terça-feira, 20 de maio de 2008

:: os 10 melhores dos anos 60...- #03 ::

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(por Eduardo Carli de Moraes)


Ah, o louco verão de 1966! O sonho hippie começando a desabrochar, o LSD rolando solto e todo mundo descobrindo na chapação uma tremenda aliada para a criação... Já existiu época mais incrível para a música pop universal do que aquela? Num período de apenas 6 semanas daquele abençoado verão, foram lançados no Reino Unido 3 álbuns seminais na história do pop, que prosseguem entrando na lista de melhores álbuns de todos os tempos quase meio século depois de seus lançamentos – Blonde On Blonde, Revolver e Pet Sounds. Essa efervescência cultural inaudita indicava que “alguns rios culturais vitais desaguavam no mesmo mar lisérgico”, como diz Clinton Heylin, que pôde escrever um livro inteiro, de 250 páginas, só falando sobre este magnífico ano na vida dos Beatles e seus Amigos.

E é impossível desvincular a música da época do aumento exponencial do consumo de drogas psicodélicas por artistas do primeiro escalão. O primeiro fator sociológico de peso que um crítico musical precisa ressaltar sobre 1966 e seus arredores é: eram tempos chapados. O LSD tinha sido sintetizado por Albert Hoffman durante a Segunda Guerra, mas permaneceu um segredo bem guardado até sua rápida e extremada difusão nos anos 60 - graças a Timothy Leary, Ken Kesey, Terence McKenna e outros gurus propagadores da Boa Nova. Na segunda metade da década o ácido já estava em todo canto, facílimo de contrabandear e de vender, impregnando o ar cultural dos tempos. Nem é preciso dizer que muitos artistas resolveram se encharcar em acid trips e que muitas obras-de-arte incrivelmente revolucionárias para a época não teriam nascido sem esse pequeno empurrãozinho químico...

Bob Dylan, que já tinha migrado do ácido para a sua nova droga predileta, a meta-anfetamina, em 1966 já tinha produzido “dois álbuns de magia alquímica” e agora fazia propaganda aberta do estilo de vida chapadão com seu novo lema “Everybody must get stoned”. Diz a lenda que foi ele, Dylan, quem teve a bondade de estender aos Beatles o primeiro béque que os 4 jamais fumaram – e pouco depois da experiência com a cannabis, John Lennon e George Harrison foram os primeiros dos Fab Four a embarcar na onda do ácido, o que certamente ajudou a empurrar os Beatles para uma viagem onírica, colorida e pirotécnica – Magical Mystery Tour! - inimaginável antes do LSD.

Brian Wilson não ficou comendo poeira na caretice e também se entregou ao zeitgeist impregnado de drogas. “...no final de Novembro de 1965, o garoto prodígio da Costa Oeste, Brian Wilson, tinha experimentado havia pouco tempo sua primeira dose de detilamida do ácido lisérgico-25. Numa reportagem publicada no novembro seguinte, ele diria: 'Há certa de um ano eu tive o que considero uma experiência muito religiosa: tomei uma dose inteira de LSD e depois... tomei uma dose menor. E aprendi muitas coisas, como paciência, compreensão... Não posso ensinar nem contar a você o que aprendi ao tomar, mas considero uma experiência muito religiosa'. Dez anos depois, ele não acharia os resultados tão benéficos assim. 'Tomei minha cota de LSD. Isso danificou minha mente... Voltei, graças a Deus, não sei em quantos pedaços' (1976)". (C.H.)

Por mais que queiramos imputar à loucura de Wilson essas declarações insanas e chapadas que vinculam o ácido a uma experiência mística, parece que essa era uma visão muito difundida nos anos 60: a de que o LSD não era apenas uma “droga recreativa”, mas uma ferramenta importantíssima para uma viagem espiritual que transformava para sempre a percepção de mundo e a religiosidade do “viajante”. O ácido não era brincadeira: era coisa séria. Quase um telefone cósmico para conversar direto com Deus, que antes do LSD parecia deixá-lo sempre fora do gancho...

Roger McGuinn, por exemplo, garante que para a "turma" “não era só uma questão de ficar chapado.... Era conhecer Deus... isso te abre para uma 'sensibilidade' espiritual. Provavelmente as pessoas nascem assim, mas isso é encoberto ao longo da vida no contato com a sociedade... o LSD rompe essa barreira e permite que a gente volte a experimentar um contato espiritual puro”. Já George Harrisson, o mais “espiritual” dos Beatles, cuja carreira solo irá protagonizar um tropismo cada vez mais forte para o misticismo oriental, deu declarações semelhantes: “Na primeira vez em que tomei LSD, foi arrasador. Fui invadido por uma sensação de bem-estar, de que Deus existia e que eu podia vê-lo em cada folhinha de grama...”.

Era o espírito dos tempos – Timothy Leary causando em Harvard, Ken Kesey viajando feito louco pelos EUA, Terence McKenna seguindo os passos de Aldous Huxley e teorizando sobre a Linda Sociedade Psicodélica do Porvir, a Utopia Hippie fermentando... É nesse contexto contra-cultural que Pet Sounds surgiu – como o ápice da criatividade de Brian Wilson, que provou através dessa obra-prima que, se o LSD podia gerar uma experiência religiosa e expandir a criatividade humana ao ponto da genialidade, também podia gerar seus malefícios quando usado em excesso.

É sintomático que o Brian Wilson pós-Pet Sounds tenha virado quase uma ruína humana viva, que parecia ter fritado alguns milhões de neurônios na frigideira do ácido, pra sempre incapaz de realizar um novo álbum que ficasse à altura do anterior. O ambicioso sucessor, Smile, que seria composto em conjunto com Van Dyke Parks, acabou tornando-se um dos grandes álbuns não-lançados da história. Não foi a primeira vez que um grande artista pareceu “não voltar” duma longa viagem psicodélica – vimos viagens só de ida ao playground químico também com Arnaldo Baptista e Syb Barrett, só para citar dois dos maiores.



“Ao que parece, a consequência imediata do LSD foi a inspiração para reproduzir 'todos os sons incríveis' que ele [Brian Wilson] disse a Bill Wagner, da Capitol, ter ouvido quando louco de ácido. Foi o começo de 10 semanas prodigiosamente produtivas, a partir do final de janeiro de 1966, nas quais Wilson elaborou quase sozinho um álbum dos Beach Boys diferente de todos os anteriores. Descobrindo beleza em cada grão de ferro da fita magnética, Wilson deixou que a franquia Beach Boys excursionasse pelos EUA enquanto usava o nome do grupo num álbum solo. Construindo o som de uma maneira à qual os Beatles não tinham acesso, uma vez que ainda estavam presos aos 4 canais, Wilson explorou 'ao máximo' os oito que tinha à disposição em Los Angeles, com até 19 músicos tocando juntos para embelezar suas novas visões divinas.” (C.H., pg. 31)

Tamanha ralação no estúdio não deixaria de dar frutos na história posterior do pop, indicando que a Era do Álbum viera para substituir a Era do Single. Até mesmo os Beatles, seguindo na trilha de Brian Wilson, estavam prestes a abandonar os palcos para se fecharem por períodos cada vez mais prolongados no estúdio com George Martin para construir os álbuns históricos que lançariam dali em diante,. “O estúdio rapidamente se tornava o playground favorito dos Fab Four”, como diz Heylin, ao invés dos shows ensurdecedores onde a própria banda mal conseguia se ouvir, soterrada pelo fuzuê das fãs enlouquecidas.

A competição entre os Beatles e os Beach Boys nos anos 60, muito comentada pelos críticos musicais como um importante elemento que fecundou essas obras, parece ter sido mesmo sadia, bela e enriquedora para a música pop universal. As bandas, ao invés de trocarem farpas ou soltarem balas de canhão uma contra a outra, como dois navios piratas em batalha, um tentando levar o outro ao naufrágio, pareciam engajadas num rito de admiração e elogios mútuos. Brian Wilson, o grande cabeça por trás do grupo californiano, nunca escondeu de ninguém o tamanho da fascinação que sentiu ao lançamento de Rubber Soul, o álbum dos Fab Four que representou uma notável evolução rumo a um som mais psicodélico e multifacetado que os rapazes de Liverpool estavam bolando em meados da década.

Naquela época, muito influenciado pelo álbum dos Beatles, Wilson se fechou no estúdio para criar Pet Sounds, álbum que, por sua vez, deixaria PaulMcCartey louco de admiração e faria com que ele se esforçasse por superar a obra-prima dos Beach Boys nos discos subseqüentes dos Beatles, Revolver e Sgt. Peppers. O próprio George Martin declararia depois que “sem Pet Sounds, Sgt. Peppers' não teria acontecido... Pepper foi uma tentativa de igualar Pet Sounds.”

Os Beach Boys já estavam na ativa desde 1961, mas antes de Pet Sounds, clássico absoluto da banda, tinham se notabilizado principalmente por canções ensolaradas que idealizavam a vida californiana e falavam sobre surfe, paquera e passeios de carro com a capota abaixada pelas beiras das praias. Eram tão bons-moços que dava raiva. E a música que faziam parecia alienada, bestalhona e propandeadora dum hedonismozinho de meia-tijela. É com Pet Sounds que eles atingem um grau de sofisticação, de experimentação no estúdio e de virtuosismo harmônio e melódico que só encontra paralelo na fase psicodélica dos Beatles e nas gravações feitas pelo mago Phil Spector. Grande parte das composições do álbum foram feitas em parceria por Wilson e Tony Arsher, um publicitário especialista em rimas, e conseguem unir com perfeição a simplicidade característica dos Beach Boys no começo com saltos mais ambiciosos.

Wilson, compositor de ego infladíssimo e espírito ultra-competitivo, imaginou Pet Sounds como uma “sinfonia de bolso” e pôs-se a criá-la com o frenesi neurótico de um perfeccionista obssessivo. A faixa de abertura, “Wouldn’t It Be Nice”, é uma das mais belas pepitas da história do pop, a melancolia mais alegre que já ficou condensada em música; a balada “God Only Knows” tornou-se uma das músicas de amor mais cantadas e choradas que já se gravou; “Sloop John B”, um dos maiores hits da banda.

Mas Pet Sounds não era um mero álbum de singles, como eram os lançamentos anteriores dos Beach Boys, e não havia uma única música dispensável ou mediana – lentas e melancólicas baladas como “Caroline No” e “Don't Talk (Put Your Head On My Shoulder” dividiam espaço com rock sessentista magnífico como “Here Today” e “I Know There's An Answer”. Depois de Pet Sounds, as neuroses, paranóias e abusos nas drogas pisodélicas fizessem com que Brain Wilson começasse a surtar, mas o álbum continua um dos poucos na história do pop com um séquito tão grande de fiéis, que sabem cantar cada verso de cada música; e um dos poucos álbuns idolatrados a ponto de virar camiseta...

Poucos fatos são mais emblemáticos do quão significativo foi Pet Sounds do que este: o de que Paul McCartney, universalmente reconhecido como um dos grandes compositores da história da música pop, autor de algumas das melodias mais memoráveis do rock no século 20, nunca conseguiu se perdoar por não ter conseguido compor nada que se comparasse a “God Only Knows”, que ele considerava a mais bela canção já composta. E para um mestre do tamanho de Macca sentir-se menos que alguém, é mesmo preciso algo fora de série...

DOWNLOAD (mp3 de 160 kps - 44 MB):
http://www.mediafire.com/?nmvmo5dwygo


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:: CURIOSO ADENDO ::

THE BEACHLES - Sgt. Petsounds'


Em 2006, um tal de Clayton Clouds, DJ que virou réu da E.M.I., se meteu a fazer um álbum-mistureba (também conhecido como mash-up) mixando de modo caótico e semi arbitrário o Sgt. Peppers com o Pet Sounds. O resultado é uma curiosidade excêntrica, em algumas partes interessante, com nomes de música engraçados de tão estúpidos, mas no geral um porre - insuportável ouvir o treco inteiro sem se irritar. Eu achei bem mais interessante o cruzamento improvável entre Jay Z e White Album que um tal de Dangermouse soltou anos atrás, mas fica aí o disco disponível pra download. O mais legal é que a E.M.I., que detêm os copyrights dos Beatles e ficou puta da vida com a atitude, tentou processor o DJ e exigiu "dados" sobre todas as pessoas que tinham baixado o disco, mas esses ataques histéricos corporativos não deram em nada e o álbum do The Beachles continua rolando solto na net. Mais um pau no cu da E.M.I., como se não bastasse o do Sex Pistols...

DOWNLOAD (98 MB):
http://rapidshare.com/files/98853614/The_Beachles_-_Sgt._Petsound_s_Lonely_Hearts_Club_Band__2006_.rar

6 comentários:

ana carolina disse...

o Brian tinha uma capacidade e facilidade incríveis de juntar os sons dentro da cabeça, saber como tudo iria soar. é mto bonito. (e acho bonito demais vê-lo tocando, fazendo shows até hj)

me desculpa, Eduardo.. mas o ápice da criatividade do Brian na minha opinião foi o Smile, infelizmente nunca lançado. só com o material não lançado mixado com o lançado dá pra ter uma idéia do q aquilo teria sido... se bem q naquela fase a criatividade já era misturada à insanidade
o Brian era o perfeccionista, o gênio, mas é impossível esquecer do q o Dennis fez musicalmente pela banda nos anos 70, eu considero o Dennis mto talentoso. sem desvalorizar o Carl (a voz mais bonita na banda), o Mike (apesar de ser tão cabeçudo) e o Al.

Beach Boys é minha banda favorita. é engraçado qdo vc descobre isso com 15 anos ouvindo Surfin' USA e saber q aquela vai ser a coisa q vc mais gosta, e mais vai gostar sempre. pq eu tenho mto essa sensação de q por mto tempo ainda não vou conseguir gostar tanto de outros sons como gosto do deles.
e bem, a fase Pós Pet Sounds (a banda se divide nele mesmo, por causa do breakdown do Brian enqto fazia o Smile e tal, mta coisa mudou, a sonoridade, a participaçaõ do Brian, etc) tem albuns mto bons mas qse sempre esquecidos como o Wild Honey, Surf's Up (belíssimo)
mesmo assim, a fase bobinha é fundamental, eles não teriam se tornado aquilo se não fosse a fase mulheres/carros/praia. q pra mim funciona mto qdo quero me animar, dançar.. adoro ouvir :D

e como o Brian diz, o Pet Sounds é pra ser ouvido no escuro com um bom headphone, assim vc tem diversas surpresas.

uma entrevista q li, o sean lennon foi questionado se preferia rolling stones ou beatles e ele disse beach boys. ah! ele tb adora ouvir a fase surf qdo quer ficar feliz :)

eduardo disse...

Uau, uma aula de Beach Boys, Professora Ana! Acho que você manja mto mais sobre a banda do que eu, que só conheço "by heart" o Pet Sounds e os hits da fase bobinha-alegrinha (que é msmo mto legal... música pop grudenta e "alegrante" de 1a linha!).

Realmente já ouvi mta gente dizendo que o Smile foi o ápice do Brian Wilson, que ia deixar o Sgt Peppers no chinelo, que ia virar um dos mais elogiados álbuns da história do pop... mas nunca vamos saber de verdade "o que teria sido se fosse...". Eu gostei bastante da versão q o Brian lançou uns anos atrás, mas não dá nem pra imaginar o q seria o disco qdo lançado nos anos 60, q repercussão teria dado, q história faria, q tipo de reação Beatle viria para tentar "superar" a nova obra-prima do Brian... Pelo menos ele se tornou um dos discos não-lançados mais "mitológicos" q tem por aí! =)

Baixarei "Wild Honey" - ainda não conheço (q vergonha!).

E essa do sean lennon eu não sabia! Pô, o filho do Homem preferindo os Beach Boys aos Beatles? Oloko!

Valeu pelo longo e interessante comentário-confissão! E volte sempre... =)

Anônimo disse...

http://tinyload.com/
Ae cara, manda os links por esse site. Ele faz upload em vários sites ao mesmo tempo.
O mediafire tem velocidade baixa, e as vezes o resume da erro.
Pelo rapidshare eu consigo baixar mais rápido.
Gostei muito do blog!

eduardo disse...

Opa, valeu pela dica do Tiny Load, vamos testar esse serviço sim! O único problema do Rapidshare é que ele impede a pessoa de baixar mais de um arquivo por vez e tem um pouco mais de "burocracia" até chegar no arquivo (tipo aquele treco dos gatinhos lá...). Sem falar que costumo dar preferência pro Media Fire pois lá eu sei qtos direitinho qtos downloads foram feitos de cada arquivo, o que no Rapidshare não rola. Mas pelo Tiny Load parece firmeza - deixo as duas opções pro povo escolher... Valeus!

Lucas Nonose disse...

Parabéns ao Depredando!

Encontrei o blog depois que fiz uma pesquisa no google sobre a banda thee butchers orchestra acabei entrando no depredando e como de costume dei uma fuçada nos outros post, arquivos e descobri uma resenha maravilhosa sobre o disco Funeral e além disso vários post de uma diversidade musical muito boa e ainda acompanhados de resenhas otimas!
bom é isso.espero que continuem com o blog por muito tempo!
abraços!

eduardo disse...

Aê Lucas, valeu pela força! Fãs de Thee Butchers Orchestra são sempre gente mui bem-vinda em nossos domínios! Com ctza continuaremos com as depredações por mto tempo, ainad mais com incentivos tão bacanas de nosso fiel público leitor e escudeiro... =)

Noise!!!