domingo, 14 de março de 2010

:: Doors ::

"Standing there on freedom's shore..."
- Bernardo Santana -

Quatro camisetas dominavam o mundo da moda roque Ex-São Paulo no meu tempo de moleque: Iron Maiden, Led Zeppelin, Nirvana... e Doors. Todas naquele preto suicida pra um país tropical, menos as da banda de Jim Morrison. Então eu fiquei curioso e comprei aquela coletânea safada (aquela lá, saca? Mesmo set, foto de Morrison diferente na capa, lançada a cada plano quinquenal da gravadora) e então... E então nada. Conheci as mesmas músicas clássicas dos caras que todo mundo conhece e ficou por isso mesmo. "Banda boa, mas enchi o saco."

Até o dia que eu trombei com um moleque na rua, em plena Emo Age, com uma camiseta igualzinha a que eu tive um dia e decidi usar o Files Tube pra comemorar. Vamos lá, discografia baixada e má-vontade de ouvir todas as 376 músicas dos caras.

"Primeiro disco, tem mais hits, vamolá (...) puta merda, isso é muito mais foda do que eu achei que era! Deixa eu ver esse segundo..." E foi lindo! Uma bolacha atrás da outra, pagando pau intenso pra tecladêra inimitável de Ray Manzarek; prum guitarrista que eu não dava um kibe, mas que é um mestre; prum baterista muito do criativo e, claro, pro fita mais talentoso, de colhão e engraçado que já existiu no roque, o lagartão gigolô Jim Morrison.

Como a postagem de discografias é meio complicada em tempos de tempo escasso, resolvi então escrever somente sobre um dos discos deles. O que mais me surpreendeu, tanto pela tonelada de psicodelia, quanto pela ausência de músicas conhecidas (relativamente, claro, afinal a banda tinha 4, 5 hits por disco, muitas vezes): Morrison Hotel.

Lançado em 1970, Hotel veio como resposta da banda às críticas à bolacha anterior, The Soft Parade, bem-sucedida, mas criticada pela postura mais "pop" — besteira, pra mim — das músicas. Bom, os caras voltaram a fazer o que estavam acostumados, mas acrescentaram ao climão psicodélico muito mais blues do que antes. O estilo ia saturar muito mais o trabalho seguinte dos caras, L.A. Woman, mas neste Morrison Hotel estava na medida, acrescentando à doideira lisérgica uma alma um pouco mais (ou ainda mais) agressiva, ao som principalmente.

Comentar Roadhouse Blues e Waiting For the Sun talvez seja perda de tempo, visto que as duas são cantadas por todos tiozões rockers de boteco azul na esquina da América Latina. De qualquer forma, são um bom exemplo das duas faces do Doors no disco: Roadhouse um blues sem tirar nem por, e Waiting a típica viagem climática dos primeiros anos.

You Make Me Real inaugura, então, o começo dos trabalhos propriamente ditos, com seu tecladão de bordel se entrelaçando na guitarra de Robby Krieger e sua letra bem longe da poesia etérea-xamânica-alcóolatra pela qual Jim Morrison ficou conhecido. Peace Frog chuta bundas em seguida. O maior sub-hit do Doors de toda sua carreira, a música é tão contagiante (“vamos lá, garotos e garotas, chacoalhando o quadril!”), que é mesmo uma surpresa ela não ser tão ou mais famosa que coisas como Unknown Soldier e Spanish Caravan, por exemplo, bem mais difíceis de digerir (mas ainda assim, fodas). Sim, essa é a música pra ouvir como testdrive…

Depois Blue Sunday, quase um interlúdio lírico no meio do barulho. Climão ideal pra Morrison assumir seu lado crooner com seu vocal grave e um tipo de melodia extinta pela covardia e “vontade de inovar” dos dias de hoje. Ship of Fools na sequência… outra que não dá pra entender não ser um baita hino do tamanho de Break on Through. Riffizão certeiro e tudo no lugar pra fazer você sair cantando por aí sem perceber. E no mesmo patamar lá em cima entra Land Ho!, logo a seguir.

E por aí o disco vai por mais quatro músicas, surpreendendo e alimentando a cabeça, como diziam no Verão do Amor. Sim, porque ouvir os Doors sem lembrar o que eles eram no palco não pode ser. Produto e catalisador de uma época em que a bunda-molice dava um descanso aos bons cidadãos do lado ocidental do planeta e a música ia de carona, os Doors conseguiram ser uma banda profundamente ligada a esse contexto por seus shows caóticos, provocadores e libertários em essência. Ícones de uma época em que a música popular não era só música, mas vanguarda na mudança social em busca de um mundo preenchido menos por medo e regras e mais por coragem e liberdade.

Uma camiseta branca no meio das pretas.

(E a música era de primeiríssima também!)

DOWNLOAD: 72 Mb - 11 faixas


3 comentários:

lucas disse...

Muito bom,mesmo.
Um dos discos que queria ter.

@excambau_joh (chickeniples) disse...

gozado vc começar o texto com a parada das camisetas... lembrei q eu fui no primeiro monsters of rock com 1 camiseta branca do the doors - exatamente essa aqui:
http://img.ibiubi.com.br/%2Fprodutos%2F1%2F0%2F1%2F8%2F1%2F4%2F2%2Fimg%2F01_blusa-viscolycra-the-doors-branca-tamanho-unico_grande.jpg

uhahuahuauh sensacional!!!
adoro doors ateh hj
tah no meu iphone
ouço sempre q lembro
e começo sempre por SPY, TOUCH ME, LA WOMAN

texto ótimo!

matheus disse...

que biito isso que você escreveu! (=