terça-feira, 8 de abril de 2008

:: os 10 melhores dos anos 60...- #04 ::

[4º]

OS MUTANTES
(1968)



por Eduardo Carli de Moraes


"Eles eram loucos, e isso bastava”. É o que diz a fã Mathilda Kóvak no prefácio de A Divina Comédia dos Mutantes, de Carlos Calado, a mais completa biografia sobre a banda que, a golpes de irreverência e insanidade, reinventou a psicodelia em terra brasilis e acabou se tornando um dos acontecimentos mais geniosos da Tropicália e um dos capítulos mais interessantes da história da música nacional nos sixties.

Mas a loucura mutante não era loucura tradicional, daquelas de hospício, sem pé-nem-cabeça, pura anarquia-cerebral-e-sensível – era uma bagunça organizada, uma zorra muito bem feita, um circo musical repleto de geringonças e idéias tresloucadas que continua, ainda hoje, a fascinar, inspirar, alegrar e transpirar criatividade. Nunca houve e nunca haverá nada como os Mutantes. Arnaldo Baptista, Sérgio Dias e Rita Lee, esse “tresloucado trio dentuço” de moleques de talento precoce e nenhum medo do ridículo, fizeram no Brasil os únicos Sgt Peppers que temos – e Mathilda chega ao cúmulo da idolatria ao dizer que os Mutantes fizeram 5 (cinco!) Sargentos Pimentas, enquanto os Beatles e George Martin só tiveram fôlego para um!

A fã Mathilda continua, viajando mutantemente na descrição das Figuraças: “[Os Mutantes foram] a conjunção perfeita de som, imagem e movimento. Os Mutantes eram cinema, em terceira dimensão. Dois irmãos Baptistas aliados à Linda Evangelista da música, a Chanel do rock'n'roll. Arnaldo, uma fusão de Rimbaud com Liszt e Chacrinha. Sérgio, um híbrido de Paul McCartney com Jerry Lewis, com pitadas de Segovia e Pernalonga. Rita, Da Vinci sem sair de cima, a mulher dos mil instrumentos, truques de Fada Sininho e humor de Lucille Ball.” (...)

Sim, os Mutantes pareciam personagens de histórias em quadrinho ou de desenho animado, algo concebido por algum artista gráfico amalucado e tripping on acid, que teria dado à luz, com figurino bizarro e excentricidades mil, a essas figurinhas genialmente bagunceiras... Que, porém, não estavam nem aí pra salvar o mundo como fazem os Bons-Moços Heróicos por aí: só queriam tornar o mundo mais legal e mais divertido do que ele jamais foi. E como conseguiram!

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Mas pra entender porque esse álbum foi tão crucial, é preciso pintar um quadro mais geral do Contexto Cultural Brazuca do final dos anos 60: é preciso falar sobre o surgimento, em meio ao escândalo e à atiração de tomates, d'um treco que aprendemos a chamar de Tropicália; é preciso voltar à Era dos Festivais, quando os artistas disputavam verdadeiros campeonatos de composição e execução de música popular frente aos olhos das multidões vidradas na telinha da TV; é preciso situar no mapa os coadjuvantes ilustres dessa história toda que, tanto quanto Arnaldo, Serginho e Rita, fizeram essa maravilha acontecer: Rogério Duprat, Gilberto Gil, Oswald De Andrade...

O movimento tropicalista, pra usar uma expressão de Capinan, tinha a intenção de ser “uma chuva de verão que alagasse infinita enquanto durasse”. Para Carlos Calado, “a intenção principal dos tropicalistas era desafinar o tom hegemônico das canções de protesto e da MPB politizada em meados dos anos 60. (...) Para combater o aristocratismo musical da época, o apoio à Jovem Guarda e a conexão com a música pop internacional foram estratégicas para a vitória da Tropicália.”

O Zé Miguel Wisnik, numa aula recente lá na USP, comentou também que a Tropicália pode ser vista também como uma repercussão tardia da revolução estética proposta por Oswald de Andrade, nos anos 20, com o seu Manifesto Antropofágico, que propunha a miscigenação da cultura nacional com a estrangeira num processo de engolir, digerir, misturar e vomitar a gororoba/mistureba na cara do mundo careta e tradicionalista. Mesmo que não tivessem consciência clara disso, os Mutantes e os tropicalistas foram soldados do exército antropófago de Oswald de Andrade em plena efervescência psicodélica dos anos 60!

Claro que, como tudo que é bom, a Tropicália durou pouco – “abatida em pleno vôo pelo AI-5”, como diz Tárik de Souza – mas fez uma diferença dos diabos no cenário artístico e cultural brasileiro da época. Entre outubro de 67 e dezembro de 68, o movimento tropicalista deixou uma marca indelével na música nacional, acabando por influenciar grande parte dos artistas que marcaram a MPB nos últimos 30 anos. Caetano, Gil, Gal, Bethânia, Tom Zé, Os Mutantes e o Maestro Rogério Duprat, entre outros, deixaram sua passagem muito bem marcada pela história e tiveram carreiras longas e fecundas nos anos após a efervescência da Tropicália.

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Gilberto Gil, lá pelos idos de 1967, estava fascinado tanto por música regional nordestina quanto pelo novíssimo som psicodélico inglês que os Beatles haviam popularizado universalmente: e então pensou - "por que não juntar a música da Banda de Pífaros de Caruaru, que o impressionara tanto, com o rock dos Beatles? Por que não injetar o universalismo e a modernidade da música pop na mais típica música popular brasileira?" O grande projeto era tornar a MPB "mais universal" e menos marcada pelo "nacionalismo defensivo das canções de protesto, que impregnava quase toda a produção da MPB daquela época". (pg. 98)

Quando compôs “Domingo no Parque”, por exemplo, Gil desejou criar uma canção cujo ritmo básico era um afoxé de capoeira (o que pedia um berimbau no arranjo), mas incluindo algo "na linha dos Beatles", com uma orquestra que trouxesse à música algo da sonoridade que George Martin trouxe aos Fab Four em Sgt. Peppers. Rogério Duprat, que "tinha bagagem musical e criatividade de sobra para desempenhar o papel de George Martin" (pg. 123), iria adorar a idéia e inclusive iria apresentar Gil a uns “moleques muito bons”: os Mutantes.

Rogério Duprat tinha sido violoncelista do Teatro Municipal de São Paulo e tinha estudado na Alemanha com revolucionários compositores contemporâneos como Stockhausen e Pierre Boulez (numa das turmas estava o roqueiro debochado Frank Zappa). Em 65, criou, junto com o poeta concretista Décio Pignatari, o Marda (Movimento de Arregimentação Radical em Defesa da Arte). "Aos 34 anos de idade, depois de ter feito inúmeras experiências com música eletrônica, música serial ou mesmo aleatória, até chegar aos happenings idealizados pelo anarco-vanguardista norte-americano John Cage, não havia muito mais a fazer. Duprat só viu uma saída para fugir do tédio que já sentia em seus últimos trabalhos. O jeito era mudar de língua: trocar a música erudita pela música popular." (125)


É assim que entram em cena pela primeira vez os Mutantes, jovens iconoclastas fãs de Beatles e animados com a farra tropicalista, que gostaram da "idéia de invadir a praia dos emepebistas com guitarra e baixo elétrico” para acompanhar Gil: pois “farra e provocação era com eles mesmos." (129) A convivência de Gil com os Mutantes foi crucial - mas, como sugere Carlos Calado, foi ele, GG, quem aprendeu mais com aqueles garotos irreverentes e iconoclastas que estavam somente começando seu percurso na música mundial. "A começar pelo exemplo de Serginho, que aos 16 anos de idade não estava nem um pouco preocupado com o que poderiam pensar de sua música. O garoto tocava simplesmente tudo o que gostasse ou lhe viesse à cabeça: Beatles, Mozart, Rolling Stones, Bach ou The Mamas and the Papas, sem jamais pensar nas reações que sua atitude poderia provocar. Esse grau de descompromisso musical era quase impensável para Gil, que vivia preocupado com as opiniões negativas dos emepebistas a respeito de suas novas canções. O baiano sonhava poder espantar de vez o fantasma da aprovação dos colegas e, nesse aspecto, a convivência com os garotos foi bastante educativa. O humor adolescente e a alegria iconoclasta dos Mutantes, sempre prontos para fazer piadas em qualquer situação, acabavam provocando o 'padrinho'. Incitavam Gil a se soltar cada vez mais." (172)

Dando provas tão precoces de ousadia e iconoclastia, Rita Lee, Sérgio Dias e Arnaldo Baptista se puseram a criar seu disco de estréia, destinado a se transformar num dos maiores clássicos do rock brasileiro, reverenciado dentro e fora do Brasil. Alguns meses antes os Mutantes já haviam participado do disco conjunto da Tropicalia, o Panis Et Circenses, posando inclusive para a clássica capa do álbum (aquela em que Duprat utiliza um penico como xícara de chá, numa referência à Marcel Duchamp). Só isso já bastaria para que eles entrassem na história da música nacional. Mas eles fariam muuito, muito mais.

O álbum de estréia do grupo, apesar de intimamente relacionado com o movimento tropicalista, como provam as versões que contêm de “Baby” e “Panis Et Circenses” de Caetano Veloso, era muito mais variado que isso. Tinham espaço ali uma espécie de proto samba-rock de Jorge Ben (“Minha Menina”), um baião de Sivuca e Humberto Teixeira (“Adeus Maria Fulô”), experimentos com poesia concreta e quase dadaísmo (“Batmakumba”) e até mesmo uma linda versão de uma balada francesa que ficou famosa na voz de Françoise Hardy (“Le Premier Bonheur Du Jour”). Já a vertente mais beatle ficava clara em rocks adolescentes adoráveis e irresistíveis como "Senhor F" e "Trem Fantasma".

O primeiro álbum dos Mutantes, d'uma importância histórica fenomenal e d'um frescor ainda hoje vivo e forte, continua sendo uma linda flor psicodélica que não murchou nem nunca murchará. Por um lado, é sintoma de uma efervescência artística irreverente e lúdica que procura driblar a rabugice e a gravidade do Carrancudo Regime Militar brasileiro a golpes de alegria e originalidade. Os Mutantes provaram que o deboche e o riso podia ser o melhor remédio contra os descalabros dos militares e não tiveram medo de causar frisson e escândalo frente aos puristas da MPB e da bossa nova, que viam com horror a adição de “elementos estrangeiros” à música nacional. A História, é claro, deu a razão a eles e ao projeto antropófago, contra os tradicionalistas que tentaram, em vão, manter a música nacional “ariana” e “virginal”.

Mas não precisamos nem levar em conta o contexto sócio-político-cultural brasileiro para perceber o valor dos Mutantes, já que a música em si, como a vasta onda de louvor à banda no exterior prova (com fãs ilustres como David Byrne e Kurt Cobain), fazia um som universalmente curtível e que não ficava devendo em nada aos grandes discos de rock lançados no mundo na década de 60. Orgulhemo-nos dessa maravilha: o Brasil é um dos poucos países no mundo que possui uma banda capaz de rivalizar com os Beatles em matéria de criatividade musical nos anos 60. Ouvindo esse excêntrico e inimitável álbum de estréia, repleto da mais excitante loucura-genial e bagunça-organizada, fica fácil entender porquê os Mutantes são, sem sombra de dúvida, a maior contribuição brasileira à música pop mundial.

DOWNLOAD
(mp3 de 128 kps - 34 MB):
http://www.mediafire.com/?mxbh0ywj2k3

Um comentário:

Eduardo Carli de Moraes disse...

p.s.: todas as citações, destacadas em azul escuro, foram extraídas dos livros de Carlos Calado, "Tropicália" e "A Divina Comédia dos Mutantes", recomendadíssimos pra quem quer se aprofundar no assunto.