domingo, 15 de novembro de 2009

:: sôdade matadera ::

:: Ó PEDAÇO DE MIM ::
Canções Sobre a Saudade
por Eduardo Carli de Moraes

"Ó pedaço de mim, ó metade exilada de mim..."
(Chico Buarque)


O sentimento talvez seja universal; mas a palavra para dizê-lo é um dos privilégios e orgulhos maiores do idioma lusitano. Tradutores gringos suam sangue tentando vertê-la para outras línguas e acabam classificando-a entre os vocábulos mais intraduzíveis que já encararam. Quem já não ouviu algum falante do purtuguês se vangloriando de que não se encontra equivalente de "saudade" nas outras línguas, mesmo as mais chiques? Os ingleses dizem "i miss you", mas não há nisso nem um grão de poesia ou lirismo... E os frances, coitados, só têm um verbinho manco, quase perneta: "manquer". Como é que se viram, os gringos, não tendo palavra pra dizer duma paixão d'alma tão fundamental? É, Riobaldo, pra "muita coisa importante falta nome"!

A saudade é um galho da árvore da solidão: segundo tio Aurélio, vem do latim solitate (soledade, solidão...). É a "lembrança nostálgica e, ao mesmo tempo, suave, de pessoas ou coisas distantes ou extintas, acompanhada do desejo de tornar a vê-las ou possuí-las; nostalgia". Como aqui: “Saudade! és a ressonância / De uma cantiga sentida, / Que, embalando a nossa infância, / Nos segue por toda a vida!” (Da Costa e Silva, Pandora, p. 83).

É isto de estar no presente como se está no exílio, tendo o passado o sabor de pátria, de ninho, de mãe. Ou a poética alegria de quem espia, com o olho da mente, suas caixinhas de recordações e álbuns de fotografia, agradecido pelo vivido, fiel ao memorizado. Ou este desejo de retorno aos instantes tão doces e memoráveis que quer-se revivê-los num eterno replay. É possível até ter saudade de coisas que nunca se teve e de lugares que não existem (quanta Bandeira não tinha de Pasárgada!).

É este misterioso sentimento que faz com que se apague toda a imensidão cósmica que temos diante dos sentidos e faz com que a consciência e o desejo se lancem de cabeça, numa doida vontade de outro tempo e outro lugar, onde o coração tem seu sustento e seu alimento - far far away... O sábio jagunço Riobaldo já sabia: "tem horas antigas que ficaram muito mais perto da gente do que outras, de recente data." (Grande Sertão: Veredas, pg. 78, José Olympio, 6a ed).

Há saudades alegres, nostalgias que deleitam, passados perdidos que trazem aos olhos lágrimas de felicidade... Num gingado cheio de malandragem, Chico Buarque chega relatando suas memórias da mocidade, cheia de "prazeres moleques", numa das mais hilárias canções da Ópera do Malandro. "Ai, que saudades que eu tenho dos meus 12 anos, que saudade ingrata! / Dar banda por aí, fazendo grandes planos e chutando lata. / Trocando figurinha, matando passarinho, colecionando minhoca. / Jogando muito botão, rodopiando pião, fazendo troca-troca. // Ai, que saudades que eu tenho duma travessura, um futebol de rua. / Sair pulando muro, olhando fechadura e vendo mulher nua. / Comendo fruta no pé, chupando picolé, pé-de-moleque, paçoca. / E disputando troféu, guerra de pipa no céu, concurso de pipoca...". É Chico brincando de Amélie Poulain!

Sobre "Chega de Saudade" nem é preciso falar muito: o marco-zero da bossa-nova, primeiro hit do jovem João Gilberto, já foi mil vezes regravada (inclusive pelos bã-bã-bãs Tom Jobim e Vinícius de Moraes) e está entre as mais conhecidas pérolas do cancioneiro popular brazuca. Quem é que não sabe cantar? "Pra acabar com esse negócio de você viver longe de mim...". Este clássico é tão clássico que o trazemos aqui em duplinha: primeiro, a versão tropicalista-carnavalesta de Rogério Duprat; depois, a de João.

O trompete choroso, cálido e acarinhante de Chet Baker destila saudosas notas também no lindo cool-jazz "There Will Never Be Another You". Aqui, a mulher amada e perdida é vista como insubstituível e inesquecível (como naquela outra: "unforgetable, in every way..."): "There may be other lips that I may kiss / But they won't thrill me like yours used to do / I may dream a million dreams / But how can they come true / When there will never ever be another you?" Canção de apaixonado, que sente a falta de sua preciosidade maior, na falta e na ausência do que é, para si, o melhor. Comovente na sussidão como só Chet calha de conseguir...


Músicas em tributo aos mortos também saem, por vezes, saudosíssimas. É o caso da homenagem prestada por Chris Cornell ao finado Jeff Buckley em "Wave Goodbye", um dos destaques do excelente álbum solo de estréia do gogó fenomenal que berrava no Soundgarden e no Audioslave, Euphoria Morning. Feita como se fosse para descer, como uma borboleta no escafandro, Mississipi abaixo, para encontrar o cadáver de Jeff ali, no fundo do rio do blues. A poesia de Cornell poucas vezes esteve tão afiada, e poucas de suas canções soam mais comoventes e sinceras. Tanto que jamais ouvi de ninguém qualquer tipo de ironia sugerindo um "crush" homossexual entre estes dois. Rilke dizia: "Desça até bem fundo: a ironia não chega até lá...". É o que Chris fez nesta matadora canção-de-amor e adeus à Jeff Buckley:


Every hurtful thing you ever said
Is ringing in your ears
(When you miss somebody)

And every thing of beauty that you see
Only brings a tear
(When you miss somebody)

You tell yourself everything will be allright
Try to stand up strong and brave,
when all you wanna do
Is lay down and die.


Pra não dizer que não falamos em blues... Quer material mais propício para uma dolorenta blueseira do que estar "homesick" ou "missing someone"? É ela, a saudade, o combustível da sensacional "It Hurt So Bad", de Susan Tedeschi, que entrega-se a uma performance vocal tão apaixonada e catártica que é difícil não compará-la à ferocidade de Janis Joplin. Aqui o aspecto sexual se intensifica, já que Susan descreve em seguidos versos todas as sensações corporais deleitosas de que sente falta: "I miss the arms that used to hold me / The tender way we used to kiss / I miss the way that you touch me / I miss the sweet taste of your lips...". Tudo isto entregue com tamanha catarse, num jorro de emoção tão autêntica, que trará lágrimas de excitação aos que abrirem seus tímpanos. E, no finalzinho, putzgrila... que gemidos! Que urros! Que fenômeno não deve ser essa mulher na cama!...

A melancolia chega perto de transbordar o cálice, e afogar o pobre ouvinte, na melodramática e carregada "Lonesome Tears", canção da fase mais "down" de Beck. Pelos idos de 2002, o menino Hansen terminou um relacionamento amoroso de mais de 10 anos; na tentativa de curar suas feridas, exorcizar seus demônios, transformar em canto suas memórias, compôs um dos álbuns mais sublimes e tristes de sua carreira: Sea Change.

Aqui as "lágrimas solitárias" já secaram, já foram reconhecidas como inúteis e ruinosas, e agora sobrou o desejo de "apagar" certos dias - talvez por terem sido bons demais e, por isso, insuportáveis demais quando não se tem ao lado a pessoa com que foram vividos. "I'll try to leave behind some days / These tears just can't erase / I don't need them anymore". Ao mesmo tempo sofrida e estóica, aflita e resignada, a canção traz Beck falando sobre a mutabilidade eterna dos assuntos do coração: "How could this world, ever-turning, never turn its eye on me? // How could this love, ever-changing, never change the way I feel?"

Mas a melancolia beckiana ainda encontra uma certa redenção no crescendo musical que ergue tão tristes sensações a um nível sublime... Já a melancolia de "Pedaço de Mim", uma das mais dilacerantes baladas da música brasileira, é de um pesadume quase insustentável: Chico nos recusa qualquer consolo. Aqui, o clima é mais de luto, de perda irreparável, de coração mutilado, do que de uma falta remediável. A saudade, aqui, é o "pior tormento" - "é pior que o esquecimento...". É uma saudade que lateja tanto, que sangra tanto por dentro, que quer-se, de qualquer modo, desfazer-se dela: "não quero levar comigo a mortalha do amor...". O clima é mais de "Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças": uma memória purulenta que, se se pudesse, ter-se-ia cirurgicamente removida...

Aqui estão em foco as saudades impossíveis: a falta de alguém que já morreu, ou daquilo que já se perdeu e sabe-se que não se reencontrará. "A saudade é o revés de um parto... / A saudade é arrumar o quarto / Do filho que já morreu". Triste sentimento da espera inútil, do desejo vão, daqueles que ficam no porto, de olhos molhados, a fitar o horizonte, sempre em vão: "A saudade dói como um barco / Que aos poucos descreve um arco / E evita atracar no cais...".

Marcelo Camelo, um dos mais ilustres discípulos buarquistas, também arriscou-se num território onde Chico foi mestre. Disfarçadamente, o ex-Los Hermano começa "Veja Bem, Meu Bem" fingindo que se trata de uma música de traição e de abandono: diz pra moça que sente muito por informar, mas que arranjou outro alguém pra lhe confortar, uma ajuda pra passar pelos dias ruins... "Pois a solidão deixa o coração neste leva-e-traz...". Na brilhância dessa narrativa, cabe espaço para uma "reviravolta", uma espécie de "final surpresa", bem ao modo de filmes fodásticos como Os Suspeitos ou Seven. "Se eu te troquei, não foi por maldade / Amor veja bem, arranjei alguém / Chamado saudade..." O efeito é maior quando se ouve pela primeira vez, decerto, mas continua presente nas outras ouvidas.

Ecoando as metáforas de Chico em "Pedaço de Mim", Camelo novamente evoca situações náuticas para descrever seu desalento na espera: "Enquanto isso, navegando eu vou sem paz / Sem ter um porto, quase morto, sem um cais...". Não é surpresa que tantos barcos e navegações apareçam como fantasmagorias poéticas nas canções nacionais sobre a saudade: suspeita-se que o vocábulo "pegou" mesmo quando os portugas pós-Cabral começaram a cruzar os oceanos, aportando inclusive na terra do pau-brasil, e começaram a sentir aquele "sôdade matadera" de que fala Caymmi. A saudade é um estar-a-navegar longe de casa, sem terra à vista, numa canoa embalada pelas tristonhas ondas da esperança...

E pra não acusarem a saudade de ser um sentimento pequeno burguês, de gente que só sabe levar em conta a esfera privada, ouçamos um das mais lindas baladas do Grandaddy, a banda mais saudosa do mundo hi-tech. Jason Lytle e seus comparsas do Vôvozinho, em toda sua obra, manifestaram a falta que faz o idílico mundo anterior à Era da Informática - antes dos ares-condicionados nas matas e dos aviões comandados por robôs. "Crystal Lake", talvez a mais bela música da banda, é nostalgia bruta, embalada por um desejo místico de retornar ao "lago de cristal", para longe desta frenética zona criada pelo homem moderno e sua sinfonia de celulares, PCs e ciborgues: "Should never have left the crystal lake / For areas where trees are fake / And dogs are dead with broken hearts / Collapsing by the coffee carts...".



Pra que não falem que francês não manja nada desta doença do coração manco (un coeur que manque...) ouçam a primeira-dama da terra de Napoleão, a esposa de Sarkozy, a musa Carla Bruni. Em "Tout le Monde", de seu disco de estréia, ela alça vôo para uma generalização sobre a humanidade: "todo mundo tem uma infância que ressoa no fundo de um bolso esquecido", canta ela, além de "restos de sonhos e cantos de vida devastados". E ela pede que reclamemos junto às autoridades uma lei que impeça que pessoa alguma possa ser esquecida: "...que personne ne soit oublié!"

E já que a saudade não é somente musical, mas altamente cinematográfica, ouçam "As Time Goes By", pra lembrar de Casablanca e do dueto mágico de Bogart e Bergman: o modo com uma memória que é ferida e mágoa, ao passar por uma cirurgia a dois, torna-se gratidão e doçura. "We'll always have Paris..."

Haveriam dúzias de outras que poderiam figurar aqui, nesta humilde coletinha. Mas ela não pretende ser nada mais que uma seleção subjetiva, eclética e viajante, centrada nas que mais tocam aqui nos meus tímpanos, que mais me tocam o coração, sem outra razão para serem gostadas fora o serem ótimas descrições da vida, em tantos de seus momentos... Pra terminar, passo a palavra a um que muito bem soube sofrer e cantar as amargas doçuras da sôdade matadera:


Meus caros, volta-se porque se tem saudade
Porque se foi feliz intimamente
Volta-se porque se tocou num inocente
E porque se encontrou tranquilidade

A despeito da vida que acorrente
Volta-se, volta-se para a sinceridade
Volta-se sempre, tarde ou de repente
Na alegria ou na infelicidade.

E nada como esse apelo da lembrança
Pra se transfigurar numa esperança
Essa desolação que uma alma teve

Assim é que, partindo, eu vou levando
Toda a desolação de um até quando
Num ardente desejo de até breve.

(Vinícius de Moraes)




TRACKLIST:

01. ROGÉRIO DUPRAT, Chega de Saudade
02. JOÃO GILBERTO, Chega de Saudade
03. CHICO BUARQUE, Doze Anos
04. CHET BAKER, There Will Never Be Another You
05. SUSAN TEDESCHI, It Hurt So Bad
06. CHRIS CORNELL, Wave Goodbye
07. LOS HERMANOS, Veja Bem Meu Bem
08. BECK, Lonesome Tears
09. GRANDADDY, The Crystal Lake
10. CARLA BRUNI, Tout Le Monde
11. CASABLANCA SOUNDTRACK, As Time Goes By
12. CHICO BUARQUE, Pedaço de Mim

5 comentários:

Fran disse...

Lindo, Edu. Texto primoroso.
grande bjo.

Thaís disse...

Sem dúvida, O MELHOR post do Depredando! Puta merda, Edu... Só vc. pra traduzir a saudade tão bem!

Um abração!

Eduardo disse...

Valeu, Fran e Thaís! Fico muito contente que tenham curtido! =)

Este post foi um experimento dum formato novo de matéria que, tendo um tema central em foco, vai "passeando" por vários sons e checando o que eles têm a dizer sobre ele... Quem sabe mais pra frente rolem mais posts parecidos! Aceito sugestões de "tema"...

Ah, e esqueci de creditar a foto da abertura: é do Jan Saudek, artista que vale a pena ir atrás de conhecer...

Cheers!

Daniel Montoya disse...

Meu português é uma merda, mas sempre que leio esta página Eu aprendo muito, ea palavra saudade "nostalgia" no potugués é muito mais reveladora do que em outras línguas, concordamos irmão. boa compilação

Elvis disse...

Puxa irmão! Você não sabe o quanto esse texto me emocionou. Ainda estou escrevendo enquanto o arquivo baixa mas já quero agradecer.

Isto cai bem para o meu estado de espírito.
Abraços e parabéns pelo blog.