sexta-feira, 16 de setembro de 2011

<<< Regina Spektor: God can be so hilarious!... >>>

         
"‎No one laughs at God in a hospital. No one laughs at God in a war. No one's laughing at God when they're starving or freezing or so very poor. 
(...) No one laughs at God when the cops knock on their door and they say, "We've got some bad news, sir" No one's laughing at God when there's a famine, fire or flood.
God can be funny. At a cocktail party while listening to a good God-themed joke. Or when the crazies say he hates us and they get so red in the head you think that they're about to choke.
God can be funny. When told he'll give you money if you just pray the right way. And when presented like a genie, who does magic like Houdini. Or grants wishes like Jiminy Cricket and Santa Claus.
God can be so hilarious! (Ha ha)"
REGINA SPEKTOR




"Não há ateus a bordo de aviões turbulentos", reflete a protagonista do romance Medo de Voar, de Erica Jong. Quando bate aquele pavor de que o avião esteja caindo, prestes a se espatifar no chão; quando dispara a taquicardia e suspeitamos que estes podem ser os últimos momentos de nossas vidas; quando a catástrofe parece não só possível, mas próxima e irremediável; então parece haver um mecanismo psicológico que entra em funcionamento quase que à nossa revelia: e nos pegamos orando, em nossa impotência, para que forças maiores nos resgatem da enrascada. Isto me diz muito sobre a religião e das "fontes psíquicas" de onde ela jorra, de dentro do homem, o único animal religioso dentre as milhões de espécies que existem: a angústia, o temor e a esperança são o útero de todos os deuses. Talvez John Lennon tivesse isto em mente quando cantou: "God is a concept by which we measure our pain" [Deus é um conceito através do qual medimos nossa dor].

A Regina Spektor, nesta instigante composição "Laughing With", soube unir uma meditação profunda sobre a religiosidade humana com um "tempero" lúdico-brincalhão que lhe é tão característico. Esta linda canção, me parece, retrata situações "desgraceira" onde os terráqueos têm a tendência de levarem a sério a idéia de Deus: no hospital ou em meio à guerra; quando há gente faminta, incêndios ou dilúvios; quando os elementos da natureza, em fúria, ameaçam nos destruir com seus terremotos ou tsunamis... Ninguém ri de Deus em situações assim. O problema é que... bem, levar a idéia de Deus demasiado a sério é o que conhecemos por fanatismo, dogmatismo, xiitismo - algo que está na raiz de muitos dos problemas mais sérios que a humanidade enfrenta, há milênios. Vejam, por exemplo, o que diz o escritor israelense Amós Oz em seu excelente livrinho Contra O Fanatismo:

"O fanatismo é mais antigo que o Islã, mais velho que o Cristianismo, que o Judaísmo, que qualquer estado, governo ou sistema político, que qualquer ideologia ou fé no mundo. (…) O fanatismo é, com frequência, intimamente relacionado a uma atmosfera de desespero profundo. Num lugar em que as pessoas sintam que não há nada além de derrota, humilhação e indignidade, podem recorrer a várias formas de violência desesperada.” (…) ”O fanatismo está em quase todos os lugares, e suas formas mais silenciosas, mais civilizadas, estão presentes em nosso entorno, e talvez dentro de nós também. Conheço bem os antitabagistas que o queimarão vivo, se você acender um cigarro perto deles! Conheço bem os vegetarianos que o comerão vivo por comer carne! Conheço bem os pacifistas dispostos a atirar na minha cabeça só porque advogo uma estratégia ligeiramente diferente sobre como fazer a paz com os palestinos. (…) A semente do fanatismo brota ao se adotar uma atitude de superioridade moral que não busca o compromisso.”
Se gosto tanto de Regina Spektor, e dessa música em particular, é não somente pela doçura e pela inteligência de que as canções dela estão repletas, mas também porque ela sabe utilizar o senso-de-humor, a brincadeira poética, o jogo-de-palavras, a onomatopéia e muito mais de modo altamente expressivo, numa atitude totalmente anti-dogmática e anti-fanática, que conduz à reflexão e ao riso sem jamais apelar para qualquer tipo de "pregação". Em "Laughing With", Regina nos convida a ver o lado "cômico" da idéia de Deus: "when presented like a genie, who does magic like Houdini" [quando apresentado como um gênio-da-lâmpada, que faz truques-de-mágica como Houdini], Deus pode ser engraçado. Também é hilário quando é descrito como um Bom Velhinho de barbas brancas sentando nas nuvens e que presenteia nossas preces como se fosse um Papai Noel. "Deus pode ser hilário!", canta Regina. Mas são os delírios da imaginação humana ao imaginá-lo que são tão divertidos. 


Uma das coisas de que o mundo mais precisa, me parece, é de gente tirando sarro da religião, cobrindo de cachota os dogmas e as bulas papais, demonstrando que a pose de "gravidade" das autoridades eclesiásticas não passa de algo meio ridículo e meio obsceno. Quantas guerras e massacres religiosos, quantas Inquisições e Cruzadas, quantos jihads e atentados terroristas e homens-bomba e kamizakes, e só porque leva-se muito a sério a idéia de Deus a ponto de uma seita dizer a outra: "Se você não acredita no meu deus, hei de te cobrir de porrada, de te lançar na fogueira, de queimar todas as estátuas e edifícios da tua civilização!" E não conheço remédio mais eficaz contra os xiitas do que a comédia (ainda que haja o risco da represália truculenta xiita, como ocorreu com aquele chargista dinamarquês que "profanou" a imagem de Maomé...). Gosto do "espírito" de Woody Allen quando diz, por exemplo: "Ah, se Deus pelo menos me desse um simples sinal de sua existência, como abrir uma poupança no meu nome num banco suíço!" Ou o "espírito" das tirinhas do Laerte. Ou aquele da canção do Dieguito de Moraes, "Deus"

Pois, como diz o Amos Óz no mesmo livro, "senso de humor é uma grande cura. Nunca vi na minha vida um fanático com senso de humor, nem vi uma pessoa com senso de humor tornar-se fanática, a menos que tenha perdido o senso de humor. Os fanáticos são, freqüentemente, muito sarcásticos. Alguns deles têm um senso de sarcasmo muito mordaz, mas não têm humor. O humor inclui a capacidade de rir de nós mesmos. O humor é relativismo, é a aptidão de vermo-nos como os outros podem nos ver, é a capacidade de entender que, por mais cheios de razão que estejamos e por mais terrivelmente equivocados que estejam os outros sobre nós, há sempre um certo aspecto disso tudo que é um pouco engraçado."

Para acabar, convido vocês a refletirem por algumas horas sobre este pensamentinho muito instigante de Ambrose Bierce: "Orar significa pedir que as leis do universo sejam anuladas em favor de um único postulante, e que ainda por cima se confessa indigno."


* * * * *



Bóra explorar as Obras Completas de Miss Regina Spektor?!?

Far (2009) [dwld]

Begin to Hope (2006) [dwld]

Soviet Kitsch (2004) [dwld]

Songs (2002) [dwld]

11:11 (2001) [dwld]

8 comentários:

Wilson Ossoguju disse...

Belo texto, comparsa. E obrigado pelos discos da srta Regina!

Eduardo Carli de Moraes disse...

Valeu, Wilson!

Boa viagem pela música e pela poesia de Miss Spektor! Vou explorar suas "gomas" na blogosfera...

Volte sempre!

↔ Badal ♣♠ disse...

Parabéns pelo post camarada !

renata pace disse...

Lindo texto, parabéns.

Eduardo Carli de Moraes disse...

Obrigado, Renata! :)
Volte sempre.

Priscila disse...

Parabens pelo blog. Gosto muito dessa musica da Regina tambem, me lembra os sempre chatos pseudo-intelectuais.

Perdoe minha ignorancia, mas nao entendi a tirinha... a senhora chega no ceu e la encontra o diabo? Porque esse triangulo com olho dentro nao eh de Deus, nao. rs!

Mais uma vez, parabens pelo trabalho!

Eduardo Carli de Moraes disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Eduardo Carli de Moraes disse...

Hey Priscila! Valeu! O "cara" na tirinha é Deus, sim senhora, aquele da tradição judaico-cristã, só que na versão do Laerte - ou seja, uma caricatura sarcástica do dito cujo.

Volte sempre!