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domingo, 22 de julho de 2012

"Basta de rosários em nossos ovários!" - O fundamentalismo religioso e sua tirania sobre os corpos




Carla Herrara, 11, garota salvadorenha, segura contra
o peito uma foto de sua mãe, Carmen Climaco,
condenada a 30 anos de prisão por causa
de um aborto que foi julgado como "homicídio"
Todo apoio à mobilização: "Afastem seus rosários de nossos ovários, seus fanáticos!" Um exemplo contemporâneo paradigmático do Cristianismo como doutrina machista e retrógada (além do mito que conta que Eva, nascida de uma costela de Adão, é culpada pelo pecado original...) é a situação hoje em El Salvador, país extremamente religioso.

Em El Salvador, relata Sam Harris, "o aborto é hoje ilegal sob quaisquer circunstâncias. Não há exceções para o estupro ou o incesto. No momento em que uma mulher chega a um hospital com o útero perfurado, indicando que fez um aborto caseiro em algum beco, ela é algemada à cama do hospital e seu corpo é tratado como uma cena de crime. Médicos forenses chegam para examinar seu útero. Há mulheres hoje cumprindo penas de 30 anos de prisão pelo crime de interromper sua gravidez. Imagine tal cenário em um país que também estigmatiza o uso de anticoncepcionais e os vê como um pecado contra Deus." (Carta a Uma Nação Cristã, Cia das Letras, Pg. 46)

É em direção à barbáries semelhantes que iremos caso a laicidade prossiga sendo tão mau-tratada pelos dogmatismos e fanatismos religiosos.
* * * * *

Outro exemplo: 

Segundo Harris, avanços na área da medicina são obstaculizados em sua implementação por ações contrárias de religiosos fundamentalistas que “estão mais preocupados com os embriões humanos do que com a possibilidade de salvar vidas oferecida pela pesquisa com células-tronco” e que “são capazes de pregar contra o uso da camisinha na África subsaariana, enquanto milhões de pessoas morrem de AIDS nessa região a cada ano”. 

Um caso paradigmático: “o papilomavírus humano (HPV, na sigla em inglês) é hoje a doença sexualmente transmissível mais comum nos Estados Unidos. Esse vírus infecta mais da metade da população americana, causando a morte de quase 5 mil mulheres a cada ano, de câncer cervical. O Centro para Controle de Doenças (Center For Disease Control – CDC) estima que mais de 200 mil mulheres morrem anualmente dessa doença no mundo inteiro. 

Hoje temos uma vacina para o HPV que parece ser segura e eficiente. A vacina produziu uma imunidade de 100% nas 6 mil mulheres que a receberam como parte de um teste clínico. Contudo, os conservadores cristãos no governo americano opõem resistência ao programa de vacinação, alegando que o HPV é um impedimento valioso contra o sexo antes do casamento. Esses homens e mulheres piedosos desejam preservar o câncer cervical como incentivo para a abstinência sexual, embora ele tire a vida de milhares de mulheres a cada ano."



Um dos melhores documentários sobre esta problemática toda do fundamentalismo religioso e a cerca que ele pretende impor aos corpos e mentes humanas é Lake of Fire, filme de Tony Kaye (A Outra História Americana) que você pode assistir na íntegra abaixo:


sexta-feira, 18 de maio de 2012

Raul Seixas - Maluco Beleza em Metamorfose Ambulante (um retrato)

Documentário de Walter Carvalho (2012)

"...um espírito versado na serpentina arte de mudar de pele. [...] E feliz em não abrigar em si uma alma imortal, mas muitas almas mortais."
NIETZSCHE
(Humano Demasiado Humano II - Prólogo #2 e #17).



O nome escrito no RG perdura do nascimento à morte, quiçá modificado, vez ou outra, por casório, mudança-de-sexo ou ida-pro-estrangeiro. Já a criatura que este nome batiza decerto é bem mais fluida e líquida do que sugere a fixidez dos documentos. Somos seres mutantes! As barbas sucederam aos meus dentes-de-leite do mesmo modo como os cabelos alvos da velhice hão de esbranquiçar estas madeixas temporariamente cheias de cor. E não será melhor aquiescer à roda-viva dos tempos ao invés de aspirar por impossíveis imutabilidades?

Não se entra duas vezes no mesmo rio”, dizia Heráclito uns 2.500 anos atrás. A ancestralidade do dito, seu caráter de “clássico” da filosofia, não significa que o rio de que ele falava – o rio cósmico, o rio universal, o rio de Tudo o que escorre... - cessou de correr. Prosseguem as marés em sua dança com a Lua. Prosseguem as águas a responderem aos chamados invisíveis das gravitações planetares, eternamente fluentes, e sempre aos humanos  indiferentes, por mais embasbacados que fiquem estes diante de mares e luares!

Se a própria Natureza ao nosso redor é dinâmica eterna e imparável mobilidade, seríamos loucos se quiséssemos, apegando-nos a dogmas e nos engessando em ortodoxias, sermos fixos como as “pedras que choram sozinhas no mesmo lugar”. Raul, como canta-nos em "Medo da Chuva", "aprendeu o segredo da vida vendo essas pedras que choram sozinhas no mesmo lugar". Conheço poucos versos mais lindos na história da poesia e da música brasileira. Raul Seixas nos comove e nos encanta tanto, me parece, pois não quis ter um destino de pedra, estagnada em sua solidez, e preferiu ser rio. "Eu preferiu ser uma metamorfose ambulante do que “ter aquela velha opinião formada sobre tudo...”.

E isso, pra mim, é rock'n'roll até o osso. Pedras que rolam não criam limo. Mas melhor que ser pedra que rola é ser homem-rio. Não é à toa que Walter Carvalho inicia seu filme com um dos símbolos-mor da contracultura hippie sessentista: os dois motoqueiros de Easy Rider, encarnados por Dennis Hopper e Peter Honda. Raul Seixas, seguindo essa metáfora, teria sido um easy rider tupiniquim, um que põe o pé-na-estrada ao invés de ser samambaia, um maluco beleza sem medo de ver o misticismo misturado com a lucidez, nem o rock com o baião, Jimi Hendrix com Luiz Gonzaga, Satanás com Cristo, Crowley com Shiva... A ousadia das mesclas, a leveza desse saltar eclético em várias “ilhas” da cultura, faz de Raul um desbravador de novas sendas para a liberdade!... “Faze o que tu queres... há de ser tudo da lei!”

Que esse anarquismo estético todo seja altamente subversivo eu não duvido. E é ótimo que seja. Raul Seixas permanece um remédio necessário contra o caretismo. Longe de mim bancar aqui o bully dos caretas, ainda mais considerando que tenho, com certeza, minhas próprias caretices, como todos. O problema é que o caretismo não é tão inofensivo como parece: estou convencido de que muitos “homens de poder”, muitas altíssimas autoridades políticas-militares-religiosas-policiais, muitos destes que são responsáveis por criar as nossas leis e vigiar nossos comportamentos e nossas interações sociais, são caretas dogmáticos.

Um exemplo: a sangrenta Guerra às Drogas, baseada em ortodoxias proibicionistas, por exemplo, já deixou 50.000 mil mortos no México nos últimos 5 ou 6 anos... A mesma guerra absurda, levada a cabo faz algumas décadas pelo DEA norte-americano, que segue seguindo à risca a cartilha do czar Anslinger, causou trilhões e trilhões de desperdício de verba pública e o encarceramento em massa de um imenso contingente populacional: 25% dos presos do planeta estão nos Estados Unidos da América, o maior Estado policial e militar do mundo. Quanto aos assassinados no Rio de Janeiro ou na Colômbia, bem... quem é que está contando? E como não perder a conta diante de um genocídio tamanho? 

Aliás, não haveria um certo eufemismo no próprio termo “Guerra às Drogas”? Como se as perseguidas fossem só as substâncias, e não... as pessoas que as utilizam e comercializam! Esta guerra contra pessoas, movida por preconceitos que se agarram com a obstinação de sanguessugas às nossas legislações, tem a ver – e me arrisco agora em psicologia social raul-seixista! - com o caretismo institucionalizado dos fanáticos pela ordem. E Raul Seixas é um providencial antídoto.


O que eu quero dizer é que acho ótimo que tenha existido uma figura como Raul para ser uma mosca na sopa de tudo quanto é discursinho pró DOPS, Opus Dei, Caveirão do BOPE... Raul foi, de fato, uma das maiores figuras da contracultura brasileira na segunda metade do século passado, um artista de criatividade exuberante, e que nos mostrou a beleza da ousadia, da quebra de paradigmas, do comportamento distoante. Ouvir Raul é uma cura contra a normopatia, termo que empresto do psicanalista José Ângelo Gaiarsa, talvez o mais brilhante e mais célebre dos nossos reichianos.

“Normopata” é aquele tipo de neurótico, comuníssimo aliás, que deseja, acima de tudo, ser normal. Somos todos um pouco normopatas: em situações sociais, especialmente, modelamos nosso comportamento de acordo com o que nos foi ensinado sobre o que é normal e o que é patológico, o que aceito e o que é ilícito. Ah, esses sininhos de Pavlov que não cessam de bater, infernais e aporrinhantes, dentro de nossos cérebros! 

A normopatia, neurose de massa, talvez ajude a explicar fenômenos tão atuais, e tão justamente combatidos por tantos movimentos sociais, como a homofobia, o racismo, o bullying. Pessoas que possuem uma “imagem ideal” do que seja a normalidade – por exemplo, normal é quem é branco, católico, heterossexual e “democrata” – tendem a soltar seus anátemas (e às vezes seus cachorros e sua polícia...) pra cima de quem destoa desse ideal do “Normal”. E dá-lhe pauladas e preconceitos pra cima de comunistas, negros, homossexuais, ateus, anarquistas, índios, “hippies” e tantos outros “desviantes” (na perspectiva dos fanáticos pelo normal, claro...).


No Brasil, como prova a onipresença e onirecorrência do "Toca Rauuul!" em qualquer show, boteco, pub, roda-de-samba ou concerto de música clássica, Raul Seixas virou uma espécie de mito nacional, neo-Macunaíma, objeto de um culto equivalente em terras de Pindorama àquele prestado à Che Guevara em outras plagas (cubanas ou argentinas, por exemplo). Raul é muito mais que música: é um "modelo" de comportamento, um ideal de personalidade, alguém que muita gente se põe a imitar e reverenciar como se se tratasse de um novo Cristo - e bem peculiar, aliás, dadas as propensões de Raul para o satanismo e seu amor muito maior pelo Baghavad-Gita dos indianos do que pela Bíblia dos romanos...

O pivete baiano que se encantou com Elvis Presley e Litte Richard, que puxou a gola pra cima e começou a rosnar e uivar com "Tutti Frutti" ou "Be-Bop-A-Lula", acabou sendo, junto com os Mutantes, um dos principais agentes da mistura entre a música brasileira e o que estava na crista da onda no panorama musical internacional. Raul não tinha medo de "importar" - e sem pagar direitos autorais ou ter que responder processos por plágio - o que havia de melhor no rock gringo. Ele não copiava - ele expropriava. Quer dizer: apropriava-se de modo muito próprio do que suas espertas antenas incorporavam e acabava por realizar uma síntese absolutamente original e inaudita de elementos antes considerados imisturáveis. Um antropófago!

Com Raul, acontece na cultura brasileira um dos mais poderosos fenômenos do que eu chamaria de idolatria secular. O pop star, afinal de contas, é uma espécie de ídolo a vagar fora das igrejas. Cultuado, como outrora Dionísio e Baco, nos locais de dança e carnaval, nos agrupamentos clandestinos de entusiastas, nos locais onde emergem zonas autônomas temporárias e os sujeitos experimentam as "delícias do deslimite" (Rüdiger Safranki). Como quantificar o impacto de uma figura carismática dessas nos sonhos de milhares de homens e mulheres? Como calcular quantas personalidades são moldadas, ao menos em parte, tendo o raul-seixismo como modelo e ideal? Quando John Lennon soltou aquela que deixou de cabelos em pé os fundamentalistas religiosos ("Os Beatles são mais populares do que Jesus Cristo"), estava só dando amostras de seu apuradíssimo senso social. Pois de fato, em nossas sociedades do espetáculo, pra usar a expressão consagrada por Guy Debord, os pop-stars talvez tenham mais impacto social do que alguns mofados símbolos religiosos de milênios atrás. 

Raul Seixas, arauto da contracultura brasileira, padroeiro de todas as lutas anti-manicomiais e anti-dogmáticas, sátiro e palhaço de uma sociedade gerida por elites doentes, é também aquele que nos ensinou que para desafinar o coro dos contentes não é necessário ser soturnamente triste. Com que contentamento e com que jovial audácia Raul não encarnava a ovelha negra! Esta é uma mosca risonha pousando nas intragáveis sopas dos dogmáticos, dos fanáticos, dos caretas. Como a Mafalda de Quino, Raul é um quixotesco protestador contra as sopas azedas deste mundo. E, nos antípodas do inseto nauseante e repugnante no qual o Gregor Samsa de Kafka se viu transformado, Raul Seixas é uma mosca feliz e saltitante. Provoca e alfineta, introduz a dissonância no coro dos normais, questiona as autoridades autoritárias, abre novas vias de interpretação do mundo e da vida, escancarando portas e janelas com pontapés de poeta... O estrago que causou, a influência que gerou e os encantamentos que despertou prosseguem agindo e ecoando, anos e anos depois que os primeiros vermes roeram as frias carnes de seu cadáver alcóolatra e de pâncreas mutilado. E hoje em dia, fantasma entre nós, que frequenta nossos pesadelos e sonhos, que anima nossas festas e nossos cinemas, que é semente nos solos de nossa cultura e inspiração para o desabrochar de nossa criatividade, Raul parece uma figura que saiu da vida só para gozar, altaneiro, da notável sobrevida dos mitos.





domingo, 8 de janeiro de 2012

"O torcer é parente do orar..." (por Eduardo Giannetti)




"O futebol foi a religião da minha infância. O Cruzeiro de Tostão, Piazza e Dirceu Lopes - como esquecer a glória daquele time? - era o santuário. Eu narrava o futebol de botão jogado a sós no assoalho de casa, colecionava figurinhas de craques e torcia pela Raposa com um fervor de devoção mais intenso do que quando ia à missa e comungava. A memória do drama íntimo de certos jogos é das lembranças mais remotas que tenho de estar vivo. Se o sofrimento é a única causa da consciência de si, como diz o homem subterrâneo de Dostoiévski, então a paixão sofredora do torcedor mirim foi o berço da minha vida consciente.

Taça Brasil, anos 60. Chegou a tarde da grande final. Tenho cinco ou seis anos e estou grudado ao pé de uma radiovitrola Telefunken. O Cruzeiro perde do Santos por dois a zero - Pelé endiabrado em campo. Termina o primeiro tempo: silêncio e consternação. Bate o desespero, começo a chorar. O tempo corre, e a reação não vem; passo a chorar convulsivamente. Os adultos ficam preocupados com o meu estado. Quando mamãe faz menção de desligar o rádio e pôr um fim à agonia, o meu pai, Cruzeiro roxo, desautoriza-a secamente e me fulmina com seu olhar-fuzil. "Homem não chora!"

Súbito, porém, ressurge a esperança: Tostão marca e Dirceu Lopes logo empata. O jogo prossegue, mas não paro de chorar. "Por que agora?", perguntam todos. Já não há razão, não há o que dizer. A angústia da decisão por pênaltis me sufoca. Então o milagre acontece. O ponta Natal faz o gol da virada! Os céus explodem. O meu choro, misturado à balbúrdia, já não perturba ninguém. Do ponto extremo da dor, como num parto, rompe a alegria. Hoje ainda, quando penso naquela tarde de aflição e júbilo, os gritos do locutor - "Natal! Natal!" - ressoam nas dobras do ouvido interno; a entonação, o timbre esganiçado, o desafogo da voz deixaram marcas indeléveis no meu cérebro de menino.

O Cruzeiro de hoje não é o da minha infância: mudou o futebol, e mudei eu. Assisto aos jogos na TV; torço e vibro por meu time (e pela seleção, é claro); estico cada fibra da alma quando chegamos às finais, mas perdi o dom da entrega daqueles tempos. Não há drama futebolístico concebível que me transporte aos píncaros do desespero e da alegria como no passado. Foi-se o vigor da pulsão furiosa, a seiva enérgica  das origens; tornei-me um torcedor maduro, amarrado, incapaz de ir até o fim no desatino. O tempo esfria a alma. Não sou metade do que fui de nascença e a vida esgarçou.


Mas o que é, afinal, torcer por alguma coisa? A mesma madureza que esfria trouxe uma certa distância, como que um olhar externo do que vai por mim. É estranho: todos estes anos torcendo, milhares de jogos na bagagem, decisões de vida ou morte, e nunca antes cheguei a me perguntar: o que se passa comigo enquanto estou torcendo? Cada um, é claro, vive e sente as coisas do gramado à sua maneira. O jogo jogado é o mesmo para todoso placar final tem a solidez do granito. Mas, quando se trata do jogo vivido, tudo se transfigura. Qual o segredo do arrebatamento a que nos abandonamos na agonia de torcer? Que tramas e surtos da mais singular subjetividade não se filtram pelos olhos e mentes grudados aos volteios da bola numa tela de TV?

Há toda uma metafísica da mais remota origem embutida na alma torcedora. A palavra torcer, bem compreendida, capta o essencial. Torcer é se contorcer e remoer por dentro. É a sensação de esticar e distender os músculos e tendões dos nossos desejos e vontades: enfiar-se com as emoções campo adentro como se estivessem misturadas aos pés dos atletas e às trajetórias caprichosas da bola. As contorções faciais e os gestos do torcedor são apenas o sinal visível da ginástica interna que o consome. 

Mas não é só. O contorcionismo subjetivo do torcer está ligado a uma crença espontânea indissociável da inclinação torcedora - um modo mágico de pensar e sentir que irrompe na mente com o ímpeto de uma planta selvagem. Torcer é entregar-se à vivência primária e avassaladora de que as contorções que agitam e devoram a alma torcerão o curso dos acontecimentos na direção desejada. A explosão do gol - ou de um pênalti defendido - é a confirmação da potência do meu bruto querer. 

O torcer é parente do orar, só que sem rodeios e intermediários. Na reza, o devoto se concentra e abre o canal da interlocução pela oração: ele se dirige ao santo ou deus da sua predileção, rogando-lhe que interceda a seu favor. Promessas e sacrifícios podem facilitar o trâmite, mas a eficácia da prece não é fruto da vontade crua do devoto. Ela depende de um despacho da autoridade invocada. O torcedor, é claro, também reza e promete, mas no calor da hora ele vai direto ao ponto. Não é algo consciente ou que se possa escolher e evitar. É um processo mental involuntário, de origem arcaica, e que nos transporta para um mundo mítico onde os nossos desejos e emoções gozam de poder causal sobre o enredo aberto e imprevisível do que está em jogo. 

O banco de reservas interiores do torcedor entra em campo, desvia a bola perigosa, corta o passe, mata no peito, cruza o escanteio, espalma e cabeceia, vibra no momento exato em que a sua onipotência se confirma na catarse do gol. Uma teia de medos e desejos, temores e esperanças cerca cada lance e afeta cada movimento da bola. Não é à toa que o verdadeiro torcedor se descobre extenuado no final do jogo. 

No fundo, a fé selvagem de quem torce é a crença de que podemos domar e torcer o curso natural das coisas - coagir o futuro - por meio da força bruta do nosso querer. O mundo, berra em silêncio a alma torcedora, não é surdo e indiferente ao meu desejo. O devir se rende à minha vontade soberana. É por isso que saber de antemão o resultado de uma partida a cujo videoteipe se assiste mina a possibilidade de torcer.

A torcida diante da bola é um caso extremo de família numerosa. Torcemos para que alguém se recupere de uma doença grave; para que o avião vença a turbulência; para que o tempo melhore; para que os bons triunfem e os calhordas afundem; para que o telefone toque ou o e-mail chegue. Diante de um futuro aberto com desfecho incerto, o animal humano não se rende à sua impotência e desamparo cósmicos. Como um apostador inveterado, ele crê na sua vontade como causa de efeitos reais e investe o que pode na roleta mágica do seu louco querer: quando eu me contorço por dentro, o mundo se torce a meu favor. A psicologia do torcer é um escândalo da razão - fé animista que me habita em segredo." 





in: GIANNETTI, Eduardo

A Ilusão da Alma
Editora Cia das Letras
Cap. 26, pg. 121-125