quarta-feira, 25 de novembro de 2009

:: TOPs 10 2000-2009 ::

Década Danada
- Bernardo Santana -

(Esse post não reprenta a posição dos outros colaboradores-truta deste blog. Os deles vêm em seguida. Se tudo der certo... Para baixar, clique na capa do álbum.)

1º — STROKES/Is This It?
Barbada. Além de ser um puta disco roqueiro dançante legalzão cheio de hit combos, o Is This It? merece o topo porque fez a década. Fez no sentido de ser o som a ser copiado por todo mundo, tipo assim o… “novo Nirvana”! Yey! O mérito e a culpa do que veio depois não é dos caras da banda, claro, mas eles deveriam saber de que depois de colocar na praça sons do naipe de Last Nite, Hard To Explain, The Modern Age e Take It Or Leave It todo mundo ia procurar suas calças apertadas no brechó mais perto de casa.

2º — AT THE DRIVE-IN/Relationship of Command
Se o Strokes foi o que foi, o At The Drive-In foi o que deveria ter sido. Mas não, a banda preferiu “entrar em hiato” do que continuar lançando discos pesadaços e perfeitos como esse. Um som ao mesmo tempo original, acessível, intrincado, estranho, toneládico, lírico e intrigante. Eu até hoje não consigo nem traduzir as letras, quanto mais entendê-las por completo. E no palco o bicho também pegava feio, como qualquer consulta ao YouTube pode comprovar muito bem. Pattern against user, de fato, amiguinhos!

3º — LIBERTINES/Up The Bracket
Outra grande banda que se foi muito antes do que deveria, mas que entregou num disco só o suficiente pra uma carreira inteira de clássicos. A música caótica com ecos do Clash dos putinhas rendeu embaraçosas seções de air guitar a este que vos escreve (err… quando eu ainda tinha idade pra isso, claro…) nesta primeira década do milênio. Ao lado dos Strokes, banda mais influente da década na minha humilde opinião. O problema é que ninguém mais no mundo sabe tocar como eles… Ouça Time For Heroes pra entender.

4º — MEDESKI, MARTIN AND WOOD/Let's Go Everywhere
O trio danado do jazz/funk nova iorquino foi covarde com esse Let’s Go Everywhere. Além de estar em verdadeiro estado de graça instrumentalmente, ainda fizeram uma bolachinha pras crianças do mundo. Ah, mas que bunitinho… E o pior é que a iniciativa-Michael deu certo demais. É o disco de jazz mais palatável não só desta década, mas de toda a história da humanidade! Ok, forando a empolgação de fã novo dos caras, é clássico pra se ouvir por muito e muito tempo ainda. Do lado do bercinho e tal…

5º — PEARL JAM/Pearl Jam
Põe o dedo aqui quem não dava mais nem uma batata pelo Pearl Jam depois da virada do século… Mas toda a desconfiança e espera entediada vinda com os lançamentos menos inspirados acabou com essa bolachinha incrível de 2006. World Wide Suicide finalmente resolveu o que eles tentavam fazer com o som nos últimos cinco anos, Parachutes fez o mesmo no quesito baladas e Unemployable é coisa inédita no repertório pra surpreender macaco velho. O resto é só foda pra caralho.

6º — JACK JOHNSON/In Between Dreams
Pra fogueira com os malditos puristas. Pop para as massas pode ser música boa, sim! Sob o risco de ser deserdado por 97% dos camaradas, eu afirmo: Jack Johnson pra presidente. De ponta a ponta, um disco que baixa a rotação desse mundo neurótico e ainda tem as manhas de falar de amor bobo sem parecer… bobo. 14 perolinhas despretensiosas jogadas aos porcos com aquele vocal meio percussivo do surfista e por sua mão direita única no violão.

7º — RYAN ADAMS/Gold
Outro potencial destruidor de amizades rockers quase certeiro, mas que vale a pena o risco. Vindo de uma carreira já bem interessante naquele negócio que costumava se chamar Alt Country, Ryan Adams se equilibrou em sua carreira solo entre o som “já ouvi isso antes” e o breguinha fabuloso da música caipira dos EUA. E o melhor foi que ele conseguiu fazer bons discos com isso. Gold, pra mim, é o melhor de longe, com suas 478 baladas românticas de chorar e seus 1/5 rocks caipiras. Mas é bom demais. Juro!

8ª — MORRISSEY/You Are The Quarry
A carreira solo do ex-vocalista dos Smiths já teve seus providenciais altos e baixos, hits e malices, mas You Are The Quarry é o ponto mais alto do poeta vegan de Manchester nesta década. Com uma banda decente finalmente, e arranjos de cordas sem afetação, o som competente e ganchudo do disco quase faz a gente esquecer que as atormentadas letras do topetinho atormentado só melhoram com o tempo. Elas ainda fazem parecer que ele é um coitado miserável que o mundo esqueceu… Mas, por deus, que coitado talentoso.

9º — FIONA APPLE/Extraordinary Machine [bootleg]
A primeira versão do terceiro disco da cantora e pianista americana (a gravadora disse não e pediu reforma) é uma bagunça. Musical da Disney misturado com jazz, mas inteiro assoviável, Machine é uma obra de arte perfeita sendo pervertida por uma classe de crianças de dois anos esquecida num estúdio. E todas elas vivem na cabeça de uma menina perturbada que canta como um passarinho chamada Fiona Apple. Música lúdica maluca.

10º — LOS HERMANOS/Bloco do Eu Sozinho
Sem precisar forçar nem um pouco a amizade e o bom senso pra colocar um disco nacional no top 10, aqui estão eles. Mais que todas as músicas bacanas que conseguiram fazer aqui misturando weezer, outras alternativices, hardcore, ska e já bastante samba e MPB, o Los Hermanos ainda teve o peito e o talento pra ser a primeira (e até agora única) banda indie gigante do país, peitando gravadora e o caramba. Seria histórico mesmo sem o repertório original e já clássico dos caras em Bloco. E viria mais depois.

[Menção honrosa] – SILVERCHAIR/Young Modern
Se você não ouviu o Silverchair depois que eles deixaram de fazer sucesso (ou seja, nesta década), esqueça o conceito que tem da banda agora. Cada vez mais, Daniel Johns e companhia vão rumando pra esquisitice musical do bem, tentando criar melodias perfeitas que ninguém nunca fez antes e um instrumental de rock sem clichês. Trabalho ingrato depois de mais de 50 anos do gênero, mas que vem dando frutos como em Young Modern. Vale ouvir e fica como representante de todos os discos foda que não entraram na lista.

E por hoje é só.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

:: Them Crooked Vultures ::


DREAM TEAM


- Josh Homme, Dave Grohl e John Paul Jones somam
suas forças num coletivo matador que já nasce clássico
-

por Eduardo Carli de Moraes



“Make your favorite music or go fuck yourself.”
(JOSH HOMME)


A tentação de chamá-los de “supergrupo” é quase irresistível – por mais que o rótulo soe um tanto idiótico. O Them Crooked Vultures possui um line-up tão espetacular que não há como evitar que nossas expectativas atravessem o teto e adjetivos hiperbólicos se amontoem na descrição deste fodástico power-trio. Afinal, o “dream team” formado pelo ex-batera do Nirvana (e líder do Foo Fighters), o ex-baixista do Led Zeppelin e o guitarrista do Queens Of The Stone Age (e do Kyuss) é de deixar qualquer roqueiro salivando. Mas e o resultado? Está à altura da reputação destes mito vivos que são Grohl, Jones e Homme?

Os céticos tinham sua parcela de razão se previam que este álbum seria um embuste ou uma decepção: estivemos testemunhando, nestes últimos anos, uma carrada de “superbandas” atingindo resultados duvidosos e nos fazendo suspeitar que gananciosas intrigas corporativas, muito mais do que projetos artísticos consistentes, eram os verdadeiros móveis por trás dessas uniões. Chris Cornell, p. ex., juntou-se a Tom Morello e sua cozinha, mas o Audioslave não se tornou exatamente um monstro mítico que juntasse o poder de fogo do Soundgarden e do Rage Against the Machine. O grupo se desfez depois de 3 bons álbuns (num caso em que ser “bom” é quase uma vergonha: esperava-se deles nada menos que “de-excelente-pra-cima”!), e a “ressaca” pós-fim-de-banda pareceu deixar Cornell desnorteado, sem-noção e na pior fase de sua carreira (a julgar por seu medonho álbum solo mais recente... que saudades de Euphoria Morning e de Superunkown!).

Já Scott Weiland uniu esforços ao Slash, mas o Velvet Revolver ficou longe de ser tão explosivo quanto o Guns N Roses ou o Stone Temple Pilots na história do rock moderno. Jack White, por sua vez, também meteu-se em “projetos” grandiosos – o Racounteurs e o Dead Weather – sem conseguir algo que se assemelhasse ao que conquistou com a genial simplicidade do White Stripes. O que impediria, pois, o Them Crooked Vultures de se tornar mais um tiro no escuro, e um tanto fora do alvo, destinado a se tornar um “item menor” na discografia de seus membros?

É que superbandas e superbandas... Algumas são montadas pelas grandes gravadoras e produtores, interessados num grande estouro comercial que lhes encha o rabo de verdinhas - e nada parece mais promissor que juntar no mesmo time músicos de bandas famosas, “raptando” para o novo grupo os fãs somados das bandas-de-origem dos membros... Mas há “superbandas” que se juntam de modo muito mais genuíno e espontâneo: pois os artistas se admiram, apreciam os trabalhos uns dos outros e sentem um baita tesão com a idéia de tocarem e criarem algo juntos.


Este segundo caso é claramente o que se aplica aos Crooked Vultures. O importante a frisar é aqui não estão caras jovens, deslumbrados com a fama e querendo fazer sucesso a qualquer preço. Todos os três já possuem pançudas contas bancárias, milhares de fãs devotos e reconhecimento artístico de sobra: já estão muito além das mesquinharias do pop.

Os que são (justificamente) céticos em relação às superbandas – que por vezes soam mesmo como o equivalente dos arrasa-quarteirão hollywoodianos: muita pirotecnia e efeito especial, mas conteúdo pífio e história tosca – podem ir sem medo ao Crooked Vultures. This is the real thing! A sonzeira matadora que este debut magistral carrega em seus dez mil decibéis de potência é um advogado de defesa perfeito, nos provando que química, entusiasmo, criatividade e pegada não faltam a estes três músicos no topo de seu jogo.

Desmorona logo às primeiras músicas qualquer suspeita de que isto pudesse se tratar de um “projeto paralelo” (“cada uma que inventam!”, ralhou Josh Homme numa entrevista ao deparar com este rótulo indigesto!). Nenhuma banda com 3 músicos deste naipe, que são ouro maciço do mais puro quilate, merece ser rotulada como “projeto paralelo” (no sentido de algo secundário e periférico em relação às “bandas centrais”). E certamente o Crooked Vultures não está sendo vista assim (como um mero “projetinho de lazer”) por nenhum de seus integrantes.

Dave Grohl e Josh Homme já são amigos de longa data – tanto que já tocaram juntos em Songs For The Deaf, álbum de 2002 do Queens. Os dois já tinham combinado faz tempo que trampariam juntos “assim que os calendários batessem” e parecem muito empolgados com a chegada deste momento. Mas não parecem ser camaradas daqueles que se zoam por serem uns cuzões, mas muito mais do estilo “lendas vivas que se respeitam”.

E talvez seja preciso ser músico para entender o tesão quase sexual que Josh e Dave devem sentir ao pensar: “bloody hell, 'tamos tocando com o cara do Led Zeppelin!” Mas o imenso prazer de estarem juntos, que transparece claramente no álbum, certamente não apaga a “responsa” que uma união destas carrega. E eles não fugiram dela, nem deixaram de honrá-la: este é certamente um dos discos de estréia mais responsa da década. E já nos faz começar a torcer para que não seja o único.

A sensação que fica, logo às primeiras ouvidas, é que eles quiseram fazer algo clássico, o que é irrealizável sem que se tome certos riscos e sem que se negue a trilhar as estradas mais fáceis. E é bem provável que o tenham realizado: não temos ainda o veredito da história, que só as décadas futuras darão, mas este é o tipo de álbum que causa um terremoto tamanho quando o ouvimos as primeira vezes que soltamos expressões exageradas (“clássico instantâneo!”) achando que são as únicas “mots justes” que fazem juz a nosso entusiasmo...


Que Josh Homme é um mago-das-guitarras dum punch fenomenal já sabemos faz tempo. Desde sua puberdade no Kyuss, quando mal tinha pêlos no saco mas já era dono do ampli mais diabólico do deserto, Homme vêm reinventando o instrumento como poucos músicos vivos. Mas neste álbum ele se supera: passeia por riffs, licks, hooks e solos com tamanha verve e feeling que mereceria o apelido de Capitão Gancho – como bem sabe quem foi “enganchado” por “New Fang”, o excelente primeiro single.

“Elephants” é mais mastodôntica que qualquer coisa que Jack White já tenha feito – e pesa, sozinha, toneladas mais do que o clássico álbum dos White Stripes. Quem curte o tal do “heavy metal inteligente” (andam dizendo que isso existe...), certamente irá se esbaldar com esta sonzeira que remete ao stoner-rock das antigas ao mesmo tempo que pisca os olhos para o Mastodon ou para o Converge, celebradas bandas do novo metal.

Já “Scumbag Blues” nos leva para um chapado rolê pelo lado mais noisy dos anos 60, evocando o Cream e o Blue Cheer, com a tecladeira de Jones e a cantoria à la Jack Bruce de Homme tornando-a uma pepita digna de figurar no Disraeli Gears.

Inúmeras provas se encontram neste álbum matador de que Josh Homme não está interessado em desfilar seu virtuosismo como fazem os estranguladores-de-peru profissionais, à maneira de Steve Vai e Malmsteen. Homme é um músico econômico, conciso e preciso. O que não impede seu som de ser luxurioso e sofisticado, ao mesmo tempo robótico e dançante, pesado mas cheio de groove, e que vai transando com perfeita química com as linhas de Jones e a batera de Grohl. Por todo canto do álbum estão “ganchos” irresistíveis que certamente seriam aprovados por Jimmy Page, Angus Young ou Keith Richards – e que nós, reles mortais, também ouvimos com a plena empolgação de nossos pescoços head-bangantes e nossas air-guitars esporradas.


Ouçam o solo matador de “Warsaw”, que mais parece uma gaita harmônica que atravessa um pedal wah-wah, e tentem não pirar com a molecagem esperta de Homme. Eis um guitarrista que brilha ao apostar na simplicidade memorável muito mais do que na complexidade dispersiva. Ele costuma centra foco em sequências breves de notas, que entram numa espécie de loop, tão cativantes e memoráveis que voltam para assombrar nossas insônias ou nossas filas-de-espera. O efeito é chapante, sublime, mortífero!

Até suspeito que daqui a algumas décadas, quando os historiadores da guitarra olharem para trás tentando encontrar, nesta década que se acaba, os grandes inovadores e subversores das 6 cordas, talvez os encontrem principalmente em Homme e Frusciante.

Como vocalista, Josh também mostra-se cada dia melhor e mais confiante: sua voz soa expressiva, agradável e cool. Ele nada têm das frescurites e exibições-de-culhão de muitos “cantores de rock pesado” (não está tentando ser Dio ou Dickinson, e nem tem potência de voz pra isso); mas criou um estilo vocal próprio e que mostra-se a cada dia mais versátil. Quando o esporro se acalma, pode-se ouvir mais claramente toda a beleza do seu canto - como acontece em vários momentos da power-balada “Bandoliers”, onde ouvem-se claramente as lições que aprendeu com seu camarada Mark Lanegan. Decerto que falta a Josh o vozeirão rouco e sujo-de-uísque que o vocalista do Screaming Trees emprestou a algumas sublimes músicas do Queens, mas a imitação/homenagem que ele faz a Lanegan é digníssima. Até seu “ataque” vocal mostra-se capaz de ferocidades quase juvenis: como quando canta “Reptiles” ou declama, no maior gás, o refrão in-bloomesco de “Mind Eraser, No Chaser”.

As letras, também, estão excelentes – ainda que grande parte dos ouvintes “passe batido” por elas, sem entendê-las, por serem altamente crípticas e misteriosas. Josh parece estar escrevendo uma poesia suja e contracultural que nos faz suspeitar de uma certa influência de Brody Dalle, a líder dos Distillers com quem Josh é casado e têm uma filha. "I know how to burn with passion / Hold nothing back for future raction!”, canta Josh logo na primeira canção do Crooked Vultures, “No One Loves Me & Neither Do I”. E o ouvinte acredita plenamente que está, sim, frente a um homem que sabe arder de paixão e que não poupa nada para usar no futuro. “Use me up! Use me up!”

“I know how to get lost in lust / Not because you should, but because you must”, canta ainda Josh, soando deliciosamente herético nesta celebração da luxúria como um “must” (o que já ficava claro no magnífico videoclipe de “Go With The Flow”, do Queens, uma das mais acachapantes experiências sensoriais em clip da década!). Provando que hedonismo não é futilidade nem ignorância, Josh canta a beleza da entrega ao oceano de sensações da vida. Não acho que seria exagero dizer que é uma inversão de valores a que ele vem proclamando, quase nieztschianamente: um apelo para que Dionísio, com guitarras em punho, levante-se contra o Apolo e seu séquito de almofadinhas, coroinhas e salta-pocinhas!

“Innocence has no resistance / Against a wicked counselor / Such as I am”, canta em “Scumbag Blues”, brincando de ser uma “tentação encarnada” à qual “inocente” algum saberá resistir. Mais à frente, na música em que cria o brilhante neologismo com o cruzamento entre “amor” e “Calígula”, canta: “Darling, there are no taboos in lust!” Já na música dedicada a seus amigos-rua-sem-saída (ótima expressão, aliás!), garante: “Law is just a myth to herd us off the cliff”.

É como se a “luxúria”, que o mundo careta sempre insistiu em considerar pecaminosa, e que o cristianismo transformou em crime e os padres nos proibiram através de mitos (“law is just a myth...”), é celebrada e transformada em musa por esta luxuriosa entidade artística que são os Crooked Vultures. Este estilo-de-vida que entrega-se às “misérias da carne” e aos sujíssimos “prazeres dos sentidos”, como dizem os chatos-de-galocha de todos-os-tempos, é retirada do opróbrio e alçada a um trono. Para o Crooked Vultures, viver de verdade é abrir as portas da percepção, vastamente, ao tumultuoso e luxuriante universo das sensações. Não para se perder “futilmente” nelas, é claro, já que por trás de tudo há um profundo “sentimento de missão” que Josh canta faz tempo – como naquele seu verso clássico do Queens, em “Go With the Flow”: “I want something good to die for / To make it beautiful to live”.



Se há uma certa influência da lírica sombria característica do grunge, tanto no Queens quanto no Crooked Vultures, isto é sempre transcendido e superado: eles jamais estacionam nas sombras. Vejam, por exemplo, que há escondida nos meios de “Elephants” um momento de trevas quase soundgardenianas, que remetem a “Black Hole Sun” ou mesmo a “Crown of Love”, do Arcade Fire. Mas o interlúdio sombrio está lá só para que no momento seguinte uma imensa onda afogue o desânimo com carradas de entusiasmo. Josh canta: “No, I can never stay melancholy for long / I've got the memory of your face” [ Não posso permanecer melancólico por muito tempo / Possuo a memória do teu rosto]. Ao fim desta música, Homme celebra sua própria mutabilidade eterna e sua imunidade contra a melancolia - e conclui com o genial verso/corruptela: “I can never stay anything for long”.

Nem tudo é perfeito neste álbum genial, porém. Muitos ouvintes acharão “Interlude With Ludes” de um experimentalismo meio mala e torcerão para que o esporro rocker retorne logo. Já “Caligulove”, com seu jeito canhastrão, é uma das poucas músicas onde a lírica joshiana, sempre tão criativa e afiada, soa um pouco afeita à clichês: “I don't need a reason, baby / Put your arms around me”, canta Josh, parecendo um Al Green sedento por um let's-stay-together (ao menos por esta noite!). O clima é quase de pornografia e perversão – bem ao estilo do filme de Tinto Brass que “celebra” a devassidão de Roma sob o império de Calígula...

É uma safadeza que remete a uma das músicas recentes mais charmosas do Queens: “I Wanna Make It Witchu” - na qual o “it” do “make it” não refere-se, certamente, a jogar xadrez ou dominó. Talvez sejam estas as piores música do disco, mas isto não as desqualifica – do mesmo modo que ser a pior música de Nevermind ou Back In Black é coisa digníssima, ser a pior música do Crooked Vultures é ainda ser uma bela coisa. Sem falar que músicas que se chamam “Interlude With Ludes” e “Caligulove” não tem a mínima necessidade de serem boas: títulos tão sensacionais dispensam as músicas de quaisquer outros deveres!



Pra Josh Homme, não há sentido em ter uma banda se não for para fazer a música que você sempre quis ouvir. A música que te dá tesão, que te causa uma ereção, que é vulcão em erupção! Ele mesmo descreve seus objetivos nestes termos: sempre tentou compor álbuns que ele mesmo gostaria de pôr no som ou na vitrola e curtir adoidado. Os discos do Kyuss? Ele garante que os ouve direto – e os adora. Resume seu evangelho numa fórmula magistral: “Make your favorite music or go fuck yourself”.

Concepção que Dave Grohl também deve ter abraçado em muitas fases de sua vida, e que talvez tenha perdido um pouco sendo um rock star do mainstream à frente dos Foo Fighters, mas que ele certamente recupera neste “retorno-ao-autêntico” que dá com o Crooked Vultures. A sensação que temos é que Grohl toca bateria, neste disco, como se estivesse redescobrindo o que é o verdadeiro rock and roll. Ele não somente é extremamente preciso; toca com entusiasmo, fazendo a bateria parecer algo vivo e pulsante, e não um ritmado mecânico que algum robô poderia imitar. Dave Grohl toca como nenhuma bateria eletrônica existente do mundo, ou que venha a ser inventada, é capaz de fazer: injetando vida no ritmo e expressão às pancadas.

E Jones? Ele, que nos últimos anos andou produzindo loucuras de Diamanda Galas e dos Butthole Surfers, parece aqui reencontrar... sim! os tempos de rock and roll em plena curtição que viveu com o Led Zeppelin! E estou longe de achar que ele encare este projeto como algo secundário em seu percurso como músico, como se o mais importante tivesse ficado para trás... Deve ser também pra ele um grande orgulho e prazer estar fazendo um som com estes dois “moleques” que estão entre as mentes mais brilhantes do rock dos anos 90 e 00.

Os três, juntos, soam como camaradas inspirados numa jam, sim, mas não exatamente “descompromissada”: uma jam dentro da qual todos os participantes sentem que estão prestes a criar algo seminal. Neste sentido, os Crooked Vultures podem até ser vistos como dotados de um certo espírito “jazzístico”, já que no jazz os “super grupos” existem de longa data: pensem no exemplo supremo e clássico absoluto, Kind Of Blue, que reuniu Miles Davis, John Coltrane, Cannonball Adderley e Bill Evans!

“Can't afford to lose my cool”, canta Josh em “Warsaw”. Mas o Crooked Vultures não conseguiria perder o cool nem se tentasse. Como ensinavam os Sonics, banda garageira dos anos 60, que Homme certamente curtiu muito, estes caras conseguem numa bowa conquistar a virtude do roqueiro veterano: ir maintaining his cool. O que ouve-se em todos estes 66 minutos do debut dos Crooked Vultures é uma banda que não têm ansiedades neuróticas nem exibicionismos narcísicos – e que por isso soa desencanada e poderosa, original e aventureira, cheia de entusiasmo e frescor, na curtição suprema de um rock and roll fodástico. O resultado é um discaço estupendo, que emerge dos lodaçais do pop como um monstro do pântano, contendo uma concentração rocker explosiva e intensa, coquetel perfeito para encerrar a década com um esporro impecável.

DOWNLOAD:
http://www.mediafire.com/?nj0xyl30wmg
[zip inclui capa e letras]

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

:: The Evil Powers Of Rock'n'Roll ::



OS PODERES MALÉVOLOS
DO ROCK AND ROLL


- Celebradores das drogas, do barulho e de Satã, os punks-caipiras alucinados do Supersuckers desembarcam no Brasil como headliners do Goiânia Noise 2009 -

por Eduardo Carli de Moraes


Há bandas pra quem o rótulo "sex, drugs and rock'n'roll" não presta: é muito suave e comportadinho... Seria preciso dizer wild sex, heavy drugs and kick-ass rock'n'fucking'roll (agora sim!). No caso dos malucos do Supersuckers, bandinha selvagem e sacrílega como o capeta, a música não precisa ser nada além de uma festa de arromba. Pra eles, os excessos e a luxúria são lei - e a moderação, uma bobagem. Na Bíblia eles botam fogo; só seguem o que disseram os profetas de Mate-me Por Favor!.

Ratos do deserto, como era o Kyuss, o Supersuckers começou a levantar poeira em Tucson (Arizona) com seu cruzamento de punk-rock com country e rockabilly ainda nos anos 80. Profetizando que algo quente estava para acontecer no Noroeste americano, mudaram-se para Seattle, onde lançaram via Sub Pop o debut The Smoke of Hell (1992), com capa desenhada pelo guru-das-HQs Daniel Clowes. Na sequência, lançaram seus grandes álbuns noventistas, La Mano Cornuda (1994) e The Sacrilicious Sounds (1995), injetando hedonismo e sacanagem em doses cavalares no choroso e lúgubre cenário do grunge.

A simplicidade furiosa do ataque rocker remete a Cramps, Ramones, Undertones, Butthole Surfers, Reverend Horton Heat ou Rocket From the Crypt. Já uma certa pitadinha de hard-rock os aproxima do som dum Hellacopters ou dum Sahara Hotnights. Além disso, uma certa paixão pela música de raiz americana os transforma nesta coisa bizarra: punks que são fãs de Willie Nelson! (E que já gravaram um álbum inteiro de "country" em Must've Been High). "O Supersuckers – cujos ecos hoje podem ser encontrados em algumas bandas brasileiras, como Matanza e Forgotten Boys – ensina com perfeição como assimilar influências interioranas (no caso, um pé no country e outro no billy) sem perder peso e viço", escreve o Abonico R. Smith.


Os Suckers meio que seguem o evangelho de Jagger e Richards : "I know it's only rock and roll - but I like it!" Têm nomes artísticos estúpidos e hilários, que parecem ter sido inventados por um adolescente chapado duns 11 ou 12 anos (que tal um vocalista que se chama Eddie Spaghetti?!?). Eles têm fama de serem uns machistas nojentos, que tratam as mulheres como bonecas infláveis ou vadias - tanto que fizeram por merecer o rótulo de "whitrash". Pra curar ressaca, continuam bebendo, e só param quando desmaiam. Eles falam grosso, arrotam alto, peidam em público e escarram no chão, à entrada do saloon. Já assistiram todos os filmes de John Wayne e adorariam que ele tivesse vivido para ser dirigido por Quentin Tarantino. Não tem a mínima misericórdia pela saúde de nossos pobres tímpanos e só querem saber de viver uma "kick-ass life".

Esses suckers, que se auto-celebram narcisicamente como a banda de rock and roll mais foda do planeta, querem mais é conduzir seus ouvintes a atos de devassidão e alcoolismo, enquanto garfam as groupies e fazem canções de apologia ao pó e à marijuana não-viciante - sempre tocando turbinados por all kinds of booze... Em suma: uns docinhos de meninos, orgulho da mamãe!

E o melhor: eles estão vindo nos visitar... Arrumemos a casa, brazilians! Ou melhor: nos preparemos para tê-la destruída!...

* * * * *

INFO: A banda é a grande atração internacional do 15º Goiânia Noise, que ocorre dos dias 25 a 29 de Novembro, contando ainda com a presença do Dirty Projectors, Hermeto Pascoal, Móveis Coloniais de Acaju, Mercenárias, Bang Bang Babies, Sapatos Bicolores, The Name, entre muitos outros. Depredando estará lá cobrindo! O Supersuckers toca no dia 27/11, no Centro Cultural Martin Cererê (Rua 94-A, Setor Sul), com abertura dos chilenos do Guiso, dos gaúchos do Walverdes e dos goianos do MQN. O ingresso antecipado sai por 20 pilas; já o passaporte para assistir o festival inteiro morre por 50 continhos. A banda ainda toca em Sampa, no Clash Club (Rua Barra Funda, 969), no dia 28/11, às 20h - R$70 na porta, R$ 50 antecipado.

Nóóóise!


1992 - Smoke Of Hell


1994 - La Mano Cornuda
1995 - The Sacrilicious Sounds...




1999 - The Evil Powers Of Rock'n'Roll

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

:: café & tv em marrocos ::

Ferramentas – Efeitos – Blur. Foi mais ou menos assim que conheci a banda de Damon Albarn, brincando de destruir jotapegues no Photoshop. Incrível como a onipresente Adobe – que hoje em dia é como a Bosch, faz de carros a ímãs de geladeira – não o processou por uso indevido do nome da ferramenta. “Embaçado”, ouvi dizer na rua um jovem rico em léxico e temerário em traduções livres. Pois bem: empolgado com a canção número dois, comecei a me jogar contra a parede, com toda a força, como se estivesse praticando alguma espécie de le parkour indoor. Melhor, inroom. A cama atrapalhou um pouco, principalmente antes de eu ter a idéia de pregá-la na parede, para amortecer as pancadas. Quase nenhum tempo passado disso, abri a geladeira e abri uma caixa de suco de laranja. Não tomo leite. Estampada atrás na caixa, havia a foto de um grande amigo meu, desaparecido e ao mesmo tempo funcionário do mês em uma grande loja de departamentos. Parece mentira, mas depois disso, aconteceu a coisa mais surreal da minha vida. Fui até a tal grande loja de departamentos, e lá havia uma piscina de lona, vários discos jogados, aleatórios, sortidos e redundantes, por apenas uma nota de dinheiro, das vermelhas. E lá jogado havia um Think Tank. Grande amigo? Que grande amigo?

DOWNLOAD (52 mb)
http://www.4shared.com/file/113183417/573395e4/Blur_-_Think_Tank.html?s=1

domingo, 15 de novembro de 2009

:: sôdade matadera ::

:: Ó PEDAÇO DE MIM ::
Canções Sobre a Saudade
por Eduardo Carli de Moraes

"Ó pedaço de mim, ó metade exilada de mim..."
(Chico Buarque)


O sentimento talvez seja universal; mas a palavra para dizê-lo é um dos privilégios e orgulhos maiores do idioma lusitano. Tradutores gringos suam sangue tentando vertê-la para outras línguas e acabam classificando-a entre os vocábulos mais intraduzíveis que já encararam. Quem já não ouviu algum falante do purtuguês se vangloriando de que não se encontra equivalente de "saudade" nas outras línguas, mesmo as mais chiques? Os ingleses dizem "i miss you", mas não há nisso nem um grão de poesia ou lirismo... E os frances, coitados, só têm um verbinho manco, quase perneta: "manquer". Como é que se viram, os gringos, não tendo palavra pra dizer duma paixão d'alma tão fundamental? É, Riobaldo, pra "muita coisa importante falta nome"!

A saudade é um galho da árvore da solidão: segundo tio Aurélio, vem do latim solitate (soledade, solidão...). É a "lembrança nostálgica e, ao mesmo tempo, suave, de pessoas ou coisas distantes ou extintas, acompanhada do desejo de tornar a vê-las ou possuí-las; nostalgia". Como aqui: “Saudade! és a ressonância / De uma cantiga sentida, / Que, embalando a nossa infância, / Nos segue por toda a vida!” (Da Costa e Silva, Pandora, p. 83).

É isto de estar no presente como se está no exílio, tendo o passado o sabor de pátria, de ninho, de mãe. Ou a poética alegria de quem espia, com o olho da mente, suas caixinhas de recordações e álbuns de fotografia, agradecido pelo vivido, fiel ao memorizado. Ou este desejo de retorno aos instantes tão doces e memoráveis que quer-se revivê-los num eterno replay. É possível até ter saudade de coisas que nunca se teve e de lugares que não existem (quanta Bandeira não tinha de Pasárgada!).

É este misterioso sentimento que faz com que se apague toda a imensidão cósmica que temos diante dos sentidos e faz com que a consciência e o desejo se lancem de cabeça, numa doida vontade de outro tempo e outro lugar, onde o coração tem seu sustento e seu alimento - far far away... O sábio jagunço Riobaldo já sabia: "tem horas antigas que ficaram muito mais perto da gente do que outras, de recente data." (Grande Sertão: Veredas, pg. 78, José Olympio, 6a ed).

Há saudades alegres, nostalgias que deleitam, passados perdidos que trazem aos olhos lágrimas de felicidade... Num gingado cheio de malandragem, Chico Buarque chega relatando suas memórias da mocidade, cheia de "prazeres moleques", numa das mais hilárias canções da Ópera do Malandro. "Ai, que saudades que eu tenho dos meus 12 anos, que saudade ingrata! / Dar banda por aí, fazendo grandes planos e chutando lata. / Trocando figurinha, matando passarinho, colecionando minhoca. / Jogando muito botão, rodopiando pião, fazendo troca-troca. // Ai, que saudades que eu tenho duma travessura, um futebol de rua. / Sair pulando muro, olhando fechadura e vendo mulher nua. / Comendo fruta no pé, chupando picolé, pé-de-moleque, paçoca. / E disputando troféu, guerra de pipa no céu, concurso de pipoca...". É Chico brincando de Amélie Poulain!

Sobre "Chega de Saudade" nem é preciso falar muito: o marco-zero da bossa-nova, primeiro hit do jovem João Gilberto, já foi mil vezes regravada (inclusive pelos bã-bã-bãs Tom Jobim e Vinícius de Moraes) e está entre as mais conhecidas pérolas do cancioneiro popular brazuca. Quem é que não sabe cantar? "Pra acabar com esse negócio de você viver longe de mim...". Este clássico é tão clássico que o trazemos aqui em duplinha: primeiro, a versão tropicalista-carnavalesta de Rogério Duprat; depois, a de João.

O trompete choroso, cálido e acarinhante de Chet Baker destila saudosas notas também no lindo cool-jazz "There Will Never Be Another You". Aqui, a mulher amada e perdida é vista como insubstituível e inesquecível (como naquela outra: "unforgetable, in every way..."): "There may be other lips that I may kiss / But they won't thrill me like yours used to do / I may dream a million dreams / But how can they come true / When there will never ever be another you?" Canção de apaixonado, que sente a falta de sua preciosidade maior, na falta e na ausência do que é, para si, o melhor. Comovente na sussidão como só Chet calha de conseguir...


Músicas em tributo aos mortos também saem, por vezes, saudosíssimas. É o caso da homenagem prestada por Chris Cornell ao finado Jeff Buckley em "Wave Goodbye", um dos destaques do excelente álbum solo de estréia do gogó fenomenal que berrava no Soundgarden e no Audioslave, Euphoria Morning. Feita como se fosse para descer, como uma borboleta no escafandro, Mississipi abaixo, para encontrar o cadáver de Jeff ali, no fundo do rio do blues. A poesia de Cornell poucas vezes esteve tão afiada, e poucas de suas canções soam mais comoventes e sinceras. Tanto que jamais ouvi de ninguém qualquer tipo de ironia sugerindo um "crush" homossexual entre estes dois. Rilke dizia: "Desça até bem fundo: a ironia não chega até lá...". É o que Chris fez nesta matadora canção-de-amor e adeus à Jeff Buckley:


Every hurtful thing you ever said
Is ringing in your ears
(When you miss somebody)

And every thing of beauty that you see
Only brings a tear
(When you miss somebody)

You tell yourself everything will be allright
Try to stand up strong and brave,
when all you wanna do
Is lay down and die.


Pra não dizer que não falamos em blues... Quer material mais propício para uma dolorenta blueseira do que estar "homesick" ou "missing someone"? É ela, a saudade, o combustível da sensacional "It Hurt So Bad", de Susan Tedeschi, que entrega-se a uma performance vocal tão apaixonada e catártica que é difícil não compará-la à ferocidade de Janis Joplin. Aqui o aspecto sexual se intensifica, já que Susan descreve em seguidos versos todas as sensações corporais deleitosas de que sente falta: "I miss the arms that used to hold me / The tender way we used to kiss / I miss the way that you touch me / I miss the sweet taste of your lips...". Tudo isto entregue com tamanha catarse, num jorro de emoção tão autêntica, que trará lágrimas de excitação aos que abrirem seus tímpanos. E, no finalzinho, putzgrila... que gemidos! Que urros! Que fenômeno não deve ser essa mulher na cama!...

A melancolia chega perto de transbordar o cálice, e afogar o pobre ouvinte, na melodramática e carregada "Lonesome Tears", canção da fase mais "down" de Beck. Pelos idos de 2002, o menino Hansen terminou um relacionamento amoroso de mais de 10 anos; na tentativa de curar suas feridas, exorcizar seus demônios, transformar em canto suas memórias, compôs um dos álbuns mais sublimes e tristes de sua carreira: Sea Change.

Aqui as "lágrimas solitárias" já secaram, já foram reconhecidas como inúteis e ruinosas, e agora sobrou o desejo de "apagar" certos dias - talvez por terem sido bons demais e, por isso, insuportáveis demais quando não se tem ao lado a pessoa com que foram vividos. "I'll try to leave behind some days / These tears just can't erase / I don't need them anymore". Ao mesmo tempo sofrida e estóica, aflita e resignada, a canção traz Beck falando sobre a mutabilidade eterna dos assuntos do coração: "How could this world, ever-turning, never turn its eye on me? // How could this love, ever-changing, never change the way I feel?"

Mas a melancolia beckiana ainda encontra uma certa redenção no crescendo musical que ergue tão tristes sensações a um nível sublime... Já a melancolia de "Pedaço de Mim", uma das mais dilacerantes baladas da música brasileira, é de um pesadume quase insustentável: Chico nos recusa qualquer consolo. Aqui, o clima é mais de luto, de perda irreparável, de coração mutilado, do que de uma falta remediável. A saudade, aqui, é o "pior tormento" - "é pior que o esquecimento...". É uma saudade que lateja tanto, que sangra tanto por dentro, que quer-se, de qualquer modo, desfazer-se dela: "não quero levar comigo a mortalha do amor...". O clima é mais de "Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças": uma memória purulenta que, se se pudesse, ter-se-ia cirurgicamente removida...

Aqui estão em foco as saudades impossíveis: a falta de alguém que já morreu, ou daquilo que já se perdeu e sabe-se que não se reencontrará. "A saudade é o revés de um parto... / A saudade é arrumar o quarto / Do filho que já morreu". Triste sentimento da espera inútil, do desejo vão, daqueles que ficam no porto, de olhos molhados, a fitar o horizonte, sempre em vão: "A saudade dói como um barco / Que aos poucos descreve um arco / E evita atracar no cais...".

Marcelo Camelo, um dos mais ilustres discípulos buarquistas, também arriscou-se num território onde Chico foi mestre. Disfarçadamente, o ex-Los Hermano começa "Veja Bem, Meu Bem" fingindo que se trata de uma música de traição e de abandono: diz pra moça que sente muito por informar, mas que arranjou outro alguém pra lhe confortar, uma ajuda pra passar pelos dias ruins... "Pois a solidão deixa o coração neste leva-e-traz...". Na brilhância dessa narrativa, cabe espaço para uma "reviravolta", uma espécie de "final surpresa", bem ao modo de filmes fodásticos como Os Suspeitos ou Seven. "Se eu te troquei, não foi por maldade / Amor veja bem, arranjei alguém / Chamado saudade..." O efeito é maior quando se ouve pela primeira vez, decerto, mas continua presente nas outras ouvidas.

Ecoando as metáforas de Chico em "Pedaço de Mim", Camelo novamente evoca situações náuticas para descrever seu desalento na espera: "Enquanto isso, navegando eu vou sem paz / Sem ter um porto, quase morto, sem um cais...". Não é surpresa que tantos barcos e navegações apareçam como fantasmagorias poéticas nas canções nacionais sobre a saudade: suspeita-se que o vocábulo "pegou" mesmo quando os portugas pós-Cabral começaram a cruzar os oceanos, aportando inclusive na terra do pau-brasil, e começaram a sentir aquele "sôdade matadera" de que fala Caymmi. A saudade é um estar-a-navegar longe de casa, sem terra à vista, numa canoa embalada pelas tristonhas ondas da esperança...

E pra não acusarem a saudade de ser um sentimento pequeno burguês, de gente que só sabe levar em conta a esfera privada, ouçamos um das mais lindas baladas do Grandaddy, a banda mais saudosa do mundo hi-tech. Jason Lytle e seus comparsas do Vôvozinho, em toda sua obra, manifestaram a falta que faz o idílico mundo anterior à Era da Informática - antes dos ares-condicionados nas matas e dos aviões comandados por robôs. "Crystal Lake", talvez a mais bela música da banda, é nostalgia bruta, embalada por um desejo místico de retornar ao "lago de cristal", para longe desta frenética zona criada pelo homem moderno e sua sinfonia de celulares, PCs e ciborgues: "Should never have left the crystal lake / For areas where trees are fake / And dogs are dead with broken hearts / Collapsing by the coffee carts...".



Pra que não falem que francês não manja nada desta doença do coração manco (un coeur que manque...) ouçam a primeira-dama da terra de Napoleão, a esposa de Sarkozy, a musa Carla Bruni. Em "Tout le Monde", de seu disco de estréia, ela alça vôo para uma generalização sobre a humanidade: "todo mundo tem uma infância que ressoa no fundo de um bolso esquecido", canta ela, além de "restos de sonhos e cantos de vida devastados". E ela pede que reclamemos junto às autoridades uma lei que impeça que pessoa alguma possa ser esquecida: "...que personne ne soit oublié!"

E já que a saudade não é somente musical, mas altamente cinematográfica, ouçam "As Time Goes By", pra lembrar de Casablanca e do dueto mágico de Bogart e Bergman: o modo com uma memória que é ferida e mágoa, ao passar por uma cirurgia a dois, torna-se gratidão e doçura. "We'll always have Paris..."

Haveriam dúzias de outras que poderiam figurar aqui, nesta humilde coletinha. Mas ela não pretende ser nada mais que uma seleção subjetiva, eclética e viajante, centrada nas que mais tocam aqui nos meus tímpanos, que mais me tocam o coração, sem outra razão para serem gostadas fora o serem ótimas descrições da vida, em tantos de seus momentos... Pra terminar, passo a palavra a um que muito bem soube sofrer e cantar as amargas doçuras da sôdade matadera:


Meus caros, volta-se porque se tem saudade
Porque se foi feliz intimamente
Volta-se porque se tocou num inocente
E porque se encontrou tranquilidade

A despeito da vida que acorrente
Volta-se, volta-se para a sinceridade
Volta-se sempre, tarde ou de repente
Na alegria ou na infelicidade.

E nada como esse apelo da lembrança
Pra se transfigurar numa esperança
Essa desolação que uma alma teve

Assim é que, partindo, eu vou levando
Toda a desolação de um até quando
Num ardente desejo de até breve.

(Vinícius de Moraes)




TRACKLIST:

01. ROGÉRIO DUPRAT, Chega de Saudade
02. JOÃO GILBERTO, Chega de Saudade
03. CHICO BUARQUE, Doze Anos
04. CHET BAKER, There Will Never Be Another You
05. SUSAN TEDESCHI, It Hurt So Bad
06. CHRIS CORNELL, Wave Goodbye
07. LOS HERMANOS, Veja Bem Meu Bem
08. BECK, Lonesome Tears
09. GRANDADDY, The Crystal Lake
10. CARLA BRUNI, Tout Le Monde
11. CASABLANCA SOUNDTRACK, As Time Goes By
12. CHICO BUARQUE, Pedaço de Mim

terça-feira, 10 de novembro de 2009

:: Yael Naïm ::


:: UNE VOIX TRÈS JOLIE! ::

A talentosa francesa Yael Naim desembarca
em Sampa para 3 imperdíveis shows



"I'm a new soul, I came to this strange world
Hoping I could learn a bit bout how to give and take
But since I came here, felt the joy and the fear
Finding myself making every possible mistake..."



Nascida em Paris uns 30 anos atrás, de pais tunisianos, ela foi criada em Israel, numa cidadezinha perto de Tel Aviv, onde fez 10 anos de aula de piano clássico, cantou em bandas militares e furou seus LPs dos Beatles, da Aretha Franklin e da Joni Mitchell de tanto ouvi-los. Em 2000, visitando sua Paris natal, chamou a atenção de produtores e, instantes depois, tinha um contrato assinado com a EMI para o lançamento de seu álbum de estréia, In a Man's Womb (de 2001). Ela mesma considera seu debut um começo de carreira desapontador e que gerou anos de silêncio - até que ela tomasse coragem para sua nova aventura musical. Retornando em 2007, neste disco gravado com a ajuda do multi-instrumentista David Donatien, Yael Naim finalmente encontrou sua voz e um grande sucesso: na França, por exemplo, chegou no topo da paradas de discos vendidos, façanha enorme para um álbum cheio de canções em hebraico! O grande hit do álbum, a irresistível e linda baladinha feliz "New Soul", foi usada num comercial da Apple; e a publicidade, nesse caso, serviu para bombar uma artista que bem merecia ser mais conhecida. Outro destaque do álbum é a corajosa cover de "Toxic", de Britney Spears, que, sem brincadeira, ficou um primor! Neste adorável álbum, essa guria franco-israelita cometeu uma pequena obra-prima, uma bolachinha que leva a sussidade e a suavidade a graus de beleza que não víamos desde In Between Dreams, do Jack Johnson. Certas semelhanças podem ser apontadas com o som da Feist, da Tori Amos ou da Joni Mitchell, mas Yael Naïm tem um sabor todo próprio e viaja num universo bem pessoal; isso é world music de crásse!

"It was when I was really young that I sincerely believed to be an old soul reincarnated and I could even say it gave me a sense of superiority over others. But then as I subsequently did everything the wrong way round I concluded that it was actually my first time on earth and that I should learn to be a more humble..." - YAEL NAÏM

DOWNLOAD (192 kps, 70MB):


A moça faz shows em São Paulo nesta semana, no Bourbon Street (Terça, 10/11, R$ 55) e no SESC Pinheiros (Quinta, 12/11, e Sexta, 13/11, sempre às 21h, R$20) como parte dos eventos do Ano da França no Brasil. Corram que os ingressos estão se esgotando! Depredando recomenda também, a quem for vê-la no SESC, que cole um pouco mais cedo e confira a exposição de fotos de Henri Cartier-Bresson, um dos mais geniais fotógrafos franceses.


segunda-feira, 9 de novembro de 2009

::THE 13TH FLOOR ELEVATORS::


The Psychedelic Sounds of the 13th Floor Elevators (1966)

Do livro “1001 Discos para Ouvir Antes de Morrer”


Aclamados em Austin, no Texas, os Elevators já tinham feito shows em São Francisco antes de o movimento psicodélico ganhar importância. Depois, foi preciso ameaça-los com a suspensão do contrato para que voltassem a Austin e gravassem o que seria o primeiro disco de acid rock. O álbum vendeu surpreendentemente bem, graças, em parte, ao sucesso do single lançado um pouco antes, o sarcástico clássico do garage “You´re Gonna Miss Me”, que chegou ao 55º lugar na parada da Billdoard.


Ao promover abertamente os benefícios dos alucinógenos na capa do disco, a banda nunca se tornaria querida pelas autoridades; a polícia do Texas chegou a desmantelar o equipamento do grupo à procura de drogas. “A busca da sanidade em seu estado puro... forma a base das músicas deste álbum”, diz a contracapa, mas a mistura de rock de garagem com R&B nele contida é tudo, menos saudável. “Reverberation (Doubt)” e “Tried to Hide” são de um rock intenso, enquanto “Roller Coaster” e “Fire Engine” têm um tom sombrio e lúgubre. O líder Roky Erickson uiva como se estivesse possuído e os sons alienígenas do jug elétrico de Tommy Hall se somam à distorção geral característica da banda.


Os Elevators não duraram e Erickson tentou uma carreira solo (brilhante, mas irregular). Mas a lenda da banda continua viva, através de versões de grupos como o Spacemen 3 e, mais especificamente, o Primal Scream, que fez uma memorável releitura de “Slip Inside This House” (do segundo disco do Elevators, “Easter Everywhere”) em Screamadelica.

DOWNLOAD:

http://www.mediafire.com/?yyylyjddn30

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

:: warm tiny breads ::

THE SWELL SEASON - Strict Joy
[novo álbum do casal do filme 'Once - Apenas Uma Vez']


DEVENDRA BANHART - What Will Be Will Be



WOLFMOTHER - Cosmic Egg



JULIAN CASABLANCAS - Phrazes For The Young
[1o solo do vocal do Strokes]


TOM RUSSELL - Blood and Candle Smoke



BAD LIEUTENANT - Never Cry Another Tear
[novo projeto de Bernard Summer, do New Order/Joy Division]


WEEZER - Raditude

[ links nos comments ]

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

:: Procura-se ::


Por onde andará Stephen Fry?
Zeca Baleiro
por Francine Micheli

Sem sombra de dúvidas, "Por onde andará Stephen Fry" (1997) é figura ilustre na categoria de cds-perdidos-no-fundo-da-gaveta-há-miliano-atrás. E num surto de retrocesso, coloquei o bichinho pra tocar sem segundas intenções e tive um pensamento: é possível sim que nos apaixonemos pela segunda vez pela mesmoa pessoa - ou pelo mesmo disco.

Depois de 12 anos, o primeiro cd de Zeca Baleiro rodou repetidamente na minha vitrola e a cada vez era possível descobrir detalhes que eu, no auge da imbecilidade da minha adolescência, nunca tinha tido maturidade suficiente para absorver. É um trabalho conciso, redondo, engraçadíssimo, irônico e muito, muito competente. Disco de ouro na época, considerado pela Rolling Stone um dos melhores discos da década passada.

Ok, deixando os louros de lado, é bom lembrar que esse é o disco que tem o primeiro rock celestial do planeta: "Heavy Metal do Senhor" é uma pachorra talentosa, enquanto abre a porteira pra boiada que vem em seguida. É ponto de umbanda musicado, xaxado, boi-bumbá, róquenrol e uma particularidade: tudo junto sem parecer bairrista.

"Salão de beleza" critica a mania das mulheres de querer ser belas demais - sem soar lugar-comum, e "Parque da Juracy" homenageia Steven Spielberg e Genival Lacerda num techno-forró de lascar a sola do sapato e rachar o bico. Tem também a menos conhecida "Skap", uma declaração de amor simplesmente deliciosa e "Kid Vinil", um converta aos prazeres da tecnologia.

Às vezes, falar da criatividade de Zeca Baleiro pode ser algo meio chover no molhado. Mas quando se ouve o estreante Por Onde Andará Stephen Fry é fácil cair nas garras da sabedoria nordestina que tira sarro do resto do mundo.

E viva a buchada de bode!

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

:: Sleater-Kinney For Dummies ::


:: SLEATER-KINNEY FOR DUMMIES ::
por Eduardo Carli

Deve haver algum rótulo psicanalítico horroroso para descrever meu estado - compulsão obsessiva ou fixação no objeto libidinal, quem sabe? - mas eu prefiro descomplicar e dizer: com o Sleater-Kinney, tenho faz anos um tórrido love affair, plenamente correspondido e altamente recompensador, e que pra mim nada tem de patológico. Sleater-Kinney é vida!

Como não amar um punk rock tão empolgante e inflamado, cantado e tocado com uma emoção tão autêntica, turbinado com militância política e comentário social, e que ainda por cima é fruto de três garotas tão irresistivelmente cool? Desde o dia em que pela primeira vez ouvi "You're No Rock and Roll Fun" (um dos meus pet-sounds eternos para um air guitar e um karaokê-esganiçado no chuveiro...), desde a noite em que a melodia de "Little Babies" me deu uma insônia dos diabos por ser tão malditamente inesquecível, desde os momentos em que o crescendo e a catarse absurdos de "Step Aside" me lembraram de que o rock'n'roll é capaz de nos arrancar lágrimas, desde... bem, desde muito tempo atrás que eu guardo esta bandaça como uma das mais queridas de todas as que já conheci.

Nasceram em Olympia, Washington, na Costa do Pacífico, Noroeste dos EUA - cidade já celebrada pelo Rancid numa grande canção de ...And Out Come The Wolves. A princípio, foram uma banda restrita à cena riot grlll, rotulada com a reducionista etiqueta de "punk feminista", na onda do Bikini Kill e seus clones. Mas, a partir de Dig Me Out (1997), o primeiro dos clássicos, provaram ser algo bem mais colossal do que o feminismo e o punk - simplesmente, uma das grandes bandas de rock da América. A revista SPIN, por exemplo, não teve pudores de elegê-lo um dos 40 álbuns da década de 90 (merecidamente). Flertando com a new wave, com o grunge, com a Motown, lançaram mais um punhado de álbuns sensacionais: The Hot Rock e All Hands All The Bad One, clássicos modestos, e One Beat e The Woods, clássicos estrondosos. Em 2005, depois de conquistada uma fama considerável (estavam abrindo shows do Pearl Jam e aparecendo na TV nos David Lettermans da vida), declararam um hiato por tempo indefinido. Enquanto aguardamos, torcendo, o retorno de uma das mais apaixonantes bandas destas duas últimas décadas, é tempo de passear pelos 7 álbuns que as meninas nos deixaram (presentaços)...

Choque-se [shock yourself!] ao notar que um mero power trio (e de "menininhas"!) fabrica uma sonzeira de tão alta voltagem que ganha adjetivos como "colossal" e "monumental" na boca de críticos e fãs. Surpreenda-se notando que nem sente a falta de um contra-baixo na receita, tão certeiros, espertos e criativos são os riffs, licks e pirações da genial Carrie Browstein (recentemente eleita uma das 12 melhores guitarristas-de-calcinha da história do rock). Sinta calafrios na espinha com os gritos primais e as melodias doces e os blues anfetaminados que Corin Tucker, uma das mais comovedoras vozes femininas já a dar o ar de sua graça em disco, tira de seu abençoado gogó. Admire em êxtase enquanto a voz principal vai "transando" com a mais frágil e tímida cantoria de Carrie (The Hot Rock é quase um filme erótico-cult...), tudo ritmado pela batera-ciborgue e infalívelJanet Weiss.

Trago aqui uma coletinha - Sleater-Kinney For Dummies - com 15 sons que considero essenciais para quem ainda não conhece esta preciosidade de banda: privilegiando as musiquetas mais grudentas e fáceis de amar-à-primeira-ouvida, de várias fases e tendências, desde o riot grll primário de "I Wanna Be Your Joey Ramone", do começo de carreira, até as tendências mais épicas/Led-Zeppelianas de One Beat e The Woods. E pra não dizer que tamos miguelando disco, vai aí, além do ...For Dummies, o resto da discografia das moças.

Voilà:

GREATEST HITS [Seleção Depredando] - Sleater-Kinney For Dummies: 01) you're no rock and roll fun; 02) step aside; 03) little babies; 04) i wanna be your joey ramone; 05) oh!; 06) rollercoaster; 07) all hands on the bad one; 08) ballad of a ladyman; 09) get up; 10) wilderness; 11) end of you; 12) jumpers; 13) hollywood ending; 14) leave you behind; 15) sympathy.

DOWNLOAD
: http://www.mediafire.com/?xn2qfyt133y



1995 - Sleater-Kinney

terça-feira, 27 de outubro de 2009

:: pãos ou pães, é questão de opiniães... ::

!!!LINKS NOS COMMENTS!!!

A FINE FRENZY - Bomb In a Birdcage

TIM HECKER - An Imaginary Country

THRICE - Beggars


KINGS OF CONVENIENCE - Declaration of Dependence


TAKEN BY TREES - East Of Eden


FUCK BUTTONS - Tarot Sport

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

:: Kyuss ::

Antes da idade da pedra
- Bernardo Santana -


Lançado em 1992, Blues For The Red Sun foi o segundo — e melhor — disco da curtíssima e ensurdecedora carreira do Kyuss (pronucia-se "cáius", a propósito). Talvez você tenha ouvido falar dos caras como sendo “a primeira banda do cara do Queens of the Stone Age” ou “aqueles doidões que tocavam no deserto”, ou quem sabe como “os precursores do Stoner Rock”, ou algo que o valha… mas o Kyuss merece, com certeza, muito mais que isso na história do tiozão barrigudo que é o rock and roll.

Na época com dezenove aninhos, Josh Homme já mostrava em Blues todo o peso malemolente de sua guitarra. Aliás, na minha humilde opinião subjetiva, nunca mais (e eu disse NUNCA MAIS) desde então o cara soou tão certeiro em seus riffs. O peso bíblico de Writhe, Apothecaries' Weight e Molten Universe que o digam. Mas o grande mérito do Kyuss daquela época — e do disco aqui pirateado, por conseguinte — sobre o Queens, por exemplo, foi contar com muito mais do que a habilidade do molecote Homme para fazer seu barulho.

Diferente das rainhas chapadas de hoje em dia, a banda que gravou Blues contava com um vocalista de verdade, um batera até hoje apontado como influência em som pesado (e baita compositor também) e um baixista que sabia inserir groove verdadeiro no meio da pancadaria. Todas as músicas do disco têm um esmero instrumental impressionante, mas sem a frescura tão peculiar e contraditória do metal atual. Muito mais que seguir o esquema intro-verso-refrão, o Kyuss subvertia as estruturas da música popular, cagando montes pra necessidade de achar refrões ganchudos e congêneres. Aliás, as cinco músicas instrumentais espalhadas por seu segundo disco conseguem a façanha de serem alguns dos pontos altos da bolacha. Ouça Catterpillar March e tire a prova. Todo o trabalho perfeito dos instrumentos, no entanto, não tira o mérito de John Garcia, vocalista esganiçado-agressivo que, nas ocasiões em que aparece cuspindo seus impropérios, faz você entender por que o Kyuss não decidiu ser “só” uma banda instrumental.

É só pra encerrar a seção de comparações covardes; durante toda a audição do disco percebe-se que aqueles barulhinhos gravados lá no fundo nas músicas do QOTSA também não são tão novidade assim. Aliás, aqui eles ajudam a fornecer o forte tom psicodélico-do-deserto, que ficou bem mais acentuado nos álbuns seguintes do Kyuss, e são essenciais para completar o clima de Black Sabbath em jam psicodélica do disco.

Não que mude alguma coisa, mas o fato de que a banda alcançou tudo isso quando seus principais compositores ainda nem tinham chegado na casa dos vinte é de fazer muito músico por aí entrar em desespero. E nem pense em contar pra eles que Blues For The Red Sun foi considerado um dos 50 álbuns mais pesados da história pela revista inglesa Q. Se você é músico, foi mal. Se não é, baixe a bolachinha agora, ignore o que é “afinação baixa” e divirta-se enquanto tenta descobrir como bater cabeça e rebolar ao mesmo tempo…

[Nota pós-cagada: avisado por nosso excelso administrador, o sr. Lux Lúcio, tomei conhecimento de que este disco já havia sido postado no Depredando. Duas vezes. Sendo assim, vai também o resto da discografia dos minino pra não ficar muito feio.]

Wretch [1991]
DOWNLOAD: 87 Mb - 11 faixas


Blues For The Red Sun [1992]
DOWNLOAD: 89 Mb - 14 faixas


Welcome To The Sky Valley [1994]
DOWNLOAD: 90 Mb - 11 faixas


...And The Circus Leaves Town [1995]
DOWNLOAD: 90 Mb - 13 faixas

terça-feira, 13 de outubro de 2009

:: The Eames Era ::


THE EAMES ERA
Lounge Act, Woxy.com - 03/03/2006

Hoje, o Depredando é o blogue mais careta do mundo. Porque hoje não vamos depredar nenhum patrimônio público de uso coletivo. Não, nem mesmo escrever no banco do ônibus. Não vamos fazer nenhum pobre (pobre?) artista perder milhões de dinheiros por causa de um mais-ou-menos-bem-intencionado link. Ok, sem pânico: o download de hoje é LEGAL.

Pode parecer até que entramos na era dos “bom moços bem-intencionados” e só iremos, a partir de agora, espalhar a Palavra da Salvação em links aprovados pelo InMetro. A partir de agora, só domínio público, e aguardamos ansiosamente o dia em que o Katinguelê vai entrar nessa condição. Besteira! Adotamos todos os desdobramentos que a palavra nos permite pra falar sobre uma banda LEGAL, que tocou em uma rádio LEGAL, que disponibilizou um download LEGAL e também MUITO BACANA.

The Eames Era, banda natural do estado de Louisiana, EUA, começou em 2002 e lançou seu álbum de estreia em 2005, chamado “Double Dutch”. No ínterim, trabalharam com Eps e singles e ficaram famosos em rádios escolares por todo o país, tendo até mesmo uma faixa tocada em séries populares de TV, como Grey’s Anatomy. O som indie-pop que parece cuti-cuti / nheco-nheco, mostra-se “hard” no seu “core” e até mesmo sarcástico, diferente de pelo menos outras setenta e quatro bandas jovens e fofas que ostentam tais rótulos. Tudo isso e mais algumas mensagens trocadas via MySpace resultaram em um “Lounge Act” em 2006 pela rádio online Woxy.com, onde falaram sobre o início da carreira, turnês, uma van nova – perderam a antiga em um acidente durante os eventos do furacão Katrina – e, fizeram um barulho ao vivo.

Track listing:
Go To Sleep
Year Of The Waitress
- Interview -
Boy Came In
Could Be Anything
Dear Gabby

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

:: Casey Dienel ::


CASEY DIENEL
[ ENTREVISTA EXCLUSIVA ]
por Eduardo Carli

Começou como tietagem, e só depois virou jornalismo. Não é que o fanatismo, neste caso, trouxe seus bons frutos? Pois uma das benesses que trouxe a net foi ter facilitado tanto o fluxo de dados e a comunicação global que possibilitou algo inimaginável décadas atrás: que um latino-americano possa tietar, contactar e cortejar seu ídolo gringo, ainda que este esteja a milhares de quilômetros de distância - o equivalente hi-tech do "tirar uma casquinha"...

Casey Dienel foi a primeira artista por quem senti uma identificação, admiração e curtição suficientes para desejar entrar em contato, conhecê-la melhor, trocar idéias e impressões, dar um feedback repleto de gratidão, fazer-me reconhecer como um ouvinte atento, admirado, quase apaixonado... Depois de vários e-mails trocados, em que meus mimos e elogios foram recebidos com muita alegria e cortesia pela pequena, Casey topou me dar uma entrevista mais minuciosa - publicada, anos atrás, na capa da Revista Rabisco. Isso se deu um par de anos atrás, antes dela mudar seu nome para White Hinterland e lançar o segundo álbum; mas nada nas declarações dela soa datado. Pelo contrário: eis aí uma excelente key-hole por onde espiar um pouco da instigante e talentosa mente que criou dois álbuns tão lindos.

Poucos sabem disso, mas Casey Dienel, um dos segredos mais bem guardados da música americana, é uma das mais brilhantes e talentosas das cantoras/compositoras que surgiram nos últimos anos. A moça, que cresceu numa cidadezinha do Massachussets e depois se mudou para Boston para estudar música, foi uma criança de talentos precoces: tocava piano aos 4 anos de idade e beirando os já 10 compunha suas primeiras canções, trancada a sete chaves dentro do quarto, onde também se deleitava afundando o nariz nos livros. Não surpreende que uma garota que cresceu nutrindo um amor simultâneo pela poesia, pela literatura e pela música tenha se transformado numa artista de talento que transborda por todos os poros.

Wind-Up Canary (2006), seu álbum de estréia, lançado pela pequena HUSH Records, teve repercussão mínima dentro do circuito indie – o que é uma pena e constitui uma pequena-grande injustiça, já que o disco, absolutamente sublime e encantador, merecia ser recebido com uma salva de palmas mais intensa de público e crítica. Na linha de Regina Spektor, Aimee Mann e Fiona Apple, mas incluindo também influências mais ancestrais de Joni Mitchell e Chet Baker, a mocinha cometeu um álbum de doçura e poesia capazes de comover até os corações mais empedernidos.

Ainda com 20 e poucos anos de idade (ela é de 1985), Casey permanece ainda bastante obscura fora do circuito independente e vai lentamente galgando degraus rumo ao devido reconhecimento. Nesta entrevista exclusiva concedida por e-mail, a cantora narra um pouco seu passado como "criança prodígio", destaca sua paixão pela literatura e pela poesia, comenta a respeito do processo de composição das letras, pondera a respeito de seus planos para o futuro e sua relação com o sucesso comercial e a indústria da música, entre outras coisas. Voilá:


Eu: Conta-se que você começou a tocar o piano com 4 anos de idade e já estava compondo canções e escrevendo letras quando tinha 10 aninhos – e é impressionante que você tenha lançado um álbum como “Wind-Up Canary” com vinte e poucos anos! Você foi considerada uma “criança especial” que desenvolveu incríveis talentos bem cedo na vida? E seus pais desempenharam um papel grande no sentido de te direcionar a aulas de música e coisas do tipo, ou foi seu próprio amor precoce pela música que te levou a começar a tocar tão jovem?

CASEY: Se eu fui uma “criança” especial, eu nunca fiquei sabendo! Mas eu de fato penso que eu fui uma espécie de “sabe-tudo”, apesar de meus pais terem criado a mim e à minha irmã para sermos bastante auto-depreciativas e h
umildes em relação a assuntos como arte. Mas eu definitivamente não era uma criança-prodígio, e, pior, sempre fui bastante tímida... Então eu não costumava falar muito sobre os meus interesses – eu achava que escrever canções era como qualquer outro tipo de ofício que a pessoa cultiva privativamente... Eu sempre fui um tanto reservada, misteriosa. Fui às aulas por minha própria vontade quando eu tinha 4 anos – e eu me sentia realmente atraída pelo piano e pelo violão, mas o violão era grande demais para uma menina de 4 anos! E desde então eu acho que eu sempre fui bastante auto-motivada sobre música, em parte porque eu estou fazendo música para mim mesma, e não tanto para o público... A parte do público é uma das últimas coisas que eu penso quando me ponho a fazer música.


E: Li sua confissão de que você cresceu com “o nariz enterrado nos livros” – e adivinho que foi daí que você retirou seu grande talento com as palavras... Acho que uma das grandes qualidades da sua música é o fato de ela possuir um “sabor literário” - eu posso considerá-la quase como “declamação de poesia”... Você diria que sente mais carinho pela literatura do que pela música? E quais dos grandes letristas você diria que admira mais? Você lê bastante poesia e tem alguns poetas favoritos que descreveria como inspiradores?

CASEY: Estas são questões bastante extensas! Eu acho que a literatura é a mais elevada das formas das belas artes, e, na minha opinião, a mais desafiadora de ganhar domínio sobre. Eu desde muito nutro uma profunda admiração pelo modo como as palavras são encadeadas. Na escrita, você não pode apelar para os sentidos para criar imagens ou personagens ou histórias - você tem apenas a sua esperteza para evocar emoções e visuais. É como alquimia, o verdadeiro sentido de "criar alguma coisa do nada". Eu não diria que minhas canções são particularmente "literárias", mas eu realmente dedico um bom bocado do meu tempo para as letras, tentando criar imagens que são imediatamente visuais para o ouvinte, ainda que seja algo ou alguém que eles não estejam familiarizados com. Outros letristas que conseguem me transportar para outro tempo e espaço são provavelmente Leonard Cohen e Bob Dylan, mas eu também penso, em termos mais simples, nos Beatles.

Cohen e Dylan usam detalhes sem serem arbitrários, para aprofundar a pintura do retrato - ao mesmo tempo que criam incríveis melodias e estruturas de canção. Lennon & McCartney podiam pegar linguagem simples e revivê-la com uma idéia de sentido completamente nova. Eu acho que as canções dos Beatles são tão clássicas porque as letras são tão honestas e permitem que as melodias carreguem as músicas. Algumas vezes músicas só precisam ser músicas! E é importante ser cauteloso quanto ao que a música significa pra você, ao invés de tentar empanturrá-la com frases ou versos exóticos.

Quanto aos poetas, eu tenho um pouco de vício em relação a livrinhos e panfletos de poesia! Gosh! eu acho que meu favorito é o Frank O'Hara, apesar de eu estar passando por uma coisa grande com a Gertrude Stein... sem falar que um amigo meu acabou de me passar coisas do James Tate para folhear. Eu acho que o que me interessa atualmente são os ritmos sintáticos criados pela colocação de certas vogais/consoantes/sílabas lado a lado.

E: É fácil de notar, ao ouvir as suas letras, que você freqüentemente utiliza um monte de personagens fictícios, de um modo que me lembra um pouco o método de composição do Bob Dylan ou do Bruce Springsteen, diferenças postas de lado... Frankie e Anette, o Doutor Monroe, Baby James: de onde saíram todos esses personagens? Eles são puros produtos da sua imaginação ou são construídos com partes de pessoas que você conhece? Talvez alguns deles sejam pessoas de verdade? O que eles são: alter-egos, amigos imaginários, talvez fantasmas...? Fale um pouquinho dessas tuas “crianças”! :)

Casey: Eu aho que os personagens se originam de uma base de dados de observações pessoais cotidianas - coisas que eu noto em pessoas que amo ou pessoas que não conheço. Eles também têm a tendência de derivar de eventos ou lugares - acho que muitas vezes quando estou escrevendo sobre uma pessoa estou na realidade escrevendo sobre muitas pessoas ao mesmo tempo. Mas eu não tenho muita certeza sobre de onde eles vêm - algumas vezes certos personagens são imediatamente visualisados, outros precisam de tempo para serem filtrados e se materializarem fora da névoa da minha memória. Eu procuro não analisar demais isto, pelo medo de que um dia estas visões possam desaparecer! Eu não sei se você está se referindo a eles como crianças porque eu os tive nos passado - mas essa seria uma comparação adequada. Eu acabo vinculada e conectada a eles de um modo tal que é difícil pra mim separá-los de mim mesma. Eu unicamente tento "criá-los" de um modo que eles possam ficar de pé por si mesmos, e dar a eles o máximo que posso antes que eles sejam lançados para o mundo.

E: Falemos um pouco sobre os teus planos para o futuro. A música é realmente um projeto de longo-prazo pra você, ou seja, você tem a intenção de criar dúzias de álbuns e ter uma carreira que se estenda por décadas?

CASEY: Putz! Eu dediquei praticamente o ano todo para fazer outras coisas que adoro – pintar, cozinhar, fazer bolos e melhorar na bicicleta e na yôga. A música eu acho algo tão intrínseco ao modo como eu me viro na vida do dia a dia, que neste momento eu não vejo qualquer razão que me impeça de estar fazendo canções até a terceira idade. Mas o tempo algumas vezes tem outros planos em mente, e eu não tenho a menor vontade de arranjar briga com o tempo. Minha esperança é que eu possa continuar fazendo isso e que possa continuar a me perguntar as Questões Duras e Assustadoras. Eu realmente não tenho expectativas concretas – ideais de sucesso e coisas assim. Eu só me certifico de perguntar a mim mesma enquanto vivo: “você está feliz?” Se eu acabar sendo uma velhinha trabalhando numa livraria no Maine com um pequeno jardim de vegetais, não me sentirei decepcionada!

E: Li uma crítica (na Pitchfork) chamando suas letras de “nonsense espertinho” – se me lembro bem, você foi comparada com o Stephen Malkmus, o cara do Pavement. Isso te incomoda? Suas letras e versos são “repletos de sentido”, mesmo que alguns deles sejam claros somente para você, ou você acredita que há muito jogo de palavras e que você usa as palavras como “brinquedos”? Há realmente um pouco de “clever nonsense” aqui e ali?

CASEY: Eu me pergunto às vezes se é responsabilidade do escritor e do artista tornar tudo claro para o leitor – ou se um pouco de material nebuloso é saudável e nos lembra de pensarmos por nós mesmos. Falando geralmente, eu me enquadro nesta última categoria. Eu não me importo de me sentir desorientada se isso me faz questionar as coisas – e acho que como uma cultura nós deveríamos ser muito mais céticos e questionadores daquilo que as pessoas fazem ou dizem. Não sei se isso soa cínico – mas eu acho que é saudável questionar algo antes de você digerir e arquivar na tua enciclopédia mental. Nós devemos isso à nossa psique! Eu sugeriria a qualquer pessoa que questione qualquer coisa que eu digo, inclusive isso que estou propondo agora. O que é que eu sei?! Então será que é mesmo “nonsense espertinho”? No passado, eu acho que tinha sim muito mais linguagem arbitrária [nas minhas letras], palavras e expressões se concatenando simplesmente porque eu curtia o jeito como elas soavam ou como eu as sentia na minha boca. Atualmente eu tento conciliar esse prazer com algo mais coeso. Na minha experiência, uma canção pode ser sobre muitas e muitas coisas diferentes. Eu escrevo baseada em tópicos, mas também de um modo meio caleidoscópico. Então eu sempre sei sobre o que fala a música, e isso é tudo o que me importa, mesmo que seja a respeito de três eventos, pessoas ou lugares díspares que, quando listados numa página, conectam-se na minha mente para formar um quadro mais vasto. Seria uma extrema perda de tempo, energia e paz mental me deixar aborrecer e sair do sério por causa das interpretações que as pessoas fazem das minhas canções – eu aprendi a não levar a coisa tão pessoalmente. Enquanto eu sei das minhas intenções, me sinto ok.

E: Agora uma pergunta mais filosófica, talvez um tanto difícil de responder! Em algumas das suas letras, eu posso sentir uma espécie de “angústia”, talvez, em relação à passagem do tempo e ao fato de que a alegria sempre parece ser efêmera – a alegria e tudo o mais que existe, na verdade. Como quando você canta: “assim que nos acostumamos com uma estação ela se vai, e é somente com isso que podemos contar...” (em “Cabin Fever”), ou no lindo verso de “Better in Manhattan” que diz que “o paraíso é um lugar que se visita, mas não um lugar pra se morar”, ou mesmo no triste finalzinho de “Fat Old Man” em que você diz: “nada muda quando você se vai, tudo prossegue...”). Você realmente percebe o mundo como um “oceano de impermanência”, por assim dizer?

CASEY: Hmmmm... Bom, eu não diria que eu sinto qualquer sensação de “angústia” em relação à mortalidade. A mortalidade é a nossa verdade como humanos, e acho que a verdade nos libera de sermos só ‘alegres’ ou só ‘tristes’. Nós somos máquinas complexas, e frequentemente sentimos ambas essas emoções, tudo ao mesmo tempo, às vezes uma mais que a outra, mas eu considero quase impossível realmente separá-las. Não gosto de dissecar e esclarecer os sentidos das canções para os ouvintes – em parte porque eu fico realmente super curiosa para ver como os outros as interpretam! Eu coloco elas pra fora com esperanças de que elas se tornem mais do que somente canções minhas. Mas eu acho que apesar do tempo nos lembrar freqüentemente de que é ele quem está no comando, há uma boa razão que explica porque nós o marcamos com aniversários, feriados, festivais, estações etc. A transformação do mundo é bonita, mesmo que ele não seja permanente.

E: Apesar de não dar pra dizer que você escreve “canções autobiográficas” (do jeito que a Fiona Apple escreve, por exemplo), eu realmente sinto como se eu pudesse te conhecer muito bem depois de ouvir seu disco muitas vezes. Será isso uma ilusão ou será que essas músicas realmente podem servir como uma espécie de “portal para a sua alma”, um pequeno buraco na fechadura através do qual nós podemos desvendar ao menos um pouco de quem você realmente é?

CASEY: Eu tenho a tendência de me intimidar para longe do confessionalismo [I tend to shy away from confessionalism] – algo nele não se adequa muito bem à minha personalidade. Eu não me sinto como um livro aberto, talvez, e também não sou incrivelmente fascinante como pessoa. Minha vida no dia-a-dia é (não tanto...) chocantemente mundana. Minhas canções são veladamente autobiográficas, se o forem, mas eu hesitaria em dizer que existam quaisquer conclusões sobre mim como pessoa a serem tiradas depois de ouvi-las. Eu suponho que eu não sou realmente a pessoa certa para você perguntar esse tipo de coisa, mas eu não sei se é realmente possível realmente CONHECER um artista através de sua arte...

E: Estou curioso para saber um pouco sobre a repercussão da sua música fora dos Estados Unidos. Em quais países você diria que a resposta do público foi mais intensa e gratificante? E você já chegou a tocar ao vivo no exterior?

CASEY: Eu estou bastante alheia e ignorante a toda a resposta internacional. Ainda não toquei no exterior ainda, exceto no Canadá, embora eu esteja ansiosa para fazer isso no futuro. Eu realmente ainda não procurei como fazer tudo isso ainda, mas acho que a partir do próximo álbum eu gostaria de começar a viajar através dos oceanos. Eu recebo e-mails muito simpáticos da Escandinávia, e, é óbvio, do Brasil! Isso me faz divagar sobre como as pessoas descobrem sobre todos esses diferentes artistas! Eu sinto como se minha coleção de discos estacionou em 1979, e eu nunca sei quem é ninguém desses artistas novos, embora eu provavelmente deveria. Eu sequer ouço CDs! Tudo é em vinil pra mim. Eu vivo na Idade Média!

E: Você deseja se tornar uma cantora-compositora de alta vendagem ou está satisfeita sendo um tanto obscura, como um pequeno segredo que poucas pessoas compartilham?

CASEY: Eu não tenho a mínima idéia sobre como me sinto sobre o futuro – mas enquanto as coisas acontecerem de modo orgânico, vou estar contente. Não estou com pressa para chegar ao “próximo estágio” ou qualquer coisa que seja... Nem sei o que é isso. Eu nunca realmente me senti muito “romantizada” pela indústria da música. Eu respeito a necessidade que ela tem de transformar minha arte numa carreira – mas além disso eu acho que a indústria é um pouco superestimada, e isso é parte do porquê eu me rodeio com pessoas que estão fora dela. Talvez eu poderia ser mais ambiciosa, mas eu acho que estou muito mais preocupada com as músicas em si mesmas e em ser uma pessoa serena e feliz. Eu não me oponho a ter um público mais vasto ou poder me sustentar através da música, ao invés de trampar em [barista jobs] etc. Eu acho que eu tento não me concentrar muito nessas coisas – se acontecer, aconteceu. É que eu realmente não quero gastar meus 20 anos correndo por aí a ponto de não poder curtir meus amigos, família e vida cotidiana. Não vejo o sentido. A celebridade não chega nem perto de ser tão preciosa pra mim quanto estes três itens que citei. Pode soar sentimentalóide, mas é verdade!

E: Não posso resistir: vou fazer a famosa pergunta da Ilha! Quais são os 5 discos, 5 filmes e 5 livros que você levaria para uma ilha deserta para passar na companhia deles o resto da tua vida?

DISCOS:
1. Beatles—Revolver
2. Bob Dylan—Live at Albert Hall ’65
3. Joni Mitchell—Blue
4. Debussy String Quartet
5. Thelonious Monk- Monk’s Time

FILMES
1. Five Easy Pieces (Vi pela primeira vez outro dia, e acho que nunca vou conseguir me cansar dele! Parece simples no começo, mas é repleto de complexidade na essência!)
2. Harold and Maude, de Hal Ashby
3. qualquer dos curtas-metragens mudos do Buster Keaton (para serem assistidos ouvindo o disco do Thelonious Monk!)
4.
Annie Hall – Noivo Neurótico, Noiva Nervosa, de Woody Allen
5. My Fair Lady, de George Cukor

LIVROS

1.
Beneath the Wheel do Herman Hesse
2.
A Insustentável Leveza do Ser do Milan Kundera
3. I Capture the Castle do Dodie Smith
4. O Tambor do Gunther Grass
5.
Chez Panisse Cooking da Alice Walters (Eu sei que parece doidice, mas eu adoro ler sobre comida quase tanto quanto curto comê-la! Esse livro de receitas é clássico.)


E: Algumas vezes eu suspeito que vocês artistas possam ficar bravos com os entrevistadores quando eles não perguntam aquilo que vocês gostariam de responder... Então vou propor um pequeno jogo bobo: faça uma questão a si mesma e a responda!

questão: Quando você se sente mais inspirada e feliz por estar viva?
resposta: Nos primeiros momentos da manhã ao nascer do Sol – a luz me faz desejar estar de pé e cantando. É luminosidade inadulterada – nova e um tanto insegura de si mesma, mas que se espalha sobre tudo até você sinta como se estivesse vendo o mundo pela primeira vez. Isso me faz cair apaixonada mais uma vez [It makes me fall in love all over again].

: D

myspace

DOWNLOADS:

Wind-Up Canary (2006)
http://www.mediafire.com/?mcyo1roz3wh


Phylactery Factory (2008)
http://www.mediafire.com/?v421ymmgdtc

terça-feira, 6 de outubro de 2009

:: PET SOUNDS VOL VI ::


:: Sons de Estimação ::
Pedro Rubiano (o da mão), vocalista da MALTS

Você, meu caro amigo, que foi um adolescente noiado por rock and roll nos anos 90 vai entender o que estou falando. Sair das fraldas vendo o Guns e todo aquele rock farofa dominar o planeta, achar que o mundo acaba no suspiro de "Patience", pra logo depois descobrir os primeiros pentelhos ao som de Nirvana. Gastar a camisa xadrez no calor tropical brasileiro como se fosse sunga ou maiô, pra então perceber que as coisas vão além do quatro por quatro. E vão, num rewind e foward maluco, além do que se ouve hoje, ontem e amanhã. Daí aprender a gostar de Chili Peppers antes de decorar a discografia dos Beatles.

Por essas e outras, falar da MALTS é um pouco como falar da minha trajetória musical nesses anos de linda juventude. E, nesse momento em que a banda trabalha numas musiquetas bem das boas, é que convidamos o vocalista Pedro Rubiano para deixar aqui seus Sons de Estimação. Bora lá! E, além de conferir a lista de responsa do rapaz, vale ouvir as gravinas da banda em www.malts.com.br – em breve, disponíveis para download.

1. I Am the Walrus – The Beatles: “uma canção que reúne os elementos do rock and roll... Pelo menos pra mim: liberdade, beleza e uma pitada de agressividade e loucura”

2. Black Hole Sun – Soundgarden: “toda lista tem que ter uma balada, hehehe. Essa é a minha”


3. The Weapon And The Wound – Days Of The New: “lindo som...pesado, embora executado sem guitarras”

4. Sometimes – Pearl Jam: “Gilberto Gil escreveu uma música chamada ‘Se eu quiser falar com Deus’. Quando eu quero, escuto ‘Sometimes’”

5. The Killer Inside – Better Than Ezra: “música que me traz boas lembranças. Lindamente gravada”
6. Helter Skelter – The Beatles: “uma música que diz ‘you may be a lover but you ain’t no dancer’ já tem seu lugar garantido”

7. Serve The Servants – Nirvana: “primeira faixa de um disco que sucede o monstro que foi Nevermind. E o primeiro verso diz ‘a revolta adolescente pagou bem...agora eu estou velho e entediado’. Para poucos”

8. Present Tense – Pearl Jam: “uma música quase que sem forma. Excepicional”

9. A Day In The Life – The Beatles: “talvez a canção mais legal da História”

10. Happy Pills – Candlebox: “se conseguir ficar parado ao ouvir esse som…”

11. Level – The Raconteurs: “minha canção de estimação da melhor banda que apareceu nos últimos tempos”

12. The End – The Doors: “para fechar, um som que realmente tem a característica ‘traveling without moving’”

Agora viaje você.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

:: da série PÃO QUENTINHO ::

FLAMING LIPS - Embryonic




MOUNT EERIE - Wind's Poem
http://www.mediafire.com/?tg0jinyyzwz



KRIS KRISTOFFERSON - Closer to The Bone
http://www.mediafire.com/?tdjdnymyini


GIRLS - Album
http://www.mediafire.com/?ngzkydhtkdf

domingo, 27 de setembro de 2009

:: Hitsville USA - especial MOTOWN ::


:: MOTOR DA ALMA ::

- O "som da América Jovem" do início dos anos 60 era pop com refrões ganchudos, rebeldia zero e disciplina militar. Assim, a Motown levou a música negra ao topo das paradas -

por Sérgio Martins
(*)


Alfred Hitchcock costumava dizer que atores deveriam ser tratados como gado. Na visão do cineasta inglês, valia a pena fazer o elenco de gato e sapato, desde que esse exercício de tortura rendesse um grande filme. Berry Gordy Jr., criador e presidente da Motown, nunca deu pistas de que o mestre do suspense fosse seu diretor predileto, mas soube como poucos aproveitar sua filosofia de trabalho. Gordy fundou uma companhia de discos com regras rígidas para que o "gado" (ou mehor, seus artistas) produzisse muito em troca de tostões. Se Hitchcock criou um estilo próprio de direção, Gordy inventou - ou melhor, se apropriou - do que se convencionou chamar de "Motown Sound".

Desenvolvido por músicos tarimbados nos diminutos estúdios da companhia, o som da Motown tinha características únicas. A bateria e o baixo flanavam acima dos outros instrumentos e qualquer resquício de rhythm'n'blues era varrido para baixo do tapete. Gordy, ambicioso como ele só, queria que os discos de sua gravadora fossem comprados também pelo público branco americano. O refrão tinha de ser ganchudo - e, nessa hora, o volume do baixo e o da bateria caíam assustadoramente. A intenção era fixar a frase no cérebro do ouvinte. Tudo isso executado em no máximo 3 minutos, com letras que tratavam de temas banais, como paixonites e namoricos.

Gordy acreditava que letras do gênero "contra tudo que está aí", como a dos cantores de protesto, deixariam a canção datada. E "Please Mr. Postman" foi a primeira cria de Gordy a alcançar o sucesso planejado. Gravada pelo trio vocal The Marvelettes, a canção entrou no 1º lugar no hit parade dos EUA em dezembro de 1961 - a música repetiria o feito dois anos depois, com os Beatles, e, em 1975, ao ser coverizada pelo duo vocal Carpenters. Com seus 2 minuots e 29 segundos, a faixa mostrou como Berry Gordy Jr. iria ditar as regras da música pop dos Estados Unidos nas duas décadas seguintes.



GORDY, O ERRANTE

Dois anos antes do grande feito das Marvelettes, Berry Gordy Jr era o que se poderia chamar de caso perdido. Nascido em uma família de classe média baixa que se mudou para Detroit a fim de prosperar com a indústria automobilística da região, Gordy desde cedo mostrou que os estudos não eram sua prioridade. Preferia ganhar dinheiro em jogos de azar, que era gasto generosamente nas casas de tolerância da região. Gordy também era pouco afeito ao trabalho. Reza a lenda que ele foi funcionário da Ford - sim, por um dia o futuro dínamo da indústria de discos suou o macacão na fábrica de automóveis. Mas logo percebeu que não era talhado para o cargo. Entre trabalhar como boxeador e a música, acabou abrindo uma loja de discos de jazz. Faliu em poucos meses. Tentou a carreira de compositor. Ele criou hits para o cantor de rhythm'n'blues Jackie Wilson e para a diva Etta James. Faturou alguns cobres, devidamente torrados com prostitutas e outras garotas.

Não à toa, quando armou uma reunião em família para pedir um empréstimo de 800 dólares para montar seu "próprio negócio", Berry Gordy Jr. foi tratado com a mesma desconfiança dispensada a um dirigente do futebol brasileiro. Seus pais e familiares acreditavam que o investimento iria para o ralo. No entanto, Gwen e Anna, duas das irmãs do encrenqueiro, insistiram para que a quantia fosse emprestada. Como garantia, se propuseram a trabalhar ao lado dele para que o irmão mais novo não tentasse nenhuma gracinha.

Os primeiros artistas a bater às portas de Gordy foram os Miracles. Para sermos mais precisos, eles se chamavam The Matadors e um ano antes do pedido de empréstimo apareceram na editora musical onde Gordy trabalhara. Os proprietários da editora mandaram os rapazes passear. Gordy, a princípio, ficou atento ao corpo ajeitadinho da vocalista Claudette. Depois descobriu que ela namorava o matador-líder - um rapazote de 17 anos chamado William Robinson. E mais, detectou talento no rapaz. Os colegas de William o chamavam de Smokey (algo como "enfumaçado") por causa da pele clara e dos olhos verdes.

Robinson vinha de uma vizinhança que era considerada a "Beverly Hills dos bairros barra-pesada de Detroit". Sua vida pessoal era atribulada. O pai largou a família quando ele tinha 3 anos e sua mãe morreu de câncer no cérebro. Ao conhecer Gordy, muito mais do que um empresário e amigo, Smokey ganhou uma figura paterna. Gordy o encorajou a escrever, deu pitados em suas letras e não só contratou os Miracles como colocou seu líder no posto de diretor artístico da nova gravadora. A contratação de Smokey Robinson foi a primeira prova do fato de Berry Gordy Jr para descobrir talentos. Smokey tinha um registro vocal raro (sua inflexão de tenor raramente conseguiu ser copiada) e criava letras maravilhosas sobre temas banais. Uma simples história de um rapaz que amava a garota que o desprezava virava ouro graças às letras e à voz afinada de Smokey.


Gordy batizou a empresa de Tamla Motown. Tamla era uma corruptela de "Tammy", sucesso da cantora e atriz Debbie Reynolds. Motown veio de "Motor Town" (Cidade dos Motores), apelido de Detroit. Gordy comprou um sobrado no número 2648 da West Grand Boulevard, em Detroit, e chamou o lar de Hitsville U.S.A. Acredite ou não, a comunidade artística da cidade apareceu em peso para oferecer seus préstimos. David Ruffin, mais tarde vocalista principal dos Temptations, pintou as paredes do estúdio da sede. O cantor Barrett Strong e o trio de compositores Eddie Holland, Lamont Dozier e Brian Holland também rodeavam a área.

"Money (That's What I Want)" foi a primeira música composta, tocada e produzida na Hitsville USA. A abanda da casa foi recrutada nos clubes de jazz de Detroit (o grupo seria batizado mais tarde de Funk Brothers). (...) As sessões de gravação do hit duraram dias, o que fez Gordy se perguntar se estava no caminho certo. Na verdade, foi tudo um capricho do destino. A canção entrou na 2ª posição da parada de r&b e pavimentou os caminhos da Motown.


CONTO DE FADAS

Às vezes, tem-se a impressão de que a história da Motown foi um conto de fadas, em que artistas de talento indiscutível batiam às portas de Hitsville U.S.A. e imploravam por uma chance. Porém, o que mais um garoto negro de Detroit poderia fazer senão arriscar um emprego numa gravadora de rhythm'n'blues? Foi assim que dois grupos vocais, The Primes e The Distants, uniram-se e montaram os Temptations. (...) Gordy contratou o grupo e o deixou sob os cuidados de Smokey Robinson. (...) Depois de três anos sem sucesso, em 1964 obinson criou "The Way You Do The Things You Do" - canção que entrou no primeiro lugar da parada r&b. No ano seguinte, foi a vez de "My Girl", que alcançou a primeira colocação na parada americana em 6 de março de 1965. A parceria iria render outras 36 canções entre as dez mais. Já os Four Tops foram empurrados para o outro trio de compositores - Holland, Dozier, Holland.


As Primettes eram quatro meninas, fãs dos Primes, que também sonhavam com uma carreira artística. Diana Ross, Mary Wilson e Florence Ballard caíram nas graças de Gordy (em especial Diana, que virou amante do chefão). Entretando a aoposta de Gordy demorou a deslanchar. O trio passou 4 anos amargando piadas infames de seus companheiros de companhia - eles as chamavam de "No-Hit Supremes" porque eram incapazes de frequentar as paradas. Reza a lenda que o presidente da Motown trancou o trio de autores - Holland, Dozier, Holland - numa sala e o obrigou a criar uma canção de sucesso para suas prediletas. O resultado teria sido quatro músicas no 1º lugar da parada - "Where Dir Your Love Go?", "Baby Love", "Come See About Me" e "Stop! In The Name of Love". Além de tirar a uruca que pairava sobre o trio, o êxito coroou Diana Ross como rainha da companhia. Gordy ordenou que ela cantasse todas as vozes principais das Supremes. A Wilson e Ballad cabia apenas a função de responder "baby, baby" ou "oohh, oooh".

CAÇA-TALENTOS

Mary Wells e Martha Reeves eram duas garotas que imploravam para ser ouvidas pelos executivos da companhia. Pedido atendido: ambas viraram estrelas. No Natal de 1960, Gwen Gordy obrigou Berry a contratar um rapaz que rodeava a vizinhança de Hitsville USA. Seu nome? Marvin Gay (ele adicionaria o "e" ao sobrenome por razões um tanto óbvias). Gaye também tinha outros motivos para rodear a casa da Motown. O cantor estava saindo com Anna, irmã mais velha de Gordy. Nascido em Washington, Marvin Gaye foi uma das figuras mais sombrias da história da Motown. Para desespero do pai, que era pastor (mas não se furtava em passear com roupas de mulher após os cultos), ele seguiu carreira como cantor de rhtyhm'n blues, gênero musical considerado profano. Portanto, papai (ou mamãe, dependendo do dia) nunca perdoou a opção do filho.

O próprio Marvin Gaye tinha dúvidas a respeito de seu talento. No fundo, ele queria se tornar um crooner de jazz, no estilo de Frank Sinatra. Mas Berry Gordy o contratou e, a princípio, o colocou como músico de estúdio - Gaye toca bateria em "Please Mr. Postman", das Marvelettes, e "Fingertips", de Stevie Wonder. Depois, o deixou aos cuidados de seus produtores.

A Motown realmente atraía grandes talentos. Certa vez, Mickey Stevenson, executivo da companhia, entrou esbaforido no escritório de Berry Gordy: "Você tem de ver esse garoto", disse. Gordy desceu até o estúdio de Hitsville USA e topou com Ronnie White, um dos vocalistas de apoio dos Miracles, ao lado de um menino cego. O garoto, na época com 11 anos, sabia tocar gaita, bongô e tinha boa voz. Seu nome era Steveland Morris. Gordy o chamou de Stevie e adicionou o apelido Wonder (maravilha).

Terceiro de uma família de 6 irmãos de Michigan, Steveland Morris ficou cego por causa de um acidente tolo: a enfermeira da maternidade emq ue sua mãe o deu à luz o deixou tempo demais na incubadora. A falta de visão, contudo, nunca atrapalhou seu bom humor. Pelo contrário, Stevie até fazia piadas a respeito disso. Uma de suas diversões prediletas era adentrar nos estúdios no meio de uma gravação. Dizia que não tinha visto a luz vermelha indicando que a entrada era proibida. Stevie pedia para que alguém mais próximo descrevesse como era a roupa que determinado músico estava usando. Depois, aproximava-se do infeliz e descrevia cada detalhe da vestimenta. Na adolescência, já com os hormônios em ebulição, Wonder se fartou de tocar os seios das funcionárias da companhia - depois, na maior cara-de-pau, pedia desculpas pela indiscrição.

Nesse conto de fadas, Berry Gordy Jr. era o príncipe encantado, mas também fazia o papel de bruxa má... Nenhum artista da Motown ficou rico, apesar de tantos sucessos na parada. Gordy os mantinha sob contratos leoninos, em que pagava salários semanais e ficava com a parte do leão. Qualquer gasto adicional de estúdio, roupas e bebidas era debitado na conta do astro. Os Funk Brothers perderam milhões em direitos autorais, pelo prosaico motivo de não serem creditados nas capas dos discos. Martha Reeves se surpreendeu ao deixar a companhia e descobrir que até o uso de seu nome estava registrado como propriedade de Berry Gordy Jr.

Por outro lado, os cuidados da Motown fazia com que os artistas tivessem aulas de boas maneiras (muitos deles nem sequer sabiam comer de garfo e faca), de dança e de como dar entrevistas. Muitos astros que se queixaram da roubalheira da Motown fracassaram depois de sair da companhia. Mandinga de Berry Gordy? Não, eles simplesmente perdiam o toque mágico.


BURRADAS

Após o sucesso de "Please Mr. Postman", Berry Gordy e a Motown se tornaram nomes consagrados nos Estados Unidos e no resto do mundo. Dali a pouco, ele recebeu o telefonema de um executivo da Capitol Records. O sujeito dizia que os Beatles queriam gravar três hits da companhia em seu segundo LP britânico - "Please Mr Postman", "You Really Got a Hold On Me" (de Smokey Robinson) e "Money (That's What I Want)". O único entrave é que Brian Epstein, empresário dos ingleses, queria pagar apenas metade dos royalties das canções. Gordy disse não. Aí, como diria Chico Buarque, ao saber de tal heresia, a cidade em romaria foi beijar as mãos de Gordy. Smokey Robinson chorou, dizendo que a mulher estava grávida e que a grana dos ingleses viria a calhar; os executivos da Motown queriam internar o próprio presidente. Gordy, então, cedeu. E fez uma bela burrada: poucos meses depois de ter concordado com o achaque de Epstein, os Beatles eram o grupo mais famoso do planeta e seu Second Album chegou às principais redes de lojas de discos dos EUA. Se ele insistisse em sua proposta, talvez Smokey e alguns privilegiados da Motown estivessem hoje mais ricos.

A segunda fase da Motown entrou em vigor ainda nos anos 60. Um monte de astros foi substituído (Florence foi demitida das Supremes, Holland-Dozier-Holland queriam melhores salários e receberam cartão vermelho), outros apareceram (entrou Norman Whitfield para trabalhar com os Temptations, Gladys Knight trouxe os Jackson Five) e, no final da década, Gordy mudou a sede de Detroit para Los Angeles. Foi lá que Marvin Gaye e Stevie Wonder iniciaram suas fases mais ousadas, com clássicos como What's Going On e Talking Book. Contudo, Gordy, seduzido pela indústria do cinema, perdeu muito dinheiro.

Recentemente, um telefilme baseado na história dos Temptations bateu o Parque dos Dinossauros em audiência na TV. Há alguns anos, o documentário Standing In The Shadows of Motown concorreu ao Oscar de sua categoria. A Motown é eterna - assim como os filmes de Hitchcock.

* texto extraído da História do Rock Vol. I da Bizz - 1936-1963 - pgs 70-77)


DOWNLOADS:


Hitsville U.S.A. - The Motown Singles Collection (1959-1971)
- caixinha de 4 CDs com os grandes hits da "fase de ouro -

Disco 01: http://www.mediafire.com/?ni4j0no4cqk
Disco 02: http://www.mediafire.com/?1gty2hjmnmm
Disco 03: http://www.mediafire.com/?yiom5kmfdzd
Disco 04: http://www.mediafire.com/?ziozmkuj0fg


Documentário: Standing In The Shadows of Motown
diretor: Paul Junkman
Download do DVD (3.5 GB) no piratebay

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

:: Bolo!!! ::


CAKE
... e a arte de ser esquisito
por Francine Micheli


Certas bandas parecem ter sido criadas para levar o carimbo de favoritas pra sempre. Assim, instantaneamente e com força, CAKE é uma dessas aí e a receita do bolo é curiosa: bom humor, ingenuidade, róquenrol e um trompete preguiçoso que se mete em tudo.

Parece que foi ontem que uma versão doida de "I Will Survive" rolava por aí nas rádias. Sem lantejoulas, Vincent Di Fiore e seus comparsas mandaram ver cantando a dor de quem descobriu que o ser amado era um bosta. A música tornou a banda mais conhecida em 1996 (ela tá na estrada deste 1991) e trouxe uma esperança aos que não aguentavam mais o grunge empesteando a década de noventa.

A banda californiana então pegou a veia da coisa: muitas letras non sense e aparentemente infantis com a mistureba de ska, country, jazz, rap e pop (tudo com trompete no meio) fez com que o vocalista John Mc Crea criasse um jeito peculiar de cantar: muitas vezes ele recita a letra nas músicas. Tudo isso foi suficiente para classificar o CAKE como rock alternativo, não?

Lançado em 1998, o disco Prolonging the Magic traz preciosidades como a grooveada e mau humorada "Sheep go to Heaven". No mesmo álbum, "Satan is my Motor", que não tem nada de diabólica é, digamos, uma coisa fofa. Ah, a famosa e carentona "Never There" está lá também.

O ponto forte da banda e o recheio do bolo é a unidade, o que possibilitou que os músicos viajassem por diferentes estilos e experimentalismos sem nunca perder a personalidade.

A mesma coisa aconteceu com o trabalho seguinte, Comfort Eagle, que trouxe uma dosezinha de elementos eletrônicos, como em "Meanwhile, Rick James...". Mas isso não tirou as levadinhas de guitarra que botam a gente pra dançar e trouxe até mais brilho à voz inconfundível de Mc Crea.

Pra dar um break, em 2007 lançaram uma coletânia de raridades e b-sides incendiários, que traz um cover não menos nervoso de "War Pigs", do Black Sabbath e mais: pra dar uma sofisticada na coisa, enfiaram versões de Frank Sinatra e Barry White na parada, com "Strangers in the Night" e "Never, Never Gonna Give You Up".

Particularmente, o som do CAKE serve pra colocar qualquer um pra cima e o mais legal é que eles resistiram à saída de vários integrantes (seis no total). Além de tudo os caras são engajados e sempre divulgam a importância da consciência ambiental e política, seja nos shows - onde eles presenteiam os fãs com mudas de árvores - ou pela internet a fora. A outra grande sacada foi criar dentro do site deles um espaço para que os fãs se comuniquem para dividir o transporte para irem até os shows! Eles não são mesmo uns bacanudos?

Parece que agora a banda deu um tempo nas apresentações (que infelizmente se concentram mais nos EUA e Canadá - damn it!) e estão pra lançar um novo cd ao vivo.

E por enquanto a gente aqui fica chupando o dedo... só sentindo o cheirinho dessa próxima fornada.

Baixa aí:







terça-feira, 22 de setembro de 2009

:: da série PÃO QUENTINHO ::

ALICE IN CHAINS - Black Gives Way To Blue
http://www.mediafire.com/?nmnynoyo2im


MONSTERS OF FOLK - idem

domingo, 20 de setembro de 2009

:: subway ride! ::

:: ROLÊ DE METRÔ - VOL. IV ::
Rock Is Dead - My Ass!

seleção: Eduardo Carli

O garimpo é de judiar os ossos. Emerjo dele imundo e mau-pago feito um personagem de Germinal. Mas a recompensa é saber que trago em mãos algumas pérolas do subsolo. E são elas que largo aí, de graça, para os transeuntes deste empreendimento depredatório. Para provar que são pura lorota as teses de que não existe róque que presta na terra do Carnaval, que no Rio só vigora o pancadão e que Goiânia é a terra do sertanojo, taí o mais novo Rolê de Metrô.

Nele, pela quarta vez (um, dois, três!), compartilho alguns sons nacionais que chamaram minha atenção ultimamente: tem o surf rock maníaco dos Dead Rocks, o chapadaço barúio gaúcho dos Irmãos Rocha e algumas garagices sublimes de Goiânia com o Black Drawing Chalks (Queens Of The Stone Age copula com Thee Butchers Orchestra), o Rockfellers (Tyler Durden is alive and well!) e o Bang Bang Babies. Rola ainda glam rock carioca com o Cabaret e emocore paulistano firmeza com o Banzé.

Trago ainda uma das mais fodásticas bandas da nova cena do Recife, o AMP, que acaba de lançar seu impressionante debut, Pharmako Dinamica, e duas bandas de Brasília - Sapatos Bicolores e Bois de Gerião - que comparecem com uma sonoridade caindo pro ska e pra new wave. Enquanto isso, o Rollin' Chamas faz uma celebração à la AC/DC do rock and roll, contando como derrubaram a casa com excesso de barulho. Pra finalizar, acompanhamos as "viagens" rocker do The Name, que já entrevistamos por aqui tempos atrás.

Agradecimentos (fora aos sempre solícitos MySpace e Trama Virtual) aos blogs Hominis Caninae e Glorious Indie Rock'n Roll por descolarem tantas boas bolachinhas e possibilitarem o rolê garimpístico! Dicas de bandas indie bacanudas, gritem nos comments!

Rock Is Dead... My ass!


TRACKLIST:

01 - The Dead Rocks (SP) - Themme For Rock is Dead (2:00)
02 - Irmãos Rocha (RS) - Anestesia (1:44)
03 - Black Drawing Chalks (GO) - My Favorite Way (3:42)
04 - Cabaret (RJ) - Messias Pessoal (4:14)
05 - The Rockefellers (GO) - Fight Club (3:44)
06 - Banzé (SP) - Antes da Queda (3:58)
07 - Bang Bang Babies (GO) - Going Down (3:25)
08 - AMP (PE) - Acidez (sinestesia) (3:27)
09 - Rollin' Chamas (GO) - O Dia em que a Casa Caiu (3:06)
10 - Bois de Gerião (DF) - Fidelidade (3:30)
11 - Sapatos Bicolores (DF) - A Cobrar (4:44)
12 - The Name (SP) - Assonance (6:11)

DOWNLOAD
(55 mb, 43 min):
http://www.mediafire.com/?zid2mluizn4

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

:: Soulzé ::


Rage Agreste

– Por Marco Souza –


"...uma mistura de indie-rock com eletro e um tiquinho assim

desse tamanin assim de carimbó."

Wallace


A primeira vez que ouvi esses negos ao vivo, meados de 2002 ou 2003 em Bauru-SP, logo pensei "porra! esses caras são o Rage Against do sertão!" o que influênciou para logo batizar minha banda cover da Rage. Pegada nervosa misturando guitarra, flauta, percursão e sons eletrônicos. Tudo ali idealizado e executado pelos, como eles se definiram, "7 cabeças chatas" do Ceará.


O disco em questão, produção independente do próprio SoulZé e primeiro trabalho da banda, logo mostra ao que a rapaziada veio: misturar da melhor forma possível rock, funk, ritmos brazileiros, groove, eletrônico e "outras pilantragens". Apesar da boa produção do disco, ele não faz jus ao choque de escutá-los ao vivo, como também é o caso do Móveis Coloniais de Acajú.



Soulzé já tem 12 anos de trabalho e (para minha surpresa) é pouco conhecido no meio musical. Nasceu com o boom do movimento manguebeat liderada por Chico Science & Nação Zumbi, Mundo Livre S/A, Eddie e cia.


Vamos ao disco. Porradaria com percursão, distorção regional e scracths em Mandacaru, segunda faixa, já demonstra o cuidado que eles tem na construção da textura sonora. Uma Tocaia cresce até se transformar em Arrancando Estaca, um dos pontos altos do CD, instrumental nervoso com mix de Tom Morello e Lúcio Maia. "Eu vou mostrar pra vocês como se dança o Baião e quem quiser aprender é favor prestar atenção" Abre a roda pra um baião com direito a porradaria. O clima de ficção científica encontra o drum'n'bass e dá as caras em O Encontro Insólio De Soulzé Com Et Abbdia, sampleando uma gravação (genial!) sobre a divulgação de um caso de experiências genéticas feitas por alienígenas nos moradores da cidade de Quixadá, interior do Ceará. De praxe não poderia faltar um samba-rock(-funk), a faixa de protesto País Nordestino. Até riff grudento encontramos em Pagode Russo. E músicas como De Quem É Essa Terra ainda agrada àqueles que procuram mais peso.


Há algum tempo procuro por shows, discos e mp3s da banda e não tenho sucesso. Lembrei que no show de Bauru um amigo comprou o CD e pedi pra ele ripá-lo. Raridade de qualidade. Um dos grande álbuns nacionais da década.



DOWNLOAD - 16 músicas - 70 MB


sábado, 12 de setembro de 2009

:: Pearl Jam ::

A maior banda de rock deste post
- Bernardo Santana -

Trabalho ingrato evitar a pagação de pau. Quando uma banda de 15 anos faz isto aqui, é de se imaginar que toda e qualquer lenha criativa tenha se queimado finalmente. Foi o que eu achei que iria acontecer com o Pearl Jam quando a banda lançou seu disco homônimo em 2006: um material tão bom (mas diferente do que eles já tinham feito de bom antes...), que me fez pensar que era impossível eles se superarem dali em diante. E deve ter sido a conclusão a que eles chegaram também!

Senão, por que esse Backspacer agora? Não um disco melhor que Pearl Jam, mas tão bom quanto, em vários momentos. E o melhor, bem diferente do seu antecessor. Cabem ao trabalho até alguns adjetivos que não devem ter sido usado muito nas resenhas de nenhum de seus discos anteriores: feliz, engraçado, otimista, influenciado por new wave (ok, esse eu não entendi, mas li por aí então repasso).


O Pearl Jam não é mais nenhuma banda de adolescentes já faz um tempo, mas várias músicas de Backspacer podem fazer alguém se enganar. Gonna See My Friend abre os trabalhos chutando bundinhas incautas e remetendo aos momentos mais punks da banda, lá pelo meio da década de noventa. E as duas faixas que se seguem não dão descanso: Got Some tem mesmo algo que todo mundo precisa de vez em quando, como diz a letra, e The Fixer — o single safado feito pra chamar atenção mesmo — conserta a imagem de banda carrancuda de alguns momentos do passado. Sem esquecer de apresentar um dos refrões mais legais dos caras.

Depois dessa trinca certeira, o ouvinte fica meio rendido pra o que vem depois, que apesar de não manter o mesmo pique (menção honrosa a acelerada e hit certo Supersonic), mais que honra o legado da banda até agora, incluindo aí a bolacha solo de Ed Vedder, trilha do filme Into The Wild. Just Breath, por exemplo, poderia ter sido gravada naquele disco e é uma ótima amostra de como o vocalista compensa qualquer limitação técnica com um alcance emocional sincero sem paralelo na música pop de hoje.

Em resumo; 19 anos depois de começar a tocar, o Pearl Jam fez (mais) um disco perfeito pra quem não conhece a banda começar a ouvi-la. Não é nada a toa que eles tem uma legião de fãs também bem rara na bagunça da música popular planetária. Um disco de 36 minutos — o mais curto da trajetória deles — que parece ter sido feito por um bando de moleques na urgência de pegar seu lugar no sol. Um disco tão bom que até legitima um clichê destes!

Como eu disse, trampo de corno deixar de pagar pau, então não vou nem tentar. Backspacer vale a pena ser comprado umas três vezes. Faça esse favor pra sua estante, mas enquanto isso, baixa aí embaixo o danado.


DOWNLOAD: 76 Mb - 11 faixas