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quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Michael Löwy oferece um balanço social, ecológico e político do Movimento Passe Livre!

Protesto do movimento Passe Livre, na Rodoviária Central de Brasília, em 19 de Junho de 2013, pedindo tarifa zero para o transporte público e criticando os gastos públicos com a Copa da FIFA. Fotógrafo: Dida Sampaio / Estadão.






Michael Löwy:

"Como todos sabem, foi a luta do Movimento Passe Livre (MPL), movimento a favor dos transportes públicos gratuitos e mobilizado contra o aumento da passagem do ônibus, que desencadeou a ampla e impressionante mobilização popular no Brasil em junho passado, colocando centenas de milhares de pessoas, se não milhões, nas ruas das principais cidades do país. Quais lições podemos tirar dessa experiência e qual é o alcance social, ecológico e político da luta pelo transporte gratuito?

O MPL foi criado em janeiro de 2005, por ocasião do Fórum Social Mundial em Porto Alegre, como uma rede federativa de coletivos locais. Esses coletivos já existiam havia alguns anos e haviam travado lutas importantes, como a de Salvador, em 2003, contra o aumento da passagem de ônibus. A carta de princípios do MPL (revista e completada em 2007 e 2013) define o movimento como “um movimento horizontal, autônomo, independente, não partidário, mas não antipartidos”.

A horizontalidade é, sem dúvida, a expressão de um modo de proceder libertário, que desconfia das estruturas e das instituições “verticais” e “centralizadas”. A autonomia em relação aos partidos significa a recusa de ser instrumentalizado por estes últimos, mas o movimento não rejeita a colaboração e a ação comum com organizações políticas, em especial da esquerda radical. Assim, coopera com associações de bairros populares, movimentos pelo direito à moradia, redes de luta pela saúde e certos sindicatos (metroviários, professores). Vê no transporte gratuito não um fim em si, mas “um meio para a construção de uma sociedade diferente”.



Pequena, a rede nunca passou de algumas centenas de militantes, enraizados primeiro nas escolas de ensino médio e mais tarde em certos bairros populares. De sensibilidade anticapitalista libertária, os ativistas têm diferentes origens políticas: trotskistas, anarquistas, altermundialistas, neozapatistas; com uma pontinha de humor, alguns se definem como “anarcomarxistas punks”. 

Em novembro de 2013, graças ao apoio financeiro da filial brasileira da Fundação Rosa Luxemburgo, o MPL realizou pela primeira vez desde sua criação uma Conferência Nacional em Brasília, com a participação 150 delegados, representando 14 coletivos locais. Algumas resoluções foram adotadas, por consenso, e um grupo de trabalho, composto por representantes dos coletivos, foi encarregado de coordenar as iniciativas, respeitando a autonomia local e a “horizontalidade”. (Obtivemos essas informações graças a dois encontros com militantes do MPL em São Paulo, em novembro de 2013.)

O método da luta do MPL também tem inspiração libertária: a ação direta na rua, frequentemente lúdica e “isolante”, ao invés da “negociação” ou do “diálogo” com as autoridades. Os militantes não fetichizam nem a violência nem a não violência; uma de suas ações típicas é o bloqueio de ruas, ao som de música, ateando fogo a pneus e “catracas”. O símbolo do MPL é uma catraca em fogo… Devo lembrar que o transporte comum, que originalmente era um serviço público, foi privatizado em todas as cidades do país, e é de responsabilidade de empresas capitalistas de hábitos mafiosos. No entanto, os prefeitos das cidades têm o controle dos preços das passagens.

A inteligência tática do MPL foi ter estabelecido, em primeiro lugar, um objetivo concreto e imediato: contra o aumento das passagens decidido pelas autoridades locais nas principais cidades do país, tanto as administradas pela centro-direita quanto pela centro-esquerda (o PT, que se tornou social-liberal). Rejeitando os argumentos pretensamente “técnicos” e “racionais” das autoridades, o MPL mobilizou milhares de manifestantes, duramente reprimidos pela polícia. Esses manifestantes se transformaram em dezenas de milhares e, depois, em milhões (à custa, é verdade, de certa diluição política), e os poderes locais foram obrigados a, precipitadamente, revogar os aumentos. Primeira lição importante: a luta compensa, é possível ganhar e dobrar as autoridades “responsáveis”!

Ao mesmo tempo que travava esse combate prático e urgente, o MPL não deixou um só instante de agitar seu objetivo estratégico: tarifa zero, transporte público gratuito. Para isso, observa a Carte de Princípios, é necessário “retirar o transporte comum do setor privado, pondo-o sob o controle dos trabalhadores e da população”. É o que os militantes do MPL denominam “perspectiva classista” do seu combate. Trata-se de uma exigência de justiça social elementar: o preço do transporte é proibitivo para as camadas mais pobres da população, que vivem na periferia degradada das grandes cidades e dependem dos transportes comuns para trabalhar ou estudar. Essa é uma reivindicação que interessa diretamente aos jovens, aos trabalhadores, às mulheres, aos moradores das favelas, isto é, à grande maioria da população urbana.

Mas a tarifa zero é também uma demanda profundamente subversiva e antissistêmica, dentro do espírito do que poderíamos chamar de método do programa de transição. Como observa a Carta de Princípios do MPL, “nossas demandas ultrapassam os limites do capitalismo e põem em questão a ordem existente”. Ela é um belo exemplo do que o filósofo marxista Ernst Bloch chamava de uma utopia concreta. É claro que há cidades, tanto no Brasil como na Europa, em que essa proposta pode ser realizada. Numerosos estudos especializados demonstraram que é perfeitamente possível colocá-la em prática sem sobrecarregar o orçamento das administrações locais. A verdade, no entanto, é que a gratuidade é um princípio revolucionário, que vai ao arrepio da lógica capitalista, pela qual tudo deve ser mercadoria; portanto, é um conceito intolerável, inaceitável e absurdo para a racionalidade mercantil do sistema. Ainda mais que, como propõe o MPL, a gratuidade dos transportes é um precedente que pode abrir o caminho para a gratuidade de outros serviços públicos, como educação, saúde etc. De fato, a gratuidade é a prefiguração de uma sociedade diferente, baseada em valores e regras diferentes daquelas do mercado e do lucro capitalistas. Daí a resistência obstinada das “autoridades”, sejam elas conservadoras, neoliberais, “reformadoras”, centristas ou sociais-liberais.

Há ainda outra dimensão da reivindicação do transporte gratuito, que por enquanto não foi suficientemente alegada pelo MPL (mas começa a ser levada em consideração): o aspecto ecológico. O sistema atual, totalmente irracional, de desenvolvimento ilimitado do carro individual, é um desastre tanto do ponto de vista da saúde dos habitantes das grandes cidades – milhares de mortes são causadas pela poluição do ar, diretamente provocada pelo escapamento dos veículos – quanto do ponto de vista do meio ambiente. Como se sabe, o carro é um dos principais emissores de gás de efeito estufa, responsável pela catástrofe ecológica que são as mudanças climáticas. O carro é, desde o fordismo até hoje, a principal mercadoria do sistema capitalista mundial; consequentemente, as cidades são inteiramente organizadas em função da circulação automobilística. Ora, todos os estudos mostram que um sistema de transportes coletivos eficaz, extenso e gratuito, permitiria uma redução significativa do uso do carro individual. O que está em jogo não é somente a tarifa do ônibus ou do metrô, mas outro modo de vida urbana, simplesmente outro modo de vida.

Em resumo, a luta pelo transporte público gratuito é ao mesmo tempo uma luta pela justiça social, pelo interesse material dos jovens e dos trabalhadores, pelo princípio da gratuidade, pela saúde pública, pela defesa dos equilíbrios ecológicos. Ela permite formar amplas coalizões e abrir brechas na irracionalidade do sistema mercantil. Nós temos muito que aprender com o MPL…

Via Blog da Boitempo Editorial:






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Confira também as imagens que o Depredando colheu da luta em Goiânia:


quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

10 fatos chocantes sobre os EUA... "It's called The American Dream because you have to be asleep to believe it." - George Carlin)

Sonho americano? 
Conheça 10 fatos chocantes sobre os EUA

Maior população prisional do mundo, pobreza infantil acima dos 22%, nenhum subsídio de maternidade, graves carências no acesso à saúde… bem-vindos ao “paraíso americano” @ Revista Fórum: http://bit.ly/IKaUpm

Os EUA costumam se revelar ao mundo como os grandes defensores das liberdades, como a nação com a melhor qualidade de vida do planeta e que nada é melhor do que o “american way of life” (o modo de vida americano). A realidade, no entanto, é outra. Os EUA também têm telhado de vidro como a maioria dos países, a diferença é que as informações são constantemente camufladas. Confira abaixo 10 fatos pouco abordados pela mídia ocidental.

1. Maior população prisional do mundo

Elevando-se desde os anos 80, a surreal taxa de encarceramento dos EUA é um negócio e um instrumento de controle social: à medida que o negócio das prisões privadas alastra-se como uma gangrena, uma nova categoria de milionários consolida seu poder político. Os donos destas carcerárias são também, na prática, donos de escravos, que trabalham nas fábricas do interior das prisões por salários inferiores a 50 cents por hora. Este trabalho escravo é tão competitivo, que muitos municípios hoje sobrevivem financeiramente graças às suas próprias prisões, aprovando simultaneamente leis que vulgarizam sentenças de até 15 anos de prisão por crimes menores como roubar chicletes. O alvo destas leis draconianas são os mais pobres, mas, sobretudo, os negros, que representando apenas 13% da população norte-americana, compõem 40% da população prisional do país.

2. 22% das crianças americanas vive abaixo do limiar da pobreza.

Calcula-se que cerca de 16 milhões de crianças norte-americanas vivam sem “segurança alimentar”, ou seja, em famílias sem capacidade econômica para satisfazer os requisitos nutricionais mínimos de uma dieta saudável. As estatísticas provam que estas crianças têm piores resultados escolares, aceitam piores empregos, não vão à universidade e têm uma maior probabilidade de, quando adultos, serem presos.

3. Entre 1890 e 2012, os EUA invadiram ou bombardearam 149 países.

O número de países nos quais os EUA intervieram militarmente é maior do que aqueles em que ainda não o fizeram. Números conservadores apontam para mais de oito milhões de mortes causadas pelo país só no século XX. Por trás desta lista, escondem-se centenas de outras operações secretas, golpes de Estado e patrocínio de ditadores e grupos terroristas. Segundo Obama, recipiente do Nobel da Paz, os EUA conduzem neste momento mais de 70 operações militares secretas em vários países do mundo.

O mesmo presidente criou o maior orçamento militar norte-americano desde a Segunda Guerra Mundial, superando de longe George W. Bush.

4. Os EUA são o único país da OCDE que não oferece qualquer tipo de subsídio de maternidade.

Embora estes números variem de acordo com o Estado e dependam dos contratos redigidos por cada empresa, é prática corrente que as mulheres norte-americanas não tenham direito a nenhum dia pago antes ou depois de dar à luz. Em muitos casos, não existe sequer a possibilidade de tirar baixa sem vencimento. Quase todos os países do mundo oferecem entre 12 e 50 semanas pagas em licença maternidade. Neste aspecto, os Estados Unidos fazem companhia à Papua Nova Guiné e à Suazilândia.

5. 125 norte-americanos morrem todos os dias por não poderem pagar qualquer tipo de plano de saúde.

Se não tiver seguro de saúde (como 50 milhões de norte-americanos não têm), então há boas razões para temer ainda mais a ambulância e os cuidados de saúde que o governo presta. Viagens de ambulância custam em média o equivalente a 1300 reais e a estadia num hospital público mais de 500 reais por noite. Para a maioria das operações cirúrgicas (que chegam à casa das dezenas de milhar), é bom que possa pagar um seguro de saúde privado. Caso contrário, a América é a terra das oportunidades e, como o nome indica, terá a oportunidade de se endividar e também a oportunidade de ficar em casa, torcendo para não morrer.


6. Os EUA foram fundados sobre o genocídio de 10 milhões de nativos. Só entre 1940 e 1980, 40% de todas as mulheres em reservas índias foram esterilizadas contra sua vontade pelo governo norte-americano.

Esqueçam a história do Dia de Ação de Graças com índios e colonos partilhando placidamente o mesmo peru em torno da mesma mesa. A História dos Estados Unidos começa no programa de erradicação dos índios. Tendo em conta as restrições atuais à imigração ilegal, ninguém diria que os fundadores deste país foram eles mesmos imigrantes ilegais, que vieram sem o consentimento dos que já viviam na América. Durante dois séculos, os índios foram perseguidos e assassinados, despojados de tudo e empurrados para minúsculas reservas de terras inférteis, em lixeiras nucleares e sobre solos contaminados. Em pleno século XX, os EUA iniciaram um plano de esterilização forçada de mulheres índias, pedindo-lhes para colocar uma cruz num formulário escrito em idioma que não compreendiam, ameaçando-as com o corte de subsídios caso não consentissem ou, simplesmente, recusando-lhes acesso a maternidades e hospitais. Mas que ninguém se espante, os EUA foram o primeiro país do mundo oficializar esterilizações forçadas como parte de um programa de eugenia, inicialmente contra pessoas portadoras de deficiência e, mais tarde, contra negros e índios.

7. Todos os imigrantes são obrigados a jurarem não ser comunistas para poder viver nos EUA.

Além de ter que jurar não ser um agente secreto nem um criminoso de guerra nazi, vão lhe perguntar se é, ou alguma vez foi membro do Partido Comunista, se tem simpatias anarquistas ou se defende intelectualmente alguma organização considerada terrorista. Se responder que sim a qualquer destas perguntas, será automaticamente negado o direito de viver e trabalhar nos EUA por “prova de fraco carácter moral”.

8. O preço médio de uma licenciatura numa universidade pública é 80 mil dólares.

O ensino superior é uma autêntica mina de ouro para os banqueiros. Virtualmente, todos os estudantes têm dívidas astronômicas, que, acrescidas de juros, levarão, em média, 15 anos para pagar. Durante esse período, os alunos tornam-se servos dos bancos e das suas dívidas, sendo muitas vezes forçados a contrair novos empréstimos para pagar os antigos e assim sobreviver. O sistema de servidão completa-se com a liberdade dos bancos de vender e comprar as dívidas dos alunos a seu bel prazer, sem o consentimento ou sequer o conhecimento do devedor. Num dia, deve-se dinheiro a um banco com uma taxa de juros e, no dia seguinte, pode-se dever dinheiro a um banco diferente com nova e mais elevada taxa de juro. Entre 1999 e 2012, a dívida total dos estudantes norte-americanos cresceu à marca dos 1,5 trilhões de dólares, elevando-se assustadores 500%.

9. Os EUA são o país do mundo com mais armas: para cada dez norte-americanos, há nove armas de fogo.

Não é de se espantar que os EUA levem o primeiro lugar na lista dos países com a maior coleção de armas. O que surpreende é a comparação com outras partes do mundo: no restante do planeta, há uma arma para cada dez pessoas. Nos Estados Unidos, nove para cada dez. Nos EUA podemos encontrar 5% de todas as pessoas do mundo e 30% de todas as armas, algo em torno de 275 milhões. Esta estatística tende a se elevar, já que os norte-americanos compram mais de metade de todas as armas fabricadas no mundo.

10. Há mais norte-americanos que acreditam no Diabo do que os que acreditam em Darwin.

A maioria dos norte-americanos são céticos. Pelo menos no que toca à teoria da evolução, já que apenas 40% dos norte-americanos acreditam nela. Já a existência de Satanás e do inferno soa perfeitamente plausível a mais de 60% dos norte-americanos. Esta radicalidade religiosa explica as “conversas diárias” do ex-presidente Bush com Deus e mesmo os comentários do ex-pré-candidato republicano Rick Santorum, que acusou acadêmicos norte-americanos de serem controlados por Satã.

http://revistaforum.com.br/blog/2013/12/sonho-americano-conheca-10-fatos-chocantes-sobre-os-eua/

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Depredando o Neoliberalismo - Parte II: O Público Que Vai Privada Abaixo... (Refletindo com Foucault, Todorov, Bourdieu, Arendt, Viveiros de Castro...)



O NEOLIBERALISMO E A PRIVATIZAÇÃO GENERALIZADA
DOS SERVIÇOS PÚBLICOS


É bem conhecido o estratagema ideológico de mascarar realidades espúrias detrás de belas palavras de tonalidade positiva: ao invés de falar em demissões em massa, fala-se em “reestruração das empresas”; para não se referir aos brutais cortes de recursos destinados aos serviços públicos essenciais, refere-se à “redução dos gastos sociais”; para justificar as cada vez mais célebres “medidas de austeridade”, que sufocam atualmente as populações de países como a Espanha e a Grécia, fala-se na necessidade de “manter a confiança dos investidores”. São alguns dos muitos exemplos desta “retórica eufemística que corre hoje nos mercados financeiros” (BORDIEU: 1998, p. 65) e domina o dialeto economiquês. O uso que o neoliberalismo faz da palavra “Liberdade” também fede a abuso, o que Todorov soube bem destrinchar em sua obra mais recente: “Não sabemos que os tiranos do passado invocavam regularmente a liberdade? (…) Somos verdadeiramente a favor de toda liberdade, incondicionalmente, inclusive a da raposa no galinheiro?” (TODOROV)

Através de discursos repletos de eufemismos e termos técnicos, que escondem realidades sujas, os apologistas do neoliberalismo põe a “estabilidade dos mercados financeiros” em uma posição privilegiada em relação às necessidades mais urgentes das populações. O que ocorre de fato sob a vigência do neoliberalismo é a “privatização generalizada dos serviços públicos, a redução das despesas públicas e sociais, (…) o agravamento extraordinário das diferenças entre as rendas, o desaparecimento progressivo dos universos autônomos de produção cultural em virtude da intrusão crescente das considerações comerciais...” (BOURDIEU: Contrafogos 1, p. 143)

Será que não estaria em jogo, com o termo “globalização”, um procedimento semelhante de eufemismo, mascaramento e enganação? Não estaríamos diante de um processo que consiste em “unificar para melhor dominar”, como diz Bourdieu? Afinal de contas, esta tal de globalização será algo além do processo de imposição das doutrinas neoliberais em escala planetária? Não esconderá uma divisão internacional do trabalho que prossegue, tal qual nos dias do colonialismo, a favorecer os países capitalistas avançados em detrimento dos países por eles explorados? “Em suma”, afirma Bordieu, “a globalização não é uma homogeneização, mas, ao contrário, é a extensão do domínio de um pequeno número de nações dominantes sobre o conjunto das praças financeiras nacionais.” (BOURDIEU, idem, p. 54).

“'Globalização é uma palavra que, funcional como uma senha e uma palavra de ordem, é com efeito a máscara justificadora de uma política que visa universalizar os interesses e a tradição particular das potências econômica e politicamente dominantes, sobretudo os Estados Unidos, e estender ao conjunto do mundo o modelo econômico e cultural mais favorável a essas potências apresentando-o ao mesmo tempo como norma, um tem-que-ser e um fatalismo, destino universal, de modo a obter a adesão ou, pelo menos, resignação universais. (…) A globalização econômica é o produto de uma política implementada para fins específicos, a saber, a liberalização do comércio (trade liberalization), isto é, a eliminação de todas as regulações nacionais que freiam as empresas e seus investimentos. (…) Assim, nas economias emergentes, o desaparecimento das proteções destina à ruína as empresas nacionais e, para países como a Coréia do Sul, a Tailândia, a Indonésia ou o Brasil, a supressão de todos os obstáculos ao investimento estrangeiro acarreta a ruína das empresas locais, adquiridas frequentemente por preços ridículos pelas multinacionais. (…) As diretrizes da OMC sobre as políticas de concorrência e de mercado público teriam por efeito, ao instaurar uma concorrência 'de armas iguais' entre as grandes multinacionais e os pequenos produtores nacionais, provocar o desaparecimento maciço destes últimos.” (BOURDIEU: 2001, pg. 90 e 101-102.)
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PRIVATIZAÇÕES & ESTADO POLICIAL

“Há hoje um sentimento amplamente difundido na Esquerda de que o neoliberalismo efetivamente enfraqueceu o poder do Estado nas sociedades ocidentais modernas, e que é chegada a hora de abandonarmos a postura antiestatista e antitotalitarista associada à crítica do stalinismo e ao autonomismo utópico dos anos 60 e 70. Enfim, é tempo de constatarmos, com não pequeno constrangimento, que talvez tenhamos sido cúmplices do Mercado em sua luta para diminuir e subjugar o Estado, última barreira protetora dos direitos do povo contra a sanha do Capital. (…) Não posso deixar de dizer que não acredito nem um pouquinho nisso. A ideia de que o capitalismo globalizado acarretou uma diminuição do poder do Estado parece-me inverossímil. À parte o fato de que foi e continua a ser preciso um gigantesco aparelho regulador e interventor, administrado pelo Estado, para produzir a 'desregulação da economia', jamais o Estado esteve tão presente, tão perto da vida cotidiana. A Grã-Bretanha, por exemplo, com suas câmeras de vigilância penduradas por toda parte, seus agentes secretos infiltrados nos movimentos civis, sua polícia neo-orwelliana, transformou-se em um espaço de autoespionagem universal e perpétua; nos EUA, a Guerra contra o Terror justificou uma invasão dos espaços privados e uma violação das liberdades públicas como jamais se viu na história das democracias modernas, o que tornou a paranóia o modo de produção dominante da subjetividade nativa. E no mundo inteiro, vemos o aparelho jurídico-policial dos Estados nacionais prestando seu apoio solícito aos esforços das corporações transnacionais para cercar definitivamente os commons da noosfera e esmagar com a máxima violência qualquer resistência à bioeconomia política do Capital.” (VIVEIROS DE CASTRO: Posfácio à Arqueologia da Violência, de Pierre Clastres, 2004, p. 325)

Michel Foucault, que investigou o
neoliberalismo em "O Nascimento
da Biopolítica"
(1979)
Uma certa “fobia ao Estado” parece animar as doutrinas liberais e similares, como sugere Foucault: “o que é posto em questão atualmente e a partir de horizontes extremamente numerosos é quase sempre o Estado: o Estado e seu crescimento sem fim, o Estado e sua onipresença, o Estado e seu desenvolvimento burocrático, o Estado com os germes de fascismo que ele comporta, o Estado e sua violência intrínseca sob seu paternalismo providencial.” (FOUCAULT: 2008, p. 259) Os espectros temíveis dos Estados totalitários do século XX – como a Alemanha do III Reich e a União Soviética sob Stalin estariam na raiz dessa “guinada neoliberal”?

Foucault esclarece que o totalitarismo não lhe parece decorrer de uma “elefantíase” do Estado, mas sim do Partido: “esse Estado que podemos dizer totalitário, longe de ser caracterizado pela intensificação e pela extensão endógenas dos mecanismos de Estado, (…) constitui, ao contrário, uma atenuação, uma subordinação da autonomia do Estado, em relação a algo diferente: o partido. (…) É essa governamentalidade de partido que está na origem histórica de algo como os regimes totalitaristas, de algo como o nazismo, como o fascismo, como o stalinismo.” (idem, p. 264)

O totalitarismo, pois, equivaleria a um “sequestro” do Estado por um partido que pretende reinar sem oposição - donde os “expurgos” do stalinismo, com tantos opositores enviados às gulags, e a tentativa do Partido Nazi alemão de impor a “purificação racial” através do genocídio sistemático. O totalitarismo como imposição de uma homogeneidade a uma massa, como máquina de varrer gente para fora do território com a terrível vassoura da limpeza étnica, a imposição da morte em escala industrial através de “conquistas tecnológicas” como as câmeras-de-gás que vomitam Zyklon B...

Já o avanço da aplicação de medidas neoliberais dá a impressão de que o Estado estaria cada vez mais limitado em sua esfera de ação: tudo o que um dia foi público vai passando por um inexorável processo de privatização. Outrora responsável por serviços essenciais à população nas áreas de saúde, alimentação, moradia e transportes, o Estado privatizador que o neo-liberalismo prega como ideal tende a conservar apenas funções policiais e militares, como se sua função fosse somente a defesa, a vigilância, a segurança. Nisto, este Estado é fidelíssimo à tradição política burguesa que, segundo Hannah Arendt, “sempre considerou instituições políticas exclusivamente como um instrumento para a proteção da propriedade individual” (The Origins of Totalitarianism, p. 199).

“A filosofia neoliberal pretende apagar todos os vestígios do Estado social como obstáculos ao funcionamento harmonioso dos mercados” (BOURDIEU: 1998, p. 84). O neoliberalismo, com sua sanha de privatizações, procura “enxugar” cada vez mais aquelas funções estatais típicas do welfare state e realiza um “corte, absolutamente injustificável, entre o econômico e o social, que define o economicismo” (idem, p. 70). “O programa neoliberal tende assim a favorecer globalmente a ruptura entre a economia e as realidades sociais.” (idem, p. 138).

Defender o Estado, diz Bourdieu, não equivale a ser reacionário, defensor de um arcaísmo: o Estado, “depositário de todos os valores universais associados à ideia de público(idem, p. 145), têm agido “rebaixando sua dignidade estatutária ao multiplicar as reverências diante dos patrões de multinacionais, ou ao competir com sorrisos e acenos coniventes diante dos Bill Gates...” (idem, p. 145)

O Estado, segundo a interpretação de Bourdieu, possui duas mãos: a esquerda, devotada às necessidades sociais como habitação, saúde, educação, e a direita, onde concentra-se a burocracia, a polícia, o exército. Nos EUA, por exemplo, é fácil constatar que a “mão direita” do Estado cresceu desproporcionalmente, enquanto a mão esquerda foi sendo vendida, sucateada, privatizada, relegada a um status secundário, transformada em mercadoria. O Público foi privada abaixo.


País de recordes, alguns deles não tão “gloriosos” quanto aqueles que decoram os Guiness Books que os americanos adoram consumir, os EUA não é somente o maior poluidor atmosférico, o mais sedento consumidor de petróleo e a nação do planeta com o mais alto orçamento militar (“600 bilhões de dólares por ano”, segundo Todorov [2012: pg. 69]). Em 2008, como relata Ziegler, “pela primeira vez na História as defesas com armamento dos países membros da ONU ultrapassaram um trilhão de dólares por ano. Os Estados Unidos gastaram com armas 41% desse montante (a China, segunda potência militar mundial, 11%).” (ZIEGLER: 2011, p. 12).

Este imenso poderio militar é posto em ação em cruzadas no exterior, justificadas como guerras de legítima defesa (como a do Afeganistão, que seria uma retaliação contra o atentado do 11 de Setembro) e “guerras preventivas” (como a do Iraque, que supostamente livraria o mundo de um regime que abrigava armas em destruição em massa...). “Os valores democráticos, brandidos pelos países ocidentais como motivo da intervenção, foram percebidos, pela população de outros países, como a confortável camuflagem de intenções inconfessáveis.” (TODOROV: 2012, p. 63).

 É nos Estados Unidos, que possui 5% da população mundial, que se concentra a maior população carcerária, cerca de 25% de todos os encarcerados da Terra, o que denota “um Estado repressor, policialesco”: “No estado da Califórnia, um dos mais ricos dos EUA, o orçamento das prisões é superior, desde 1994, ao orçamento de todas as universidades reunidas. Os negros do gueto de Chicago só conhecem, do Estado, o policial, o juiz, o carcereiro e o parole officer...” (BORDIEU: 1998, p. 46)

O fato do cowboy from hell George W. Bush ter podido apontar o presidente da Goldman Sachs, Hank Paulson, um dos mais bem-pagos CEOs de Wall Street, como seu Ministro do Tesouro, em 2006, é bem sintomático da infiltração insidiosa e disseminada do big business no próprio coração do capitalismo neoliberal. Um sistema que, longe de globalizar o acesso gratuito e universal à alimentação, à saúde e à educação, é “globalizador” de sua tara economicista e de sua mania obsessiva de concentrar riqueza e produzir miséria.

Dois anos depois da Goldman Sachs ganhar da bandeja de Bush o Tesouro, uma crise monumental estoura nos EUA de 2008: falências colossais (como da Lehman Brothers e da Merryll-Lynch, esta última comprada pelo Bank of America...) e símbolos do capitalismo americano indo à beira da falência (a General Motors quase vai à bancarrota, só sobrevivendo com os bilhões pagos pelo Salvador, o Estado que gere o dinheiro recolhido dos taxpayers...).

A inescrupulosidade, ineficiência e a irresponsabilidade do capitalismo comercial corporativo causou grave crise social e os responsáveis pelo desastre, ao invés da cadeia ou da demissão, prosseguiram com suas fortunas intactas:“The men who destroyed their own companies and plunged the world into crisis walked away from the wreckage with their fortunes intact” (Inside Job, documentário de Charles Ferguson). O Estado, nesse caso, serviu como aquele que tira do povo (pobres dos cidadãos, cujo suado dinheirinho foi todo transferido para o “salvamento” urgencial da Merryll-Lynch e da GM...) e entregue logo aos capitalistas que causaram a desgraça.

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