quarta-feira, 26 de outubro de 2011

“O acaso é uma empresa para a qual tudo conspira.”


“considerações necessárias
é preciso tirar a poesia da clausura dos concursos, das gaiolas do acaso, do exílio das gavetas, trazê-la para o sabor do consumo rápido e fácil, envolvê-la de popularidade, sem o vulgarismo perigoso do que é descartável, mas também sem a absurda pretensão do que se quer eterno. 
poesia para fazer rir e refletir, evoluir e incomodar, propor e decompor. poesia para os botecos, para os gabinetes, para as praças, para os salões de festas, para os mocambos, para as favelas, estúdios, vídeo clipes e palanques.
 poesia sem medo, poesia sem trauma, poesia-pão, poesia-sim, poesia-não. pois ia ousar um dia popularizar a poesia.
 viva a poesia viva!”

Descobri há pouco, através da dica certeira do Dieguito, a obra do poeta goiano Pio Vargas (1964-1991). Morto em 1991, aos 26, de uma overdose de cocaína, foi "celebrado" por ninguém menos que Paulo Leminski, que sobre ele escreveu:

Leminski
“Pio Vargas tem um “eu” coletivo tão forte que chego a vê-lo muitos. De sua poesia consigo extrair a certeza do que digo, insistente: há uma geração recente que usa e abusa da modernidade, fazendo dela o principal elemento a interferir na criação. Este Pio Vargas me trouxe uma poesia fascinante que não se atrela a falsos modelos de invenção, mas flutua, inventiva, com os mais amplos e possíveis signos do fazer poético.” >>> LEMINSKI

Conta-se sobre sua vida "meteórica" que foi "esgotada na vida boêmia de Goiânia. Ali crepitou nas casas noturnas, principalmente onde reinasse a efervescência cultural." Para quem quiser saber mais, Edival Lourenço, em matéria na revista Bula, revela mais detalhes sobre o amigo. Na sequência, deixo com vocês o belo poema DESPERTÁCULO (belo neologismo que acasalou em êxtase verbal o DESPERTAR e o ESPETÁCULO...), um dos meus prediletos:
Des­per­tá­cu­lo
Es­tou pron­to
pa­ra a guer­ra que en­con­tro
quan­do acor­do:
 
bo­tei vi­gia nos sen­ti­dos
e ilu­di com com­pri­mi­dos
ou­tros se­res a meu bor­do.
Aban­do­nei o ví­cio
de es­tar sem­pre
a so­le­trar ru­í­nas,
dei li­ber­da­de a meus de­ten­tos
mi­nha pres­sa di­lu­iu nos pas­sos len­tos
e ras­guei
meu ca­len­dá­rio de ro­ti­nas.
In­ver­ti a or­dem.
Já não saio por aí
a de­vo­rar com­pro­mis­sos,
to­mei pos­se no go­ver­no de mim mes­mo
e der­ro­tei os meus omis­sos.
 
Ven­ci a ba­ta­lha
de ter que es­tar sem­pre por per­to,
às ve­zes voo pa­ra den­tro
do meu so­nho a céu aber­to.
 
Es­tou pron­to:
eu já con­cor­do
com a guer­ra que en­con­tro
quan­do acor­do.
PIO VARGAS 


[+ POESIA:] JOSÉ PAULO PAES 
("A posse é-me aventura sem sentido. Só compreendo o pão se divido.")

2 comentários:

R$1,99 disse...

De fato, devo eu admitir que não conhecia Pio Vargas, não conhecia nem mesmo um terço de genialidade. Quem diria que um poeta da terra do pequi e pamonha, carrega em seus versos o esplendor e a magnitude da bela escrita. Isso comprova quão equivocado é o dito "Goiânia é pobre em cultura", ela estava aqui antes, e porque não dizer que ainda está agora, basta encontra-la e aprecia-la. Não precisamos ir tão longe, coisa boa não é só o que vem de fora, ora boras, nos saber fazer pamonha.

Eduardo Carli de Moraes disse...

Massa que cê curtiu, meu chapa! Poeta de vida breve e fim trágico - morto de overdose antes dos 30... - mas que deixou um belo legado poético, reconhecido até pelo Leminski. De fato, nem só de pequi e pamonha vive Goiânia, terra (eventualmente) de primorosa poesia. :)