quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

#Eu tenho ligação com Marcelo Freixo [matérias de Viomundo, Mídia Ninja, L. E Soares e outros... Assista Tropa de Elite 2 completo... e mais!]



Nesta entrevista, realizada no dia 16 de janeiro de 2014, o deputado Marcelo Freixo deixou claro que a capacidade de as milícias influenciarem o processo eleitoral no Rio continua grande: "A milícia elege a base que sustenta o próprio governo. Ou você acha que essas pessoas são eleitas por onde? Não é em outro planeta. É aqui." O projeto das UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora), tema principal da entrevista, Freixo faz sempre questão de inserir em uma discussão maior: a de um “projeto de cidade”, uma cidade-negócio ou cidade-empresa,“entregue à lógica do mercado”, como bem explicita o professor Carlos Vainer, em entrevista recentemente publicada no Viomundo

Essencialmente autoritário, tal projeto solapa a participação popular em nome do interesse dos seus “sócios”, dentro os quais contamos, diz Freixo, as grandes empreiteiras e as Organizações Globo, entidade que “trata dessa cidade como grandes negócios”. “A Fundação Roberto Marinho tem uma série de negócios com a secretaria de Educação, tanto do Estado quanto do Município”, diz. “A Rede Globo tem, no projeto de cidade, uma cidade que ela defende. E também com um viés muito autoritário.”

Abaixo, leia mais alguns trechos da entrevista com Marcelo Freixo:
"Você tem, hoje, um procedimento de privatização não dos serviços, mas da concepção do que é público. Hoje, na verdade, quem domina, quem administra, quem pensa a cidade é o capital privado. Eu costumo brincar dizendo que o Eduardo Paes ganhou uma concessão para ser prefeito. E o Cabral ganhou a concessão, também, mas está de férias, já faz tempo. Então, na verdade, você tem a cidade sendo pensada e decidida à luz do empreendimento privado. Não estou dizendo que o empreendimento privado seja ruim, é bom que se tenha investimento privado. Mas você tem, hoje, as decisões que deveriam ter um caráter público sendo tomadas pelo planejamento privado. 
 Por exemplo: gestão de todo o sistema de transporte está nas mãos das empreiteiras. Quem administra o metrô é a OAS, quem administra a Supervia é a Odebrecht, quem administra as barcas é a CCR. Eles ganham também as concessões de algumas rodovias importantes, como a ViaLagos, da mesma CCR. Então você tem as empreiteiras com a gestão da mobilidade urbana. Isso não é qualquer coisa em termos de perspectiva de cidade. 
A lógica das UPPs só pode ser compreendida se você entender esse projeto de cidade. Que não é um projeto de cidade que conta com grande possibilidade de participação da sociedade, com uma cidadania ativa. Muito pelo contrário: é a cidade onde há a cidadania do aplauso, onde as pessoas são chamadas para grandes eventos, grandes espetáculos, mas não decidem sobre a segurança, a saúde, a mobilidade, a moradia. Não há canal de participação efetiva para que a sociedade possa decidir os rumos das decisões de interesse público." - Marcelo Freixo (siga-o no Facebook)
LEIA A ENTREVISTA COMPLETA NO VIOMUNDO.
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Reproduzo a Mídia Ninja:

QUEM TEM MEDO DE MARCELO FREIXO?

Estamos vendo um movimento sincronizado entre mídia e setores políticos saudosos dos tempos de AI-5, que tentam se aproveitar da comoção popular para pintar manifestantes de terroristas. Querem garantir a festa da FIFA. Até aí, já estava tudo previsto na cartilha do velho jornalismo; mas eis que o Globo, sagaz, começa uma campanha difamatória em editoriais e manchetes tentando ligar o Deputado Marcelo Freixo à morte de Santiago e ao Black Bloc. Por que ele?

Dois anos atrás, nas eleições municipais do Rio de Janeiro, Freixo já denunciava o rumo que a cidade iria tomar no projeto encabeçado por Eduardo Paes: o Rio se tornaria um balcão de negócios, onde os interesses especulativos se sobreporiam aos interesses da população, parte da cidade seria negociada para os grandes empresários e os obstáculos ao lucro seriam atropelados, justificando toda a bárbarie com a Copa e os Jogos Olímpicos. Não deu outra. Processos acelerados de remoção compulsória, Porto Maravilha, trânsito caótico, desrespeito aos direitos humanos e aos povos tradicionais, truculência, cinismo.

Em sua campanha de 2012, Freixo apostou nas redes e nas ruas, sem doações de empreiteiras e grandes empresários, sem campanhas milionárias na mídia e sem coligação com partidos políticos, conseguiu 30% dos votos. Mas sua vitória foi muito maior: mostrou que é possível quebrar o ciclo econômico da política, em que empresários doam milhões aos candidatos, que gastam em publicidade com os barões das agências e produtoras, e lucram ainda mais em processos de licitações fraudulentas. Apostando nas pessoas, Freixo comprovou que existem alternativas à velha política.

Vamos para as ligações: o advogado do suspeito, Jonas Tadeu, defendeu milicianos, que por sua vez eram ligados a Sergio Cabral. A polícia conduz as investigações às escuras e a narrativa construída deixa ainda muitas dúvidas. O Secretário de Segurança José Mariano Beltrame propõe lei que tipifica manifestantes como terroristas. A Globo faz uma campanha criminosa, que evidencia seus interesses e o mau jornalismo praticado pela empresa. Quem eles atacam? A voz que denuncia, há anos, a promiscuidade entre mídia, poder e polícia.

Mas isso, por si só, não responde a provocação desse texto. O que eles temem, afinal? Com a explosão de manifestações que começaram em 2013, as redes e as ruas se estabeleceram como canal de questionamento e de construção de contra-narrativas à verdade hegemônica. A inteligência coletiva começou a disputar com o Jornal Nacional as pautas do país e inseriu um novo ator político na jogada: o interesse público. Quem melhor dialoga com o novo? A Globo? O Governo? A FIFA? Um estagiário me disse que o que eles temem é que, de pergunta em pergunta, de ligação em ligação, comecemos a encontrar as respostas.

Caio Hungria / Midia NINJA

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Acima: matéria do jornal francês Le Monde Diplomatique sobre Freixo, onde se destaca seu trabalho contra as milícias e a corrupção estatal no Rio de Janeiro, as ameaças de morte que sofreu, os anos de militância e de serviço público; o artigo ainda relembra que o deputado inspirou um dos personagens principais de Tropa de Elite II - O Inimigo Agora É Outro, de José Padilha.

Marcelo Freixo foi o exemplo da vida real que serviu de "molde" para o personagem Diogo Fraga, o "cara dos direitos humanos", encarnado na telona pelo ator Irandhir Santos (o mesmo de "Febre do Rato", Cláudio Assis). Segundo Irandhir, o personagem Diogo Fraga (como Freixo, na vida real) “diz não à política de segurança pública de repressão contra os pobres, os moradores dos morros”. Fraga bate de frente com o capitão Nascimento (novamente interpretado por Wagner Moura), afirmou Irandhir em entrevista: “Ele peita qualquer personagem que seja a favor dessa truculência, desse domínio vigente... "Qualquer um mesmo, até o Nascimento, se ele foi a favor dessa política”. 

Marcelo Freixo até faz uma aparição breve, à la Hitchcock, aos 8 minutos de filme.

Relembre-o abaixo (completo):

TROPA DE ELITE 2 - AGORA O INIMIGO É OUTRO
Um filme de José Padilha (1h 54min):



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Já o sociólogo Luiz Eduardo Soares, co-autor dos livros Elite da Tropa que inspiraram os filmes de Padilha, também declarou seu apoio a Freixo neste momento em que a grande mídia, em especial as Organizações Globo, tentam sujar sua reputação através de acusações caluniosas de que o rojão que matou o cinegrafista da Band teria partido de alguém "com relação com Freixo": 
"Amig@s, são inacreditavelmente frágeis as bases para as reiteradas notícias veiculadas pelo Globo, especulando sobre os mais esdrúxulos vínculos entre Marcelo Freixo e a trágica morte do cinegrafista, Santiago. Detesto teorias da conspiração, mesmo depois das revelações de Snowden. Tampouco tenho tendências paranoicas. Por isso, me sinto no dever de alertar para a inominável manobra política que está sendo promovida pelo sistema Globo (certamente com outros atores políticos), onde trabalham muitos profissionais sérios, que merecem todo meu respeito - por isso, me recuso a generalizar críticas e estigmatizar profissionais honrados. O objetivo é aproveitar o momento de comoção e confusão para arruinar um dos últimos grandes patrimônios da cidade do Rio de Janeiro: a credibilidade de um cidadão digno, de um político respeitável e, nesse caso, a credibilidade da própria Política, com P maiúsculo, no campo da esquerda democrática.

O propósito é escandalosamente evidente: Freixo foi um dos únicos que mantiveram a reputação intocada, durante e depois do maremoto de junho. As manifestações decretaram o colapso da representação, tal como praticada no Brasil. Poucas lideranças resistiram ao terremoto. Freixo é uma dessas raríssimas exceções no Rio, e mesmo no país. Tornou-se um personagem público com autonomia e lastro para transcender partidos, ceticismos, acusações generalizantes. Freixo é um dos poucos deputados que atravessam as ruas de cabeça erguida e, sem qualquer veleidade messiânica ou discursos dogmáticos, têm potencial para salvar a política do pântano em que a meteram.

Não é só a esquerda democrática que, hoje, precisa dele. É a democracia brasileira. Atingir de forma grotesca esse potencial de revitalização da vida política, capaz de articular as ruas e as instituições, é um verdadeiro ataque à República. Não me cabe especular sobre motivações, mas cumpre compartilhar o que me parece óbvio: a artilharia pesada do sistema Globo quer fazer com Marcelo, no plano moral e político, o que as milícias não conseguiram, no plano físico. Há no ar uma tentativa de assassinato moral absolutamente irresponsável. E nós? E os que concordamos com essa análise e aprendemos a respeitar Marcelo Freixo? Vamos deixá-lo sozinho? Ele não deixou a sociedade entregue à própria sorte quando decidiu arriscar a vida para combater as máfias milicianas. Até hoje não pode dar um passo sem a cobertura da segurança armada. É nossa vez de retribuir. Marcelo Freixo não vai ficar sozinho..."

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Também vale a pena ver de novo:



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50 pessoas, 50 motivos:
"Fecho com Freixo" (Campanha de 2012)




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 E já viram o mais novo fenômeno do Facebook, com mais de 30.000 likes em poucos dias? Comunidade "EU TENHO LIGAÇÃO COM MARCELO FREIXO", que satiriza o procedimento global de incriminação: "O primo do cunhado do amigo do meu papagaio me disse que viu o Freixo comprando pão na mesma padaria que o tio do enteado do meu cachorro..." https://www.facebook.com/ligacaocomfreixo

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

"Mãos para o alto, R$3,20 é um assalto!" - Relembrando Junho de 2013 com Marilena Chauí e o documentário "Sob 20 centavos"

Avenida Paulista, 17 de Junho de 2013
Marilena Chauí (filósofa brasileira):

"Eu atribuo as manifestações atuais àquilo que chamo de INFERNO URBANO. Ou seja, 1) o fato de que as EMPREITEIRAS tiveram PASSE LIVRE para fazer a explosão demográfica das cidades por meio dos condomínios (horizontais e verticais) e shopping centers; 2) o fato de que as empresas de transporte tiveram PASSE LIVRE para manter linhas longas e custosas, que dão lucro para elas mas prejudicam a população, com frotas velhas e defasadas, incapazes de responder às necessidades da população e com preços escorchantes... um transporte indigno, indecente, mortífero!; 3) E as montadoras tiveram PASSE LIVRE para a explosão do AUTOMÓVEL INDIVIDUAL... 

Então você tem uma cidade marcada por condomínios, shopping centers, veículos individuais em uma quantidade absurda, e a aberração que é nosso transporte público... Estavam criadas condições para que, num dado instante, isto explodisse, e as manifestações foram uma expressão do que a gente vive no inferno urbano..."

Leia também: "Anatomia do Movimento Passe Livre", por Lincoln Secco

"A militarização da polícia foi OBRA DA DITADURA, ou seja, de quando se instalou o TERROR DE ESTADO no Brasil, isto é, toda a violência terrorista do Estado com as prisões, torturas, mortes, desaparecimentos e censura do pensamento e da palavra - operações que foram financiadas pela burguesia brasileira. O que se fez foi DAR À POLÍCIA uma estrutura do tipo que tem o EXÉRCITO. Ora, um exército está encarregado daquilo que se convencionou chamar de INIMIGO EXTERNO. A polícia, organizada como um exército, ficava então encarregada de lidar com o que, inspirados pelo Departamento de Estado dos EUA, chamaram de INIMIGO INTERNO - e o inimigo interno... é a ESQUERDA. 

Esta polícia militarizada e esta estruturação do sistema político partidário - que durante muitos anos formaram um ENTULHO AUTORITÁRIO - tinham que ter sido DESFEITAS para que você pudesse efetivamente DEMOCRATIZAR o Brasil. Do mesmo modo que é urgente a REFORMA POLÍTICA que desmonte a estrutura que a Ditadura propôs, é preciso destruir a organização militarizada da polícia..."

Marilena Chauí 
No Doc. "Sob R$ 0,20"
Sampa, 17 de Junho de 2013





SOB R$0,20 
(Brasil, 2013, 43 min.)

Produção: MUDA - Movimento Urbano de Diálogo Audiovisual

"Como nasceram as manifestações de junho de 2013? Que raízes sociais e políticas estão por trás da forma que se instalou nosso sistema de transporte nesse país? Em que contexto foi criada a polícia militar que, em situações como esta, trata a população como inimiga? Como a mídia tentou se apoderar e pautar essas manifestações? E finalmente: é possível a tarifa zero? O filme contou com entrevistas de diversos manifestantes, membros do Movimento Passe Livre, Lúcio Gregori (Ex-Secretário de Transportes de São Paulo), Marilena Chauí (Filósofa e Professora da USP), Marcelo Feller (Jurista), dentre outros."

Saiba mais:

Muda - Movimento Urbano de Diálogo Audiovisual:

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Michael Löwy oferece um balanço social, ecológico e político do Movimento Passe Livre!

Protesto do movimento Passe Livre, na Rodoviária Central de Brasília, em 19 de Junho de 2013, pedindo tarifa zero para o transporte público e criticando os gastos públicos com a Copa da FIFA. Fotógrafo: Dida Sampaio / Estadão.






Michael Löwy:

"Como todos sabem, foi a luta do Movimento Passe Livre (MPL), movimento a favor dos transportes públicos gratuitos e mobilizado contra o aumento da passagem do ônibus, que desencadeou a ampla e impressionante mobilização popular no Brasil em junho passado, colocando centenas de milhares de pessoas, se não milhões, nas ruas das principais cidades do país. Quais lições podemos tirar dessa experiência e qual é o alcance social, ecológico e político da luta pelo transporte gratuito?

O MPL foi criado em janeiro de 2005, por ocasião do Fórum Social Mundial em Porto Alegre, como uma rede federativa de coletivos locais. Esses coletivos já existiam havia alguns anos e haviam travado lutas importantes, como a de Salvador, em 2003, contra o aumento da passagem de ônibus. A carta de princípios do MPL (revista e completada em 2007 e 2013) define o movimento como “um movimento horizontal, autônomo, independente, não partidário, mas não antipartidos”.

A horizontalidade é, sem dúvida, a expressão de um modo de proceder libertário, que desconfia das estruturas e das instituições “verticais” e “centralizadas”. A autonomia em relação aos partidos significa a recusa de ser instrumentalizado por estes últimos, mas o movimento não rejeita a colaboração e a ação comum com organizações políticas, em especial da esquerda radical. Assim, coopera com associações de bairros populares, movimentos pelo direito à moradia, redes de luta pela saúde e certos sindicatos (metroviários, professores). Vê no transporte gratuito não um fim em si, mas “um meio para a construção de uma sociedade diferente”.



Pequena, a rede nunca passou de algumas centenas de militantes, enraizados primeiro nas escolas de ensino médio e mais tarde em certos bairros populares. De sensibilidade anticapitalista libertária, os ativistas têm diferentes origens políticas: trotskistas, anarquistas, altermundialistas, neozapatistas; com uma pontinha de humor, alguns se definem como “anarcomarxistas punks”. 

Em novembro de 2013, graças ao apoio financeiro da filial brasileira da Fundação Rosa Luxemburgo, o MPL realizou pela primeira vez desde sua criação uma Conferência Nacional em Brasília, com a participação 150 delegados, representando 14 coletivos locais. Algumas resoluções foram adotadas, por consenso, e um grupo de trabalho, composto por representantes dos coletivos, foi encarregado de coordenar as iniciativas, respeitando a autonomia local e a “horizontalidade”. (Obtivemos essas informações graças a dois encontros com militantes do MPL em São Paulo, em novembro de 2013.)

O método da luta do MPL também tem inspiração libertária: a ação direta na rua, frequentemente lúdica e “isolante”, ao invés da “negociação” ou do “diálogo” com as autoridades. Os militantes não fetichizam nem a violência nem a não violência; uma de suas ações típicas é o bloqueio de ruas, ao som de música, ateando fogo a pneus e “catracas”. O símbolo do MPL é uma catraca em fogo… Devo lembrar que o transporte comum, que originalmente era um serviço público, foi privatizado em todas as cidades do país, e é de responsabilidade de empresas capitalistas de hábitos mafiosos. No entanto, os prefeitos das cidades têm o controle dos preços das passagens.

A inteligência tática do MPL foi ter estabelecido, em primeiro lugar, um objetivo concreto e imediato: contra o aumento das passagens decidido pelas autoridades locais nas principais cidades do país, tanto as administradas pela centro-direita quanto pela centro-esquerda (o PT, que se tornou social-liberal). Rejeitando os argumentos pretensamente “técnicos” e “racionais” das autoridades, o MPL mobilizou milhares de manifestantes, duramente reprimidos pela polícia. Esses manifestantes se transformaram em dezenas de milhares e, depois, em milhões (à custa, é verdade, de certa diluição política), e os poderes locais foram obrigados a, precipitadamente, revogar os aumentos. Primeira lição importante: a luta compensa, é possível ganhar e dobrar as autoridades “responsáveis”!

Ao mesmo tempo que travava esse combate prático e urgente, o MPL não deixou um só instante de agitar seu objetivo estratégico: tarifa zero, transporte público gratuito. Para isso, observa a Carte de Princípios, é necessário “retirar o transporte comum do setor privado, pondo-o sob o controle dos trabalhadores e da população”. É o que os militantes do MPL denominam “perspectiva classista” do seu combate. Trata-se de uma exigência de justiça social elementar: o preço do transporte é proibitivo para as camadas mais pobres da população, que vivem na periferia degradada das grandes cidades e dependem dos transportes comuns para trabalhar ou estudar. Essa é uma reivindicação que interessa diretamente aos jovens, aos trabalhadores, às mulheres, aos moradores das favelas, isto é, à grande maioria da população urbana.

Mas a tarifa zero é também uma demanda profundamente subversiva e antissistêmica, dentro do espírito do que poderíamos chamar de método do programa de transição. Como observa a Carta de Princípios do MPL, “nossas demandas ultrapassam os limites do capitalismo e põem em questão a ordem existente”. Ela é um belo exemplo do que o filósofo marxista Ernst Bloch chamava de uma utopia concreta. É claro que há cidades, tanto no Brasil como na Europa, em que essa proposta pode ser realizada. Numerosos estudos especializados demonstraram que é perfeitamente possível colocá-la em prática sem sobrecarregar o orçamento das administrações locais. A verdade, no entanto, é que a gratuidade é um princípio revolucionário, que vai ao arrepio da lógica capitalista, pela qual tudo deve ser mercadoria; portanto, é um conceito intolerável, inaceitável e absurdo para a racionalidade mercantil do sistema. Ainda mais que, como propõe o MPL, a gratuidade dos transportes é um precedente que pode abrir o caminho para a gratuidade de outros serviços públicos, como educação, saúde etc. De fato, a gratuidade é a prefiguração de uma sociedade diferente, baseada em valores e regras diferentes daquelas do mercado e do lucro capitalistas. Daí a resistência obstinada das “autoridades”, sejam elas conservadoras, neoliberais, “reformadoras”, centristas ou sociais-liberais.

Há ainda outra dimensão da reivindicação do transporte gratuito, que por enquanto não foi suficientemente alegada pelo MPL (mas começa a ser levada em consideração): o aspecto ecológico. O sistema atual, totalmente irracional, de desenvolvimento ilimitado do carro individual, é um desastre tanto do ponto de vista da saúde dos habitantes das grandes cidades – milhares de mortes são causadas pela poluição do ar, diretamente provocada pelo escapamento dos veículos – quanto do ponto de vista do meio ambiente. Como se sabe, o carro é um dos principais emissores de gás de efeito estufa, responsável pela catástrofe ecológica que são as mudanças climáticas. O carro é, desde o fordismo até hoje, a principal mercadoria do sistema capitalista mundial; consequentemente, as cidades são inteiramente organizadas em função da circulação automobilística. Ora, todos os estudos mostram que um sistema de transportes coletivos eficaz, extenso e gratuito, permitiria uma redução significativa do uso do carro individual. O que está em jogo não é somente a tarifa do ônibus ou do metrô, mas outro modo de vida urbana, simplesmente outro modo de vida.

Em resumo, a luta pelo transporte público gratuito é ao mesmo tempo uma luta pela justiça social, pelo interesse material dos jovens e dos trabalhadores, pelo princípio da gratuidade, pela saúde pública, pela defesa dos equilíbrios ecológicos. Ela permite formar amplas coalizões e abrir brechas na irracionalidade do sistema mercantil. Nós temos muito que aprender com o MPL…

Via Blog da Boitempo Editorial:






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Confira também as imagens que o Depredando colheu da luta em Goiânia:


quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Vladimir Safatle será candidato a governador de SP em 2014 pelo PSOL - Leia trechos de seu livro "A Esquerda Que Não Teme Dizer Seu Nome"



O filósofo Vladimir Safatle será candidato a governador de São Paulo nas eleições de 2014 pelo PSOL - Partido Socialismo e Liberdade. Reproduzimos do blog A Casa de Vidro [http://www.acasadevidro.com] alguns trechos de "A Esquerda Que Não Teme Dizer Seu Nome", publicado por Safatle em 2012:



“Somos obrigados a ouvir compulsivamente que ‘a divisão esquerda/direita não faz mais sentido’. Essa conversa é utilizada para fornecer a impressão de que nenhuma ruptura radical está na pauta do campo político, ou de que não há mais nada a esperar da política a não ser discussões sobre a melhor maneira de administrar o modelo socioeconômico hegemônico nas sociedades ocidentais. (…) A função atual da esquerda é, por isso, mostrar que tal esvaziamento deliberado do campo político é feito para nos resignarmos ao pior, ou seja, para nos resignarmos a um modelo de vida social que há muito deveria ter sido ultrapassado e que evidencia sinais de profundo esgotamento.” 
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“A política é, em seu fundamento, a decisão a respeito do que será visto como inegociável. (…) Este livro pretende falar, pois, do inegociável, isto é, a primeira coisa que a esquerda esquece quando assume o governo e começa a ficar fascinada por ser recebida em casas de escroques na Riviera Francesa, por ser convidada para vernissages de publicitários travestidos de artistas plásticos e por começar a ler mais sobre vinhos caros do que sobre a alienação do trabalho nas linhas de montagem da Ford.”
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“Com o governo Lula (2003-2010), continuamos obrigados a conviver com o bloqueio reiterado da reconstrução dos fundamentos gerais do campo do político, como se a imersão na “pior política” fosse uma fatalidade intransponível. A despeito de sua capacidade de colocar a questão social enfim no centro do embate político e de compreender o necessário caráter indutor do Estado brasileiro no nosso desenvolvimento socioeconômico, o governo Lula será lembrado, no plano político, por sua incapacidade de sair dos impasses de nosso presidencialismo de coalizão. Como se a governamentabilidade justificasse a acomodação final da esquerda nacional a uma semidemocracia imobilista, de baixa participação popular direta e com eleições que só se ganha mobilizando, de maneira espúria, a força financeira com seus corruptores de sempre.” 
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“Talvez a posição atual mais decisiva do pensamento de esquerda seja a defesa radical do igualitarismo. Juntamente com a defesa da soberania popular, a defesa radial do igualitarismo fornece a pulsação fundamental do pensamento de esquerda. [...] A luta contra a desigualdade social e econômica é a principal luta política. Nossas sociedades capitalistas de mercado são ‘paradoxais’ por produzirem, ao mesmo tempo, aumento exponencial da riqueza e pauperização de largas camadas da população. Quebrar esse paradoxo é tarefa da política. Apenas um exemplo: enquanto o PIB dos EUA cresceu 36% entre 1973 e 1995, o salário-hora de não executivos (que são a maioria dos empregados) caiu 14%. No ano 2000, o salário real de não executivos nos Estados Unidos retornou ao que era há 50 anos. Dados como estes demonstram que, diante dos modelos liberais, ou seja, sem forte intervenção de políticas estatais de redistribuição, nossas sociedades tendem a entrar em situação de profunda fratura social por desenvolverem uma tendência radical de concentração de riquezas. 
Um exemplo do tipo de ação que uma defesa radical do igualitarismo pode produzir foi sugerido pelo candidato de uma coligação francesa de partidos de esquerda à eleição presidencial de 2012, Jean-Luc Mélenchon. Consiste na proposição de um “SALÁRIO MÁXIMO”, com um teto que impediria que a diferença entre o maior e o menor ganho fosse superior a 20 vezes. Em uma realidade social de generalização mundial das situações de desigualdade extrema, tais propostas trazem para o debate político a necessidade de institucionalização de políticas contra a desigualdade.” 
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“A democracia depende de um aprofundamento da transferência de poder para instâncias de decisão popular que podem e devem ser convocadas de maneira contínua. (…) Com o desenvolvimento das novas mídias, é cada vez mais viável, do ponto de vista material, certa “democracia digital” que permita a implementação constante de mecanismos de consulta popular. (…) O verdadeiro desafio democrático consiste em criar uma dinâmica plebiscitária de participação popular. 
Tal dinâmica é desacreditada pelo pensamento conservador, pois ele procura vender a ideia inacreditável de que o aumento da participação popular seria um risco à democracia – como se as formas atuais de representação fossem tudo o que podemos esperar da vida democrática. Contra essa política que tenta nos resignar às imperfeições da nossa democracia parlamentar, devemos dizer que a criatividade política em direção à realização da democracia apenas começou. Há muito ainda por vir.” 
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“Mesmo a tradição política liberal admite, ao menos desde John Locke, o direito que todo cidadão tem de se contrapor ao tirano, de lutar de todas as formas contra aquele que usurpa o poder e impõe um estado de terror, de censura, de suspensão das garantias de integridade social. Nessas situações, a democracia reconhece o direito à violência, já que toda ação contra um governo ilegal é uma ação legal. (…) Um dos princípios maiores que constitui a a tradição de modernização política da qual fazemos parte afirma que o direito fundamental de todo cidadão é o direito à rebelião e à resistência.” 
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“No fundo, essa é uma sociedade que tem medo da política e que gostaria de substituir a política pela polícia.” 
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“O plebiscito é simplesmente a essência fundamental de toda vida democrática. (…) Vale a pena lembrar que a noção de soberania popular implica transferência de poderes em direção à democracia direta. Um exemplo valioso são as declarações de guerra. Na época da Guerra do Afeganistão, enquanto a maioria da população era contrária à iniciativa, o Parlamento espanhol aprovou o envio de tropas àquele país. Ou seja, naquele momento o Parlamento da Espanha não representava o povo – o mesmo povo que morreria devido às consequências da decisão do Parlamento. Em situações como esta, a decisão deveria passar para a democracia direta.”

Saiba mais: 






segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

#SOSMaranhão: Um texto de Zeca Baleiro, um curta de Glauber Rocha, um doc de Andrea Tonacci...


Por Zeca Baleiro

Leio com assombro as notícias que chegam do Maranhão. Imagens e relatos dolorosos e repugnantes despejados em tempo real em sites, jornais e telejornais, escancarando a nossa vergonha e impotência diante de barbaridades que já extrapolam nossas fronteiras e repercutem mundo afora.

Como todos, estou pasmo. Mas nem tanto. Nasci no Maranhão e sei que a barbárie (a todos agora revelada de um modo talvez sem precedentes) já impera há anos na prática de seus governantes vitalícios, que agem como os velhos donos das capitanias hereditárias do passado.

Se o crime organizado neste momento dá as cartas e oprime o povo com ameaças e ações dignas dos mais perigosos terroristas, é porque há uma natural permissão -a impunidade crônica dos oligarcas senhores feudais, que comandam (?) o Estado com mãos de ferro há 47 anos (a minha idade exatamente) e que, ao longo desse tempo, vem cometendo atrocidades sem castigo, com igual maldade, típica dos grandes tiranos e ditadores.

Esses donos do poder maranhense (e nunca dantes a palavra “dono” foi empregada com tanta adequação como aqui e agora) são exemplo e espelho para que criminosos ajam sem nenhum medo da punição.

Pois a miséria extrema que assola o Estado há décadas, o analfabetismo estimulado pela sanha dos coiotes ávidos de votos, a cultura antiga de currais eleitorais, a corrupção mais descarada do mundo e o atentado ao patrimônio histórico de sua bela e triste capital são crimes tão hediondos quanto os cometidos no complexo penitenciário de Pedrinhas.

A diferença crucial é que, enquanto os bandidos que agora aterrorizam (e matam) a população aos olhos assustados da nação estão em presídios infectos e superlotados, os criminosos de colarinho branco (e terninho bege) habitam palácios.

No meio do caos, soa tão patética quanto simbólica a notícia veiculada dias atrás neste jornal sobre abertura de licitação para o abastecimento das residências oficiais da governadora.

A lista de compras é de um rigor e de uma opulência espantosos. Parece coisa da monarquia francesa nos dias que antecederam sua queda.

No presídio de Pedrinhas, cabeças são cortadas. Resta saber se, para além dos muros da prisão, alguém um dia irá para a guilhotina.


ZECA BALEIRO é cantor e compositor
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#SOSMaranhão toma conta das ruas de São Luís; veja fotos.


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Um curta de Glauber Rocha:


Um documentário de Andrea Tonacci

domingo, 12 de janeiro de 2014

Raridade: Rita Lee & Tutti Frutti ao vivo em 1976 [álbum completo]

Raridade da Rita [compartilhe no Facebook]:

Rita Lee & Tutti Frutti
Ao Vivo - Teatro Záccaro - São Paulo/1976

Turnê Entradas e Bandeiras

Playlist:

01. Bruxa Amarela 00:00
02. From The Beginning 03:21
03. 2001 08:30
04. Com a Boca No Mundo (Tico-Tico) 12:27
05. Rock and Roll, Hoochie Koo 16:50
06. Arrombou a Festa 20:02
07. Superstafa 25:05
08. Para Lennon e McCartney 29:15
09. Corista De Rock 32:29
10. Posso Contar Comigo 37:42
11. Drift Away 41:45
12. Ese Tal De Roque Enrow / Esse Tal De Roque Enrow 46:15
13. Coisas Da Vida 50:06
14. Superstafa (Bis) 54:36
15. Brown Sugar 56:38




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Aproveite para relembrar...



quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Ouça na íntegra o álbum "Cruel" de Sergio Sampaio



Meus caros, estava faltando no Youtube o sensacional álbum de Sergio Sampaio, "Cruel" (2006), lançado postumamente e produzido por Zeca Baleiro. Depredando o Orelhão subiu o discaço na íntegra e aqui compartilha com os amantes da boa música brasileira: http://youtu.be/G2glPHJ-mDs. Disseminem!

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Sérgio Moraes Sampaio (Cachoeiro de Itapemirim, 13 de abril de 1947 — Rio de Janeiro, 15 de maio de 1994) foi um cantor e compositor brasileiro. Suas composições variam por vários estilos musicais, indo do samba e choro, ao rock'n roll, blues e balada.1 Sobre a poética de suas composições, em que se vê elementos de Kafka e Augusto dos Anjos, que lia e apreciava,2 declarou num estudo Jorge Luiz do Nascimento: "A paisagem urbana em geral, e a carioca em particular, na poética de Sérgio Sampaio, possui a fúria modernista. Porém, o espelho futurista já é um retrovisor, e o que o presente reflete é a impossibilidade de assimilação de todos os índices e ícones da paisagem urbana contemporânea." No dizer do cantor Lenine, Sampaio foi um nome marginalizado que equipara a Tim Maia e Raul Seixas, como um dos "malditos" da música popular brasileira..." - Prossiga lendo a biografia da Wikipédia - http://bit.ly/1cY25VM

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CRUEL (2006)

Músicas:

01) Em Nome De Deus (3:26)
02) Roda Morta (3:03)
03) Polícia Bandido Cachorro Dentista (2:05)
04) Brasília (4:06)
05) Magia Pura (3:29)
06) Rosa Púrpura De Cubatão (3:03)
07) Muito Além Do Jardim (4:01)
08) Real Beleza (3:37)
09) Pavio Do Destino (3:52)
10) Quero Encontrar Um Amor (2:09)
11) Quem é Do Amor (2:30)
12) Cruel (4:11)
13) Uma Quase Mulher (3:01)
14) Maiúsculo (3:06)

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Para download do álbum, dê um pulo no
UM QUE TENHA.


 

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

ESPECIAL MUJICA: Leia na íntegra a grande reportagem da revista Piauí sobre o presidente uruguaio


EL VIEJO TUPAMARO

Os amigos, os inimigos e o país envelhecido do uruguaio Pepe Mujica, um presidente fora do figurino

por Carol Pires (Piauí #73)

Sua única irmã havia morrido na quarta-feira. Era a caçula, tinha 71 anos. Uma semana depois, no dia 15 de agosto, ele era esperado no Hipódromo Nacional de Maroñas, em Montevidéu, e estava atrasado. Pepe Mujica, presidente do Uruguai, soube, logo que acordou, da morte da mãe de um companheiro de militância política e decidiu encontrá-lo antes da agenda oficial. Pela segunda vez em sete dias ia a um velório. Enquanto o esperávamos no hipódromo, María Minacapilli, sua secretária particular há dezoito anos, recebeu um telefonema. Havia acabado de morrer Renzo Pi Hugarte, um conhecido antropólogo uruguaio, vítima de uma parada cardíaca. María desligou o telefone com feição incrédula. Logo em seguida chegou Mujica. Cumprimentou os jornalistas com uma simpatia comedida antes de ser abordado pela secretária e tomar conhecimento da morte de seu grande amigo. Mujica tem 77 anos. É meses mais novo que Hugarte.

Naquela quarta-feira, Mujica deveria ir a Pan de Azúcar, uma cidade de pouco mais de 6 500 habitantes, a 100 quilômetros de Montevidéu, para lançar um programa que dá às crianças acesso a um curso de língua estrangeira em seus laptops. Hoje, no Uruguai, todos os 300 mil alunos da rede pública têm um computador pessoal doado pelo governo. O presidente, porém, trocou de agenda na tarde anterior. No hipódromo, firmou um convênio para um programa de capacitação de jovens.

Pepe Mujica é um personagem que caberia tanto em um conto gauchesco quanto em um romance sobre a esquerda armada. Foi militante da guerrilha urbana Tupamaros, levou seis tiros, ficou quinze anos preso, onze deles em uma solitária, onde chegou a beber a própria urina para não morrer de sede. Disputou a primeira eleição aos 59 anos e nunca mais perdeu – foi senador reeleito e, há dois anos e meio, é presidente do Uruguai.

Mujica foi descoberto pelos jovens do continente depois de anunciar, em junho, que o Uruguai poderia legalizar o comércio da maconha. Outra imagem muito compartilhada nas redes sociais é o de um político buena onda, alto astral, personagem de uma simpática reportagem do jornal El Mundo, da Espanha, que o chama de “o presidente mais pobre do mundo”. Um artigo na revista britânica Monocle disse que ele é “o melhor presidente do mundo” e “o herói não reconhecido da América Latina”. Mujica mora numa chácara chamada La Puebla, nos arredores de Montevidéu, numa casa de um quarto com teto de zinco. Doa 90% do seu salário de presidente, equivalente a 25 mil reais. O único bem em seu nome é um Fusca azul de 1987. No site da Presidência uruguaia declara como profissão oficial: “chacareiro”.

Mas não era o Mujica buena onda que governava o Uruguai no começo de agosto. Era inverno, Montevidéu estava fria e gris. O tempo chuvoso estava em sintonia com o humor do presidente. Ele passou toda a cerimônia no hipódromo olhando o vazio, com o cotovelo apoiado na mesa e o queixo apoiado na mão. O dedo indicador tapava-lhe a boca, como quem pede silêncio. Comeu dois biscoitos, espremeu limão no chá e o bebeu. Estava triste.

Ao anunciar que a cerimônia estava para ser encerrada, o mediador perguntou se Mujica gostaria de fazer “alguma reflexão”. Depois de alguns segundos em silêncio, foi o que ele fez: uma reflexão. Não cumprimentou os excelentíssimos presentes, como em geral fazem os políticos, nem discursou sobre os feitos e os projetos do governo. Apenas se aproximou do microfone e falou sobre como a sociedade seria melhor se as empresas desenvolvessem “inteligência social”.

Um homem que não tinha uniforme nem credencial – o mesmo que havia chegado dirigindo o carro oficial da Presidência, um Corsa Sedan prata – avisou à imprensa que Mujica não iria se pronunciar. O presidente, que vestia um blazer cinza e um suéter verde-musgo puído, sentou-se no banco ao lado do motorista. Deixou a porta aberta, o que pareceu ser um código para que os repórteres se aproximassem. Dois temas estavam na pauta nacional naqueles dias: o aumento da criminalidade e uma disputa diplomática – mais uma – com a Argentina.

O Uruguai é o segundo menor país da América do Sul, o menos corrupto (segundo a ONG Transparência Internacional) e o mais seguro para se viver. Ainda assim, os índices crescentes de violência são o problema que mais preocupa a população. Neste ano houve 211 assassinatos no país. O número pode parecer risível: é quase a mesma quantidade de pessoas mortas por dia no Brasil. Mas já é muito superior aos 183 registrados em 2011. A violência doméstica também é motivo de inquietação. Foram 9 325 registros em 2011 inteiro e 12 004 neste ano, até agora. Sentado no carro, Mujica falou sobre a perda de valores familiares, mas disse que um psiquiatra poderia analisar melhor o assunto. “Ser presidente não nos dá credencial para saber de tudo.”

A próxima pergunta foi sobre política comercial e ele respondeu com um ditado: não se deve colocar todos os ovos numa cesta só. “É mais fácil vender para os vizinhos, que estão perto. Mas, bem… temos que sacudir a modorra”, disse. Referia-se ao protecionismo argentino enfrentado pelo Uruguai, que vive da exportação de carne, soja, lã e derivados do leite. Antes da terceira pergunta, o motorista ameaçou arrancar e Mujica fechou a porta. Nos dias seguintes, a frase dos ovos foi destacada em vários sites de notícia uruguaios e chegou à capa de uma revista semanal.

Pepe Mujica não mede palavras, fala palavrões, comete erros gramaticais, usa expressões que as novas gerações já não entendem. É comum que se valha de metáforas da vida no campo para explicar sua visão de governo. Pelo menos uma vez teve que se desculpar pela sinceridade. Durante a campanha à Presidência, foi lançado um livro chamado Pepe: Colóquios, no qual ele diz ao jornalista Alfredo García que os Kirchner eram “peronistas delinquentes”, o ex-presidente Carlos Menem, um “mafioso e ladrão”, e os argentinos, “histéricos, loucos e paranoicos”.

Ele nunca mais foi tão duro com os Kirchner. É até paciente demais, na opinião de alguns uruguaios. O seu antecessor, Tabaré Vázquez, também da Frente Ampla – a mesma coalizão de esquerda de Mujica –, passou o governo brigando com Néstor Kirchner, então presidente argentino, por causa da instalação de uma fábrica de celulose perto da cidade uruguaia de Fray Bentos, na beira do rio Uruguai, divisa entre os dois países. Os argentinos alegavam que a fábrica iria poluir o rio e tentaram embargá-la, levando o caso à Corte Internacional de Justiça. O troco veio quando Kirchner depois foi indicado para a Secretaria-Geral da União de Nações Sul-Americanas: Vázquez vetou o nome dele.

Na contramão, Mujica retirou o veto ao assumir a Presidência (e Kirchner assumiu o cargo, que exercia quando morreu em 2010). Tem tratado Cristina Kirchner com cortesia, apesar de os países estarem outra vez em uma disputa envolvendo o rio Uruguai. O imbróglio dessa vez está no canal Martín García, que precisa ser dragado para permitir a passagem de navios maiores. A obra custará 50 milhões de dólares, precisa ser decidida e paga por ambos os países, mas interessa muito mais ao Uruguai, já que o canal dá acesso ao porto uruguaio de Nueva Palmira. “O que vou fazer, furar o olho dela?”, respondeu Mujica quando pressionado a ser mais duro com a mandatária argentina. Ele diz que de vez em quando não se importa em “engolir sapos e cobras” pela paz na vizinhança.

Mujica se declara um pragmático e justifica-se lembrando que o Uruguai perdeu todas as vezes em que brigou com a Argentina. Mas a paciência excessiva com o vizinho corroeu parte de sua popularidade. O escritor uruguaio Tomás Linn, colunista da revista Búsqueda, comentou: “Mujica anda tão mal quanto Vázquez na relação com os argentinos, mas quer ser amigo. Vázquez foi mais duro. Com um ou com outro, perdemos igual. Então, pelo menos que não deixe os Kirchner conduzirem a relação como se o Uruguai fosse uma província argentina, porque nada irrita mais os uruguaios do que isso.”

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É histórica a sensação do Uruguai de estar imprensado pelos gigantes Brasil e Argentina – de um século a outro, passou de região de disputa fronteiriça entre dois impérios, o português e o espanhol, a Estado-tampão. É um “algodão entre dois cristais”, como disse John Ponsonby, um ministro britânico mandado em missões diplomáticas ao estuário do rio da Prata na primeira metade do século XIX. O país, além de ser menor que o Rio Grande do Sul, tem população pequena (há dez anos mantém-se na faixa de 3 milhões) e envelhecida. São 19% os que têm mais de 60 anos (no Brasil são 11%). Soma-se ao cenário a alta emigração de jovens, em busca de empregos no exterior.

Os quadros políticos do Uruguai também carecem de renovação. As principais figuras da oposição hoje são ex-presidentes ou herdeiros de famílias que se revezavam no poder antes de a Frente Ampla chegar à Presidência, em 2005. Até quatro décadas atrás, o país era bipartidário. Havia o Partido Colorado e o Nacional ou Blanco – ambos abrigam grupos de orientação centrista e de direita, sendo os colorados originalmente ligados à elite comercial urbana e os blancos aos grandes fazendeiros. Fundados em 1836, os dois estão entre os partidos mais antigos do mundo. O Partido Trabalhista inglês, por exemplo, é de 1900. A Frente Ampla só surgiu em 1971 e abriga todo o espectro de esquerda, de comunistas a social-democratas.

Tabaré Vázquez foi o primeiro presidente frente-amplista. Oncologista que, mesmo na Presidência, nunca deixou de atender seus pacientes às terças-feiras, Vázquez é mais popular que Mujica. No Uruguai, o mandato dura cinco anos, não há reeleição, e ele é o mais cotado para ser candidato em 2014. Se a eleição fosse hoje, ganharia dos candidatos da oposição, que devem ser os senadores Jorge Larrañaga, pelos blancos, e Pedro Bordaberry, pelos colorados. Este último é filho de Juan María Bordaberry, o presidente que comandou o golpe de Estado de 1973 e morreu no ano passado. Já Larrañaga foi candidato a vice na chapa de Luis Alberto Lacalle quando Mujica foi eleito, no final de 2009.

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Luis Lacalle é um homem hiperativo, de ar aristocrático. Ele me recebeu numa tarde de agosto em seu gabinete no Senado, onde mantém na parede uma foto do avô, Luis Alberto de Herrera, o principal caudilho do Partido Blanco na primeira metade do século passado. Apontou onde eu deveria me sentar e pediu que a entrevista fosse gravada porque anotações “are not reliable”. Lacalle foi presidente num momento de predomínio neoliberal no continente, quando Fernando Collor presidia o Brasil e Carlos Menem, a Argentina. De Collor, disse: “Era um menino bonito, mas ignorante.” Os três, mais o presidente paraguaio Andrés Rodríguez, assinaram o Tratado de Assunção, que sacramentou a criação do Mercosul.

Em meia hora de entrevista, Lacalle criticou Mujica por não ter voz de comando. Disse que o presidente não consegue executar promessas mesmo tendo maioria no Parlamento, e que as iniciativas que põe em prática são clientelistas. “Tem 100 mil pessoas ganhando salário sem trabalhar. Dão o dinheiro e não pedem nada em troca, se os filhos vão à escola ou não, não importa. É um mensalão, mas um mensalão dos pobres”, disse, batendo as mãos em estalo. O programa, na verdade, exige que as famílias que recebem a ajuda mantenham os filhos na escola. São 412 mil crianças e adolescentes beneficiados pela Asignación Familiar, um correspondente do Bolsa Família, criado no governo de Vázquez.

Na maior parte do tempo, o senador olhava para as paredes ou para o chão. Em determinado instante, enquanto falava, enfiou o dedo indicador entre meus dedos dos pés por uma fenda do sapato. Ignorei o gesto. Ele riu, logo retraiu a mão e prosseguiu: “Vázquez é uma pessoa mais séria, mais como um social-democrata francês. Mujica é um homem mais radical. Inventou um personagem que é mais importante que a pessoa, o personagem Pepe, um personagem folklore”, explicou, com sotaque inglês. Mujica “passa do limite quando vai a uma cúpula política com sapatos velhos”, diz ele. “É uma grosseria.”

Semanas antes, o presidente havia feito uma viagem bate-volta ao Brasil para encontrar Hugo Chávez, Cristina Kirchner e Dilma Rousseff no Palácio do Planalto. O encontro oficializou a entrada da Venezuela no Mercosul depois que Fernando Lugo foi destituído da Presidência do Paraguai pelo Senado e o país, único que ainda não tinha aprovado a inclusão venezuelana, foi suspenso do bloco por desrespeito à democracia. No dia seguinte, o jornal O Globo trouxe na capa uma foto cuja legenda anunciava um momento de descontração dos três mandatários, surpresos com o estado dos calçados de José Mujica.

Antes de sair de casa, ele tinha comentado com a mulher, a senadora Lucía Topolansky: “E eu que vou ter que me portar hoje com aquelas duas senhoras.” Ainda assim, não escolheu sapatos melhores que as botinas de couro marrom surrado. No avião, comentou com os assessores: “Esses não são os melhores sapatos para uma cúpula, mas eles me deixam confortável.” Quem esteve com ele no Planalto diz que não houve comentário sobre os sapatos, mas, na hora em que os presidentes posaram, havia um papel no chão apontando onde cada um deveria ficar. Todos olhavam para baixo buscando seus lugares e a foto foi feita. Dilma, Cristina e Chávez podem não ter notado os sapatos, mas a oposição uruguaia viu e não gostou.

Em outros tempos, Mujica se preocupava ainda menos com a aparência. Quando era deputado e senador, ia para o Congresso com botas de plástico sujas de terra. Trabalhava na plantação de manhã cedo e chegava ao Parlamento com terra nas unhas, pilotando sua moto Vespa ou o Fusca 1987. O estilo desleixado, alheio a qualquer solenidade, foi ganhando a atenção dos jornalistas e enfurecendo a oposição, conforme Mujica crescia politicamente. Quando foi candidato a vice na chapa de Lacalle, Jorge Larrañaga afirmou que o adversário, se eleito, governaria “debaixo de uma parreira, com dois vira-latas que o avisarão quando os ministros chegarem”. Lacalle também se referiu à casa do agora presidente como um “casebre”.

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Eu o convidei para ir tomar um café com a gente, mas ele não quis”, diverte-se Lucía Topolansky, mulher de Mujica, falando de Lacalle. Ela e Mujica vivem juntos desde 1985, mas casaram-se apenas em 2005, sem festas, na própria casa. Lucía tem 68 anos e parece muito sintonizada com o marido: além de nunca discordarem na política, usam o mesmo cabelo branco curto e roupas simples. Ela escolhe sapatos baixos, não põe brincos nem pinta as unhas. A novela política dos dois começa com a militância no Movimento de Libertação Nacional – Tupamaros, quando queriam acabar com o capitalismo no Uruguai, e chega ao auge quando ela, senadora mais votada em 2009, toma o juramento dele como presidente eleito.

Lucía e Mujica tiveram outros companheiros na militância clandestina. O dela foi morto. O primeiro encontro dos dois – “Ana” e “Facundo” – durou pouco. Mujica já conhecia María Elia, irmã gêmea de Lucía, mas só foi apresentado à futura mulher três meses antes de ser preso. Era 1971. Ambos fugiram da prisão – ele em uma fuga que entrou para o Livro dos Recordes pela quantidade de fugitivos envolvidos (111); ela com outras 37 companheiras pelo esgoto –, mas foram capturados pouco depois. “Naquele momento vivia-se cada dia, vivíamos nessa filosofia. Tinha que desfrutar o momento e ponto”, recordou Lucía em seu gabinete no Senado, onde conta com apenas duas funcionárias e tem as paredes decoradas com fotos de Mujica, Che Guevara e Carlos Gardel. Só em 1985, com a Lei de Anistia, os dois se reencontraram. Viveram com a mãe de Mujica na casa onde ele havia crescido em Rincón del Cerro, a poucos minutos da chácara que ele e Lucía depois compraram. Hoje vivem com Manuela, uma vira-lata que só tem três patas.

Durante muito tempo, contam os vizinhos, a casa era de adobe (um tijolo de argila) com teto de palha. Lucía e Mujica só fizeram uma reforma e colocaram o teto de zinco quando ele foi eleito senador e os dois já estavam cansados demais para trocar a palha de tempos em tempos. A chácara fica no bairro Paso de la Arena, na saída oeste de Montevidéu, um local de sítios e de pequena atividade industrial, agrícola e granjeira.

Ironicamente, a casa de Mujica fica no Camino Colorado, atrás de árvores altas que a escondem dos olhares de fora. O caminho até a porta é de barro e apenas dois policiais vigiavam o local numa manhã de agosto. Em 2010, no Encontro Internacional de Murgas – uma espécie de bloco carnavalesco popular no Uruguai e na Argentina –, o grupo A Contramano venceu com um enredo e uma música que parodiavam a história de dois guardas que precisam se virar para proteger um presidente que sai sem avisar para fazer pequenas compras. Certa vez, Mujica foi com a cadela comprar uma nova tampa para o vaso sanitário. Acabou discursando de improviso (com a tampa na mão) para uma equipe de jogadores de futebol da terceira divisão que o avistou na mercearia. Outro grupo de murga, chamado Agarrate Catalina, o homenageou com uma canção que diz: “É preciso cortar-lhe o bigode, os pelos da orelha, do nariz e da nuca/ Bote fogo nas alpargatas/ e deem-lhe uma cachorrinha que pelo menos tenha as quatro patas.”

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Mujica não quis viver na residência oficial, o palácio de Suárez y Reyes. Mas ele e a chácara tiveram que passar por modificações. O presidente foi barbeado e obrigado a usar blazer – gravata, jamais! Na casa, foram instaladas câmeras de vigilância e aberto um caminho alternativo que liga os fundos do terreno à rodovia. Lucía e Mujica, porém, não vivem sozinhos. Outras três famílias moram no sítio, em lotes doados pelo casal. Duas delas eles conheceram na militância política. A terceira passava por dificuldades financeiras e eles resolveram ajudar. No testamento do casal, consta que as outras famílias podem seguir vivendo ali depois da morte deles até quando precisarem, mas que o terreno será destinado a uma escola agrícola que estão organizando.

Em sua casa, o casal presidencial vive apenas com a cachorra Manuela, que ficou aleijada de uma das patas depois de ser atropelada pelo próprio Mujica, quando dirigia um pequeno trator agrícola. “Houve companheiros que tiveram filhos. Eu sempre optei por ter liberdade e não tive naquela época. Depois, não vieram”, diz a senadora, procurando se adiantar às perguntas: “Mas a casa sempre tem criança.” Na mesma construção, mas com portas de entrada independentes, vive o casal abrigado quando tinha problemas financeiros. Depois que passaram a viver na chácara de Lucía e Mujica, juntaram dinheiro e abriram uma pequena fábrica de garrafas de vidro. Ao falar das conquistas dos amigos, Lucía contou que a terceira filha do casal nasceu no sítio. Nesse momento, começou a chorar. “Ela tem 9 anos, é musicista. Toca violão.”

Na esquina do CaminoColorado há uma mercearia e açougue, onde Mujica faz compras. Os donos, Roberto e Anabel, dois uruguaios de pele e olhos claríssimos, são vizinhos do casal presidencial há dezenove anos. “Não posso me colocar no lugar da Lucía porque ela é mulher e eu sou homem, mas me afeiçoei a ela porque uma das coisas que ficou como consequência da tortura na ditadura foi não poder ter filhos. Depois de tudo o que eles sofreram, perdoar seus algozes e construir um país juntos? Isso fica além do que eu posso entender.” Roberto falava de Pedro Bordaberry, o filho do ditador uruguaio. Ao assumir a Presidência, Mujica convidou a oposição a ocupar cargos de direção em tribunais, como o de Contas e o Eleitoral, e em empresas públicas. Há três meses, Bordaberry mandou que seus correligionários deixassem os cargos depois de Lucía Topolansky dizer que, se a oposição estava insatisfeita, que renunciasse.

“Eles sempre olham para o futuro”, completa a mulher, Anabel. Quando engravidou pela primeira vez, Anabel reuniu os vizinhos para um jantar e contou a novidade. Pouco depois, sofreu um aborto espontâneo. Era 1994, antes de Mujica ser deputado. “Quando eu perdi o bebê, Mujica passou aí na frente com a moto e estacionou. Pensei que ia comprar algo, mas ele só veio e me deu um abraço.” Os dois só chamam Mujica de El Viejo [o velho].

No Carnaval, Roberto e Anabel passaram um fim de semana com Mujica e Lucía na casa de veraneio da Presidência, em Colônia do Sacramento, a uma hora de Montevidéu. A Estância Anchorena foi doada ao Uruguai por dom Aarón de Anchorena, de uma das famílias mais tradicionais da Argentina, com a condição de que o presidente da República a usasse pelo menos quarenta dias do ano. Mujica e Lucía Topolansky cumprem o acordo, mas não dormem na casa principal. Preferem uma suíte em um prédio anexo, reservado aos funcionários. Não se sentiam confortáveis em uma “casa-museu”, disse Lucía.

Negro Nievas, um enfermeiro e torneiro mecânico aposentado, vizinho de Mujica, também mostrou um álbum de fotos que tirou com a família na estância, num fim de semana em que ele, a mulher e os filhos participaram de um churrasco com o casal presidencial.

Nievas dirige um Ford Falcon de 1975 azul e tem trinta cachorros em casa. Disse que todos tinham nomes, mas só lembrou até o 18o. No momento em que chegamos para ver o álbum, outro vira-lata desconhecido estava na frente da casa e ele também o colocou para dentro. Nievas tem 73 anos e é amigo de Mujica desde os 7. Os dois eram vizinhos e estudaram na mesma escola. Quando perguntei sobre a infância dos dois, contou que a mãe de Mujica tinha um quiosque, do lado da escola, onde vendia material escolar e flores. Depois, começou a chorar. Emocionou-se várias vezes ao falar do amigo. Ele ainda guarda a carteirinha do Partido Comunista e tem em casa todos os livros já escritos sobre o presidente, com dedicatórias do próprio, todas terminadas assim: “Com razão e coração, Mujica.”

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"É um romântico”, disse sobre Mujica o cientista político Adolfo Garcé, da Universidad de la República, estudioso da história dos tupamaros. Garcé enxerga muitas semelhanças entre a lógica guerrilheira e o governo de Mujica. A primeira é o pragmatismo: “Os tupamaros eram cama-leões. Se mudava o entorno, eles mudavam.” No governo, Mujica “é igual”, ele diz. O presidente também segue obcecado com as pessoas que não têm onde viver. Ele vendeu prédios públicos, entre eles uma residência oficial em Punta del Este, para construir casas populares, e chegou a cogitar abrir o palácio Suárez y Reyes para os sem-teto se refugiarem durante o inverno. É para o plano de moradia do governo, chamado “Juntos”, que Mujica doa quase todo o seu salário.

Garcé aponta outra tática comum à guerrilha: quando o presidente introduz um novo assunto polêmico no debate para desviar a atenção de temas desfavoráveis ao governo. Quando Mujica e os outros presos políticos se preparavam para fugir de Punta Carretas, em setembro de 1971, os tupamaros que estavam em liberdade fizeram uma ação do outro lado da cidade. A polícia correu para lá e o presídio ficou desguarnecido. O cientista político faz a comparação: ao propor a regulação pelo Estado da produção e do comércio da maconha, Mujica desvia o foco do debate sobre o problema de segurança pública.

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O governo estima que 300 mil pessoas – 10% da população – já experimentaram maconha ou a usam com alguma frequência. O porte e o consumo da droga não são criminalizados no país. O projeto de legalizar seu comércio foi mandado ao Congresso dentro de um pacote de dezesseis medidas para combater a violência. A legalização daria ao Estado controle sobre a venda e permitiria arrecadar recursos para desenvolver programas de tratamento dos viciados. Na Câmara, outros projetos defendem a legalização do autocultivo da maconha, mas ainda não há acordo sobre a quantidade que seria permitida.

A proposta do governo caiu na burocracia do processo legislativo e tramita lentamente, após a imensa repercussão inicial. Para a oposição e parte do eleitorado, ficou a impressão de que é mais uma medida anunciada e não cumprida por Mujica. “Ele fala sem preparação prévia, lança temas que notoriamente lhe ocorreram naquele momento. Não tem uma equipe para ensaiar com ele, então fala algo como proposta de governo e, quando não há quem o siga ou ele percebe que é um erro, volta atrás”, disse o ex-presidente Luis Lacalle.

Simpatizante do Partido Nacional e comentarista político na rádio El Espectador, Graziano Pascale foi o primeiro jornalista, ainda em 2007, a dizer que Pepe Mujica poderia ser candidato pela Frente Ampla. “As pessoas se irritaram comigo. Mujica não tinha os dentes, parecia um absurdo.” Para Pascale, a eleição de Mujica não significa que os uruguaios passaram a gostar de candidatos como ele, mais parecidos com o povo. Ele seria um caso único. “Mujica é esse tio velho e louco que toda família tem. Elegê-lo presidente foi uma loucura coletiva. A figura pública dele não combina com a vida normal do uruguaio.”

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José Alberto Mujica Cordano é o primeiro filho do casamento de Demetrio Mujica e Lucy Cordano. O pai morreu cedo e a irmã mais nova, María, nasceu com limitações intelectuais. Foi ele quem sempre deu suporte à mãe, ajudando-a a plantar copos-de-leite em Rincón del Cerro, hoje distrito de Paso de la Arena, onde está sua chácara. Lucy também recebia ajuda financeira do pai, um imigrante italiano que tinha uma propriedade de 5 hectares em Carmelo, região vizinha à estância presidencial de Anchorena.

No ensino médio, Mujica se preparava para o curso de direito (que nunca terminou) quando começou a se inclinar para a esquerda. Ao jornalista Miguel Ángel Campodónico, no livro Mujica, ele diz: “Naquela época eu era meio anarquista. A militância estudantil de alguma maneira fez com que eu fosse me politizando. Sigo sendo anarquista, acho que sou bastante libertário, isso é inquestionável.” Nessa época, conheceu dois grandes amigos: Renzo Pi Hugarte, o antropólogo que morreu na segunda semana de agosto, e Enrique Erro, que viria a ser ministro de Indústria e Trabalho e introduziu Mujica na política. Ele era do Partido Nacional e foi nele que Mujica começou a militar.

O jovem Pepe Mujica devia ser o único morador de Paso de la Arena que assinava o Marcha, um semanário influente entre os anos 40 e 70 que tinha o escritor Juan Carlos Onetti como secretário de redação. Aprendeu a gostar da terra com o avô materno. Saiu dos catorze anos de prisão com a ideia fixa de ter uma chácara. O pai – também de Carmelo, uma área muito influenciada por Buenos Aires (ainda hoje o grosso do turismo em Colônia do Sacramento é de portenhos) – era um nacionalista peronista. Mujica lembra-se de ter visto a imagem de Juan Domingo Perón na primeira vez em que assistiu à televisão.

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O Movimento de Libertação Nacional – Tupamaros (MLN-T) surgiu em 1965 reunindo anarquistas e socialistas de várias correntes inspirados pela Revolução Cubana de Che Guevara e dos irmãos Castro em 1959. Quando aderiu ao grupo, Mujica era ligado à União Popular, organização de esquerda criada por dissidentes do Partido Nacional. Em 1970, os tupamaros eram 5 mil. Os golpes capitaneados pelos militares pipocavam no continente – em 1964 no Brasil, em 1966 na Argentina. O socialista Salvador Allende, no Chile, seria derrubado em setembro de 1973, apenas dois meses depois do golpe de Estado no Uruguai.

Os tupamaros são mais controvertidos porque, diferentemente de grupos armados brasileiros que surgiram durante a ditadura, eles pegaram em armas, sequestraram e mataram ainda durante a democracia. Questionado se já matou alguém, Mujica respondeu que tinha má pontaria. O golpe cívico-militar no Uruguai, com a dissolução do Congresso por Bordaberry, só aconteceria oito anos depois da criação do movimento Tupamaros. Os guerrilheiros já estavam desarticulados e seus principais líderes, entre eles Mujica, presos como “reféns” do governo. Se a guerrilha fizesse mais ataques, eles poderiam ser mortos. “Fomos um produto social”, diz Lucía Topolansky. “Mas se o Lacalle te conta a história dos tupamaros dirá que tudo era sol e primavera quando caiu um raio no país.”

Anahit Aharonian, uma militante uruguaia que esteve presa com Lucía, diz que ainda tem alma tupamara. “Ser tupamaro é ser alguém que continua lutando pela justiça social. E mudança não é dar moedinhas às pessoas. Não quero capitalismo bom, não é possível humanizar o capitalismo. Estamos contra o capitalismo.” Anahit é agrônoma e me recebeu em sua casa, longe do centro de Montevidéu, usando brincos de penas feitos por índios bolivianos. Ela é uma das esquerdistas decepcionadas com o governo de Mujica. “Pensei que ele faria um governo à esquerda de Vázquez, mas ele seguiu as mesmas políticas do antecessor”, disse.

Ela contou que, quando Mujica era ministro da Agricultura de Vázquez, morreu um companheiro tupamaro e ele chegou ao cemitério no momento em que os presentes criticavam a promoção de um militar denunciado como torturador. Quando Mujica se aproximou, todos fizeram silêncio. “Eu disse: ‘Sabe por que esse silêncio? Porque estamos falando de vocês, que promoveram um militar que nós denunciamos.’” Segundo Anahit, Mujica perguntou: “E você ainda acredita na justiça dos homens?”

A militante acha incongruente que Mujica se vista modestamente, viva de maneira simples em uma chácara pregando contra o consumo, mas incentive o investimento estrangeiro no Uruguai. Coautora de um livro com depoimentos de ex-presas políticas, chamado De la Desmemória al Desolvido [Da Desmemória ao Desesquecimento], ela também critica a mulher de Mujica por não aceitar falar do passado. “Com Lucía nunca pudemos trabalhar temas de memória. Ela sempre dizia: Não me encham o saco com isso.” O presidente chegou a defender prisão domiciliar para os poucos militares presos por crimes cometidos na ditadura porque já estão muito velhos.

No que Anahit vê como traição e o sociólogo Adolfo Garcé como pragmatismo, Roberto e Anabel, os vizinhos de Mujica, enxergam a capacidade de esquecer o passado em nome de um projeto. “Um dia Lucía me perguntou se eu podia levar El Viejo de madrugada na rodovia, no dia seguinte. Às 5h30 cheguei lá e ele já estava acordado. Ele me contou que ia à inauguração de uma safra de arroz de uns fazendeiros ligados à direita. Era deputado nessa época. E me disse: ‘Sabe o que é? Nessa inauguração vai muita gente, de donos de terra a peões, e eu agora sou um representante nacional.’” Roberto diz que não seria capaz de perdoar e por isso vê em Mujica uma qualidade superior.

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Tabaré Vázquez queria que Danilo Astori, seu ministro de Economia, fosse o candidato da Frente Ampla à sua sucessão. Mujica tinha sido o senador mais votado do partido, brigou e ganhou a indicação contra Astori (53% a 38%). A Frente Ampla abriga diversos partidos de esquerda e tenta contemplar a todos. O Movimento de Participação Popular (MPP), de Mujica, é o mais forte, mas compôs com Danilo Astori, do social-democrata Assembleia Uruguai, a chapa presidencial. Vázquez estava no Partido Socialista ao ser eleito, mas saiu em 2008 após ter vetado uma lei de descriminalização do aborto que havia sido aprovada pelo Legislativo. No fim de setembro, o Congresso estava prestes a aprovar legislação semelhante e Lucía Topolansky disse que Mujica não a vetará.

“Foi muito duro ir contra Tabaré Vázquez naquele momento”, diz a senadora Constanza Moreira. “Mas éramos muitos os que torcíamos pelo Mujica, uma opção mais à esquerda e menos tecnocrata.” Constanza diz que foi preciso convencer Mujica a candidatar-se. Ele achava que estava muito velho para disputar uma eleição. “Um dia estávamos no gabinete de Mujica, falando da política e das responsabilidades que recairiam sobre ele se fosse presidente, e ele falou que aquela era uma escolha trágica. Falamos sobre a incapacidade de decidir o próprio destino quando se é uma pessoa comprometida como ele”, disse Constanza.

Durante a campanha, Lucía fazia as vezes de secretária e assessora de imprensa. Os amigos ajudavam a selecionar com quem Mujica deveria falar ou não, depois de ter passado anos recebendo jornalistas não convidados na chácara. Dizia aos repórteres que, se não fosse eleito, não voltaria a ser senador, iria apenas dedicar-se a plantar acelgas. Ele fez uma campanha prometendo um governo mais alinhado ao ex-presidente Lula do que ao venezuelano Hugo Chávez. Lula, de quem é amigo, é seu modelo político. Apesar de tentar desvincular sua imagem de Chávez, também mantém boa relação com ele, e foi um dos apoiadores da entrada da Venezuela no Mercosul. Na eleição, Mujica recebeu 47,96% dos votos no primeiro turno e, no segundo, venceu Luis Lacalle com 1 197 638 votos, 52,39% do total.

Como os partidos são mais importantes que as personalidades no Uruguai, Vázquez volta a ser a opção lógica para a Frente Ampla em 2014 porque é a figura mais bem avaliada da coligação. A alternativa seria Daniel Astori, o vice de Mujica, responsável pela bem-sucedida política econômica do país. Os salários subiram 36,6% nos últimos sete anos, graças a um crescimento econômico médio de 6,4%. O desemprego bateu recorde mínimo neste ano: 5,3%. Agora 13,7% dos uruguaios vivem abaixo da linha da pobreza, uma redução de cinco pontos em um ano. Quase não há analfabetismo no Uruguai e todas as crianças estão na escola. Nenhum dos países do Mercosul tem indicadores sociais tão bons.

Ainda assim, as pesquisas de opinião mais recentes mostram que 39% dos uruguaios aprovam o governo de Mujica e 49% simpatizam com a figura do presidente. No início do governo, ele tinha quase 20% a mais de simpatia e aprovação. As brigas com a Argentina, a impressão de que o presidente divaga muito e executa pouco, índices crescentes de evasão escolar, a violência e a falência da Pluna – a única empresa aérea uruguaia, controlada pelo governo em parceria com um fundo argentino – são alguns dos motivos que explicam a queda.

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Na quinta-feira, um dia depois da morte de Pi Hugarte, houve uma manifestação em frente à chácara de Mujica – a primeira desde o início do governo. Seis sindicalistas esperavam ser recebidos pelo presidente para denunciar a demissão de 180 funcionários de uma empresa agrícola em plena colheita. No dia seguinte, uma sexta-feira, o Camino Colorado era vigiado por duas caminhonetes da polícia e um carro à paisana, além dos habituais guardas. Os sindicalistas acabaram desfazendo o acampamento, mas o dia terminou com a notícia da morte de outra amiga de Mujica, Lilí Lerena de Seregni, aos 96 anos. Ela era viúva do general Líber Seregni, fundador da Frente Ampla. Mujica compareceu ao quarto velório em dez dias. Em um deles, comentou com um servidor do cerimonial: “Melhor eu já ir embora, porque daqui a pouco aprendo o caminho…”

Mujica gosta de filosofar. É apaixonado por antropologia e botânica. Costuma falar à nação sobre a natureza humana e a “fragilidade da nossa casca civilizatória”. “As pessoas têm que ter em conta que estar vivo é um milagre. Viemos do silêncio mineral e voltaremos ao silêncio mineral”, disse recentemente. Explica ter escolhido ser pobre para ser rico, e sempre fala sobre a prisão que é pagar prestações para ter bens materiais. “Os velhos pensadores – Epicuro, Sêneca, inclusive os aimarás – definiam: pobre não é o que tem pouco, mas sim o que necessita infinitamente muito e deseja mais e mais”, discursou na Conferência Rio+20. É uma ironia que, no terreno onde ficava Punta Carretas, um dos presídios onde Mujica esteve, funcione hoje um shopping center.

Entre os nove antigos dirigentes tupamaros que eram considerados “reféns” durante a ditadura, diz-se que dois saíram mais debilitados da prisão, depois da Lei de Anistia: Pepe Mujica e Henry Engler. Engler chegou a ser diagnosticado com psicose delirante, mas em 2002 apresentou, em Estocolmo, na Conferência Mundial sobre o Alzheimer, o trabalho mais importante no estudo da doença desde que Alois Alzheimer a descobriu. Ele foi o primeiro a detectar no cérebro a proteína amiloide, que destrói os neurônios e causa a deterioração da memória.

Hoje com 65 anos e diretor do Centro Uruguayo de Imagenología Molecular, em Montevidéu, Engler respondeu por e-mail por que achava que ele e Mujica haviam chegado tão longe, depois de terem quase enlouquecido. “Na luta para superar a si mesmo, perdem-se os pensamentos de ódio e rancor e a solidariedade se transforma em uma forma de satisfação permanente. Creio que também se pode sobreviver pelo ódio, mas assim não se pode encontrar a felicidade”, disse. “Hoje somos loucos, mas loucos de sonhos.”

Perto do Natal do ano passado, Mujica visitou o hospital psiquiátrico Vilardebó e falou com os médicos e pacientes sobre seu momento de insanidade. Disse que, quando estava em um calabouço, ouvia ruídos, enlouqueceu. Atendido por uma psiquiatra, passou a receber uma quantidade de remédios que ele juntava e jogava fora. “Mas essa mulher me ajudou muito, porque conseguiu que me deixassem ler e escrever. Fazia anos que não lia nada nem podia escrever”, disse. Mujica contou que pediu livros de química para poder copiá-los e organizar os pensamentos. Assim recuperou a razão e pôde, ao sair em liberdade, voltar à política e chegar à Presidência: “E aqui estou, mais louco que antes.”



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Sobre a legalização da maconha no Uruguai, algumas leituras sugeridas:

NINJA: "O Uruguai se tornará o primeiro país do mundo a quebrar mais de um século de repressão ao consumo da erva.

Ao longo da história da humanidade, a busca e o consumo por substâncias que alteram a consciência foi uma constante. O marco regulatório que será aprovado no Uruguai rompe e rasga o consenso global de que o proibicionismo tem resultado positivo. Não tem.

Nesse momento, surge uma discussão fundamental: como substituir o modelo repressivo que não reduz o consumo, aumenta violência, deixa milhares de mortos e fortalece o crime organizado?

A lei uruguaia é inovadora em vários aspectos, porém parte de premissas já conhecidas e um tanto quanto óbvias para quem se debruça sobre a questão: a maconha é a droga ilegal mais consumida do planeta. É escolha de 80% dos cerca de 200 milhões de usuários de substâncias ilícitas. Os comprovados benefícios medicinais somados ao consenso científico que a maconha causa menos danos à saúde; menos até do que álcool e tabaco, criaram condições políticas para a proposta uruguaia se efetivar. Com políticas vanguardistas, desde os anos 70, o Uruguai não criminaliza ou prende usuários de drogas. 

O projeto de lei aprovado hoje prevê a criação de uma agência estatal para cadastrar e monitorar os fornecedores. Esses abastecerão farmácias de distribuição também controladas pelo Estado via ministério da saúde. Os usuários do Uruguai poderão cultivar até seis pés de maconha em casa. Cooperativas poderão agregar, no máximo, quarenta e cinco membros cada. O governo tem prometido forte investimento em campanhas de prevenção, educação e redução de danos.

Ao que parece, o Uruguai está agindo com responsabilidade e enfrentando os reais problemas causados pelo proibicionismo: aumento vertiginoso da violência e crescimento do consumo. É inerente ao ser humano ser curioso com aquilo que é proibido. Segundo dados oficiais do governo, estima-se que 120 mil pessoas fumaram maconha no ano passado no Uruguai. Para atender ao consumo médio deste mercado interno, o governo projeta produzir 20 toneladas da droga por ano, que não será acessível a turistas e não-residentes. 

Não trata-se de uma medida populista. Pesquisas de opinião mostram que o projeto de regulação é rejeitado por 63% da população. Mujica quer diminuir o poder do narcotráfico e ‘peitou’ a opinião dos uruguaios para evitar preocupações futuras com a criminalidade. O Uruguai não é um país violento, mas as taxas têm aumentado ano a ano.

Enquanto isso, a política sobre drogas no Brasil é atrasada e pode sofrer retrocessos com o PLC 37-2013 atualmente em discussão no Senado, que mantém a criminalização do consumo, formaliza a internação involuntária de usuários e ignora as evidências científicas sobre o tema. A medida uruguaia tem tudo para impulsionar o debate e incendiar o congresso brasileiro.

Nossos hermanos estão mostrando que, sem valentia, não se resolve problemas de escala nacional. Clap, clap, Uruguai; finalmente, a planta está livre."

Yahoo Notícias: "Mujica teve a coragem de enfrentar o problema real da proibição das drogas: o tráfico. Mais que isso, teve peito de enfrentar o principal óbice que joga uma cortina de fumaça à questão: o moralismo, que é o ninho gestacional do proibicionismo. (...) A lei que legaliza a maconha no Uruguai vem em boa hora apesar do atraso. Servirá, sobretudo, pra desnudar o discurso proibicionista e seu espelho mor: o moralismo autoritário. Em tempos sombrios, isso já é mais que suficiente para saudar a corajosa atitude do presidente Mujica."

CNN.com: "Doing the same thing over and over again and expecting different results is insanity, and Uruguay knows this. For 40 years, marijuana prohibition simply hasn't worked. Billions of dollars have been spent on repression, but marijuana use has only gone up -- along with the number of lives lost to failed policies. The tens of thousands who have died in Mexico's drug war -- estimates in 2012 ranged from 60,000 to 70,000 over six years -- Central America's globally high homicide rates and the United States' racially driven mass incarceration are but a few examples of the human cost of the war on drugs. But rather than closing their eyes to the continuing problem of drug abuse and drug trafficking, Uruguay's leaders have chosen responsible regulation of an existing reality..."