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quinta-feira, 29 de março de 2012


“Os conservadores alegam que, sem o estímulo econômico da renda dos direitos autorais, os artistas não se sentiriam estimulados a produzirem novas obras, o que é uma falácia que pode ser facilmente rechaçada contrastando-a com a realidade social. A maioria dos músicos não recebe mais que 3% do valor pago em cada um de seus discos. Os 97% restantes servem para cobrir os custos de produção e distribuição do disco e, claro, para garantir os lucros das gravadoras. Em suma: o atravessador ganha muito mais direitos autorais que o próprio autor. 
Para um músico em início de carreira ganhar um salário mínimo por mês com direitos autorais, precisaria vender cerca de 540 discos a R$33 cada no período, algo bem distante da realidade da maioria. Duplas sertanejas precisariam do dobro disso e uma banda com 5 membros precisaria vender nada menos que 2.700 discos por mês para que cada membro ganhasse um salário mínimo. 
Claro que, se os músicos dependessem do estímulo econômico dos direitos autorais para produzirem, só teríamos músicos amadores. A principal fonte de remuneração dos músicos profissionais, no entanto, não é a renda dos direitos autorais, mas os cachês de seus shows. E aqui, paradoxalmente, a pirataria de CDs tem contribuído muito para aumentar a remuneração de novos talentos. Se, antes da internet, o músico dependia de um grande investimento da gravadora para se tornar conhecido e vender discos, hoje, a pirataria acaba cumprindo este papel de divulgação. Gente que não estaria disposta a pagar R$33 por um CD ouve a canção pirateada e acaba pagando pelo ingresso do show. Uma troca extremamente vantajosa para o músico que, com o aumento do público, pode aumentar o valor de seu cachê, mas péssima para a gravadora que lucra com a venda.”
[Túlio Vianna, professor de Direito Penal da Faculdade de Direito da UFMG.]  
Reproduzido da página no Facebook do Movimento Direito Pra Quem

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Weapons of Mass Distribution! (...) Um Manifesto


A Internet é uma arma de distribuição em massa. Mas a elite econômica do planeta têm alergia e pavor diante do que representa esta "terrível" palavrinha: distribuição... O capitalismo sempre teve simpatias muito mais intensas por outra prática... a da concentração. Ainda que precise defender os privilégios dos que concentram capital através da... repressão e da destruição. Tudo aquilo que a Internet possui de mais revolucionário e mais libertário está hoje sob ameaça de perecer nas mãos homicidas dos que querem um mundo onde nada seja de graça, onde tudo seja pago e tudo tenha dono. Preferem reduzir a pó uma imensa biblioteca pública, com o pretexto de que ela não dá lucro aos que já possuim mais do que precisam, para instalar no lugar... um shopping center. 

Em Auto-de-Fé, magistral romance de Elias Cannetti, há uma cena memorável em que o protagonista, Peter Kien, em meio aos 25.000 volumes de sua majestosa biblioteca particular, exalta-se num monólogo shakespeareano diante dos livros mudos nas estantes. Sua imaginação quixotesca o faz imaginar gigantes onde há tão somente moinhos-de-vento: cada obra, transfigurada por sua fantasia delirante, aparece-lhe como que dotada de "espírito", receptáculo pulsante de uma vida condensada em palavras. Cada um daqueles volumes, parecendo-lhe ter um coração pulsando entre suas letras e frases, é uma fonte onde ele tenta encontrar a sabedoria, o diálogo, a companhia. Relembrando catástrofes há muito esquecidas pelo comum dos mortais, Kien entoa para os guardiões da "sabedoria de séculos":

"Na história de um país ao qual todos nós devotamos igual veneração... houve um acontecimento horroroso, um crime de dimensões míticas, cometido contra vós [livros] por um poderoso demônio, por sugestão de um conselheiro muito mais diabólico ainda. No ano 213 a.C., por ordem do imperador chinês Shi-Hoang-Ti, usurpador brutal que ousou arrogar-se os títulos de 'o Primeiro, o Sublime, o Divino', foram queimados todos os livros existentes na China. Esse celerado, cruel e supersticioso, era por demais inculto para compreender a importância dos livros que continham argumentos contra o seu regime despótico." (Ed. Cosac & Naify, pg, 124)

A China, em 213 a.C., não foi o único palco na História para um "assassínio de centenas de milhares de livros", como sabemos: a Biblioteca de Alexandria, ao ser incendiada pelos cristãos, também arrastou para o pó um inestimável e precioso tesouro "para sempre consumido pelo fogo". Alguém conseguiu chegar ao fim de Ágora, o filmaço de Alejandro Amenábar, sem a sensação de ter o peito transpassado por uma lança? "O horror! O horror!" O trabalho de gerações, os frutos da reflexão de centenas de poetas e sábios, trucidado para sempre e conduzido à noite infinda do esquecimento total!

Também foram reduzidos à cinza, história humana afora, muitos livros "heréticos" de livres-pensadores da Idade Média (Giordano Bruno foi até assado vivo pela Inquisição Católica...), muitos livros "libertinos" de iluministas, "avançadinhos" demais no questionamento das autoridades políticas e religiosas, e demasiado "atrevidos" em suas exaltações da desrepressão sexual... Até bem perto de nós chega este fenômeno histórico, que tanto merecia já estar ultrapassado e aposentado: o Salman Rushdie, escritor indiano, depois de publicar seu romance Os Versículos Satânicos, foi condenado à morte pelo aiatolá xiita do Irã, fulminado por uma fatwa muçulmana, perseguido por uma teocracia e seu séquito de fanáticos!... E continuamos ouvindo muita lenga-lenga sobre o tal do "progresso"...

Farenheit 451, a distopia sci-fi de Ray Bradbury, não me parece tão longe de nós: não é inteiramente implausível que se instaure em algum canto deste planeta um Estado totalitário que teria uma espécie de "Esquadrão de Bombeiros" destinado a varrer da face da Terra a informação "perigosa" retida nas bibliotecas, livrarias, revistarias... Ou um "ministério" do governo que investigaria e dizimaria todos os porões e sótãos de indivíduos muito fissurados em "cultura alternativa", e portanto suspeitos... Novas fogueiras alimentadas com zines, poemas, reportagens, manifestos... Hecatombes de servidores e sites que, na nossa realidade "cibercultural", equivalem a pequenas Bibliotecas de Alexandria. Ai! Lá vêm os vândalos incultos com seus lança-chamas! E seguram suas armas com a empáfia de quem possui um distintivo do FBI - ou do BOPE...


O agente complicador, a pedra na engrenagem dos novos totalitarismos que tentam surgir, é que, na era da Internet, se por um lado os holocaustos não necessitam de lança-chamas (faz-se tudo com o dedão descendo sobre o delete...), por outro lado o DELETE deles não consegue barrar a profusão descontrolada e anárquica do nosso COPY. Eles matam o Napster, assassinam o Megaupload, apagam contas de Rapidshare e Mediafire, ameaçam-nos com SOPAS, PIPAS e ACTAS, perseguem e criminalizam "downloadadores", mas o intercâmbio de arquivos prossegue firme e forte, abrindo vias novas quando as vias outrora transitadas são "tesouradas" pelas otôridades.

Um dos aspectos mais fascinantes da Internet é que... tornou-se impossível DESLIGÁ-LA. Não existe a possibilidade de nenhum tirano neste planeta trazer abaixo a rede mundial de computadores: não existe um "PC central", uma espécie de "Headquarters da Net", que servisse como uma espécie de Casa Branca ou Pentágono, e que bastaria destruir com um míssel teleguiado para que a conexão global caísse. Não!

Como explicam tão bem os dois documentários Steal This Film, a natureza descentralizada da tecnologia internética torna virtualmente impossível a repressão absoluta sonhada pelos tiranos totalitários: a Internet não tem centro. Cada PC é um centro. Cada PC é um replicador. Cada PC é um potencial pirata. Para matar a pirataria, eles precisariam "cortar" todos os fios desta imensa teia. Mas jamais o permitiríamos. Uma rebelião global explodiria se o tentassem. "No pasaran!" McLuhan ensina: uma vez inventada, uma tecnologia não pode ser "des-inventada"; ela incorpora-se à "condição humana", vêm somar-se às "extensões do homem", gera uma necessária reconfiguração das mídias que a precederam. A Internet veio para ficar. Cabe a nós defendê-la contra os que querem reduzi-la ao poder do dinheiro e à lei do trabuco.

Talvez os historiadores do futuro, lá em 2.250 ou 2.400, irão olhar para trás e perceber com muito mais clareza do que nós, que estamos no centro do turbilhão, que a Primavera Árabe, por exemplo, não teria podido acontecer sem a Internet. As tais das "redes sociais" mostraram ser exatamente isso que o nome sugere: não algo meramente "fantasmagórico" e "virtual", mas uma força concreta de organização social. A mídia tradicional foi chutada para escanteio diante desta nova mídia que permite que nos comuniquemos e nos organizemos sem a necessidade de um intermediário estatal ou corporativo.

Cairo, Egito - Comemoração do triunfo da Revolução de 2011

A guerra à pirataria fica mais truculenta do que nunca, mais até do que na época do "bombardeio" yankee ao Napster, justamente agora que a Internet mostra sua força de revolução social e política. Não deve ser mera coincidência... Também não me parece ser por mera coincidência que os coletivos culturais que compõe o Circuito Fora do Eixo tenham aparecido só com a popularização da Internet: o FDE e sua imensa rede, sempre em expansão, que possibilitou estes 200 GRITOS em 2012, é também um filho da net, um fruto da cibercultura, um empreendimento gigantesco que mostra o potencial imenso das redes-em-rede.

Querem parar essa força a qualquer preço. Uma nova "caça às bruxas" se inicia, e os "vermelhos comedores de criancinha" agora são... os "piratas", diabólicos e imorais ladrões da obra de sublimes e mau-pagos artistas! Reza a ladainha deles que a indústria do entretenimento passa por maus bocados, que têm tido prejuízos por causa da orgia desse troca-troca virtual. Tadinhos!

Como todo mundo sabe muito bem, os CEOs da Sony e da Warner agora mendigam pelas ruas de Bangladesh, vestidos em andrajos, fedendo a cachaça, implorando uma esmola... Os artistas na folha-de-pagamento dos grandes estúdios de Hollywood ou das grandes gravadoras multinacionais, estes também, coitados, hoje correm o risco de morrer de inanição, de tão desnutridos e esqueléticos que ficaram por culpa... da pirataria na Internet. É...

Na real, a Indústria debulha-se em prantos, chora histericamente pelo leite derramado dos lucros, feito uma criancinha mimada que, acostumada a ganhar do paizão um presente de Natal de 1 bilhão de dólares todos os anos, fica dando faniquitos de playboyzinho frustrado diante da perspectiva de um presente... de "só" uns 500 milhões...

O capitalismo de modelo norte-americano, tão obcecado com especulação financeira e lucros provindos de juros, parece não enxergar mais um palmo diante do próprio nariz: não enxerga que a Internet não pode ser "possuída" no sentido "totalitário" que eles desejam, que não há possibilidade de controle do modo como eles gostariam, que há algo de profundamente anárquico em pleno desabrochar quando pessoas fazem brotar blogs, tumblrs, torrents... Cada vez mais as pessoas vão percebendo o potencial da Internet como uma tecnologia que, mais que qualquer outra já inventada pela humanidade, permite uma liberdade de expressão impensável não só nos totalitarismos do passado, mas também nas democracias de décadas atrás. É uma nova democracia que nasce junto com a Aldeia Global. Uma outra globalização possível, menos perversa que a globalização da Tirania do Capital.

Qualquer um de vocês, que está lendo isso agora, e qualquer um dos milhões que estão fazendo outras coisas na Internet neste instante, é um potencial criador de conteúdo. Feito um vasto coração de mãe, ou um salão de festas imenso, na Internet... sempre cabe mais um. Componha e grave uma canção e encontre na Internet um palco e uma platéia. Escreva um conto e um poema, e lance-os nos oceanos da rede, como outrora faziam aqueles que entregavam às águas de um rio uma mensagem numa garrafa, e tenha a convicção de que achará leitores. Crie um movimento social, uma "causa" para militância, uma revolta organizada, e com certeza a Internet te fará encontrar pessoas com afinidades às tuas, dispostas a entrar na tua luta, comprar tua briga, somar forças contigo.

A Internet é nossa. E cabe a nós transformar essa bagaça, de tão imenso potencial, em algo que nos faça avançar para além desta tirania-do-lucro que se traveste de democracia cristã e o caralho à quatro... Cada pessoa detrás de cada PC é um não só um potencial criador de conteúdo, contribuidor do grande projeto coletivo da construção de cultura, mas têm em mãos uma máquina de cópia e disseminação. Nunca antes na história da humanidade existiu a possibilidade de "condensar" em espaços minúsculos uma quantidade tão estonteante de informação. A Biblioteca de Alexandria, se fosse inteirinha convertida para zeros e uns, caberia num pen-drive. Em breve, será a coisa mais comum do mundo que as pessoas tenham em casa HDs de capacidade mensurável em terabytes. A minha HD externa, por exemplo, que apelidei de Funésia - A Memoriosa, em homenagem ao clássico conto do Borges, guarda em suas entranhas uma quantidade de filmes, séries e álbuns musicais que seria preciso umas 7 vidas para conhecer na íntegra.

Cada um de nós possui, tendo um PC conectado à Internet, a possibilidade de acesso a uma biblioteca multimídia que centenas de gerações, por milênios e milênios atrás de nós, não conheceram. A humanidade finalmente criou weapons of mass distribution - o que se esconde por trás de siglas como .mp3, .divx e .pdf é uma fantástica tecnologia que esqueceu de ser sonhada por H.G. Wells e que possibilita a compactação de gigantescos amontoados de informação em miudíssimos recantos do espaço físico. A distribuição em massa da produção cultural humana é essencial para que nos informemos, nos cultivemos, tomemos decisões mais conscientes e sejamos menos enganados pelas tramóias, lorotas e falcatruas de políticos, publicitários, padres, papas, programas de TV e outros tiranos e ideólogos.

O poder treme de pavor, é claro, diante de uma população bem-informada, ativa, organizada, que se expressa e se une, que combina passeatas por Twitter e discute revoluções no Facebook. Uma campanha, anos atrás, comparava a arte de baixar MP3 ao "download de comunismo". Nesse ponto, acho que acertaram na mosca: o que a Internet ajuda a criar, decerto, é uma mentalidade mais comunitária do que competitiva, em que a cultura é vista como patrimônio comum da humanidade e não como posse e privilégio de algumas empresas e alguns milionários. Cada PC é uma arma de distribuição em massa de informação, de cultura, de música, de cinema, de poesia, de filosofia, de arte, do que quer que seja. E "distribuição gratuita" é um termo que faz aqueles que se sentam no topo da pirâmide social temerosos, prontos prum xilique.


Afinal de contas, o capitalismo nunca gostou muito da idéia de distribuição equânime, justiça social ou acesso universal à educação e à cultura. Querem-nos consumidores submissos e incultos, manipuláveis por propagandas escrotas, sorrindo nos templos do consumo cego, "trampando em trabalhos que odiamos para comprar um monte de merda de que não precisamos" (como diz Tyler Durden). E é só a Internet mostrar seu potencial de transformação do sistema e sugestão de novas vias, que o capitalismo-em-crise (vejam o que virou a Grécia!), tendo que encarar o duro confronto com os Occupys Wall Street que pipocam e as revoluções árabes que triunfam, apela para o último expediente da impotência:  a truculência autoritária. Que está, aliás, tão perto de nós: vejam o que o tucanato paulista vêm fazendo para lidar com a "dissidência", seja dentro do câmpus da USP ou lá em Pinheirinho.

 É só a gente quer expandir o âmbito da distribuição, sugerir que este mundo precisa de uma distribuição mais igualitária de capital, de propriedade, de moradia, de acesso a bens culturais, que os CEOs e acionistas de Wall Street fazem cara feia e soltam seus cachorros. E alguns políticos escrotos, que são praticamente paus-mandados de multinacionais, que obedecem cegamente a quem pagar mais, dão seu aval aos concentradores de capital - os 1% que roubam os 99%. E são os 1% que pagam a polícia para protegê-los da classe que produziu a riqueza que eles roubaram. A propriedade que possuem os milionários, nem é preciso ser Proudhon pra saber, é de fato um roubo. 

Mais de 30.000 crianças morrem de fome ou em virtude de doenças evitáveis TODO SANTO DIA por causa deste roubo. Isso para falar só das crianças. Isso sem mencionar os danos ecológicos ao ecossistema do planeta causados por um sistema que premia a ganância e que é gerido por ladrões que se locomovem em limusines blindadas. E é só alguém mencionar a imensa disparidade entre os que vivem na opulência e os que vivem na mendicância, e é só alguém alegar que seria preciso expropriar os exploradores e distribuir a riqueza, para que eles corram a chamem a Tropa de Choque, que avança com seu séquito de sprays de pimenta, bombas de gás lacrimogêneo, escudos e escopetas.

Neruda sabe, porém, que "poderão cortar todas as flores, mas não hão de deter a primavera!"


Nota Fúnebre: todos os mais de 800 discos outrora compartilhados aqui no blog foram DELETADOS pelo Mediafire, provavelmente por pressão do FBI nestes tempos pós-Megaupload. Eram mais de 54 gigabytes de música que foram gradativamente postos na roda durante os últimos 4 anos de trampo e que, duma hora pra outra, desintegraram. 

"o de cima sobe e o de baixo desce"
(chico science)

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

"Eu Não Quero Sopa!" (sábia Mafaldita)

‎"Eles querem transformar a internet em um tubo de mão única, com eles em cima, empurrando o lixo para baixo através do tubo para o resto de nós, consumidores obedientes." - do manifesto do The Pirate Bay, via Diário da Liberdade

Muitas coisas me intrigam nestes recentes episódios que têm sacudido a Internet nos últimos tempos, com a intragável S.O.P.A. (Stop Online Piracy Act) que a toda-poderosa da Indústria do Entretenimento quer fazer descer por nossas goelas abaixo. A primeira das coisas "intrigantes" é: como é que pode uma proposta que ainda não havia sido aprovada pelo Congresso americano, e que tem boas chances de jamais ser, ser posta em prática pelo FBI?


Os tiras yankees usaram como pretexto a ladainha de que o Megaupload é uma empresa "criminosa" cujos satânicos idealizadores e trabalhadores lesaram em U$500 milhões de dólares o ofendidinho do conglomerado corporativo composto por Disney, Warner e o caralho-a-quatro. Quão intrigante é pensar sobre a gênese desse número, sobre os raciocínios que estão por trás desta péssima matemática saída dos cérebros distorcidos desses empresários gananciosos.

Façamos uma reflexão com um exemplo bastante concreto: Avatar, o mega blockbuster de James Cameron, maior bilheteria da história da sétima arte, rendeu nada menos que U$2,782,275,172 (no mundo todo) segundo dados do IMDB (Internet Movie Database).  É vero que esta super-produção da 20th Century Fox teve um dos custos de produção mais astronômicos já registrados em Hollywood: estima-se que Avatar tenha custado para fazer uns "meros" 300 milhões. Mas isso equivale a uma merreca, diz aí! Sim: uma baita duma merreca para um filme cujo lucro estrondoso beira os 2 BILHÕES E MEIO DE DÓLARES!

Agora imaginem os acionistas e CEOs da FOX, no alto de seus arranha-céus chiquérrimos na Califórnia, trocando sussurros conspiratórios dentro de seus Porches blindados e helicópteros, querendo aumentar ainda mais as margens de lucro para que possam dar aquele turbo naquela conta bancária meio "paradona" lá na Suíça... E aí partem para o seguinte raciocínio: há muita gente baixando Avatar de graça na Internet... esses malditos desses sites tipo Rapidshare, The Pirate Bay, Mediafire, Megaupload, tornam possível a aquisição gratuita de nosso produto! Ladrões! Criminosos! Vândalos! Comunistas! Lancemos sobre eles os bulldogs!

Como soltar os cachorros para cima destes sites sem antes "demonstrar" que há um ato criminoso cometido por eles? E assim prosseguem "raciocinando": "hmmm... vejamos... se 100.000 pessoas baixaram Avatar pelo Megaupload, isto significa que estes criminosos são culpados por 100.000 DVDs ou ingressos-de-cinema que deixamos de vender! 100.000 vezes 20 dólares... 2 milhões de prejú!" Ah, sim! Agora entendemos vossa sofística satânica, cara Fox e cia! O que vocês apelidam de prejuízo não passa de... um lucro presumido que não foi ganho! Situação bizarra: uma empresa que lucra 2 BILHÕES e MEIO com um único filme passa a perseguir aqueles que teoricamente a impedem de GANHAR MAIS e MAIS!


É a perversidade do capitalismo americano mostrando seus dentes sem disfarce. É uma ganância cega que não enxerga um palmo diante do nariz - feito a criança na capa de Nevermind, fisgada pelo dólar que um invisível pescador lhe agita na frente dos olhos. Eles agora querem atacar a própria estrutura da Internet, instaurar uma censura global dos conteúdos de que se julgam "donos", sempre com o mesmo batido argumento chatonildo: "lucros, lucros, lucros!" Como se isso fosse argumento e não um papaguear enjoativo duns babacas endinheirados, money junkies do caralho.

O que mais causa revolta e indignação neste ataque ao Megaupload é o seguinte: não é verdade que o conteúdo ali hospedado era essencialmente "posse" das mega-corporações globais. Num site tão rico em conteúdo diversificado, compartilham-se filmes independentes; mini-séries educativas; PDFs de poesia, filosofia, sociologia; documentários de ativismo político; música composta e gravada sem a mínima intrusão de mecanismos comerciais etc. O conteúdo alternativo ali hospedado era imenso - talvez maior até do que o conteúdo mainstream. Como mensurar o dano causado por esta DELETAÇÃO MASSIVA de dados?


(Uma conexão que não me parece inteiramente despropositada me ocorre entre este episódio e um outro, ocorrido muitíssimo tempo atrás (391 d.C.), quando a Biblioteca de Alexandria foi dizimada pelos cristãos. Sobre este assunto, aliás, vale muito a pena conferir o Ágora, o filmaço de Alejandro Amenábar, com Rachel Weisz arrasando!)

Ali nos servidores do Megaupload havia muito conteúdo digníssimo de ser conhecido, interpretado, estudado... havia a discografia do Fugazi e do The Clash, as palestras de Noam Chomsky e Slavoj Zizek, os documentários da Naomi Klein ou do Michael Moore, os livros de Marshall McLuhan e Terence McKenna... O Megaupload, abatido em pleno vôo, não causou o súbito colapso apenas de "toneladas" de conteúdo que a Indústria julga-se "possuidora"; também perdeu-se muito do conteúdo contra-cultural, subversivo, iconoclasta, questionador, rebelde, transformador, revolucionário que ali havia! Qual será a percentagem de conteúdo realmente copyrighted que fluía entre os servidores do Megaupload e seus usuários diariamente? E esta percentagem justifica o extermínio completo do serviço?

O FBI, é claro, não conhece essas "sutilezas": pensa e age com uma truculência de gente inculta que odeia a idéia de que as pessoas estão se informando, se cultivando, intercambiando idéias e criações artísticas sem a intermediação de empresas com fins lucrativos. Os dinossauros ficam apavorados com o mundo que a cibercultura está ajudando a parir: um mundo no qual, como a Primavera Árabe provou, as pessoas utilizarão a Internet para escaparem às cegueiras impostas pela mídia, para trocarem informações preciosas sobre os horrores cometidos pelos homens de poder, para se conscientizarem politicamente com um "cosmopolitismo" que só a Aldeia Global possibilita, ou mesmo para organizarem levantes, protestos, passeatas, revoluções... 

Tudo isso é um sinal preocupante de que o arrogante Império Americano, que cometeu os escândalos mais grotestos no Iraque e no Afeganistão nos últimos anos, que agora salta sobre o petróleo da Líbia, que tanto apóia Israel contra os palestinos, que tanto perseguiu a Revolução Cubana e tentou gorar os avanços sociais dos rebeldes da Sierra Maestra ("hoje 200 milhões de crianças dormirão nas ruas - nenhuma delas é cubana!"), que fecha o Megaupload mas não se importa se Guantánamo Bay e Abu Ghraib funcionam direitinho, que... enfim, que já está passando dos limites em seu imperialismo autoritário e sua Guerra Contra o Terror, sua Guerra Contra as Drogas, sua Guerra em Prol do Petróleo árabe, sua Guerra contra a Pirataria... Papagaios que só sabem falar em "guerra, guerra, guerra!", "dinheiro, dinheiro, dinheiro!"

Esta guerra, como não podia deixar de ser num país acostumado à ela, chega à Internet. É bom irmos nos acostumando, pois parece ter começado de vez a repressão autoritária dos ianques contra a Internet livre. O compartilhamento de filmes e músicas vai sofrer alguns dos abalos mais sérios de toda a história da Cibercultura, pelo jeito, caso uma grande onda de oposição popular não barre esses planos dos defensores do SOPA e do Protect IP. O Megaupload já foi pro saco, fechado pelo FBI, e é de se suspeitar que Rapidshare, Mediafire e sites similares sejam as próximas vítimas. Qual é o próximo passo: numa nova Inquisição, grandes fogueiras de Servidores "piratas" sendo reduzidos a cinza?!? É a volta do Farenheit 451 de Ray Bradbury - mas agora não são só os livros que eles pretendem incendiar, mas uma vastíssima biblioteca multimídia cujo acesso, segundo eles, só é permitido caso engordemos ainda mais as contas bancárias transbordantes das mega-corporações. Triste!




A minha preocupação é grande: os meus uploads somam 53.64 GIGABITES, num total de 789 arquivos, que já foram downloadados... 715.852 vezes. As autoridades, claro, não dão a mínima para a TRABALHEIRA que foi disponibilizar este conteúdo na Internet nestes últimos 4 ANOS, não tem consciência do trampo de CURADORIA envolvido nisso, e estão pouco se fodendo se estes atos de "Incineração da Pirataria" não atacam um direito fundamental de qualquer cidadão civilizado: o acesso à Cultura, no máximo da diversidade e do baixo custo possível. Se o Mediafire morrer... Depredando is wavin' bye bye. :-(