segunda-feira, 17 de agosto de 2009

:: Kurt Cobain: About a Son ::


A ARTE DE OUVIR

- Por Ana Alice Gallo -

Há muito tempo não escutava sua voz. Achei que ela fosse ter um efeito absurdo e que, subitamente, toda aquela idolatria descontrolada da adolescência (e que só se é capaz de sentir na adolescência) voltaria à tona. Para meu espanto, mal reconheci o timbre que, monotonamente, recontava uma infância estilhaçada já nos primeiros momentos de “Kurt Cobain – About a Son”, enquanto a bucólica cidade de Aberdeen passava pelos meus olhos.

Documentário baseado única e exclusivamente nos monólogos que o vocalista do Nirvana travava em entrevista a Michael Azerrad, o filme tem esse poder de choque e distanciamento que desgosta os fãs mais afoitos, aproxima os indiferentes mas, acima de tudo, dá a chance ao morto Cobain de contar sua própria história. Com todas aquelas mentiras, versões e pequenos esquecimentos que acometem a todos os humanos, quando falamos de nós mesmos.

A falta de imagens do próprio Kurt e de músicas da banda é o primeiro passo que permite esse distanciamento da idolatria. O espectador se depara com imagens bucólicas, às vezes pseudo-simbólicas, que pouco parecem ter a ver com a estética explorada pela banda em álbuns, vídeos e nas próprias matérias relacionadas ao grupo.

E a trilha sonora, se algumas vezes esbarra no óbvio (como em “The Man Who Sold the World”, cantada pelo Bowie, da qual todo mundo lembra a regravação feita pelo Nirvana), em outras horas, traz os nem tão manjados (no caso) Queen e Credence Clearwater Revival para ambientar passagens das lembranças de Cobain.


E foi quase que com choque que ouvi os trechos da entrevista, em que os timbres da voz de Kurt ora se aproximam do que habita as minhas lembranças, ora voam longe pelo nível de droga ou de amargor existente no sangue do entrevistado. É impossível não se interessar por coisas que só ele poderia admitir (como quando assume que consumia 400 dólares de droga por dia) e também pelas contradições quando o cara discorre sobre fama, dinheiro, drogas e a própria banda.

No entanto, mais que filme, documentário ou reportagem, “About a Son” é um belo exercício da arte de ouvir. Mesmo que não seja exatamente o que esperávamos escutar.


* texto originalmente publicado no Credencial Tosca: glue there!


* * * * *


por Diogo Soares

O doc. inicia com uma série grande de tomadas feitas ao ar livre provavelmente da região de Aberdeen onde Kurt nasceu e cresceu. Estas tomadas vão se repetindo durante o filme, mas vão diminuindo em intensidade e sendo trocadas por rostos, e afazeres, comuns de Seattle. Começa aí um jogo com o espectador bem interessante. O diretor sabe que as pessoas ouvirão uma série de falas sobre Kurt. Mas quem será Kurt? Um deus ou um mortal?

As primeiras cenas do filme, monumentais paisagens, nos dão a certeza que o mundo não acabou depois da morte de Kurt. O mundo continua a girar e produzir seu balé fantástico de luzes, água e vida. Nada mudou. Kurt é um drogado, mimado e poderia ser qualquer um no lugar dele contando a história de qualquer um americano comum. Essa é a brincadeira mais legal com o título do filme: afinal ele é sobre um dos filhos prediletos de Deus, ou é mais um filho igual aos milhões de estadunidenses de sua geração?

Kurt vive esta mesma contradição em suas frases. Diz que é filho de alienígenas, um escolhido, capaz de realizar o que bem entendesse. Denuncia a mesmice do show business, sua futilidade e inconseqüência. Ao mesmo tempo que se vê preso em sua história de dores, de disputas por dinheiro, de querer apenas uma família constituída, que se vê preso ao não conseguir brigar, como antes, em razão da manutenção de sua casa, riqueza e status.

As tomadas da natureza, somadas com a composição das cidades/pessoas onde Kurt nasceu, morou e morreu, dão um toque especial ao filme. Afinal não podemos dizer que ele é um simples produto da relação complicada de seus pais ou de sua pequena escola que o massacrava. Ele não é único neste sentido restrito. Ele é, e nós todos somos, esta composição mais complexa e ambígua da nossa psique e ambiente.

Ao mudarmos o mundo, o mundo nos muda. Acho que isso Kurt entendeu muito bem. Não somos reféns da história. Mas não existe Kurt Cobain sem que exista uma platéia ávida para ouvir histórias em comum. Portanto não há divindade que resista ao mainstream. Porém. Ao mesmo tempo que todos podem ser artistas, nem todos podem ser bons artistas. Todos somos filhos, mas nem todos somos escolhidos.

DOWNLOAD - Trilha Sonora do Filme
http://www.mediafire.com/?tiodhjwlx5g

Um comentário:

Berenice disse...

qualquer assunto sobre Kurt sempre causa espanto. não conheço esse documentário, ótima dica, mas acabei de ler mais pesado que o céu, incrível. minha última postagem é sobre o livro, passa lá.

bjos
berenice
http://blogdaberenice.blogspot.com/2009/08/mais-pesado-que-o-ceu.html