quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

:: envileço na cidade ::


:: 3 ANOS DE DEPREDAÇÃO! ::


"Don't hate the media. Become the media."
JELLO BIAFRA

Maomêno 3 anitos atrás nascia esta joça aqui. Nunca imaginei, na época em que dei à luz  o monstrengo e batizei-o com a primeira punkice adolescente que acorreu à mente, que  o danado ia crescer tanto --- a ponto de estar hoje com 200 seguidores (somando Blogger e Networked Blogs) e mais de 180.000 visitas. Me sinto, não nego, como um paizão orgulhoso, daqueles que gosta  muito de investir sua energia e seu suor em prol de sua criaturinha, ainda que não ganhe um tostão por isso. Mas todo bom hippie sabe que que os trabalhos não-remunerados têm altas possibilidades de serem os mais recompensadores de todos, existencialmente falando, e posso garantir que esse é o caso. O jornalismo à la Depredando é o jornalismo como eu gosto de fazer: sem patrão mala  me dando ordens, sem grandes corporações me querendo fazer de pau-mandado e pena de aluguel, e com o foco sempre  fixo no conselho certeiro de Jello Biafra, a lésbica mais esperta do punk: "Não odeie a mídia. Torne-se a mídia."

Fui nos outros 'nívers um pai meio desleixado, de não comprar presente ou fazer festinha pro rebento. Mas eis-me aqui, com a consciência um pouco culpada, vindo tacar um pouco de confete sobre o aniversariante Depredas. Afinal, ele já vai chegando na idade de largar a chupeta, as fraldas e a mamadeira de leite-com-uísque que o paizão aqui, à la Daniel Plainview, lhe providenciava todas as noites para que dormisse o sono dos justos...

Não sou muito chegado a discursinhos de festa de aniversário, mas hoje me sinto a fim de compartilhar com quem tiver saco de me ouvir um pouco da história e do significado deste treco aqui. Mas quem não estiver com saco pra papo quase-furado pode saltar ao fim deste post para devorar o bolo... =)

Esta brincadeira de moleque que era o Depredando o Orelhão não poderia ter nascido, claro, sem a revolução em nossos costumes musicais trazida pelo MP3 e pelos programinhas de comunismo cibernético como Napster, Audiogalaxy, E-mule e tantos outros, hoje reconhecidos como agentes de uma renovação no zeitgeist que faz a indústria fonográfica tremer nas bases e mijar nas calças feito um pirralho frente ao bully. As coisas jamais serão as mesmas.  

Muita gente graúda chiou e se enfezou (Metallica e Madonna  até deram-se as mãos [bizarra aliança...] para lutar contra a putaria-anarquista do MP3...), mas a oposição deu com os burros n'água. O MP3 veio pra ficar. E a indústria que se vire (ou que se foda): porque matá-lo não dá mais. O lance é que a disseminação massiva e incontrolável da música encodada em bits, que já faz alguns suspeitarem que o CD e a loja de discos estão fadados à obsolescência e que logo vão virar  itens de museu feito a fita K7 e o bolachão de vinil, fez com que pipocassem por toda a rede este fenômeno social que ainda carece de um rótulo melhor: os blogs de mp3.

A molecadinha de menos de 20 anos, da Geração "Born Digital", que já pegou o bonde do MP3 andando, tende a esquecer como era torturante a vida destes jurássicos seres da era pré-MP3. Mesmo na época  em que o CD nacional custava "só" uns 20 mangos e a Trama estava nos fazendo o favor de pôr no mercado muitas pepitas da Matador, por exemplo, o acesso a isso era bem restrito e possuir uma vasta coleção de discos era privilégio dos bufunfados.

 Foi este elitismo que o mp3 chutou pra escanteio, instaurando uma era de acesso muito mais democrático à produção musical da raça humana. A arte, afinal, é de todos, ou deveria ser; que ela permaneça acessível a uma elite de endinheirados deveria sempre ser motivo de revolta, e tudo aquilo que vira a mesa em prol do acesso global aos bens da cultura merece ser celebrado! É o que acho, mas sem entrar, por hoje, na espinhosa questão da pirataria, dos direitos autorais, e da discussão sobre o caráter criminoso ou não de blogs como este...


Durante a minha adolescência (+ ou - de 1995 a 2002) não me sobravam mais que uns 40 conto no fim do mês pra queimar em disco. A coleção avançava a passos de tartaruga. Com o ardor que donas-de-casa mão-de-vaca põe em comparar preços entre hipermercados, eu passeava pelas lojas de disco do ABC Paulista, tentando escolher, em meio a martirizantes crises de indecisão, entre o Black Crowes e o Pearl Jam, entre o AC/DC e o Jimi Hendrix... Cheguei  até às beiras de virar um adolescente esquelético como um somaliano de tanto ficar em jejum na hora do recreio. Enquanto outros devoravam suas coxinhas, eu me segurava na dieta que me permitiria, depois de muito passar fome, estar um passinho mais perto de completar a discografia do Nirvana ou do Led Zeppelin... Como tudo mudou!

Pois a era do mp3 pôs à disposição de qualquer reles mortal, desde que munido de banda larga e ímpetos exploratórios, uma imensa biblioteca sonora. Se a loja de discos periga ficar obsoleta e desaparecer da face da Terra, é pois a Internet transformou-se na mais utópica e deliciosa das lojas de discos: uma que tem quase tudo o que você procura e em que cada "produto" tem um custo que beira um maravilhoso zero. Quando comecei a descobrir os blogs de mp3, tive a impressão de ter descoberto um apetitoso novo universo para melômanos: eram como milhares de "lojas de disco" virtuais, em que brilhavam nas vitrines suculentos álbuns, a um mísero clique de distância, e melhor que tudo... tudigrátis! Até hoje, ainda que o costume acabe amainando o fascínio, me maravilho com as possibilidades abertas por esta tecnologia.

Um "causo" bem exemplar deste assombro tecnológico eu testemunhei estes dias em um dos meus passeios pela roça.  Eu estava num sítio em Lucianópolis,  cidadezinha digna de figurar no "Cidades Mortas" de Monteiro Lobato: roça braba do interior paulista, onde impera o marasmo e onde cada porrrta tem uns três Rs. Um senhor, que passou a vida no campo e parecia não ter o mínimo traquejo com as parafernálias da era da informática, manifestava o mais radical ceticismo diante da aparente lorota de que um aparelinho celular, que cabia no bolso, podia conter mais de 10.000 músicas. Parecia conversa de pescador. E o incrédulo só foi convencido da veracidade do que tinha tomado por conversa fiada ao ouvir, por cerca de 5 horas na sequência, crááássicos do cancioneiro sertanejo que não se repetiam nem que a vaca tussisse... Assombro: hoje em dia, uma HDzinha das mais furrecas é capaz de guardar o conteúdo de mega-stores inteiras. Em breve, um mísero pen-drive, que cabe no bolso junto do bocket-book e do chaveiro, poderá conter mais músicas do que todos os CDs  à venda em um gigantesco shopping center.


Que a indústria fonográfica se esfacele totalmente diante desta realidade acho até possível, mas improvável. O mais plausível é que a indústria se adapte à nova realidade, ao invés de se debater numa longa agonia de morte. Pois o capitalismo pode ser muita coisa --- perverso, injusto, maquiavélico... --- mas não é burro. E não devemos subestimar, como ensina o Slavoj Zizek, sua imensa plasticidade, ou seja, tudo aquilo que o "Sistema" é capaz de modificar em si mesmo para se adaptar a um ambiente cambiante e sobreviver nele...

E, quer saber? Quando a RIAA, que reúne as serpentes da Indústria Fonográfica Agonizante e seus Web Sherrifs escrotos, diz que "baixar MP3 é fazer download do comunismo", eu digo... ótimo! Continuemos, pois, levando adiante a bandeira do comunitarismo cibernético extremo, se isso ajuda a minar um pouco das fundações da indústria cultural cega pela ganância e obriga um nova cultura e uma nova consciência a emergir!

Sou destes que se assombra com a imensidão da mudança que isto está instaurando, não só na indústria mas em nossa percepção musical coletiva. Mas também nem tudo são rosas, sei bem. Um dos efeitos não tão bacanas desta revolução tecnológica, me parece, é que a imensidão dos itens no cardápio nos faz como desnorteadas crianças na loja de doces, que vão tirando lasquinhas de mil bolos e brigadeiros, quase nunca saboreando por inteiro e com vagar um deles. Querendo provar de tudo, provamos com uma pressa descuidada. Misturando farrapos de canções em nossa consciência, bem ao gosto pós-moderno, perigamos sofrer tanto de indigestão quanto de conhecimento superficial de tudo o que degustamos.

Eu mesmo sofro deste mal: baixo uma pá de discografias que ficam pegando pó no fundo de alguma gaveta do hard-disk, dou uma "ouvidinha" rápida em muita coisa que baixo, logo relegando ao ostracismo, enquanto só aumenta o desnorteio em relação à variedade imensa da informação disponível... Me tornei um ouvinte que conhece em mais quantidade, mas cuja escuta perdeu em qualidade. Muitas vezes, cometo com a música o crime que outros cometem com a literatura: a leitura dinâmica. Outras, julgo um álbum por algumas de suas faixas, uma injustiça infame: pois julgar parte pelo todo é justamente o que um crítico musical precisa se resguardar para não fazer!

Mesmo sob o risco de soar como um infame tiozão nostálgico, rememoro que, antes do Napster e seus sucessores surgirem para fazer todo o estrago que fizeram, minha relação com os álbuns era, necessariamente, mais demorada. Já que era mais complicado e custo$o comprar um CD do que é hoje baixá-lo em MP3 (quê tormentos de economia, que mão-de-vaquice cotidiana e que jejuns no recreio não eram necessários!), o apego sentimental acabava sendo maior. Cada nova adição à coleção era comemorada tanto quanto ganhar um novo amigo; e com cada um deles eu embarcava num longo relacionamento que, por vezes, reduzia o coitado à ficar arruinado de tantos riscos (o equivalente do "ouvir o vinil até furar" de nossos pais). Foi assim com Superunkown, Facelift, Back In Black, Electric Ladyland ou Dust, alguns dos meus companheiros mais recorrentes de aparelho de som.

Uma das principais funções de um blog como este, acho eu, é tentar "filtrar" toda a informação existente na net --- que existe numa quantidade tão monstruosa que um input de 5% dela seria o suficiente para fritar qualquer cérebro e gerar uma overdose mental letal... É um pouco a tarefa de separar o joio do trigo nesta colossal padoca cibernética. Pôr o senso crítico para funcionar e indicar aquilo que se julga digno de atenção e o que deve ser relegado ao status de besteirol. E sabemos bem que a Web têm doses de bullshit ainda mais cavalares do que a Televisão, até mesmo em virtude da extrema democratização da expressão: qualquer um pode ser um criador de conteúdo na internet ao criar um blog, um twitter, um facebook; ninguém precisa passar num teste de Q.I. ou descolar um alvará do governo federal para abrir a boca na Web (tais medidas totalitárias, aliás, seriam a ruína da Utopia Digital...).

Este blog nasceu com uma proposta modesta: ser o equivalente cibernético daquela  arte hoje um tanto esquecida, a do escambo de discos entre camaradas. "Cara, descobri um álbum foda, ouve isso aqui!"  Eis o impulso primário que fez nascer o Depredando o Orelhão: o desejo de compartilhar com os trutas no grande oceano blogosférico tudo aquilo que me maravilhado os ouvidos e injeta sangue novo nas veias... Com o tempo, claro, o jornalismo se misturou ao hobby, a paixão por escrever e pensar sobre música se mesclou com a vontade de disseminar bons discos, e o resultado é este rebento aqui, que já atravessou três camaleônicos anos e que pretende seguir adiante, enquanto durar a energia e o tesão.

E agora em novo domicílio: o Depredas, que nasceu em Sampa, agora é um goiano de coração, e contente de poder dar uma forcinha a mais para a constante efervescência não só da cultura independente em Goiânia, a Seattle brasileira deste começo de século, mas de tudo o está se produzindo na música brasileira atual - que, sem dúvida, tem tudo para estar entrando na melhor década de sua história. Nisto aposto, creio e trabalho!



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p.s.: Um "valeu!" especial pra "gangue" de contribuidores que, nestes três anos, ajudaram a manter a parada atulizada: Ana Alice, Bernie, Marco, Fran, Fabrício, Diogo, Alexandre, Mininão, Fred e Marcos. Portas sempre abertas para novas contribuições, galera!

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p.s. 2: E pra não dizerem que o festório num teve comes-e-bebes, largo aí 3 belos discos hedonistas, bons para tocar numa noite de farra: o Monkeywrench, garageira firmeza chefiada pelo Mark Arm do Mudhoney; Delta 72, mais uma garageira, mas com acentos soul e R&B, uma espécie de Afghan Whigs alto-astral; e o sempre sensacional Sly & The Family Stone, funk de primeiríssima...

Curtam ae!

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5 comentários:

Fabricio C. Boppré disse...

Parabéns e muitos anos de vida!

Eduardo Carli de Moraes disse...

Valeeeu, Fabrício!

O sonho é viver pelo menos 1/3 dos anos que durou o Sid Vicious... =)

NADIE disse...

Congratulations!!!! 3 years its a great number... keep goin on!... From Mexico I would like to say
Congratulations!! again!.

i would like to invite you to hear our music. You may like. And if you want to share it, thats great.

Durban
http://www.megaupload.com/?d=QYZOE5K2


Good Vibrations!! and Happy anniversary.

Anônimo disse...

Parabéns! (meio atrasado)

Acompanho esse blog há um tempo mas confesso que não lembro quando o encontrei nem como...

Mas espero que ele persista, conheci muita coisa massa por aqui.


Parabéns!

marco disse...

sucesso!!!