segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

"Eu Sou Parte de Nós" (Diego de Moraes & o Sindicato)


#1

DIEGO E O SINDICATO
Parte de Nós



A normalidade... de ponta-cabeça.
Está mais do que na hora de dar um pé-na-bunda do "complexo de vira-lata", termo que Nelson Rodrigues cunhou para se referir ao complexo de inferioridade brasileiro, este "narciso às avessas que cospe na própria imagem"

"Coitado de quem pensa que me faço de coitado!", garante Diego de Moraes em "Sobrevivo", negando-se a baixar a cabeça só por ser brasileiro --- no caso, um "cuiabano de Goiás" (e muito mais).

Com a cabeça muito erguida e o canto muito solto, o cantor e compositor estréia em álbum com um grau de auto-confiança, versatilidade e transbordante criatividade que não encontrei em nenhum outro canto do mundo neste 2010. Por essas e outras, Parte De Nós, debut do Diego e o Sindicato, me parece ser um sopro de vida que o Terceiro Mundo Festivo, para usar o termo do Wado, lança sobre a cultura de hoje, tão marcada lá fora pelas melancolias desanimadoras de Radiohead e Arcade Fire.

Se esta é a nova cara da música brasileira, fico muito feliz pelo presente (e pelo futuro) da música brasileira. Pois o rosto que vejo é risonho, criativo, ousado. É como que um redespertar do espírito lúdico que um dia deu o tom na vanguarda da música brasileira com o tropicalismo,  Raul Seixas, Tom Zé, Os Mutantes, Rita Lee e Arnaldo Baptista ("o lóki surreal")...

Mas “neo-tropicalismo” não cola, como rótulo, pelo menos pra mim: soa redutor para um artista que, apesar da influência da Tropicália, também gosta de Raul Seixas e dos Stooges, de música sertaneja de raiz e dos ruídos rock'n'roll de Goiânia Rock City. Outros dos compositores em quem Diego se inspira são "marginais" da MPB: Sérgio Sampaio, Itamar Assumpção, Luiz Tatit, artistas em que o jogo lúdico com palavras e sons dá o tom. É nesta senda que Diego se aventura, quase sempre com resultados muito positivos. 

O álbum, concebido como um livro ou um álbum de fotografias (alegre às vezes como um Monteiro Lobato), e dotado de um dos mais belos encartes que já vi (ilustras de Thiago Xavier), é um carrossel poético de um cara atravessando tudo sem jamais “se estrupicar”: “sem medo de falar e errar, sem medo de andar e tropeçar” (“Quase Nada”).

Diego de Moraes não é exatamente um sujeito normal. Em primeiro lugar, pois o grau de inventividade e amor-pelo-ofício necessários para levar 3 bandas simultâneas encontra-se em poucos cantores-compositores brasileiros. Além do Sindicato, Diego dedica-se ao tropicalismo experimental do Pó de Ser e à dupla indie-sertaneja Waldi e Rédson (onde faz par com o Chelo do Porcas Borboletas). Como se não bastasse, ainda tem ânimo para escrever uma coluna semanal no Diário da Manhã, dar aulas no ensino médio em sua cidade (Senador Canedo-GO), fazer Mestrado em História e deixar sua marca na blogosfera em seu diegodemoraes.blogspot.com.


O leque de referências contidas no álbum é vasto: de Stooges a Chacrinha, de John Lennon a Tonico e Tinoco, de Nietzsche a Jesus. "Pelas Barbas do Profeta", que conclama o ouvinte a "acordar agora pois o tempo está indo embora", mapeia um pouco da constelação que influi sobre a arte de Diego. Nela, ele cita os olhos de Chico Buarque, as veias de Jimi Hendrix, os traços de Robert Crumb, os versos de Camões e o Grande Sertão: Veredas... Diego saúda ainda “quem quer que fume”, e o verso tem muito mais aroma de cannabis que de tabaco, ainda que a referência seja bem mais sutil do que os escancarados maconheirismos de D2 e Cia. O ecletismo desta miscelânea pop-cult demonstra a versatilidade da formação cultural de Diego e o quanto ele é capaz de aprender de várias fontes. O resultado é um álbum de alguém bem mais sábio do que seus vinte e poucos anos sugerem.

O moog do Astronauta Pinguim deslancha o álbum em ritmo de new-wave, algo entre Blondie e Elvis Costello. Diego começa sua viagem poética sublinhando a inerente irracionalidade do coração: "Eu queria pensar em quem me quer / Querer quem pensa em mim". Seria o mais racional. Mas, como um dia perguntou Renato Russo, "quem um dia irá dizer que existe razão nas coisas feitas pelo coração?" Diego assina em baixo e termina por problematizar a noção aristotélica de que o homem seria um ser racional. "Sou só um homem: um animal irracional".

"Amigo" já declara em seu título suas intenções benévolas. É uma música que chega estendendo a mão com simpatia, aberta à amizade, mas que sabe que a verdadeira amizade não se dá entre seres idênticos, mas entre criaturas capazes de se amar na diferença. "Amigo, eu sempre tento ser um pouco diferente", já sai dizendo Diego, como quem confessa um traço de caráter: um desejo de não ser um clichê ambulante conjugado a uma certa antipatia pela diferença extrema, aquela que isola e desamiga. "Só um pouquinho diferente já me é suficiente".

Quando Diego entoa "eu me sinto tão igual / Um sujeito tão normal / Não sou nada genial", não é no tom reclamão ou ranzinza de quem se deprimisse com isso. O disco celebra a capacidade do afeto ultrapassar as pontes erguidas pela diferença, pelo preconceito, pela rotulação. A alegria de que, ainda que sejamos diferentes uns dos outros, cada um possa se tornar não um eu-ilhado, mas uma parte-de-nós. Ponha Tom Zé e John Donne no liquidificador, e eis "Amigo": um semi-hino neo-tropicalista que já transcendeu as fronteiras do Brasil e andou sendo citado até na Inglaterra pelo jornal Guardian UK como representante notável da nova MPB.

"Anormalidade" volta a pôr em lúdica questão um dos eixos temáticos principais do álbum, a oposição normal/anormal, sadio/patológico. Diego está a todo momento querendo borrar os limites desta dicotomia e mostrar o quanto de loucura cavalar há em nossa normalidade, e o quanto de sopro de vida sadio há no que chamam de loucura. Na colorida jornada de "busca de si" narrada pelo álbum, a identidade pessoal nunca é idêntica à persona social que cada um assume, às vezes por pura "normopatia" (termo de Gaiarsa para descrever aqueles obcecados com as normas, obedecedores neuróticos dos clichês).


Os esparsos comentários sobre religião em Parte de Nós também são reveladores de uma atitude questionadora e brincalhona, heterodoxa e tolerante, de quem demole dogmas e clichês com a malandragem marota e desencanada típica do brasileiro. "Todo Dia" rascunha ironias pra cima daqueles que "todo dia carregam sua cruz e rezam pra Jesus". Em "Quase Nada", Diego faz uma crônica paródica de uma reza popular: "eu rezo pro meu padim Ciço e pra Nossa Senhora do Perpétuo Socorro pra abençoar esse povo trabaiadô do meu sertão, obrigado meu Jesus!". Em um dos poucos momentos que torna-se mais sentencioso do que lúdico, Diego arrisca uma tese teológica que não é sem ligação com aquela de Lennon ("God is a concept by which we measure our pain"):

"Você olha pro céu tentando achar aquilo que já está em você
Vamos vivendo à prestação: esperar o céu e viver no chão"


Laerte
Mas é em "Deus Seja Louvado", épico de 6 minutos que nada tem de um gospel tradiça, que Diego sintetiza seu irônico e complexo comentário religioso num idiossincrático papo musicado com a divindade. O ouvinte desavisado que pensa encontrar nesta canção uma louvação ao Bom Velhinho lá nas nuvens irá logo ser desiludido pelo sarcasmo benigno de Diego.

Este deus ele utiliza sem nenhuma fidelidade bíblica, prestando tributo mais às tirinhas do Laerte do que aos Evangelhos. É um deusinho fia-da-puta, capaz de, quando andando detrás da gente, nos dar um empurrão. Deusinho que está lá, como exortação à prece, na “nota de um real”, a cédula com que sonham os mendigos. Deusinho que os cachaceiros invocam nos botecos quando ficam sem um trocado e querem que chova dos céus a "pinga com limão (aleluia irmão!)"

Escancarando que os pedidos que os humanos dirigem aos céus são sempre impregnados de desejos mundanos, Diego faz uma mosaico de preces tão autênticas quanto cômicas. Põe lado a lado preces mais tradicionais (sobre libertar da culpa, tirar do fundo do poço, cicatrizar feridas, dar coragem para continuar neste "mundo imundo"...), com desejinhos bem mais simples: pão, mussarela e presunto.

A ironia fina (e pesada) perpassa os comentários sobre os pastores evangélicos pilantras ("vou virar pastor para faturar a próxima eleição", alfineta Diego), sobre a polêmica evolucionismo vs. criacionismo ("tantos séculos de evolução para acabar nesta situação...") ou a floresta de pensadores que se contradizem ("Marx, Buda, Nietzsche, Cristo, Freud, Alá, Sartre ou Tupã?"). Em suma, fica-se com a agradável impressão de que nenhuma ortodoxia ou crença é pregada pelo poeta, mas que ele é capaz de tirar aprendizado e alegria tanto da "mente do descrente" quanto do "amai-vos uns aos outros" dos Evangelhos.

Outra das obras-prima de Parte de Nós é "Todo Dia", canção também épica que tem pelo menos uma irmã ilustre na história da MPB: “Cotidiano”, de Chico Buarque (já regravada num remix electro-tropicalista por Seu Jorge), que também faz a crônica chacotística da vida perdida nas chaturas da monotonia.

“Todo dia ela faz tudo sempre igual
Me sacode às seis horas da manhã
Me sorri um sorriso pontual
E me beija com a boca de hortelã

Todo dia ela diz que é pr'eu me cuidar
E essas coisas que diz toda mulher.
Diz que está me esperando pr'o jantar
E me beija com a boca de café.”


Diego, porém, mostra-se mais impaciente e furioso do que Chico e ergue a voz em protesto contra a "monotonia, burocracia, desarmonia, correria" (que agonia!) de "todo dia". Todo dia é a mesma novela, a mesma fila, a mesma espera, a mesma cruz. Todo dia, "espremido no buzão"; e todo dia, "arroz com feijão". Esta repetitititividade irritante é o que a canção radiografa, mais uma vez pondo em questão a sanidade do que tomamos por normalidade mas não passa de tique, neura, compulsão à repetição...


É o mesmo espírito de Monteiro Lobato em Cidades Mortas, clássico livro a tirar um fino sarro dos "mesmeiros", aqueles que "todos os dias fazem as mesmas coisas, dormem o mesmo sono, sonham os mesmos sonhos, comem as mesmas comidas, comentam os mesmos assuntos, esperam o mesmo correio, gabam a passada prosperidade, lamuriam do presente e pitam - pitam longos cigarrões de palha, matadores do tempo..." (in: Cidades Mortas, p. 26, Ed. Brasiliense).

“Todo dia eu posso morrer. Todo dia você foge de você.” Diego canta sobre a consciência da certeza inelutável da morte e da fuga do auto-conhecimento com uma simplicidade, uma serenidade e um senso de humor altamente vivificantes! Diego traz a boa nova: a de que é possível cantar um “tudo bem, tudo bem, tudo além do bem e do mal...”. Quase como um nietzschiano dos sertões de Goiás, inconsciente talvez dos pressuspostos filosóficos que correm, como rios secretos, por detrás da correnteza de suas letras...

Não há dúvida que grande parte do charme do álbum está na descoberta quase inevitável que quase todo ouvinte atento fará: a de que está diante de um novo poeta. É a palavra que se impõe quase imediatamente quando penso em Diego de Moraes: poeta. Ele tem a vantagem prévia, que não é pouca, de ter o mesmo sobrenome de Vinícius. Não é negligenciável, especialmente junto ao público mais velho, fã de bossa nova e saudoso de Toquinhos e Toms. Só que Diego é bem pouco bossa-novístico. Seu tom-zézismo desencanado, sua sadia incapacidade de se levar muito a sério, o preservam da pretensão excessiva, da gravidade empolada. Diego, por exemplo, tem a manha de rimar "Romeu & Julieta" com "punheta" (!).

A arte e a brincadeira são parentes próximas, parece sugerir o artigo primeiro da Estética Dieguiana. Não é à toa que as mães costumam censurar as peraltices de seus filhos chamando-os de “arteiros”. Para Diego, a arte tem que ser cheia de piscares de olhos, zuadinhas marotas e chutes na bunda. A música do Sindicato (ótima banda, também!) é tão livre e solta que é como uma ventania fresca que derruba das árvores as folhas secas dos dogmas. Não há espaço algum para autoritarismo, aqui: tudo no álbum remete à criação alegre de uma brincadeira fecunda.

Álbum simpático e amigo, criativo e alegre, poético e lúdico, colorido e complexo, que há de ensinar ao ouvinte a maravilha da diferença, da amizade e da arte de, ao invés de se conjugar na primeira do singular, saber que "eu" não passa de "parte de nós".

DIEGO E O SINDICATO Parte De Nós (Fósforo Cultural, 2010)
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6 comentários:

ksnirbaks disse...

Lindo texto!

edu disse...

Valeu! :)

danislau disse...

muito legal a leitura desse disco-discaço do diego e sindicato. coisa rara, texto assim. incisivo, preciso, fluente. rabenz pra todo mundo.

Diego de Moraes disse...
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Diego de Moraes disse...

CARACA, Eduardo!
Como é que não me emociono com um texto bonito desses?
É gratificante receber uma surpresa dessas,
no fim de um dia cansativo, de trampo.
Nem sei se mereço essa "análise" toda. rsrs
...Fiquei muito feliz... seu texto é
um "troféu" que vou guardar com carinho,
um presente inesperado, pois:
não faço música pra ficar guardada na gaveta,
mas, pra isso mesmo... pra que pensemos juntos!
"OUVIDOS UNI-VOS" (Luiz Tatit).
Se tô criando uma coisa aberta, pras pessoas recriarem, interpretarem, sentirem, viajarem junto comigo... então tá tudo certo!
Quero um ouvinte-criador, intérprete, que veja nos detalhes coisas que não vi/ que entre nas frestas, nas lacunas e me ajude a montar esse quebra-cabeça todo, ligar as pontas (como você fez com os links),
que se perca no labirinto junto comigo, junto com a gente...
que construa uma visão sobre
para que um simples cd possa ser uma "parte de nós"!
Embora (eu e você) tenhamos um sobrenome em comum,
não te conheço pessoalmente ainda, mas, pode ter certeza que
você me fez repensar sobre mim, sobretudo, sobre nós.
Como o Danislau (o herói hesitante) disse lá nos comentários:
"raro!"
Obrigado, cara!

Anônimo disse...

Deus, vida longa ao depredando.
Por favor.

Belo disco!!