sexta-feira, 10 de setembro de 2010

:: Afugentando o famigerado demônio do silêncio ::


:: UMBANDO ::

O Umbando é uma das mais preciosas contribuições do Centro-Oeste brazuca à "nova-MPB". O grupo goiano, na ativa desde 2001 e dono de um disco de estréia primoroso, faz um som autenticamente popular, digno de "estouro", em que confluem muitos estilos da música brasileira filtrados e unidos por uma máquina de groove e lirismo que, em seus melhores momentos, é irresistível. 

Sim: nem tudo que é popular é pop. E pop o Umbando não é: as letras altamente literárias, que por vezes reverenciam Guimarães Rosa e Suassuna, são um dos elementos que deixa a banda com um sabor mais "cult". O ecletismo da instrumentação também enriquece o som dos caras a ponto deles soarem quase como uma orquestra de rua. Já o balanço funky e o magnetismo dos seus grooves convida qualquer um a remexer o esqueleto. 

Por isso a banda goiana me lembra um pouco outras bandonas atuais que têm se dedicado a procurar a batida perfeita e pôr o ouvinte a suingar com classe --- caso duma Orquestra Imperial ou dum Fino Coletivo.

E foi o que ocorreu no último show da banda em sua cidade matriz, onde são muito queridos e aplaudidos. Na véspera do Feriado da Independência, com o teatro do Goiânia Ouro entupidaço de gente e uma galera enorme dançando na frente do palco e nos corredores, o Umbando fez um dos mais belos shows que vi neste 2010.

Nota-se que o grosso e saboroso caldo sonoro que eles cozinham contêm inclusive especiarias importadas do Nordeste e do Rio de Janeiro: um baião aqui e ali, um sambão bem carioca acolá, mas tudo sem nunca perder o acento marcadamente “Planalto Central”. 

O solo de guitarra com distorção convive em paz com o adocicado solar da flauta transversal. Já a forte sessão percussiva (se bem que mais “na dela” que a da Nação Zumbi, por exemplo) não atrapalha o cantarolar de Kléber & Marquinho (que tão mais pra Amarante & Camelo que pra Zezé di Camargo & Luciano...).


A banda também é curtível perfeitamente por “roqueiros” - que, acho eu, fazem muito bem ao curtirem a banda pois dão provas de ter horizontes vastos, mente aberta e sem preconceitos. Porque só um "roqueirinho" com cérebro de pomba ou de crocodilo iria rejeitar uma banda com algum argumentinho tosco do tipo “flauta é coisa de marica”. 

Diversidade sonora é também sintoma de diversidade humana, diversidade cultural, diversidade de tradições e heranças confluindo para formar um todo sônico harmônico. E é disso que precisamos! Fechar-se em estilos musicais ou pequenas tribos não tá com nada: o negócio é a mescla de gêneros, a confluência de estilos, a inspiração mútua, a lição viva (cantada e tocada) de que podem conviver sem neuras as diferenças! 

Convido vocês, pois, a baixarem o debut umbandístico (download autorizado pela banda!) e darem uma espiada em como são os caras ao vivo com os vídeos-tosqueira que gravei por lá. O primeiro é de "Olho Mágico", uma das minhas músicas prediletas da banda e que tem uma letrinha bem poética e bem instigante. Depois, vem uma música nova que começa com um violãozão slide cabuloso e que me lembrou algo saído do Led Zeppelin III. Por fim, "Boca de Urna", canção de Ari Ferreira (um dos membros da banda que não sobreviveu para ver os frutos do trabalhado do Umbando em CD...), que chacota com o sistema eleitoral. 

Enjoy! 


"Eu já fui cético, até ateu / Tentei ser ético mas não deu / Discípulo de São Tomé / Só mesmo vendo pra botar fé // Eu já fui cético, até ateu / Dei três pulinhos pra São Longuinho / Me ajudar no que eu procurava / Uma estrada, um caminho // Mas no meio da encruzilhada, foi Deus / Quem se mostrou pra mim / Sem placa, luz ou imagem / Só na flor e no espinho // Que sempre estiveram ali, ou num vaso de xaxim // No amor de um buquê mandado, / Nos cuidados de um jardim // Só vendo pra crer em disco voador / Quem acredita vê duende no retrovisor // O olho mágico enxerga o cosmos / No hospital, e na flor / O olho cético se fere / No espinho e no amor." (Luiz Clímaco)




 [dwld - 57 mb ]

4 comentários:

Eduardo Carli de Moraes disse...

Vale lembrar que o Umbando toca no IX Festival Vaca Amarela na próxima sexta-feira, dia 17/09. O show tá programado pras 2h30 da madruga, antes do Lobão, que toca às 3h. Glue!

kamila disse...

Umbando eh uma banda magnifica!!!
sou completamente apaixonada pelo som da banda, sexta feira(17/09) eles estarao no vaca amarela..

Claudia Resende disse...

Umbando é hoje, para nós goianos, uma esperança de que aqui também se produz música de qualidade e com conteúdo. É como uma "luz no fim do túnel". Muito obrigada por serem representantes do nosso Estado!

Paola disse...

Conheci a banda Umbando há pouco tempo, curti demais o som e as letras também. A banda é um orgulho para Goiás!