sexta-feira, 31 de agosto de 2012

"A pax americana ameaça nos lançar a todos no limbo da criminalidade se nos opusermos aos ditames do Império..." (J. Birman)


A GRAMÁTICA CRUEL DA PAX AMERICANA
Por Joel Birman [http://bit.ly/aQdSdc]
Excerto do livro "Cadernos Sobre o Mal"

No início da invasão do Iraque o mercado reagiu de maneira eufórica, já que os dias de incerteza tinham finalmente terminado. Tempos melhores viriam, pareciam dizer gulosamente os investidores. As bolsas de valores de todas as praças estavam em festa, movimentando somas colossais. O preço do petróleo baixou para níveis inesperados, indicando que não haveria mais risco de desabastecimento energético no planeta. O Brasil acompanhou também essa orgia com a melhoria do risco-Brasil nas transações internacionais. Tudo isso apesar do discurso contundente do presidente Lula contra a guerra e contra o desrespeito da legalidade internacional. 

Por que tudo isso? O que levaria o mercado a reagir de maneira tão positivamente acintosa a uma guerra, com as perspectivas nefastas dos problemas humanitários apontados por todas as agências internacionais sérias? O mercado responderia que não era leviano, pois a tão ansiada guerra tinham enfim começado e com isso findado suas incertezas, assim como se prognosticava uma guerra rápida e a pronta restauração da paz. Isso porque o regime "tirano" de Saddam Hussein cairia logo sob o fogo implacável da superioridade militar e tecnológica dos "aliados".

Os "aliados" procuraram "decapitar" o regime com o "susto" inicial dos ataques aéreos. Como isso de nada adiantou foi então deflagrada a operação "choque e terror", com bombardeios maciços nunca antes vistos. Começava assim a exibição de crueldade do Império, na qual o poder de fogo dos aviões B-52, conjugado com os mísseis de longo alcance e as bombas inteligentes de alta precisão, pretendia intimidar os iraquianos. Esperava-se, com isso, uma rendição em massa das tropas leais à Saddam Hussein, assim como uma aclamação festiva dos invasores pelo povo do Iraque. Isso porque a política anglo-americana visava libertá-lo da tirania e instituir a democracia pela força militar, por mais paradoxal que isso fosse.

Entretanto, qual não foi a surpresa do mundo quando as coisas se mostraram paulatinamente de forma diferente. Não apenas os iraquianos não se intimidaram com o choque high tech, como passaram também a combater os invasores. A resistência iraquiana tinha uma face militar e outra civil. Os fedayeen se avolumaram no combate, desmentindo de maneira flagrante as previsões da CIA de que se associariam facilmente aos "aliados" em nome da liberdade...

Revelaram-se também os erros grosseiros da estratégica militar anglo-americana, que mostraram para quem quisesse ver que o rei estava nu, isto é, que a dita supremacia tecnológica não era razão suficiente para se conduzir uma guerra, como tinham pensado ingenuamente os falcões de Washington e Londres. Muitos dos soldados norte-americanos e ingleses se mostram francamente despreparados para uma guerra desse porte, dos pontos de vista psíquico, ético e político. Trata-se, sem dúvida alguma, de técnicos competentes no manuseio das armas, mas decididamente não de guerreiros que poderiam sustentar uma causa. 

A nudez do rei, no entanto, não se restringe a isso. Os militares iraquianos não usaram, até o momento, armas químicas e biológicas. Tampouco os invasores encontraram qualquer rastro delas. O que implica dizer que a razão fundamental alegada para a guerra, contra a decisão da ONU, não pode mais se sustentar. A verdade que se impõe agora para todo o mundo é a tentativa anglo-americana de manipular informações para legitimar a política do Império contra a maioria mundial, que se manifesta cotidianamente contra a guerra. O que está em pauta é a derrubada pura e simples do regime de Saddam Hussein, antigo aliado dos Estados Unidos, para que os norte-americanos possam traçar outra cartografia do poder no Oriente Médio e no mundo, além, é óbvio, de pretender se apoderar do petróleo do Iraque. 

Não quero dizer com tudo isso que os EUA e a Inglaterra vão perder a guerra, bem entendido. É evidente, ao contrário, que derrotarão o Iraque, tal a disparidade de forças em confronto, que evidencia até mesmo a possibilidade de um MASSACRE. Os invasores, porém, vão pagar muito caro por isso, com baixas incalculáveis e o risco de um atoleiro político de amplas dimensões e de consequências imprevisíveis. Em contrapartida, as manifestações pela paz por todo o mundo não são em defesa do regime de Hussein, mas CONTRA A POLÍTICA IMPERIAL. Com efeito, o que está em pauta é a manutenção da soberania das nações, no que isso significa em termos de liberdades inalienáveis e de autodeterminação dos povos diante do poder absoluto e unilateral do Império.

O que é evidente é a construção da política imperial, pois, como César, os EUA e a Inglaterra ruíram os fundamentos da República, atravessando o Rubicão com a invasão do Iraque. Esse é o prólogo de uma dramaturgia cruel que visa a combater o denominado Eixo do Mal, constituído por Iraque, Irã e Coreia do Norte. Contudo, qualquer outro Estado é candidato a se inscrever no campo dos Estados fora da lei caso contrarie os interesses unilaterais do Império. 

O Império não teve escrúpulo em ignorar a legalidade internacional, forjada no pós 2ª Guerra Mundial e materializada na Organização das Nações Unidas. (...) Pode-se depreender disso que o Império procura ter a mão livre para fazer o que quiser e bem entender, impondo sua vontade ao mundo sem ter que se defrontar com qualquer obstáculo político e militar.

Uma das resultantes disso é o antiamericanismo visceral que se desenvolve agora em todo o mundo, numa extensão e profundidade inéditas. Ao lado disso, o BOICOTE aos produtos norte-americanos começa a ganhar força em todo o mundo.

Contudo, a problemática crucial que se impõe agora para a devida interpretação dessa política é a maneira pela qual se constituiu a figura do TERRORISMO. Como se sabe, a construção do Eixo do Mal e de Estado fora-da-lei tem nessa figura o seu cavalo de batalha. Seria em nome do combate ao terrorismo que o militarismo norte-americano procura legitimar a nova estratégia de guerra preventiva. Mas o que quer dizer isso, afinal de contas? Eleger o terrorismo com inimigo principal implica dizer que o Império pretende CRIMINALIZAR A POLÍTICA como tal. 

Digo isso porque o inimigo destacado pelo Império, delineado repetidamente como sem rosto, seria qualquer um que pudesse se contrapor à sua onipotência, na medida em que seria fatalmente considerado criminoso por antecipação. Vale a pena recordar que Rumsfeld já avisou que considerará os iraquianos que defenderam seu país criminosos de guerra. O que, venhamos e convenhamos, é a construção de uma retórica da força absoluta que nos coloca a todos em uma posição de delinquentes em potencial, caso nos opusermos ao poder imperial. Como se dizia no tempo da guerra contra o Afeganistão: quem não está conosco está contra nós. O governo norte-americano mostra que pode efetivamente fazer o pior, uma vez que mantém em Guantánamos centenas de presos da guerra do Afeganistão, sem nenhum suporte no Direito Internacional, submetidos às mais torpes torturas.

Isso significa que a política do Império vai na direção de pretender constituir um Estado penal em nível internacional, da mesma forma que os EUA já instauraram em seu território a política da tolerância zero, transformando os problemas sociais em penais. Querem se colocar como EXCEÇÃO À LEI no cenário internacional, o que é não apenas um ataque frontal a qualquer concepção democrática da política, como também revela que os Estados Unidos são o único Estado fora-da-lei hoje existente. Vale dizer, os EUA acusam frontalmente seus inimigos de ser aquilo que estão em vias de se transformar, isto é, o único Estado fora-da-lei propriamente dito.

É pela oposição a essa criminalização da política que somos decididamente contra a guerra, pois isso representa a retirada de nossa condição de cidadania, já que não se reconhece assim o direito inalienável que temos de resistir contra a violência do poder, nos lançando então na posição indigna de criminosos. A pax americana pretende inaugurar outra era, diferenciando-se decididamente da pax romana e da pax britânica, códigos imperiais que a antecederam no Ocidente. Embalada pela globalização, que fragilizou sensivelmente a soberania do Estado-nação e promoveu o esvaziamento do registro da politica em prol da economia, a pax americana ameaça nos lançar a todos no limbo da criminalidade se nos opusermos aos ditames do Império.

Nós que trabalhamos muito para forjar no Brasil uma real democracia contra a ditadura militar, lutando sempre contra o arbítrio dos anos de chumbo sustentados pelos EUA, não podemos aceitar passivamente a destituição de nossa cidadania. Somos contra a guerra em nome da democracia e nos opomos à criminalização da política, que são, aliás, as duas faces da mesma moeda, já que transformar perversamente a resistência ao poder em criminalidade e terrorismo é destruir os fundamentos da democracia."


Ed. Civilização Brasileira (2003)

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Dois documentários cruciais: Why We Fight (da BBC) e The Fog Of War (de Errol Morris). Ambos estão na íntegra e legendados em português.

2 comentários:

Recursos Humanos disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blog.
Anônimo disse...

os EUA destruíram 2 torres e usaram Osama como bode expiatório para sugarem todo petróleo do oriente médio; Só um burro não entende isso, porque burros são, óbvio, irracionais.