A revolução não vai passar na televisão. Nem virá com intervalos comerciais e replays. A revolução, irmão, vai ser ao vivo.
Com estas palavras, declamadas no maior pique, Gil Scott-Heron marcou época com o hino de protesto setentista "The Revolution Will Not Be Televised", perfeita síntese de sua carreira e que demonstra bem sua importância histórica. Ele foi um
MC antes de existir o rap; foi Malcolm X cantando um soul; foi o poeta da Revolução Negra no pós-Woodstock; e foi a encarnação do espírito Hip Hop, antes deste existir.
Gil é do Tennessee, terra do
blues. Seu leitinho na mamadeira, aposto, foi turbinado com litros de B. B. King, John Lee Hooker, Lightnin' Hopkins e
bourbon. Já crescido, mudou-se para New York. Mas não aquela dos cartões-postais ou dos filmes de Woody Allen. Aquela dos guetos e becos flagrados pela lente de
Spike Lee, onde porto-riquenhos, dealers, cafetões, putas, tiras corruptos e brancos cuzões se bicam num cenário urbano caótico e tenso.
E

ra o fim dos anos 1960 e o
Black Power não era somente um penteado afro classudo, mas todo um efervescente movimento social. Impulsionados pelo exemplo de
Malcolm X e Martin Luther King, os negros americanos "se organizavam para desorganizar". Em protesto contra a segregação racial, o preconceito, o fascismo, o imperialismo, Nixon, a Guerra do Vietnã e outras pragas sociais, inventavam um novo som e uma nova poesia adequadas aos combates dos tempos.
Pouco tempo antes de Scott-Heron "decolar" com o lançamento de seus primeiros álbuns --- o spoken word
"Small Talk at 125th and Lennox" e o soul-funk
"Pieces of a Man" --- Jimi
Hendrix havia blasfemado lindamente contra o Hino Nacional Americano em frente a 500 mil almas embasbacadas em Woodstock. Enfiando distorsão e discórdia no discurso oficial. Pintando de negro, ou afundando na psicodelia, a "Star Spangled Banner".
Gil Scott-Heron, junto com seu truta
Brian Jackson, gravaram um punhado de discos brilhantes anos 70 e 80 afora. Ao mesmo tempo louvando seus heróis culturais do passado (John
Coltrane, Aretha Franklin, Isaac Hayes, Billie Holliday, Al Green...) e com pés fincados nas problemáticas sócio-políticas da era (em que a "canção de protesto" tinha voltado aos holofotes pelos esforços de
Bob Dylan nos anos 60 e a Geração Folk que seguiu seus passos), fizeram pérolas das mais preciosas daquilo que hoje chamamos
black music.

Se a obra deste negobão é tão desconhecida entre nós, isto se deve um pouco à estupidez da "Indústria Cultural", que não se dava muito bem com o radicalismo ideológico e a riqueza sônica da arte de Scott-Heron. No meio dos anos 70, a black music de conteúdo político-crítico-lúdico-provocativo (que tinha ainda seus paladinos no
Funkadelic e no Sly & The Family Stone) viu-se lançada nas sombras pela explosão da
discow. "Gil viu sua carreira ser progressivamente eclipsada com a aproximação e a passagem dos anos 80, época em que a
caretice yuppie grassou e desgraçou a cultura pop", escreve o Alex Antunes.
Como o próprio Gil Scott-Heron diz, a galerinha da discow perdeu completamente a noção de que havia uma distinção entre a ferramenta e o objetivo --- "the tool and the goal", como ele diz. A "black music",
cooptada pelas grandes gravadoras, cessou de ser uma
tool nas mãos de artistas-ativistas lutando pelo
goal da transformação social e comportamental, para se tornar hedonismo vazio e consumista. A balada foi sendo despolitizada e foi virando cada vez mais uma curtição frívola e sem consequências, quase um mecanismo de fuga. Demoraria alguns anos até que o
Punk nascesse para chutar o rabo da Geração Discotèque e trazer de volta o inconformismo e a rebelião para o centro do quadro...

Gil Scott-Heron, apesar do ostracismo em que caiu por grande parte dos anos 90 e 00, principalmente por ter sido enjaulado pelos tiras duas vezes por posse de "substâncias controladas", continua ativo e operante: acaba de lançar, neste
2010, o álbum
"I'm New Here". Suas palavras e discos ecoam dos anos 70 até hoje e "Gil sobreviveu nos
samples - de Professor Griff, PM Dawn, Warren G, Chubb Rock, A Tribe Called Quest, KRS-One - para vir, finalmente, a ser
entronizado como um dos pais do rap, apenas um passo atrás do coletivo nova-iorquino dos Last Poets", diz o Antunes.
Pois é: não é à toa que Gil Scott-Heron é reconhecido por grandes figuras do Movimento Hip Hop mundial -- como Chuck D ou Mos Def -- como um dos Pais da Matéria,
"The Godfather of Rap". Sem ele, talvez não tivessem surgido o Public Enemy e o Outkast, a Lauryn Hill e o Ben Harper, o Rappa e o Planet Hemp. Sem falar que Gil, sendo um
maconheirão prá-lá-de-gente-fina, continua sendo uma referência para todos os que curtem os efeitos de expansão da consciência, do senso-de-humor e da percepção estética gerados pela sagrada
cannabis...

Pra quem curte literatura, vale frisar ainda que Gil Scott-Heron, poeta de mão cheia, escreveu ainda
dois romances:
The Nigger Factory e
The Vulture. Este último, conhecido por cá como
Abutre, saiu no Brasil via Conrad e vale cada centavo. Narra a via-crúcis de um traficante de drogas de New York que tréta com os porto-riquenhos e vê sua vida sempre ameaçada pelos becos escuros do Harlem, Chelsea e redondezas. Lê-se com o prazer que se tem vendo um bom filme de Spike Lee ou um clássico da
blaxpoitation (tendência que
Tarantino "homenageou" em
Jackie Brown).
Devorem abaixo, pois, um bocado de discos deste grande Mestre do
rhythm and poetry (R.A.P.!), Gil Scott-Heron, o Abutre!