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terça-feira, 9 de agosto de 2011

<<< Van Morrison: discografia da fase áurea, 1968-74 >>>

"Equal parts blue-eyed soul shouter and wild-eyed poet-sorcerer, Van Morrison is among popular music's true innovators, a restless seeker whose incantatory vocals and alchemical fusion of R&B, jazz, blues, and Celtic folk produced perhaps the most spiritually transcendent body of work in the rock & roll canon. Subject only to the whims of his own muse, his recordings cover extraordinary stylistic ground yet retain a consistency and purity virtually unmatched among his contemporaries, connected by the mythic power of his singular musical vision and his incendiary vocal delivery: spiraling repetitions of wails and whispers that bypass the confines of language to articulate emotional truths far beyond the scope of literal meaning.

George Ivan Morrison was born in Belfast, Northern Ireland, on August 31, 1945; his mother was a singer, while his father ardently collected classic American jazz and blues recordings. At 15, he quit school to join the local R&B band the Monarchs, touring military bases throughout Europe before returning home to form his own group, Them. Boasting a fiery, gritty sound heavily influenced by Morrison heroes like Howlin' Wolf, Brownie McGhee, Sonny Boy Williamson, and Little Walter, Them quickly earned a devout local following...

His first album for new label Warner Bros., 1968's Astral Weeks, remains not only Morrison's masterpiece, but one of the greatest records ever made. A haunting, deeply personal collection of impressionistic folk-styled epics recorded by an all-star jazz backing unit including bassist Richard Davis and drummer Connie Kay, its poetic complexity earned critical raves but made only a minimal commercial impact. The follow-up, 1970's Moondance, was every bit as brilliant; buoyant and optimistic where Astral Weeks had been dark and anguished, it cracked the Top 40, generating the perennials "Caravan" and "Into the Mystic."

The first half of the 1970s was the most fertile creative period of Morrison's career. From Moondance onward, his records reflected an increasingly celebratory and profoundly mystical outlook spurred on in large part by his marriage to wife Janet Planet and the couple's relocation to California. After His Band and the Street Choir yielded his biggest chart hit, "Domino," Morrison released 1971's Tupelo Honey, a lovely, pastoral meditation on wedded bliss highlighted by the single "Wild Night." In the wake of the following year's stirring Saint Dominic's Preview, he formed the Caledonia Soul Orchestra, featured both on the studio effort Hard Nose the Highway and on the excellent live set It's Too Late to Stop Now. However, in 1973 he not only dissolved the group but also divorced Planet and moved back to Belfast. The stunning 1974 LP Veedon Fleece chronicled Morrison's emotional turmoil; he then remained silent for three years..." - AMG All Music Guide.
ASTRAL WEEKS (1968)
http://www.mediafire.com/?zj4rxvlw3vn4682

MOONDANCE (1970)
http://www.mediafire.com/?vodqgzxk1z6d21a

...AND THE STREET CHOIR (1970)
http://www.mediafire.com/?l6zx9ovv11acb10

TUPELO HONEY (1971)
http://www.mediafire.com/?kh1ktndhazpzf2e

SAINT DOMINIC'S PREVIEW (1972)
http://www.mediafire.com/?qxvrxzwhstqzzc8

HARD NOSE THE HIGHWAY (1973)
http://www.mediafire.com/?ray4dz4988kazen

VEEDON FLEECE (1974)
http://www.mediafire.com/?z8s6mao28voq0a9

IT'S TOO LATE TO STOP NOW (LIVE) (1974)
http://www.mediafire.com/?qmwqoflgwhghg11

quarta-feira, 27 de julho de 2011

<<< The DT's: South American Tour >>>


Os fabulosos THE DT's, garageira rocker de primeiríssima estirpe, são lá da terra natal de Jimi Hendrix e do grunge e estão prestes a pousar no Brasil para shows que prometem. O grupo de Seattle, que mescla hard-rock e soul, blues-rock e R&B, Janis Joplin e AC/DC, toca em:

Goiânia (onde já se apresentaram anos atrás, no XIII Goiânia Noise), em Brasília (onde serão umas das atrações internacionais do Porão do Rock junto de Jon Spencer e Helmet) e em Sampa (onde dividem o palco do Inferno com os argentinos surf do The Tormentos).

Gosto demais do som dos DT's, que me lembra outras bandas de rock'n'roll repleto de feeling e com empolgante vocal feminino como os Detroit Cobras e os Bellrays (para não falar de Ike & Tina Tuner!). O vocal da Diana Young-Blanchard, que também canta no Madame X, é de arrepiar! Abaixo, compartilhamos alguns álbuns de estúdio dos caras - o fodástico Filthy Habits (2006) e o também bacanérrimo debut Hard Fixed (2004). Em breve voltamos com a cobertura do show em Goiânia.

THE DT's Filthy Habits (2006 - 43 MB)
http://www.mediafire.com/?gxo0j666vjq62f2
THE DT's Hard Fixed (2004 - 58 MB)
http://www.mediafire.com/?9904ai6z8z8crmp

The DT's - Mystified by depredando

The DT's - Freedom by depredando

segunda-feira, 5 de abril de 2010

sábado, 27 de março de 2010

:: Gil Scott-Heron ::


A REVOLUÇÃO NÃO VAI SER TELEVISIONADA
- por Eduardo Carli -

"Gil Scott-Heron, O artista afro-americano, é simplesmente uma das figuras mais cativantes e importantes do pop mundial. Se você não conhece Gil Scott-Heron, ou até conhece mas nunca ouviu isto posto com tanta convicção, não se acanhe. Nem você nem este escriba estarão errados.
O fato é que o exuberante talento do cantor, compositor, poeta, pianista, ficcionista veio embalado em um contexto histórico e político convulsionado e nunca completamente, digamos, 'dichavado'. Foi a passagem dos anos 60 para os 70, com a radicalização exponencial dos grupos negros, dos estudantes, dos ativistas antiguerra do Vietnã, das feministas..." ALEX ANTUNES, prefácio de Abutre.

A revolução não vai passar na televisão. Nem virá com intervalos comerciais e replays. A revolução, irmão, vai ser ao vivo.

Com estas palavras, declamadas no maior pique, Gil Scott-Heron marcou época com o hino de protesto setentista "The Revolution Will Not Be Televised", perfeita síntese de sua carreira e que demonstra bem sua importância histórica. Ele foi um MC antes de existir o rap; foi Malcolm X cantando um soul; foi o poeta da Revolução Negra no pós-Woodstock; e foi a encarnação do espírito Hip Hop, antes deste existir.

Gil é do Tennessee, terra do blues. Seu leitinho na mamadeira, aposto, foi turbinado com litros de B. B. King, John Lee Hooker, Lightnin' Hopkins e bourbon. Já crescido, mudou-se para New York. Mas não aquela dos cartões-postais ou dos filmes de Woody Allen. Aquela dos guetos e becos flagrados pela lente de Spike Lee, onde porto-riquenhos, dealers, cafetões, putas, tiras corruptos e brancos cuzões se bicam num cenário urbano caótico e tenso.

Era o fim dos anos 1960 e o Black Power não era somente um penteado afro classudo, mas todo um efervescente movimento social. Impulsionados pelo exemplo de Malcolm X e Martin Luther King, os negros americanos "se organizavam para desorganizar". Em protesto contra a segregação racial, o preconceito, o fascismo, o imperialismo, Nixon, a Guerra do Vietnã e outras pragas sociais, inventavam um novo som e uma nova poesia adequadas aos combates dos tempos.

Pouco tempo antes de Scott-Heron "decolar" com o lançamento de seus primeiros álbuns --- o spoken word "Small Talk at 125th and Lennox" e o soul-funk "Pieces of a Man" --- Jimi Hendrix havia blasfemado lindamente contra o Hino Nacional Americano em frente a 500 mil almas embasbacadas em Woodstock. Enfiando distorsão e discórdia no discurso oficial. Pintando de negro, ou afundando na psicodelia, a "Star Spangled Banner".

Gil Scott-Heron, junto com seu truta Brian Jackson, gravaram um punhado de discos brilhantes anos 70 e 80 afora. Ao mesmo tempo louvando seus heróis culturais do passado (John Coltrane, Aretha Franklin, Isaac Hayes, Billie Holliday, Al Green...) e com pés fincados nas problemáticas sócio-políticas da era (em que a "canção de protesto" tinha voltado aos holofotes pelos esforços de Bob Dylan nos anos 60 e a Geração Folk que seguiu seus passos), fizeram pérolas das mais preciosas daquilo que hoje chamamos black music.

Se a obra deste negobão é tão desconhecida entre nós, isto se deve um pouco à estupidez da "Indústria Cultural", que não se dava muito bem com o radicalismo ideológico e a riqueza sônica da arte de Scott-Heron. No meio dos anos 70, a black music de conteúdo político-crítico-lúdico-provocativo (que tinha ainda seus paladinos no Funkadelic e no Sly & The Family Stone) viu-se lançada nas sombras pela explosão da discow. "Gil viu sua carreira ser progressivamente eclipsada com a aproximação e a passagem dos anos 80, época em que a caretice yuppie grassou e desgraçou a cultura pop", escreve o Alex Antunes.

Como o próprio Gil Scott-Heron diz, a galerinha da discow perdeu completamente a noção de que havia uma distinção entre a ferramenta e o objetivo --- "the tool and the goal", como ele diz. A "black music", cooptada pelas grandes gravadoras, cessou de ser uma tool nas mãos de artistas-ativistas lutando pelo goal da transformação social e comportamental, para se tornar hedonismo vazio e consumista. A balada foi sendo despolitizada e foi virando cada vez mais uma curtição frívola e sem consequências, quase um mecanismo de fuga. Demoraria alguns anos até que o Punk nascesse para chutar o rabo da Geração Discotèque e trazer de volta o inconformismo e a rebelião para o centro do quadro...

Gil Scott-Heron, apesar do ostracismo em que caiu por grande parte dos anos 90 e 00, principalmente por ter sido enjaulado pelos tiras duas vezes por posse de "substâncias controladas", continua ativo e operante: acaba de lançar, neste 2010, o álbum "I'm New Here". Suas palavras e discos ecoam dos anos 70 até hoje e "Gil sobreviveu nos samples - de Professor Griff, PM Dawn, Warren G, Chubb Rock, A Tribe Called Quest, KRS-One - para vir, finalmente, a ser entronizado como um dos pais do rap, apenas um passo atrás do coletivo nova-iorquino dos Last Poets", diz o Antunes.

Pois é: não é à toa que Gil Scott-Heron é reconhecido por grandes figuras do Movimento Hip Hop mundial -- como Chuck D ou Mos Def -- como um dos Pais da Matéria, "The Godfather of Rap". Sem ele, talvez não tivessem surgido o Public Enemy e o Outkast, a Lauryn Hill e o Ben Harper, o Rappa e o Planet Hemp. Sem falar que Gil, sendo um maconheirão prá-lá-de-gente-fina, continua sendo uma referência para todos os que curtem os efeitos de expansão da consciência, do senso-de-humor e da percepção estética gerados pela sagrada cannabis...

Pra quem curte literatura, vale frisar ainda que Gil Scott-Heron, poeta de mão cheia, escreveu ainda dois romances: The Nigger Factory e The Vulture. Este último, conhecido por cá como Abutre, saiu no Brasil via Conrad e vale cada centavo. Narra a via-crúcis de um traficante de drogas de New York que tréta com os porto-riquenhos e vê sua vida sempre ameaçada pelos becos escuros do Harlem, Chelsea e redondezas. Lê-se com o prazer que se tem vendo um bom filme de Spike Lee ou um clássico da blaxpoitation (tendência que Tarantino "homenageou" em Jackie Brown).

Devorem abaixo, pois, um bocado de discos deste grande Mestre do rhythm and poetry (R.A.P.!), Gil Scott-Heron, o Abutre!


1970 - Small Talk At 125th And Lenox
http://www.mediafire.com/?najjyyj4jlw



1971 - Pieces of a Man
http://www.mediafire.com/?kdmyzktetyd



1974 - The Revolution Will Not Be Televised
http://www.mediafire.com/?uwiwntuv4yn



1974 - Winter in America
http://www.mediafire.com/?dwjqmnzoc3e


1975 - First Minute of The New Day
http://www.mediafire.com/?zi1jdnmchre



1975 - From South Africa to South Carolina



1980 - 1980


sábado, 30 de janeiro de 2010

:: Perucas Afegãs? ::


:: AFGHAN WHIGS ::
"1965"

"Evolving from a garage punk band in the vein of the Replacements, Dinosaur Jr, and Mudhoney to a literate, pretentious, soul-inflected post-punk quartet, the Afghan Whigs were one of the most critically acclaimed alternative bands of the early '90s. Although the band never broke into the mainstream, they developed a dedicated cult following, primarily because of lead singer/songwriter Greg Dulli's tortured, angst-ridden tales of broken relationships and self-loathing. The Afghan Whigs were one of the few alternative bands around in the late '90s to acknowledge R&B, attempting to create a fusion of soul and post-punk." -- ALL MUSIC GUIDE

Unindo o sinistro som de Seattle com o sabor sexy do soul sessentista, o Afghan Whigs criou neste 1965 (seu magnum opus) um dos álbuns mais luxuriantes a surgir na 2a metade dos anos 90. Ainda subestimado e menos cultuado do que merecia, 1965 é como uma atormentada viagem noctívaga, uma one-night-stand bêbada repleta de delícias e de traumas, meio Irreversível e meio Boogie Nights. É um disco tão libidinoso que daria pra dizer que inaugura um novo sub-estilo: o grunge pornô.


Apesar de ser uma legítima e barulhenta banda de rock'n'roll noventista, que integrou o cast da Sub Pop no ápice do selo, lançando o petardo Congregation (91) em meio à efervescência grunge, os Whigs eram também uma banda amante da soul music. Volta e meia faziam a gracinha de gravar um hit das Supremes ou tocar um clássico da Motown num show --- claro que em volume ensurdecedor. Greg Dulli, o vocalista e principal compositor, queria cantar como Al Green, Sam Cooke, Otis Redding ou Jimi Hendrix, mas ao mesmo tempo não temia assumir a gravidade dum Lanegan ou a fúria dum Cobain.

Já era 1998 quando saiu 1965 e a poeira do grunge já começava a baixar. Como o astronauta da capa do disco, o Afghan Whigs parece com um quarteto de soulmen que foi posto num foguete, aos fim dos anos 60, que ficou em órbita por quase trinta anos, só ouvindo LPs antigos de rhythm & blues e filmes da blaxpotation, e quando retorna do espaço pra Terra cai direto no era do trip-hop e do pós-grunge. Eles tentam soar tão sombrios quanto o Portishead e barulhentos feito o Soundgarden, ao mesmo tempo que mantêm viva toda a sacanagem libertina tão bem simbolizada pelo slogan sexual de Marvin Gaye, "let's get it on" (que ressurge no álbum berrado como se fosse um refrão de rock and roll).

Greg Dulli, em algumas das maiores performances vocais de sua carreira (e do rock dos 90), canta em 1965 mais ou menos como se estivesse sufocando no interior de um escafandro, ao mesmo tempo que anseia por tocar nas inacessíveis borboletas que vê esvoaçarem lá fora, do outro lado do vidro. Ou então como se estivesse usando, e em doses imoderadas, os mesmos psicotrópicos que o Tricky (um nêgo que, a julgar por seus inebriantes discos solo, não pegava leve...).

O climão que emana de 1965 nos dá a sensação de estarmos acompanhando um midnight cowboy, um perdido navegante noturno, que ainda que procure no hedonismo e numa transa fácil a anestesia para suas angústias, sempre prossegue com a mente transtornada e assombrada. E sempre desperta, na ressaca do dia-seguinte, ainda com seu coração sanguessuga e vampiresco intacto ("this vampire only wants a little love", canta Dulli).

A sensação é de que este é um disco de canções de amor e tesão escritas por um bêbado melancólico, amante do soul e da poesia, que está largado na sarjeta com suas memórias e seus fantasmas, suas polaróides e seu uísque. Como se fosse full-time aquele personagem de Tom Waits que diz "I hope that I don't fall in love with you / Cause falling in love only makes me blue".

(Não à toa, após o fim dos Whigs, Greg uniu forças com Mark Lanegan, ex-Screaming Trees e Queens Of The Stone Age, criando o muito bem batizado Gêmeos da Sarjeta - The Gutter Twins.)

Em "Neglekted", diz o eu-lírico, frente à mulher tentadora e irresistível que lhe sugere que façam algo "pouco higiênico": "You can fuck my body, baby / But please don't fuck my mind". Pois para ele é como se a transa dos corpos não deixasse jamais de deixar suas cicatrizes na mente após a passagem das delícias. Ainda que estas não sejam poucas (e talvez justamente por serem tão intensas!).

Não encontro adjetivo melhor para descrever o solo de sax que finaliza a catártica "John the Baptist" a não ser "orgástico" - e parece ser na direção deste alvo que os Afghan Whigs apontam suas armas. Tanto que os backing vocals femininos, que adornam lindamente canções como "Somethin' Hot", podem até ser chamados pelos desavisados de "gospel", mas são na verdade bem pouco católicos, simulando gemidos e gritos de prazer (e dor) que fariam qualquer freirinha ruborizar...

This music is a hell of a mindfuck!

Cena de balada em "A Última Noite", de Spike Lee

Pra mim, desde 11:11, o debut do Come (a melhor banda-grunge-que-ninguém-conhece), não se realizava no rock independente americano uma obra tão atormentada e intensa, tão azul-escura e com cheiro de madrugada. E ouso dizer que na música dos anos 90 este 1965 encontra poucos rivais à altura - talvez Cure For Pain do Morphine, ou algo do Massive Attack - na batalha pelo troféu de "Álbum Mais Sexy da Década".

É apertar o 'play' e embarcar numa noitada de arromba - e de ressaca.


Para degustá-lo, dê um pulo nos comments!


domingo, 27 de setembro de 2009

:: Hitsville USA - especial MOTOWN ::


:: MOTOR DA ALMA ::

- O "som da América Jovem" do início dos anos 60 era pop com refrões ganchudos, rebeldia zero e disciplina militar. Assim, a Motown levou a música negra ao topo das paradas -

por Sérgio Martins
(*)


Alfred Hitchcock costumava dizer que atores deveriam ser tratados como gado. Na visão do cineasta inglês, valia a pena fazer o elenco de gato e sapato, desde que esse exercício de tortura rendesse um grande filme. Berry Gordy Jr., criador e presidente da Motown, nunca deu pistas de que o mestre do suspense fosse seu diretor predileto, mas soube como poucos aproveitar sua filosofia de trabalho. Gordy fundou uma companhia de discos com regras rígidas para que o "gado" (ou mehor, seus artistas) produzisse muito em troca de tostões. Se Hitchcock criou um estilo próprio de direção, Gordy inventou - ou melhor, se apropriou - do que se convencionou chamar de "Motown Sound".

Desenvolvido por músicos tarimbados nos diminutos estúdios da companhia, o som da Motown tinha características únicas. A bateria e o baixo flanavam acima dos outros instrumentos e qualquer resquício de rhythm'n'blues era varrido para baixo do tapete. Gordy, ambicioso como ele só, queria que os discos de sua gravadora fossem comprados também pelo público branco americano. O refrão tinha de ser ganchudo - e, nessa hora, o volume do baixo e o da bateria caíam assustadoramente. A intenção era fixar a frase no cérebro do ouvinte. Tudo isso executado em no máximo 3 minutos, com letras que tratavam de temas banais, como paixonites e namoricos.

Gordy acreditava que letras do gênero "contra tudo que está aí", como a dos cantores de protesto, deixariam a canção datada. E "Please Mr. Postman" foi a primeira cria de Gordy a alcançar o sucesso planejado. Gravada pelo trio vocal The Marvelettes, a canção entrou no 1º lugar no hit parade dos EUA em dezembro de 1961 - a música repetiria o feito dois anos depois, com os Beatles, e, em 1975, ao ser coverizada pelo duo vocal Carpenters. Com seus 2 minuots e 29 segundos, a faixa mostrou como Berry Gordy Jr. iria ditar as regras da música pop dos Estados Unidos nas duas décadas seguintes.



GORDY, O ERRANTE

Dois anos antes do grande feito das Marvelettes, Berry Gordy Jr era o que se poderia chamar de caso perdido. Nascido em uma família de classe média baixa que se mudou para Detroit a fim de prosperar com a indústria automobilística da região, Gordy desde cedo mostrou que os estudos não eram sua prioridade. Preferia ganhar dinheiro em jogos de azar, que era gasto generosamente nas casas de tolerância da região. Gordy também era pouco afeito ao trabalho. Reza a lenda que ele foi funcionário da Ford - sim, por um dia o futuro dínamo da indústria de discos suou o macacão na fábrica de automóveis. Mas logo percebeu que não era talhado para o cargo. Entre trabalhar como boxeador e a música, acabou abrindo uma loja de discos de jazz. Faliu em poucos meses. Tentou a carreira de compositor. Ele criou hits para o cantor de rhythm'n'blues Jackie Wilson e para a diva Etta James. Faturou alguns cobres, devidamente torrados com prostitutas e outras garotas.

Não à toa, quando armou uma reunião em família para pedir um empréstimo de 800 dólares para montar seu "próprio negócio", Berry Gordy Jr. foi tratado com a mesma desconfiança dispensada a um dirigente do futebol brasileiro. Seus pais e familiares acreditavam que o investimento iria para o ralo. No entanto, Gwen e Anna, duas das irmãs do encrenqueiro, insistiram para que a quantia fosse emprestada. Como garantia, se propuseram a trabalhar ao lado dele para que o irmão mais novo não tentasse nenhuma gracinha.

Os primeiros artistas a bater às portas de Gordy foram os Miracles. Para sermos mais precisos, eles se chamavam The Matadors e um ano antes do pedido de empréstimo apareceram na editora musical onde Gordy trabalhara. Os proprietários da editora mandaram os rapazes passear. Gordy, a princípio, ficou atento ao corpo ajeitadinho da vocalista Claudette. Depois descobriu que ela namorava o matador-líder - um rapazote de 17 anos chamado William Robinson. E mais, detectou talento no rapaz. Os colegas de William o chamavam de Smokey (algo como "enfumaçado") por causa da pele clara e dos olhos verdes.

Robinson vinha de uma vizinhança que era considerada a "Beverly Hills dos bairros barra-pesada de Detroit". Sua vida pessoal era atribulada. O pai largou a família quando ele tinha 3 anos e sua mãe morreu de câncer no cérebro. Ao conhecer Gordy, muito mais do que um empresário e amigo, Smokey ganhou uma figura paterna. Gordy o encorajou a escrever, deu pitados em suas letras e não só contratou os Miracles como colocou seu líder no posto de diretor artístico da nova gravadora. A contratação de Smokey Robinson foi a primeira prova do fato de Berry Gordy Jr para descobrir talentos. Smokey tinha um registro vocal raro (sua inflexão de tenor raramente conseguiu ser copiada) e criava letras maravilhosas sobre temas banais. Uma simples história de um rapaz que amava a garota que o desprezava virava ouro graças às letras e à voz afinada de Smokey.


Gordy batizou a empresa de Tamla Motown. Tamla era uma corruptela de "Tammy", sucesso da cantora e atriz Debbie Reynolds. Motown veio de "Motor Town" (Cidade dos Motores), apelido de Detroit. Gordy comprou um sobrado no número 2648 da West Grand Boulevard, em Detroit, e chamou o lar de Hitsville U.S.A. Acredite ou não, a comunidade artística da cidade apareceu em peso para oferecer seus préstimos. David Ruffin, mais tarde vocalista principal dos Temptations, pintou as paredes do estúdio da sede. O cantor Barrett Strong e o trio de compositores Eddie Holland, Lamont Dozier e Brian Holland também rodeavam a área.

"Money (That's What I Want)" foi a primeira música composta, tocada e produzida na Hitsville USA. A abanda da casa foi recrutada nos clubes de jazz de Detroit (o grupo seria batizado mais tarde de Funk Brothers). (...) As sessões de gravação do hit duraram dias, o que fez Gordy se perguntar se estava no caminho certo. Na verdade, foi tudo um capricho do destino. A canção entrou na 2ª posição da parada de r&b e pavimentou os caminhos da Motown.


CONTO DE FADAS

Às vezes, tem-se a impressão de que a história da Motown foi um conto de fadas, em que artistas de talento indiscutível batiam às portas de Hitsville U.S.A. e imploravam por uma chance. Porém, o que mais um garoto negro de Detroit poderia fazer senão arriscar um emprego numa gravadora de rhythm'n'blues? Foi assim que dois grupos vocais, The Primes e The Distants, uniram-se e montaram os Temptations. (...) Gordy contratou o grupo e o deixou sob os cuidados de Smokey Robinson. (...) Depois de três anos sem sucesso, em 1964 obinson criou "The Way You Do The Things You Do" - canção que entrou no primeiro lugar da parada r&b. No ano seguinte, foi a vez de "My Girl", que alcançou a primeira colocação na parada americana em 6 de março de 1965. A parceria iria render outras 36 canções entre as dez mais. Já os Four Tops foram empurrados para o outro trio de compositores - Holland, Dozier, Holland.


As Primettes eram quatro meninas, fãs dos Primes, que também sonhavam com uma carreira artística. Diana Ross, Mary Wilson e Florence Ballard caíram nas graças de Gordy (em especial Diana, que virou amante do chefão). Entretando a aoposta de Gordy demorou a deslanchar. O trio passou 4 anos amargando piadas infames de seus companheiros de companhia - eles as chamavam de "No-Hit Supremes" porque eram incapazes de frequentar as paradas. Reza a lenda que o presidente da Motown trancou o trio de autores - Holland, Dozier, Holland - numa sala e o obrigou a criar uma canção de sucesso para suas prediletas. O resultado teria sido quatro músicas no 1º lugar da parada - "Where Dir Your Love Go?", "Baby Love", "Come See About Me" e "Stop! In The Name of Love". Além de tirar a uruca que pairava sobre o trio, o êxito coroou Diana Ross como rainha da companhia. Gordy ordenou que ela cantasse todas as vozes principais das Supremes. A Wilson e Ballad cabia apenas a função de responder "baby, baby" ou "oohh, oooh".

CAÇA-TALENTOS

Mary Wells e Martha Reeves eram duas garotas que imploravam para ser ouvidas pelos executivos da companhia. Pedido atendido: ambas viraram estrelas. No Natal de 1960, Gwen Gordy obrigou Berry a contratar um rapaz que rodeava a vizinhança de Hitsville USA. Seu nome? Marvin Gay (ele adicionaria o "e" ao sobrenome por razões um tanto óbvias). Gaye também tinha outros motivos para rodear a casa da Motown. O cantor estava saindo com Anna, irmã mais velha de Gordy. Nascido em Washington, Marvin Gaye foi uma das figuras mais sombrias da história da Motown. Para desespero do pai, que era pastor (mas não se furtava em passear com roupas de mulher após os cultos), ele seguiu carreira como cantor de rhtyhm'n blues, gênero musical considerado profano. Portanto, papai (ou mamãe, dependendo do dia) nunca perdoou a opção do filho.

O próprio Marvin Gaye tinha dúvidas a respeito de seu talento. No fundo, ele queria se tornar um crooner de jazz, no estilo de Frank Sinatra. Mas Berry Gordy o contratou e, a princípio, o colocou como músico de estúdio - Gaye toca bateria em "Please Mr. Postman", das Marvelettes, e "Fingertips", de Stevie Wonder. Depois, o deixou aos cuidados de seus produtores.

A Motown realmente atraía grandes talentos. Certa vez, Mickey Stevenson, executivo da companhia, entrou esbaforido no escritório de Berry Gordy: "Você tem de ver esse garoto", disse. Gordy desceu até o estúdio de Hitsville USA e topou com Ronnie White, um dos vocalistas de apoio dos Miracles, ao lado de um menino cego. O garoto, na época com 11 anos, sabia tocar gaita, bongô e tinha boa voz. Seu nome era Steveland Morris. Gordy o chamou de Stevie e adicionou o apelido Wonder (maravilha).

Terceiro de uma família de 6 irmãos de Michigan, Steveland Morris ficou cego por causa de um acidente tolo: a enfermeira da maternidade emq ue sua mãe o deu à luz o deixou tempo demais na incubadora. A falta de visão, contudo, nunca atrapalhou seu bom humor. Pelo contrário, Stevie até fazia piadas a respeito disso. Uma de suas diversões prediletas era adentrar nos estúdios no meio de uma gravação. Dizia que não tinha visto a luz vermelha indicando que a entrada era proibida. Stevie pedia para que alguém mais próximo descrevesse como era a roupa que determinado músico estava usando. Depois, aproximava-se do infeliz e descrevia cada detalhe da vestimenta. Na adolescência, já com os hormônios em ebulição, Wonder se fartou de tocar os seios das funcionárias da companhia - depois, na maior cara-de-pau, pedia desculpas pela indiscrição.

Nesse conto de fadas, Berry Gordy Jr. era o príncipe encantado, mas também fazia o papel de bruxa má... Nenhum artista da Motown ficou rico, apesar de tantos sucessos na parada. Gordy os mantinha sob contratos leoninos, em que pagava salários semanais e ficava com a parte do leão. Qualquer gasto adicional de estúdio, roupas e bebidas era debitado na conta do astro. Os Funk Brothers perderam milhões em direitos autorais, pelo prosaico motivo de não serem creditados nas capas dos discos. Martha Reeves se surpreendeu ao deixar a companhia e descobrir que até o uso de seu nome estava registrado como propriedade de Berry Gordy Jr.

Por outro lado, os cuidados da Motown fazia com que os artistas tivessem aulas de boas maneiras (muitos deles nem sequer sabiam comer de garfo e faca), de dança e de como dar entrevistas. Muitos astros que se queixaram da roubalheira da Motown fracassaram depois de sair da companhia. Mandinga de Berry Gordy? Não, eles simplesmente perdiam o toque mágico.


BURRADAS

Após o sucesso de "Please Mr. Postman", Berry Gordy e a Motown se tornaram nomes consagrados nos Estados Unidos e no resto do mundo. Dali a pouco, ele recebeu o telefonema de um executivo da Capitol Records. O sujeito dizia que os Beatles queriam gravar três hits da companhia em seu segundo LP britânico - "Please Mr Postman", "You Really Got a Hold On Me" (de Smokey Robinson) e "Money (That's What I Want)". O único entrave é que Brian Epstein, empresário dos ingleses, queria pagar apenas metade dos royalties das canções. Gordy disse não. Aí, como diria Chico Buarque, ao saber de tal heresia, a cidade em romaria foi beijar as mãos de Gordy. Smokey Robinson chorou, dizendo que a mulher estava grávida e que a grana dos ingleses viria a calhar; os executivos da Motown queriam internar o próprio presidente. Gordy, então, cedeu. E fez uma bela burrada: poucos meses depois de ter concordado com o achaque de Epstein, os Beatles eram o grupo mais famoso do planeta e seu Second Album chegou às principais redes de lojas de discos dos EUA. Se ele insistisse em sua proposta, talvez Smokey e alguns privilegiados da Motown estivessem hoje mais ricos.

A segunda fase da Motown entrou em vigor ainda nos anos 60. Um monte de astros foi substituído (Florence foi demitida das Supremes, Holland-Dozier-Holland queriam melhores salários e receberam cartão vermelho), outros apareceram (entrou Norman Whitfield para trabalhar com os Temptations, Gladys Knight trouxe os Jackson Five) e, no final da década, Gordy mudou a sede de Detroit para Los Angeles. Foi lá que Marvin Gaye e Stevie Wonder iniciaram suas fases mais ousadas, com clássicos como What's Going On e Talking Book. Contudo, Gordy, seduzido pela indústria do cinema, perdeu muito dinheiro.

Recentemente, um telefilme baseado na história dos Temptations bateu o Parque dos Dinossauros em audiência na TV. Há alguns anos, o documentário Standing In The Shadows of Motown concorreu ao Oscar de sua categoria. A Motown é eterna - assim como os filmes de Hitchcock.

* texto extraído da História do Rock Vol. I da Bizz - 1936-1963 - pgs 70-77)


DOWNLOADS:


Hitsville U.S.A. - The Motown Singles Collection (1959-1971)
- caixinha de 4 CDs com os grandes hits da "fase de ouro -

Disco 01: http://www.mediafire.com/?ni4j0no4cqk
Disco 02: http://www.mediafire.com/?1gty2hjmnmm
Disco 03: http://www.mediafire.com/?yiom5kmfdzd
Disco 04: http://www.mediafire.com/?ziozmkuj0fg


Documentário: Standing In The Shadows of Motown
diretor: Paul Junkman
Download do DVD (3.5 GB) no piratebay