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domingo, 27 de outubro de 2013

R.I.P. Lou Reed (1942 - 2013)

(2 de Março de 1942 - 27 de outubro de 2013)

Morreu hoje, aos 71 anos de idade, o ícone Lou Reed (que faz companhia, na foto acima, a seus "trutas" David Bowie e Iggy Pop). Leia o necrológio da Rolling Stone gringa [http://rol.st/1g51ym2] e aproveite para relembrar alguns dos álbuns mais importantes de sua carreira-solo e com o Velvet Underground. Descanse em paz, Lou, enquanto nós seguimos embarcando em suas criações e curtindo caminhadas pelo lado selvagem...

SOLO 


VELVET UNDERGROUND

Download da discografia completa

DOCUMENTÁRIO COMPLETO:

segunda-feira, 27 de maio de 2013

REBELDES COM CAUSA: THE CLASH (DISCOGRAFIA + SHOWS COMPLETOS + DOCUMENTÁRIO "WESTWAY TO THE WORLD")

 

Em homenagem a uma das mais fodásticas bandas inglesas da história do punk-rock, aí vai um pacotão THE CLASH. Inclui: discografia completa (pra ouvir on-line ou baixar), um punhado de shows inteiros pra ver no Youtube e o documentário "Westway to the World", na íntegra e legendado em português (de cabo a rabo!). Siga viagem... 

The Sex Pistols may have been the first British punk rock band, but the Clash were the definitive British punk rockers. Where the Pistols were nihilistic, the Clash were fiery and idealistic, charged with righteousness and a leftist political ideology. From the outset, the band was more musically adventurous, expanding its hard rock & roll with reggae, dub, and rockabilly among other roots musics. Furthermore, they were blessed with two exceptional songwriters in Joe Strummer and Mick Jones, each with a distinctive voice and style. The Clash copped heavily from classic outlaw imagery, positioning themselves as rebels with a cause. As a result, they won a passionately devoted following on both sides of the Atlantic. While they became rock & roll heroes in the U.K., second only to The Jam in terms of popularity, it took the Clash several years to break into the American market, and when they finally did in 1982, they imploded several months later. Though the Clash never became the superstars they always threatened to become, they restored passion and protest to rock & roll. For a while, they really did seem like "the only band that mattered." - Stephen Thomas Erlewine (AMG All Music Guide)

DISCOGRAFIA COMPLETA:

Ou baixe 12 CDs em um torrent
(MP3 de 192kps, 1 GB)

* * * * *

 SHOWS COMPLETOS:
"Westway to the World", documentário completo sobre a história do The Clash, 
legendado em português (1h 20min)

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

"1001 Discos Para Ouvir Antes de Morrer" - Ouça TUDO on-line e di-grátis


Foram disponibilizados TODOS os "1001 Discos Para Ouvir Antes de Morrer" para audição on-line gratuita, saca só: http://bit.ly/NAM38D. Um brinde à rádio romena que realizou esta benfeitoria à humanidade! 

Esta fantástica compilação musical engloba gravações que marcaram época no período entre 1955 e mais ou menos 2005. Inclui clássicos do jazz (Davis, Coltrane, Mingus, Brubeck, Ella Fitzgerald...), do rock clássico (Led, Beatles, Clash, Stones, Floyd...), do punk (Pistols, Ramones, Damned, PiL, Dead Kennedys...), do grunge (Nirvana, Pearl Jam, Alice in Chains, Soundgarden, Screaming Trees...), chegando até discaços mais recentes (Strokes, Arcade Fire, Flaming Lips, White Stripes, Wilco...).

É material de qualidade pra cacete!

Resta saber: isso se aguentará on-line ou o establishment da Indústria Fonográfica já está mexendo seus pauzinhos nos bastidores pra derrubar?

Veja a lista completa dos 1001 álbuns e ouça-os todos aqui.

terça-feira, 27 de março de 2012

Da caixinha de memórias de Patti Smith: o 1º encontro com Rimbaud, um show dos Rolling Stones e o poeta vida-podreira Jim Carroll



Patti Smith abre sua caixinha de souvenirs e nos conta em fina prosa lá no Mate-me Por Favor (A História Sem Censura Do Punk):


O PRIMEIRO ENCONTRO COM RIMBAUD 

“A Poet makes himself a visionary through a long, boundless and systematized
disorganization of all the senses.”
Rimbaud 



Eu estava trabalhando numa fábrica e inspecionando produtos pra bebê, e era minha hora de almoço. Um cara passava por lá com uma carrocinha que tinham aqueles maravilhosos sanduíches de linguiça, e fiquei muito a fim de um. Eles custavam mais ou menos um dólar e quarenta e cinco. Fiquei muito afim de um, mas acontece que o cara só trazia dois por dia. E as duas senhoras que mandavam na fábrica, Stella Dragon e Dotty Hook, pegaram os dois.

Aí não havia nenhuma outra coisa que eu quisesse. Você fica obcecado  por uns certos sabores. Estava com a minha boca salivando pelo tal sanduíche de lingüiça quentinho, então fiquei na maior depressão. Daí caminhei ao longo dos trilhos da ferrovia até uma pequena livraria. Fiquei zanzando por lá, procurando alguma coisa pra ler, e vi Illuminations. Uma edição de bolso barata das Iluminuras do Rimbaud, sabe? Quer dizer, todo garoto teve uma. Tem aquela foto granulada de Rimbaud, e achei que ele tinha um ar muito elegante. Rimbaud parecia muito genial. Peguei o livro no ato. Nem sabia do que se tratava, simplesmente achei que Rimbaud era um nome elegante. Provavelmente chamei-o de "Rimbawd" e achei que ele era muito cool.

Daí voltei pra fábrica. E fiquei lendo o livro. Era em francês de um lado e em inglês do outro, e isso quase custou meu emprego porque Dotty Hook viu que eu estava lendo alguma coisa que tinha língua estrangeira e disse: "Pra que você está lendo coisa estrangeira?!?"

Eu disse: "Não é estrangeira."

Ela disse: "É estrangeira e é comunista. Qualquer coisa estrangeira é comunista."

Ela disse isso tão alto que todo mundo pensou que eu estivesse lendo O Manifesto Comunista [de Marx & Engels] ou coisa parecida. Todos se levantaram, foi um caos completo, é claro, e saí da fábrica muito puta da cara. Fui pra casa e, é claro, dei ao livro a maior importância antes mesmo de lê-lo. Me apaixonei de verdade por ele. Foi por aquele encantador Filho de Pan que me apaixonei... Porque ele era tão sexy.



A MAGNÉTICA PRESENÇA DE MICK JAGGER NO PALCO



O que me fez ter esperança no futuro da poesia foi o concerto dos Rolling Stones que vi no Madison Square Garden. Jagger estava cansado e todo detonado. Era uma terça-feira, ele tinha feito dois shows e estava de fato à beira de um colapso - mas o tipo de colapso que transcende pra mágica.

Jagger estava tão cansado que precisou da energia da platéia. Não foi um roqueiro naquela noite. Ele esteve mais perto de ser um poeta do que jamais estivera, porque estava tão cansado que mal conseguia cantar. Adoro a música dos Rolling Stones, mas o principal não foi a música, mas a performance - a performance visceral. Foi a performance visceral dele, o ritmo, a movimentação, a fala - ele estava muito cansado, dizia coisas do tipo: "Very warm here/ warm warm warm / It's very hot here / hot, hot / New York, New York, New York / band, bang, bang." (Muito quente aqui / quente quente quente / faz muito calor aqui / calor calor / Nova York Nova York Nova York / banda, bang, bang.)

Quer dizer, nada daquela coisa foi genial - foi a presença e a força dele que mantiveram a audiência na palma de sua mão. Havia eletricidade. Se os Rolling Stones tivessem ido embora e deixado Mick Jagger sozinho, ele teria sido maravilhoso como qualquer poeta naquela noite. Teria falado alguma de suas melhores letras e mantido a platéia magnetizada.

E aquilo me entusiasmou tanto que quase me despedacei, porque vi todo o futuro da poesia. Vi e senti de verdade, fiquei tão empolgada que mal cabia em mim, e isto me deu força pra seguir em frente. [...] Apresentação física numa performance é mais importante do que o que você está dizendo. Qualidade dá bom resultado, é claro, mas se a sua qualidade intelectual é alta, seu amor pela platéia é evidente, e você tem uma forte presença física, pode fazer qualquer coisa impunemente.


SEDUZIR PARA UMA CONSCIÊNCIA DE MASSA

Comecei a fazer sucesso escrevendo aqueles poemas longos, quase poemas de rock & roll. E gostava de apresentá-los, mas percebi que, embora fossem maravilhosos, não eram grande coisa no papel. Não estou querendo dizer que os renego, mas existe um certo tipo de poesia que é poesia de performance. É como os índios americanos, que não escreviam poesia conscientemente. Faziam cânticos, faziam linguagem ritual - e a linguagem do ritual é a linguagem do momento.

Mas, na medida em que ficavam congelados num pedaço de papel - não eram inspiradores. Você pode fazer o que quiser, contanto que seja um grande performer, sabe como é, pode repetir uma palavra mais e mais, contanto que seja um performer fantástico. Quer dizer, Billy Graham é um grande performer, muito embora seja um cagalhão. Adolf Hitler era um performer fantástico. Era da magia negra. E eu aprendi daí. Você pode seduzir as pessoas pra uma consciência de massa.

Assim, escrevo pra ter alguém. Há um motivo por trás de tudo que escrevo. Escrevo do mesmo jeito que me apresento. Quer dizer, você só se apresenta porque quer que as pessoas se apaixonem por você. Quer que elas reajam a você.

A outra coisa é que, através da performance, alcanço certos estados nos quais sinto minha mente muito aberta - tão cheia de luz, enorme, grande como o Empire State Building -, e, se consigo desenvolver uma comunicação com o público, um grupo de pessoas, quando minha mente está tão grande e receptiva, imagine a energia, a inteligência e todas as coisas que posso roubar delas.


JIM CARROLL É UM DOS VERDADEIROS POETAS DA AMÉRICA

Jim Carroll (3º da esq. pra direita), autor de The Basketball Diaries, 
adaptado pro cinema como Diários de um Adolescente

Os poetas de St. Mark's são muito insípidos, são umas fraudes, eles escrevem: "Hoje às nove e quinze tomei um pico de speed com Brigid..." São espertos o suficiente pra colocar isso num poema, mas se Jim Carroll entra doidão na igreja e vomita, isto não é um poema pra eles - não é cool. 

Tudo bem se você joga com isso na sua poesia, mas se está realmente nessa, aí já é outra coisa - não é algo que eles queiram encarar. Jim Carroll era a chance do St. Mark's Poetry Project ter algo real lá. Jim Carroll é um dos verdadeiros poetas da América. Quer dizer, é um poeta de verdade. É um junkie. É bissexual. Foi comido por todos os gênios masculinos e femininos da América. Foi comido por toda essa gente. Ele vive por inteiro. Vive uma vida repugnante. Às vezes você tem que tirá-lo de uma sarjeta. Ele esteve na prisão. É um fodido completo. Mas qual o grande poeta que não foi? Pra mim é incrível que aos 23 anos Jim Carroll tenha escrito todos os seus melhores poemas - com a mesma idade que Rimbaud escreveu os dele. Ele tem a mesma excelência intelectual e altivez de Rimbaud. 

Mas o baniram porque ele fodeu com tudo. Não apareceu pra sua leitura de poesia. Estava na cadeia. Bom pra ele. Disseram: "Oh, bem, não podemos mais pedir pra ele ler poesias." Foi ridículo.

tudo isso e muito mais lá no...



Mate-me Por Favor (Uma História Sem Censura do Punk) 
Legs McNeil e Gillian McCain (org.)
Editora L& PM


<<< BAIXE >>>
Discografia Completa de Patti Smith [1975-2004] - mp3 de 192kps
Documentário "Patti Smith: Dream of Life" (2008), de Steven Sebring

<<< LEIA MAIS >>>
Patti Smith: Um Rimbaud de saias poetizando o rock'n'roll

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Suor Elétrico


(Atende pelo nome de "Mooney Suzuki" um bando de garageiros descontrolados nova-yorkinos que já devem ter sofrido altas perdas audititivas de tanto tocar com amplis no talo. Electric Sweat, disco de 2002, foi gravado em Detroit ["birthplace of dirty rock'n'roll"], num estúdio por onde já passaram White Stripes e Jon Spencer Blues Explosion, e honra a tradição encardida do MC5 e dos Stooges. Vale conferir! Dica do Pedrin' Bang Bang.)


<<< DWLD >>>

domingo, 12 de dezembro de 2010

<<< 10 de 2010 >>>

# 07

G.B.H.
"Perfume and Piss"

"Perfume and Piss makes it clear that old punks don't have to burn out or fade away, they can just keep on rocking until they drop.JAMES ALLEN, AMG All Music Guide

No código penal britânico, G.B.H. é sigla para "Grievous Bodily Harm", algo como "Dano Corporal Cabuloso". É por este crime que um sujeito seria processado se enchesse alguém de porrada até reduzi-lo a farelo - ou um monte de ossos fraturados. Apologia da violência? No caso dos veteranos do punk inglês (Charged) G.B.H., com quase 30 anos com os amplificadores no talo, não se trata de fazer o elogio da violência gratuita, mas sim de uma violência bem dirigida e focalizada, mais artística que literal, mais sônica que armamentista: o pacifismo gandhiano é insuficiente para vencer os imperadores tiranos, parece dizer o G.B.H., mas talvez possamos confrontá-los com guitarras! They enrage to engage.

Com mais de 10 álbuns de estúdio (e mais um punhado de ao-vivos) no catálogo, o G.B.H. fez em Perfume and Piss um discaço de punk rock que só mesmo uma banda veterana, cheia de garra e extremamente segura de si poderia fazer. Uma das primeiras coisas que salta aos ouvidos é o sabor altamente rancidiano do disco, o que não é de surpreender, já que o G.B.H. foi uma das principais influências para a banda de Tim Armstrong e Cia. Agora Colin Abrahall e sua turma retornam o presente e gravam um comeback triunfante que honra o espírito do Rancid, coisa que os próprios não conseguiram fazer tão bem no ano passado, quando soltaram, após 6 anos de silêncio, Let The Dominoes Fall, disco que achei meio morno em comparação com a incandescência dos clássicos ...And Out Come The Wolves (1995) e Life Won't Wait (1998).

Se o mais recente álbum do Rancid tinha me feito concluir que é quase impossível que uma banda punk chegue à beira dos 20 anos de pogo e berro sem perder um pouco do gás, o novo do G.B.H. chegou para provar o contrário: que um bom punk sempre encontra a força para voltar a ser um vulcânico jorro de energia juvenil e indignação sadia. Está aí muito do meu afeto e empolgação por estas perenes Fontes da Juventude que são Rocket to Russia, Raw Power, London CallingBlank Generation, Kick Out The Jams!, Nevermind the Bollocks, Zen Arcade, Fresh Fruit For Rotting Vegetables, Nevermind, dentre tantos outros... É só dar um play  neles e sentir a juventude voltar a correr pelas veias, sentir o sangue renovar-se, veloz como um gabba gabba hey!

Por isso gosto de pensar que o punk ensina não exatamente o "live fast, die young!", mensagem muito niilista e auto-destrutiva, mas algo muito mais positivo: "be young your whole fucking life!". Ao invés de morrer jovem e deixar um belo cadáver (para usar a expressão de Oscar Wilde), por que não procurar ser um velhinho com energia de moleque, com pilhas sempre renovadas? A efervescência da juventude pode até parecer tão efêmera quanto uma palhetada de Johnny Ramone; mas seus frutos, por vezes, são tão imortais quanto "Rockway Beach" ou "God Save The Queen".

* * * * * 


O G.B.H. sobrevive desde 1979, tendo participado da primeira onda do hardcore britânico (que contou ainda com Varukers, Exploited, Discharged, dentre outros). São eles os legítimos "last ones to die" e "indestructibles" de que falam as canções do Rancid.

Apesar de citados como uma das primeiras bandas a tentar o crossover entre punk e metal que gerou o thrash e o speed metal,  e apesar de terem conseguido influenciar tanto o Slayer quanto o Rancid, o G.B.H. é bem mais do pogo do que do headbangin', como prova o moicanão de Colin Abrahall. 
"There aren't many first-generation British punk bands that have stayed the course all the way up through the 2000s, and it's striking how much furious energy still leaps out of the band's guitars, drums, and throats on Perfume and Piss. Perhaps most impressive is the fact that G.B.H. have stayed close to their original aesthetic -- Perfume and Piss isn't watered down by any attempts at "maturity" or "sophistication" -- two words that spell death for street punks." --- AMG ALL MUSIC GUIDE
 Perfume and Piss é um álbum mais rancidiano e cláshico do que qualquer outro que eu tenha ouvido neste ano, o que se explica fácil: Lars Frederiksen ficou responsável pela mixagem e o disco foi lançado pelo selo Hellcat da Epitaph (co-fundada por Tim Armstrong), o que basta para rancidificar o climão do álbum. Além disso, o álbum traz uma homenagem póstuma a Joe Strummer ("San Jose Wind", quase uma elegia fúnebre em ritmo punk-77 dirigida ao falecido líder do The Clash, cujas cinzas foram espalhadas pelo vento da cidade espanhola de San Jose).

Como era de se esperar, o disco é pedrada pra todo lado: contra o terrorismo islâmico (em"Invisible Gun"), contra os reality shows ("This Is Not The Real World"), contra os presidentes genocidas ("Cadillac One") e, claro, contra baladinhas água-com-açúcar ("Ballads", que reclama pelo retorno da "teenage angst" bradada em alto e bom som e pelo fim das cancionetas de amor mela-cueca). 

 "All I can smell is perfume and piss!!!", esbraveja o G.B.H. na faixa-título.  Eu pensava que estavam se referindo, é claro, àquelas criaturas odiáveis que borrifam perfume pelo ambiente para que ninguém perceba que mijaram no chão: os políticos, esta raça que domina a arte do kitsch e maquia suas pilantragens com maquiavélicas artes de perfumaria... Que Estado neste mundo não fede a perfume francês? Queremos um Estado que feda a suor proletário!

Mas o próprio Colin, no encarte e em entrevistas, garante que "perfume and piss" é algo mais que uma botinada nos poliqueiros: é uma metáfora para a vida e sua mescla de bem e mal, perfume e fedor, maravilha e horror, elementos sempre em dialéticas transações. "Every dark cloud has its silver lining, and vice-versa", comentou o vocalista do penteado porco-espinho. Muito bem dito.

"You've got the power to throw the bomb / You can blow us all to kingdom come", cantam em "Cadillac One". E aqui se escancara que o inimigo contra quem se volta a fúria da música do G.B.H., é claro, são estes com poderes para lançar bombas, dizimar vilas, empilhar civis, incendiar histórias. O G.B.H. vem com seus riffs-molotov e seus rifles-refrões para nos ajudar a nos livrar tantos destes bombermen do Império, quanto dos sanguinários terroristas com o dedo no gatilho das invisible guns. E como fazem muito mais barulho, literalmente falando, do que uma palestra de Noam Chomsky!

Já "Power Corrupts" podia muito bem ser um hardcore inspirado por Dogville, o clássico brechtiano de Lars Von Trier. Só que o G.B.H., é claro, é bem menos intelectualizado que o cineasta dinamarquês, e ainda mais selvagem. Estes brados de Birmingham a respeito dos efeitos corruptores do poder, saturados dum anarquismo escancarado e desavergonhado, são chutes-na-porta mais que argumentos lógicos. 

Mas quem foi que disse que um chute-na-porta não possa ter sua lógica?

Seja bem-vindo ao punk rock pé-na-porta e polícia-pra-fora, que berra com plena convicção sua certeza de que para a corrupção ser diminuída, só há um meio: que o poder seja melhor distribuído. Pois poder absoluto corrompe absolutamente. Que os megalomaníacos e control freaks tomem um chute na bunda, para fora do trono, e fiquem na deles, ao invés de segurando o remote da bomba atômica...

Enfim: ouvir um álbum primoroso como Perfume and Piss é um excelente lembrete não só da vitalidade perene do movimento punk, mas do quanto o punk é o mais urgente de todos os estilos musicais já inventados por humanos: pois é fruto daqueles que são plenamente conscientes da urgência de agir contra as desigualdades sociais, autoritarismos escrotos, costumes sociais "quadrados" e outras desgraceiras que impedem a pedra de seguir rolando adiante, sem juntar limo...


<<< d >>>

"There isn't a self-respecting gutter punk, hardcore kid or subcultural miscreant alive who hasn't seen the GBH logo emblazoned on the back of a leather jacket, a denim vest, or a torn-up t-shirt. And now the world  will be slapped upside the head with another reminder as to exactly why GBH is so important, in the form of Perfume and Piss, the legendary and iconic punk band's first album for Hellcat Records. Barn-burning, fist-pumping, palace-gates-storming tracks like "Kids Get Down," "Cadillac One" and "This is Not the Real World" carry the torch forward with the band's trademark fury that is alternately nihilistic, optimistic, pessimistic, anarchist, violent, humorous and deadly serious all at once." - Facebook 

domingo, 22 de agosto de 2010

:: Jello Biafra and the Guantanamo School of Medicine ::

De volta à escola
- Bernardo Santana -

Antes de qualquer coisa, o bom e velho serviço de utilidade pública punk para a comunidade: Jello Biafra and the Guantanamo School of Medicine no Brasil, em novembro. Dito isso, à música, então. The Audacity of Hype é o primeiro disco do projeto mais recente de Jello Biafra – que, pra quem não sabe, era o vocalista do Dead Kennedys e, ainda hoje, um dos músicos mais politizados e politicamente ativos do planeta. Ele é o cara que introduziu a ironia e o humor na cena hardcore dos EUA. Ele é o moleque que concorreu à prefeitura de São Francisco em 1979, conseguindo nas urnas um resultado bastante expressivo pra alguém de 21 anos e anarquista confesso (foi 4o lugar). Ele é o tal que fundou um dos selos independentes mais longevos do planeta, o Alternative Tentacles, exemplo até hoje pra quem não fica sentado esperando a bigorna das grandes gravadoras cair na cabeça de suas bandas, projetos e congêneres. Enfim, é um cara a ser ouvido – mesmo que seja em seus discos só de spoken words.

Mas esse não é o caso da primeira bolacha do JB & GSM, graças ao misericordioso Tolstoy. Lançado em 2009, The Audacity... traz um som bastante próximo daquele que os DK fizeram. E, apesar de qualquer bronca inicial com isso, é garantido: se você gosta dos Kennedys, dificilmente vai se entediar com os Schoolers! É a barulheira da antiga banda de Jello, mas com um pouco mais de proto-punk tipo Detroit como ingrediente.

Sinta um pouco do amor dos caras no ar:



Ao lado de Billy Gould (recentemente saído para voltar ao Faith No More) e de outros amiguinhos, Jello Biafra conseguiu, mais de trinta anos depois de surgir em cena, soltar um libelo do tipo entretenimento-bomba como fazia com maestria quando ainda nem bem tinha saído dos remendados cueiros. As letras dessa vez – e como não podia deixar de ser – tratam de temas atuais pós-Bush, como a insistente orientemediofobia estadunidense, causa número um de distorções bizarras na lei daquele país ainda hoje, e assuntos infelizmente recorrentes desde o início da carreira de JB, como violência policial, estupidez institucionalizada e consumismo.

No entanto, existem momentos de espanto em Audacity mesmo pra aquele macaco mais velho. I Won't Give Up, maior exemplo, merece um parágrafo só pra ela, tanto pela música quanto pela letra. A primeira surpreende por fugir da cartilha tradicional do punk rock – coisa que nem é tão novidade quando se trata de Jello Biafra –, usando um espantoso slide em algumas partes e quase parecendo um hard rock zeppeliano em diversas outras. Vale lembrar que o Lard, outra banda de Jello, soltou um EP chamado 70's Rock Must Die há uns dez anos... Me lembrou o Pagode Nuclear, aquele grupo de samba do Gordo e do Clemente que pagodiava clássicos do punque nacional. Coisa linda! Já a letra é de fazer chorar quem vive num país como o nosso, com um processo eleitoral sério com um episódio dos Trapalhões. Veja se você se identifica com esses versos:

Here's to fear
'Nother circus election year
Clown-didates pretend they're human beings

Here's the ads
We vote and someone wins
That's all we're allowed to really change

(Tradução livre: Um brinde ao cagaço / Mais um ano elegendo um palhaço / Candibobos fingindo que são seres humanos / Chegou a propaganda / A gente vota e um outro manda / É só isso que nos deixam mudar)

E por aí vai...

E aí, vamo?

DOWNLOAD: 82 Mb - 9 faixas

quinta-feira, 10 de junho de 2010

:: Garotos Podres ::


:: GAROTOS PODRES ::
“Mais Podres do que Nunca” (1985)
- Fred Di Giacomo -


Na capa um menino saudável brinca com uma mamadeira, na contra um pequeno africano desnutrido chora esperando a morte chegar. Mais Podres do que Nunca, produzido pelo Redson (Cólera), primeiro disco de Oi! do Brasil, é um clássico do rock brazuca. Todos citam Dois do Legião Urbana, Nós Vamos Invadir Sua Praia do Ultraje à Rigor ou, "para quem curte um som mais agressivo", Cabeça Dinossauro dos Titãs, mas se esquecem dessa pérola tosca que vendeu mais de 50.000 cópias independentes, ganhou as rádios rock com "Johnny" e "Vou fazer cocô" e ainda cravou dois clássicos no punk nacional: "Papai Noel, Velho Batuta" e "Anarquia Oi!".

 Aqui não há nada que lembre o punk cheiroso de NX Zero e Good Charlotte. A produção é suja e os instrumentos, amadores. A gravação era pra ser uma demo, mas acabou virando disco independente "devido ao resultado surpreendente" pra época. Três faixas gravadas nunca foram lançadas devido à péssima qualidade, as 11 que ficaram trazem a marca dos Garotos Podres; punk simples, mais lento e candenciado que o feito por seus contemporâneos (Ratos de Porão, Olho Seco, Cólera...) e letras críticas/ sarcásticas carregadas de humor negro.


Afinal, quem nos dias de hoje teria a manha de fazer uma letra como a de "Papai-Noel": "Papai-Noel, filho da puta/ Rejeita os miseráveis/ Eu quero mata-lo/ Aquele porco capitalista/ Presenteia os ricos/ Cospe nos Pobres." Ou "Vou fazer cocô": "Enquanto você, de paletó e gravata/ Aparece na tv/ E diz coisas que eu não consigo entender/ O que que eu faço?/ Vou fazer cocô." 

Não, não, muito sujo, politicamente incorreto, prejudicaria as vendas. Rock sem esse espírito de contestação tem o mesmo valor que axé. Mesmo porque, tanto faz ter na rádio Luan Santana e Exaltasamba ou Restart e Fresno. O lixo é o mesmo, aí talvez até seja melhor o Exaltasamba porque é lixo 100% nacional, os caras das "bandas de pop/rock" de hoje em dia ainda tem a moral de copiar lixo dos gringos. Cada país tem a trilha sonora que merece...

Bom, voltando aos Garotos Podres, seu disco de estréia gravado em 1985 e relançado com a música "Meu Bem" (uma daquelas 3 que tinham ficado "péssimas") é o retrato dos anos 80, conturbados, marcados pelo fim da ditadura (que censurou duas faixas do disco), pelas greves de metalúrgicos (ali perto dos Garotos, que são do ABC) e pela hegemonia do Brock. 

Uma história retratada nas 11 faixas desse disco. Uma curiosidade bizarra é a música Füher ("Os imundos querem dominar o mundo, com o poder de suas armas/ Sob suas estrela maldita/ Fanáticos religiosos, assassinos malditos/ Eu quero mata-los"). A letra acabou gerando acusações aos Garotos Podres (socialistas) de nazismo. Essa acusação ainda ecoa nos meios anarcopunks. Em uma entrevista concedida a mim por e-mail, Mau explica o assunto. "A intenção da música é colocar no mesmo saco os nazistas e a extrema direita israelense que defende a matança indiscriminada e a deportação em massa dos palestinos". E a história segue vinte e cinco anos depois do lançamento do disco, os palestinos continuam sendo massacrados pela extrema direita israelense e os Garotos Podres ainda são uma das poucas bandas interessantes do rock nacional...

DWLD: http://www.mediafire.com/?qnmqmi5kydc
[192kps; inclui encarte escanneado, com todas as letras]

(*) Fred Di Giacomo é jornalista camarada do Depredando, blogueia no Punk Brega e é baixista das bandas paulistas Milhouse e Cuecas Rosas.

quinta-feira, 18 de março de 2010

:: Ramones ::

HEY HO, LET'S GO!
- por Frederico DiGiacomo Rocha (*) -


Para a revista Rolling Stone ele é o 33º melhor disco da história. Para qualquer moleque de calça rasgada e all star ele é seu motivo de existir. Um dos pedaços de vinil mais influentes da música pop. Sua duração é de 29:04s. Seu custo total de produção foram míseros U$ 6400, numa época onde, segundo declaração do próprio Joey Ramone, no livro “Mate-me, por favor”, gastava-se meio milhão para produzir um álbum. E esse não era qualquer álbum; ele criou o punk, revolucionou o rock do final dos anos 70 e deu origem a centenas de bandas. Dos Sex Pistols aos Metallica, do Red Hot Chili Peppers aos Ratos de Porão, a influência do primeiro disco dos quatro magrelos de Nova York foi devastadora.

É difícil explicar hoje a importância desse amontoado de 3 acordes tocados com velocidade e paixão, sem riffs difíceis, solos de guitarra ou viradas de bateria. Aqui no Brasil, seria como se os Racionais Mc’s tivessem um som tão agressivo quanto os Ratos de Porão e criassem, em seu primeiro disco, a Bossa Nova ou a Tropicália.

Estávamos nos Estados Unidos, em 1974. O que existia de mais agressivo no rock era o som de MC5, Stooges e New York Dolls. As três bandas tinham um sucesso mediano, mais underground, e seu som era uma transição do hard rock para o que se chamou punk. O que mais lembrava o que o Ramones viria a fazer era o primeiro (e cru) disco dos Stooges. Mas nesse, você encontra uma música de mais de dez minutos (“We Will Fall”) e aqui a música mais comprida tem 2:39s(“I don’t Wanna Go Down to The Basement”).

E as rádios? Eram dominadas pelo progressivo de Yes e Genesis, pelo hard rock virtuoso de Led Zeppelin e pela discoteca do saltitante John Travolta. O sonho hippie tinha acabado, os Beatles também. A América Latina, o leste Europeu e grande parte da Ásia viviam sob ditaduras. O mundo em constante ameaça atômica era uma ressaca claustrofóbica.


A primeira coisa que chama a atenção no disco é a capa. Quatro cabeludos, com jaquetas de couro pretas – como as de Marlon Brando e James Dean – calças rasgadas, tênis surrados e caras desafiadoras estão encostados numa parede pichada. Eles parecem te provocar, loucos pra te dar uma porrada. A única coisa escrita lá é o nome da banda “Ramones” – uma referência ao nome que Paul Mccartney usava para se registrar em hotéis.

O disco começa. A porrada vem em forma de grito de guerra. "Hey ho let’s go!" Um ataque relâmpago, fala da blitzgrieg, estratégia militar que fez os nazistas dominarem metade da Europa no começo da Segunda Guerra Mundial. Ah, vale lembrar, o alemãozinho Dee Dee Ramone tem fascinação pelo nazismo.

O desengonçado Joey Ramone – já internado em clínicas psiquiátricas - berra “espanque o moleque com um taco de beisebol”. De onde vem tanta raiva? Dee Dee foge de uma família problemática, Johnny ralava como pedreiro. O lirismo se esconde nos backing vocals que fazem referência a grupos vocais dos anos 60. “I Wanna Be Your Boyfriend” quebra o clima, uma balada romântica, já pavimenta o caminho que os Buzzcocks, e mais pra frente os emos, vão seguir. “Os punks também amam”.


“Now I Wanna Sniff Some Glue” repete milhares de vezes a mesma frase. Os moleques entediados lá de “1969” de Iggy Pop agora gastam o tempo cheirando cola, arrumando brigas e fazendo barulhos com suas guitarras toscas, ou serras elétricas, em “Chain Saw”. A contagem para todo mundo entrar junto – que se tornou marca registrada do grupo – aparece pela primeira vez em “Listen To My Heart”. “1,2,3,4!”, grita Dee Dee, baixista e principal compositor. Ele vai voltar a urrar em uma das partes de “53rd and 3rd”, uma das mais sérias e tristes do álbum. É sobre o tempo em que o músico ficava nas esquinas de Nova York fazendo michês. O disco ainda traz como destaque o cover “Let’s Dance”(e gravar clássicos do rock ‘n’ roll seria uma marca da banda) e “Today your Love, Tomorrow the World”.

Pronto: menos de meia-hora e a surra acabou. Aqueles punks saídos do filme “O Selvagem”(com Marlon Brando), que soavam como uma canção de Iggy Pop e queriam cantar como se fossem os Beach Boys, devem estar cheirando cola em outro lugar. Seu álbum não fez nenhum sucesso nos EUA. Só foi bem recebido quando o quarteto excursionou pela Europa e influenciou meio mundo – Clash e Sex Pistos incluídos, dando origem ao movimento punk e todo hype em cima da coisa. Dessa árvore cairiam os frutos podres do hardcore, trash, crossover, grunge, emo e outros estilos musicais.

Era isso. Letras diretas sobre o cotidiano do mundo white trash - os brancos pobres e desajustados dos EUA. Som distorcido, rápido e sem firulas. Refrões fortes. Backing vocals melodiosos. E o rock nunca mais seria o mesmo.



DOWNLOAD [192kps - 61 MB - 22 faixas]:
http://www.mediafire.com/?iowmzinylaz

obs: a versão do álbum que disponibilizamos é o relançamento de 2001 da Rhino / Warner Archives, que contêm o primeiro álbum remasterizado e mais 8 bonus tracks - as demos pra lá de tosqueira de "I Wanna Be Your Boyfriend", "Judy Is a Punk", "I Don't Care", "I Can't Be", "Now I Wanna Sniff Some Glue", "I Don't Wanna Be Learned", "You Should Never Have Opened That Door" e a versão single de "Blitzkrieg Bop".


PARA SABER MAIS:
- “Mate-me, por favor”, de Legs McNeil e Gilliam McCain
- “Coração envenenado” – Dee Dee Ramne e Veronica Kofman

(*) Fred é jornalista, blogueiro, escrevedor de linhas tortas e baixista das bandas paulistas Milhouse e Cuecas Rosas. Você pode ler mais textos dele no Punk Brega!

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

:: shake you and your fossils out ::


:: ANTI-TERRORISMO LÍRICO ::

- Sobre os escombros do World Trade Center, o Sleater-Kinney ergue um colossal edifício punk celebrando o questionamento e o direito à discórdia nos EUA da paranóia e da patriotada -

“Are we innocent, the paragons of good?
Is our guilt erased by the pain that we've endured?”

"COMBAT ROCK"



One Beat, o magnum opus do Sleater-Kinney e um dos álbuns de rock mais estupendos da década passada, foi composto e gravado pouco depois do atentado às Torres Gêmeas. Tanto que alguns críticos o consideraram como um dos primeiros álbuns que sintetizam e exploram o novo zeitgeist americano, especialmente pelas canções de protesto e comentário social que o disco carrega. Pode ser enquadrado na onda de álbuns pós-11 de Setembro que retrataram os EUA após o baque, como fez Bruce Springsteen com seu The Rising e Tori Amos com seu Scarlet's Walk, ambos de 2002 (e que já foram alvo até de um estudo acadêmico).

Se Spike Lee, em seu A Última Noite, foi o primeiro a registrar no cinema o cenário de Manhattan dominado pela ausência das torres, colorido pelos melancólicos holofotes azuis de uma cidade tomada pelo blues, o Sleater-Kinney foi a primeira banda de rock a cometer uma obra-de-arte contundente sobre a realidade sócio-política peçonhenta da nova década, parida em meio ao sangue e aos escombros.

Este é também o primeiro disco que Corin Tucker gravou depois de ter se tornado mãe - tanto que o tema da maternidade é explorado, com excelentes efeitos, em canções como "Far Away" e "Sympathy". One Beat ganha outra dimensão se for ouvido com isto em mente: é um álbum nascido da alma de uma mamãe-punk que vê seu país entrando numa era de instabilidade política extrema: ela vê a pátria-mãe atacada por fanáticos religiosos, testemunha seus "símbolos de poder" sendo reduzidos a ruínas e a "máquina de guerra" bushiana preparando-se para ir se vingar (e surrupiar um pouquinho de petróleo, é claro!) no Oriente Médio.


Por isso a "esfera pessoal" acaba tão penetrada pela "esfera política". Jenniffer Kelly, da revista Splendid, destaca que este álbum “excelente” é uma lição de que “o pessoal é político" e "o político é pessoal". Pois Corin Tucker (gtr/vox), Carrie Browstein (gtr/vox) e Janet Weiss (bateria), que integram o power-trio, são brilhantes nesta mescla entre o indivual e o coletivo neste punhado inesquecível de canções. One Beat, apesar de não ser um disco conceitual, é perpassado pela angústia e a indignação de uma mãe que mostra-se preocupada com o futuro de sua criança em meio a uma conjuntura global tão desastrosa e cheia de perigos. E Corin Tucker, cantando (lindamente) sobre suas aflições, batalhas e alegrias, conquista neste disco um vocal comovente e catártico, sem perder nem um grão do punch.

Aqui Corin e sua trupe, em seu disco mais ferozmente político (mas que não é por isso menos divertido), aparece vociferando com um ímpeto inaudito: como se ela tomasse maior consciência do mundo (e suas sangrentas intrigas geopolíticas) agora que uma criança sua vive nele. A vontade transformadora e crítica se intensifica, como se ela não quisesse legar aos filhotes um mundo cheio de Georges Bush, Bin Ladens e outros genocidas...

“Now all that's on the surface are bloody arms and oil fields”, cantam as meninas já nas primeiras estrofes do álbum. Esta situação trash – em que sangue e petróleo mesclam-se em sombria poesia, de modo semelhante à trama do Sangue Negro de Paul Thomas Anderson (aliás um dos mais geniais filmes da década) - fixa o clima emocional do disco. Mas o Sleater-Kinney não é da turma da paranóia nem do derrotismo. Pelo contrário!

“Far Away” é a primeira das canções que trata explicitamente do 11 de Setembro. Mas o clima aqui é mais de crônica do que de batalha (como se tornará em “Combat Rock”, canção muito bem batizada). “Far Away” descreve uma mãe cuidando de sua criança no sofá quando recebe um telefonema que informa da catástrofe em Manhattan: “Turn on the TV / Watch the world explode in flames / And don't leave the house!”. Aí está resumida a experiência que tiveram milhões de americanos naquela manhã de terça-feira onde foram despertados do pseudo-ídilio do american-way-of-life pelo alarme aflitivo da CNN Breaking News, que trazia, em clima de pesadelo, a notícia literalmente bombástica: "America Under Attack".

Mesmo aqueles que não tinham parentes dentro do WTC devem ter se perguntado com aflição: estará começando a Terceira Guerra Mundial? O Império Americano começa a ruir? Este é só o começo de um banho de cabeças inocentes que vão rolar para agradar a Alá? Será este o pior momento possível para trazer crianças a este mundo e a este país?

Corin descreve a sensação de ter o coração ferido (“the heart is hit”) pelos acontecimentos numa “cidade distante” mas que sente “tão próxima” (“in a city far away... but it feels so close!”). Como se tivesse composto ainda sob o impacto da tragédia sobre as retinas, descreve a bravura dos homens simples que arregaçaram as mangas para “darem suas vidas” enquanto o presidente se escondia (“the president hides while working men rush in to give ther lives”).


Pode-se até ler aqui uma pontinha de patriotismo que se assemelha àquele vinculado pelos filmes que louvam a audácia e a generosidade dos bombeiros e homens-de-resgate que, naquele dia, meteram-se em meio dos escombros, à caça de sobreviventes, muitas vezes não retornando vivos... Mas One Beat não é nada ingênuo, nem adere à patriotada ideológica, soando muito mais autêntico e questionador do que uma obra como o Torres Gêmeas de Oliver Stone.

“Combat Rock”, cujo título ecoa um álbum tardio do Clash, traz o Sleater pondo o dedo na ferida americana e provando que esta não é uma banda patriótica, que vai cair de joelhos aos pés das pulsões bélicas de George W. Bush e lamentar ingenuamente a pobre vítima americana judiada pelo sadismo grotesco do Islã... Pelo contrário: “Combat Rock” vem para reclamar o direito à discordância e à voz dissidente. “Dissent's not treason, but they talk like it's the same / Those who disagree are afraid to show their face” [Discordância não é traição, mas falam como se fosse o mesmo / Aqueles que discordam têm medo de mostrar a cara] - canta Corin Tucker, de modo truncado, como se suas palavras de discórdia saíssem com dificuldade da garganta, como se sua língua estivesse ameaçada de amputação pelas autoridades (e como se, ainda assim, ela não se acovardasse e não se calasse).

Ela afirma-se, sem medo, cônscia de que discordar não é trair e que ser patriota não é ser uma ovelha que segue cegamente o que manda o pastor -- no caso, o Senhor da Guerra. "If we let them lead us blindly / The past becomes the future once again", já haviam cantado em "One Beat", a primeira faixa, e aqui retorna o mesmo espírito de ceticismo e questionamento: se nós nos deixarmos guiar por estes lunáticos que estão no poder, sem pôr em questão seus atos sangrentos, o passado se tornará o futuro mais uma vez - ou seja, a história regridirá à barbárie.

“Are we innocent, the paragons of good? Is our guilt erased by the pain that we've endured?” [Somos inocentes, paradigmas do bem? Nossa culpa foi apagada pelo sofrimento que suportamos?] Com essas palavras, pronunciadas como se fossem perguntas feitas à sua nação, Corin destroça todo o maniqueísmo hollywoodiano que Bush quis instaurar após o baque, fingindo que os yankees eram pobres inocentes injustamente feridos e que o “terrorismo muçulmano” trazia reunidos em si todo o diabolismo do mal absoluto. “Where is the questioning, where is the protest song? Since when is skepticism un-american?” [Cadê o questionamento, cadê a canção de protesto? Desde quando o ceticismo é anti-americano?]

Mas nem só de terrorismo e de maternidade trata o amplo leque temático de "One Beat". A provocação cultural, típica de uma banda que volta e meia sugeria em suas canções algumas revoluções de costumes, volta aqui e acolá. Como em "Step Aside", irresistível épico punk-pop que não teme ressuscitar o "peace and love" hippie em meio a um naipe de metais tão empolgante que nos arranca calafrios de excitação. Ou como em "Hollywood Ending", em que os holofotes recaem sobre uma personagem (que poderia muito bem ser influenciada pela protagonista de Cidade dos Sonhos, de David Lynch) que tenta viver o grande sonho de Hollywood, mas que é descrita como se atravessasse um pesadelo de artificialidade, desmontado pela cáustica ironia da narradora. Há certos trechos que sugerem até um certa influência da Escola de Frankfurt, como se o Sleater-Kinney tivesse tentado compor um punk que pudesse agradar a Theodor Adorno:

In Hollywood where all the lights are low
And truth's as rare as the winter snow
She wanted a place arid as her soul
Where her only job was never to grow old

When the lights are shining, will you see my skin?
Or just the shell that I'm packaged in?
I've held my tongue and I've hid my sores
If I'm less of myself, will you love me more?
Como se não bastasse, alguns punkões despretensiosos ("Oh!" e "Light Rail Coyete" se destacam) recheiam o álbum mantendo o grau de energia sempre lá no alto. Tudo isso faz com que One Beat seja, em nossa humilde opinião, um dos grandes álbuns do rock americano na década passada. Rob Mitchum, na Pitchfork, destaca a impossibilidade de reduzir um álbum tão “colossal” como este a um “cartão de gênero”, à “jaulinha” estreita de um “estilo” preciso.

“With One Beat, Sleater-Kinney have turned in an album that absolutely, positively obliterates the gender card, an album so colossal that all prefixes to the label 'rock band' must be immediately discarded”.

Sim: One Beat nos dá a impressão de que estamos diante de algo de uma riqueza tamanha que não cabe dentro de rótulo algum. O que não impede que arrisquemos inseri-lo numa certa linhagem histórica. Onde é que se encaixa este demônio-de-disco na árvore genealógica do rock'n'roll? No galho que sai de London Calling, passa por Nevermind e desemboca em Is This It? Como se a semente plantada pelo riot-grlll recebesse um “up” e se tornasse uma árvore mitológica e “épica” como o Led Zeppelin? O tipo de exuberante vegetação que cresceria se o Blondie gravasse um disco inspirado no Fun House, dos Stooges, mas com um espírito combativo à la The Clash? Ou então como se adubássemos com Pearl Jam a música de garotas amantes da new wave e do bubblegum? Todas opções mais ou menos válidas.

As meninas do Sleater, anos atrás, cantavam num memorável refrão: “quero ser seu Joey Ramone!”. E na sua frutífera carreira, encerrada em 2004 com o lançamento do belo canto-de-cisne The Woods, cometeram alguns dos punks mais deliciosos e divertidos dos últimos anos (como a genial “You're No Rock and Roll Fun”). Mas em One Beat que atingiram sua plena maturidade. Mas maturidade não significa caretice: só uma mescla ainda mais poderosa de diversão e política, de rock'n'roll fun e ativismo, que não carece nem de energia bruta (raw power, baby!) nem dum "recheio ideológico" riquíssimo.

Num momento histórico em que os “mocinhos” made in USA tacavam mil bombas no Afeganistão para limpar a Terra dos “inimigos da civilização” (ou seja, os fanáticos de uma outra religião, que não a do capital...), o Sleater-Kinney não se fez nem de crédulo, nem de ingênuo. Fez o que é missão histórica do punk fazer, mas que este anda fazendo tão pouco e tão mal: questionar, incomodar, provocar. Que este álbum não tenha "estourado" como um fenômeno de massas, como tanto merecia, só prova o quanto o mainstream é burro. Mas o fatos destas músicas terem ficado longe de se tornar hits não faz com que a nobreza das intenções seja menos admirável, nem que o poder destas canções seja menos estrondoso.

"One Beat" [2002]
(Para degustar, abra o forno dos comments!)
SIGA EXPLORANDO: PITCHFORK --- DUSTED --- NEUMU --- SPLENDID --- ALLMUSIC.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

:: Bang Bang, Baby! ::


SEM FIRULA E SEM FRESCURA

- Mesclando punk garageiro, rockabilly e surf-music, o Bang Bang Babies faz um dos noises mais turbinados de Goiânia Rock City -
por Eduardo Carli de Moraes


Ah, a garagem! Não há cômodo domiciliar que mais tenha prestado bons serviços ao rock and roll. O espaço concebido pra guardar carro, apossado pela criatividade maníaca da juventude rocker, acabou virando um santuário onde destroçar tímpanos. Sorte a nossa! Enquanto a mamãe ficava com suas panelas na cozinha, o pai frente à TV da sala e a pivetada brincava na área, alguns danados, adeptos da arte-de-fazer-barulho, procuraram guarida ali, em meio à graxa e à fuligem, por vezes em meio a um calor dos infernos, e mandaram bala. E até hoje, ainda que não toquem mais no aperto do inferninho automotivo, há bandas que continuam com o espírito fidelíssimo à ela.

É o caso da Bang Bang Babies, uma das bandas nacionais recentes que com mais punch e pegada honra o som-garageiro de todos-os-tempos. Inserem-se numa árvore genealógica que, saindo dos anos 60 com Stones, Kinks e Sonics (sem falar de mais mil e uma bandinhas obscuras), passa pelo proto-punk, pelo punk '77 e vai dar em Cramps, Jon Spencer e White Stripes, dentr'outros. Na ativa desde 2005, o grupo soltou recentemente "Love and Bullets", seu segundo long-play, lançado via Monstro, com excelente produção e raw-power transbordante. É o Thee Butchers Orchestra fazendo escola. E a prova de que a garagem ainda pulsa!

Os caras, ao vivo e em disco, soam como uma bandaça energética e noisy, apesar de tosca, que apesar de ter começado na década 2000 não parou de celebrar e honrar bandas das antigas, demonstrando grande conhecimento da história do rock de garagem e dos primórdios do punk. Não à toa, poucos dias antes desta entrevista os caras tinham dado um pulo em Sumpaulo para conferir Iggy Pop e os Stooges, no festival Planeta Terra, com a formação do clássico Raw Power. "O James Williamson tocou mal pra caralho!" (risos), não perdoou o guitarrista da Bang Bang Vital - mas o show de Iggy e sua trupe foi elogiado pelos caras, que costumavam tocavam "Loose", do clássico Fun House, anos atrás.

A classuda capa do álbum, duma estética que vai soar familiar a quem já viu o badalado clipe de "Favorite Way", dos Black Drawing Chalks, ficou a cargo da galera do Bicicleta Sem Freio - agência de design que anda dando uma cara cool e kill-billesca para muitas bandas de Goiânia, com uma certa influência das pirotecnias psicodélicas à la Queens of The Stone Age em "Go With The Flow".

Neste XV Goiânia Noise, os caras foram escalados para abrir a noite de quinta-feira, no pub com cara de rep Metrópolis. Com decibéis em excesso e empolgação de sobejo, mandaram ver 10 pancadas nuns 30 minutos de som, provando que com eles não tem firula nem frescura. Pelo chão, após a passagem do ciclone, espalhavam-se, como despojos de guerra, os cadáveres de um público bangueado sem dó. Na mesma noite, tocaram ainda o Sapatos Bicolores de Brasília (jovem guarda tocada como se fosse Elvis Costello) e o The Name de Sorocaba (modernoso róque-de-pista-de-dança que honra Rapture, Kasabian e Franz Ferdinando).

Dias depois, trombando os caras nas dependências do Centro Cultural Martin Cererê, pouco depois do show dos Argentinos do Los Lotus (com que o Bang Bang Babies dividiu o palco para um show extra na ressaca do Noise), batemos um papo com o núcleo da banda - Pedro (voz/gtr) e Vital (gtr/voz). Completam a turma o baixista Pintin e o batera Hélio.


DEPREDANDO: De onde saiu o nome da banda? Fiquei imaginando, já que vocês se declaram fãs de westerns de Sergio Leone e spagghettis, se poderia ser uma homenagem à Kill Bill...

PEDRO: Na real o nome num tem uma lógica: soou legal e pronto! Num tem que ter sentido não... Mas com certeza a banda tem muita influência indireta de cinema e de quadrinhos, apesar da gente num citar isto especificamente nas letras. Muitas músicas nossas falam disso mesmo: violência, tiro e morte! (rs)

VITAL: A gente sempre curtiu muito esses filmes de Velho Oeste e costumava até pôr aquele som da Nancy Sinatra, "Bang Bang" (que abre os créditos do filme de Tarantino), na abertura dos nossos shows.

DEPREDANDO: Que bandas vocês consideram como referências e influências maiores no som de vocês?

PEDRO: Nossa referência sempre foi um som mais proto-punk, à la Stooges, um som setentista mais rock-and-roll, mas que não fosse nem hard-rock nem progressivo. Resumindo: som tosco e barulhento dos anos 70. Curtimos muito as bandas de garagem dos anos 60, tipo o The Sonics e The Seeds. Também nos espelhamos muito em Gories, Oblivians e Cramps - sempre essas coisas mais garageiras, já que som com essa proposta quase ninguém faz hoje em dia. Isso já foi moda, lá pelo começo da década 2000, quando o The Hives tava estourado, ou no ápice do Blues Explosion, quando surgiu um monte de banda garageira, mas depois deu uma caída.

VITAL: O Strokes também trouxe uma onda meio garageira, mas misturada com um lance meio indie-anos 90, com aquelas guitarrinhas "pim-pim" (rs), bem agudinhas!

PEDRO: Também curtimos muito a coletânea Nuggets - Original Artyfacts From The First Psychedelic Era, que é imbatível, uma das melhores coletâneas já lançadas, se não a melhor. São coisas muito obscuras e raras, de bandas que às vezes lançavam um single só, nem chegavam a gravar álbum. Com as limitações técnicas e financeiras da época, a galera tinha que se desdobrar pra fazer do jeito deles, e é essa atitude transgressora do rock garageiro que a gente gosta. E o cara que fez a seleção, o Lenny Kaye, o guitarrista da Patti Smith, pesquisou muito o underground garageiro sessentista pra fazer isso. É uma grande referência

DEPREDANDO: Também rola uma influência de surf music no som, não?

PEDRO: Com certeza! Só que a gente é tosco e não sabe tocar surf music direito, aí vira surf-punk. Um som tipo The Mummies, que é uma espécie de surf-punk, também influenciou muito a gente. Que é essa idéia do surf-tosco...

VITAL: O próprio climão do Cramps tem uma puta duma ondinha surf. A gente até pensou em fazer um disco todo só de surf tosco. E vai rolar, velho... Vai rolar algum dia. Eu gosto pra caramba de surf e de rockabilly, além de já ter tido banda indie antes de banda-de-garagem. Uma pá de música surf que a gente fez a gente aposentou pois num dava conta de tocar (rs). A gente ouviu muito surf das antigas, tipo Dick Dale e The Ventures. Hoje em dia, tem 3 bandas de surf que eu elejo as mais foda da América do Sul: a Dead Rocks, de São Carlos, uma das melhores bandas de surf do continente, que é sensacional! Os caras sabem fazer o clássico, mas também o mais agressivo, saca? Muito, muito bom! E nós somos amigos dos caras, que até já nos levaram pra tocar em São Carlos (SP), num evento que teve uma banda de surf, uma de rockabilly e uma de garagem - foi um dos melhores eventos que a gente já tocou, uma festa foda! Os caras anunciaram o show num Hot Rod, aquele carrão das antigas, e a galerinha chegava de lambreta... foi muito louco! Mas num vou ficar pagando muito pau pros caras senão eles vão ficar enjoados... Johnny Crash: pau no seu cu! (rs) Além do Dead Rocks, ponho no top 3 o The Tormentos da Argentina e o Supersonicos do Uruguai - todas elas já tocaram aqui em Goiânia e eu pirei. São três bandas que eu acho foda e que todo mundo tem que escutar.

PEDRO: Hoje em dia, aqui em Goiânia, somos uma das poucas bandas que têm essa influência surf -- porque grande parte da galera foi numa onda mais stoner-rock, de som pesado, isso é que pegou e tá dando o tom aqui hoje em dia. É só ver o Black Drawing Chalks, MQN, Hellbenders, Mechanics... É uma galera influenciada por Queens of The Stone Age, Kyuss, coisas mais pesadas. Nada contra isso, mas o lance garagem mal existe em Goiânia hoje - e a Bang Bang é que tá tentando manter isso vivo. A gente num é uma banda pra bater cabeça - só pra dançar toscamente! (rs) No passado já teve muita banda garagem foda em Goiânia, tipo a Hang The Superstars - e mesmo o MQN tocava garagem no primeiro álbum, Hellbusrt. Hoje em dia não tem mais: a Hang acabou e o MQN e o Mechanics viraram banda de metal. Nada contra. Mas eles tinham outra onda.

VITAL: É a gente mantendo vivo o garagem em Goiânia! (rs)



DEPREDANDO: E o Goiânia Noise? Vocês já tocaram aqui várias vezes, né?

VITAL: É o terceiro ano que a gente toca e o nono ano que a gente vem. Desde 2001 a gente vem no Noise. Em 2001 vim aqui pra ver o Dead Billies e o Nebula, e véio... nunca mais saí daqui! Em 2006, primeiro ano que a gente tocou no Noise, ele foi realizado pela primeira vez no Centro Cultural Oscar Niemeyer, que é muuuito grande e tem uma estrutura radical - e quando eu entrei lá eu fiquei assustado com o quanto tinha crescido. A gente já sabia o quanto era grande em questão de mídia e de todo mundo falar bem, mas foi impressionante ver o quanto era grande fisicamente, não só o conceito. Já em 2009 é incrível que esteja rolando festival na quarta, quinta, sexta, sábado e domingo - todos os dias bombados, e eu boto fé que vai bombar amanhã também! [a entrevista foi no sabadão e, confirmando a profecia de Vital, o Noise do Domingão tava tinindo!] Foi arrojado e está dando muito certo.

PEDRO: E hoje o Noise tá com este formato "espalhado pela cidade", que aconteceu pela primeira vez e funcionou muito bem. As casas tavam todas lotadas, e aqui no Centro Cultural Martin Cererê foi a mesma coisa. Pena que era pra ter sido no Oscar Niemeyer, um lugar bem mais amplo que este aqui, e que permitiria até trazer uns headliners maiores, mas como este espaço não foi liberado pelo governo, teve que ser aqui no Martin mesmo - que é um puta dum lugar, muito clássico no rock goiano, mas que já não funciona tão bem como estrutura pro tamanho do Noise.

DEPREDANDO: E a "cena" de Goiânia é de uma força incrível, até mesmo pra quem chega de São Paulo ou de outras metrópoles... Não é à toa que andam chamando a cidade de "nova capital do rock brasileiro", né?

PEDRO: A gente já viajou por algumas cidades, fomos a alguns festivais que fomos convidados, e a gente via as bandas das outras cidades e não tinham nem um pouco da qualidade que as bandas daqui têm, sabe? Apesar da tendência maior ser o som pesado, aqui tem muitas bandas diversificadas, de vários estilos, cada uma mandando bem de seu jeito. E o Noise exige uma qualidade pra entrar no evento. Se a banda num for boa, não vai tocar. Num adianta.

VITAL: Acho que as bandas daqui ensaiam mais, têm mais pressão! E tocar pra amigo não é fácil, saca? Amigo pode fazer uma crítica muito pior! E pelo menos o pessoal de Uberlândia ficou impressionado com o tanto que o pessoal daqui ensaia pra caramba, o tanto que faz show, antes de chegar a tocar no Noise... Tem muuuita banda que rala muito e acho que é isso que fortalece. Sem falar que tem espelhos bacanas também - e a gente não pode tirar o mérito de jeito nenhum do MQN e do Mechanics, que a gente vê e diz: "temos que fazer um lance bacana assim!"

PEDRO: Tem outras bandas também, que não são da Monstro mas são do caralho, tipo o Desastre, que já lançou vários LPs na Europa inteira e nunca foi tão valorizada pela mídia nacional, mas que fez um trampo fodido.




DEPREDANDO: Planos pro futuro... quando vêm o sucessor de "Love and Bullets" e qual naipe de som devemos esperar? Algo ainda mais raw power, pra botar fogo na garagem?

PEDRO: A gente tá em processo de gravação de um compacto que procura resgatar esta sonoridade lo-fi da época da Nuggets. Nossos dois CDs anteriores foram gravados com alta tecnologia, no Rock Lab, então as músicas tem uma pegada garageira mas com "computador por trás". Ficou legal, muito bem produzido, mas agora a gente quer ir pra outro lado, experimentar outra coisa - que é este lado mais lo-fi e mais sujo.

VITAL: Cara, a gente tá usando um ampli que é do tamanho deste teu gravador! (rs) [nota: a entrevista foi gravada num Mini Cassette Recorder de fita K7, mais ou menos do tamanho dos velhos Walkman Sony]. É loucura, cara! E a proposta é muito boa: porque com a limitação e as dificuldades a banda vai crescer pra caramba, sabe? E isso já tá acontecendo: já tamos crescendo muito musicalmente.

PEDRO: Nêgo ouve estas novas gravações e diz: 'Num é possível cês terem gravado essas guitas neste ampli de brinquedo!" (rs) Mas foi a real, cara: foram 4 canais, e tem música que tem 3 guita gravada! É um processo que tá exigindo que a banda tenha que se desdobrar 10 vezes mais do que se estivesse gravando normalmente, com toda a tecnologia que se usa em estúdio hoje. É cansativo, mas é ainda mais divertido porque a gente tem mais possibilidades de experimentar.

VITAL: Hoje tá muito fácil gravar, né cara? Tá acessível demais. Eu lembro que no passado eu ouvia umas bandas underground e o show era sempre muito melhor que o disco, mas a tecnologia ficou tão foda que hoje qualquer um consegue gravar um disco com qualidade de som e produção bacana. O que a gente tá tentando passar no disco é a energia do show: é um lance de não enganar a nós mesmos e nem ao público.

PEDRO: É: a maioria das bandas hoje e dia tem um disco muito melhor do que o show - e eu acho que isso não é certo. Tem tanta tecnologia disponível que os caras vão e fazem um CD do caralho, mas cê vai ver no palco e... num é a mesma coisa. Inclusive a gente: não dá pra reproduzir ao vivo o que a gente fez no estúdio. Isso é foda: tem tanto recurso disponível que você grava com uma pegada que é impossível levar pra performance ao vivo - e é o que rola com 90% das bandas hoje em dia.

DEPREDANDO: Mas que tipo de modificação sonora estes novos procedimentos de gravação vão trazer pro som da Bang Bang? Ele vai ficar mais "leve", sessentista e psicodélico?

PEDRO: Que nada, o som tá é mais sujo!

VITAL: Muito mais sujo! Tá muito legal, pra falar a verdade, toda a feitura. O processo é muito longo, saca? A gente abraçou a idéia, e está tendo as mesmas dificuldades técnicas que tiveram os caras que a gente gosta, e tamos tentando ser toscos da mesma forma. Mas tosco no sentido de simples, não no sentido de ruim! Porque pra mim tosco não é sinônimo de ruim, é sinônimo de simples.

DEPREDANDO: O que é um pouco o grande lance do punk, não é? O importante é a expressão simples da emoção - não precisa ser complexo, cheio de virtuosidade, com mil notas por segundo...

VITAL: Mil notas por segundo?!? (hahaha) É isso aí! Com certeza tem mó influência de punk e proto-punk no nosso som.

PEDRO: Punk '77 tem muita banda legal, tipo o The Damned. O pessoal fala muito de Sex Pistols, mas eu acho uma bosta. Na época teve muitas bandas melhores! [o camarada ao lado olha feio, quase saltando nas carótidas de Pedro frente à heresia proferida...].

VITAL: Hahaha! Ele ficou inconformado, velho! Declaração polêmica! Num podia faltar!

DEPREDANDO: E da cena nacional, quais são as referências?

PEDRO: O Butchers pra mim é a principal, mas tem outras, tipo o Dead Billies da Bahia, que já acabou. Quando eles tocaram aqui no Noise a gente pirou, chocou fodidamente. Tem também uma banda paulistana que ninguém conhece, o Sell-Outs... Na época, todo mundo pagava pau pro Butchers, mas o Butchers chupou muita coisa deles.

VITAL: E tem que falar também do Damn Laser Vampires, banda recente de Porto Alegre, de 2007, a banda mais massa que tá rolando no Brasil.

PEDRO: É a banda nacional que hoje em dia a gente mais pira. A gente assistiu o show deles aqui faz pouco tempo e foi massa, foi foda!

DEPREDANDO: Pra finalizar, façam um Top 5 Bandas-Da-Vida!

VITAL: Caaara, eu curto muita banda que não tem a ver com o som da Bang Bang, mas muita banda que tem a ver... curto muito tudo do Jon Spencer. Muito Stooges. Sou fã incondicional de Sonic Youth, que pra mim é aula-de-guitarra. Também gosto pra caramba de Dinosaur Jr, outra banda mó guitarreira, tava até vendo os caras numa revista de skate, cê pira? (rs) E atualmente tô ouvindo demais demais o Oblivians. Cara, eu posso falar umas 10! Top 5 chega a ser foda...

PEDRO: O meu top 5, não necessariamente nesta ordem: Blues Explosion (e o resto dos projetos do Jon Spencer, até o Boss Hog é foda!), Bo Didley, Clash, Stooges e o Oblivians - banda garageira que a gente tá pirando.

DOWNLOAD [autorizado pela banda]:
10 faixas - 25' 15'' - 34 MB -192kps
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