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segunda-feira, 1 de julho de 2013

"Calar a boca nunca mais!" (Tom Zé) - Ouça a coletânea #15... Bezerra da Silva, Itamar Assumpção, Rauuuul, Vandré, Buarque e por aí vai...



CALAR A BOCA NUNCA MAIS!

(BRASILIANADA! 15ª EDIÇÃO)

Coletânea de música brasileira:
01) TOM ZÉ, “POVO NOVO"
02) BEZERRA DA SILVA, “PASTOR TRAMBIQUEIRO"
03) CHICO BUARQUE, “APESAR DE VOCÊ"
04) GABRIEL O PENSADOR, “ATÉ QUANDO?"
05) OTTO E LECI BRANDÃO, “VÍTIMAS DA SOCIEDADE"
06) RITA LEE & TUTTI FRUTTI, “COM A BOCA NO MUNDO"
07) FLICTS, “ASSIM CAMINHA O BUSÃO"
08) RAUL SEIXAS, “MOSCA NA SOPA"
09) TOM JOBIM, “O MORRO NÃO TEM VEZ"
10) GERALDO VANDRÉ, “PRA NÃO DIZER Q NÃO FALEI DE FLORES"
11) BELCHIOR, “A PALO SECO"
12) ITAMAR ASSUMPÇÃO, “Nego Dito"

Ouça já!
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Siga viagem...
No nosso Feicibúqui, vários Álbuns Clássicos da Música Brasileira
(Ouça-os na íntegra e di-grátis!)

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

A Tropicália Revisitada

(de Marcelo Machado, 2012, 89min. Trailer.)

"O Tropicalismo foi um movimento de ruptura que sacudiu o ambiente da música popular e da cultura brasileira entre 1967 e 1968. Seus participantes formaram um grande coletivo, cujos destaques foram os cantores-compositores Caetano Veloso e Gilberto Gil, além das participações da cantora Gal Costa e do cantor-compositor Tom Zé, da banda Mutantes, e do maestro Rogério Duprat. A cantora Nara Leão e os letristas José Carlos Capinan e Torquato Neto completaram o grupo, que teve também o artista gráfico, compositor e poeta Rogério Duarte como um de seus principais mentores intelectuais. 
Os tropicalistas deram um histórico passo à frente no meio musical brasileiro. A música brasileira pós-Bossa Nova e a definição da “qualidade musical” no País estavam cada vez mais dominadas pelas posições tradicionais ou nacionalistas de movimentos ligados à esquerda. Contra essas tendências, o grupo baiano e seus colaboradores procuram universalizar a linguagem da MPB, incorporando elementos da cultura jovem mundial, como o rock, a psicodelia e a guitarra elétrica. 
Ao mesmo tempo, sintonizaram a eletricidade com as informações da vanguarda erudita por meio dos inovadores arranjos de maestros como Rogério Duprat, Júlio Medaglia e Damiano Cozzela. Ao unir o popular, o pop e o experimentalismo estético, as idéias tropicalistas acabaram impulsionando a modernização não só da música, mas da própria cultura nacional. 
Clássico estudo de Favaretto
Seguindo a melhor das tradições dos grandes compositores da Bossa Nova e incorporando novas informações e referências de seu tempo, o Tropicalismo renovou radicalmente a letra de música. Letristas e poetas, Torquato Neto e Capinan compuseram com Gilberto Gil e Caetano Veloso trabalhos cuja complexidade e qualidade foram marcantes para diferentes gerações. Os diálogos com obras literárias como as de Oswald de Andrade ou dos poetas concretistas elevaram algumas composições tropicalistas ao status de poesia. Suas canções compunham um quadro crítico e complexo do País – uma conjunção do Brasil arcaico e suas tradições, do Brasil moderno e sua cultura de massa e até de um Brasil futurista, com astronautas e discos voadores. Elas sofisticaram o repertório de nossa música popular, instaurando em discos comerciais procedimentos e questões até então associados apenas ao campo das vanguardas conceituais. 
Sincrético e inovador, aberto e incorporador, o Tropicalismo misturou rock mais bossa nova, mais samba, mais rumba, mais bolero, mais baião. Sua atuação quebrou as rígidas barreiras que permaneciam no País. Pop x folclore. Alta cultura x cultura de massas. Tradição x vanguarda. Essa ruptura estratégica aprofundou o contato com formas populares ao mesmo tempo em que assumiu atitudes experimentais para a época. 
Discos antológicos foram produzidos, como a obra coletiva Tropicália ou Panis et Circensis e os primeiros discos de Caetano Veloso e Gilberto Gil. Enquanto Caetano entra em estúdio ao lado dos maestros Júlio Medaglia e Damiano Cozzela, Gil grava seu disco com os arranjos de Rogério Duprat e da banda os Mutantes. Nesses discos, se registrariam vários clássicos, como as canções-manifesto “Tropicália” (Caetano) e “Geléia Geral” (Gil e Torquato). A televisão foi outro meio fundamental de atuação do grupo – principalmente os festivais de música popular da época. A eclosão do movimento deu-se com as ruidosas apresentações, em arranjos eletrificados, da marcha “Alegria, alegria”, de Caetano, e da cantiga de capoeira “Domingo no parque”, de Gilberto Gil, no III Festival de MPB da TV Record, em 1967. 
Irreverente, a Tropicália transformou os critérios de gosto vigentes, não só quanto à música e à política, mas também à moral e ao comportamento, ao corpo, ao sexo e ao vestuário. A contracultura hippie foi assimilada, com a adoção da moda dos cabelos longos encaracolados e das roupas escandalosamente coloridas. 
O movimento, libertário por excelência, durou pouco mais de um ano e acabou reprimido pelo governo militar. Seu fim começou com a prisão de Gil e Caetano, em dezembro de 1968. A cultura do País, porém, já estava marcada para sempre pela descoberta da modernidade e dos trópicos." (Via Tropicalia.com.br)

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Raul Seixas - Maluco Beleza em Metamorfose Ambulante (um retrato)

Documentário de Walter Carvalho (2012)

"...um espírito versado na serpentina arte de mudar de pele. [...] E feliz em não abrigar em si uma alma imortal, mas muitas almas mortais."
NIETZSCHE
(Humano Demasiado Humano II - Prólogo #2 e #17).



O nome escrito no RG perdura do nascimento à morte, quiçá modificado, vez ou outra, por casório, mudança-de-sexo ou ida-pro-estrangeiro. Já a criatura que este nome batiza decerto é bem mais fluida e líquida do que sugere a fixidez dos documentos. Somos seres mutantes! As barbas sucederam aos meus dentes-de-leite do mesmo modo como os cabelos alvos da velhice hão de esbranquiçar estas madeixas temporariamente cheias de cor. E não será melhor aquiescer à roda-viva dos tempos ao invés de aspirar por impossíveis imutabilidades?

Não se entra duas vezes no mesmo rio”, dizia Heráclito uns 2.500 anos atrás. A ancestralidade do dito, seu caráter de “clássico” da filosofia, não significa que o rio de que ele falava – o rio cósmico, o rio universal, o rio de Tudo o que escorre... - cessou de correr. Prosseguem as marés em sua dança com a Lua. Prosseguem as águas a responderem aos chamados invisíveis das gravitações planetares, eternamente fluentes, e sempre aos humanos  indiferentes, por mais embasbacados que fiquem estes diante de mares e luares!

Se a própria Natureza ao nosso redor é dinâmica eterna e imparável mobilidade, seríamos loucos se quiséssemos, apegando-nos a dogmas e nos engessando em ortodoxias, sermos fixos como as “pedras que choram sozinhas no mesmo lugar”. Raul, como canta-nos em "Medo da Chuva", "aprendeu o segredo da vida vendo essas pedras que choram sozinhas no mesmo lugar". Conheço poucos versos mais lindos na história da poesia e da música brasileira. Raul Seixas nos comove e nos encanta tanto, me parece, pois não quis ter um destino de pedra, estagnada em sua solidez, e preferiu ser rio. "Eu preferiu ser uma metamorfose ambulante do que “ter aquela velha opinião formada sobre tudo...”.

E isso, pra mim, é rock'n'roll até o osso. Pedras que rolam não criam limo. Mas melhor que ser pedra que rola é ser homem-rio. Não é à toa que Walter Carvalho inicia seu filme com um dos símbolos-mor da contracultura hippie sessentista: os dois motoqueiros de Easy Rider, encarnados por Dennis Hopper e Peter Honda. Raul Seixas, seguindo essa metáfora, teria sido um easy rider tupiniquim, um que põe o pé-na-estrada ao invés de ser samambaia, um maluco beleza sem medo de ver o misticismo misturado com a lucidez, nem o rock com o baião, Jimi Hendrix com Luiz Gonzaga, Satanás com Cristo, Crowley com Shiva... A ousadia das mesclas, a leveza desse saltar eclético em várias “ilhas” da cultura, faz de Raul um desbravador de novas sendas para a liberdade!... “Faze o que tu queres... há de ser tudo da lei!”

Que esse anarquismo estético todo seja altamente subversivo eu não duvido. E é ótimo que seja. Raul Seixas permanece um remédio necessário contra o caretismo. Longe de mim bancar aqui o bully dos caretas, ainda mais considerando que tenho, com certeza, minhas próprias caretices, como todos. O problema é que o caretismo não é tão inofensivo como parece: estou convencido de que muitos “homens de poder”, muitas altíssimas autoridades políticas-militares-religiosas-policiais, muitos destes que são responsáveis por criar as nossas leis e vigiar nossos comportamentos e nossas interações sociais, são caretas dogmáticos.

Um exemplo: a sangrenta Guerra às Drogas, baseada em ortodoxias proibicionistas, por exemplo, já deixou 50.000 mil mortos no México nos últimos 5 ou 6 anos... A mesma guerra absurda, levada a cabo faz algumas décadas pelo DEA norte-americano, que segue seguindo à risca a cartilha do czar Anslinger, causou trilhões e trilhões de desperdício de verba pública e o encarceramento em massa de um imenso contingente populacional: 25% dos presos do planeta estão nos Estados Unidos da América, o maior Estado policial e militar do mundo. Quanto aos assassinados no Rio de Janeiro ou na Colômbia, bem... quem é que está contando? E como não perder a conta diante de um genocídio tamanho? 

Aliás, não haveria um certo eufemismo no próprio termo “Guerra às Drogas”? Como se as perseguidas fossem só as substâncias, e não... as pessoas que as utilizam e comercializam! Esta guerra contra pessoas, movida por preconceitos que se agarram com a obstinação de sanguessugas às nossas legislações, tem a ver – e me arrisco agora em psicologia social raul-seixista! - com o caretismo institucionalizado dos fanáticos pela ordem. E Raul Seixas é um providencial antídoto.


O que eu quero dizer é que acho ótimo que tenha existido uma figura como Raul para ser uma mosca na sopa de tudo quanto é discursinho pró DOPS, Opus Dei, Caveirão do BOPE... Raul foi, de fato, uma das maiores figuras da contracultura brasileira na segunda metade do século passado, um artista de criatividade exuberante, e que nos mostrou a beleza da ousadia, da quebra de paradigmas, do comportamento distoante. Ouvir Raul é uma cura contra a normopatia, termo que empresto do psicanalista José Ângelo Gaiarsa, talvez o mais brilhante e mais célebre dos nossos reichianos.

“Normopata” é aquele tipo de neurótico, comuníssimo aliás, que deseja, acima de tudo, ser normal. Somos todos um pouco normopatas: em situações sociais, especialmente, modelamos nosso comportamento de acordo com o que nos foi ensinado sobre o que é normal e o que é patológico, o que aceito e o que é ilícito. Ah, esses sininhos de Pavlov que não cessam de bater, infernais e aporrinhantes, dentro de nossos cérebros! 

A normopatia, neurose de massa, talvez ajude a explicar fenômenos tão atuais, e tão justamente combatidos por tantos movimentos sociais, como a homofobia, o racismo, o bullying. Pessoas que possuem uma “imagem ideal” do que seja a normalidade – por exemplo, normal é quem é branco, católico, heterossexual e “democrata” – tendem a soltar seus anátemas (e às vezes seus cachorros e sua polícia...) pra cima de quem destoa desse ideal do “Normal”. E dá-lhe pauladas e preconceitos pra cima de comunistas, negros, homossexuais, ateus, anarquistas, índios, “hippies” e tantos outros “desviantes” (na perspectiva dos fanáticos pelo normal, claro...).


No Brasil, como prova a onipresença e onirecorrência do "Toca Rauuul!" em qualquer show, boteco, pub, roda-de-samba ou concerto de música clássica, Raul Seixas virou uma espécie de mito nacional, neo-Macunaíma, objeto de um culto equivalente em terras de Pindorama àquele prestado à Che Guevara em outras plagas (cubanas ou argentinas, por exemplo). Raul é muito mais que música: é um "modelo" de comportamento, um ideal de personalidade, alguém que muita gente se põe a imitar e reverenciar como se se tratasse de um novo Cristo - e bem peculiar, aliás, dadas as propensões de Raul para o satanismo e seu amor muito maior pelo Baghavad-Gita dos indianos do que pela Bíblia dos romanos...

O pivete baiano que se encantou com Elvis Presley e Litte Richard, que puxou a gola pra cima e começou a rosnar e uivar com "Tutti Frutti" ou "Be-Bop-A-Lula", acabou sendo, junto com os Mutantes, um dos principais agentes da mistura entre a música brasileira e o que estava na crista da onda no panorama musical internacional. Raul não tinha medo de "importar" - e sem pagar direitos autorais ou ter que responder processos por plágio - o que havia de melhor no rock gringo. Ele não copiava - ele expropriava. Quer dizer: apropriava-se de modo muito próprio do que suas espertas antenas incorporavam e acabava por realizar uma síntese absolutamente original e inaudita de elementos antes considerados imisturáveis. Um antropófago!

Com Raul, acontece na cultura brasileira um dos mais poderosos fenômenos do que eu chamaria de idolatria secular. O pop star, afinal de contas, é uma espécie de ídolo a vagar fora das igrejas. Cultuado, como outrora Dionísio e Baco, nos locais de dança e carnaval, nos agrupamentos clandestinos de entusiastas, nos locais onde emergem zonas autônomas temporárias e os sujeitos experimentam as "delícias do deslimite" (Rüdiger Safranki). Como quantificar o impacto de uma figura carismática dessas nos sonhos de milhares de homens e mulheres? Como calcular quantas personalidades são moldadas, ao menos em parte, tendo o raul-seixismo como modelo e ideal? Quando John Lennon soltou aquela que deixou de cabelos em pé os fundamentalistas religiosos ("Os Beatles são mais populares do que Jesus Cristo"), estava só dando amostras de seu apuradíssimo senso social. Pois de fato, em nossas sociedades do espetáculo, pra usar a expressão consagrada por Guy Debord, os pop-stars talvez tenham mais impacto social do que alguns mofados símbolos religiosos de milênios atrás. 

Raul Seixas, arauto da contracultura brasileira, padroeiro de todas as lutas anti-manicomiais e anti-dogmáticas, sátiro e palhaço de uma sociedade gerida por elites doentes, é também aquele que nos ensinou que para desafinar o coro dos contentes não é necessário ser soturnamente triste. Com que contentamento e com que jovial audácia Raul não encarnava a ovelha negra! Esta é uma mosca risonha pousando nas intragáveis sopas dos dogmáticos, dos fanáticos, dos caretas. Como a Mafalda de Quino, Raul é um quixotesco protestador contra as sopas azedas deste mundo. E, nos antípodas do inseto nauseante e repugnante no qual o Gregor Samsa de Kafka se viu transformado, Raul Seixas é uma mosca feliz e saltitante. Provoca e alfineta, introduz a dissonância no coro dos normais, questiona as autoridades autoritárias, abre novas vias de interpretação do mundo e da vida, escancarando portas e janelas com pontapés de poeta... O estrago que causou, a influência que gerou e os encantamentos que despertou prosseguem agindo e ecoando, anos e anos depois que os primeiros vermes roeram as frias carnes de seu cadáver alcóolatra e de pâncreas mutilado. E hoje em dia, fantasma entre nós, que frequenta nossos pesadelos e sonhos, que anima nossas festas e nossos cinemas, que é semente nos solos de nossa cultura e inspiração para o desabrochar de nossa criatividade, Raul parece uma figura que saiu da vida só para gozar, altaneiro, da notável sobrevida dos mitos.





terça-feira, 24 de abril de 2012

Coletânea de música brasileira - 5º Volume

Caldeirão Tupiniquim #05 from depredando on 8tracks.


CALDEIRÃO TUPINIQUIM #005

01) TOM ZÉ, “Tô”; 02) CARMEN MIRANDA, “E o Mundo Não se Acabou”; 03) CURUMIN, “Guerreiro”; 04) ELIZETH CARDOSO, “Eu Bebo Sim; 05) MÓVEIS COLONIAIS DE ACAJU, “Cão Guia”; 06) OS MUTANTES, “Hey Boy”; 07) ULTRAJE A RIG
OR, “Marylou” (Versão Carnaval); 08) RAUL SEIXAS, “Moleque Maravilhoso”; 09) SEU JORGE, “Onde Está o Samba”; 10) CLARA NUNES, “Obsessão”; 11) CÍCERO, “Tempo de Pipa”; 12) NÁ OZZETTI, “Baú de Guardados”.

VOLUMES ANTERIORES: QUATRO - TRÊS - DOIS - UM

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Alquimistas do Som (documentário completo) - experimentalismo na MPB



"Alquimistas do Som é um documentário sobre a experimentação na MPB. Alguns dos mais importantes músicos brasileiros comentam, em depoimentos exclusivos, suas incursões no experimentalismo: as origens, as motivações e as consequencias para a sua obra e para a linha evolutiva da MPB. Depoimentos atuais são ilustrados com musicais de Fernando Faro, além de outras imagens do arquivo da TV Cultura. Alquimistas dos Sons promove um emocionante reencontro dos artistas com imagens históricas da televisão." Com Tom Zé, Egberto Gismonti, Arrigo Barnabé, Neuzza Pinheiro, Carlos Rennó, Júlio Medaglia, Lenine, Arnaldo Antunes...


segunda-feira, 1 de agosto de 2011

<<< Tropicalia ou Panis et Circenses >>>


(Manda brasa, mestre Tatit!) >>> "Sou de uma geração em que a canção brasileira lançou olhares para todos os cantos do mundo, todas as épocas, todas as idades, todas as faixas de consumo, de maneira que, volta e meia, tenho desejo de reviver essa espécie de rito de passagem para uma outra esfera cancional, muito além da sonoridade "brasileira" constituída até a bossa-nova. Tropicália é - e sempre será, ôi-iá-iá - a liturgia dessa passagem deste "Miserere Nóbis" (Gilberto Gil e Capinan) até o "Hino do Senhor do Bonfim" (João Antonio Wanderley). Acho que Rogério Duprat estava especialmente iluminado quando pôs toda a sua perícia de maestro arranjador e compositor erudito a serviço de uma intervenção decisiva na história de nossa música. Basta verificar o cuidado com que o músico trata cada faixa tendo em vista o rito global que o disco celebra.

Os tiros de canhão que demarcam a tênue zona de fronteira entre "Miserere Nóbis" e "Coração Materno" (Vicente Celestino) estão na verdade anunciando o extraordinário esforço de interpretação que Caetano Veloso investe numa canção totalmente estigmatizada pela rigorosa triagem bossa-novista. É como se o modo de cantar equilibrado compensasse os sinais melodramáticos e recuperasse um estilo que ajudou a definir os contornos de nossa sonoridade. Ou seja, nada é apenas supérfluo.

E o rito tem continuidade com as frases melódicas ascendentes de "Panis et Circenses" (G. Gil e C. Veloso) e com a imagem da ceia na sala de jantar. O canto dos Mutantes, com The Mamas & The Papas nas veias, dizendo versos desconexos mas ecoando sentidos para todos os lados, é a encarnação do viço tropicalista que se propagaria pelas décadas de 70, 80, 90... até hoje.


No bolero "Lindonéia" (G. Gil e C. Veloso), o isolamento da personagem se concretiza plenamente na voz de Nara Leão, e as imagens são mais pictóricas do que literárias. As linguagens falando no ambiente tropicalista. A faixa seguinte, "Parque Industrial" (Tom Zé), sempre me pareceu conter uma verdadeira simbiose entre o arranjador e o compositor. O lado happening dessa canção, que pela primera vez no disco reúne os 4 principais nomes do movimento (Gil, Gal, Caetano e Tom Zé), evoca o convívio anterior de Rogério Duprat com o experimentalismo erudito; o maestro, por sua vez, sempre entusiasta das referências à sociedade industrial, deve ter visto na canção de Tom Zé o campo ideal para plantar suas figuras sonoras. Há entre esses dois um misto de taleno, afinidade e até compleição física que me faz pensar nessas simbioses fecundas que só duram uma criação.

"Geléia Geral" (G. Gil e Torquato Neto) é o manifesto ideológico do movimento com um jogo alucinante de passado e futuro. "Baby" (C. Veloso) é o próprio futuro da canção brasileira, pós-Beatles, pós-Paul Anka e pós-Celly Campello. "Três Caravelas" (Algueró e Moreu) é o passado que se espraia por toda a América hispânica. "Enquanto Seu Lobo Não Vem" (C. Veloso) é o presente imediato em que o desejo se manifesta independentemente dos limtes. "Mamãe Coragem" (C. Veloso e T. Neto) é o próprio rito de passagem com suas dores e alegrias. Depois disso, só o jogo intersemiótico de "Bat Macumba" (G. Gil e C. Veloso), que se converteu em canção única, irrepetível como composição.

Fico pensando: como pode um disco-manifesto não ser um disco datado? Mas logo me lembro de Sgt. Pepper's, da mesma época, e não penso mais nisso.
 





 Este texto aqui reproduzido,
de autoria de Luiz Tatit,
saiu na coleção "Ilha Deserta",
da Editora Publifolha, pgs. 115-117.













<<< Download >>>
(192 kps, 52 mb)

sábado, 9 de julho de 2011

<<< Lovely Rita >>>


Ritinha Lee, a mutante tutti-frutti maluca-beleza, revela no vídeo abaixo detalhes de sua relação com Caetano e Gil, rememora a fase de ouro do Tropicalismo, fala sobre os bons tempo de alto consumo de "baurets" (cigarrillos de haxixe) e ácido, cita Tom Zé e Torquato Neto... Eis aí um depoimento sensacional sobre um dos momentos de maior efervescência cultural da história brasileira (e em plena ditadura militar pós AI-5!). Este é um trecho-pérola do DVD Biografitti que resolvi up-ar pro YouTube. Espero que curtam! (Link curto pra quem quiser disseminar: http://bit.ly/qPWjOM.)

sexta-feira, 1 de julho de 2011

<<< Mais Tom-Zezismo: cantigas de desatino! >>>


Tempin' atrás, rabisquei uns comentários sobre o ilustre Tom Zé, maluco beleza de primeira grandeza, quando de sua mais recente incursão pelas roças asfaltadas de Goiânia, quando ele nos brindou com um showzaço de encher os olhos e alegrar o zouvido lá no câmpus da UFG. Eu tinha compartilhado naquela ocasião um punhado de álbuns do hómi, especialmente os de começo de carreira, e tinha prometido pôr na roda o restante do que possuo da discografia caso a galera pedisse. Voilà pois, atendendo a pedidos e xingos, tudo o que tenho do tropicalista doidão em minha musicoteca pessoal... esbaldem-se!!! >>> TOM ZÉ, Discografia Seleta: Grande Liquidação (1968); Tom Zé (1970); Se o Caso É Chorar (1972); Todos os Olhos (1973); Estudando o Samba (1976); Correio da Estação do Brás (1978); Nave Maria (1984); Parabelo (1997; com José Miguel Wisnick); Com Defeito de Fabricação (1998); Imprensa Cantada (2003).

E aí embaixo, ó só que divertido (dica do Dieguito): Tom Zé fala sobre Rita Lee e suas canções "sexo-pedagógicas"... antológico!


* * * * *


(DIGRESSÃO: Relendo esses dias uns contículos de Guimarães Rosa, pipocou-me na mente a figura de Tom Zé quando li "Sorôco, Sua Mãe, Sua Filha" (lá no Primeiras Histórias); me pareceu que "cantigas de desatino" é um ótimo batizado para a arte tom-zezista... "Num rompido - ele começou a cantar, alteado, forte, mas sozinho para si - e era a cantiga, mesma, de desatino, que as duas tanto tinham cantado. (...) E foi sem combinação, nem ninguém entedia o que se fizesse: todos, de uma vez, de dó do Sôroco, principiaram também a acompanhar aquele canto sem razão... Foi o de não sair mais da memória. Foi um caso sem comparação." Sei lá se foi produto de cuca ajeitada ou desatinada, mas fato que foi dos meus miolos a surgida conexão: Tom Zé, feito um Sorôco do tropicalismo ou um Quixote d'além-mar,  fazendo a cantiga docemente desatinar... pois é confundindo que ele vai nos esclarecer, e é enloucrescendo que há de nos a-libertar!...)

terça-feira, 21 de junho de 2011

<<< Dona Zica, Manda a Urucubaca Pra Lá! >>>


por ARTHUR NESTROVSKI,
no livro "OUTRAS NOTAS MUSICAIS"
(Publifolha Editora, pg. 411 e 412)

Eles são bonitos, arrojados, exasperados e desabusados, e seu segundo disco cai no chão da nossa música como um meteoro. Já era de se esperar algo do gênero, passados dois anos do primeiro disco do DonaZica, Composição. Mas ninguém poderia prever esse Filme Brasileiro, que saiu em 2005 na série CD 7 (CDs mais baratos, com sete músicas).


Só quem viu DonaZica ao vivo pode avaliar do que o noneto é capaz. Musicalmente a mistura já é explosiva, combinando vertentes que vão da música eletrônica à bandinha de coreto, de Jorge Ben Jor a Arrigo Barnabé, de Itamar Assumpção a Tom Zé, rap, rock e Mário de Andrade. Em cena, a combinação ganha acentos estrambóticos, que atualizam as invenções performáticas da canção tropicalista, uma geração depois das reinvenções da vanguarda paulista.

Em disco, a questão se traduz em outro campo - precisamente para este meio, o disco, afligido por crises mais ou menos apocalípticas segundo a ótica do profeta. Filme Brasileiro é mesmo um exemplo do que pode representar um disco, confrontado com as pulverizações da música pela internet. O disco, no caso, é uma obra, composta por sete canções, ou sete cenas, ou como que se queira chamar as partes do todo. E o disco tem uma ideia, que faz de cada canção um reflexo enriquecido das outras.


"Relaxe", começa a letra da primeira música, parceria de Iara Rennó com Alzira Espíndola. "Bicho-papão não dá medo a ninguém" - e a gente bem pode imaginar o que não virá pela frente, sob os augúrios de uma figura repetida no baixo (alternando compassos quaternários e ternários, à maneira de Itamar), junto com a bateria curta e funda e as econômicas figuras do contraponto na flauta (dobrada), aos quais se somam intervenções de um triângulo de baião e suspiros de moça. Isso tudo nos primeiros 50 segundos de música, o que dá a medida do engenho em evidência do começo ao fim do disco.

Ressalte-se o engenho da gravação, outra arte do disco como disco. Quando as três musas cantam "segure-se", as vozes vêm e vão de vários pontos, sibilinamente sedutoras nos seus "ss". Cada detalhe é pertinente, até para confirmar, onde preciso, a sua justa impertinência; e cada canção se resolve segundo leis que cria para si.


Para usar uma terminologia de Tom Zé: não são, de modo geral, canções 'contemplativas', canções de beleza, mas muito mais canções 'cognitivas', que provocam e fazem pensar. "Quem cozinhou o Brasil?", pergunta serenamente Andreia Dias. "500 anos de ilusão e feijão", continua ela, a caminho dos desabusos: "Passou de mão em mão", "comeu com goiabada e marmelada", "descobriu a cura que cura nada", até a uzynozônica "Quem descobriu o Brasil? / Pegou no teu pau-/ Brasil", onde a separação dos versos crava toda uma arte da ambiguidade.

Esse é um disco dos filhos do Brasil, não só porque Iara é filha de Alzira Espíndola, e Anelis Assumpção de Itamar, mas porque a questão da gênese se deixa adivinhar por trás de tudo. Neste Filme Brasileiro, cabem vanguardas e atavismos de várias extrações, que o DonaZica combina como ninguém, na esperança de um final desconhecido.

(10.12.05)



Composição (2003)
http://www.mediafire.com/?uhbmbbssqoern27

Filme Brasileiro (2005)
http://www.mediafire.com/?co1doj2pk96nq87

quinta-feira, 28 de abril de 2011

:: Tom Zé ::





















 "Astronarta" libertado
Minha vida me ultrapassa
Em qualquer rota que eu faça

Dei um grito no escuro
Sou parceiro do futuro
Na reluzente galáxia...

2001

Se fosse um personagem literário, Tom Zé seria algo entre Dom Quixote de la Mancha e o bobo-da-corte do Rei Lear. Cavaleiro andante que "fez seu berço na viração, só descansa na tempestade e só adormece no furacão", canta amores por Dulcinéias e camaradagens com Sanchos sempre com um charme lunático irresistível. Consciência crítica e vigilante do atual Reino do Capital, adverte com suas piadas e micagens o caduco e senil império dos tiranos da vez: o FMI e o Banco Mundial.

Nesta última terça-feira, 26/04, o compositor baiano esteve em Goiânia para um grande show no câmpus da UFG que re-comprovou a relevância e a vitalidade deste grande artista brasileiro, despontado na Tropicália mas hoje já sacramentado como música-do-mundo - ou "world music" (com aquela mãozinha amiga de David Byrne, dos Talking Heads, que "apadrinhou" e disseminou na gringa o tom-zézismo).

Tom Zé ao vivo é uma sensacional experiência de vida que nos faz lembrar do sentido profundo da palavra "irreverência": não cair de joelhos para reverenciar e venerar aqueles que estão acima nas hierarquias e outras grotescas pirâmides sociais. Combater a injustiça e a desigualdade a golpes de escárnio. Fazer com que o lúdico e o político se dêem as mãos.


Eu já tinha visto Tom Zé ao vivo uma vez, mais de 6 anos atrás, na Cervejaria dos Monjes, em Bauru/SP. Revê-lo foi um prazer grande. Altamente performático e teatral, felicíssimo em cima do palco, Tom Zé tratou de contagiar (com pleno sucesso) o público com seu tão saudável jeito-de-ser de quem despreza a ostentação de riqueza e status ("a gravata é uma forca portátil") e aposta nos poderes transformadores da música popular, especialmente quando é mais crítica que reverente, mais ácida que edulcorante.

Rolou uma bela versão para "2001", o épico espacial-caipira que Tom Zé compôs junto com Rita Lee e foi celebrizado pelos Mutantes. Rolou uma linda versão "mais calminha" para "Menina Amanhã de Manhã", recentemente gravada em versão "pianinha" pela Mônica Salmaso, e que profetiza que "a felicidade que vai desabar sobre os homens". Rolou ainda zoeira pra cima do Papa (que pensou em virar macumbeiro depois de ouvir o batuque do Olodum...), discurso contra a indústria bélica norte-americana, tão metida a poderosa que às vezes caga em cima da ONU, dentre outras provocações.

Testemunhar Tom Zé é algo (além de muito divertido) profundamente revitalizante. Este "velhinho" tem mais pilha que muito adolescente. E mais inteligência que muito pHD ou doutor diplomado, apesar de sua aparência de mendigo. Acho até que ele merecia muito mais estar lá no Ministério da Cultura do que essa ministra toupeira que têm causado tanta polêmica neste início da Era Dilma. O problema é que Tom Zé sempre tratou com sarcasmo toda politicagem. Lembram o que ele recomenda que se faça com "regras e regulamentos", "escritórios e gravatas", "sessões solenes" e "usuras"? "Pegue, junte tudo / Passe vaselina / Enfie, soque, meta / No tanque de gasolina." Acho que ele prefere ser uma pulga na cueca dos poderosos do que um "integrado" a este sistemão neoliberal - que ele repudia e critica alegremente com as armas da rima e da melodia.

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Conheça alguns discos do Tom Zé!
GRANDE LIQUIDAÇÃO (1968)
SE O CASO É CHORAR (1972)
TODOS OS OLHOS (1973)
ESTUDANDO O SAMBA (1976)
CORREIO DA ESTAÇÃO DO BRÁS (1978)
PARABELO (1997)