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segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

"Existe uma guerra silenciosa sendo travada na internet contra os põem suas cabeças em risco em nome de uma causa: a livre circulação de conteúdos e informações..." (Sobre o suicídio de Aaron Swartz)


Jovem hackerativista que desafiou o mercado acadêmico tem suicídio induzido


"Aaron Swartz (1986-2013) se foi ontem. Ele se enforcou em sua residência, no dia 11 de janeiro de 2013 em New York. De acordo com amigos próximos, ele não admitia a ideia de que poderia pegar até 35 anos de prisão por ter disponibilizado quase 5 milhões de artigos científicos de graça na internet. Isso mesmo: esse hacker distribuiu (e não roubou) 5 milhões de artigos para compartilhamento.

A empresa que processou Aaron foi a JSTOR (acrônimo para "Journal Storage"). Criada em 1995, a JSTOR apareceu no mercado com a missão de vender artigos científicos em formato PDF (Portable Document Format) para instituições de pesquisa e para usuários comuns. Hoje a empresa é uma gigante no setor. Presente em 150 países, mais de 170 instituições assinam o conteúdo desse portal. Os gastos das instituições com essas assinaturas chegam aos milhões de dólares.

Poderia uma empresa declaradamente sem fins lucrativos destruir a vida desse jovem, ao ponto de levá-lo a cometer suicídio? No dia 19 de julho de 2011, Aaron foi indiciado por fraude e roubo em um processo encabeçado pela JSTOR. Apesar de ter se declarado inocente, teve que pagar uma fiança de cem mil dólares para responder o processo em liberdade. Após sérios indícios de que seria condenado, Aaron desistiu e enforcou-se em sua residência. 

Existe uma guerra silenciosa sendo travada na internet. De que lado você está? Posso dizer que uma parte de minha formação acadêmica advém da coragem e da ousadia de jovens hackers que desafiam qualquer lei e põem suas cabeças em risco em nome de uma causa: a livre circulação de conteúdos e informações na internet. Hoje a maior parte dos arquivos baixados por Aaron encontram-se disponíveis em uma plataforma pirata de distribuição de material acadêmico. Esse é um dos seus legados. Mas, e nós que ficamos, o que podemos fazer agora? Meu palpite é claro: seguir compartilhando e construindo um mundo mais justo que não jogaria na cadeia qualquer pessoa que compartilhasse palavras e sonhos. 


Daniel C. Valentim 
Doutorando em Sociologia; 
Membro do Partido Pirata do Brasil

Siga Viagem...


Um dos melhores documentários sobre o tema dos direitos autorais na era da cibercultura:
completo e legendado em português. Site oficial do Steal This Film (Roube este Filme).

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

domingo, 11 de novembro de 2012

"Refletindo sobre o futuro": pensamentos sobre como a Internet tem revolucionado a Indústria da Música (por Fabrício Boppré)

"O Brasil é o 5º país com maior número de downloads ilegais de arquivos de música na internet"
Saiba mais na Revista Noize: http://bit.ly/rainbows58

REFLETINDO SOBRE O FUTURO
por Fabrício Boppré @ Dying Days

"All the time the industry talks of money: money it’s lost, money it’s owed. It rarely talks about the effects upon artists, and even less about how music itself might suffer. But no one cares about the suits and their bank accounts except shareholders and bankers. People care about their own money, and the industry not only wanted too much of it but also failed to take care of those who had earned it for them: the musicians. And it’s the latter that people care about. Because People Still Want Good Music."

O trecho acima é deste artigo publicado já tem uns meses na Quietus, mas que ainda é uma ótima leitura, recheada de boas reflexões e, no geral, uma clara e precisa visão sobre o estado das coisas na indústria da música.

Acho que o autor falha apenas ao tentar vislumbrar saídas para os dilemas que a internet criou para todo o espectro de interessados na questão — fãs, músicos e gravadoras. Não creio que a saída esteja em sistemas de assinaturas ou na manutenção e suporte ao trabalho de músicos (e, analogamente, escritores, cineastas, etc.) nos mesmos moldes do pagamento que fazemos pela eletricidade e pela água que entra em nossas casas. São coisas muito diferentes. Acho que é necessário pensar de forma mais ampla.

Que ninguém se engane, ou se deixe enganar: o colapso da indústria tem como origem a ganância que cresceu gradualmente na medida em que o seu modelo de negócio — baseado na venda supervalorizada de objetos de plástico produzidos em escala industrial e apoiado maciçamente por toneladas de marketing — gerou fortunas e estabeleceu uma confortável cultura dominante de artistas descartáveis e submissos às intenções meramente comerciais desta indústria. Uma cultura e um modelo de exploração e comercialização que, em algum momento, para executivos e artistas, pareceu ser fonte infinita de dinheiro. Claro, me refiro às grandes corporações de mídia e aos artistas-celebridades, mas esta sórdida micro-parcela de “criadores” (com o perdão do uso de tão bonita palavra para designar essa turma) é a que cultiva a atenção da imensa maioria da multidão consumidora de música, e acredito que a própria natureza desse desequilíbrio e dessa massificação geram os danos que, com a chegada da internet e a consequente quebra desse modelo de negócio, hoje estendem-se por toda a pirâmide.


A partir daí, sobre o futuro, a minha percepção segue uma linha diferente. Um disco, um filme, um livro, tudo isso ainda é amplamente comercializado junto de um suporte físico, mas em última instância o que interessa não é esse objeto, e sim o seu conteúdo, e esse conteúdo, em geral, pode ser digitalizado e mantido em um computador ou tablet ou seja lá o que for, tornando dispensável o objeto. Claro, há ainda o nicho das pessoas que se interessam pelo objeto no armário, a arte gráfica que vem junto e tudo mais, mas esse grupo tende a diminuir gradativamente, por uma série de fatores. A questão é que uma vez criado o conteúdo digitalizado, não há como impedir que as pessoas distribuam cópias. Tentativas surgem constantemente, apenas para serem ludibriadas na sequência. E mesmo que Hollywood e as grandes gravadoras consigam um dia impedir o funcionamento de todos os sites de downloads e todos os sistemas de troca de arquivos — o que é improvável, mas consideremos a possibilidade —, ainda assim existirá o e-mail, e as pessoas poderão pegar seus arquivos e enviar por e-mail para quem quiserem, afinal, é pouco provável que algum dia a troca de e-mails seja proibida ou vigiada (pelo menos, assim queremos crer).

Portanto, não há saída. A indústria da música tem que passar a funcionar levando isso em conta, tem que desistir de vedar as pessoas de fazerem o que quiserem com as coisas que adquirem. O foco tem que passar da reprodução/replicação, que a internet universalizou, para a criação, que é, de fato, a execução da virtude do artista, além das atividades correlatas. Considerar roubo a cópia de uma música, como se ela tivesse que gerar dinheiro continuamente para alguém toda vez que fosse parar em um novo computador mundo afora, não é viável, não é algo coerente com o mundo atual. O dinheiro fácil e as fortunas não serão mais possíveis, em muito pouco tempo. O que é ótimo, pois eu acho um absurdo, por exemplo, que cada um dos Rolling Stones ainda ganhe, provavelmente, algo na ordem das dezenas de milhares de dólares mensalmente por uma música ou um disco gravado e lançado décadas atrás, enquanto nesse exato instante há gente desesperada atrás de um emprego, para trabalhar e receber dinheiro agora, e sobreviver. Ou, pior: enquanto há gente morrendo de fome.

Acho que existe um contexto bem mais amplo aí, como indicam as crises econômicas e sociais e os subsequentes protestos mundo afora, mas voltando ao quadro mais restrito da indústria da música, uma pista de como as coisas irão inevitavelmente passar a funcionar pode ser a seguinte: eu (e provavelmente você), para ganhar o meu dinheiro, negocio com os interessados no meu trabalho, acordamos um valor e um produto ou serviço, eu crio esse produto ou executo esse serviço e ganho o dinheiro combinado. Esse valor é fruto de um cálculo que envolve tempo de produção, demanda, complexidade, minhas necessidades pessoais durante o período de tempo que estarei dedicado a este trabalho, etc.. E acho que esse é o modelo que a revolucionária internet irá impôr, gradualmente, a todo mundo, acabando com as obscenas fortunas de celebridades e mega-corporações. E tudo isso iniciando-se com o fim da venda de um objeto que é produzido ao custo de R$ 1,00 a unidade e vendido por R$ 30,00, fim este que só tornou-se possível a partir do momento em que começamos a fazer downloads de discos e assim, talvez meio sem querer, a contestar este estado das coisas.

Siga viagem...


domingo, 3 de junho de 2012

A ascensão do Robin Hood digital (Instigações à Reflexão, por E. Viveiros de Castro)

A nova face de Robin Hood?


"Temos que criar um outro conceito de criação!"

O antropólogo Eduardo Viveiros de Castro instiga-nos a pensar sobre antropofagia, imperialismo, Creative Commons vs. copyright, criação e sampler na era na Cibercultura, dentre outros tópicos


Qual é o modelo típico, a trajetória típica do intelectual brasileiro (ou, aliás, norte-americano também)? É o menino de província, nascido na cidade pequena, e que está o tempo todo sonhando com o Rio de Janeiro ou São Paulo. Esse modelo do sujeito que espera o suplemento dominical do jornal como se fosse a Bíblia, a hóstia, que encomenda livros da capital, meses a fio à espera das notícias culturais da metrópole. Éramos todos meninos do interior; inclusive os cariocas e paulistas – nossa metrópole era estrangeira, apenas.

Isso acabou. Hoje tudo está dado. Você descarrega livro [da Internet], pega tudo. Há uma  democratização gigantesca, desde que você tenha um computador de banda larga, que no Brasil talvez se expanda com esse projeto do governo de pontos de inclusão digital, quiosques digitais, que é uma coisa interessante, treinar jovens de pequenas cidades do interior para operar internet. Há esse problema da perda da diferença, da estandartização, mas é aquela coisa: fica tudo igual, mas algumas diferenças são potencializadas ao mesmo tempo em que outras se equalizam. 

É uma coisa ambígua, feito a globalização. Lévi-Strauss falava já em 1952: “É inexorável, a cultura ocidental vai se universalizar, mas não pensem que isso vai diminuir as diferenças, elas vão passar a ser internas, em vez de ser externas”; e talvez aumentem, ao longo de dimensões de cuja existência sequer suspeitamos. A cultura ocidental vai explodir de diferenças internas, ao invés do modelo clássico da invasão dos bárbaros.... A cultura ocidental vai se universalizar e, no que ela se universalizar em termos de extensão, ela vai se particularizar em termos de compreensão, vai se tornar cada vez mais caótica internamente, cada vez mais dividida, produzindo toda sorte de esquisitices e originalidades e assim por diante. A internet vai ser um pouco isso... 

Estamos longe de saber o que vai acontecer com a internet daqui a dez anos. Em 1990 eu comprei meu primeiro computador. Em 1991 comecei a me comunicar por computador com outros colegas pela Bitnet, que era uma rede universitária sem a interface gráfica world wide web. Tudo o que havia era o correio eletrônico com colegas universitários. A Internet era uma rede de comunicação de cientistas, foi pouco a pouco sendo usada por semicientistas como nós, depois por toda a comunidade acadêmica e depois foi aberta para o comércio, virando isso que é hoje.

O Creative Commons é uma tentativa a meu ver altamente meritória. Eles estão tentando evitar que o mundo virtual seja cercado, assim como foi o mundo geográfico. Que ele seja privatizado. É uma tentativa de manter a informação como um bem de domínio público. O grande ponto para o Creative Commons é que a informação não segue o regime da soma zero, que ela pode ser passada para frente e não diminui com isso. Isso não significa que um autor deva ser plagiado; o ponto é facilitar a circulação. 

O grande processo que iniciou a Revolução Industrial inglesa foi o cercamento dos campos comunais das aldeias, usados por todos para pastagem etc., que eram os commons. Por isso que o projeto se chama Creative Commons. Os commons eram as áreas das comunidades rurais inglesas que eram de uso comum. As terras de agricultura em geral eram terras sem cerca, as divisões eram consensuais, você tinha a noção costumeira de onde começava e acabava a terra de alguém. Depois os grandes proprietários começaram a comprar o terreno, colocar cerca, impedir a circulação. O Creative Commons é uma tentativa de reconstituir esse regime da apropriação comum, do uso comum, do uso coletivo, no plano dos bens intelectuais, dos bens imateriais. 

A idéia é que o copyright significa “all rights reserved” e o Creative Commons significa “some rights reserved”. E você diz quais são eles. Existem várias fórmulas, vários tipos de licenças abertas. Trata-se de tentar criar um modo de coabitação no plano da informação que seja tolerável, e que evite o que está acontecendo, que é o controle da informação pelas grandes companhias. 

Agora isso tudo ainda é, de certa forma, um paliativo. O Creative Commons pode ser visto, como o é efetivamente pelos mais, digamos, radicais, como um estratagema capitalista. O verdadeiro anarquista não quer saber de Creative Commons nem de copyleft, é totalmente radical. A princípio estou com eles, acho a propriedade privada uma monstruosidade, seja ela intelectual ou não, mas sei também que não adianta dar murro em ponta de faca, tapar o sol com a peneira. Acho que você tem que transigir, tem que fazer algum tipo de negociação. O Creative Commons é um grande avanço intelectual.


Esse é o ponto. O Creative Commons está tentando consagrar do ponto de vista jurídico o processo de hibridização, a antropofagia, o saque positivo, o saque como instrumento de criação. Estão tentando fazer com que o saque e a dádiva possam se articular. Eu sampleio e dou, não é “eu sampleio e vendo, vou ficar rico”. A idéia é “sampleio, mas também dou”, um processo em que saque e dádiva se tornam, de alguma maneira, mutuamente implicados um no outro.

 A citação, que é o dispositivo modernista por excelência de criação, é na verdade o reconhecimento de que não há criação absoluta, a criação não é teológica, ex nihilo, você sempre cria a partir de algo que já existe. Como a famosa frase do Chacrinha: “Nada se cria, tudo se copia”. E como se sabe, nada se copia igualzinho, ao se copiar sempre se cria, quanto mais igual se quer fazer mais diferente acaba ficando: a “contribuição milionária de todos os erros”, dizia Oswald de Andrade, darwinista infuso. Foi de tanto falar latim que os europeus acabaram falando português, francês, espanhol...

Na verdade, toda nossa teoria da criação é a de que existe uma oposição radical, uma oposição intransponível entre criação e cópia. O criar e o copiar são os dois extremos de um processo, quer dizer, o criador é aquele que precisamente tira de si tudo o que precisa, e o plagiário é aquele que tira dos outros. O plagiário é um saqueador, e o criador é o doador absoluto. A dádiva é uma modalidade da criação, a criação é uma modalidade da dádiva, talvez a criação seja a dádiva pura, e aí você vê bem as raízes teológicas desse modelo: Deus criou o mundo do nada, tirou de si mesmo. A criação é o modelo do poeta, do criador como uma divindade no seu próprio departamento, que é o modelo romântico do gênio como um criador, um pequeno deus, uma pequena divindade, que tira de si mesmo a criação.

Do outro lado está o plagiário, o diluidor. Isso está inclusive na célebre tipologia poundiana difundida pelos irmãos Campos: o mestre, o inventor e o diluidor. Ora, o que foi de alguma maneira se consolidando na consciência moderna é a idéia de que a criação precisa da cópia, a idéia da bricolagem de Lévi-Strauss, de que toda criação nasce numa espécie de permutação realizada sobre um repertório já existente. [...]  O sampler está redefinindo o estatuto da citação...

Nós só temos um dispositivo citacional, antigo, e aliás nem tão antigo assim, que são as aspas. Uma invenção complexa, um objeto muito mais complicado semanticamente do que parece. Mas está na hora de começarmos a inventar outras maneiras de articular discursos que não sejam as aspas, e o sampler é uma delas. Com o sampler você passa do todo à parte, da parte ao todo, do outro para você e de você para o outro sem costura...

A possibilidade tecnológica que você tem hoje de cortar as coisas em lugares que antes não podia, há outra margem de manobra. Daí a importância do copyleft, porque ele permite que você  essubstancialize a obra, permite que ela seja distribuída, no sentido de distributed cognition. Quer dizer, ela se torna um objeto que pode divergir, heterogeneíza a obra. Uma obra que tem uma tendência, sobretudo a partir da época romântica, de ser vista como uma totalidade orgânica. A idéia da organicidade da obra, do caráter de ser uno e total. 

O que se vê hoje é que a obra é tudo menos una e total, a criação artística produz objetos que são tudo menos unos e totais. A famosa obra aberta do Umberto Eco, que já é um conceito antigo. Estamos na verdade fazendo um replay de discussões da década de 1960 e 70, ou antes ainda, o ready-made do Duchamp, e assim por diante. Um replay está sendo feito simplesmente porque agora existe uma potência tecnológica, uma possibilidade de atualização dessas discussões e de implementação que elas não tinham antes.

O que pode ser repensado é o estatuto da noção de criação, não para dizer que não é mais possível criação, mas para redefini-la de uma maneira criativa, digamos assim. Temos que criar um outro conceito de criação. Trabalhamos atualmente com um conceito, por um lado, velho como o cristianismo (criação bíblica) e, por outro lado, com o do romantismo, a criação como manifestação, emanação de uma sensibilidade sui generis do indivíduo privilegiado. 

Esses dois modos de conceber a criação não dão mais conta do que está se processando nesse mundo atual. Está havendo tanta criação quanto havia antes, não creio que esteja havendo menos. O que houve foi uma mudança das condições. Mudaram as condições de criação, mudaram as condições de distribuição. [...]  A criação artística está ficando cada vez mais parecida com a criação científica, que sempre foi um trabalho em rede, em que você trabalha em cima do trabalho dos outros, que exige todo um aparato institucional complexo de produção propriamente coletiva.

Nós temos que virar Robin Hood. Saquear para dar. O ideal é mesmo tirar dos ricos para dar aos pobres. É isso aí, sempre foi e sempre será. A antropofagia o que é? Tirar dos ricos. Entenda-se: “vamos puxar da Europa o que nos interessa”. Vamos ser o outro em nossos próprios termos. Pegar a vanguarda européia, trazer para cá, e dar para as massas. “A massa ainda comerá do biscoito fino que eu fabrico”. A internet, ou as novas tecnologias de informação, ou as novas formas de criação, permitem que nós possamos, nós todos, realizar nosso sonho de infância e nos tornarmos Robin Hood. Quem não quis ser Robin Hood? E depois, como o mundo virou brasileiro, “tudo é Brasil”, a antropofagia mudou um pouco de contexto. A antropofagia deu certo, nesse sentido.




EDUARDO VIVEIROS DE CASTRO 
in: "Encontros" (org. Renato Sztutman) 
Editora Azougue Editorial

terça-feira, 20 de março de 2012

O Social da Rede (via Revista Piauí)

tipos brasileirosO social da redepor RENATO TERRA
reproduzido da Revista Piauí # 66, março de 2012
 Nome: Rodrigo Rodrigues. Moro em: Facebook. Em relacionamento sério com: Twitter. Religião: Orkut. Gênero: on-line. Sobre mim: “Sorria sempre, seus lábios não precisam traduzir o que acontece em seu coração” (Clarice Lispector).
Como vocês já devem ter visto em meus perfis pessoais, sou ator, jornalista, cineasta, blogueiro e diretor de arte de uma agência de propaganda. Minha vida, aliás, é um Facebook aberto. Uso aplicativos para informar meus seguidores onde estou, quantas colheres de açúcar coloco no café e quanto tempo falta para cortar as unhas do pé novamente. Todo mês, transmito o banho do meu pug ao vivo. Ontem mesmo, abri uma discussão para decidir se colocava roupa branca ou escura na máquina de lavar. Cento e setenta e nove pessoas comentaram.
Toda vez que saio de casa, publico fotos. Sem exceção. Não raro, saio de casa apenas para publicar fotos. No bolso, celular com câmera 5.1 megapixels, e o dedo mais lépido que o Papa-Léguas para acionar o plano de dados. Não deixo passar um pôr do sol. Plac! O celular é o melhor amigo do homem social. É o cachorro que cabe no bolso.
Tenho mais amigos que Luciano Huck e mais seguidores que Buda. Numa das vezes que fui às ruas em 2012, aliás, notei que um homem me encarava. Escaneei, em vão, minha memória em busca de uma imagem que pudesse associar àquele rosto. Arquivo não encontrado. Resolvi desviar o olhar, mas não consegui bloqueá-lo. Ele se alçou em minha direção e, qual um Angry Bird, materializou-se na minha frente. Ofegante, estendeu a mão e perguntou: “Você não é o Rodrigo Rodrigues do Facebook?” Aturdido, fiz sinal de positivo com o dedo indicador. Ele sacou o celular para uma foto.
Hoje tenho tantos seguidores e solicitações de amizade que minha vida social prescinde de interface humana. Quando estou on-line, tenho controle total da linha do tempo da minha vida. Nem que, para isso, seja preciso ler as políticas de privacidade de cabo a rabo. Nas redes sociais não envelheço, não titubeio, não tenho cólica ou remela. E tenho o Photoshop sempre à mão. Meu perfil fica cada vez mais bonito com o passar dos anos.
No começo, mamãe estranhava minha opção pelo virtual e implorou para eu procurar um psicólogo. Encontrei um que atendia via Skype e aceitava pagamentos via PayPal. Marcamos sessões semanais. As primeiras conversas foram produtivas, mas em pouco tempo encontrei um aplicativo grátis que desempenhava a mesma função.
Cheguei a fazer incursões esporádicas numa realidade sem configurações antispam. Aos 15 anos, conheci uma simpática avatar num site de relacionamentos e cometi o erro de marcar um encontro ao vivo. Por que eu não me contentei com o mural de fotos? Para piorar, ela se comunicava em mais de 140 caracteres e não tinha um filtro para bloquear o mau hálito. Tentei reinicializar. Em vão. Resultado: desde que surgiu a função “cutucar”, passei a flertar apenas on-line.
Hoje vivo sempre a curtir. Ver aquele dedo polegar levantado em sinal de positivo funciona como um bálsamo para a autoestima. Anos de análise não quebrariam tantas barreiras do subconsciente, complexos de inferioridade e desejos reprimidos de aceitação social.
O oposto também tem funções terapêuticas. Em dias carentes, qual um Roberto Shinyashiki randômico, atualizo meu status com trovoadas motivacionais. Atuo como um polinizador de utopias. Frases como “Mude, mas comece devagar, porque a direção é mais importante que a velocidade” são de arrepiar a alma. Quem não repensa toda uma vida depois de ler uma síntese como essa? Cada vez que um amigo clica em “curtir”, me sinto abraçado. Treinei como um pequeno Yoda para potencializar meus dotes sociais e criei dogmas que faço questão de seguir. Eles são tão importantes que copiei e colei no meu perfil.
Regra #1: É fundamental fragmentar a atenção. Faço exercícios diários nesse sentido. Quando me pego lendo mais de dois parágrafos de um texto ou vendo filmes com mais de um minuto, desvio o olhar para outra coisa. Sou capaz de postar uma mensagem enquanto dirijo, mesmo que esteja conversando, ouvindo música e mexendo no GPS.
 Regra #2: Olhe para as redes sociais como um Lévi-Strauss 2.0. É fundamental compreender as características antropológicas de cada uma. Use o Orkut para compartilhar piadas de salão. No Twitter, tente sempre parecer inteligente e, no Facebook, aja sempre como a pessoa que você gostaria de ser.
Regra #3: Encarne o Cesar Maia e interaja efusivamente com seus seguidores. Comente, curta, compartilhe. Separe vinte minutos pela manhã e escreva recados carinhosos para seus amigos aniversariantes.
Regra #4: Todo mundo tem um lado ruim. Para dar vazão a esse lado, crie um perfil falso.Um social da rede que pretende causar buzz não pode olhar apenas para seu umbigo. É preciso antever as novidades, ter suas fontes e construir uma rede de contatos. Nunca se sabe quando um apresentador de telejornal fará uma nova trapalhada ou quando uma experiência fofinha envolvendo crianças será filmada novamente. A sociedade on-line dá crédito àquele que divulga rapidamente um comercial engraçado, uma notícia sobre os benefícios da cerveja ou a expertise de um bebê com seu tablet. Modéstia à parte, creio que sou reconhecido – quiçá internacionalmente – pela ampla capacidade de mobilização em prol de temas humanitários. Se a gente não se fizer o bem, quem o fará? Recentemente, cativei todos os meus contatos, durante um mês, a assinar uma petição on-line contra uma enfermeira que espancou um ornitorrinco até a morte numa pet shop em Madagascar. Os jovens de 1960 quiseram salvar o mundo real. Minha geração, menos ingênua, não foge da luta: está disposta a pegar em armas virtuais para salvar os bichinhos com um clique no mouse. É uma utopia, mas os sonhos não envelhecem. O bom é que posso me indignar sem ficar zangado. Basta compartilhar um vídeo do Arnaldo Jabor, uma imagem de um cachorro maltratado ou um texto incisivo sobre o assunto do momento. Já questionei os patrocinadores do Big Brother por bancarem um programa que estimula o estupro, enviei e-mails para o governo do Congo cobrando atitudes para melhorar aquele IDH chinfrim e publiquei fotos denunciando a clonagem de bonecas infláveis no sudoeste do Suriname. Nem Gandhi fez tanto! Aliás, gostei desse texto. Pena que o autor é desconhecido. Vou postar no meu perfil dando crédito ao Verissimo para ver se alguém lê.

tipos brasileiros

O social da rede
por Renato Terra
Revista Piauí # 66 

Nome: Rodrigo Rodrigues. Moro em: Facebook. Em relacionamento sério com: Twitter. Religião: Orkut. Gênero: on-line. Sobre mim: “Sorria sempre, seus lábios não precisam traduzir o que acontece em seu coração” (Clarice Lispector).

Como vocês já devem ter visto em meus perfis pessoais, sou ator, jornalista, cineasta, blogueiro e diretor de arte de uma agência de propaganda. Minha vida, aliás, é um Facebook aberto. Uso aplicativos para informar meus seguidores onde estou, quantas colheres de açúcar coloco no café e quanto tempo falta para cortar as unhas do pé novamente. Todo mês, transmito o banho do meu pug ao vivo. Ontem mesmo, abri uma discussão para decidir se colocava roupa branca ou escura na máquina de lavar. Cento e setenta e nove pessoas comentaram.

Toda vez que saio de casa, publico fotos. Sem exceção. Não raro, saio de casa apenas para publicar fotos. No bolso, celular com câmera 5.1 megapixels, e o dedo mais lépido que o Papa-Léguas para acionar o plano de dados. Não deixo passar um pôr do sol. Plac! O celular é o melhor amigo do homem social. É o cachorro que cabe no bolso.

Tenho mais amigos que Luciano Huck e mais seguidores que Buda. Numa das vezes que fui às ruas em 2012, aliás, notei que um homem me encarava. Escaneei, em vão, minha memória em busca de uma imagem que pudesse associar àquele rosto. Arquivo não encontrado. Resolvi desviar o olhar, mas não consegui bloqueá-lo. Ele se alçou em minha direção e, qual um Angry Bird, materializou-se na minha frente. Ofegante, estendeu a mão e perguntou: “Você não é o Rodrigo Rodrigues do Facebook?” Aturdido, fiz sinal de positivo com o dedo indicador. Ele sacou o celular para uma foto.

Hoje tenho tantos seguidores e solicitações de amizade que minha vida social prescinde de interface humana. Quando estou on-line, tenho controle total da linha do tempo da minha vida. Nem que, para isso, seja preciso ler as políticas de privacidade de cabo a rabo. Nas redes sociais não envelheço, não titubeio, não tenho cólica ou remela. E tenho o Photoshop sempre à mão. Meu perfil fica cada vez mais bonito com o passar dos anos.

No começo, mamãe estranhava minha opção pelo virtual e implorou para eu procurar um psicólogo. Encontrei um que atendia via Skype e aceitava pagamentos via PayPal. Marcamos sessões semanais. As primeiras conversas foram produtivas, mas em pouco tempo encontrei um aplicativo grátis que desempenhava a mesma função.

Cheguei a fazer incursões esporádicas numa realidade sem configurações antispam. Aos 15 anos, conheci uma simpática avatar num site de relacionamentos e cometi o erro de marcar um encontro ao vivo. Por que eu não me contentei com o mural de fotos? Para piorar, ela se comunicava em mais de 140 caracteres e não tinha um filtro para bloquear o mau hálito. Tentei reinicializar. Em vão. Resultado: desde que surgiu a função “cutucar”, passei a flertar apenas on-line.

Hoje vivo sempre a curtir. Ver aquele dedo polegar levantado em sinal de positivo funciona como um bálsamo para a autoestima. Anos de análise não quebrariam tantas barreiras do subconsciente, complexos de inferioridade e desejos reprimidos de aceitação social.

O oposto também tem funções terapêuticas. Em dias carentes, qual um Roberto Shinyashiki randômico, atualizo meu status com trovoadas motivacionais. Atuo como um polinizador de utopias. Frases como “Mude, mas comece devagar, porque a direção é mais importante que a velocidade” são de arrepiar a alma. Quem não repensa toda uma vida depois de ler uma síntese como essa? Cada vez que um amigo clica em “curtir”, me sinto abraçado. Treinei como um pequeno Yoda para potencializar meus dotes sociais e criei dogmas que faço questão de seguir. Eles são tão importantes que copiei e colei no meu perfil.

Regra #1: É fundamental fragmentar a atenção. Faço exercícios diários nesse sentido. Quando me pego lendo mais de dois parágrafos de um texto ou vendo filmes com mais de um minuto, desvio o olhar para outra coisa. Sou capaz de postar uma mensagem enquanto dirijo, mesmo que esteja conversando, ouvindo música e mexendo no GPS.

Regra #2: Olhe para as redes sociais como um Lévi-Strauss 2.0. É fundamental compreender as características antropológicas de cada uma. Use o Orkut para compartilhar piadas de salão. No Twitter, tente sempre parecer inteligente e, no Facebook, aja sempre como a pessoa que você gostaria de ser.

Regra #3: Encarne o Cesar Maia e interaja efusivamente com seus seguidores. Comente, curta, compartilhe. Separe vinte minutos pela manhã e escreva recados carinhosos para seus amigos aniversariantes.

Regra #4: Todo mundo tem um lado ruim. Para dar vazão a esse lado, crie um perfil falso. 



Um social da rede que pretende causar buzz não pode olhar apenas para seu umbigo. É preciso antever as novidades, ter suas fontes e construir uma rede de contatos. Nunca se sabe quando um apresentador de telejornal fará uma nova trapalhada ou quando uma experiência fofinha envolvendo crianças será filmada novamente. A sociedade on-line dá crédito àquele que divulga rapidamente um comercial engraçado, uma notícia sobre os benefícios da cerveja ou a expertise de um bebê com seu tablet. 

Modéstia à parte, creio que sou reconhecido – quiçá internacionalmente – pela ampla capacidade de mobilização em prol de temas humanitários. Se a gente não se fizer o bem, quem o fará? Recentemente, cativei todos os meus contatos, durante um mês, a assinar uma petição on-line contra uma enfermeira que espancou um ornitorrinco até a morte numa pet shop em Madagascar. Os jovens de 1960 quiseram salvar o mundo real. Minha geração, menos ingênua, não foge da luta: está disposta a pegar em armas virtuais para salvar os bichinhos com um clique no mouse. É uma utopia, mas os sonhos não envelhecem.

O bom é que posso me indignar sem ficar zangado. Basta compartilhar um vídeo do Arnaldo Jabor, uma imagem de um cachorro maltratado ou um texto incisivo sobre o assunto do momento. Já questionei os patrocinadores do Big Brother por bancarem um programa que estimula o estupro, enviei e-mails para o governo do Congo cobrando atitudes para melhorar aquele IDH chinfrim e publiquei fotos denunciando a clonagem de bonecas infláveis no sudoeste do Suriname. Nem Gandhi fez tanto!

Aliás, gostei desse texto. Pena que o autor é desconhecido. Vou postar no meu perfil dando crédito ao Verissimo para ver se alguém lê.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

"Eu Não Quero Sopa!" (sábia Mafaldita)

‎"Eles querem transformar a internet em um tubo de mão única, com eles em cima, empurrando o lixo para baixo através do tubo para o resto de nós, consumidores obedientes." - do manifesto do The Pirate Bay, via Diário da Liberdade

Muitas coisas me intrigam nestes recentes episódios que têm sacudido a Internet nos últimos tempos, com a intragável S.O.P.A. (Stop Online Piracy Act) que a toda-poderosa da Indústria do Entretenimento quer fazer descer por nossas goelas abaixo. A primeira das coisas "intrigantes" é: como é que pode uma proposta que ainda não havia sido aprovada pelo Congresso americano, e que tem boas chances de jamais ser, ser posta em prática pelo FBI?


Os tiras yankees usaram como pretexto a ladainha de que o Megaupload é uma empresa "criminosa" cujos satânicos idealizadores e trabalhadores lesaram em U$500 milhões de dólares o ofendidinho do conglomerado corporativo composto por Disney, Warner e o caralho-a-quatro. Quão intrigante é pensar sobre a gênese desse número, sobre os raciocínios que estão por trás desta péssima matemática saída dos cérebros distorcidos desses empresários gananciosos.

Façamos uma reflexão com um exemplo bastante concreto: Avatar, o mega blockbuster de James Cameron, maior bilheteria da história da sétima arte, rendeu nada menos que U$2,782,275,172 (no mundo todo) segundo dados do IMDB (Internet Movie Database).  É vero que esta super-produção da 20th Century Fox teve um dos custos de produção mais astronômicos já registrados em Hollywood: estima-se que Avatar tenha custado para fazer uns "meros" 300 milhões. Mas isso equivale a uma merreca, diz aí! Sim: uma baita duma merreca para um filme cujo lucro estrondoso beira os 2 BILHÕES E MEIO DE DÓLARES!

Agora imaginem os acionistas e CEOs da FOX, no alto de seus arranha-céus chiquérrimos na Califórnia, trocando sussurros conspiratórios dentro de seus Porches blindados e helicópteros, querendo aumentar ainda mais as margens de lucro para que possam dar aquele turbo naquela conta bancária meio "paradona" lá na Suíça... E aí partem para o seguinte raciocínio: há muita gente baixando Avatar de graça na Internet... esses malditos desses sites tipo Rapidshare, The Pirate Bay, Mediafire, Megaupload, tornam possível a aquisição gratuita de nosso produto! Ladrões! Criminosos! Vândalos! Comunistas! Lancemos sobre eles os bulldogs!

Como soltar os cachorros para cima destes sites sem antes "demonstrar" que há um ato criminoso cometido por eles? E assim prosseguem "raciocinando": "hmmm... vejamos... se 100.000 pessoas baixaram Avatar pelo Megaupload, isto significa que estes criminosos são culpados por 100.000 DVDs ou ingressos-de-cinema que deixamos de vender! 100.000 vezes 20 dólares... 2 milhões de prejú!" Ah, sim! Agora entendemos vossa sofística satânica, cara Fox e cia! O que vocês apelidam de prejuízo não passa de... um lucro presumido que não foi ganho! Situação bizarra: uma empresa que lucra 2 BILHÕES e MEIO com um único filme passa a perseguir aqueles que teoricamente a impedem de GANHAR MAIS e MAIS!


É a perversidade do capitalismo americano mostrando seus dentes sem disfarce. É uma ganância cega que não enxerga um palmo diante do nariz - feito a criança na capa de Nevermind, fisgada pelo dólar que um invisível pescador lhe agita na frente dos olhos. Eles agora querem atacar a própria estrutura da Internet, instaurar uma censura global dos conteúdos de que se julgam "donos", sempre com o mesmo batido argumento chatonildo: "lucros, lucros, lucros!" Como se isso fosse argumento e não um papaguear enjoativo duns babacas endinheirados, money junkies do caralho.

O que mais causa revolta e indignação neste ataque ao Megaupload é o seguinte: não é verdade que o conteúdo ali hospedado era essencialmente "posse" das mega-corporações globais. Num site tão rico em conteúdo diversificado, compartilham-se filmes independentes; mini-séries educativas; PDFs de poesia, filosofia, sociologia; documentários de ativismo político; música composta e gravada sem a mínima intrusão de mecanismos comerciais etc. O conteúdo alternativo ali hospedado era imenso - talvez maior até do que o conteúdo mainstream. Como mensurar o dano causado por esta DELETAÇÃO MASSIVA de dados?


(Uma conexão que não me parece inteiramente despropositada me ocorre entre este episódio e um outro, ocorrido muitíssimo tempo atrás (391 d.C.), quando a Biblioteca de Alexandria foi dizimada pelos cristãos. Sobre este assunto, aliás, vale muito a pena conferir o Ágora, o filmaço de Alejandro Amenábar, com Rachel Weisz arrasando!)

Ali nos servidores do Megaupload havia muito conteúdo digníssimo de ser conhecido, interpretado, estudado... havia a discografia do Fugazi e do The Clash, as palestras de Noam Chomsky e Slavoj Zizek, os documentários da Naomi Klein ou do Michael Moore, os livros de Marshall McLuhan e Terence McKenna... O Megaupload, abatido em pleno vôo, não causou o súbito colapso apenas de "toneladas" de conteúdo que a Indústria julga-se "possuidora"; também perdeu-se muito do conteúdo contra-cultural, subversivo, iconoclasta, questionador, rebelde, transformador, revolucionário que ali havia! Qual será a percentagem de conteúdo realmente copyrighted que fluía entre os servidores do Megaupload e seus usuários diariamente? E esta percentagem justifica o extermínio completo do serviço?

O FBI, é claro, não conhece essas "sutilezas": pensa e age com uma truculência de gente inculta que odeia a idéia de que as pessoas estão se informando, se cultivando, intercambiando idéias e criações artísticas sem a intermediação de empresas com fins lucrativos. Os dinossauros ficam apavorados com o mundo que a cibercultura está ajudando a parir: um mundo no qual, como a Primavera Árabe provou, as pessoas utilizarão a Internet para escaparem às cegueiras impostas pela mídia, para trocarem informações preciosas sobre os horrores cometidos pelos homens de poder, para se conscientizarem politicamente com um "cosmopolitismo" que só a Aldeia Global possibilita, ou mesmo para organizarem levantes, protestos, passeatas, revoluções... 

Tudo isso é um sinal preocupante de que o arrogante Império Americano, que cometeu os escândalos mais grotestos no Iraque e no Afeganistão nos últimos anos, que agora salta sobre o petróleo da Líbia, que tanto apóia Israel contra os palestinos, que tanto perseguiu a Revolução Cubana e tentou gorar os avanços sociais dos rebeldes da Sierra Maestra ("hoje 200 milhões de crianças dormirão nas ruas - nenhuma delas é cubana!"), que fecha o Megaupload mas não se importa se Guantánamo Bay e Abu Ghraib funcionam direitinho, que... enfim, que já está passando dos limites em seu imperialismo autoritário e sua Guerra Contra o Terror, sua Guerra Contra as Drogas, sua Guerra em Prol do Petróleo árabe, sua Guerra contra a Pirataria... Papagaios que só sabem falar em "guerra, guerra, guerra!", "dinheiro, dinheiro, dinheiro!"

Esta guerra, como não podia deixar de ser num país acostumado à ela, chega à Internet. É bom irmos nos acostumando, pois parece ter começado de vez a repressão autoritária dos ianques contra a Internet livre. O compartilhamento de filmes e músicas vai sofrer alguns dos abalos mais sérios de toda a história da Cibercultura, pelo jeito, caso uma grande onda de oposição popular não barre esses planos dos defensores do SOPA e do Protect IP. O Megaupload já foi pro saco, fechado pelo FBI, e é de se suspeitar que Rapidshare, Mediafire e sites similares sejam as próximas vítimas. Qual é o próximo passo: numa nova Inquisição, grandes fogueiras de Servidores "piratas" sendo reduzidos a cinza?!? É a volta do Farenheit 451 de Ray Bradbury - mas agora não são só os livros que eles pretendem incendiar, mas uma vastíssima biblioteca multimídia cujo acesso, segundo eles, só é permitido caso engordemos ainda mais as contas bancárias transbordantes das mega-corporações. Triste!




A minha preocupação é grande: os meus uploads somam 53.64 GIGABITES, num total de 789 arquivos, que já foram downloadados... 715.852 vezes. As autoridades, claro, não dão a mínima para a TRABALHEIRA que foi disponibilizar este conteúdo na Internet nestes últimos 4 ANOS, não tem consciência do trampo de CURADORIA envolvido nisso, e estão pouco se fodendo se estes atos de "Incineração da Pirataria" não atacam um direito fundamental de qualquer cidadão civilizado: o acesso à Cultura, no máximo da diversidade e do baixo custo possível. Se o Mediafire morrer... Depredando is wavin' bye bye. :-(




quarta-feira, 29 de junho de 2011

<<< Rip! A Remix Manifesto (um doc de Brett Gaylor) >>>


"RIP!: a Remix Manifesto (RIP, um manifesto do Remix) é um documentário dirigido pelo ciberativista Brett Gaylor, e tem como foco principal a discussão acerca dos direitos autorais, propriedade intelectual, compartilhamento de informacão e a cultura do remix nos dias de hoje.

O documentário conta com presenças ilustres como a do produtor Gregg Willis, conhecido no mundo da música como "Girl Talk", Lawrence Lessig, criador da Creative Commons, Gilberto Gil, então Ministro da Cultura no Brasil, o crítico cultural Cory Doctorow, dentre outros.

Aos poucos, Brett Gaylor, que narra o filme em primeira pessoa, vai nos apresentando questões polêmicas (...) como a guerra que vem sendo travada entre dois grandes exércitos: os "Copyright", que representam as corporações privadas que consideram que idéias são propriedade intelectual e devem ser protegidas e trancafiadas para lucro próprio; e os "Copyleft", que visam compartilhar conteúdo e defendem o domínio público como sendo um espaço para a livre troca de idéias e a garantia do futuro da arte e da cultura.

Diante dessa batalha, e estando no time dos Copyleft, Gaylor e outros defensores da causa criaram o seguinte manifesto:  1) A cultura sempre se constrói baseada no passado; 2) O passado sempre tenta controlar o futuro; 3) O futuro está se tornando menos livre;  4) Para construir sociedades livres é preciso limitar o controle sobre o passado.

Baseando-se nessas premissas, a história do filme se desenvolve, passando por várias entrevistas com representantes dos 2 lados da guerra. O documentário se auto-denomina uma representação desse manifesto, convocando a participação das pessoas não só na guerra contra as grandes corporações defensoras dos copyrights quanto na produção de novos conteúdos baseada na remixagem, garantindo assim o futuro da cultura e a arte." - Wikipedia



sexta-feira, 1 de outubro de 2010

<<< As Tortugas e a Saga da Inovação >>>


 A cibercultura não pára de me surpreender: agora existe até trailer de livro! E que puta trailer bacana. Ele contêm talvez a melhor animação caseira envolvendo tartarugas, nerds interneteiros e um Arquimedes pelado na banheira (o que, convenhamos, é um elogio fácil...). Trata-se de instigante vídeo de divulgação, que nubla as fronteiras entre marketing e arte, da obra "Where Good Ideas Come From: The Natural History of Innovation". Como diz o Meio Desligado, este é "novo livro do guru da tecnologia Steven Johnson promete ser um elemento de peso para reforçar a importância do livre fluxo de informações, troca de conteúdo e 'remixagem' na construção coletiva de conhecimento. Ações cada vez mais presentes no cenário cultural e que permeiam praticamente todas as áreas de atividades humanas." Vale a conferida!