sábado, 14 de agosto de 2010

:: Mitológicas faces ::

THE FACES
- por Eduardo Carli -

"Entre o fato e a lenda, imprima a lenda!" É assim que um personagem de John Ford resume o "credo do jornalista", numa bela frase do crááássico western O Homem Que Matou o Facínora. Quando a matéria é de "jornalismo de rock", então, o preceito parece valer ao dobro. Cabe a nós saber separar o joio do trigo nesta zona mitológica: o que merece de fato os louros e o que é ouro-de-tolo?

Hoje olho com uma certa desconfiança para qualquer tentativa de "mitologização" de artistas: pois me parece que não é mais um eco das aspirações populares genuínas, mas fruto de uma gigantesca "máquina corporativa" que sempre precisa que as bandas "estourem", e precisa que as massas sempre tornem-se desesperamente ávidas pelos produtos que estão à venda, e precisa que tudo se torne obsoleto-de-imediato para que novas modinhas e "ondas" venham e novos produtos possam continuar movimentando as linhas de montagem... "E nada melhor, para um estouro, do que fabricar uma boa mitologia!" - pensam, como eu os imagino, os maquiavélicos donos de grandes gravadoras, mancomunados com a grande mídia, que tratará de fabricar sob encomenda os "hypes" e os "fenômenos"....

Pobre Joseph Campbell! Ao menos o velho não viveu para ver a mitologia tornar-se esta palhaçada... uma arminha, um mero utensílio, nas mãos de publicitários e "homens de negócios"! Acho que eu gostava mais dos tempos em que a música não era vista somente como uma isca para o consumo, mas ainda conseguia inspirar a sensação de que o músico tinha uma consciência expandida, era um gênio-da-lâmpada, um bruxo em transe, um xamã no tapete voador das harmonias e solos, um destes que estão na vanguarda da cultura, inovadores e altaneiros... Hendrix, Louis Armstrong, Miles Davis, Nina Simone, até hoje assim me soam. Mas isto é mitologia ultrapassada: hoje vige mais a lógica do penteado e da aeróbica. O músico místico, louco de LSD, num "transe" digno de William Blake, expressando-se com seu instrumento como se quisesse animar todo o cosmos com sua melodia, saiu de moda. E hoje somos todos emofílicos na Emolândia... coisa triste!
 


E já que hoje estou com o espírito-de-porco de um tiozão nostálgico (daqueles que só ouve "do Led pra trás"), aproveito para alimentar e veicular uma mitologia que acho bem mais saudável pros ouvidos, se bem que não tanto para o fígado... E assim sigo, do meu jeito, com este breve arremedo de crítica, o mote jornalístico que manda imprimir a lenda, deixá-la fazer seu serviço de alastrar entusiasmo, e deixar os fatos para os bancários e os estatísticos...

Um dia houve, caros amiguinhos, uma bagaça fantástica chamada The Faces! Uma rápida passada de olhos pela biografia sobre eles na All Music Guide nos revela já que eis uma banda envolta numa pesada neblina de mitologia (e da mais clichezenta): "Notorious for their hard-partying, boozy tours and ragged concerts, the Faces lived the rock & roll lifestyle to the extreme". Não seria de se esperar menos de uma banda que depois forneceria novos membros tanto aos Rolling Stones (Ron Wood, que entrou seis anos depois de Mick Taylor ter assumido o posto de Brian Jones [morto por acidente ou não? eis a questão!])  quanto ao The Who (Kenny Jones, que virou comparsa de Townshend e Daltrey após o falecimento de Keith Moon).

Nada mais injusto, porém, que considerar o Faces somente como o mero "jardim de infância" de grandes músicos, que depois se destacariam no cenário mundial de modo muito mais amplo do que em sua primeira banda. Nem somente como a "banda onde cantava o Rod Stewart antes de virar ídolo pop (e dos bem cafas...) nos anos 70". O Faces é peixe-grande; e o que talvez impediu as grandes massas de enxergar isto é a sombra que faz um balão imenso, feito de chumbo, pairando no firmamento como um mamute alado... o Led Zeppelin.

O único defeito sério do Faces é que existe um bagulho chamado Led Zeppelin. Mas não dá pra os culpar muito (seria covardia...) por não serem tão bons quanto Page, Plant, Bonham e Jones. E dá pra curtir, e muito, uma banda (há poucas!) que tem a manha de ir lá e às vezes disputar com eles pau a pau, brigando de igual pra igual com um monstro mítico de envergadura ainda maior... Se o Led é o Moby Dick, o Faces é, pelo menos, o King Kong.

E aí, convenci vocês a experimentar?


Se ainda não, lembremos aos que não tão nem aí para essas "velharias de tiozão" como Led Zeppelin ("ah, a cegueira da juventude!", diriam Wood & Stock...) que o Faces foi também precursor de algo mais... "arteiro", no sentido mãe-dando-bronca-no-filho da coisa. A Wikipédia, que não é lá essas coisas mas já quebra um galhão, enxerga-os como algo mais do que os sucessores da geração mod ou uma mera banda-ponte na transição entre a psicodelia lisérgica e o rock and roll pé-na-estrada --- enxerga-os como os primeiro punks. Ora, mas não foi a galera do MC5? Os Stooges? O The Who? Os Sonics? Pouco importa decidir: o provável é que todo mundo tenha culpa no cartório. Mas a Rainha podia muito bem ter mandado enforcar, pois, esses "carinhas" de quem Johnny Rotten e seu comparsa-no-crime Sid Viciado tanto gostavam...


"Embora tenham obtido pouca notoriedade em relação aos seus contemporâneos The Who e Rolling Stones, os Faces tiveram um papel primordial no nascimento do que mais tarde se tornaria o punk. Suas apresentações explosivas e seus álbuns de estúdio abriram espaço para o desenvolvimento de bandas como os The Damned, The New York Dolls e particularmente os Sex Pistols, que citavam os Faces como a principal influência tanto em suas canções quanto em suas personalidades. Em seguida ao colapso do movimento punk, a influência dos Faces surgiria em grupos como The Replacements, The Black Crowes e, mais recentemente, nas bandas Pearl Jam, The Charlatans e The Stereophonics"

Mas chega de papo: ouçamos os três primeiros álbuns do The Faces, o que engloba o período de ouro da banda, de 1970 a 1972. E também vale a pena dar um salto atrás no tempo e conhecer também os Small Faces, a banda que lhe deu origem e deixou ao menos um clássico para a história do rock, em 1968: Ogden's Nut Gone Flake, um dos rebentos mais eletrizantes da Era Psicodélica (uma espécie de Sgt. Peppers proto-punk).

Taí uma banda inglesa de primeiríssima linha, saída de um dos mais férteis períodos na história da Inglaterra em matéria de música popular urbana (Beatles, Stones, Kinks, The Who, Bowie, Barrett... vivendo e criando simultaneamente!). Quis o zeitgeit que fosse o Faces uma das únicas bandas que, apesar de muito merecedora, não participou muito amplamente da grande Invasão Britânica que foi ao assalto da América por aqueles tempos, chefiada pelas bandas supra-citadas e mais um ou outro one-hit-wonder... Mas é sempre tempo de fazer justiça, ainda que tardia, aos que a merecem: e estes caras, com certeza, merecem a lenda que os emoldura. E fazem jus ao que qualquer tímpano esperto sabe pedir a um bom rock and roll.

Ouvindo estes discos preciosos é que me lembro de um passado utópico que nunca vivi, que é fruto mais da imaginação idealizada do passado do que uma verdadeira rememoração: uma época em que a mitologia do rock and roll ainda emergia de um solo autêntico (pelo menos em comparação com a atual tirania dos publicitários...) e a música parecia conseguir, descendo pelos ouvidos e encharcando de novas sinapses o cérebro, a fina e misteriosa magia de... infundir vida!


First Step [DWLD]

Long Player [DWLD]

A Nod Is As Good As A Wink...
To a Blind Horse
[DWLD]


Ogden's Nut Gone Flake [DWLD]

5 comentários:

DJWildBill disse...

Ogden's Nut Gone Flake was recorded by the band "Small Faces" not by "Faces" which Rod Stewart was in. Although it is quality work, it is by a second band and should not be confused with anything in the Faces' discography.

Eduardo Carli de Moraes disse...

Yep, that's right! I've explained that in the text, but visitors who don't speak Portuguese may be confused... Thanks for the tip! Cheers.

Anônimo disse...

Belo texto!
Me convenceu!!

Eduardo Carli de Moraes disse...

Valeu, rapá! (Ou rapariga...)
Mas e som, curtiu?

Anônimo disse...

Pela sua descrição, já esperava o que encontrar nos álbuns do "Face".
Mas, os "Small Faces" me surpreenderam pra valer!!

Abraços,
Rapá.