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terça-feira, 10 de julho de 2012

Che Guevara por Zizek: "a beatificação inofensiva se mistura com a mercantilização obscena"





“Os protestos anticapitalistas dos anos 1960 (de Maio de 68 em Paris ao movimento estudantil da Alemanha e aos hippies dos EUA) remataram a crítica-padrão à exploração socioeconômica com os novos temas da crítica cultural: a alienação da vida cotidiana, a mercantilização do consumo, a inautenticidade da sociedade de massas, em que somos obrigados a “usar máscaras” e a nos submeter à opressão sexual, entre outras.  
Podemos entender agora por que tanta gente insiste que Che Guevara, um dos símbolos de 68, tornou-se “o ícone pós-moderno quintessencial”, que significa ao mesmo tempo tudo e nada. Em outras palavras, significa qualquer coisa que se queira que signifique: rebelião da juventude contra o autoritarismo, solidariedade com os pobres e explorados, santidade, […] trabalho pelo bem de todos.  
Há alguns anos, um alto representante do Vaticano afirmou que os louvores ao Che deveriam ser entendidos como expressão da admiração por um homem que arriscou e deu a vida pelo bem dos outros. Como sempre, a beatificação inofensiva se mistura com seu oposto, a mercantilização obscena. 
Recentemente, uma empresa australiana pôs no mercado o sorvete “Cherry Guevara”, é claro que concentrando a propaganda na “experiência de comer”: “A luta revolucionária das cerejas foi esmagada ao serem encurraladas entre duas camadas de chocolate. Que a memória delas viva em sua boca!” (in: Michael Glover, “The marketing of a marxist”, Times, Londres, 6 jun 2006)
No entanto, há algo de desesperado nessa insistência de que o Che se tornou um logotipo-mercadoria inofensivo - testemunhamos a série recente de publicações que nos advertem de que ele também foi um assassino frio que organizou os expurgos cubanos de 1959 e assim por diante. É significativo que essas advertências tenham surgido exatamente quando novas rebeliões anticapitalistas começam a ocorrer no mundo, tornando o ícone mais uma vez potencialmente perigoso…”
 




SLAVOJ ZIZEK
“Primeiro como Tragédia,
Depois como Farsa”
Editora Boitempo
(Pg. 56, 57)








terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Os 3 Melhores Documentários Musicais de 2011...


por Ana Alice Vercesi


 Conhecido por transformar trechos de sua própria vida em ficções deliciosas, como “Quase Famosos” e “Singles”, Cameron Crowe foi na contramão dos outros grandes diretores que se aventuraram em documentários musicais em 2011 e decidiu registrar em vídeo a história dos próprios amigos. Esse toque pessoal, longe de comprometer o resultado, trouxe a “Pearl Jam 20” um frescor que garantiu o primeiro lugar ao filme aqui no blog.


Para quem espera uma história baseada na banda que tem em Eddie Vedder um ícone, mais do que um líder, a surpresa será grande. Primeiro porque o Pearl Jam nasceu dos restos mortais do Mother Love Bone, grupo que também era feito de um líder carismático e inesquecível: Andy Wood, que morreu de overdose em 1990. O resgate da breve trajetória e das raras imagens do MLB, cujas raízes explicam o som “grunge” que tanto caracterizou uma geração de músicos, já vale o documentário. Para se ter uma ideia, o próprio Vedder só ousou cantar uma música do Love Bone no palco na comemoração de dez anos do Pearl Jam.

A partir daí, o eixo narrativo se concentra no baixista Jeff Ament e nos guitarristas Stone Gossard e Mike McCready, que encontraram em Vedder a voz, a lírica e a intensidade que procuravam para seu som. Viram esse mesmo baixinho muito tímido, importado dos mares da Califórnia, se ambientar à cinzenta Seattle e à cena local formada por amigos de infância. Presenciaram o vocalista se agigantar nos palcos aos poucos e dominar o escopo criativo do Pearl Jam. E por fim, narra o fortalecimento da banda em meio às intempéries da linha do tempo, como as farpas trocadas com o Nirvana, a briga judicial com a Ticketmaster e a morte dos fãs no festival Roskilde.

Dos três filmes lembrados aqui, “PJ 20” é o que mais lembra uma narrativa tradicional de documentário e, ao mesmo tempo, tem aquele toque de filme caseiro, de família sentada na sala relembrando imagens que nem sabia que ainda possuía guardadas. E essa humanização só mesmo quem já passou muitas noites na sala de jantar é capaz de traduzir.


Top 3 Docs 2011, segundo lugar: “Foo Fighters: Back and Forth”, de James Moll

Espécie de flor de lótus gerada no meio do esterco que foi o fim do Nirvana, o Foo Fighters esperou álbuns e álbuns por sua redenção perante a comunidade musical. E exatamente um ano antes de sua apresentação em solo brazuca no Lollapalooza, a banda de Dave Grohl, – o até então considerado “cara mais legal do rock” – disponibilizou nos cinemas o documentário que, a reboque do aclamado recém-lançado álbum “Wasting Light”, traria o resgate de sua nada calma história.

Vamos muito, muito por partes. “Back and Forth” presta, a princípio, um serviço aos fãs mais recentes, que estão acostumados a ver as caras sorridentes do grupo e todo o sucesso atual que ele alcança, e nem imagina os sacos de sal que o povo já comeu, como as idas e vindas de Pat Smear na guitarra; a overdose do batera Taylor Hawkins; e as demissões nada amigáveis do guitarrista Franz Stahl e do baterista Willian Goldsmith. Também narra uma trajetória incrível de uma banda que surgiu de uma demo tape que Grohl gravou sozinho, ainda em meio à letargia que se seguiu ao suicídio de Cobain, e que aqueles moleques do clipe de “Big Me”, uma paródia impagável dos comerciais de Menthos, jamais imaginariam onde iria parar.

Por outro lado, é uma biografia mais que autorizada e, por isso mesmo, mantém os dentes do ex-baterista do Nirvana brilhantes na tela. Uma outra narrativa lançada em livro também em 2011, “This is a Call – The Life and Times of Dave Grohl”, do jornalista Paul Branningan, esclarece alguns desses episódios que o filme abranda um certo tanto. Apesar de fã declarado de Grohl, o autor consegue esmiuçar um pouco mais, entre outras coisas, como o baterista Willian descobriu que a banda toda estava refazendo “The Colour and The Shape” sem ele. Como Franz Stahl sacou, em 1997, o que Dave Grohl decidiu deixar em panos limpos só lá na frente, em One by One (2002): que aquela era banda dele, e ele decidiria no fim das contas como ela seria, por mais que adorasse que todos dessem ideias. E, entre todos os contratempos do mundo, os muitos e muitos “brancos” de criatividade que aplacaram o grupo em toda sua história.

Com uma discografia considerada pela crítica como bastante irregular, o Foo Fighters tem, no entanto, um mérito gigante na história da música das últimas duas décadas que “Back and Forth” ressalta com maestria: eles são pura celebração da festa que é o rock and roll, com propriedade técnica. Um moleque que cresce ouvindo a banda precisa se esforçar em um nível bem maior para tirar as músicas se comparado a outros grupos contemporâneos e, dado o seu alcance pop mundial, os integrantes indicam bandas um tanto decentes que a molecada deveria ouvir, antigas e novas. Sem contar a facilidade com que Grohl trafega pelos mais diversos gêneros, seja em colaboração com o Queens of the Stone Age, com seu projeto de heavy metal Probot ou em parcerias pelo mundo afora – sem a Roberto-Carlização que acomete Andreas Kisser, por exemplo.


Tio Martin Scorsese ganhou o terceiro lugar com sua tentativa de narrar a vida do beatle George Harrison em Living in the Material World

Em “Shine a Light”, registro ao vivo de um show dos Rolling Stones capturado por Scorsese, o diretor penou para descobrir o set list de Mick Jagger & Cia. O papel só lhe foi entregue momentos antes da apresentação começar. Uma espécie de segredo guardado longe do cineasta, um desafio para que ele rebolasse nos 30 e comandasse as câmeras sem ter muito tempo para poder preparar a equipe. E agora, nessa nova incursão do cineasta ao mundo da música, mesmo com toneladas de imagens e depoimentos, o desafio do segredo permanece.

O motivo, a princípio, é simples: uma banda de sucesso é e será sempre um segredo bem-guardado. Algo que apenas os que viveram toda a “mania” são capazes de entender e compartilhar. O próprio Ringo Starr declara isso. E Eric Clapton, uma das (tentativas de) linhas condutoras do filme, deixa bem claro que, apesar de se sentir muito amigo de George, não é capaz de dizer o quão próximos eles eram de fato.

“Living in the Material World” busca retratar os dois lados do beatle que, enquanto buscava a transcendência do corpo físico, era incapaz de resistir por muito tempo às tentações da carne. O problema é que, enquanto há centenas de imagens do rapaz na Índia, gravando mantras ou pregando a paz, pouco se revela a respeito do lado negro da força de Harrison. Paul McCartney se limita a dizer que, “como homem, ele gostava do que os homens gostavam”, e uma resignada Olivia Harrison é capaz de assumir o poder de sedução de seu falecido marido. Klaus Voorman, colega dos Beatles dos tempos de Hamburgo, assume o vício de George nas drogas e o quanto isso o consumia. Mas só.


Lágrimas de Ringo

Outro desafio enfrentado por Scorsese foi lidar com o material já existente em imagens. Nesse aspecto, o diretor mostra momentos brilhantes ao alinhar foto e vídeo em várias passagens; trabalhar com frames aparentemente banais capturados por George, seja em seu jardim, na praia ou na cozinha, e costurá-los na narrativa; e arrancar lágrimas de Ringo enquanto esse descreve seu último encontro com o guitarrista.

Apesar das inúmeras críticas em relação à falta de um narrador em off, que ajudaria a contextualizar muitos dos depoimentos (não há preocupação em saber se o espectador conhece de fato os entrevistados, e quem não tem familiaridade com a história da banda pode se perder bastante), Scorsese consegue com essa estratégia que todos tenham um peso equivalente, salvo os ex-integrantes da banda e as viúvas de Lennon e Harrison. Um peso que parece ser o mesmo que o guitarrista deu a todas essas pessoas enquanto vivia, como descreveu Clapton.

Uma das falas mais poéticas é do ex-piloto de F1 Jack Stwart, que enxergava em George a mesma capacidade de sentidos aguçados que um piloto vivencia nos momentos extremos de velocidade. Talvez a vida do autor de “Something” tenha sido isso mesmo: uma viagem supersônica com os sentidos a mil, da qual nós, sentados à beira da estrada, só tenhamos direito mesmo a ver um borrão.








DOWNLOADS (VIA THE PIRATE BAY):

quarta-feira, 4 de maio de 2011

<<< Hendrix em Woodstock (Um Memorável Dia em 1969) >>>


HENDRIX @ WOODSTOCK (1969)
O ápice de um ícone cultural de proporções bíblicas


DICK CAVETT
:
So you agree there's some kind of mad beauty in unorthodoxy?
HENDRIX (Começa a grunhir e imitar um monstro): YEAAAAAH!



Quando a aurora despontou naquela manhã de segunda-feira, em 18 de abril de 1969, sobre a fazenda que sediava o Festival de Woodstock, no interior do estado de Nova Yorke, seus raios iluminaram algo de proporções bíblicas, apesar dos milhares de pequenos rituais pagãos e xamanísticos que ali tinham se desenrolado, turbinados por muito ácido lisérgico e cannabis: eram os estertores finais de um festival destinado a se tornar lendário, não só pelas mais de 600 mil pessoas que compareceram, mas também pela sacramentação de certos ícones culturais que prosseguem reverberando em nossos tempos.

Jimi Hendrix, escalado para encerrar os três dias da mega-celebração hippie, após a passagem de uma espantosa caravana de talentos pelo palco de Woodstock (já haviam se apresentado The Who, Janis Joplin, Creedence Clearwater Revival, Grateful Dead, Sly & the Family Stone, Joe Cocker, Crosby Stills Nash & Young, entre outros...), acabou sendo empurrado pelos seguidos e colossais atrasos para o período da manhã, horário em que os pais-de-família engravatados estão se preparando para o trabalho e já se instala o clima de quarta-feira-de-cinzas.

Era uma segunda-feira de manhã, tradicionalmente um horário besta ou odioso, quando nada de interessante está acontecendo, quando levantam-se da cama a contragosto os estudantes, os operários, as grandes massas trabalhadoras... uma "hora do dever" (e não do prazer), quando somos requisitados pela "sociedade" ao trabalho (e não à qualquer ritual, culto ou prazer proibido), e quando os severos ponteiros do relógio fecham a cara e, sem alegria, decretam o "Tu Deves!", dragão que tanto horroriza qualquer nietzchiano... Segunda pela manhã não parece ser, segundo a ortodoxia reinante, uma hora muito propícia nem pro rock'n'roll, nem para celebração do amor, da liberdade e dos poderes redentores da música. Mas quem disse que Hendrix dá a mínima para as ortodoxias? E não há muito mais beleza em, ao invés de seguir em linha indiana, criar o novo ao destoar das regras e rasgar as tradicionais cartilhas?

 Jimi Hendrix, sem dar a mínima para o relógio, como quem diz "eu vivo é na eternidade do presente!",  tomou conta daquele palco em Woodstock com a delicadeza de um furacão. Subiu depois de consumir no backstage o que a Wikipedia descreve com modéstia como uma "dose potente de LSD" e convocou um culto hippie que jamais seria esquecido. Para provar que toda hora é uma boa hora para celebrar dionisiacamente a vida e suas maravilhas.

As pessoas que estavam ali para ver Hendrix eram os heróicos remanescentes de uma maratona/epopéia. Estavam ali, sujos de lama e chapados, a maioria com os ossos moídos pelo cansaço e os ouvidos judiados por decibéis em excesso, numa segunda-feira de manhã, aguardando que Jimi chegasse junto com the first rays of the new rising sun. Quadro curioso! Pois para qualquer um que siga a cartilha do capitalismo industrial consumista, que nos quer autômatos bem-regrados sacrificando-nos ao deus "produtividade" e consumindo supérfluos nas horas-de-lazer, a segunda-feira de manhã jamais poderia ser ocupada com algo do tipo: um ritual hedonista, quase uma orgia dionisíaca, em que o xamã Jimi e seu pilhado chá de música enfeitiçavam a platéia, até que todos, capturados pela beleza irracional e esplendorosa daqueles momentos, entregassem seus escudos e consagrassem seus sentidos e suas consciências àquele espetáculo enigmático e inédito como se observassem a explosão de uma supernova....

O que ocorreu aquele dia foi um sacrilégio pagão de deixar assombrado qualquer cristão carola. A guitarra  ganha nas mãos de Hendrix o status de um objeto de um ritual xamânico, instrumento do transe místico... Hendrix pira em público sem o mínimo pudor. "He didn't mind lookin' freaky, like I didn't mind.", comenta Little Richard (ele mesmo, de "Long Tall Sally" e "Tutti Frutti"), o pastor do rock and roll que prenunciou muito da performance incendiária de Jimi.

A beleza e intensidade da experiência que Hendrix criou ali, para o testemunho dos presentes e dos pósteros, é um eloquente tratado sobre os benefícios da desmesura, do descontrole, da catarse ego-sacrificante... Jorram pétalas elétricas da guitarra desse menino-mago, turbinado com psicotrópicos que o deixavam "pra lá de Bagdá", em enigmáticos contatos com forças cósmicas inacessíveis a nós, reles mortais. Até hoje suspeito que aquela dose de LSD mandou Hendrix mais ou menos... pra região do Haiti.

"I'm a voodoo child, Lord knows... I'm a voodoo child!" - berra ao microfone, e quem testemunha aquilo na hora suspeita que aquele negão, pra ter adquirido um talento tão descomunal, deve ter feito macumba, magia negra ou pacto com o tinhoso.

Diante daquela confissão do "filho do Vodu", alguns podem ter se assustado como se estivessem diante do anti-cristo, mas o feitiço se espalha... E não tarda e as pessoas já estão remexendo-se e dançando como se estivessem de fato num voodoo no Haiti, como que possuídas pelo "demônio" daquela música enfeitiçante.

"Love & Understanding & SOUND!" - diz Jimi Hendrix para a platéia, como se enunciasse, sintético e direto-ao-ponto, sua nova tábua de valores. E aquilo que hoje conhecemos por Movimento Hippie acolhia com pleno abraço este "credo", que nada tinha de fundamentalista e dogmático. Hendrix em Woodstock é uma aula magna sobre o movimento hippie e que nos conta que, entre outras coisas, que nenhum hippie gosta de carregar cruz: prefere dançar livre do peso destas bagagens impostas e malditas.


O hippie chuta o cristianismo pra escanteio enquanto baila. Expulsa a tirania do pecado e da penitência e instaura (ainda que numa "zona autônoma temporária", para usar o conceito de Hakim Bey), uma era de mais calor, colorido e alegria. Nenhum sinal de culto ao sofrimento na atitude de Hendrix e banda (Billy Cox, Mitch Mitchell e o resto da trupe): "happiness, happiness, happiness!", repete Jimi ao microfone, como um mantra evocador de good vibes. Hendrix faz ali o papel de construtor de tapetes voadores que nos levariam a visitar inimagináveis wonderlands.

Tanta excitação fez com que aquele alvorecer de dia mais se parecesse com o alvorecer de uma nova era. Quando um Lennon tomado pela amargura e pelo desencanto cantar, anos depois, "the dream is over", talvez tenha em mente o sonho que parecia tão tangível e palpável enquanto Hendrix esteve no palco de Woodstock. Pois ali não era difícil que muitos embarcassem nos tapetes voadores da utopia, surfando nas ondas levantadas por Hendrix: ali estava ainda intacto o "utopismo" hippie, mesclado com a indignação e a revolta contra a ilegítima e perversa sangreira do Vietnã (que, como bem sabiam muitos dos jovens americanos "antenados" com a contracultura, era muito mais um massacre imperialista injustificável do que qualquer tipo de conflito "legítimo").

Hendrix tocava com o combustível para o entusiasmo que eram o engajamento do movimento anti-guerra, a força do Black Panthers e das feministas, do Weather Underground e do legado beatnik, da mensagem de Bob Dylan e da força vulcânica  do rock britânico (na época, Beatles, Rolling Stones, The Who ainda estavam na ativa, todas no auge)...

Resta destacar nesta matéria tateante e cheia de devaneios (que procura explicar o inefável e pôr em palavras o indivízel...) um dos detalhes daquele show que mais "mitológico" se tornou: a "releitura" hendrixiana do hino nacional americano. Aquela ruidosa e irreverente descontrução da “Star Spangled Banner”, tocada de maneira (para usar um adjetivo light) “pouco ortodoxa”, repleta de dissonâncias e microfonias, retrata um artista cheio de garra instintiva soltando ruídos de desdém iconoclasta diante da era do tonalismo, da harmonia obrigatória, do respeito às tradições venerandas dos pastores e políticos dos povos... 

Se isso simboliza tão bem Jimi Hendrix e sua era, talvez seja porque aquele som é discordante e dissonante em relação ao discurso político oficial, mas ao mesmo tempo intimamente conectado com o sentimento de rebelião e ceticismo contra o governo federal americano daqueles tempos sangrentos, em que vietcongues e mariners morriam como moscas... Aquilo é Hendrix esfregando na cara do poder: "agora vamos fazer do nosso jeito, caros Senhores da Guerra, já que vocês têm feito um trabalho tão mau-feito". O espírito dylanesco do "the times they are a-changin'" pulsava ali, naquela linda insubmissão e redefinição dos "limites", naquele estupro esplêndido da fronteira que separa a veneração da re-criação... Quando Dick Cavett pergunta a Hendrix sobre a canção, Jimi responde, com auto-segurança, como que apaixonado pela própria criação e orgulhoso de seu rebento: “eu não considero que aquilo foi heterodoxo; achei que foi lindo”.

Símbolo de uma geração que encontrava beleza na discórdia, que opunha flores a rifles, que unia forças contra os massacres e injustiças cometidas pelos caretas e reaças na Casa Branca e no Exército, e que, melhor que tudo, tinha todo um estilo-de-vida alternativo para sugerir à civilização ocidental, que depois de duas Guerras Mundiais parecia continuar sua insana jornada rumo ao abismo e aos cogumelos atômicos. Hendrix foi a encarnação desta junção entre a dissonância crítica e o entusiasmo utópico e, por isso, símbolo supremo da Era Woodstock.