quinta-feira, 7 de julho de 2011

<<< If Slaughterhouses Had Glass Walls... >>>


"Comer carne ou não?" - eis a questão que tem me apoquentado nos últimos tempos como se fosse um dilema hamletiano. Assisti aos principais documentários produzidos sobre o tema e todos eles  me causaram um grande impacto e me fizeram sentir a necessidade de uma revolução nos hábitos alimentares humanos: Earthlings - Terráqueos, A Carne é Fraca, Food Inc., Meat The Truth, Food Matters (todos recomendadíssmos!). Jamais vou poder olhar para a comida que ponho no prato e mando goela abaixo do mesmo modo depois de ter me conscientizado de todo o sistema que está por detrás da produção destes itens de consumo que só  as crianças e os tontos imaginam que já nascem no supermercado: as salsichas, os hambúrgueres e todo o resto do cardápio carnívoro. Li também boa parte das argumentações do Peter Singer, talvez o maior "guru" ativista do movimento da Libertação Animal, um intelectual que pretendo estudar mais a fundo nos próximos tempos; de qualquer modo, considero que Singer tem muito de relevante a nos dizer e que faremos muito bem em emprestar-lhe ouvidos atentos, discutir acaloradamente suas idéias e se aliar a muitas de suas lutas. 

Muitas figuras que admiro são vegans confessos e militantes, de Paul McCartney (que é o "âncora" do filme"If Slaughterhouses Had Glass Walls Everyone Would Be Vegetarian", produzido pela PETA - People for the Ethical Treatment of Animals) a Morrissey (lembrem-se do nome daquele álbum dos Smiths: "Meat Is Murder", ou "Carne é Assassinato"). Até mesmo a adorável Lisa Simpson aderiu ao vegetarismo num clássico episódio da sétima temporada dos Simpsons, e até mesmo os porra-louquinhas altamente inescrupulosos de South Park revoltaram-se em outro episódio impagável contra o crudelíssimo tratamento infligido aos vitelos (criados no mais horroroso cativeiro, impedidos de movimentar suas perninhas para que seus músculos infantis não se desenvolvam, o que gera uma carne mais tenra, e que serão assassinados ainda na infância para serem vendidos a preços carésimos nos restaurantes mais chiques de Nova Yorke, Paris ou Genebra...).


Em primeiro lugar, acho crucial quebrar o tabu que ainda envolve a questão da carne e levantar um debate público tão intenso sobre este assunto quanto está sendo aquele sobre a descriminalização da maconha e do aborto ou a união civil de pessoas do mesmo sexo. Nós, adeptos ou simpatizantes do vegetarianismo, não queremos ser tratados simplisticamente como mero estraga-prazeres que só querem zuar o churrasco dos outros apontando sempre para o fato, que os carnívoros tanto gostam de manter ignorado, de que estão mastigando e engolindo pedaços de bichos mortos, fragmentos de cadáveres... Vegetarianos não são uns "metidos a bonzinhos" que querem atrapalhar a diversão dos que gostam de rodeios e para quem Barretos é a balada do ano. Vegetarianos não são uns hippies-bundamole cheios de frescura que ficam cheios de nhém-nhém-nhém pra comer e que deveriam ter apanhado mais quando criança para deixarem de serem frescos.

Não se trata de acabar com a festa carnívora com discursinhos moralistas e sentimentalóides, mas sim de levar a sério a responsabilidade que temos como sujeitos pensantes e cidadãos de um planeta em risco de pôr em questão problemas globais de primeiríssima importância: o aquecimento global causado pelo efeito estufa e as possíveis relações que isto possa ter com o modelo de agropecuária hoje dominante; o tratamento instrumental cruel e desumano que é dispensado a seres vivos sencientes (para usar um termo caro aos budistas e hinduístas) nas grandes "fábricas de carne" do capitalismo neoliberal; sem falar em questões de saúde pública: uma dieta baseada em carne é realmente o supra-sumo da nutrição mais rica acessível a humanos, ou haveriam outras dietas muito mais nutritivas e que fariam com que diminuíssem as torrentes de sangue animal que jorram pelo planeta como se este fora o Inferno de Dante?...

Há muito tempo já abandonei a visão bucólica e idílica que muitos ainda possuem sobre os "animaizinhos lindinhos" que coabitam pacificamente conosco neste planetinha. As embalagens da Sadia ou da Perdigão, que mostram franguinhos sorridentes e alegres, como se fosse por pura dádiva que eles se oferecem às nossas bocas para serem devorados, são altamente enganadoras e "ideológicas" (no sentido marxista do termo: uma imagem invertida da realidade). Não é novidade alguma que os publicitários mentem pra caralho. 

Pois a realidade que enfrentam estes animais não é nada sutil: os pintinhos logo depois de nascer têm seus bicos cortados numa espécie de "guilhotina" de linha-de-montagem; são amontoados em imensos galpões, que fedem a urina e fezes, onde vivem sem ver a luz do Sol por um único minuto de suas vidas; são engordados à força, ou seja, obrigados a engolir alimentos goela abaixo (a sensação deve ser semelhante àquela vítima de Seven - Os Sete Pecados Capitais que é punida pelo serial killer por sua gula...); a lotação, o desconforto e a imundície são tamanhos que os animais "enlouquecem" e ficam furiosos a ponto de serem capazes de se matar a bicadas (donde a "sábia" precaução da debicagem adotada pelas grandes corporações...). Abaixo, dois exemplos eloquentes retirados do Food Inc.: a super-lotação absurda e a "obesidade" forçada:

 
Não é minha intenção fazer ninguém vomitar o jantar. Mas acho que já passou da hora de acordarmos todos para o fato de que o modelo massivamente disseminado nos dias de hoje não tem nada a ver com aquela Fazendinha ou Granja familiar idealizada, ao estilo do Cocoricó, o programa infantil da TV Cultura; boa parte da carne que compramos nos supermercados provêm de fábricas, não de fazendas; é produto de um sistema industrial que trata a vida como mercadoria e os lucros como deus, e não de uma agro-pecuária que mantivesse viva qualquer noção de reverência à Mãe Natureza e dependência mútua entre todos os seres vivos. Seria urgentíssimo e necessário que aquela concepção do Fritjof Capra em Ponto de Mutação fosse mais conhecida e disseminada como contraponto à atual doutrina capitalistóide que faz com que milhões de animais vivam vidas inteiras - do berço ao túmulo - em condições piores que aquelas dos campos de concentração de Dachau ou Auschwitz. 

O seguinte trecho do Isaac Bashevis Singer, judeu polonês emigrado para os EUA, Prêmio Nobel de Literatura e um dos melhores contistas que já tive o prazer de ler, sublinha o fato de tratarmos os animais de modo "nazista", sem respeito algum por sua dignidade - devida e merecida, ao menos, pelos milhões de anos em que estes organismos foram engendrados pelo processo de evolução (eles nos precederam, nesta longuíssima estrada, aliás!), o que os torna organismos de complexidade raríssima no Universo por nós conhecido...

“Há muito eu chegara à conclusão que o tratamento do homem para as criaturas de Deus torna ridículos todos os seus ideais e todo o pretenso humanismo. Para que este estufado indivíduo degustasse seu presunto, uma criatura viva teve de ser criada, arrastada para sua morte, esfaqueada, torturada e escaldada em água quente. O homem não dava um segundo de pensamento ao fato de que o porco era feito do mesmo material e que este tinha de pagar com sofrimento e morte para que ele pudesse saborear sua carne. Pensei mais uma vez que, quando se trata de animais, todo homem é um nazista.” (…) “Do derramamento de sangue animal ao derramamento de sangue humano há um passo”. (…) “Tu não matarás também inclui animais”. —— ISAAC BASHEVIS SINGER (1904-1991). Prêmio Nobel de Literatura.


Falar sobre vegetarianismo e libertação animal, pra mim, é pôr em questão uma das mais graves alienações de massa que ameaça hoje o nosso planeta. Digo "alienação" querendo dizer o seguinte: aquele que se depara com uma salsicha ou uma caixa de hamburgueres ou almôndegas e não tem a mínima capacidade intelectual de refletir sobre a origem daquele produto, ou que não tem a mínima empatia em relação ao ser vivo, de carne-e-osso, cujo sangue teve que ser derramado para que aquele fragmento de seu cadáver estivesse ali, disponível para consumo humano, está alienado das realidades humanas mais fundamentais e está cego a mecanismos econômicos cruciais que determinam nossa sociedade. (mas que podem ser transformados, se o quisermos). E ignorar estas questões me parece perigoso: o consumidor que se proclama inocente usando como álibi sua ingenuidade e seu desconhecimento é na verdade cúmplice desta engrenagem grotesca - já que a financia. Concordo plenamente com o mais célebre dos "slogans" do movimento vegan: "se os matadouros tivessem paredes de vidro, todos seríamos vegetarianos". E se cada um de nós tivesse que matar sua própria janta com as próprias mãos (pensem em Alexander Supertramp, em Into The Wild - Na Natureza Selvagem, naquela cena altamente impactante em que ele papa um urso), iríamos certamente preferir que existisse uma alternativa. A boa notícia é: existe.

Volto ao assunto qualquer hora, assim que pensar mais sobre o tema e tiver algo mais a dizer. Quem quiser debater, a caixa de comentários abaixo está aí, disponível justamente para isso. Alguns documentários excelentes estão na íntegra na Internet e compartilho-os abaixo. Informe-se!







4 comentários:

GUILHERME T DE BASTOS disse...

O vegetarianismo nunca foi uma bobagem de gente fresca pra mim e sempre simpatizei-me com a causa. Acontece que eu não consigo manter uma ideia se não vejo o meu "sacrifício" funcionando. Claro que funciona, eu sei. Mas o próximo churras com cerveja vem e a ideia acaba indo por goela abaixo. Infelizmente, se os grandes não mudam, eu, pequeno, começo a pensar que os animais vão continuar com a sina dos matadouros. Preciso crer que a minha atitude é maior. E vou tentar, novamente, mas desta vez com veemência! Ótimo texto.

Eduardo Carli de Moraes disse...

Hey Guilherme! Valeu demais pela leitura e por compartilhar tua opinião por aqui. Acho que o número de simpatizantes da causa que não são adeptos 100% da dieta vegetariana é imenso... eu mesmo tenho das minhas recaídas e às vezes sofro para resistir à tentação (como esta do churras com cerveja... perfeito exemplo!). Mas o que impede que a nossa geração seja criativa o bastante para inventar um modelo alternativo de "churras", sem álcool e sem carne (o que não quer dizer sem deleites gastronômicos, nem sem psicodelia ou embriaguez herbácea...), onde a reunião de amigos não tivesse que se dar em meio a pedaços de porcos e bois assassinados?

Não acho nada "utópico" ou irrealista da minha parte acreditar que podemos inventar (e experimentar) modelos alternativos de festa que não estejam silenciosamente financiando matadouros e "linhas de montagem" da indústria da carne... Mas taí outra discussão que dá pano pra manga! ;)

Também me pergunto se o "sacrifício" individual realmente traz algum efeito social, ou se este só viria se muita gente - ou seja, milhões de consumidores, em massa... - se conscientizassem, mudassem seus hábitos e exigissem uma mudança na oferta de produtos (exatamente por revolucionarem a demanda...). Talvez chegará um dia (espero que não muito distante...) em que pensaremos na dieta vegan não como um sacrifício mas como um prazer, não como uma dificuldade mas como algo simples e natural... Talvez séculos futuros olharão para trás e pensarão na nossa dieta carnívora como um ato de bárbaros, seres primitivos... Talvez!

Valeu de novo pela visita e volte sempre!!!

Aleksandersson disse...

Cara!!
Cara!!
Que texto show!!!Eu acredito que o homem pode se alimentar de animais mas do jeito que vem fazendo...é uma barbárie!Concordo c tudo q vc escreveu...os videos,mano,não consigo nem ver.Já sei o conteúdo:sangue,humilhação.etc.
Pow,se tivéssemos um cara com tuas idéias no lugar certo,há...seria d+.
Muito obrigado pelo texto,dicas de leitura,videos...
Ganhou mais um fã do DEPREDANDO!!

E vivas aos bichinhos fofinhos da sadia e outros que,que fazem propaganda que seus ''irmãos''querem morrer,não importa a forma,só pra nos satisfazer...
SAD!

Eduardo Carli de Moraes disse...

Faaala, "Aleksandersson"!

Valeu demais aí pela força! Senti firmeza e entusiasmo nas tuas palavras tão exclamativas!!! Os vídeos são mesmo indigestos, de fazer-nos vomitar a janta. Revelam com muitos detalhes exatamente isto que vc disse: o modo como hoje tratamos esses animais é uma barbaridade das mais chocantes. E a publicidade continua inventando contículos-de-fada onde franguinhos sorridentes nos contam a lorota de que vivem numa granjinha e adoram morrer e vir parar em nossos pratos!

Os documentários são mesmo desaconselháveis para os "estômagos mais sensíveis", mas ao mesmo tempo trazem imagens inesquecíveis que, se fossem disseminadas massivamente, com certeza ajudariam a mudar esta situação.

Valeu pela leitura, pelo comentário e pelo feedback. Os leitores do Depredas é que estão show!!!

Abraços e volte sempre a colar por estas bandas.