Traficando informação. Pirateando conhecimento. Plugando consciências no amplificador. Dentre outros atentados ao pudor... Você está no http://www.depredando.blogspot.com
"Aaron Swartz (1986-2013) se foi ontem. Ele se enforcou em sua residência, no dia 11 de janeiro de 2013 em New York. De acordo com amigos próximos, ele não admitia a ideia de que poderia pegar até 35 anos de prisão por ter disponibilizado quase 5 milhões de artigos científicos de graça na internet. Isso mesmo: esse hacker distribuiu (e não roubou) 5 milhões de artigos para compartilhamento.
A empresa que processou Aaron foi a JSTOR (acrônimo para "Journal Storage"). Criada em 1995, a JSTOR apareceu no mercado com a missão de vender artigos científicos em formato PDF (Portable Document Format) para instituições de pesquisa e para usuários comuns. Hoje a empresa é uma gigante no setor. Presente em 150 países, mais de 170 instituições assinam o conteúdo desse portal. Os gastos das instituições com essas assinaturas chegam aos milhões de dólares.
Poderia uma empresa declaradamente sem fins lucrativos destruir a vida desse jovem, ao ponto de levá-lo a cometer suicídio? No dia 19 de julho de 2011, Aaron foi indiciado por fraude e roubo em um processo encabeçado pela JSTOR. Apesar de ter se declarado inocente, teve que pagar uma fiança de cem mil dólares para responder o processo em liberdade. Após sérios indícios de que seria condenado, Aaron desistiu e enforcou-se em sua residência.
Existe uma guerra silenciosa sendo travada na internet. De que lado você está? Posso dizer que uma parte de minha formação acadêmica advém da coragem e da ousadia de jovens hackers que desafiam qualquer lei e põem suas cabeças em risco em nome de uma causa: a livre circulação de conteúdos e informações na internet. Hoje a maior parte dos arquivos baixados por Aaron encontram-se disponíveis em uma plataforma pirata de distribuição de material acadêmico. Esse é um dos seus legados. Mas, e nós que ficamos, o que podemos fazer agora? Meu palpite é claro: seguir compartilhando e construindo um mundo mais justo que não jogaria na cadeia qualquer pessoa que compartilhasse palavras e sonhos.
“Os conservadores alegam que, sem o estímulo econômico da renda dos direitos autorais, os artistas não se sentiriam estimulados a produzirem novas obras, o que é uma falácia que pode ser facilmente rechaçada contrastando-a com a realidade social. A maioria dos músicos não recebe mais que 3% do valor pago em cada um de seus discos. Os 97% restantes servem para cobrir os custos de produção e distribuição do disco e, claro, para garantir os lucros das gravadoras. Em suma: o atravessador ganha muito mais direitos autorais que o próprio autor.
Para um músico em início de carreira ganhar um salário mínimo por mês com direitos autorais, precisaria vender cerca de 540 discos a R$33 cada no período, algo bem distante da realidade da maioria. Duplas sertanejas precisariam do dobro disso e uma banda com 5 membros precisaria vender nada menos que 2.700 discos por mês para que cada membro ganhasse um salário mínimo.
Claro que, se os músicos dependessem do estímulo econômico dos direitos autorais para produzirem, só teríamos músicos amadores. A principal fonte de remuneração dos músicos profissionais, no entanto, não é a renda dos direitos autorais, mas os cachês de seus shows. E aqui, paradoxalmente, a pirataria de CDs tem contribuído muito para aumentar a remuneração de novos talentos. Se, antes da internet, o músico dependia de um grande investimento da gravadora para se tornar conhecido e vender discos, hoje, a pirataria acaba cumprindo este papel de divulgação. Gente que não estaria disposta a pagar R$33 por um CD ouve a canção pirateada e acaba pagando pelo ingresso do show. Uma troca extremamente vantajosa para o músico que, com o aumento do público, pode aumentar o valor de seu cachê, mas péssima para a gravadora que lucra com a venda.”
[Túlio Vianna, professor de Direito Penal da Faculdade de Direito da UFMG.]
Desde que foi exterminada toda a música que era por aqui compartilhada, este blog vêm sofrendo com uma certa crise de identidade, semelhante àquela que acomete alguém que teve um membro amputado e que, apesar de precisar redefinir seu papel no mundo e suas ações cotidianas em sua nova condição de handicaped, ainda sente o braço ou a perna que já não tem.
O Depredando o Orelhão é hoje um dos estropiados e mutilados em outra das guerras que o capitalismo norte-americano teima em inventar: "a guerra em prol do direito autoral" - guerra esta que, me parece, pretende atacar a própria estrutura da Internet, cercear as potencialidades mais incríveis desse meio-de-comunicação tão revolucionário, em prol, como de praxe, do direito-ao-lucro das mega-corporações de mídia, dos magnatas da Indústria do Entretenimento, dos que já tem mais do que precisam ter ("e quase sempre se convencem que não tem o bastante... falam demais por não ter nada a dizer!").
Por isso o blog têm andado meio de luto, carregando ainda este "membro fantasma" que são 54 gigabites de MP3 e mais de 800 álbuns musicais recentemente dizimados. O que vocês vêem aqui é menos um blog do que um soldado ferido, internado no ambulatório, exangue e pálido depois dos tiros que tomou do "Esquadrão Anti-Pirataria".
estatísticas do mediafire dias antes do deletamento da conta... tudo o que se perdeu!
Dia desses, lá no Metrópolis, na noite memorável em que o M.Q.N. encerrou suas atividades após 15 anos de muito bad ass rock'n'roll (mas na certeza de que a "cena" de Goiânia prossegue muito bem representada por Black Drawing Chalks, Hellbenders e mais um monte de gente....), eu e o Batata divagávamos sobre o futuro da música na era da Internet. Concluímos que infelizmente há uma grande chance de nos tornarmos, no futuro, uns saudosistas, uns nostálgicos, uns "tiozões" cheios de discursinhos "ah como era boa a época em que a gente era jovem!"
“…uma das propostas do ACTA é que seja criminalmente punido todo e qualquer indivíduo que partilhe, ou usufrua, de forma livre e gratuita, de qualquer tipo de informação protegida por direitos de autor na Internet, seja essa informação uma música, um filme, ou até uma citação de jornal ou livro. Ou seja, a partir do momento em que o projeto-de-lei estiver em vigor, passará a haver um severo controle de todos os conteúdos publicados online, sejam eles música ou textos de opinião.” (@baixacultura)
É possível que nos tornemos, caso SOPAS, ACTAS e PIPAS sejam realmente efetivadas, tiozões cheios de saudade que lembram-se com lágrimas nos olhos dos bons-velhos-tempos em que a Internet era livre... Teremos que nos lamentar por ter ocorrido o cerceamento e o estrangulamento do compartilhamento livre de dados devido às tiranias do grande capital.Contaremos às novas gerações a história de um tempo em que a cultura circulava mais livremente e onde o acesso à maior biblioteca multimídia já criada era fácil e barato. "Filhão, era uma vez um tempo sublime onde existiam trecos chamados Napster e Megaupload...".
Àqueles que vêm pedindo insistentemente, nos comentários, que os álbuns sejam repostados, peço que entendam a imensa dificuldade de restabelecer uma biblioteca musical desse tamanho, que foi sendo construída aos poucos, ao longo de 4 anos de trabalho. Lamento dizer que não há nenhuma chance, no futuro próximo, desse blog voltar a operar com 100% de links funcionais, como foi até pouco tempo. Mesmo que eu recomeçasse os uploads, correria o risco de realizar um imenso Trabalho de Sísifo, arrastando pedregulhos para o topo de montanhas só para vê-los despencar de novo encosta abaixo.
Na real, a Internet, hoje, passa por um período instável e qualquer serviço de file-sharing corre o risco de ser fechado, processado e exterminado da noite pro dia. Os EUA estão chefiando uma enorme campanha de criminalização de blogs como este aqui e os mais truculentos e autoritários dos líderes políticos gostariam de botar um monte de gente na cadeia por baixar ou compartilhar música da Internet.
Os Estados Unidos da América, afinal de contas, há décadas vêm agindo como um truculento gigante brutalhão que só enxerga interesses privados, cego feito um poste para conceitos como "justiça social" ou "acesso universal à educação e à cultura". Meu anti-americanismo, que sempre foi intenso, só se intensifica mais - e muita gente, de Chomsky a Naomi Klein, de Michael Moore a Slavoj Zizek, nos mostram muitas razões legítimas para que sintamos indignação contra a política externa e interna do establishment yankee.
Eis um Estado que apoiou ditaduras militares na América Latina (antes do 11 de Setembro de Manhattan, é sempre bom lembrar, houve o 11 de Setembro de 1973 no Chile, com os EUA apoiando as tropas de Pinochet na derrubada de Allende...). Eis um Estado que devasta com suas bombas os países que ensaiam uma alternativa socialista ou comunista, e sempre papagueando que vai "ensinar o que é democracia". Eis um Estado que invade com sua máquina bélica, que aliás sofre de elefantíase, o Oriente Médio transbordante de petróleo, cego para o fato de que uma civilização baseada em petróleo é insustentável e que vai inevitavelmente, mais cedo ou mais tarde, sofrer mais e mais cracks.
Eis uma nação que encarcera grande parte de seus próprios cidadãos: 25% da população carcerária do mundo está nos EUA! Enfim: uma nação onde Wall Street, os banqueiros, as mega-corporações, o setor bélico e os militares têm muito mais poder do que seria recomendável; um Estado policial, autoritário, fundamentalista, violento, embriagado de ganância, poluidor atmosférico que caga em cima de Protocolos de Kyoto, e assim por diante...
Infelizmente, pois, não sinto ânimo para recomeçar a construção da Biblioteca de Música que eu estava construindo aqui no Depredando, sabendo do imenso descaso e desdém que o FBI e os acionistas de Wall Street possuem pela idéia de Cultura Livre. O acesso gratuito e massivo a bens culturais que formam, informam e inspiram não interessa aos grandes poderes (podres poderes!), não interessa ao 1% no topo da pirâmide. O que eles querem é se manter no topo, com tudo o que isso implica de prosseguimento da concentração de capital e da "monopolização" do que Bordieu chamaria de "capital cultural". O capitalismo não tem interesse em que nos tornemos cultos e bem-informados: quer-nos consumidores burrinhos, hipnotizáveis por propagandas escrotas, que comprem feito sonâmbulos e que prossigam sustentando um sistema insustentável.
Mas o Depredando o Orelhão é um vietcongue aguerrido. Foi mutilado e estrupiado, mas não quer cometer blogcídio e confessar derrota. Tenho muito gosto por este blog, rebento do meu ventre grávido de vontades de falar sobre a música que me entusiasma. Nunca imaginei, ao criar essa bagaça, que ela um dia chegaria a mais de 275.000 visitas e quase 1 milhão de downloads. É sinal de que há muita gente que se interessa por conhecer novos sons, expandir horizontes culturais, ir além da papinha mastigadinha da grande mídia. Coloquei um bocado imensurável de tempo e dedicação nisso aqui, por mais de 4 anos, sem jamais ganhar um único tostão com isso. Não ganho grana às custas do trabalho de artistas ou de corporações e, pra mim, pirataria "de verdade" é aquela feita com fins lucrativos, o que não é o caso de nenhum dos excelentes blogs brasileiros da "nossa turma": Eu Ovo, Um Que Tenha ou Hominis Canidae, dentre muitos outros.
Tenho certeza que não é intenção de nenhum desses blogs, nem nunca foi do Depredando o Orelhão, prejudicar qualquer artista que seja: é a Indústria que demonstra muito mais desdém pelo valor "humano" da música do que qualquer desses blogueiros, muitos deles autênticos amantes da música, que desejam difundir e disseminar as criações que descobrem e, assim, contribuir para que os artistas se tornem mais conhecidos, mais apreciados, e que possam assim circular mais por aí, tocar mais ao vivo, estabelecer novas ligações e parcerias.
Já a Indústria é cega a todos os valores que não sejam os comerciais; pra ela, música não passa de mais uma mercadoria. Já os verdadeiros artistas, como eu entendo, desejam sobretudo que a música atinja outros seres humanos, que seja reproduzida o máximo possível por aí, que expresse algo de intenso, de comovedor, de belo ou de terrível que faça o público simpatizar, empatizar, se inflamar, cantar junto, dançar no ritmo... em suma: o artista quer contato genuíno com seres humanos que se abram à influência de sua obra.
Claro que todo artista precisa de seu ganha-pão e que aqueles que não têm contratos com grandes corporações (são maioria!) sofrem para viver de arte. Ora, me parece que a blogosfera existe como um "palco" privilegiado justamente para a difusão da arte independente, de tudo aquilo que não consegue atingir as grandes mídias tradicionais, que não toca no rádio nem passa na TV. Daqui pra frente, pois, a solução para o blog se manter vivo será investir cada vez na Independência. Por uma sociedade mais artística, mais lúdica, mais criativa, com uma circulação de idéias, criações e pessoas intensa e fecunda!
Se o Eixo nos rechaça e nos reprime, é mais um motivo para ir, cada vez mais, para fora do eixo. Incentivar os artistas locais. Divulgar a arte que nasce longe da indústria. Tentar fomentar cada vez mais estas redes que permitem ocorrências fantásticas como... 200 Gritos Rocks em 2012. Quem diria que um "agito" nascido em Cuiabá atingiria algo tão colossal! Mas também depende do público que frequenta os blogs tornar-se cada vez mais consciente dos malefícios do grande capital e dos abusos da Indústria do Entretenimento, e apoiar os inssurrectos, os que gritam "independência ou marte!", ou que saem do trilho, os que constroem alternativas.
Isto aqui, portanto, não é mais um "blog de MP3". Os coices que nos deram as ôtoridades em guerra contra nós, os "piratas", exigem que isto aqui passe por uma mutação. Não se assustem, pois, com as imprevisíveis modificações no conteúdo do blog. Serão experimentos de novos rumos. Como jornalista e filósofo, me interesso por um bocado de assuntos além de música e que, daqui pra frente, pretendo tratar em mais detalhes por aqui, com destaque para algumas "causas políticas" que eu me sinto cada vez mais serem urgentes e dignas de ativismo e luta - não só a libertação da Internet do jugo dos censores, mas muitas outras: libertação animal e vegetarianismo, aquecimento global e outras questões de sustentabilidade, fanatismo religioso e a preocupante sobrevivência de poderes pastorais, legalização da cannabis e políticas de drogas mais inteligentes, direitos civis de minorias, e por aí vai...
Tenho também uma pá de textos na gaveta, ainda sem publicação, que são os primeiros frutos das minhas pesquisas de mestrado. Há uns seis meses sou um mestrando em filosofia na UFG (Universidade Federal de Goiás) que têm se debruçado sobre as idéias de Nietzsche, Foucault, Huxley, Benjamin, Max Stirner, dentre outros. Melhor do que deixar mofando na gaveta, me parece, é postar os textões aqui, ainda que eu saiba que a paciência e a dedicação para ler textos mais longos e "exigentes" seja um tanto rara. Não estranhem, pois, com as "novas caras" que este blog vai experimentar, em "guinadas" em direções as mais diversas... mais à vanguarda, mais à esquerda, mais à míngua, mais com cara dum zinão punk, quiçá mais panfletário e mais politizado, mas espero que... mais indefinível do que nunca. Sugestões, conselhos, críticas e idéias serão sempre muito bem-vindas, em especial num momento desses, de crise identitária e tentativa de definição de novas vias, novas barricadas, novas guerrilhas.
Este vietcongue estropiado não confessa derrota e ainda quer sobreviver para pôr pulgas na cueca de Golias. A solução, por hora, é abandonar o MP3 e deixar os posts antigos como estão, uma espécie de ossário a céu aberto que lembre o visitante de tudo o que foi perdido, souvenir de uma biblioteca arruinada. Uma batalha foi perdida, mas não a guerra. Os anônimos são legião. E agora as guerrilhas são outras: na aldeia global, guerrilheiros de várias pátrias se unem em causas comuns, tentando se organizar contra o autoritarismo e os liberticidas num mundo em acelerada e constante mutação. Ferido mas longe de estar morto, este blog se arrasta para a Sierra Maestra!
Sigam antenados!
P.S.: as atualizações estão bem mais frequentes
lá no nosso Tumblr... confira!
A Internet é uma arma de distribuição em massa. Mas a elite econômica do planeta têm alergia e pavor diante do que representa esta "terrível" palavrinha: distribuição... O capitalismo sempre teve simpatias muito mais intensas por outra prática... a da concentração. Ainda que precise defender os privilégios dos que concentram capital através da... repressão e da destruição. Tudo aquilo que a Internet possui de mais revolucionário e mais libertário está hoje sob ameaça de perecer nas mãos homicidas dos que querem um mundo onde nada seja de graça, onde tudo seja pago e tudo tenha dono. Preferem reduzir a pó uma imensa biblioteca pública, com o pretexto de que ela não dá lucro aos que já possuim mais do que precisam, para instalar no lugar... um shopping center.
Em Auto-de-Fé, magistral romance de Elias Cannetti, há uma cena memorável em que o protagonista, Peter Kien, em meio aos 25.000 volumes de sua majestosa biblioteca particular, exalta-se num monólogo shakespeareano diante dos livros mudos nas estantes. Sua imaginação quixotesca o faz imaginar gigantes onde há tão somente moinhos-de-vento: cada obra, transfigurada por sua fantasia delirante, aparece-lhe como que dotada de "espírito", receptáculo pulsante de uma vida condensada em palavras. Cada um daqueles volumes, parecendo-lhe ter um coração pulsando entre suas letras e frases, é uma fonte onde ele tenta encontrar a sabedoria, o diálogo, a companhia. Relembrando catástrofes há muito esquecidas pelo comum dos mortais, Kien entoa para os guardiões da "sabedoria de séculos":
"Na história de um país ao qual todos nós devotamos igual veneração... houve um acontecimento horroroso, um crime de dimensões míticas, cometido contra vós [livros] por um poderoso demônio, por sugestão de um conselheiro muito mais diabólico ainda. No ano 213 a.C., por ordem do imperador chinês Shi-Hoang-Ti, usurpador brutal que ousou arrogar-se os títulos de 'o Primeiro, o Sublime, o Divino', foram queimados todos os livros existentes na China. Esse celerado, cruel e supersticioso, era por demais inculto para compreender a importância dos livros que continham argumentos contra o seu regime despótico." (Ed. Cosac & Naify, pg, 124)
A China, em 213 a.C., não foi o único palco na História para um "assassínio de centenas de milhares de livros", como sabemos: a Biblioteca de Alexandria, ao ser incendiada pelos cristãos, também arrastou para o pó um inestimável e precioso tesouro "para sempre consumido pelo fogo". Alguém conseguiu chegar ao fim de Ágora, o filmaço de Alejandro Amenábar, sem a sensação de ter o peito transpassado por uma lança? "O horror! O horror!" O trabalho de gerações, os frutos da reflexão de centenas de poetas e sábios, trucidado para sempre e conduzido à noite infinda do esquecimento total!
Também foram reduzidos à cinza, história humana afora, muitos livros "heréticos" de livres-pensadores da Idade Média (Giordano Bruno foi até assado vivo pela Inquisição Católica...), muitos livros "libertinos" de iluministas, "avançadinhos" demais no questionamento das autoridades políticas e religiosas, e demasiado "atrevidos" em suas exaltações da desrepressão sexual... Até bem perto de nós chega este fenômeno histórico, que tanto merecia já estar ultrapassado e aposentado: o Salman Rushdie, escritor indiano, depois de publicar seu romance Os Versículos Satânicos, foi condenado à morte pelo aiatolá xiita do Irã, fulminado por uma fatwa muçulmana, perseguido por uma teocracia e seu séquito de fanáticos!... E continuamos ouvindo muita lenga-lenga sobre o tal do "progresso"...
Farenheit 451, a distopia sci-fi de Ray Bradbury, não me parece tão longe de nós: não é inteiramente implausível que se instaure em algum canto deste planeta um Estado totalitário que teria uma espécie de "Esquadrão de Bombeiros" destinado a varrer da face da Terra a informação "perigosa" retida nas bibliotecas, livrarias, revistarias... Ou um "ministério" do governo que investigaria e dizimaria todos os porões e sótãos de indivíduos muito fissurados em "cultura alternativa", e portanto suspeitos... Novas fogueiras alimentadas com zines, poemas, reportagens, manifestos... Hecatombes de servidores e sites que, na nossa realidade "cibercultural", equivalem a pequenas Bibliotecas de Alexandria. Ai! Lá vêm os vândalos incultos com seus lança-chamas! E seguram suas armas com a empáfia de quem possui um distintivo do FBI - ou do BOPE...
O agente complicador, a pedra na engrenagem dos novos totalitarismos que tentam surgir, é que, na era da Internet, se por um lado os holocaustos não necessitam de lança-chamas (faz-se tudo com o dedão descendo sobre o delete...), por outro lado o DELETE deles não consegue barrar a profusão descontrolada e anárquica do nosso COPY.Eles matam o Napster, assassinam o Megaupload, apagam contas de Rapidshare e Mediafire, ameaçam-nos com SOPAS, PIPAS e ACTAS, perseguem e criminalizam "downloadadores", mas o intercâmbio de arquivos prossegue firme e forte, abrindo vias novas quando as vias outrora transitadas são "tesouradas" pelas otôridades.
Um dos aspectos mais fascinantes da Internet é que... tornou-se impossível DESLIGÁ-LA. Não existe a possibilidade de nenhum tirano neste planeta trazer abaixo a rede mundial de computadores: não existe um "PC central", uma espécie de "Headquarters da Net", que servisse como uma espécie de Casa Branca ou Pentágono, e que bastaria destruir com um míssel teleguiado para que a conexão global caísse. Não!
Como explicam tão bem os dois documentários Steal This Film, a natureza descentralizada da tecnologia internética torna virtualmente impossível a repressão absoluta sonhada pelos tiranos totalitários: a Internet não tem centro. Cada PC é um centro. Cada PC é um replicador. Cada PC é um potencial pirata. Para matar a pirataria, eles precisariam "cortar" todos os fios desta imensa teia. Mas jamais o permitiríamos. Uma rebelião global explodiria se o tentassem. "No pasaran!" McLuhan ensina: uma vez inventada, uma tecnologia não pode ser "des-inventada"; ela incorpora-se à "condição humana", vêm somar-se às "extensões do homem", gera uma necessária reconfiguração das mídias que a precederam. A Internet veio para ficar. Cabe a nós defendê-la contra os que querem reduzi-la ao poder do dinheiro e à lei do trabuco.
Talvez os historiadores do futuro, lá em 2.250 ou 2.400, irão olhar para trás e perceber com muito mais clareza do que nós, que estamos no centro do turbilhão, que a Primavera Árabe, por exemplo, não teria podido acontecer sem a Internet. As tais das "redes sociais" mostraram ser exatamente isso que o nome sugere: não algo meramente "fantasmagórico" e "virtual", mas uma força concreta de organização social. A mídia tradicional foi chutada para escanteio diante desta nova mídia que permite que nos comuniquemos e nos organizemos sem a necessidade de um intermediário estatal ou corporativo.
Cairo, Egito - Comemoração do triunfo da Revolução de 2011
A guerra à pirataria fica mais truculenta do que nunca, mais até do que na época do "bombardeio" yankee ao Napster, justamente agora que a Internet mostra sua força de revolução social e política. Não deve ser mera coincidência... Também não me parece ser por mera coincidência que os coletivos culturais que compõe o Circuito Fora do Eixo tenham aparecido só com a popularização da Internet: o FDE e sua imensa rede, sempre em expansão, que possibilitou estes 200 GRITOS em 2012, é também um filho da net, um fruto da cibercultura, um empreendimento gigantesco que mostra o potencial imenso das redes-em-rede.
Querem parar essa força a qualquer preço. Uma nova "caça às bruxas" se inicia, e os "vermelhos comedores de criancinha" agora são... os "piratas", diabólicos e imorais ladrões da obra de sublimes e mau-pagos artistas! Reza a ladainha deles que a indústria do entretenimento passa por maus bocados, que têm tido prejuízos por causa da orgia desse troca-troca virtual. Tadinhos!
Como todo mundo sabe muito bem, os CEOs da Sony e da Warner agora mendigam pelas ruas de Bangladesh, vestidos em andrajos, fedendo a cachaça, implorando uma esmola... Os artistas na folha-de-pagamento dos grandes estúdios de Hollywood ou das grandes gravadoras multinacionais, estes também, coitados, hoje correm o risco de morrer de inanição, de tão desnutridos e esqueléticos que ficaram por culpa... da pirataria na Internet. É...
Na real, a Indústria debulha-se em prantos, chora histericamente pelo leite derramado dos lucros, feito uma criancinha mimada que, acostumada a ganhar do paizão um presente de Natal de 1 bilhão de dólares todos os anos, fica dando faniquitos de playboyzinho frustrado diante da perspectiva de um presente... de "só" uns 500 milhões...
O capitalismo de modelo norte-americano, tão obcecado com especulação financeira e lucros provindos de juros, parece não enxergar mais um palmo diante do próprio nariz: não enxerga que a Internet não pode ser "possuída" no sentido "totalitário" que eles desejam, que não há possibilidade de controle do modo como eles gostariam, que há algo de profundamente anárquico em pleno desabrochar quando pessoas fazem brotar blogs, tumblrs, torrents... Cada vez mais as pessoas vão percebendo o potencial da Internet como uma tecnologia que, mais que qualquer outra já inventada pela humanidade, permite uma liberdade de expressão impensável não só nos totalitarismos do passado, mas também nas democracias de décadas atrás. É uma nova democracia que nasce junto com a Aldeia Global. Uma outra globalização possível, menos perversa que a globalização da Tirania do Capital.
Qualquer um de vocês, que está lendo isso agora, e qualquer um dos milhões que estão fazendo outras coisas na Internet neste instante, é um potencial criador de conteúdo. Feito um vasto coração de mãe, ou um salão de festas imenso, na Internet... sempre cabe mais um. Componha e grave uma canção e encontre na Internet um palco e uma platéia. Escreva um conto e um poema, e lance-os nos oceanos da rede, como outrora faziam aqueles que entregavam às águas de um rio uma mensagem numa garrafa, e tenha a convicção de que achará leitores. Crie um movimento social, uma "causa" para militância, uma revolta organizada, e com certeza a Internet te fará encontrar pessoas com afinidades às tuas, dispostas a entrar na tua luta, comprar tua briga, somar forças contigo.
A Internet é nossa. E cabe a nós transformar essa bagaça, de tão imenso potencial, em algo que nos faça avançar para além desta tirania-do-lucro que se traveste de democracia cristã e o caralho à quatro... Cada pessoa detrás de cada PC é um não só um potencial criador de conteúdo, contribuidor do grande projeto coletivo da construção de cultura, mas têm em mãos uma máquina de cópia e disseminação. Nunca antes na história da humanidade existiu a possibilidade de "condensar" em espaços minúsculos uma quantidade tão estonteante de informação. A Biblioteca de Alexandria, se fosse inteirinha convertida para zeros e uns, caberia num pen-drive. Em breve, será a coisa mais comum do mundo que as pessoas tenham em casa HDs de capacidade mensurável em terabytes. A minha HD externa, por exemplo, que apelidei de Funésia - A Memoriosa, em homenagem ao clássico conto do Borges, guarda em suas entranhas uma quantidade de filmes, séries e álbuns musicais que seria preciso umas 7 vidas para conhecer na íntegra.
Cada um de nós possui, tendo um PC conectado à Internet, a possibilidade de acesso a uma biblioteca multimídia que centenas de gerações, por milênios e milênios atrás de nós, não conheceram. A humanidade finalmente criou weapons of mass distribution - o que se esconde por trás de siglas como .mp3, .divx e .pdf é uma fantástica tecnologia que esqueceu de ser sonhada por H.G. Wells e que possibilita a compactação de gigantescos amontoados de informação em miudíssimos recantos do espaço físico. A distribuição em massa da produção cultural humana é essencial para que nos informemos, nos cultivemos, tomemos decisões mais conscientes e sejamos menos enganados pelas tramóias, lorotas e falcatruas de políticos, publicitários, padres, papas, programas de TV e outros tiranos e ideólogos.
O poder treme de pavor, é claro, diante de uma população bem-informada, ativa, organizada, que se expressa e se une, que combina passeatas por Twitter e discute revoluções no Facebook. Uma campanha, anos atrás, comparava a arte de baixar MP3 ao "download de comunismo". Nesse ponto, acho que acertaram na mosca: o que a Internet ajuda a criar, decerto, é uma mentalidade mais comunitária do que competitiva, em que a cultura é vista como patrimônio comum da humanidade e não como posse e privilégio de algumas empresas e alguns milionários. Cada PC é uma arma de distribuição em massa de informação, de cultura, de música, de cinema, de poesia, de filosofia, de arte, do que quer que seja. E "distribuição gratuita" é um termo que faz aqueles que se sentam no topo da pirâmide social temerosos, prontos prum xilique.
Afinal de contas, o capitalismo nunca gostou muito da idéia de distribuição equânime, justiça social ou acesso universal à educação e à cultura. Querem-nos consumidores submissos e incultos, manipuláveis por propagandas escrotas, sorrindo nos templos do consumo cego, "trampando em trabalhos que odiamos para comprar um monte de merda de que não precisamos" (como diz Tyler Durden). E é só a Internet mostrar seu potencial de transformação do sistema e sugestão de novas vias, que o capitalismo-em-crise (vejam o que virou a Grécia!), tendo que encarar o duro confronto com os Occupys Wall Street que pipocam e as revoluções árabes que triunfam, apela para o último expediente da impotência: a truculência autoritária. Que está, aliás, tão perto de nós: vejam o que o tucanato paulista vêm fazendo para lidar com a "dissidência", seja dentro do câmpus da USP ou lá em Pinheirinho.
É só a gente quer expandir o âmbito da distribuição, sugerir que este mundo precisa de uma distribuição mais igualitária de capital, de propriedade, de moradia, de acesso a bens culturais, que os CEOs e acionistas de Wall Street fazem cara feia e soltam seus cachorros. E alguns políticos escrotos, que são praticamente paus-mandados de multinacionais, que obedecem cegamente a quem pagar mais, dão seu aval aos concentradores de capital - os 1% que roubam os 99%. E são os 1% que pagam a polícia para protegê-los da classe que produziu a riqueza que eles roubaram. A propriedade que possuem os milionários, nem é preciso ser Proudhon pra saber, é de fato um roubo.
Mais de 30.000 crianças morrem de fome ou em virtude de doenças evitáveis TODO SANTO DIA por causa deste roubo. Isso para falar só das crianças. Isso sem mencionar os danos ecológicos ao ecossistema do planeta causados por um sistema que premia a ganância e que é gerido por ladrões que se locomovem em limusines blindadas. E é só alguém mencionar a imensa disparidade entre os que vivem na opulência e os que vivem na mendicância, e é só alguém alegar que seria preciso expropriar os exploradores e distribuir a riqueza, para que eles corram a chamem a Tropa de Choque, que avança com seu séquito de sprays de pimenta, bombas de gás lacrimogêneo, escudos e escopetas.
Neruda sabe, porém, que "poderão cortar todas as flores, mas não hão de deter a primavera!"
Nota Fúnebre: todos os mais de 800 discos outrora compartilhados aqui no blog foram DELETADOS pelo Mediafire, provavelmente por pressão do FBI nestes tempos pós-Megaupload. Eram mais de 54 gigabytes de música que foram gradativamente postos na roda durante os últimos 4 anos de trampo e que, duma hora pra outra, desintegraram.