quarta-feira, 6 de abril de 2011

<<< Camelo e Wander Em Busca do Zen >>>

 
Wander Wildner, "meio Wando e meio wild", é um punkbrega cigano e beberrão que vai da Argentina à Berlim em busca da vida fodona e do lugar-do-caralho (mas sem jamais esquecer das fomes simples do coração). Camelo, cada vez mais pra Chico que pra Weezer, com o legado los-hermanístico como respaldo, prossegue em sua bela busca por um amor zen e por uma paz-de-espírito quase búdica.

Tanto Toque Dela quanto Camiñando Y Cantando, os discos com que Camelo e Wander nos brindaram neste 2011, são discos "de maturidade" que retratam artistas de muita estrada dando sua versão particular dos dramas (e dos ridículos) da procura pela boa-vida em meio a inevitáveis auto-transformações. Ambos estão à procura de uma felicidade muito singular, como se soubessem que nenhuma receita-de-bolo ou manual de auto-ajuda-para-as-massas aguenta o tranco: cada um, com seu destino irremediavelmente único, que encontre seu caminho e, como canta o Dieguito, "trace sua meta".

"Eu sou parte de nós": a idéia-mestra do debut do Diego e o Sindicato também marca uma certa presença na carreira solo do hermano Camelo, que na capa do primeiro disco já afirmava a ilógica e poética matemática do SOU = NÓS (vire o sou de ponta-cabeça e encontre o nós, e vice-versa). Toque Dela prossegue na mensagem do não sou nada sem ti (e tu não és nada sem mim).

A arte do zen é o que mais parece interessar Camelo nos últimos tempos. Ele quer que o fio da maldade se enrole, não se cansa de cantar chamegos para sua Morena e parece ansiar que seu rosto sereno faça com que o mundo lhe fite surpreso, perguntando: "de onde vem a calma daquele cara?" Cada vez mais vagaroso, investindo num folk com post-rock que flerta com o dub (bem a cara do Hurtmoltd), Camelo canta os encantos do amor cada vez escancarando mais que é a paz bem mais do que a excitação aquilo que procura.

Já Wander Wildner, camiñante de dentes tortos e sangue gaúcho, também anda atrás de sua versão da sabedoria, bem mais punk e bem-humorada que aquela Camelo parece estar desvendando, mas não menos instigante. Wander também procura a paz de estar de bem consigo e seus próprios defeitos, mas é rindo deles ao invés de lastimá-los. Ele abre o coração ainda que saiba que ele é brega, desafinado e horrorshow: o que importa, na real, é que seja verdadeiro (e, de lambuja, engraçado). "Vou levantar as âncoras, abrir as trancas, sentir que o mundo é o que sou. Seguir o trilho do coração, ir para onde ele for" ("Puertas y Puertos).



Wander conserva ainda a atitude desleixada de um punk mesmo no seu disco mais folk, e prossegue dizendo (e fazem uns 20 anos já) que não sabe tocar direito e... que está pouco se fodendo pra isso. Mas aquele que já verteu para o português "I Believe In Miracles", dos Ramones, agora procura uma sábia simplicidade diferente da ramônica. Aspira pela simplicidade e despojamento de um Johnny Cash, por exemplo, e em certas composições de lírica mais ambiciosa ("As Coisas Mudam"), anda pretendendo igualar também as densas ressonâncias emocionais que foram capazes de comover os presidiários da Folsom Prison.

Já Camelo, que andou sendo perseguido por papparazis tupiniquins e revistinhas de fofoca para adolescentes, todos querendo tirar uma lasca de seu namoro com Mallu Magalhães (a princesinha prodígio do folk-fofinho brasileiro), tem bons motivos para desejar PAZ. Sua sensibilidade deve estar um tanto irritada com o excesso de holofotes e flashes, e isto deve explicar um pouco o porquê de sua escolha por estar mais "pianinho", na moita, querendo se fazer de discreto. Mas Toque Dela é um álbum lindo demais para que fique restrito a discretos fones-de-ouvido de fãs de Los Hermanos tentando curar as feridas de sua orfandade. Camelo (e preparem-se para as manchetes bombásticas que logo virão!) é mesmo o nosso mais sério candidato a "novo Chico Buarque".

Wander, que é mais chegado na vida podreira que o bom-moço Camelo, continua escancarando que anda tomando muita tequila e fumando muita marijuana. A felicidade, para ele, tem muito a ver com uma alegre desencanação (preocupar-se é sempre besteira), inclusive para, diante das más notícias, dizer um "daí fudeu!" que transmute a tragédia em gargalhada. "Pra Ti Juana", por exemplo, é uma baladão com bigode mexicano e portunhol macarrônico em que a "musa" Juanita tem elogiados seu perfume e seus "besos calientes" num banquete pra nenhum brega-punk botar defeito.

Já Camelo, que não abdicou da barba de profeta e a atitude filosófica-contemplativa, é o poeta curtidor de suaves brisas e que diz que o amor desconhece os abismos da idade. Também ele, há anos, parece procurar pelos poderes redentores da simplicidade e da inocência (características que deve ter encontrado em altas doses na pessoa e na música da Mallu, e que explicam um pouco do fascínio dele por um garota quase 15 anos mais jovem.)

Os Hermanos já nasceram com o objetivo escancarado de "cantar o amor", ainda que no início à maneira do Weezer ou de um skacore nervoso e frenético. O jovem e quase pueril Camelo que despontou com "Anna Júlia", um dos maiores hits do rock brasileiro noventista, amadureceu um bocado nesta longa jornada que passou pelo Bloco do Eu Sozinho, pela culminação gloriosa do Ventura, pela melancolia agridoce do 4, pelas nebulosidadesvagarosas de Sou/Nós.O que manteve-se constante foi o desejo de encantar ao cantar o amor sem pingo de cinismo e sem pudor de se mostrar frágil e sensível. E ele faz isso muito bem, melhor que ninguém.

Ambos não têm medo algum do brega e cantam sobre amor sem a paralisia que é o temor do ridículo e da chacota. Camelo, rapaz mais tímido, que às vezes deve "não achar lugar no corpo em que deus lhe encarnou" (para usar o verso de "Cara Estranho"), tem um romantismo mais idealizado, cheio de perfumes e juras, declarações de amor e saudades, como bem mostra "Meu Amor É Teu", das mais belas canções de Toque Dela.



Wander, ao contrário, sacaneia contra os que mandam flores e falam sobre o luar: "No seu beijo falta corte! / Venha com tudo, baby, e me dê amor e morte!". Em contraponto à delicadeza etérea de Camelo, Wander põe Eros e Tânatos para dançar bêbados pelas ruas de Buenos Aires e canta o amor em seu aspecto mais sarjeta-sangue-e-sujeira. Camelo tem pendores idealistas; Wander é mais um materialista visceral. Mas no firmamento dos dois, bem se vê, brilha o amor como valor supremo, ainda que os meios para atingi-lo divirjam.

Em ambos também, me parece, se manifesta uma certa fascinação pela vida nômade: Wander e Camelo, como ciganos cósmicos, escrevem canções sobre o viajar como este fora não um hábito de pegar estrada e ser hóspede frequente de aeroportos, mas mais como metáfora da vida. Mas cada um curte esta viagem de um jeito: Wander prefere ir de trem, cabeça pra fora da janela, vento bagunçando os cabelos sem nenhum grilo, com o perigo de esmagar o crânio contra um poste ou parede de túnel se a gente vacilar.

Já Camelo prefere o mar e não se cansa de falar, malemolente como Jack Johnson em seu melhor álbum (In Between Dreams), que convêm navegar devagar, marinheiro... Camelo escreve canções "Pra Te Acalmar", caro ouvinte. E pra te recomendar: "Se faltar a paz: Minas Gerais". Em momento auto-ajuda e guia-turístico, o compositor carioca, atualmente morando em São Paulo, recomenda descanso dos frenesis paulistanos e cariocas.

"Timoneiro", de Paulinho da Viola, talvez seja a composição clássica da música brasileira que mais reflete o atual "climão" da arte de Camelo, encarnação do "não sou eu quem me navega, quem me navega é o mar". A lição de Camelo é a de deixar-se levar ao invés de contra a correnteza lutar. Já Wander Wildner, mais inquieto, conservou um pouco da urgência dos tempos dos Replicantes, enquanto Camelo está procurando a ausência absoluta de ansiedade. Wander parece preferir galopar pelos pampas gaúchos num cavalo que bebeu uísque a velejar tranquilo na barcola camelística (e só topa ir pra alto-mar se for pra "navegar em mares de cerveja"...).


"A Palo Seco", canção de Belchior (*) que ambos gostam de cantar, fica linda tanto no voz de Camelo quanto na de Wander Wildner. Com bem mais de 25 anos de sangue, sonho e América do Sul, estes dois ícones da nossa música brazuca atual, ambos desesperadamente cantando em português, prosseguem na estrada em suas buscas próprias (e públicas), e que muito iluminam as alheias (ou seja, as nossas). Wander e Camelo, cada um de seu jeito, cada um com seus tropeços, cada um com seus talentos, perseveram (ainda bem!) na busca do zen.


(*) Se você vier me perguntar por onde andei
No tempo em que você sonhava.
De olhos abertos, lhe direi:
- Amigo, eu me desesperava.
Sei que, assim falando, pensas
Que esse desespero é moda em 73.
Mas ando mesmo descontente.
Desesperadamente eu grito em português.

- Tenho vinte e cinco anos de sonho e
De sangue e de América do Sul.
Por força deste destino,
Um tango argentino
Me vai bem melhor que um blues.
Sei, que assim falando, pensas
Que esse desespero é moda em 73.
E eu quero é que esse canto torto,
Feito faca, corte a carne de vocês.


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WANDER WILDNER Caminando y Cantando [2011]

Um comentário:

odetemorreu disse...

Muito bom texto! Os dois discos nacionais deste ano que mais tenho ouvido!