sábado, 7 de fevereiro de 2009

:: o novo Sepultura ::

A Clockwork Band
- por Ana Alice Gallo -

* atenção: se você não viu o filme ou leu o livro “Laranja Mecânica”, esse texto contém spoilers (ai que chique isso, não?)


Uma pessoa/entidade/banda é capaz de suportar mudanças bruscas de personalidade? Mesmo que essa alteração seja feita de forma abissal e violenta? A questão que norteia o livro “Laranja Mecânica”, de Anthony Burgess, pode ser feita também ao Sepultura. A banda, que se apóia sem sua espinha dorsal original, lança “A-Lex”, álbum baseado na obra de Burgess e que chega para responder com um sonoro “sim” a essa pergunta.

O grupo curtiu a idéia de fazer projetos em cima de grandes marcos da literatura, mas pra isso eles não precisaram se distanciar muito do jeito Sepultura de ser. Os álbuns contam basicamente com uma primeira parte longamente construída em cima de peso, com letras furiosas a respeito de temas como violência, tormento e decrepitude, e um segundo momento mais leve, experimental, que muitas vezes norteia alguns elementos de trabalhos vindouros. Em “Dante XXI”, o antecessor de “A-Lex”, o grupo se debruçou na Divina Comédia e construiu um verdadeiro épico, instrumentalmente mais dark e elaborado, com passagens sonoras demarcando os ritos de entrada no inferno, no purgatório e no céu. O trajeto acompanhava os círculos narrativos do livro, mas não fugia do formato dos trabalhos da banda.




Já em “A-Lex”, a roupagem crua e urgente transpira a contemporaneidade da obra “Laranja Mecânica”, focada na ultraviolenta vida do protagonista, que vai da capacidade de morte e estupro à total apatia induzida por tratamentos desumanos. O que se vê aqui, no entanto, é um Sepultura simples e eficiente, com músicas poderosas, bem pontuadas, feitas para que o pogo da platéia expurgue a jornada destrutiva e subversiva de Alex. Não é um álbum para ser contemplado, e sim para ser transformado em catarse coletiva no local onde a banda reina: o palco, os shows, com a energia dos fãs.

Dividido em 4 partes, assim como o livro, “A-Lex” começa com músicas que lembram os áureos tempos de “Chaos A. D.”, com destaque para “Moloko Mesto” – para quem não se lembra, “moloko” é o leite que Alex e sua gangue ingerem antes de cometerem atrocidades cidade afora. Dessa primeira parte, “Filth Roth” também surpreende por trazer os elementos tribais que se tornaram marca da banda e não soar deslocado mesmo em uma narrativa urbana.

“Alex II” marca a entrada do personagem no tratamento de lavagem cerebral que o deixará totalmente apático e dessa fase pode-se esperar cabeças voando em “Forceful Behavior”, candidata a hino fácil. “Sadistic Values” explora mais as nuances da tortura de Alex quando ele é devolvido ao mundo real e surrado por quem um dia sofreu de sua violência. Já para trilha sonora do momento de desforra social do protagonista, que acontece na fase III quando ele retorna à delinqüência, a banda se permite explorar mudanças de ritmo e brilha com “Strike”, mas exagera na pleonástica “Ludwig Van”.

O filme de Stanley Kubrick, igualmente baseado no livro, terminaria aqui. Mas a obra literária conta com uma quarta parte de transcendência, quando o personagem decide seguir seu caminho e é a própria “Alex IV” que dá conta de passar a mensagem.



Ser grande e inteiro

A saída de Max Cavalera logo após o aclamado "Roots" deixou o grupo sem um de seus alicerces. “Against”, o álbum que se seguiu, continha composições mais fracas e o vocalista Derrick Green demorou mais para adensar o caldo sonoro do Sepultura do que para aprender palavrões em português e torcer pros times brasileiros. O que se viu, no entanto, foi uma banda renovada emergir nessa mudança. Andréas tomou as rédeas dos riffs e eles foram ganhando um corpo próprio. O alicerce que restava, no entanto, dominava o ritmo. Iggor Cavalera pontuava cada uma de suas velozes notas e muitas vezes comandava a música. Se aproveitar o virtuosismo do batera era um deleite, a Sepultribe no entanto ficava sem hinos de guerra ao ver os riffs submetidos às constantes mudanças de andamento de Iggor. A própria mixagem deixava a bateria em primeiro plano e chegava a ofuscar momentos brilhantes de guitarra que não fossem solos.

Jean Dolabella, que entrou para apoiar o alicerce deixado vago quando Iggor saiu, está longe de ter a velocidade e a força do Cavalera, mas isso não é realmente ruim. Virtuoso e extremamente competente, Jean dá corpo a uma parede sonora que, enfim, faz do Sepultura uma banda equilibrada novamente. Com direito a violência, delinqüência, sutilezas sonoras e muita, muita energia. Como uma obra completa deve ser.


DOWNLOAD: http://www.mediafire.com/?tnjylfiixyg

5 comentários:

lux disse...

Leiam mais relatos da Ana sobre o Sepultura no Credencial: http://credencialtosca.blogspot.com. Beeem massa! =D

joh disse...

eu ouvi apenas uns samples no myspace e já deu pra perceber que a coisa ficou bruta - talvez nunca a coisa chegue pra mim ao impacto que foi ouvir o KAOS AD - mas isso, quem sabe, pode se aplicar À MÚSICA!
mais importante do que tentar alcançar um sucesso anterior é manter a cabeça acima da água, respeitar os fãs e principalmente a própria essência! VIDA LONGA AO SEPULTURA!

Renato Passos disse...

Eduardo bom saber que o metaleiro em vc continua vivo hehehehe!!! Cadê o prometido post do Ulver? Desencanou?

Anônimo disse...

a capa remete aos bestiais anos do sepultura, qdo o slayer ainda era

a resenha me fez querer ouvir uma banda que havia desistido há tempos. Kaos AD e Roots ainda são os poucos álbuns de "metal" que considero dignos de se reouvir.

talvez com A-lex tenha nascido uma nova banda digna de se chamar sepultura

aí se institui uma dúvida: será que o grande problema era a ordem cavalera? já formulei a pergunta, agora só passo a bola...

Giul, Discoteclando disse...

problemas no computador impediram que eu me identificasse no post anterior e acrescentasse que laranja mecânica perfeito!!