Traficando informação. Pirateando conhecimento. Plugando consciências no amplificador. Dentre outros atentados ao pudor... Você está no http://www.depredando.blogspot.com
Das drogas psicodélicas legalizadas, o Tame Impala é uma das melhores. O segundo álbum dos australianos, após o magistral disco de estréia, Innerspeaker, oferece ao ouvinte outra viagem memorável e sem risco de bad trip. Somos convidados a atravessar cenários sônicos variados: há um pouco da estética parede-de-som típica do ruidoso guitar-rock do My Bloody Valentine ou do Ride, mesclado com o clima onírico que marca as produções da Elephant 6 (Olivia Tremor Control, Neutral Milk Hotel, Of Montreal...), mas tudo com a marca da singularidade do Impala.
Se o Primal Scream fez nos anos 90 um clássico da psicodelia na era das raves, de mensagem hedonista e celebratória (“vou viver a vida que amo e vou amar a vida que vivo...”), o Tame Impala cometeu com Lonerism uma espécie de Screamadelica da solidão. O transe induzido pela audição de Lonerism é semelhante àquele de grandes clássicos da psicodelia, ainda que Kevin Parker seja mais introvertido do que a média, por vezes beirando a atitude shoegazer – tanto que sua cantoria às vezes me soa como se Thom Yorke tivesse ouvido muito Beach Boys ou The Zombies. “Everything is changing and there’s nothing I can do”, canta Parker na grudenta “Apocalypse Dreams”, mostrando-se estóico diante de um cosmos movediço como o rio de que fala Heráclito - aquele onde é impossível entrar duas vezes.
Lonerism é também um rio que arrasta o ouvinte por mudanças surpreendentes e imprevistas, funcionando como um álbum coeso, rico em variações e surpresas, repleto de mistérios nunca desvelados por completo, e que convida a repetidas audições – cada uma, uma nova e acachapante viagem. É só soltar as rédeas e embarcar sem medo!
UMA MÚSICA: PÓ DE SER - “De Repente”
Batizado com um nome que dá permissão pra experimentar de tudo (e mais um pouco), a banda goiana Pó de Ser faz jus a seu nome com uma música que diz sim às possibilidades novas, às mesclas inéditas. Vale tudo: juntar Itamar Assumpção com Odair José, Tropicália com Sérgio Sampaio, Mutantes com Arrigo Barnabé e enfiar a “viola no rock’n’roll” (como diz outra canção deles, “Bicho Urbano”, um dos melhores retratos de Goiânia compostos nos últimos anos). Como eles mesmos brincaram no papo que tivemos após o show no Vaca Amarela 2012, o Pó de Ser realizou a proeza (dentre outras!) de inventar a “estética dodecafona”.
Em outros termos: eis aí um experimentalismo tupiniquim aventureiro, sem medo do brega e do excesso, que devora antropofagicamente a música popular brasileira do passado e a recria numa síntese nova. “De Repente”, inspirada canção de Diego de Moraes e Klêuber Garcêz, que integra o recém-lançado EP Tudo Torto em Linha Reta, é a melhor síntese do universo estético do Pó de Ser: é uma pintura do desnorteio que acomete tantos de nós neste princípio de século (“no século 21 sou mais um sem ninguém a me conduzir...”, “entrei num beco-sem-saída, sem porteira nem tramela...”), com versos que descrevem a sensação de ovelha-negra (“desgarrei na contra-mão da boiada...”) e de inquietante insegurança (“lembranças de um tempo remoto em que eu me achava seguro...”).
Mas o Pó de Ser não aprecia a sensaboria do porto-seguro nem o comodismo do quietismo: prefere navegar na incerteza, com os olhos estarrecidos, feito um “astronauta liberto na Terra / pé no chão e cabeça na Lua / um andróide de carne e desejo / de pão e poesia, na rua...”. O retrato um tanto sombrio dos “7 bilhões de solitários” que ficam “deixando tudo para depois” parece-me, na verdade, uma conclamação, cheia de urgência, para que o ouvinte faça o que sempre recomendaram os sábios: que viva no presente. Pois pode ser que seja ele, o presente, o único tempo em que o Ser existe, em suas eternas mutações, em seu eterno agora...
UM SHOW: CRIOLO NO CANTO DA PRIMAVERA
Quando Criolo despontou para um público mais vasto, catapultado por esta canção que já fez história que é "Não Existe Amor em SP", ficou claro que qualquer tentativa de domar e domesticar a complexidade desse artista, grudando nele uma etiqueta qualquer (inclusive os óbvios "rapper" e "voz do gueto"), violentava o colorido múltiplo dessa música aventureira, que monta na cabeça do ouvinte um mosaico verbal, um labirinto místico, cheio de sedutoras batidas sobre as quais se derrama um "dialeto suburbano" feito pra darNó na Orelha... E nas idéias.
No Canto da Primavera 2012, diante do maior público de sua carreira e acompanhado por uma banda timbradíssima (que inclui o DJ Ganjaman e Marcelo Cabral, produtores do disco), Criolo fez um show impressionante pelo poder de mobilização do público, pela riqueza de sua expressão corporal-gestual, pela eloquência de sua verborragia sempre sagaz. “O Rap é forte, vagabundo!”, lia-se numa placa empunhada lá do público. Quem ousaria duvidar disso, diante de um show tão poderoso de um artista brasileiro que carrega com tanta responsa a bandeira da independência, da crítica, da insurgência? Como não erguer os punhos junto ao brado de revolta e de resistência que Criolo expressa contra, por exemplo, aquela violência imposta de cima por aqueles que "tem tudo de bom e fornecem o mal pra favela morrer”?
Poeta lírico que lamenta os males da megalópole que Mário de Andrade apelidou de “Paulicéia Desvairada” (os bares cheios de almas tão vazias, a vaidade e a ganância gerando um “mar de fel”...); cronista da vida suburbana em cenários antropologicamente tão ricos como o “Grajauex” (corruptela da terra natal do Criolo Doido, o Grajaú...); missionário-conselheiro a fazer do microfone um instrumento xamanístico; rapper-hippie que nos conclama a “samplear atitudes de amor”... Criolo é tudo isso, e mais um pouco.
Impossível encerrá-lo numa fórmula, já que sua fertilidade transbordante não se deixa limitar a um estilo, nem a riqueza de suas letras se deixa domar por fronteiras estreitas. Em suas composições “linkadas” e cheias de inter-conexões, ele remete a Muhammad Ali e Mahatma Gandhi, Fela Kuti e Sabotage, Rappin Hood e Facção Central. Cita a Pasárgada de Manuel Bandeira (em "Bogotá") e evoca em "Sucrilhos" as imagens veneráveis de Di Cavalcanti, Hélio Oiticica e Frida Kahlo, só para sublinhar que eles "tem o mesmo valor que a benzedeira do bairro".
No Canto da Primavera, festival de música primoroso, Criolo deixou claro que é uma das figuras centrais da Nova Música Brasileira, esta que vai se delineando e se fortalecendo em meio aos agitos fora-do-eixistas - e não é difícil se deixar convencer por ele de que o rap, como canta Criolo em seu disco de estréia, faz "muito mais que religião, presídio e cassetete, irmão."
Galera: Cinephilia Compulsiva é o novo nome de meu velho blog dedicado a assuntos e pitacos cinematográficos. Ele vem para substituir o "Esteticoscopio", que nunca grudou nem engrenou. Estão todos convidados a dar um pulo lá e conferir!
Dentre as últimas atrações... "Tropicália", de Marcelo Machado; "Febre do Rato", de Claudio Assis; "Deus e o Diabo na Terra do Sol", de Glauber Rocha; "O Jardineiro Fiel", de Fernando Meirelles; "É Proibido Proibir", de Jorge Durán; todos os filmes dos BEATLES para assistir on-line; "Poesia", de Lee Chang Dong; "Labirinto do Fauno", de Guillermo del Toro; "Dawson - A Ilha Secreta de Pinochet"... e por aí vai!
Em breve, crítica de "Django Unchained", o novo do Tarantino. Fiquem ligados!
Aproveitando a deixa, deixo aí alguns filmes completos que estão dando sopa no Youtube:
"Três ingredientes são necessários para que a sociedade de consumo possa prosseguir na sua ronda diabólica: a publicidade, que cria o desejo de consumir; o crédito, que fornece os meios; e a obsolescência acelerada e programada dos produtos, que renova a necessidade deles. Essas três molas propulsoras da sociedade de crescimento são verdadeiras incitações-ao-crime.
A publicidade nos faz desejar o que não temos e desprezar aquilo de que já desfrutamos. Ela cria e recria a insatisfação e a tensão do desejo frustrado. Conforme uma pesquisa realizada entre os presidentes das maiores empresas americanas, 90% deles reconhecem que seria impossível vender um produto novo sem campanha publicitária; 85% declaram que a publicidade persuade "frequentemente" as pessoas a comprar coisas de que elas não precisam; e 51% dizem que a publicidade persuade as pessoas a comprar coisas que elas não desejam de fato (cf. André Gorz, "Capitalisme, socialisme, écologie", Paris, Galilée, 1991, p. 180).
Esquecidos os bens de primeira necessidade, cada vez mais a demanda já não incide sobre bens de grande utilidade, e sim sobre bens de grande futilidade. Elemento essencial do círculo vicioso e suicida do crescimento sem limites, a publicidade, que constitui o segundo maior orçamento mundial depois da indústria de armamentos, é incrivelmente voraz: 103 bilhões de euros nos Estados Unidos em 2003, 15 bilhões na França. No total, considerando o conjunto do globo, mais de 500 bilhões de despesas anuais. Montante colossal de poluição material, visual, auditiva, mental e espiritual!
O sistema publicitário "apossa-se da rua, invade o espaço coletivo - desfigurando-o -, apropria-se de tudo o que tem vocação pública, as estradas, as cidades, os meios de transporte, as estações de trem, os estádios, as praias, as festas. Ele inunda a noite assim como se apossa do dia, ele canibaliza a internet, coloniza os jornais, impondo sua dependência financeira e levando alguns deles a ficar reduzidos a tristes suportes. Com a televisão, ele possui sua arma de destruição em massa, instaurando a ditadura do ibope sobre o principal vetor cultural da época. (...) A agressão se dá em todas as direções, a perseguição é permanente. Poluição mental, poluição visual, poluição sonora." (Jean-Paul Besset, em "Comment ne plus être progressiste... sans dévenir réactionnaire", Paris, Fayard, 2005, p. 251).
Com a obsolescência programada, a sociedade de crescimento possui a arma absoluta do consumismo. Impossível encontrar uma peça de reposição ou alguém que a conserte. Se conseguíssemos pôr a mão na ave rara, custaria mais caro consertá-la do que comprar uma nova (sendo esta hoje fabricada a preço de banana pelo trabalho escravo do sudeste asiático). Assim é que montanhas de computadores se juntam a televisores, geladeiras, lava-louças, leitores de DVD e telefones celulares abarrotando o lixos e locais de descarte com diversos riscos de poluição: 150 milhões de computadores são transportados todos os anos para depósitos de sucata do Terceiro Mundo (500 navios por mês para a Nigéria!), apesar de conterem metais pesados e tóxicos (mercúrio, níquel, cádmio, arsênico e chumbo).
À bulimia consumista dos fissurados em supermercados e lojas de departamentos corresponde o workaholismo, o vício em trabalho dos executivos, alimentado, em muitos casos, por um consumo excessivo de antidepressivos. (...) Nós, franceses, somos detentores de um triste recorde: compramos, em 2005, 41 milhões de caixas de antidepressivos. (...) Resta-nos apenas assinar embaixo do diagnóstico do professor Dominique Belpomme: "O crescimento tornou-se o câncer da humanidade" (cf. "Avant qu'il ne soit trop tard", p. 211).
"Aaron Swartz (1986-2013) se foi ontem. Ele se enforcou em sua residência, no dia 11 de janeiro de 2013 em New York. De acordo com amigos próximos, ele não admitia a ideia de que poderia pegar até 35 anos de prisão por ter disponibilizado quase 5 milhões de artigos científicos de graça na internet. Isso mesmo: esse hacker distribuiu (e não roubou) 5 milhões de artigos para compartilhamento.
A empresa que processou Aaron foi a JSTOR (acrônimo para "Journal Storage"). Criada em 1995, a JSTOR apareceu no mercado com a missão de vender artigos científicos em formato PDF (Portable Document Format) para instituições de pesquisa e para usuários comuns. Hoje a empresa é uma gigante no setor. Presente em 150 países, mais de 170 instituições assinam o conteúdo desse portal. Os gastos das instituições com essas assinaturas chegam aos milhões de dólares.
Poderia uma empresa declaradamente sem fins lucrativos destruir a vida desse jovem, ao ponto de levá-lo a cometer suicídio? No dia 19 de julho de 2011, Aaron foi indiciado por fraude e roubo em um processo encabeçado pela JSTOR. Apesar de ter se declarado inocente, teve que pagar uma fiança de cem mil dólares para responder o processo em liberdade. Após sérios indícios de que seria condenado, Aaron desistiu e enforcou-se em sua residência.
Existe uma guerra silenciosa sendo travada na internet. De que lado você está? Posso dizer que uma parte de minha formação acadêmica advém da coragem e da ousadia de jovens hackers que desafiam qualquer lei e põem suas cabeças em risco em nome de uma causa: a livre circulação de conteúdos e informações na internet. Hoje a maior parte dos arquivos baixados por Aaron encontram-se disponíveis em uma plataforma pirata de distribuição de material acadêmico. Esse é um dos seus legados. Mas, e nós que ficamos, o que podemos fazer agora? Meu palpite é claro: seguir compartilhando e construindo um mundo mais justo que não jogaria na cadeia qualquer pessoa que compartilhasse palavras e sonhos.
Coletânea fresquinha saindo… É o 10º volume da série que congrega em caixinhas digitais de música só as brasileiragens em impudico mélange antropofágico. Nesta edição... 01) Elis Regina & Adoniran Barbosa, “Tiro ao Álvaro”; 02) Metá Metá, “Cobra Rasteira”; 03) Lenine, “Jack Soul Brasileiro”; 04) Guinga, “Par ou Ímpar”; 05) Los Hermanos, “Paquetá”; 06) Chico Buarque, “Noite dos Mascarados”; 07) João Bosco e Aldir Blanc, “Bala com Bala” (com Elis Regina); 08) Mundo Livre S.A., “Quem Tem Bit Tem Tudo”; 09) El Efecto, “O Encontro de Lampião e Eike Batista”; 10) Tulipa Ruiz, “Víbora”.
"O Tropicalismo foi um movimento de ruptura que sacudiu o ambiente da música popular e da cultura brasileira entre 1967 e 1968. Seus participantes formaram um grande coletivo, cujos destaques foram os cantores-compositores Caetano Veloso e Gilberto Gil, além das participações da cantora Gal Costa e do cantor-compositor Tom Zé, da banda Mutantes, e do maestro Rogério Duprat. A cantora Nara Leão e os letristas José Carlos Capinan e Torquato Neto completaram o grupo, que teve também o artista gráfico, compositor e poeta Rogério Duarte como um de seus principais mentores intelectuais.
Os tropicalistas deram um histórico passo à frente no meio musical brasileiro. A música brasileira pós-Bossa Nova e a definição da “qualidade musical” no País estavam cada vez mais dominadas pelas posições tradicionais ou nacionalistas de movimentos ligados à esquerda. Contra essas tendências, o grupo baiano e seus colaboradores procuram universalizar a linguagem da MPB, incorporando elementos da cultura jovem mundial, como o rock, a psicodelia e a guitarra elétrica.
Ao mesmo tempo, sintonizaram a eletricidade com as informações da vanguarda erudita por meio dos inovadores arranjos de maestros como Rogério Duprat, Júlio Medaglia e Damiano Cozzela. Ao unir o popular, o pop e o experimentalismo estético, as idéias tropicalistas acabaram impulsionando a modernização não só da música, mas da própria cultura nacional.
Seguindo a melhor das tradições dos grandes compositores da Bossa Nova e incorporando novas informações e referências de seu tempo, o Tropicalismo renovou radicalmente a letra de música. Letristas e poetas, Torquato Neto e Capinan compuseram com Gilberto Gil e Caetano Veloso trabalhos cuja complexidade e qualidade foram marcantes para diferentes gerações. Os diálogos com obras literárias como as de Oswald de Andrade ou dos poetas concretistas elevaram algumas composições tropicalistas ao status de poesia. Suas canções compunham um quadro crítico e complexo do País – uma conjunção do Brasil arcaico e suas tradições, do Brasil moderno e sua cultura de massa e até de um Brasil futurista, com astronautas e discos voadores. Elas sofisticaram o repertório de nossa música popular, instaurando em discos comerciais procedimentos e questões até então associados apenas ao campo das vanguardas conceituais.
Sincrético e inovador, aberto e incorporador, o Tropicalismo misturou rock mais bossa nova, mais samba, mais rumba, mais bolero, mais baião. Sua atuação quebrou as rígidas barreiras que permaneciam no País. Pop x folclore. Alta cultura x cultura de massas. Tradição x vanguarda. Essa ruptura estratégica aprofundou o contato com formas populares ao mesmo tempo em que assumiu atitudes experimentais para a época.
Discos antológicos foram produzidos, como a obra coletiva Tropicália ou Panis et Circensis e os primeiros discos de Caetano Veloso e Gilberto Gil. Enquanto Caetano entra em estúdio ao lado dos maestros Júlio Medaglia e Damiano Cozzela, Gil grava seu disco com os arranjos de Rogério Duprat e da banda os Mutantes. Nesses discos, se registrariam vários clássicos, como as canções-manifesto “Tropicália” (Caetano) e “Geléia Geral” (Gil e Torquato). A televisão foi outro meio fundamental de atuação do grupo – principalmente os festivais de música popular da época. A eclosão do movimento deu-se com as ruidosas apresentações, em arranjos eletrificados, da marcha “Alegria, alegria”, de Caetano, e da cantiga de capoeira “Domingo no parque”, de Gilberto Gil, no III Festival de MPB da TV Record, em 1967.
Irreverente, a Tropicália transformou os critérios de gosto vigentes, não só quanto à música e à política, mas também à moral e ao comportamento, ao corpo, ao sexo e ao vestuário. A contracultura hippie foi assimilada, com a adoção da moda dos cabelos longos encaracolados e das roupas escandalosamente coloridas.
O movimento, libertário por excelência, durou pouco mais de um ano e acabou reprimido pelo governo militar. Seu fim começou com a prisão de Gil e Caetano, em dezembro de 1968. A cultura do País, porém, já estava marcada para sempre pela descoberta da modernidade e dos trópicos." (Via Tropicalia.com.br)
Tulipa Ruiz - Tudo Tanto [download]
B Negão - Sintoniza Lá [download]
Mão de Oito - Um Dia Que Já Vem [download]
Tom Zé - Tropicália Lixo Lógico [download]
Céu - Caravana Sereia Bloom [download]
Macaco Bong - This is Rolê [download]
Rodrigo Campos - Bahia Fantástica [download]
Black Drawing Chalks - No Dust Stuck on You [download]
Metá Metá - Metal Metal [download]
Hurtmoldt - Mil Crianças [download]
Amplexos - A Música da Alma [download]
Vivendo do Ócio - O Pensamento é um Ímã [download]
Cambriana - House of Tolerance [download]
Silva - Claridão [download]
Tatá Aeroplano - idem [download]
Vários Artistas - Retrato: Tributo ao Los Hermanos [download]
Thiago Pethit - Estrela Decadente [download]
Far From Alaska - Stereochrome EP [download]
Orquestra Contemporânea de Olinda - Pra Ficar [download]
Curumin - Arrocha [download]
Siba - “Avante” [ouça]
Mulheres de Péricles - Canções de Péricles Cavalcanti [dwld]
Paraphernalia - Ritmo Explosivo [dwld]
Pó de Ser - Tudo Reto em Linha Torta [Ep] [dwld]
El Efecto - Pedras e Sonhos [dwld]
Cabruêra - Nordeste Oculto [dwld]
INTERNACIONAIS
Bob Dylan - Tempest [dwld]
Fiona Apple - The Idler Wheel is Wiser… [dwld]
Japandroids - Celebration Rock [dwld]
Tame Impala - Lonerism [dwld]
Patti Smith - Banga [dwld]
David Byrne & Saint Vincent - Love This Giant [dwld]
Neil Young & Crazy Horse - Psychedelic Pill [dwld]
Cat Power - Sun [dwld]
Jack White - Blunderbuss [dwld]
Soundgarden - King Animal [dwld]
Bruce Springsteen - Wrecking Ball [dwld]
Graveyard - Lights Out [dwld]
Leonard Cohen - Old Ideas [dwld]
Ty Segall - Slaughterhouse [dwld]
Regina Spektor - What We Saw From the Cheap Seats [dwld]
Frank Ocean - Channel Orange [dwld]
Tallest Man on Earth - There’s No Leaving Now [dwld]
The Shins - Port Of Morrow [dwld]
Cloud Nothings - Attack on Memory [dwld]
Godspeed You Black Emperor! - Allellujah… [dwld]
Dirty Projectors - Swing Lo Magellan [dwld]
Beachwood Sparks - Tarnished Gold [dwld]
Grimes - Visions [dwld]
Van Halen - A Different Kind of Truth [dwld]
Spiritualized - Sweet Heart Sweet Light [dwld]
Rival Sons - Head Down [dwld]
Black Country Communion - Afterglow [dwld]
Donald Fagen - Sunken Condos [dwld]
Baroness - Yellow & Green [dwld]
Chromatics - Kill for Love [dwld]
Grizzly Bear - Shields [dwld]
Death Grips - The Money Store [dwld]
Swans - The Seer [dwld]
Kendrick Lamar - Good Kid, M.A.A.d City [dwld]
Biography by Richie Unterberger (@ AMG All Music Guide)
So much has been said and written about the Beatles -- and their story is so mythic in its sweep -- that it's difficult to summarize their career without restating clichés that have already been digested by tens of millions of rock fans. To start with the obvious, they were the greatest and most influential act of the rock era, and introduced more innovations into popular music than any other rock band of the 20th century. Moreover, they were among the few artists of any discipline that were simultaneously the best at what they did and the most popular at what they did. Relentlessly imaginative and experimental, the Beatles grabbed a hold of the international mass consciousness in 1964 and never let go for the next six years, always staying ahead of the pack in terms of creativity but never losing their ability to communicate their increasingly sophisticated ideas to a mass audience. Their supremacy as rock icons remains unchallenged to this day, decades after their breakup in 1970.
It's hard to convey the scope of the Beatles' achievements in a mere paragraph or two. They synthesized all that was good about early rock & roll, and changed it into something original and even more exciting. They established the prototype for the self-contained rock group that wrote and performed its own material. As composers, their craft and melodic inventiveness were second to none, and key to the evolution of rock from its blues/R&B-based forms into a style that was far more eclectic, but equally visceral. As singers, both John Lennon and Paul McCartney were among the best and most expressive vocalists in rock; the group's harmonies were intricate and exhilarating. As performers, they were (at least until touring had ground them down) exciting and photogenic; when they retreated into the studio, they were instrumental in pioneering advanced techniques and multi-layered arrangements. They were also the first British rock group to achieve worldwide prominence, launching a British Invasion that made rock truly an international phenomenon.
More than any other top group, the Beatles' success was very much a case of the whole being greater than the sum of its parts. Their phenomenal cohesion was due in large degree to most of the group having known each other and played together in Liverpool for about five years before they began to have hit records..." - LEIA A BIOGRAFIA COMPLETA
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida…
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?
* * * * *
BERTOLD BRECHT (1898-1956)
- Coletânea de poemas -
Não desperdicem um só pensamento
Com o que não pode mudar!
Não levantem um dedo
Para o que não pode ser melhorado!
Com o que não pode ser salvo
Não vertam uma lágrima! Mas
O que existe distribuam aos famintos
Façam realizar-se o possível e esmaguem
Esmaguem o patife egoísta que lhes atrapalha os movimentos
Quando retiram do poço seu irmão,
com as cordas que existem em abundância.
Não desperdicem um só pensamento com o que não muda!
Mas retirem toda a humanidade sofredora do poço
Com as cordas que existem em abundância!
* * * * * *
PERGUNTAS DE UM TRABALHADOR QUE LÊ
Quem construiu a Tebas de sete portas? Nos livros estão nomes de reis. Arrastaram eles os blocos de pedra? E a Babilônia várias vezes destruída -
Quem a reconstruiu tantas vezes? Em que casas da Lima dourada moravam os construtores? Para onde foram os pedreiros, na noite em que a Muralha da China ficou pronta? A grande Roma está cheia de arcos do triunfo. Quem os ergueu? Sobre quem Triunfaram os Césares? A decantada Bizâncio Tinha somente palácios para seus habitantes? Mesmo na lendária Atlântida Os que se afogavam gritaram por seus escravos Na noite em que o mar os tragou.
O jovem Alexandre conquistou a Índia. Sozinho? César bateu os gauleses. Não levava sequer um cozinheiro? Filipe da Espanha chorou, quando sua Armada Naufragou. Ninguém mais chorou? Frederico II venceu a Guerra dos Sete Anos. Quem venceu além dele?
Cada página uma vitória. Quem cozinhava o banquete? A cada dez anos um grande homem. Quem pagava a conta?
Tantas histórias. Tantas questões.
* * * * * *
O Pão do Povo
A justiça é o pão do povo.
Às vezes bastante, às vezes pouca.
Às vezes de gosto bom, às vezes de gosto ruim.
Quando o pão é pouco, há fome.
Quando o pão é ruim, há descontentamento.
Fora com a justiça ruim!
Cozida sem amor, amassada sem saber!
A justiça sem sabor, cuja casca é cinzenta!
A justiça de ontem, que chega tarde demais!
Quando o pão é bom e bastante
O resto da refeição pode ser perdoado.
Não pode haver logo tudo em abundância.
Alimentado do pão da justiça
Pode ser feito o trabalho
De que resulta a abundância.
Como é necessário o pão diário
É necessária a justiça diária.
Sim, mesmo várias vezes ao dia.
De manhã, à noite, no trabalho, no prazer.
No trabalho que é prazer.
Nos tempos duros e nos felizes.
O povo necessita do pão diário
Da justiça, bastante e saudável.
Sendo o pão da justiça tão importante
Quem, amigos, deve prepará-lo?
Quem prepara o outro pão?
Assim como o outro pão
Deve o pão da justiça
Ser preparado pelo povo.
Bastante, saudável, diário.
* * * * *
A esperança do mundo
1
Seria a opressão tão antiga quanto o musgo dos lagos? Não se pode evitar o musgo dos lagos. Seria tudo o que vejo natural, e estaria eu doente, ao desejar remover o irremovível? Li canções dos egípcios, dos homens que construíram as pirâmides. Queixavam-se do seu fardo e perguntavam quando terminaria a opressão. Isto há quatro mil anos. A opressão é talvez como o musgo, inevitável.
2
Se uma criança surge diante de um carro, puxam-na para uma calçada. Não o homem bom, a quem erguem monumentos, faz isso. Qualquer um retira a criança da frente do carro. Mas aqui muitos estão sob o carro, e muitos passam e nada fazem. Seria porque são tantos os que sofrem? Não se deve mais ajudá-los, por serem tantos? Ajudam-nos menos. Também os bons passam, e continuam sendo tão bons como eram antes de passarem.
3
Quanto mais numerosos os que sofrem, mais naturais parecem seus sofrimentos, portanto. Quem deseja impedir que se molhem os peixes do mar? E os sofredores mesmos partilham dessa dureza contra si e deixam que lhes falte bondade entre si. É terrível que o homem se resigne tão facilmente com o existente, não só com as dores alheias, mas também com as suas próprias. Todos os que meditaram sobre o mau estado das coisas recusam-se a apelar à compaixão de uns por outros. Mas a compaixão dos oprimidos pelos oprimidos é indispensável. Ela é a esperança do mundo.
"O 'compro, logo existo' e o individualismo possessivo constroem juntos um mundo de pseudo-satisfações estimulante na superfície, mas no fundo vazio. (...) Com cerca de 2 bilhões de pessoas condenadas a viver com menos de 2 dólares por dia, o cruel mundo da cultura consumista capitalista e as fenomenais gratificações obtidas pelos serviços financeiros têm de ser uma piada macabra..." DAVID HARVEY, Neoliberalismo (2008: p. 184)
Livre-mercado, globalização,
individualismo, competitividade, utilitarismo, “precariado”: estes são alguns
dos conceitos-chave na decifração do neoliberalismo, doutrina que se tornou
dominante no Ocidente nas últimas décadas do século XX e é essencial para a
compreensão tanto da história recente quanto dos desafios futuros. Constata-se
que vivemos hoje em um mundo que, povoado por mais de 7 bilhões de humanos,
sofre como nunca com os males da desigualdade social e da concentração de
renda:
"Nossas sociedades capitalistas de mercado são 'paradoxais' por produzirem, ao mesmo tempo, aumento exponencial da riqueza e pauperização de largas camadas da população. Quebrar esse paradoxo é tarefa da política. Apenas um exemplo: enquanto o PIB dos EUA cresceu 36% entre 1973 e 1995, o salário-hora de não executivos (que são a maioria dos empregados) caiu 14%. No ano 2000, o salário real de não executivos nos Estados Unidos retornou ao que era há 50 anos. Dados como estes demonstram que, diante dos modelos liberais, ou seja, sem forte intervenção de políticas estatais de redistribuição, nossas sociedades tendem a entrar em situação de profunda fratura social por desenvolverem uma tendência radical de concentração de riquezas." (SAFATLE, A Esquerda Que Não Teme Dizer Seu Nome, 2012)
O Estado, longe de desaparecer, em muitos casos
torna-se o obediente servidor e lacaio dos interesses do Mercado, impondo as
desregulações que favorecem os interesses das mega-empresas e remetendo à
iniciativa privada quase todas as funções que outrora eram vistas como bens
públicos (saúde, educação, moradia, alimentação...). O Estado neoliberal
torna-se cada vez mais dedicado a tarefas policialescas, repressoras,
militares, enquanto sua “mão esquerda”, para usar a expressão de Bourdieu,
encontra-se atada e anêmica, já que assistimos à invasão generalizada das
privatizações e da lógica do consumo desenfreado e da concorrência selvagem.
"Ainda ousam nos gabar um sistema que remete a organização da vida coletiva às pulsões mais baixas, à ganância, à rivalidade, ao egoísmo mecânico? Querem que elogiemos uma “democracia” em que os dirigentes são impunemente os empregados da apropriação financeira privada que surpreenderiam até mesmo Marx, que há 160 anos já chamava os governos de “fundos de poder do capital”? Querem a todo custo que o cidadão comum “compreenda” que é impossível tapar o buraco da Previdência, mas que eles devem tapar o buraco dos bancos sem contar os bilhões? (…) Ao menor pedido dos pobres, eles reviram os bolsos e respondem há anos que não têm um tostão furado...” (ALAIN BADIOU, A Hipótese Comunista, pg. 57-58)
Vivemos em um mundo onde o poder das
empresas multinacionais atingiu um cume inédito: como informa Jean Ziegler, na
série da TV espanhola Voces Contra La Globalizacion, “as 500 maiores
empresas transcontinentais privadas controlam 52% do Produto Mundial Bruto. A
Exxxon Mobil tem um rendimento maior que o Produto Nacional Bruto da Áustria.
Já o da General Motors supera o PIB da Dinamarca.”
As consequências deste poderio
são gravíssimas quando, por exemplo, empresas injetam milhões de dólares em
apoio a candidaturas de políticos, querendo em troca favores e privilégios.
Além disso, as mega-corporações digladiam-se em marketings cada dia mais
crassos e apelativos em seu afã de garfar consumidores. A figura do consumidor
substitui a do cidadão. O homo economicus é imposto como imagem da
“natureza humana”: seria “natural” esta obsessão auto-interessada de procurar
seu próprio bem econômico. Como provoca Tyler Durden, em Clube da Luta, constrói-se
uma geração que baba frente às vitrines e às Tvs, que só sabe desejar bens de
consumo supérfluos, “working jobs they hate so they can buy shit they don't
need”.
"No início deste milênio, em um planeta abundante de riquezas, uma criança com menos de dez anos morre a cada cinco segundos. De doença ou de fome. (...) Em 2000, a FAO contava 785 milhões de pessoas grave e permanentemente subnutridas. São 854 milhões em 2008 e mais de um bilhão em 2010." (JEAN ZIEGLER, Ódio ao Ocidente, p. 29 e 132)
A
leitura da minuciosa pesquisa realizada por Michel Foucault em Nascimento da
Biopolítica nos dá a impressão de que a doutrina neo-liberal quer nos fazer
crer, com uma colcha de retalhos argumentativa retirada de Adam Smith,
Mandeville, Hayek, Von Mises e Milton Friedmann, dentre outros, que o egoísmo
deslavado e o auto-interesse estreito, se seguidos sem freios nem tréguas pelos
indivíduos, vão gerar mil maravilhas públicas. Curiosa doutrina que afirma ser
o egoísmo e a ganância as fontes da prosperidade e que chega a fazer disso uma
prescrição e um imperativo.
O
Neoliberalismo, que tudo faz em prol do livre-mercado, está longe de levar a
liberdade para aqueles que são excluídos e marginalizados do sistema. A julgar
pelas penitenciárias superlotadas e pelos orçamentos colossais dos aparatos
repressivos e carcerários, o
neoliberalismo impõe o tal do “livre mercado” com base do porrete, da tropa de
Choque e do encarceramento em massa de cidadãos que o sistema marginaliza, segrega e abandona às piores
condições de vida.
Neste
artigo, nossa intenção é refletir sobre o neoliberalismo através de três
perspectivas: 1) uma breve incursão foucaultiana pela história das ideias, na
tentativa de expor, com base em Smith, Mandeville, Franklin, Bentham e outros,
as raízes do neoliberalismo, da ética utilitarista, da doutrina econômica
pró-livre-mercado e da noção de vícios privados, benefícios públicos. 2)
Uma breve reflexão sobre a realidade contemporânea gerada pela implantação do
neo-liberalismo: globalização da economia, concentração de renda, epidemia do
trabalho “precarizado”, individualismo consumista etc. 3) uma análise de um
episódio histórico onde o neo-liberalismo foi imposto à força, o Chile de 1973,
com os devidos paralelos com outras situações onde escancarou-se o elemento
imperialista e autoritário das políticas neo-liberais.
PARTE I - VÍCIOS
PRIVADOS, BENEFÍCIOS PÚBLICOS?
Reflexões sobre os
primórdios do neoliberalismo
a partir de Adam
Smith, Mandeville, B. Franklin e J. Stuart Mill
“...não é por conta da benevolência do açougueiro, do cervejeiro ou do padeiro que esperamos obter nosso jantar, mas sim da atenção que eles dedicam ao seu próprio interesse. Nós nos dirigimos não à sua humanidade mas ao seu amor-próprio, e nunca falamos com eles das nossas próprias necessidades mas das suas vantagens.” - ADAM SMITH, Wealth of Nations (Oxford: 1976, pg. 27)
O
economista e filósofo escocês Adam Smith (1723-1790), ao investigar as causas
da Riqueza das Nações, “oferece como resposta uma teoria na qual a
prosperidade nada tem a ver com a virtude moral dos jogadores” (GIANNETTI:
1993, p. 120). Smith faz referência a uma característica que ele supõe ser
universal, inerente à natureza humana, que “vem conosco do útero materno e
nunca nos abandona até que ingressemos no túmulo”: “o esforço natural que cada
homem faz de forma contínua a fim de melhorar sua condição” (SMITH, Wealth
of Nations, p. 341-343). De modo que “Smith transforma o auto-interesse
individual – o desejo de melhorar de vida – no protagonista do enredo que leva
da escassez à opulência na biografia nacional.” (GIANNETTI: 1993, p. 121) A
doutrina em prol do Livre Mercado de Adam Smith alega que
"cada homem, desde que ele não viole as leis da justiça, fica perfeitamente livre para perseguir seu próprio interesse a sua maneira, e colocar sua diligência e seu capital em competição com os de qualquer outro homem. (…) Ele busca apenas seu próprio ganho e nisso ele é, como em muitos outros casos, conduzido por uma mão invisível a promover um fim que não era parte de sua intenção. (…) Pela busca de seu próprio interesse ele com frequência promove o da sociedade mais eficazmente do que quando de fato tenciona promovê-lo." (SMITH: The Wealth of Nations, pgs. 687 e 456)
Esta
doutrina contrapõe-se à tese de Keynes, que recomenda um intervencionismo e
controle estatal constantes, típico do chamado welfare-state, instalado
por Roosevelt nos EUA dos anos 1930, com seu New Deal, na tentativa de
controlar a depressão desencadeada em 1929. O liberalismo à la Adam
Smith sustenta que o melhor para a sociedade é que o “Estado fique desobrigado
do dever de supervisionar a economia”, gerando um “sistema no qual os
indivíduos são livres para tentar satisfazer seus objetivos à luz dos seus
próprios recursos e conhecimentos, sem uma disciplina ou plano imposto de fora
pela autoridade estatal” (Giannetti: p. 109-110). Em suma: a “prosperidade é o
produto de ações individuais independentes do Estado (e até à revelia dele) em
busca de uma vida melhor” (GIANNETTI: p. 123).
Isto
não significa que Adam Smith advogasse em prol da extinção do Estado. O
“exercício da autoridade política é imprescindível (…) para garantir a proteção
de cada membro da comunidade contra a violência e opressão de cada outro
membro” (GIANNETTI: p. 124). Um governo que zele pela justiça prossegue
necessário, alega Smith, já que “a prevalência da injustiça irá causar a total
destruição da sociedade. (…) A justiça, ao contrário, é a viga mestra que
mantém de pé todo o edifício. Se ela for removida, o imenso tecido da sociedade
humana irá num momento se esfacelar em átomos.” (SMITH: Theory of Moral
Sentiments (1759), Oxford, 1976, pgs. 86, 175-6). De modo que o Estado
aparece como limitado à posição de mero árbitro no jogo do livre mercado,
responsável por exigir dos agentes econômicos o fair play:
"Na corrida por riqueza, por honrarias e por promoções, o indivíduo pode correr tão esforçadamente quanto for capaz, esticando cada nervo e cada músculo a fim de ultrapassar todos os seus concorrentes. Mas se ele porventura acotovela ou derruba qualquer um deles, a disposição tolerante dos espectadores termina por completo. Trata-se de uma violação do jogo limpo que eles não podem admitir". (SMITH: ibidem, pg. 83).
Com
sua famosa “Mão Invisível”, Smith fabrica uma espécie de secularização do Deus
protestante, supondo com desenfreado otimismo que haveria “um deus providencial
que habitaria o processo econômico” (Foucault: 2008, p. 379). A busca do
auto-interesse egoísta, sem escrúpulos morais ou freios à competitividade,
geraria benefícios públicos. O vício é o pai da prosperidade. A responsável
pela transmutação miraculosa de vícios privados em benfeitorias públicas seria
esta “Mão Invisível” que “ata os fios de todos esses interesses dispersos”
(Foucault: idem).
Não
são poucos os que olham com desconfiança para o otimismo implicado na suposição
de uma ação benéfica de mãos invisíveis – nos termos de Arendt, “the so-called
liberal concepts of politics (...) such as unlimited competition regulated by a
secret balance which comes misteriously from the sum total of competing
activities...” (ARENDT, The Origins of Totalitarianism, p. 194) Com
sarcasmo, Foucault sintetiza a doutrina:
"Só se pensa no próprio ganho e, afinal, a indústria inteira sai ganhando. (…) Graças a Deus os comerciantes são uns egoístas consumados, e são raros, entre eles, os que se preocupam com o bem geral, porque, quando eles começam a se preocupar com o bem geral, é nesse momento que as coisas começam a não dar certo." (FOUCAULT: 2008, p. 380).
Uma
das representações mais eloquentes da tese “vícios privados, benefícios
públicos” encontra-se em A Fábula das Abelhas, texto satírico
publicado em 1705 por Mandeville, médico holandês radicado na Inglaterra. A
colméia da fábula, segundo Giannetti, é uma “miniatura da sociedade inglesa tal
como a percebia Mandeville”:
Vencedor do Prêmio Jabuti 1994 (Melhor Ensaio)
"A principal característica da colméia era a profunda dissociação entre, de um lado, suas brilhantes realizações práticas e econômicas, e, de outro, o descontentamento ético das abelhas consigo próprias. (…) A pujança e afluência da colméia resultavam de um espetáculo pouco edificante: milhões se esforçando arduamente com o intuito de suprir a vaidade e os apetites lascivos uns dos outros. Ao gastar seus rendimentos, as abelhas se entregavam a um hedonismo insaciável. Eram escravas da volúpia, do exibicionismo e do capricho da moda. (…) O grande sonho de cada abelha individual, não importando a classe a que pertencesse, era encontrar o caminho mais fácil e curto para sobrepujar as demais em fama, poder, riqueza. (…) Tudo lá transcorria sem maiores abalos, até o dia em que um deus impaciente expulsa o vício, a má-fé e a hipocrisia de suas vidas. Em pouco tempo, as abelhas da colméia se descobrem condenadas a uma existência insípida e medíocre, porém virtuosa, no interior de uma árvore oca. (…) Sem guerras não há indústria de armamentos; sem o desejo de ostentar não há produção e comércio de bens de luxo; sem vaidade e inconstância não há indústria da moda..." (GIANNETTI: p. 135-136)
Mandeville
retrata, na primeira parte da fábula, uma colméia de abelhas furiosamente
competitivas. Nrsta colméia, a prosperidade material decorre da selvageria de
suas rivalidades, suas invejas, seus desejos-de-posse. O vício, novamente, é
tido como o pai da prosperidade. Estas abelhas “franklinianas” entendem que
tempo é dinheiro, tal como recomenda Benjamin Franklin, e não querem “perdê-lo”
com considerações éticas ou empreendimentos filantrópicos para o auxílio de
abelhas miseráveis. Acreditam que uma árvore oca, e não uma colméia pujante e
próspera, seria o resultado de uma comunidade de abelhas que se freiam demais
com escrúpulos morais. A ética, para elas, é um entrave na produção do mel.
A
“moral da história” da fábula de Mandeville já começa a se delinear: são os
vícios que produzem o “progresso”, não as virtudes. Mas as abelhas o ignoram:
“não eram apenas aproveitadoras, corruptas e egoístas; também eram míopes e
incapazes de ver que o esplendor econômico da colméia, do qual tanto se
orgulhavam, resultava precisamente de seus vícios e taras” (Giannetti: op cit).
O
“tempo é dinheiro” e a conclamação à multiplicação dos dólares de Benjamin
Franklin não está distante: “Lembra-te que o dinheiro é procriador e fértil. O
dinheiro pode gerar dinheiro, e seus rebentos podem gerar ainda mais... Quem
mata uma porca prenhe destrói sua prole até a milésima geração. Quem estraga
uma moeda de cinco xelins, assassina tuodo o que com ela poderia ser
produzido: pilhas inteiras de libras esterlinas... Lembra-te que – como diz o
ditado – um bom pagador é senhor da bolsa alheia. (…) Jamais retenhas
dinheiro emprestado uma hora a mais do que prometeste, para que tal dissabor
não te feche para sempre a bolsa de teu amigo...” (FRANKLIN: 1736)
Esta
fúria aquisitiva, esta monomania da multiplicação, esse “dinheiro fazendo
dinheiro” visto como um fim-em-si-mesmo, chega às vezes à obscenidade de
reduzir todas as relações humanas ao fator monetário – p. ex. os amigos, longe
de serem apreciados como fonte de companhia e diálogo, passam a não ser mais
que “bolsas”. Todos os indivíduos são concebidos como fundos monetários
ambulantes. Max Weber,referindo-se a Franklin como um dos paradigmas do
“espírito do capitalismo”, escreve:
"Todas as advertências morais de Franklin são de cunho utilitário: a honestidade é útil porque traz crédito, e o mesmo se diga da pontualidade, da presteza, da frugalidade também, e é por isso que são virtudes... Um excesso desnecessário de virtude haveria de parecer, aos olhos de Franklin, um desperdício improdutivo condenável. (…) O ser humano em função do ganho como finalidade da vida, não mais o ganho em função do ser humano como meio destinado a satisfazer suas necessidades materiais: essa inversão da ordem 'natural' das coisas é tão manifestamente e sem reservas o Leitmotiv do capitalismo, quanto é estranha a quem não foi tocado por seu bafo." (WEBER: 2004, p. 45-47)
Um autor como John Stuart Mill “rejeitou a noção de
uma natureza humana fixa e imutável dominada exclusivamente por desejos
egoístas e em oposição a Bentham e Ricardo argumentou que a psicologia moral
dos homens era dotada de uma espantosa maleabilidade e que o auto-interesse
estreito nem sempre prevalecia, uma vez que, para muitos homens, 'motivos como
a consciência ou a obrigação moral haviam sido de fundamental importância'. O
fulcro da posição milliana foi trazer o princípio da 'perfectibilidade humana'
para o centro do palco.” (GIANNETTI: 1993, p. 42)
Mill
critica Bentham por este último considerar a natureza humana como “fixada” na motivação
economômica utilitária: “Bentham imagina a humanidade como uma calculadora mais
fria do que ela realmente é...” (MILL: “Remarks on Bentham's Philosophy”, Works,
vol. 10, pg. 16-17). Stuart Mill enfatiza o elemento de “plasticidade” da
chamada natureza humana, destacando o impulso de auto-aperfeiçoamento, de
auto-transcendência, esta “capacidade ilimitada de aprimoramento” nos âmbitos
do estético, do ético e do cognitivo que não está distante da concepção de
Nietzsche sobre o espírito-livre e o além-do-homem [1].
Segundo Mill, um homem digno deste nome, longe
de ter como ambição diretriz tornar-se tão rico e famoso quanto possível, não
importando que atinja a prosperidade e o engrandecimento por meios perversos e
danosos, “prefere ser um Sócrates insatisfeito do que um porco satisfeito” (citado por GIANNETTI: p.43).
[1] Ansell-Pearson,
em Nietzsche Como Filósofo Político, aponta Mill como um dos filósofos
políticos com quem Nietzsche tinha mais afinidade, sugerindo também uma
afinidade com Tocqueville e Taine.