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terça-feira, 26 de junho de 2012

"No longer to be poisoned by civilization, he flees and walks alone upon the land to become lost in the wild..."



INTO THE WILD  
NA NATUREZA SELVAGEM



“…prefiro o céu salpicado de estrelas a um teto,
a trilha obscura e difícil, levando ao desconhecido, 
a qualquer estrada pavimentada…”

Última carta de Everett Ruess
(11 de Novembro de 1934)

in: Jon Krakauer
”Na Natureza Selvagem”
(Ed. Cia das Letras, pg. 97)




I. AVENTUROSIDADE & HEROÍSMO
Reflexões sobre um fascínio


“Não é sinal de saúde estar bem adaptado
a uma sociedade profundamente doente” 

Krishnamurti


Decerto que há os conformados, e que eles formam imensas manadas. Raul Seixas quiçá diria deles: são “pedras que choram sozinhas no mesmo lugar”. Gente que quer imitar o reino mineral. Criaturas com propensão para a estagnação e que sonham ser montanha ao invés de rios a fluir. Apegam-se às suas “identidades”, agarrados a um dogma que formaram sobre aquilo que são e devem ser, e seguem pelas vias estreitas de um mundo domado. E, seguras em suas fortalezas, detrás de seus muros e grades, protegidos pelo arame farpado ou pelo carro blindado, dizem em suas melancolias, com sorrisos forçados: “Pois não é verdade que se deve adorar as benesses da civilização? Ó estradas e pontes, edifícios de concreto e fortalezas de metal! Aleluias à riqueza material que nos permite viver no conforto, no Sacrossanto Conforto! Tudo isso não merece ser glorificado, ó Deusa Tecnologia, ó Deidade Engenharia, como algo que nos torna a vida mais fácil e confortável?” Eis a ladainha dos tempos.

Em contraste com esta “manada dos normais”, adormecida na crença de que a melhor vida é aquela “fácil e confortável”, há uma série de seres humanos bem mais turbulentos, inquietos, inconformados. É a eles que o mundo deve alguns dos maiores exemplos de heroísmo, subversão da ordem, revolução de costumes, obras de arte de impacto. Alguns restringem seu heroísmo ao “mundo do espírito”: inventam histórias de gente que realiza as proezas que eles nunca fizeram ou farão. Há desses pretendentes à Jack London que ficam, seguros em suas casas, de cachecol diante da lareira, escrevendo sobre aventuras na neve e confrontos com lobos… Mas há outros para quem o único heroísmo que conta é a ação real sobre o palco do planeta.

Como não trepidar e não se excitar ao ler a descrição que faz Jon Krakauer, por exemplo, desses humanos intrépitos que ousam encarar a natureza selvagem? Dinamietzsches, Blakeanos, Tolstoístas, Thoreauastas, Supertramps, Hippies, Beatniks, Easy-Riders, Boêmios Errantes… todos aqueles que preferem o destino de nuvens ciganas e pedras que rolam. São mendigos iluminados, malucos-beleza transbordantes de lucidez, xamãs involuntários de uma sociedade doente. “Não é sinal de saúde estar bem adaptado a uma sociedade profundamente doente”, diz Krishnamurti. Eles concordam.

Buscam estradas heróicas frequentemente sob a influência fascinante de algum herói prévio que idealizam. O heróico para Nietzsche, por exemplo, parece ser uma mescla de Diógenes e Heráclito, Sófocles e Dionísio… um “espírito livre”, desafiador de todas as convenções e convicções aprisionantes, que é sátiro e dançarino, que prefere usar a coroa de flores de Zaratustra à coroa de espinhos de Cristo, que conhece as tragédias mas sabe afirmar a vida, não foge do sofrimento mas aprende com ele, sabe-se descendo a corredeira do Tempo mas medita sobre os ciclos e os retornos… A figura das montanhas altaneiras, escaladas por um audaz “espírito livre” sem temor de enxergar mais longe e mais fundo do que o comum dos mortais, que suporta com o máximo de júbilo possível o seu fardo de solidão e clarividência, desenha uma auréola de heroísmo em torno de Nietzsche que talvez explique, ao menos em parte, sua “popularidade” póstuma.

O Capitão Nemo, protagonista de Vinte Mil Léguas Submarinas (Júlio Verne), personagem que “foge da civilização e corta todos os laços com a terra”, foi uma das inspirações do andarilho-alpinista infatigável Everett Ruess. Só que, ao invés de descer às profundezas do Oceano, Ruess preferiu lançar-se sem muitos escudos em meio à indomada Natureza. “Duas vezes quase fui morto pelos chifres de um touro selvagem; escapei por pouco de cascavéis e do desmoronamento de rochas; fui atacado por abelhas selvagens e algumas ferroadas a mais poderiam ter sido fatais para mim…” De relatos de proezas assim está repleto o relato de Everett Ruess que Krakauer reproduz. O que será isso: vontade de fazer disparar no sangue a adrenalina? É ser um junkie de excitações orgânicas? Ou será mero gosto pela bravata? Uma espécie de desejo de auto-glorificação ao buscar experiências de alto risco? Vive-se para vivê-las ou para contá-las?

O caso de Christoppher McCandless é para mim outro fascínio intenso. Muito por causa do impacto do filme Into the Wild – Na Natureza Selvagem, uma das obras que me são mais queridas no cinema deste jovem século. Sean Penn, em sua adaptação cinematográfica do livro-reportagem de Krakauer, soube “heroicizar” a figura de McCandless (vulgo Alexander Supertramp) ao invés de reduzi-lo através da “psico-patologização”. Em outras palavras: tratou McCandless/Supertramp não como um biruta qualquer, um cara com parafusos a menos, um vicioso “desajustado social”, mas sim revelando tudo que havia de romântico, idealista, rebelde, subversivo, doce e ambíguo neste destino tão heróico – e tão trágico.






II. DESPOJAMENTO & ABERTURA
Alexander Supertramp rumo à Natureza Selvagem


“Ele se chama Sonho Americano
pois você precisa estar dormindo
para acreditar nele.”

George Carlin



Christopher McCandless, no começo da Década Grunge, era um rapaz de uma abastada família americana de Washington, D.C. Excelente aluno, atleta de elite, tinha um Datsun que adorava e uma poupança pançuda. Ou seja: todos os ingredientes de um futuro “garantido”. McCandless se encontrava no que alguns veriam como uma situação privilegiada “invejável”, pronto para ajustar-se perfeitamente ao Sistemão Norte-Americano. Ao invés, porém, de seguir obediente nos trilhos do american way e sonhar de olhos abertos, junto com a manada dos normais, o Sonho Americano, McCandless, “no verão de 1990, logo após formar-se com distinção na Universidade, sumiu de vista. Mudou de nome, doou os 24 mil dólares que tinha de poupança a uma instituição de caridade, abandonou seu carro e a maioria de seus pertences, queimou todo o dinheiro que tinha na carteira” (Krakauer, pg. 9).

Até daria para dizer que aí já está presente um certo “elemento Tyler Durden”. Tyler Durden, me parece, é outro dos símbolos da época, de estandartes do zeitgeist, de retrato da nossa disgrama. “As coisas que você possui acabam por te possuir”, diz Brad Pitt a Edward Norton em um momento da obra de David Fincher em que ainda nem suspeitamos que está rolando uma alucinada conversação entre um funcionário do mundo corporativo e seu amigo-imaginário, Tyler Durden, o subversivo, o terrorista, o incendiário. Conforme a civilização nos EUA foi degringolando para um anarco-capitalismo cada vez mais irracional em sua fome de lucros e em sua ideologia kitsch em prol do Conforto, mais e mais pipocaram rebeldias, terrorismos, contra-culturas – e heroísmos.

Não se trata, porém, de “idealizar” o heroísmo, dizer que ele é a solução para o planeta e lançar toda uma carga positiva pra cima da idéia de um estilo-de-vida heróico. Com certeza muitos crimes e injustiças podem ser cometidos por gente que acredita estar agindo “heroicamente”. Reflitamos um pouco no fato de que, na perspectiva dos sujeitos que realizaram o Atentado do 11 de Setembro, eles estavam cometendo um ato de heroísmo religioso, um digníssimo e elogiável martírio (sem dúvida comemorado por muitos em Kabul ou Bagdá como se comemora, no Brasil, uma vitória na Copa do Mundo…). Derrubar um dos símbolos da arrogância capitalista da América, trazer abaixo o Templo onde os ímpios, esquecidos de Deus, cultuam o Bezerro de Ouro, tudo isso representava “missão”, “destino”, possibilidade de ascensão ao Paraíso. Enfim: Alá aprova e glorifica os que destroem a mundana ganância cega da América…

Porém, não é este o único meio – explodir prédios comerciais com aviões sequestrados numa hecatombe de milhares de mortos – para protestar contra o sistema econômico-político. Chris McCandless é uma figura tão instrutiva pois ele procura escapar das garras deste Capitalismo Neo-Liberal Ecocida que está aí por outras vias: segue o exemplo de Tolstói, Thoreau e Jack London, buscando a independência em relação às obsessões consumistas e às neuroses urbanas de que estão repletas as nossas metrópoles e os nossos subúrbios. Inteligente, bem-informado, sensível aos problemas alheios, mesmo aqueles de países distantes, McCandless é um desses que desperta para o fato óbvio de que o Capitalismo não está funcionando, que gera concentração imensa de capital nas mãos de pouca gente, gerando efeitos colaterais terríveis em termos de fome, miséria, doença, poluição, destruição ambiental – em suma: o Capitalismo é a desgraça de bilhões, ainda que seja a maravilha de alguns. No planeta Capitalista, é “normal” que 2 bilhões morram de fome para que uns 2 mil possam ter seus palácios, mansões e carrões onde possam sofrer de indigestão e obesidade. 

McCandless, impregnado por um ideário ético que valoriza o vivenciar e não o possuir, o despojamento ao invés do conforto, a abertura de consciência contra o auto-aprisionamento em convenções, doa tudo o que tem para ajudar os necessitados – a Oxfoam recebe 100% de sua poupança – e parte para a aventura de ser um SuperMendigo, cuca-fresca e cabeça-aberta, que sabe que neste mundo, de onde nada se leva, quem perde o teto em troca ganha as estrelas. 

Vade retro, Superman!!! 




III. PREFERINDO O DIFÍCIL


“Eu queria movimento e não um curso calmo de existência. Queria excitação e perigo e a oportunidade de sacrificar-me por meu amor.Sentia em mim uma superabundância de energia que não encontrava escoadouro em nossa vida tranquila.” 

Léon Tolstói 
“Felicidade Conjugal” 
Trecho sublimado em um dos livros encontrados com o cadáver de Chris McCandless



Eddie Vedder, nas canções que compôs e cantou sobre a inspiradora figura de Chris McCandless, destaca com frequência o fato de Alex Supertramp ter nascido de um desejo de sumir, desaparecer, vazar: ir pra bem longe da “sociedade” como a conhecia. “Society, you’re a crazy breed… hope you’re not lonely without me…” Estamos falando, é claro, daquela sociedade yuppie dos EUA, que celebrizou-se por criações como Walt Disney, Hollywood, McDonalds, Mickey Mouse, Tio Patinhas… As crianças que crescem sob tais influências sonham desde o berço em possuir a beleza de Barbies, ainda que a custo de plásticas, lipos e anorexias; obcecam com viagens maravilhosas à Disneylândia; com um imenso apetite por milk-shakes, marshmallows e Big Macs… O “ideal de vida” que por lá é vendido convida a todos a perceber a felicidade exatamente igual à maneira como um pato imbecil a concebia: aspirantes a Tios Patinhas, eles têm fantasias colonizadas pelo sonho de um dia nadarem em uma imensa piscina de moedinhas de ouro – e 18 quilates!… 

“It’s a mystery to me: we have a greed with which we have agreed. You think you have to want more than you need. Until you have it all you won’t be free.” Em três versos riquíssimos (das riquezas que contam, do “ouro de dentro”, como diria Hilda Hilst), Vedder sintetiza a ópera: há um acordo tácito em relação à ganância; todos pensam que precisam ter mais e mais, esquecidos de suas verdadeiras necessidades; e é crença geral que só existe liberdade no possuir, no “have it all”. Uma imensa catarata sobre os olhos de milhões causa essa miopia epidêmica: só conseguir imaginar a felicidade sob a perspectiva do consumo e da posse. “Para ser feliz, é preciso comprar e comprar, possuir e possuir!” – assim prossegue a ladainha dos tempos… 

Jon Krakauer insiste, em vários pontos de seu livro, no fato de Chris McCandless ser uma pessoa “extremamente ética” que “se impunha padrões bastante elevados” (pg. 30) e com “traços de idealismo obstinado que não combinavam facilmente com a existência moderna” (pg. 10). Krakauer relembra-nos com recorrência do culto que McCandless prestava ao escritor russo Tolstói: caroneiro atravessando milhares de quilômetros da América que está fora dos cartões-postais, McCandless costumava recomendar a seus companheiros de jornada a leitura de Guerra e Paz. Entre a dúzia de livros encontrados junto a seu cadáver no busão abandonado no Alasca, estavam livros de Tolstói e Thoreau, duas figuras que ele parecia enxergar como “paradigmas” éticos, modelos a serem imitados, “sábios” à cuja aprovação ele aspirava. “Cativado há muito tempo pela leitura de Tolstoi, admirava em particular como o grande romancista tinha abandonado uma vida de riqueza e privilégios para vagar entre os miseráveis” (pg. 10). Krakauer conta também dos cursos que McCandless frequentou sobre o problema racial na África do Sul do apartheid, de seu veemente interesse e preocupação em relação ao problema da fome no mundo e sua “intensa aversão ao governo” (pg. 204).


“Não é nada incomum para um homem jovem ser atraído para uma atividade considerada imprudente pelos mais velhos; o comportamento de risco é um rito de passagem em nossa cultura. O perigo sempre exerceu um certo fascínio. É em larga medida por isso que muitos adolescentes dirigem depressa demais, bebem demais e tomam drogas demais, e que sempre foi fácil para as nações recrutar jovens para a guerra. [...] Chris McCandless tinha necessidade de se testar em questões, como gostava de dizer, “que importavam”. Possuía grandiosas ambições espirituais. Conforme o absolutismo moral que caracterizava as crenças de McCandless, um desafio em que o sucesso está garantido não é desafio nenhum. [...] O significado que ele tirava da existência estava longe do caminho confortável: ele não confiava no valor das coisas que vêm facilmente.” JON KRAKAUER (pg. 192)
Alexander Supertramp, que tem nome de imperador mas aspirações a “mendigo iluminado”, é a encarnação de uma prática rebelde em relação ao estilo-de-vida dominante. Decerto que existem muitos exemplos na História de homens ricos que renunciam à sua fortuna: é uma estória tão velha quanto… Buda. Não se conta que Sidarta Gautama também abdicou de todo o luxo do palácio para se procurar a iluminação em andrajos pelos campos e debaixo de árvores? McCandless é um dos poucos norte-americanos que, tomando consciência mais plena dos rumos de sua pátria, decide pular do barco, procurar uma via própria, longe das estradas pavimentadas.

O dinheiro não lhe interessa – não mais. Uma vida fácil e confortável, rodeada de consumos e simulacros, lhe enoja. Prefere estar ao ar livre, sujando as botas na lama dos caminhos que ainda não foram trilhados, escalando montanhas rumo a cumes por poucos pisados. Não quer manter a Natureza à uma distância segura, só saber dela através dos livros ou dos vidros. Quer sentir a brisa na face e dormir sob um céu salpicado de indecifráveis estrelas. A facilidade é insossa, a busca por conforto é neurótica, a AmériKKKa está louca! E é assim que Chris McCandless larga tudo, aventura-se na Natureza Selvagem, como se seguisse o conselho que Rilke deu ao Jovem Poeta: “Prefira sempre o difícil; desse modo, sua vida não cessará de expandir-se.”



“Two years I walk the earth. No phones, no pools, no pets, no cigarettes. Ultimate Freedom. An extremist, an aesthetic voyager whose home is the road. So now, after two rambling years comes the final and greatest adventure - the climatic battle to kill the false being within and victoriously conclude the spiritual revolution. No longer to be poisoned by civilization, he flees and walks alone upon the land to become lost in the wild...”
 McCandless, Maio de 1992

"Um horizonte sempre cambiante, a cada dia um novo Sol..."


Chris McCandless por Jon Krakauer: "A viagem ao Alasca seria uma odisséia no pleno sentido do termo, uma jornada épica que mudaria tudo. Ele passara os quatro anos anteriores, tal como via as coisas, preparando-se para cumprir um dever oneroso e absurdo: graduar-se na faculdade. Finalmente estava desimpedido, emancipado do mundo sufocante de seus pais e pares, um mundo de abstração, segurança e excesso material, um mundo em que ele se sentia dolorosamente isolado da pulsação vital da existência. Saindo de Atlanta para o oeste, pretendia inventar uma vida totalmente nova para si mesmo, na qual estaria livre para mergulhar na experiência crua, sem filtros.
Como adepto moderno de Henry David Thoreau, tinha por evangelho "A Desobediência Civil" e considerava, portanto, sua responsabilidade moral zombar das leis do Estado. Ele não se perturbava com a perspectiva de abandonar seu carro: via nisso uma oportunidade de abandonar bagagem desnecessária. (...) Num gesto que deixaria Thoreau e Tolstoi orgulhosos, empilhou todas as suas cédulas de dinheiro na areia - e tocou fogo. Cento e vinte e três dólares em dinheiro legal prontamente reduzidos a cinza e fumaça.
McCandless vagou pelo oeste, encantado com a escala e o poder da paisagem, excitado com pequenas escaramuças com a lei, saboreando a companhia intermitente de outros vagabundos que encontrou no caminho. Chris era muito da teoria de que você não deve possuir mais do que pode carregar nas costas numa corrida repentina. Ele não expressava senão desprezo pelos adereços burgueses da sociedade americana. Não era raro que a face de McCandless ficasse rubra de raiva enquanto vituperava contra seus pais, os políticos ou a idiotia endêmica do modo de vida dominante americano.
Mandou uma carta a seu amigo Franz que diz: "Tanta gente vive em circunstâncias infelizes e, contudo, não toma a iniciativa de mudar sua situação porque está condicionada a uma vida de segurança, conformismo e conservadorismo, tudo isso que parece dar paz de espírito, mas na realidade nada é mais maléfico para o espírito aventureiro do homem que um futuro seguro. A coisa mais essencial do espírito vivo de um homem é sua paixão pela aventura. A alegria da vida vem de nossos encontros com novas experiências e, portanto, não há alegria maior que ter um horizonte sempre cambiante, cada dia com um novo e diferente Sol".

Jon Krakauer
"Na Natureza Selvagem"
Ed. Cia das Letras
(pgs 34-39-40-43-63-67-68)



"Eu conhecia todas as regras,
mas as regras não me conheciam."

(E. Vedder)

sábado, 23 de junho de 2012

Eddie Vedder (Pearl Jam) - DVD "Water on The Road"




"I knew all the rules, but the rules did not know me."
 E. VEDDER, "Guaranteed"


O primeiro DVD solo do líder do Pearl Jam, "Water on the Road", documenta a tour de Eddie Vedder em 2008, cerca de um ano depois do lançamento da trilha sonora original de "Into the Wild". Sozinho ao violão, à guitarra ou ao ukelele, Vedder toca covers de Bob Dylan e Beatles (dentre outros), faz releituras Unplugged de canções do Pearl Jam e até se arrisca como stand-up comedian. Showzaço! Gravado em Washington, D.C. Lançado em 2011. Baixe o DVD em altíssima qualidade lá no The Pirate Bay >>>
http://bit.ly/KSghTx. Seguem alguns aperitivos!



quinta-feira, 10 de maio de 2012

Chestov, Rauuul & Vedder em 3 lições de sabedoria




“É realmente indispensável para o homem possuir desde sua primeira infância certas convicções imutáveis, preparadas de antemão e que devem valer por toda a sua existência? Na minha opinião, isso não tem nada de indispensável. O homem vive e a vida lhe ensina um bocado de coisas. Aquele que atinge sua velhice sem nada ter aprendido de novo não conquistará nosso respeito, mas muito mais nosso assombro por sua insensibilidade. [...] As convicções recebidas de outrem, já prontas, têm menos valor do que aquelas que elaboramos nós mesmos sob a ação de nossa própria experiência e dos desafios enfrentados.”
— León CHESTOV (1866-1938)
A Filosofia da Tragédia: Dostoiévski e Nietzsche
(Paris, Editions de la Pléiade, 1926)

Como cantava Rauuul: "eu prefiro seeeeeeeer... essa metamorfose ambulante... do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo..."



Eddie Vedder (do Pearl Jam) - "Into the Wild" [Trilha Sonora Original]
Click para ouvir na íntegra (13 músicas)
(Baita disco lindo...)

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Os 3 Melhores Documentários Musicais de 2011...


por Ana Alice Vercesi


 Conhecido por transformar trechos de sua própria vida em ficções deliciosas, como “Quase Famosos” e “Singles”, Cameron Crowe foi na contramão dos outros grandes diretores que se aventuraram em documentários musicais em 2011 e decidiu registrar em vídeo a história dos próprios amigos. Esse toque pessoal, longe de comprometer o resultado, trouxe a “Pearl Jam 20” um frescor que garantiu o primeiro lugar ao filme aqui no blog.


Para quem espera uma história baseada na banda que tem em Eddie Vedder um ícone, mais do que um líder, a surpresa será grande. Primeiro porque o Pearl Jam nasceu dos restos mortais do Mother Love Bone, grupo que também era feito de um líder carismático e inesquecível: Andy Wood, que morreu de overdose em 1990. O resgate da breve trajetória e das raras imagens do MLB, cujas raízes explicam o som “grunge” que tanto caracterizou uma geração de músicos, já vale o documentário. Para se ter uma ideia, o próprio Vedder só ousou cantar uma música do Love Bone no palco na comemoração de dez anos do Pearl Jam.

A partir daí, o eixo narrativo se concentra no baixista Jeff Ament e nos guitarristas Stone Gossard e Mike McCready, que encontraram em Vedder a voz, a lírica e a intensidade que procuravam para seu som. Viram esse mesmo baixinho muito tímido, importado dos mares da Califórnia, se ambientar à cinzenta Seattle e à cena local formada por amigos de infância. Presenciaram o vocalista se agigantar nos palcos aos poucos e dominar o escopo criativo do Pearl Jam. E por fim, narra o fortalecimento da banda em meio às intempéries da linha do tempo, como as farpas trocadas com o Nirvana, a briga judicial com a Ticketmaster e a morte dos fãs no festival Roskilde.

Dos três filmes lembrados aqui, “PJ 20” é o que mais lembra uma narrativa tradicional de documentário e, ao mesmo tempo, tem aquele toque de filme caseiro, de família sentada na sala relembrando imagens que nem sabia que ainda possuía guardadas. E essa humanização só mesmo quem já passou muitas noites na sala de jantar é capaz de traduzir.


Top 3 Docs 2011, segundo lugar: “Foo Fighters: Back and Forth”, de James Moll

Espécie de flor de lótus gerada no meio do esterco que foi o fim do Nirvana, o Foo Fighters esperou álbuns e álbuns por sua redenção perante a comunidade musical. E exatamente um ano antes de sua apresentação em solo brazuca no Lollapalooza, a banda de Dave Grohl, – o até então considerado “cara mais legal do rock” – disponibilizou nos cinemas o documentário que, a reboque do aclamado recém-lançado álbum “Wasting Light”, traria o resgate de sua nada calma história.

Vamos muito, muito por partes. “Back and Forth” presta, a princípio, um serviço aos fãs mais recentes, que estão acostumados a ver as caras sorridentes do grupo e todo o sucesso atual que ele alcança, e nem imagina os sacos de sal que o povo já comeu, como as idas e vindas de Pat Smear na guitarra; a overdose do batera Taylor Hawkins; e as demissões nada amigáveis do guitarrista Franz Stahl e do baterista Willian Goldsmith. Também narra uma trajetória incrível de uma banda que surgiu de uma demo tape que Grohl gravou sozinho, ainda em meio à letargia que se seguiu ao suicídio de Cobain, e que aqueles moleques do clipe de “Big Me”, uma paródia impagável dos comerciais de Menthos, jamais imaginariam onde iria parar.

Por outro lado, é uma biografia mais que autorizada e, por isso mesmo, mantém os dentes do ex-baterista do Nirvana brilhantes na tela. Uma outra narrativa lançada em livro também em 2011, “This is a Call – The Life and Times of Dave Grohl”, do jornalista Paul Branningan, esclarece alguns desses episódios que o filme abranda um certo tanto. Apesar de fã declarado de Grohl, o autor consegue esmiuçar um pouco mais, entre outras coisas, como o baterista Willian descobriu que a banda toda estava refazendo “The Colour and The Shape” sem ele. Como Franz Stahl sacou, em 1997, o que Dave Grohl decidiu deixar em panos limpos só lá na frente, em One by One (2002): que aquela era banda dele, e ele decidiria no fim das contas como ela seria, por mais que adorasse que todos dessem ideias. E, entre todos os contratempos do mundo, os muitos e muitos “brancos” de criatividade que aplacaram o grupo em toda sua história.

Com uma discografia considerada pela crítica como bastante irregular, o Foo Fighters tem, no entanto, um mérito gigante na história da música das últimas duas décadas que “Back and Forth” ressalta com maestria: eles são pura celebração da festa que é o rock and roll, com propriedade técnica. Um moleque que cresce ouvindo a banda precisa se esforçar em um nível bem maior para tirar as músicas se comparado a outros grupos contemporâneos e, dado o seu alcance pop mundial, os integrantes indicam bandas um tanto decentes que a molecada deveria ouvir, antigas e novas. Sem contar a facilidade com que Grohl trafega pelos mais diversos gêneros, seja em colaboração com o Queens of the Stone Age, com seu projeto de heavy metal Probot ou em parcerias pelo mundo afora – sem a Roberto-Carlização que acomete Andreas Kisser, por exemplo.


Tio Martin Scorsese ganhou o terceiro lugar com sua tentativa de narrar a vida do beatle George Harrison em Living in the Material World

Em “Shine a Light”, registro ao vivo de um show dos Rolling Stones capturado por Scorsese, o diretor penou para descobrir o set list de Mick Jagger & Cia. O papel só lhe foi entregue momentos antes da apresentação começar. Uma espécie de segredo guardado longe do cineasta, um desafio para que ele rebolasse nos 30 e comandasse as câmeras sem ter muito tempo para poder preparar a equipe. E agora, nessa nova incursão do cineasta ao mundo da música, mesmo com toneladas de imagens e depoimentos, o desafio do segredo permanece.

O motivo, a princípio, é simples: uma banda de sucesso é e será sempre um segredo bem-guardado. Algo que apenas os que viveram toda a “mania” são capazes de entender e compartilhar. O próprio Ringo Starr declara isso. E Eric Clapton, uma das (tentativas de) linhas condutoras do filme, deixa bem claro que, apesar de se sentir muito amigo de George, não é capaz de dizer o quão próximos eles eram de fato.

“Living in the Material World” busca retratar os dois lados do beatle que, enquanto buscava a transcendência do corpo físico, era incapaz de resistir por muito tempo às tentações da carne. O problema é que, enquanto há centenas de imagens do rapaz na Índia, gravando mantras ou pregando a paz, pouco se revela a respeito do lado negro da força de Harrison. Paul McCartney se limita a dizer que, “como homem, ele gostava do que os homens gostavam”, e uma resignada Olivia Harrison é capaz de assumir o poder de sedução de seu falecido marido. Klaus Voorman, colega dos Beatles dos tempos de Hamburgo, assume o vício de George nas drogas e o quanto isso o consumia. Mas só.


Lágrimas de Ringo

Outro desafio enfrentado por Scorsese foi lidar com o material já existente em imagens. Nesse aspecto, o diretor mostra momentos brilhantes ao alinhar foto e vídeo em várias passagens; trabalhar com frames aparentemente banais capturados por George, seja em seu jardim, na praia ou na cozinha, e costurá-los na narrativa; e arrancar lágrimas de Ringo enquanto esse descreve seu último encontro com o guitarrista.

Apesar das inúmeras críticas em relação à falta de um narrador em off, que ajudaria a contextualizar muitos dos depoimentos (não há preocupação em saber se o espectador conhece de fato os entrevistados, e quem não tem familiaridade com a história da banda pode se perder bastante), Scorsese consegue com essa estratégia que todos tenham um peso equivalente, salvo os ex-integrantes da banda e as viúvas de Lennon e Harrison. Um peso que parece ser o mesmo que o guitarrista deu a todas essas pessoas enquanto vivia, como descreveu Clapton.

Uma das falas mais poéticas é do ex-piloto de F1 Jack Stwart, que enxergava em George a mesma capacidade de sentidos aguçados que um piloto vivencia nos momentos extremos de velocidade. Talvez a vida do autor de “Something” tenha sido isso mesmo: uma viagem supersônica com os sentidos a mil, da qual nós, sentados à beira da estrada, só tenhamos direito mesmo a ver um borrão.








DOWNLOADS (VIA THE PIRATE BAY):

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

"Happiness is only true when shared" (Into The Wild)


“So many people live within unhappy circumstances and yet will not take the initiative to change their situation because they are conditioned to a life of security, conformity, and conservatism, all of which may appear to give one peace of mind, but in reality nothing is more damaging to the adventurous spirit within a man than a secure future. The very basic core of a man’s living spirit is his passion for adventure. The joy of life comes from our encounters with new experiences and hence there is no greater joy than to have an endlessly changing horizon, for each day to have a new and different sun.” ― Chris McCandless (a.k.a. Alexander Supertramp)

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

The first mammal to wear pants


"I'm at peace with my lust.
 I can kill cause in God I trust."

"Sou o primeiro mamífero a usar calças", urra Eddie Vedder logo nos primeiros versos de "Do The Evolution", petardo grunge que impactou minha adolescência feito um coquetel molotov. A arrogância antropocêntrica destes mamíferos narcísicos que se acham o centro do Universo recebe do Pearl Jam, nesta nirvanesca catarse hecatômbica, uma crítica tão ruidosa, desbocada, brilhante. Justo quando parecia estar perdendo terreno o lado transgressor e apunkalhado da banda, tão presente no Versus (discaço!), dando lugar ao experimentalismo de No Code e para um som mais calcado no folk de Neil Young, eles trouxeram no meio do irregular Yield esta  irrepreensível pedrada. O amor confesso de Vedder pelos Ramones e pelo The Who dá o tom nesta explosiva distopia musicada em que a ironia vedderiana derrama-se pra cima do criacionismo, do militarismo, do fascismo, do capEtalismo, da tecnologia posta à serviço da guerra... O clipe é um espetáculo à parte: Todd McFarlane, criador da HQ Spawn, condensou em 4 minutos de animação frenética toda uma cosmologia misantrópica e apocalíptica assustadora. Faz tempo, muito tempo, que uma banda não comete uma heresia tão maravilhosa e uma canção tão espetacular e empolgante quanto "Do The Evolution"! Pena que, mais uma vez, vou acabar por perder os caras ao vivo no Brasil: tive que escolher entre Pearl Jam ou SWU (dia 14) - e o combo Alice in Chains, Faith No More, Sonic Youth, Black Rebel, Megadeth e Primus faturou a parada...



Na CMJ Magazine, #56, de 1998, Eddie Vedder, entrevistado por Janeane Garofalo, explica um pouco das intenções que teve com esta canção-marco e com o "eu lírico" que assume nela ("canto como se fosse um cara completamente ignorante, embriagado com a tecnologia e a manipulação humana da natureza"). Revela também detalhes sobre como enxerga a religião, alvo de sarcasmo e provocação em "Do The Evolution", demonstrando seu lúcido e bem-humorado ateísmo. Para Vedder, a idéia de Deus foi inventada muito recentemente: não só todos os primatas são ateus (pra não falar de todo o resto do reino Animal, Vegetal e Mineral...), como também a imensa maioria dos homo sapiens que já viveram e morreram neste planeta existiram desvinculados de qualquer mitologia monoteística... Que os crentes não se enganem: 99,9% dos seres vivos que já nasceram foram (e são) ateus. Uma maioria esmagadora. "Deus é como um filme que foi popular demais", diz Vedder. Algo como um blockbuster com happy end, destinado a consolar e agradar os paladares daqueles sedentos por historinhas agradavelmente reconfortantes, mas que talvez não esteja longe de sair de cartaz.

Ouça só:
"E. VEDDER: [In "Do The Evolution"] I feel like I'm not singing as me. In fact, I'm not. It's not about the way I feel. I'm singing as a guy who's completely drunk with technology and man's control, and excited by it, and just ignorant and drunk. (...) I'm like a hunter, out with the boys, or a guy in a bulldozer, knocking over trees, really excited about how I'm manipulating the earth. So I think it would be too much to say it's like a character, but your voice wants to transmit that kind of energy, so it might not be the normal voice that you sing to your wife..." 
JANEANE: Can I ask what your feelings are about God?
E. VEDDER: Sure. I think it's like a movie that was way too popular. It's a story that's been told too many times and just doesn't mean anything. (...) Humans, in some shape or form, have been on the Earth for 3 million years. So, all this time... there was no God, there was no story, there was no myth and people lived on this planet and they wandered and they gathered and they did all these things. The planet was never threatened. How did they survive for all this time without this belief in God? I'd like to ask this to someone who knows about Christianity... That just seems funny to me. (...) That laws are made and wars occur because of this story that was written in this small part of time..."



sexta-feira, 10 de junho de 2011

<<< He not busy being born is busy dying >>>


"And if my thought-dreams could be seen
They’d probably put my head in a guillotine
But it’s alright, Ma, it’s life, and life only"

Bob Dylan e Allen Ginsberg diante do túmulo de Jack Kerouac: que bela imagem! São três dos centro-avantes mais artilheiros que já marcaram gols-de-placa nos campos verdejantes da literatura norte-americana, balançando as redes com seus certeiros pontapés de poesia beatnik. Mestres de uivos místicos, protestos líricos, rupturas contra-culturais, sugestões de novas vias. Três poetas audazes que viveram a dar dribles desconcertantes pra cima dos cintura-dura repletos de autoridade.

Metáforas futebolísticas infames à parte, queria hoje "viajar" um pouco sobre um mistério que me intriga: Bob Dylan e seu impacto cultural tão tremendo. Ainda não li nem um terço dos livros que estão sendo publicados sobre ele (com destaque para a biografia do Howard Sounes e a do Greil Marcus), mas me parece já assentado que, dentre os compositores da música popular, Dylan talvez seja o único cujo domínio sobre o Verbo e dom poético é realmente descomunal em relação ao "resto". (Heterodoxa definição do gênio: aquele que transforma outros artistas em resto.) Eu mesmo, que me encanto há anos com o poder do verbo dylanesco - especialmente da fase que vai de Freewheelin' a Desire (1963 a 1976), com destaque supremo para aquela magnífica Trilogia Bringin' It All Back Home - Highway 61 - Blonde on Blonde - não acharia nada absurdo que ele fosse laureado com um Nobel de Literatura (ao qual, aliás, já foi indicado algumas vezes).



Seu poder, me parece, emana sobretudo de sua poesia. A voz anasalada (e hoje já embargada e quase estragada) do velho Zimmermann, com seus 70 anos de idade completados neste 2011, não é lá grande coisa quando comparada à de um Sinatra ou uma Ella Fitzgerald. Suas melodias tampouco eram tão imediatamente memoráveis quanto as de Lennon & McCartney. Muitos tinham mais presença de palco que ele, eram ou mais performáticos, ou mais coloridos, ou mais brilhantes de glitter, ou mais esfarrapados e vira-latas. Bowie era bem mais excêntrico, Iggy era bem mais selvagem, Springsteen bem mais enérgico... E ele? O que é que Dylan tinha demais? O que o distinguia de todos os seus contemporâneos? Por que foi entronado como um ícone cultural desse tamanhão? Como pôde ser transformado em mito sem nem precisar da morte, a grande mitificadora? 

Não conheço resposta melhor que esta: foi a poesia. Difícil acreditar que a poesia possa tudo isso? Mas quem foi o miserável que inventou a mentira abominável de que a poesia é algo... impotente? Que ideia pouquíssimo poética, digna de burocratas! Os maiores poetas são aqueles que, justamente, acreditam na potência da poesia. Sabem que palavra não é uma coisa à toa, uma bestice sem relevância, um punhado de fonemas que se dissolve ao vento. Sabem que palavras mudam consciências, animam sentimentos, despertam entusiasmos, apontam estrelas. Sabem que falar é agir, e que a palavra cantada (melodizada, rimada e ritmada) talvez haja com ainda maior eficácia e impacto do que aquela aprisionada no papel. O grande poeta sabe que discursos movem e comovem. Que são instrumentos de transformação (inclusive social, política, cultural). Que não há revolução silenciosa.


Lembremos as palavras de Leminski, talvez o poeta brazuca mais próximo dos beatniks, que diz muito melhor do que eu saberia aquilo que estou tentando expressar: "não sei se todos os povos amam seus cientistas, mas todos os povos amam seu poetas", diz o lírico curitibano. Pensem no amor dos gregos por Homero, ou dos romanos por Virgílio, dos italianos por Dante, dos ingleses por Shakespeare, ou dos franceses por Hugo... (o funeral de Victor Hugo em Paris,1885, com 2 milhões de parisienses nas ruas: que prova mais comovente do amor dos povos por seus poetas!). "No Brasil, Vinícius de Moraes, Chico Buarque, Caetano Veloso, Milton Nascimento e seus parceiros: os poetas são amados por milhões. Por que os povos amam seus poetas? É porque os povos precisam disso: os poetas dizem coisas que as pessoas precisam que sejam ditas. O poeta não é um ser de luxo, não é uma excrescência ornamental da sociedade... Ele é uma necessidade orgânica de uma sociedade! Ela precisa da loucura deles para respirar: é através da loucura dos poetas, da ruptura que eles representam, que a sociedade respira!" Muito bem dito, Leminski!

O funeral de Victor Hugo, Paris, 1885. 2 milhões de franceses nas ruas.

Impossível explicar o fenômeno Dylan sem isto: o amor dos povos pelos poetas. Dylan não foi somente um leal aprendiz de Hank Williams, Woody Guthrie, Leadbelly, Robert Johnson... ele bebeu, e em doses aparentemente dignas de “porre”, em John Steinbeck, F. Scott Fitzgerald, Herman Melville, Ezra Pound, Walt Whitman, T.S. Eliot, Arthur Rimbaud... Foi um experimentador lingüístico de marca maior, quase o equivalente de James Joyce ou o William Faulkner na música (vejam "It's Allright Ma", o Finnegan's Wake do pop!). Sabia entregar-se ao fluxo-de-consciência e lançar cacos de imagens poéticas desconexas ao papel; flertava com o surrealismo e o Dadá (“Ballad for a Thin Man”); sabia escrever biblicamente como um Milton (“Gates of Eden”), mas também sabia ser pé-no-chão e indignado, feito um Brecht norte-americano (“Blowin' in The End”, “A Pawn In Their Game”, “The Times They Are A-Changin'"...). Dylan é o tipo de escritor que não tinha medo de tarântulas, não ia com a cara dos senhores da guerra e não era profeta de nenhuma verdade eterna, mas somente da inelutável mudança.

O grande poeta não é aquele cujo livro está repleto de bonitezas, versinhos agradáveis, flores de plástico; o grande poeta é aquele cujas palavras estão na boca do povo (ou na goela, engasgados; ou no coração, ainda vagas e disformes, carentes de ordem e ímpeto...). É aquele que expressa aquilo que multidões gostariam de dizer mas não conseguem (por não saberem como formular, por não terem voz para bradar...). Um grande verso poético é aquele cuja mensagem ou imagem é tão memorável que torna-se parte de nosso ser, incorporado ao nosso cérebro, inserido no nosso repertório de sentido, nosso cardápio de encantos... Pois a vida só é vivível se pudermos enxergar nela alguma beleza. O grande poeta faz com que sintamos a beleza da vida, que talvez ele mesmo tenha ali posto. Talvez a tenha simplesmente encontrado, como uma moedinha de ouro perdida entre as rachaduras da calçada. Vai ver uma grande poeta é simplesmente alguém que se dá conta de uma beleza invisível, que os outros passam ao largo sem ver, cegos ao seu feitiço. O poeta não está indo a lugar algum, mas nos ensinando a estarmos onde já estamos: professor da arte de estar presente à presença presente de tudo, ele não mais vê o aqui-e-agora como mero chão de passagem. O presente, para ele, torna-se campo de pouso e palco de tudo.

 * * * * * *

(Abaixo: a trilha sonora de I'm Not There, o filme de Todd Haynes, que traz canções de Dylan interpretadas por muita gente bacana. Ouçam no talo e atentos às palavras e seus encantos! Cheers!)

  1. Eddie Vedder & The Million Dollar Bashers – All Along The Watchtower
  2. Sonic Youth – I’m Not There
  3. Jim James & Calexico – Goin’ To Acapulco
  4. Richie Havens – Tombstone Blues
  5. Stephen Malkmus & The Million Dollar Bashers – Ballad Of A Thin Man
  6. Cat Power – Stuck Inside Of Mobile With The Memphis Blues Again
  7. John Doe – Pressing On
  8. Yo La Tengo – Fourth Time Around
  9. Iron & Wine & Calexico – Dark Eyes
  10. Karen O & The Million Dollar Bashers – Highway 61 Revisited
  11. Roger McGuinn & Calexico – One More Cup Of Coffee
  12. Mason Jennings – The Lonesome Death Of Hattie Carroll
  13. Los Lobos – Billy 1
  14. Jeff Tweedy – Simple Twist Of Fate
  15. Mark Lanegan – Man In The Long Black Coat
  16. Willie Nelson & Calexico – Señor (Tales Of Yankee Power)

    DOWNLOAD CD 1
    : http://www.mediafire.com/?mjkpc7665s01qxo


  17. Mira Billotte – As I Went Out One Morning
  18. Stephen Malkmus & Lee Ranaldo – Can’t Leave Her Behind
  19. Sufjan Stevens – Ring Them Bells
  20. Charlotte Gainsbourg & Calexico – Just Like A Woman
  21. Jack Johnson – Mama, You’ve Been On My Mind / A Fraction Of Last Thoughts On Woody Guthrie
  22. Yo La Tengo – I Wanna Be Your Lover
  23. Glen Hansard & Markéta Irglová – You Ain’t Goin’ Nowhere
  24. The Hold Steady – Can You Please Crawl Out Your Window?
  25. Ramblin’ Jack Elliott – Just Like Tom Thumb’s Blues
  26. The Black Keys – Wicked Messenger
  27. Tom Verlaine & The Million Dollar Bashers – Cold Irons Bound
  28. Mason Jennings – The Times They Are A-Changin’
  29. Stephen Malkmus & The Million Dollar Bashers – Maggie’s Farm
  30. Marcus Carl Franklin – When The Ship Comes In
  31. Bob Forrest – Moonshiner
  32. John Doe – I Dreamed I Saw St. Augustine
  33. Antony & The Johnsons – Knockin’ On Heaven’s Door
  34. Bob Dylan With The Band – I’m Not There

    DOWNLOAD CD 2
    : http://www.mediafire.com/?g8xwnkmtwf2ll2b