretty Things!", saudava a chegada do filho Zowie misturando conceitos maluco-beleza nietzschianos ("abram alas para o Homo Superior"). Terminava com mais um alerta: "Todos os estranhos chegaram hoje / E parece que estão aqui para ficar".

Muito além da simples exaltação da nova raça andrógina e extravagante - mencionada em "Kooks", outro vaudeville coruja em homenagem ao pequeno Zowie -, as mensagens pegavam em cheio a garotada que crescia viciada em TV e sexualmente confusa diante de tantas portas abertas pelos anos 60. Meninos e meninas capazes de entender o zapping da balada "Life on Mars?". Nessa obra-prima bastarda ("inspirada por Frankie", informa a contracapa - no caso, "Frankie" Sinatra e sua versão de "My Way"), papai, mamãe, Mickey Mouse, Lennon "à venda de novo", a "Amerika", a decadente Inglaterra, sonhos de celulóide... tudo é triturado no coração de uma adolescente. E transformado em beleza pelas cordas arranjadas por Mick Ronson (1946-1993), guitarrista que passsaria à eternidade como o adorável presepeiro a escudar Ziggy.

Na categoria "grandes imitações", Bowie incluiu três recados para lá de ambíguos. "Andy Warhol", um pseudoflamenco, mais sacaneia do que homenageia ("Andy tira uma soneca", "Andy pensa em tinta e cola, mas que coisa legal mais chata!"). "Song For Bob Dylan" dirige-se ao bardo como se ele fosse um super-herói ("Dê-nos de volta nossa unidade / Não nos deixe com a sanidade deles"), não sem certa ironia. "Queen Bitch", talvez o único rock'n'roll do álbum, é paródia assumida do Velvet Underground, com vocais falados à Lou Reed e letra sobre uma bicha má que rouba o "amigo" do narrador.

Para fechar, uma pitada de originalidade, "The Bewlay Brothers". Por trás da letra críptica, impenetrável, repleta de referências à convivência com Terry (o irmão esquizofrênico de Bowie que se matou), o pathos da grande arte. Como algumas das melhores coisas da vida, você não entende, mas sente. Em Hunky Dory, se fez farejar pelo mundo o genial diluidor que há três décadas dá as cartas na música pop. A partir de idéias alheias, sim, mas e daí?


DOWNLOAD (192kps, 80 mb):
http://www.mediafire.com/?ynznkktw2qr

Sexta-feira, 15 de Maio de 2009

:: da série PÃO QUENTINHO ::




WILCO - The Album
http://www.4shared.com/file/106254714/b13ddb98/Wilco_-_2009__depredandoblogspotcom_.html (LINK CONSERTADO)


MÓVEIS COLONIAIS DE ACAJU - Compl_t_
http://albumvirtual.trama.uol.com.br/


ST VINCENT - Actor
http://www.mediafire.com/?qfwm04xyuod

Quarta-feira, 13 de Maio de 2009

:: rolê de metrô - volume III ::


walverdes

ROLÊ DE METRÔ - VOL. III
Mais um rolê pelo rock independente brazuca em 12 sons firmeza. Curtam aê!

01 - walverdes - refrões ao lado, classe média baixa records
02 - prot(o) - o amor em gestos calados
03 - banzé - um homem sem qualidades
04 - flicts - amigos
05 - luxúria - frankenstein do subúrbio
06 - rock rocket - por um r'n'r mais alcóolatra e inconsequente
07 - amp - ataque dos aliens
08 - macaco bong - shift
09 - los porongas - lego de palavras
10 - violins - grupo de exterminio de aberrações
11 - valentina - tribuna dos ladrões
12 - monno - o silêncio

DOWNLOAD
(46 MB): http://www.mediafire.com/?qw4um54zrn1

Segunda-feira, 11 de Maio de 2009

:: Lynyrd Skynyrd ::


LYNYRD SKYNYRD,
Pronounced Leh-nerd Skin-nerd (1973)


Em 1973, o Lynyrd Skynyrd emergiu dos pântanos da Florida como se fossem filhos adotivos do novo Sul norte-americano, uma cultura que simultaneamente se envergonha e se orgulha da sua hereditariedade. Quando gravaram o seu primeiro disco, os Skynyrd já tinham uma sonoridade própria bem aceita nos bares com música ao vivo de Dixieland e em outros locais de pouco relevo. E forjaram-se com três guitarras complementadas por uma seção rítmica e a voz de Ronnie Van Zant. Mas o mais importante deste disco, e aquilo que serviria de inspiração aos grupos incontáveis que estavam para surgir, é a ambiguidade que a banda destilava. Pareciam um bando de confederados, mas a sua música inspirava-se nos imigrantes negros. Pronounced... desafiava os estereótipos do homem sulista e tornou-se a primeira e autêntica banda a demonstrar uma atitude e um conceito social dentro do rock do sul daquele país. Inspirado no blues, no country e no The Who, o disco apresenta os melhores riffs que o rock tem para oferecer, especialmente na primeira canção incendiária, "I Ain't the One", e na destrutiva "Poison Whiskey". Enquanto seus rivais, os Allman Brothers, exploravam um som hippie embebido em jazz, os Skynyrd decantavam-se pelo virtuosismo mais profundo do blues. A acústica "Mississipi Kid" é um boogie puro do Delta e "Things Goin' On" bem poderia pertencer à banda de qualquer saloon do Sul. E por fim chega "Free Bird", um final épico que converteu o grupo numa celebridade e fez com que o disco entrasse para os TOPS das listas de vendas. Reflexiva, narcótica e acolhedora, esta canção é uma lição de nove minutos sobre rock e apresenta as maiores cargas elétricas que se tinham ouvido até o momento, e talvez até o presente. --- 1.001 DISCOS PARA OUVIR ANTES DE MORRER

DOWNLOAD (192kps, 8 faixas, 43min, 58MB):
http://www.mediafire.com/?vjfwagoduyz

Sexta-feira, 8 de Maio de 2009

O queridinho do Pacífico

*Francine Micheli




Há alguns anos atrás eu preferiria comer buchada de bode com fanta uva quente a ouvir hip-hop e companheiros do gênero. Digo, chegar perto de música do tipo. Tá, era birra mesmo.

Daí, como essa vida é bem irônica, fui aprendendo algumas lições que me fizeram enxergar claramente o que minha avó já dizia: não cospe pra cima, menina. Um belo e grande catarro verde caiu na minha testa.

Primeiro foi o esforço hercúleo de parar de maldizer um tal produtorzinho aí e reconhecer o poder bombástico da assinatura "Timbaland" no pop atual. Depois, foi admitir a inteligência do Kayne West. Depois foi cair de quatro pelo cd da Estelle e seu American Boy e perceber que hip-hop, misturado com outras coisas, fica lindo e faz a gente querer dançar a noite inteira. É que nem bacon. Dá um sabor especial a qualquer coisa, mas é foda de se comer puro.

Há alguns meses conheci P-Money - o melhor DJ da Nova Zelândia e quiçá um dos grandes fazedores de tunts-tunts do mundo. Vamos dizer que ele é um Timbaland kiwi, já que é também o produtor mais requisitado do Pacífico e domina o trabalho dos grandes nomes do R&B, rap e hip-hop dessas bandas aqui.

Quando "Everything" - o hit-bomba, começou a tocar pela primeira vez no rádio do meu carro eu logo já pensei: "Nossa senhora, música nova do Jamiroquai!". Não. Era P-Money começando a mostrar pra quê veio ao mundo.

A música - que na verdade é cantada pelo rapper também kiwi Vince Harder - é cativante, não só pelo beat "ui que diliça", mas pela qualidade da produção. Ahá, esse P-Money é mesmo de altíssima catiguria!

Pronto. A música bomba na balada e já ganhou militrezentas versões, inclusive na UK e Europa afora.

Não demorou muito, conheci as bandas e os artistas produzidos pelo rapaz. Scribe, David Dallas, PNC, o próprio Vince Harder e uma caralhada de gente boa da NZ. Claro que não dá pra dizer que é tudo uma maravilha e sair por aí com um cifrão de ouro pendurado no pescoço, mas olha, me surpreendi com o potencial do garoto.

Pelo visto o DJ tem tudo pra ser a próxima novidade e me dá agonia lembrar que perdi a discotecagem dele em Hamilton semana passada por causa de uma chuva ridícula.

O que mais chama atenção no trampo do cara é a cabeça aberta e um puta talento pra pegar a veia comercial da coisa, o que pode parecer coisa ruim, mas não é. Ele sabe misturar diferentes estilos em uma batida só, pegar melodias simples e colocar um grande arranjo no fundo.

Consegue botar todo mundo pra dançar sem machucar os ouvidos dos mais sensíveis.

Engraçado é que o moço não tem site, somente um blog, onde ele também disponibiliza alguns samplers pra outros DJ's se esbaldarem. Mas é só isso. Não tem mp3 grátis na internet, não tem assessoria de imprensa, não tem frescura. P-Money é uma humildade só. Tentei achar os cds dele "Big Things" e "Magic City" pra disponibilizar aqui, mas advinhem? Só comprando mesmo, o que, no fim das contas, é muito válido e justo.

"Everything" é uma das músicas mais deliciosas e grudentas que já ouvi nos últimos anos e eu aposto que logo logo já vai ter show dele agendado no Brasil.

Alguém duvida?


Everything (P-Money and Vince Harder)


Say it Again (Scribe and Tyra Hammond produced by P-Money)


http://pmoneymusic.blogspot.com
http://www.myspace.com/pmoneymusic

Quarta-feira, 6 de Maio de 2009

:: da série PÃO QUENTINHO ::

BEN HARPER & THE RELENTLESS 7 - White Lies For Dark Times
http://www.mediafire.com/?umyyiwezdnj


ART BRUT - Vs. Satan
http://www.mediafire.com/?zdmhncn5f1w


CAMERA OBSCURA - My Maudlin Career
http://www.mediafire.com/?ijmyojmmyzz



BILL CALLAHAN - Sometimes I Wish We Were An Eagle
http://www.mediafire.com/?yqn22tdzzkt

Segunda-feira, 4 de Maio de 2009

:: Riot Grlll - parte 01 - KATHLEEN HANNA ::


REBEL GIRRRRL

- Kathleen Hanna mistura punk rock, new wave e tecno tosco para espalhar seus protestos políticos e disseminar o feminismo -

por Eduardo Carli de Moraes


"You learn that the only way to get rock-star power as a girl is to be a groupie and bare your breasts and get chosen for the night. We learn that the only way to get anywhere is through men. And it's a lie." --- Kathleen Hanna

Cantora, compositora, zineira, fotógrafa, punk-rocker, ativista política, feminista militante e garota-problema, Kathleen Hanna foi uma das garotas mais notáveis do rock independente americano dos anos 90 pra frente. Ela hoje é considerada um dos maiores nomes no Levante das Calcinhas ocorrido no punk dos anos 90, o maremoto riot que trouxe feminismo e engajamento para o centro do foco - junto com 3 ou 4 power chords socados com fúria e versos berrados por verdadeiras pimentinhas com fogo no rabo e veneno na língua.

Kurt Cobain, que tanto fez para propagar as bandas pequenas que achava merecedoras de maior atenção (como os Pixies, os Vaselines ou os Meat Puppets), prestou homenagenam indireta à Kathleen Hanna ao escolher o título do maior hino da década. Conta a lenda que Hanna um dia pichou com spray vermelho na parece de Cobain uma gracinha que ele jamais esqueceu ("Kurt Smells Like Teen Spirit"). Ela se referia, na verdade, a um desodorante - o tal do "Espírito Adolescente" - mas acabou gerando uma expressão que Kurt deve ter adorado: feder à espírito adolescente. Quem diria que daí nasceria o grande hit nirvanesco, retrato de uma geração, muito bem batizado por esta pastora da seita punk que tanto fez pela "cena"!

Hanna, antes de transformar-se num dos lumiares do riot grlll e militante feminista, foi antes de mais nada uma fodida na vida: sempre mandada pro diretor no ginásio, por fazer zona ou por ser pega usando drogas, foi obrigada a pagar um aborto, na adolescência, com grana arrancada de um trampo no McDonalds. Ela mesma confessa que, quando adolescente, só queria saber de três coisas: ir a shows (de punk e reggae), fumar maconha e ficar bêbada. Poderia também dizer: "brincar de mudar o mundo - e o maligno american-way-of-life - empunhando um microfone e berrando punk-rock". E vejam só o simbolismo: ela faz aniversário no mesmo dia - 12 de Novembro - que Gandhi e Charles Manson! O que (ela brinca...) talvez explique como ela pode ser, ao mesmo tempo, uma militante política pacifista e uma completa psicopata berrante ("Maybe this explains my freakishly dualistic, hot-headed, Scorpio personality", explicou ela na sua mini auto-bio digital).

Kathleen Hanna é nada mais, nada menos, que uma heroína do rock contemporâneo. É inimaginável o tamanho da influência dessa menina dentro deste movimento musical, político e comportamental - o riot grrrl - que procurou realizar uma mescla entre punk rock cru e incendiário com ativismo político e discurso feminista. Liderando o Bikini Kill, Hanna ajudou a acender a chama do riot como um gênero importante da contracultura musical na década passada, juntando uma atitude confrontacional e anti-capitalista com a obstinação em permanecer de pés cravados no underground. Foi a primeira vez que toda uma cena, baseada nos preceitos clássicos do punk - do-it-yourself e live-fast-die-youg - foi bolada por dúzias de garotas através da América, e capitaneada por Hanna em Olympia, W.A. (cidade imortalizada pelo Rancid numa das mais fodásticas canções do And Out Come The Wolves).

O riot grrrl sempre procurou confrontar os estereótipos do que uma garota poderia ou não fazer, questionando toda uma série de temáticas relacionadas com o feminismo ("estupro, abuso doméstico, sexualidade [inclusive lesbianismo], dominância masculina na hierarquia social e formas de libertação e potencialização da mulher", segundo a síntese da AMG). Dentre as principais bandas que simpatizavam com o "movimento" e que acabaram por ganhar o rótulo riot (querendo ou não) estão o Sleater-Kinney, o Bratmobile, o Seven Year Bitch, o L7, o Babes in Toyland e as bandas e projetos paralelos de Kathleen Hanna (o Bikini Kill, o Julie Ruin e o Le Tigre).

O Bikini Kill lançou apenas dois álbuns de estúdio ('Pussywhipped' [94] e 'Reject All American' [96]) e duas coletâneas ('The CD Version of the First Two Records' [92] e 'The Singles' [98]) antes de encerrar suas atividades em 1997. Como introdução ao universo barulhento e estridente da banda, o álbum 'The Singles' talvez seja a melhor pedida, reunindo as músicas mais clássicas (incluindo "Rebel Girl", "Anti-Pleasure Dissertation" e "I Like Fucking") em um disquinho rápido de 9 faixas, algumas delas produzidas por Joan Jett.

Após o fim do Bikini Kill, Kathleen assumiu seu alter-ego Julie Ruin e gravou o tosquérrimo álbum homônimo em 1998, onde tocava quase todos os instrumentos (mesmo sem ter muita noção de como fazer isso) e começava a experimentar com eletrônica caseira. Na hora de sair em turnê, precisava arranjar uma banda de apoio para acompanhá-la e foram chamados Johanna Fateman e Sadie Benning. Ao invés de prosseguir com seu alter-ego, Hanna resolveu parir uma nova banda. Estava formado o Le Tigre.

O primeiro disco, lançado em 1999 pela gravadora comandada por Hanna (a Mr. Lady), é uma belezura de disco new wave conjugado com experimentos toscos com eletrônica. Fazendo uso de samplers, sintetizadores e bateria eletrônica, e misturando isso com a simplicidade tradicional dos power chords e riffões básicos do punk, a banda criou um mini-clássico do lo-fi moderno. É o tipo de disco que parece ter sido gravado num dormitório de garota equipado com alguns equipamentos baratos. É a velha idéia punk: você num precisa ter milhares de dólares na mão pra ir prum puta estúdio bem equipado, pagando um produtor renomado no mercado, comprando Fenders, Gibsons e amplificadores do tamanho de caminhões pra fazer sua música. Uma idéia na cabeça, uma vontade irreprimível de se expressar, e um pouco (bem pouco mesmo) de apetrechos técnicos (que nem é necessário saber operar direito) já é o bastante.

Certamente o Le Tigre não é pra todos os gostos: há quem irá falar mal só porque é simples, caseirão e não tem "virtuosidade" musical. É verdade que essas garotas não manjam nada de teoria musical e de escalas e arpejos e modos gregos e modulações e o caralho. E Kathleen também não está nem um pouco interessada naquilo que costuma se chamar de "cantar bem" (no sentido Elton John da coisa). Mas e daí? Precisa? "Nós favorecemos a expressão simples do pensamento complexo", ouve-se em "Slideshow At Free University", e é esse o caminho de Hanna. Pra que complicar as coisas? A "música em si" não é o que importa. E um berro desafinado dado com emoção vale mais do que uma performance vocal perfeita e afinada que é pura ostentação exibicionista.

A banda possui uma grande diversidade temática e muitos "links" - é a música-punk da Era Digital, enfim. Em "Hot Topic", música que dispara referências pra todos os lados, a banda vai enumerando toda uma série de heroínas do feminismo e do "rock feminino" (incluindo Yoko Ono, The Slits, Sleater-Kinney, Cibo Matto, The Butchies e mais uma pá de gente que nunca ouvi falar). Em "What's Yr Take on Cassavettes?" colocam em questão a genialidade ou não de um dos heróis do cinema independente americano (John Cassavettes). "The Empty" traz uma certa insatisfação com a lógica mainstream da música pop atual, com "as estrelas entrando e saindo dos automóveis e nós continuando a nos perguntar quando vamos sentir algo real":

The stars are getting in and out of automobiles
And we keep wondering when we're gonna feel something real
Keep waiting for a Santa that'll never come
A real party not just for people who're faking fun.
But everything gets erased before it's even said
And all that glitters isn't gold when inside it's dead.


"Deceptacon" é a mais bikini-killesca do disco, com o seu maravilhoso refrão nonsense ("Who took the bomp from the bompalompalomp? / Who took the ram from the ramalamadingdong?") e uma série de provocações a um certo personagem roqueiro vazio ("Your lyrics are as dumb as the linoleum floor") e que não enxerga a política nas letras hannianas ("Let me hear you depoliticize my rhyme"). Em "Let's Run", deliciosa tosqueira new-wave, Hanna declara-se a fim de espalhar sua demência ("I wanna spread my dementia / I wanna knock it off the line / Give me attention / Every day and every night...") com seu tradicional vocal nervoso e estridente.

Dançante e punky ao mesmo tempo, divertido e militante em iguais doses, transpirando vitalidade e espírito independente, esse disco é uma das inúmeras provas de que a mulherada rocker está muito viva. É provável que Hanna nunca venha a atingir de novo o grau de visceralidade punk do Bikini Kill, mas o Le Tigre continua expandindo seu legado com respeitabilidade. Não só musicamente falando, já que Hanna transcende o próprio domínio da música: é ativista política, zineira, dona de gravadora, pacifista, anti-Bushista, nova-yorkina moradora das proximidades do antigo WTC, sempre colocando a música a serviço de suas espertíssimas críticas sócio-político-culturais.

Atualmente, com todo o legado do riot grrrrl espalhado pelos anos 90 e 00, só mentalidades superficiais e restritas ao que é imposto pela mídia mainstream podem acreditar que as mulheres na música se restringem a ninfetas siliconadas e fabricadas ao estilo de Britney Spears - e suas dúzias de clones. Kathleen Hanna é um dentre muitos exemplos de garotas que pegaram em armas - ou empunharam microfones e guitarras - para criar alternativas e protestar contra a "bosta do jeito capitalista-cristão de fazer as coisas", como diz o próprio Manifesto de Hanna (cujos trechos notáveis compartilhamos na sequência).


RIOT GIRLL MANIFESTO, por Kathleen Hanna [excertos]

we recognize fantasies of Instant Macho Gun Revolution as impractical lies meant to keep us simply dreaming instead of becoming our dreams AND THUS seek to create revolution in our own lives every single day by envisioning and creating alternatives to the bullshit christian capitalist way of doing things.

we know that life is much more than physical survival and are patently aware that the punk rock "you can do anything" idea is crucial to the coming angry grrrl rock revolution which seeks to save the psychic and cultural lives of girls and women everywhere, according to their own terms, not ours.

we are interested in creating non-heirarchical ways of being AND making music, friends, and scenes based on communication + understanding, instead of competition + good/bad categorizations.

we are unwilling to let our real and valid anger be diffused and/or turned against us via the internalization of sexism as witnessed in girl/girl jealousism and self defeating girltype behaviors.

we hate capitalism in all its forms and see our main goal as sharing information and staying alive, instead of making profits of being cool according to traditional standards.

DOWNLOADS:

The Singles
http://www.mediafire.com/?ndmmfmg0iom



The CD Version Of The First 2 Records
http://www.mediafire.com/?au3ncxg0nyy


Reject All American
http://www.mediafire.com/?m1wwniqdzuy


Pussy Whipped
http://www.mediafire.com/?jbmrfcetyyx


Le Tigre - 1999
http://www.mediafire.com/?gzqzwrdtuzv


Feminist Sweapstakes - 2001
http://www.mediafire.com/?mtgnihmtmmz


This Island - 2004
http://www.mediafire.com/?yfzzjgzvzmw

LEIA MAIS: Kathleen Hannah por ela mesma - Wikipedia - Hanna fala sobre seu aborto em matéria para o SALON - Entrevista na INDEX Magazine - Bio - Treta com Courtney Love - Ms Magazine - Fan Page.

Sexta-feira, 1 de Maio de 2009

:: SONS DE ESTIMAÇÃO VOL V ::


Por Christian Camilo,
Guitarrista do Instiga

A guitarra do Instiga chora. Sejam lágrimas de distorção, psicodelia ou enxurradas de riffs, ela segue vertendo novos sons do rock brasileiro. A banda de Campinas está na estrada há oito anos e já tem três álbuns muito bem feitos: Máquina Milenar (2005), Menino Canta Menina (2007) e Tenho Uma Banda (2008), todos fresquinhos e disponíveis para download no site do grupo.

Christian Camilo, o homem que comanda a guitarra em prantos bem timbrados, concedeu uma ilustre visita ao Depredando e deixou seus sons queridos, que você confere (e baixa) logo aí. E quem quiser seguir Christian e os sons que instigam o músico também pode conferir as preferências do moço na BlipFM.

1 - Nick Drake – “Cello Song”: coloco nick drake porque vi uma versão desta mesma música e gostei muito

2 - We Are Scientists – “After Hours” : esta música representa meu estilo favorito de composição.

3 - Broken Social Scene –
“Stars And Sons”: pra mim, é a melhor banda da atualidade em atividade.

4 - Kaiser Chiefs – “Never Miss A Beat” : esta música me cativou pelo clipe e pela letra.

5 e 6 - Animal Collective – “Summertime Clothes” e “My Girls” : Esta banda tem se revelado aos poucos... Eu não sou o tipo de cara que vai atrás das bandas por causa de uma ou de duas músicas (já fui). Se o Animal Collective entrar chutando a porta pela terceira vez, eu infelizmente vou ter que ir atrás dos discos. Inclusive, se vocês acharem o mp3 dessas duas músicas, eu vou pegar de vocês (observação do Depredando: entre e fique à vontade! Noise!). O videoclipe de “My Girls” é muito bacana...

7 - The National – “So Far Around The Bend”: esta banda tem uns lapsos de genialidade. Esta música e “Fake Empire” são alguns desses lapsos...talvez tenha mais...não dá pra julgar mais nenhuma banda com um certeza cemitéria.

8 - Arcade Fire – “My Body Is A Cage”: bom, apesar da banda ser ótima, a música só consta aqui nessa seleção por causa de um fã dessa banda que fez o melhor videoclipe que um fã poderia fazer.

9 - Fujiya & Miyagi – “Ankle injuries”: gosto muito desta música... Não sei porque...Acho que é uma das poucas músicas boas em que a letra faz propaganda da banda.

10 – Rafael Castro – “E agora Wilson Breda”: bom, esse garoto sagaz merece estar em todas as minhas listas. E talvez daqui pra frente, na de vocês.

11 - The Phantom Band
– “Throwing Bonés”: Esta música fica como a cereja do bolo desta lista...

12 - The Hold Steady – “Stuck Between Stations”: Talvez o rock mais exótico desta lista - teclado de 10 reais de camelô. Uma voz de pinguço e uma guitarra com som muito estridente. Poderia dar um terrível acidente, mas culmina numa das bandas mais legais de se ouvir.

DOWNLOAD:
http://www.mediafire.com/?wmjuem3ejmi

Terça-feira, 28 de Abril de 2009

:: Caê ::

ISSO É CAETANO?
- por DIOGO SOARES -


Na zilionésima vez que ouvia o "Zii e Zie", do Caê, chegou um dos caras que mora comigo e tascou:

— Isso é Caetano?
— é sim, mas por que pergunta? - retruquei.
— Ahhh, se você dissesse que é um CD do Los Hermanos eu acreditava.

Em seu blog Caetano escreve que se vê como um "comentarista". Em oposição aos artistas que encarnam sua música, que a vivem, que a consomem e que se consomem. Entre eles cita Dylan e Jorge Ben (mas dá a dica que tá falando de Cobain e Hendrix também). Completa que isso dá margem pra muita gente não gostar de seus trabalhos. Mas que ele é assim mesmo. Tá de olho no mundo.

Em 2006 gravou "Cê". Agora lança com a mesma banda "Zii e Zie". Disse que ouviu até rachar o Pixies - BBC Sessions. Tava no show do Radiohead em Sampa. Discorre sobre Bowie e Nirvana. Diz que prefere Pistols ao Clash. Tudo isso num clima aberto para discussões numa troca bacana de idéias em seu blog.

Os dois álbus se completam. Z&Z acaba sendo menos ácido. E mais coeso. Mas pode ser explicado não como crítica ou avanço em relação ao Cê, e sim como parte de um conjunto maior de coisas. Assim, seria possível pensar que Caetano está olhando para os diversos contextos e influências que o rock carrega em seu DNA. Que vai cair num Mars Volta ou num Múm. Que tem Radiohead e Los Hermanos. Como eu disse, não há escolhas. Há comentários.




Sexta-feira, 24 de Abril de 2009

:: Medeski, Martin and Wood ao vivo em SP!!! ::

Orelhada!
Por Bernardo Santana


Constatação: o Depredando o Orelhão deve ao Medeski, Martin & Wood o equivalente ao PIB de um pequeno país em direitos autorais, tal é o chamego dos integrantes do blog pela banda. Para quem não conhece, trata-se de um trio de jazz-funk-experimental — WOW! — nova-iorquino formado em 1991 e que já prestou serviços honrosos à música muito mais vezes que qualquer dessas bandinhas preguiçosas por aí. Ainda não toca a sineta? Então toma essa, essa, essa e mais essa.

Este que voz escreve talvez engane bem, mas só conheceu a banda ano passado, graça ao twitter… Ok, mentira, só pra usar o sucesso alheio pra bombar a resenha… Na verdade, foi graças a um post do camarada Marcolino aqui mesmo, no D.O. Let’s Go Everywhere virou disco da vida, jazz de criança (no melhor sentido) pra mostrar pros filhos.

O show que estamos postando aqui serviu só pra confirmar quão foderoso é o trio. Realizado no SESC Vila Mariana no final de setembro do ano passado. Registrado graças a um pouco de cara de pau e a um gravador mezza boca (mas o som até que tá firmeza!). Ouvido por menos vezes do que deveria, admito, mais ainda assim troféuzinho exclusivo do Depredando (Yey!).

É só clicar e começar a groovear!

Quinta-feira, 23 de Abril de 2009

:: da série PÃO QUENTINHO ::

BOB DYLAN - "Together Through Life" [192kps - 51mb]
http://www.mediafire.com/?w2m3tzfqytz
extra: "Theme Town Radio Hour" (Dylan comanda 1h no rádio!)
http://www.mediafire.com/?ooy4gdj245y


PROPAGANDHI - "Supporting Caste" [192 kps - 52 mb]
http://www.mediafire.com/?jojmi2jyqz5


LAURA GIBSON - "Beasts Of Season" [192 kps - 60 mb]
http://www.mediafire.com/?zfalq3hj4rr


THE DECEMBERISTS - "Hazards of Love" [160 kps - 67 mb]
http://www.mediafire.com/?fmjfg0mmylf

Segunda-feira, 20 de Abril de 2009

:: Trail of Dead ao vivo! ::

...AND YOU WILL KNOW US BY THE TRAIL OF DEAD
ao vivo no Le Trabendo, Paris, 07/04/2009

por FABRÍCIO BOPPRÉ (*)


O Trail of Dead é uma banda que desperta muitas discussões. Não é, de modo algum, uma banda convencional (se é que há alguma). Os elementos que rodeiam sua música, a grandiloquência, as capas e ilustrações de seus álbuns, as vinhetas e faixas instrumentais orquestradas, as fotos e vídeo-clipes investidos de uma seriedade bem mal-disfaçada, tudo isso costuma atribuir aos caras uma pretensão meio diferente, algo que costuma-se associar ao pessoal do metal e seus temas habituais. E, antes que você tenha a oportunidade de assisti-los ao vivo, muito se ouve falar sobre a teatralidade de suas performances. Sem contar que estamos falando de uma banda que se intitula, na verdade, … And You Will Know Us By The Trail of Dead. Enfim, exagero é uma palavra que combina bem com o Trail of Dead, e não são poucos os que costumam achar que a banda soube trabalhar bem com isso até o Source Tags and Codes, obra-prima de 2002, mas que nos três discos seguintes, perdeu a mão e a coisa degringolou-se. Daí a transformarem-se, na opinião de muitos, em uma banda meio caricatural, em alguns casos até meio anedótica, não tardou.

Eu confesso que sempre fiquei meio confuso, o Trail of Dead sempre foi um enigma para mim. Não entendia os caras direito. Mas vou aproveitar a digníssima ocasião — eu vi o Trail of Dead ao vivo! — e fazer um esforcinho reflexivo aqui.

Apesar das evidências acima, muitas outras características da banda não batiam, não combinavam com essa idéia de que se trata de um pessoal que se leva a sério demais. Já viu alguma entrevista da banda? Os caras não param de falar palhaçadas. Suas respostas e explicações são sempre estapafúrdias, brincadeiras inventadas na hora, numa aparente competiçãozinha interna que eles promovem para ver quem fala a besteira mais engraçada. E apesar da arte de seus discos — os desenhos barrocos de Conrad Keely —, das vinhetas e de ocasionais títulos pomposos, sua música, como se sabe, não chega a ser totalmente contaminada por essa esquisita atração por temas clássicos. Ok, há aqui e ali um interlúdio metido a atmosfera de idade-média, coros e coisas do tipo, mas a banda se presta ao respeito e faz uma música pesada, é verdade, mas sem apelar para qualquer das idiossincrasias do metal, como os vocais constrangedores, as letras patéticas, as exibições de virtuosismo, etc. E antes que alguém se ofenda, não foi essa a intenção: eu também ouço algumas bandas de vocais constrangedores, de letras patéticas e com exibições de virtuosismo. Há de se manter viva a criança dentro de nós.

Enfim, o Trail of Dead parece se posicionar num caminho intermediário, os caras gostam de usar essas referências todas, mas numa medida suficiente que os permite serem ainda rotulados de, bem, rock alternativo (na falta de um termo melhor), e manter uma distância segura do heavy-metal. E quando perguntados sobre tudo isso, dão gargalhadas, riem e se esbaldam falando besteiras. E quando não são perguntados, também. Se divertem com a confusão que isso causa nos desavisados e tratam tudo com irreverência, sem atribuir grande importância à sua música, apesar das aparências.

Fui assisti-los no dia 7 de abril no Le Trabendo, em Paris, um local pequenino que fica dentro do Parc de la Villette, uma espécie de enorme parque que concentra casas de shows de diferentes portes e também um conservatório de música. Eu já conhecia o Le Trabendo, pois lá assisti um show da Isobel Campbell com o Mark Lanegan, e estava algo curioso sobre como um local de dimensões e feições diminutas poderia abrigar um show do Trail of Dead e seus seis integrantes, com suas famosas tendências a promover o caos. Mas nunca deve-se subestimar a falta de gosto dos parisienses pela música mais, digamos, agressiva. Se Kurt Cobain ressuscitar e reformar o Nirvana, é capaz de Paris ser a única parada da “I Hate Myself and I Want To Die (and I Did It) Tour” onde os ingressos não se esgotarão. Tenho certeza que na apresentação da Isobel Campbell com o Mark Lanegan o acanhado Le Trabendo abrigou mais gente.


O show foi parte da divulgação desse novo disco, The Century of Self, composto e gravado me parece que baseado num sentimento de descartar as experiências e a musicalidade mais variada do disco anterior (que mesmo a banda julga um trabalho mal-sucedido, dentro de suas perspectivas particulares) e voltar a trabalhar com os extremos que os fizeram notórios, mas mantendo o crescente grau de importância à melodia, que a banda vem refinando disco a disco, desde sua estréia, em 1998. Mas antes de vê-los defenderem suas causas, assistimos aos nova-iorquinos do So So Glos, uma banda de punk-rock desse mais festeiro, bem honesta e dedicada.

O Trail of Dead entrou no palco sob os urros dos poucos parisienses mais ligados à boa música e com "Invocation", a faixa instrumental de abertura do Source Tags and Codes, saindo das caixas de som, reproduzida a partir de algum computador por perto. Momentos de expectativa sentidos na pele, guitarras em punho (três logo de cara, com Jason Reece iniciando o show de pé, deixando a bateria por conta “apenas” de Aaron Ford), logo a música começa a jorrar e as coisas começam a fazer sentido.

Três músicas do The Century of Self abriram o show, também as três iniciais do álbum: "Giant’s Causeway", "Far Pavillions" e "Isis Unveiled". Logo em Giant’s Causeway, o turbilhão sonoro que os caras geram é de impressionar, mas a música me parece muito mais baseada no seu peso toneládico do que em qualquer outra coisa, de modo que a coisa começa mesmo com "Far Pavillions", uma faixa que caiu no meu gosto desde a primeira audição do novo disco. A dinâmica dos dois vocais no refrão, a cargo de Conrad Keely e Jason Reece, é de arrepiar. Na sequência, "Isis Unveiled" até que me convenceu um pouquinho mais, pois aquele detalhe da guitarrinha solo do começo, com seu pique épico-feliz que sempre me remete às detestáveis bandas de metal-melódico (só de conhecer o termo eu já não mereço crédito algum nesta vida), ao vivo é totalmente engolido pela barulheira.

Aliás, é preciso dizer que não são poucas as vezes em que esta barulheira rouba algo da música dos caras. Em alguns momentos é realmente difícil distinguir alguma melodia saindo do palco, pois a união de todos os instrumentos e a forma pouco delicada com que eles são tratados transmuta-se em mero barulho denso e dissonante. Talvez a acústica do local contribua para isso, não sei. Mas na verdade pouco importa, pois ali no show, o divertimento deixa de ser puramente sonoro e passa a outros campos sensitivos, na observação/participação da festa que a banda promove. Em alguns poucos minutos eles já estão suando, já derrubaram muita coisa, Jason Reece já tocou guitarra, esgoelou-se e já esmurrou o segundo kit de bateria. Quando você lê ou ouve falar sobre como um show do Trail of Dead é visceral, ou mesmo quando você assiste a algum vídeo, você pode até criar algo bastante próximo em sua imaginação, mas, para ter uma noção exata do grau de alucinação, só presenciando.

E os caras não se levam a sério demais coisa nenhuma. Eles, antes de tudo, se divertem. Dão gargalhadas, dialogam com o público (interagem de outras formas também, que vou comentar depois), espancam seus instrumentos com genuína sede de rock ‘n’ roll e evidente júbilo. Conrad Keely e Jason Reece de forma mais acentuada, logicamente. Na verdade, somente Kevin Allen (também membro desde o início da banda, junto com Conrad e Jason) passa quase desapercebido em seu canto.

O setlist prosseguiu com algumas ótimas surpresas, como "Stand in Silence", ótima faixa do So Divided, e a linda "Clair De Lune", uma das melhores do Madonna. A banda não toca muitas músicas, foram 13 no total, mas elas se estendem bastante. Nenhuma é executada igual à sua versão original em disco, ainda que geralmente estas extensões não soem exatamente como improvisos, me pareceram sempre coisas bem ensaiadas, que tiram proveito do grande entrosamento entre eles, apesar das mudanças no line-up dos últimos anos. Dentre as preferências pessoais, marcaram presença "Another Morning Stoner" (minha música preferida de todos os tempos, se tivesse que escolher só uma, numa hipotética e absurda enquete) e "How Near How Far", que a banda parece ter decidido incluir no último instante, inclusive desculpando-se por algum eventual erro, já que não a tocava há algum tempo. Aliás, desconfio que "How Near How Far", com aquele seu momento mágico onde a música cessa e renasce devagarzinho, ainda há de ser transformada em núcleo de alguma metodologia psiquiátrica que visa curar pessoas que sofrem de depressão profunda.

E, à medida que o show vai acontecendo, o Trail of Dead vai levando tudo às últimas consequências. Auto-preservação é um instinto do qual pelo menos Conrad e Jason nasceram totalmente desprovidos. Em "Totally Natural", uma música que mesmo em disco já traz consigo uma carga de violência magnífica que você sente no corpo, ao vivo te faz pensar que Conrad Keely qualquer hora vai morrer no palco; de tanto se colidirem e se balançarem, seus órgãos internos simplesmente irão parar de funcionar e o demente vai falecer ali e ninguém vai perceber. Jason Reece, fazendo parte dos vocais de "Caterwaul", se joga no público, puxando pelo pescoço um ou outro pelo caminho e dividindo com eles o microfone. Em certo momento o cara ficou ao nosso lado e, embalado por aquela estrofe final estupidamente empolgante, dava pra ver a adrenalina transpirando do corpo atarracado do rapaz.

O show terminou com "Richter Scale Madness", clássico brutal do primeiro disco da banda, e aparentemente, entre mortos e feridos, salvaram-se todos. Momentos depois os caras já estavam em meio ao público, ainda encharcados de suor, rindo e tomando cerveja, Conrad Keely num estandezinho recebendo cumprimentos e tentando vender seus desenhos meticulosos. Um show do Trail of Dead derruba toda a aura de pretensão e gravidade que pode-se atribuir à banda, que pelo visto se diverte tanto batendo fotos posando com cara de malvados quanto debochando uns dos outros a cada tentativa desastrada de falar em francês, mesmo um simples merci beaucoup. Uns loucos muito divertidos e autênticos, sem dúvida alguma, que se já não fazem uma música brilhante como outrora, pelo menos protagonizam aquilo que é certamente um dos shows mais impressionantes que se tem notícia.


Setlist:

Giant’s Causeway
Far Pavillions
Isis Unveiled
Stand In Silence
Homage
Bells of Creation
Will You Smile Again For Me
How Near How Far
Clair de Lune
Totally Natural
Another Morning Stoner
Caterwaul
Richter Scale Madness


Downloads:

"SOURCE TAGS & CODES" [2002] (192 kps - 68 mb)
http://www.mediafire.com/?dtmz5lzyhtm

"WORLDS APART" [2005] (192 kps - 61 mb)
http://www.mediafire.com/?xgwzt2byvky

"THE CENTURY OF SELF" [2009] (192 kps - 83 mb)
http://www.mediafire.com/?j2wb2zn2jzz


(*) Fabrício Boppré, correspondente do Depredando em Paris, é o criador e editor-chefe do bacaníssimo portal Dying Days, dedicado a todas as bandas que revolucionaram o rock nos anos 90. Glue there!