segunda-feira, 23 de abril de 2012

Aldous Huxley, "Admirável Mundo Novo"


ARMADILHAS DA UTOPIA
- Uma leitura de Brave New World -


O procedimento de Aldous Huxley em seu Admirável Mundo Novo, um dos romances mais importantes não só do sci-fi como gênero literário, mas de toda a literatura inglesa do século XX, centra-se na descrição de um Estado aparentemente utópico: uma Civilização de tecnologia ultra-avançada que gaba-se de suas proezas de engenharia genética, estabilidade social, condicionamento neo-pavloviano do comportamento, divertimentos eletrônicos multimídia e paraísos artificiais disponíveis com a ingestão de poucos gramas de soma ("dez centímetro cubículos vencem mil pensamentos lúgubres", escreve Huxley descrevendo a wonderdrug da época).

O estilo de sci-fi nesta obra de Huxley é inteiramente terreno: não há aliens, OVNIs, colonização de outros planetas. As estrelas distantes, que em seu mutismo eterno apavoravam Pascal, mal aparecem na trama. Trata-se, para Huxley, de imaginar o futuro da Terra, tentando prever com a fantasia alguns dos perigos, abismos, potenciais e esperanças que o presente encerra em seu ventre grávido de futuros. Mas trata-se, antes de mais nada, de fazer soarem os alarmes e denunciar os perigos desta Utopia pretensamente tão bela.

A Utopia, em Brave New World, é mais vilã do que mocinha. A epígrafe, de autoria de Nicolas Berdiaeff, lança-nos a um estranho problema em relação à utopia: "Comment éviter leur reálisation définitive?" [“Como evitar sua realização definitiva?”] Ou seja: evitar a utopia, ao invés de abraçá-la, passa a ser... o ideal. Huxley, como quem arranca um Véu de Maya que encobria os olhos da Utopia, cegando-a para sua própria obscenidade e terror, realiza em Brave New World uma distopia – ou seja, uma inversão da utopia, quase uma nietzschiana "reviravolta de todos os valores".

O que é cultuado como ídolo sofre a revolução que o torna desdenhável como um cisco. O adorável mundo novo revela-se como um grotesco escândalo para o Selvagem que é triturado por suas engrenagens grotescas. O romance de Huxley, portanto, longe de ser uma celebração entusiástica do utopismo, é uma denúncia satírica dos perigos que se escondem nas tentativas humanas de criar sociedades perfeitas.

Huxley parece querer nos mostrar que sempre há um certo descompasso entre o desenvolvimento tecnológico e a antiquíssima confusão, indecisão e discórdia humanas quanto aos sentidos-da-vida. Não há unanimidade entre a humanidade sobre qual seria o "Objetivo Último" dela mesma. Uns isolam-se em eremitérios na mata, procurando por sabe-se-lá que epifanias místicas, enquanto outros tornam-se homens-de-multidão, animais-de-manada, incapazes de suportar um grama que seja de solidão... Enquanto uns vão a missa e se mortificam, outros enchem a cara e caem na esbórnia; uns entram para mosteiros, outro viram militantes políticos; uns são carnívoros inveterados, outros vegetarianos convictos; há monogâmicos, adúlteros, polígamos, pedófilos, orgiásticos, perversos, celibatários, indecisos; há apolíneos, dionisíacos, socráticos, epicuristas, estóicos, pirrônicos, marxistas, nazis, céticos, agnósticos, fanáticos...

Uma utopia intenta acabar com a imperfeição de tudo o que é humano e instaurar uma sociedade... homogênea, harmoniosa, em paz consigo mesma. O "estado" que a Utopia aspira a instaurar no Real consiste num estado de estabilidade, equilíbrio, estase. Uma vez concretizada a utopia, é como se as rodas da História cessassem de girar, como se a sociedade atingisse um ponto ótimo a partir do qual pode abandonar-se calmamente às delícias da inércia.

Em Admirável Mundo Novo, Huxley pinta o retrato de uma sociedade utópica onde "homens e mulheres padronizados, em grupos uniformes", saem dos frascos das incubadeiras e laboratórios de eugenia absolutamente idênticos uns aos outros, produzidos em série como bichos-de-pelúcia ou automóveis. A perversidade do sistema econômico é escancarada por Huxley: as castas inferiores, os Ípsilons, são literalmente criados em laboratório e têm seus fetos judiados por procedimentos malignos: seus embriões recebem injeções de álcool e outras substâncias desestabilizantes, a fim de que nasçam semi-aleijados, com retardamentos mentais, crippled for life. "Quanto mais baixa é a casta... menos oxigênio se dá." (p. 42) "Todo o pessoal de uma pequena usina constituído pelos produtos de um único ovo bokanovskizado" (p. 32): "o princípio da produção em série aplicado enfim à biologia"!

Já os ministérios desta sociedade – Predestinação Social, Condicionamento Emocional... - são todos centrados em eliminar da vida social o imprevisível, programar corações e mentes para que ajam sempre da maneira desejável, sem indesejáveis desvios de conduta. Em Brave New World vigora o Império da Normopatia: os normais têm direitos de imperadores diante dos destoantes, dos anormais, dos desviantes, dos indivíduos demasiado... individualizados. A utopia quer que cada indivíduo seja uma peça intercambiável de uma maquinaria social maior que ele; e uma peça que, ao quebrar, pode ser facilmente substituída por outra. Esta utopia deseja homens que ajam como abelhas na colméia, formigas num formigueiro. E além do mais esforça-se para que... amemos nossa servidão, nosso sacrifício, nossa auto-imolação nos altares do coletivo!

Um Estado totalitário verdadeiramente eficiente seria aquele em que os chefes políticos de um Poder executivo todo-poderoso e seu exército de administradores controlassem uma população de escravos que não tivessem de ser coagidos porque amariam sua servidão. Fazer com que eles a amem é a tarefa confiada, nos Estados totalitários de hoje, aos ministérios de propaganda, diretores de jornais e professores." - ALDOUS HUXLEY, 1946


Que uma norma-de-conduta, imposta pelos poderosos de cima para baixo, seja aceita por toda uma sociedade: eis o sonho utópico cuja tentativa de edificação já fez nascerem tantos totalitarismos. O reinado da Utopia é um Absolutismo Moral. E absolutistas morais podem ser tanto os crentes quanto os ateus: de Hitler a Stálin, os utopistas derramam o sangue dos vivos em nome dos amanhãs cantantes.

Neste pavoroso Mundo Novo, ao invés de leite materno os bebês bebem uma "secreção pasteurizada" (p. 232). Ao invés de crescerem no ventre das mães, amadurecem na penumbra subterrânea de um laboratório científico, dentro de frascos, rolando linha-de-montagem abaixo na industriosa fábrica-da-vida. Ao invés de irem à escola, vão ao centro de Condicionamento, onde são soterrados debaixo da repetição de slogans e programas-de-comportamento que visam a regular, controlar e submeter o trabalho e o lazer, a moral e a sexualidade, o misticismo e a criação. A sociedade que nasce disto é uma em que os cidadãos foram ensinados a crer que "não há crime mais odioso do que a falta de ortodoxia na conduta" (p. 233). Morte à imprevisibilidade e à experimentação lúdica! Seguir em trilhos de ferro com o trem de opiniões tão convictas que nenhum vento de argumento as abale.

Não há respeito pela diferença nesta sociedade: tudo que foge à normalidade, qualquer um que recuse-se a vestir o uniforme, que não queira "fazer como faz todo mundo", que se negue a ser uma "mariazinha-vai-com-as-outras", que se revolte contra seu destino de "animal de rebanho", como diria Nietzsche, este é estigmatizado e perseguido pelos poderes sacerdotais e políticos que gerem esta República da Homogeneidade. Bernard Marx, no livro de Huxley, é condenado ao exílio na Islândia, tratado como um pária e um subversor (p. 234), por ousar destoar da normalidade civilizada. É ele uma espécie de homenagem de Huxley a estas figuras heróicas que ousam "desafinar o coro dos contentes", para relembrar um verso de Torquato Neto, através da afirmação de uma individualidade, por mais imperfeita e dissonante que soe.

Em prol da estabilidade social, ou seja, para que não surjam desníveis entre os indivíduos, o Estado proclama uma lei que... proíbe Shakespeare! Que bane Beethoven! Que lança a filosofia na lata de lixo da História! De agora em diante, só se ensinará nas escolas, e só se doutrinará na mídia, sobre assuntos que dizem diretamente respeito à utopia da Estabilidade! Tudo será dito e tudo será feito em nome desta estabilização... "...não se podia permitir que pessoas de casta inferior desperdiçassem o tempo da Comunidade com livros e que havia sempre o perigo de lerem coisas que provocassem o indesejável descondicionamento de algum dos seus reflexos." (p. 55)

O condicionamento neo-pavloviano, os ovos bokanovizados, a hipnopedia, a ração diária de soma, a garantia de deleites sensórios no Cinema Sensível, tudo são torrões de açúcar dados pelo Estado para que cada casta sinta-se feliz com o status quo que lhe foi... predestinado.
"A flor do campo e as paisagens têm um grave defeito: são gratuitas. O amor à natureza não estimula a atividade de nenhuma fábrica. Decidiu-se que era preciso aboli-lo, pelo menos nas classes baixas: abolir o amor à natureza..." (p. 56)
No que diz respeito à amor e sexualidade, o que vigora é o credo: "Cada um pertence a todos..." Esta é a doutrina enfiada na mente de todas as crianças, repetida milhares de vezes nos ouvidos das mentes hipnotizadas dos fedelhos, como se fosse a verdade absoluta e última sobre a afetividade e a sexualidade humanas: "ninguém é dono de ninguém!" Huxley problematiza (e isso umas três décadas antes do Movimento Hippie começar a despontar!) a questão do amor livre. Brave New World contêm a descrição de baladas daquelas no Mundo do Futuro: regadas à embriaguez ocasionado pelo soma, que talvez não seja lá muito diferente daquela que o ecstasy ocasiona aos ravers de hoje em dia, estas baladas são orgias de pisoteação do dogma destronado, pisoteado e posto fora-de-cartaz do... casamento monogâmico. Esta instituição social... desapareceu por completo deste Admirável Mundo Novo onde as crianças não nascem mais de uma trepada entre seu pai e sua mãe, mas sim enfrascadas em provetas, tubos de ensaio, rolando nos trilhos de ferro de uma linha-de-montagem... Huxley e seu pesadelo sinistro!...
" - Felizes jovens! - disse o Administrador. - Nenhum trabalho foi poupado para lhes tornar a vida emocionalmente fácil, para os preservar, tanto quanto possível, até mesmo de ter emoções." (pg. 85)
Esse "descartismo" afetivo, para falar como Marina Colasanti, é análogo ao descartismo do nosso tão conhecido consumismo (que, dada à quantidade gigantesca de LIXO que produz podia ser chamada de lixismo). Muitos dos males que hoje são presenças prementes em nossa realidade, como a obsolescência programada, já eram prefigurados por Huxley nesta sociedade que imaginou como descartando sem fim, jogando meias no lixo ao primeiro desfiado, condicionada a seguir como preceito-de-vida que "mais vale dar fim que consertar" (95).

"Morte às emoções, pois!" - decretam os apologistas desta utopia. Pois nada desestabiliza mais uma sociedade humana dos que... as paixões destas criaturas passionais que somos. Mas não são necessariamente assim inquietas as forças vitais, não é essencialmente móvel o élan que nos anima? E os utopistas sonham com um coração em descanso. Com uma paz impossível. Que a correnteza não mais nos arrastasse, que paixões não mais nos inundassem, que tudo quedasse... estável e sereno. Sem correria nem esforço, sem insatisfação nem desejo. "No alarms and no surprises", como canta Thom Yorke. Um coletivo em Nirvana.


Em prol dessa "estabilização", criou-se este monstro. Talvez o mais triste na condição existencial dos Alfas, Betas, Deltas, Gamas e Ípsilons de Huxley é que nenhum deles "podia ter idéias verdadeiramente singulares". Seus cérebros foram cuidadosamente construídos e programados no sentido da obediência estrita a regras, padrões de comportamento, fés inquestionadas. E se há algo de heróico em Bernard Marx e seu amigo Helmholtz, está no fato de que eles "recusavam-se a abandonar o direito de criticar essa ordem" (p. 246).

Como atingir esta beatitude política que a Utopia encerra em sua imagem idealizada? Doutrinação ideológica, desde o berço; condicionamento severo de condutas; muita disciplina social e muito controle; eis aí os caminhos para a concretização do estado utópico! Que cidadão ousará discordar da veracidade absoluta de um slogan que lhe foi martelado na consciência 62 milhões de vezes? Um tal papaguear ideológico é capaz de reduzir um cérebro mirim a uma papa de imbecilidade. Brave New World é o retrato de uma sociedade de submissos imbecis que sorriem tolamente dentro de uma sociedade de castas altamente injusta e hierarquizada - e que não se revoluciona pois todo mundo está tão dopado e reduzido à apatia normopata que não há disposição para a luta, a mudança, a tentativa de novas vias.

Aqueles que buscam trilhar novas vias, ou que são arrastados, a despeito de si mesmos, para caminhos interditos e conclusões proibidas, são tratadas pelos Poderes Reinantes como perigosos párias que merecem ser mandados para uma ilha na Islândia... O stalinismo exilando oponentes políticos para a Sibéria é uma exemplo histórico suficiente para mostrar o quanto Huxley, em sua obra de ficção científica, teve refinadíssima percepção da realidade histórica (inclusive em seus desdobramentos futuros)! Talvez por isso Admirável Mundo Novo seja uma obra literária à qual tão bem cabe o adjetivo honroso de visionária.





"Quanto ao objetivo ideal do esforço humano existente em nossa civilização, há cerca de trinta séculos tem havido uma concordância geral. Desde Isaías até Karl Marx, as vozes dos profetas têm sido uníssonas. Na Idade de Ouro pela qual anelavam, haveria liberdade, paz, justiça e amor fraterno. “Nação não erguerá espada contra nação”; “o livre progresso de cada um conduzirá ao livre progresso de todos”; “o mundo estará cheia da sabedoria do Senhor, como as águas enchem os oceanos”. 
Com referência ao objetivo, repito, tem havido por longo tempo um acordo geral completo. O mesmo já não se pode dizer quanto aos caminhos a serem seguidos para atingir tal obetivo. Aqui, a unanimidade e a certeza cedem lugar à maior confusão, ao impacto das opiniões contraditórias dogmaticamente mantidas e manifestadas com violência e fanatismo. 
Ao invés de avançar em direção ao objetivo ideal, a maioria dos povos do mundo está rapidamente dele se desviando. […] Um outro doloroso e significativo sintoma é a calma com que o público do século 20 aceita certos relatos por escrito e até mesmo fotos e filmes sobre massacres e atrocidades. Pode-se alegar, como desculpa, que durante os últimos 20 anos as pessoas ficaram tão saturadas de horrores, que estes já não excitam piedade pelas suas vítimas ou indignação contra os que os executam. Permanece, porém, o fato da indiferença: e como ninguém se incomoda quanto aos horrores, mais horrores são perpetrados. 
Intimamente associada à regressão do gênero humano no campo da caridade, está o declínio da consideração do homem pela verdade. Em nenhum período da história do mundo a mentira organizada tem sido praticada tão desavergonhadamente ou, graças à moderna tecnologia, tão eficientemente ou em tão vasta escala…” 
ALDOUS HUXLEY
Ends And Means


2 comentários:

Cristiano disse...

O ponto realmente visionário dessa obra é que se trata de uma utopia do Mercado e seus mecanismos. Uma coisa que fica clara nessa realidade é a mecanização da vida. Todas as pessoas são reduzidas a peças de um grande mecanismo incessante. Os indivíduos só existem em função de suas representações econômicas, produzir e consumir e produzir e consumir. Homens e mulheres são também produtos com data de validade. E o único motivo de existirem é manter o Mercado em seu ciclo perpétuo e inalterável.

Unknown disse...

Verdade, Cristiano. A engenharia genética possibilitou que a obsolescência planejada atingisse até a "fabricação de pessoas": as castas mais baixas já saem dos laboratórios com prazo de validade determinado e condicionadas a adorar sua submissão às engrenagens de produção...

"A flor do campo e as paisagens têm um grave defeito: são gratuitas. O amor à natureza não estimula a atividade de nenhuma fábrica. Decidiu-se que era preciso aboli-lo, pelo menos nas classes baixas: abolir o amor à natureza..."