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sábado, 15 de janeiro de 2011

<<< 10 de 2010 >>>



















#2

BLITZEN TRAPPER
"Destroyer of the Void"

“Há um vínculo secreto entre a lentidão e a memória, entre a velocidade e o esquecimento. (...) Na matemática existencial, essa experiência toma a forma de duas equações elementares: o grau de lentidão é diretamente proporcional à intensidade da memória; o grau de velocidade é diretamente proporcional à intensidade do esquecimento.” MILAN KUNDERA, A Lentidão

Se Kundera tem razão, a arte de escutar música também oscila entre estes pólos, a memória e o esquecimento, conforme a pressa ou o cuidado com que a ouvimos. Um tímpano afoito, que faz uma audição apressada e desatenta, faz com que a música logo vaze da lembrança (como se entrasse por um ouvido e saísse por outro). Para que a música se torne algo de denso, para que desça como uma âncora até as profundezas de nosso oceano de neurônios, seria preciso demorar-se nela. Deixar que ela faça seu trabalho sorrateiro, que se infiltre em nosso interior e ali ecoe, que as melodias nos deixem insones, que versos se imponham à consciência como uma charada que queremos desvendar a todo custo...

Se o Blitzen Trapper foi uma das bandas que mais marcou meu 2010 foi pois senti necessidade de me demorar neles, de fazer repetidas visitas ao universo particular dos caras...  Destroyer of the Void, quinto álbum do sexteto de Portland (o terceiro lançado via-Sub Pop), desde a 1ª audição revela-se como um desses raros álbuns que exigem várias audições para serem devidamente apreciados.

Banda sempre surpreendente e ousada, o Blitzen Trapper no começo foi comparado ao "ecletismo lo-fi de Beck" --- e de fato um álbum como Wild Mountain Nation (2007) é loucão, lírico e esquizofrênico o bastante para poder ser equiparado a um Mellow Gold ou Odelay, ainda que seja bem menos impactante.

Mas foi nos dois últimos álbuns que o Blitzen Trapper realmente se encontrou; ao limitar um pouco o leque vasto demais de sonoridades, centrando o foco na música americana roots em todas as suas vertentes, os caras encontraram sua identidade e fizeram em Furr (2008) e Destroyer Of The Void (2010) dois dos mais admiráveis álbuns folk dos últimos anos. E quem diz "folk" diz "música tradicional norte-americana", o  equivalente da nossa "M.P.B."...


"Black River Killer", de Furr, já revelava qual a "viagem" do Trapper nos últimos anos: um mergulho às raízes da música americana "maldita", de Johnny Cash cantando na penitenciária Folsom à Bruce Springsteen uivando na madrugada em Nebraska, do blues satânico de Robert Johnson e Leadbelly ao desconsolo empoeirado do Wilco fase-Being There. 

O "Assassino do Rio Negro": está aí um nome propício para um western spaghetti --- e também esta influência marca presença nas letras altamente narrativas de Eric Earley, compositor e vocalista do grupo. Mas é como se algo de gótico, de noir, viesse escurecer muitos dos "causos" que nos conta o Blitzen Trapper. Uma lírica à la Nick Cave misturada a historietas sanguinolentas, dignas dum thriller caipira ou de Sobre Ratos e Homens, de Steinbeck.

A primeira música de Destroyer of The Void já escancara o quão ambicioso se tornou o Blitzen Trapper. Com mais de 6 minutos de duração, a faixa-título é uma espantosa suíte  folk-prog-psicodélica que transita por 3 diferentes seções, num procedimento que remete às faixas finais do Abbey Road. Construindo um complexo labirinto folk, a banda criou sua canção mais arrojada, remetendo a "Deja Vu", do Crosby, Stills, Nash & Young, ou ao clássico American Beauty (1970), do Grateful Dead.



Se a ambição musical atinge seu ápice já no início da álbum, daí em diante é a ambição poética quem toma conta em canções recheadas com tanto lirismo e mistério que não esgotam seu sentido mesmo depois de uma dúzia de audições. A melhor poesia do álbum surge em "The Man Who Would Speak True", canção irmã de "Black River Killer".  Ambas as cançõesse assemelham a rubros clássicos do folk americano que cheiram a sangue fresco e pecado. Filiam-se a uma longa tradição de músicas que narram assassinatos passionais, cometidos por homens arrebatados como heróis de Dostoiévski, que degolam pobres mocinhas, a quem depois dedicam um pungente folk confessional... É o caso de "Down By The River" de Neil Young, "Via Chicago", do Wilco, ou "Where Did You Sleep Last Night?", do Leadbelly (mais conhecida na voz de Kurt Cobain...).

"I fed my tongue on the Devil’s rum
In a roadhouse run by a godless bum
On a drunken night, with a stolen gun
I shot my lover as she made to run."

Depois de confessar ter cometido o homicídio de sua amada Grace (teria sido uma homenagem à anti-heroína de Lars Von Trier em Dogville/Manderlay?), o eu-lírico descreve sua vida como fugitivo da justiça, até ser pego e forçado a falar. Com um talento para a construção de metáforas de deixar boquiaberto, Earley faz sua língua, ao dizer a verdade, soltar fogo pelas ventas como um dragão...

"So I opened my mouth like a dragon’s breath
I only spoke truth, but it only brought death
And I laid those boys to rest
For the truth, in truth, is a terrible jest.

For there ain’t no road but the road to home,
There ain’t no crops but the ones you’ve sown
And if you'll learn one thing from me:
You better guard your tongue like your enemy."

Esta canção foi o que bastou para que eu colocasse Eric Earley no seleto rol dos meus poetas-da-música prediletos. E há tempos eu não encontrava alguém digno de fazer companhia à Dylan, Cohen, Springsteen, Tweedy, Patti Smith, Conor Oberst, Jeff Mangum... Mas não é só nesta que o lirismo do cara maravilha o ouvinte atento: o álbum inteiro é um banquete para quem gosta de poesia, de rima, de jogos-de-palavra e de vôos-livre da imaginação...

O psicodelismo delirante de Syd Barrett ou Skip Spence é o que dá o tom em "Lover, Leave Me Drowning", pink-floydesca pepita folk-psicodélica na qual violinos bucólicos convivem com guitarrismos nuggetianos. O folkão com pegada rocker do Black Rebel Motorcycle Club  circa-Howl é a onda de "Dragon's Song". E o fantasma de Nick Drake também dá as caras para assombrar as melancólicas (e belíssimas...) "Bellow The Hurricane" e "Heaven and Earth".


Já "The Tree" traz um dueto vocal de Earley com Alela Diane que remete a algumas das mais belas colaborações entre Gram Parsons e Emmylou Harris ou Damien Rice e Lisa Hannigan. Trata-se de uma fábula adocicada, impregnada de magia e simbolismos de conto-de-fadas, sobre uma árvore gigantesca que cresce sem parar, enquanto o eu-lírico e sua musa a escalam, ascendendo sempre, através dos enroscos dos galhos e das folhagens...

Ótima metáfora para o próprio Blitzen Trapper: uma banda com raízes profundamente plantadas no solo da música americana e que vem se transformando numa frondosa árvore, digna de ser escalada infindamente por nós, ouvintes, que só tem a ganhar se, com insistência, chegarem lá em cima, onde suculentos frutos nos aguardam....


(Destroyer of the Void, Sub Pop, 2010)
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(Furr, Sub Pop, 2008)
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(Wild Mountain Nation, Sub Pop, 2007)
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quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

<<< 10 de 2010 >>>


 # 03

ARCADE FIRE
The Suburbs


"The pain of Win Butler and Regine Chassagne, the enigmatic husband-and-wife songwriting force behind the band, is not merely metaphorical, nor is it defeatist. (...) They have known real, blinding pain, and they have overcome it in a way that is both tangible and accessible. Their search for salvation in the midst of real chaos is ours; their eventual catharsis is part of our continual enlightenment." DAVID MOORE, na Pitchfork

"My family tree is losing all its leaves", cantava Régine Chassane em "In The Backseat", melancólico lullaby que encerra Funeral (álbum já amplamente coroado como um dos melhores da década passada). A beleza do verso, que lamenta que árvores genealógicas percam suas folhas e sejam tomadas por esqueléticos galhos de outono, só se amplia face à gigantesca catástrofe haitiana que tatuou com uma imensa cicatriz este ano de 2010 com os mais de 230.000 mortos, 300.000 feridos e 1 milhão de desabrigados pelo terremoto.

Esta, uma das mais desoladoras situações que frequentaram o noticiário neste ano, foi também ocasião para que a banda canadense mostrasse que enxerga bem além da música (e "além do que se vê", para usar uma expressão los-hermânica). Régine, que já havia cantado belamente sobre seu país natal em "Haiti" ("wounded mother i'll never see..."), foi à mídia nos momentos de urgência e fez campanha em prol do Stand With Haiti. Além disso, a banda se engajou na arrecadação de U$ 1 milhão de dólares a serem doados às vítimas da calamidade. Meses antes, o Arcade Fire tinha feito campanha para Barack Obama nos EUA e Win Butler tinha elogiado publicamente as atividades filantrópicas de Bono Vox.

Estas atividades extra-musicais do Arcade Fire já são uma boa demonstração de que este coletivo de artistas não aprecia a apatia primeiro-mundista daqueles que vivem na abundância material, mas são convenientemente cegos aos homens que morrem como moscas em todos os milhões de subúrbios do planeta. Se em alguns momentos parece que "the power's out in the heart of Man", como diz o poderoso épico "Power Out" (também de Funeral), há sempre aqueles que procuram reacender a chama necessária para encarar a desgraça e reconstruir a partir das ruínas.



O terceiro álbum do Arcade Fire, The Suburbs, lançamento de ampla repercussão mundo afora, serviu para sedimentá-los como uma das bandas que melhor representa o zeitgeist no Primeiro Mundo hoje-em-dia. E não surpreende que o tom lamentoso e a batalha contra a depressão sejam tão marcantes na "ambientação emocional" da banda.  Não é à toa que o som do Arcade Fire é "deprê": eles apenas canalizam o que é uma forte tendência nas sociedades industriais-consumistas "desenvolvidas" (mas que "desenvolvem", como cada vez vai ficando mais claro, muito mais tristeza, solidão, anomia e desconexão humana do que admitem as propagandas de margarina). É só lembrar das estatísticas alarmantes da OMS (Organização Mundial de Saúde), que numa pesquisa de 2000 indicou que
“o que mais mata no mundo, hoje, é o suicídio. Foram 815 mil suicídios naquele ano, contra 520 mil mortes ocasionadas por crimes e 310 mil em guerras. Ou seja, seria preciso somar as mortes decorrentes de crimes e guerras para empatar com o número de suicídios. Naturalmente, isso depende da região. Em alguns países, é a guerra que ocasiona mais mortes – como no Iraque. Em outros, como o Brasil, são os crimes. Portanto,  o mal-estar moral e ético, que pode levar a pessoa ao suicídio, manifesta-se de maneira mais forte no hemisfério norte, justamente aquele cuja cultura costuma ser considerada como a mais avançada e a mais desejável do mundo ocidental.” (YVES DE LA TAILLE, 2009, pg. 9)

* * * * * *

Há um vasto oceano entre o Canadá do Arcade Fire e a Inglaterra do Radiohead, mas o "espírito" das duas bandas não deixa de ter suas similaridades.

Ambas retratam, a seu modo, o desconforto e a angústia do "homem moderno" vivendo em civilizações capitalistas avançadas. Ambas procuram tornar sublime o angustiante desconforto dos descontentes. Ambas lidam com um certo lirismo de cativeiro: são cantos de pássaros engaiolados. E ambas desconfiam da tecnologia, são céticas quanto ao  império tecno-científico e as prometidas maravilhas de felicidade terrestre nunca cumpridas pelo hi-tech e pelo surround sound.

Decerto que Thom Yorke entrega-se mais amplamente ao queixume, sabe fazer sua voz chorar e é um cantor mais versátil e comovente. Já Win Butler, mais contido e racional, preza mais o auto-controle e o distanciamento crítico, mas sua melancolia parece tão incurável quanto aquela que tingia Ok Computer:

"I feel like I've been living in
A city with no children in it
A garden left for ruin
By a millionaire inside
Of a private prison..."

("City With No Children")



 Anos atrás, quando tentei mergulhar nos meandros de Funeral, buscando elucidar alguns dos mistérios desta belíssima obra-de-arte, cheguei à conclusão de que o Arcade Fire se defrontava essencialmente com dois desafios humanos: 1) enfrentar a morte de seres amados, penando para atravessar o luto sem sucumbir à tristeza mortal; e 2) lidar com o amadurecimento precoce imposto por vínculos afetivos rompidos. O próprio nome da banda --- "Incêndio no Fliperama" --- remete à uma repentina interrupção da brincadeira infantil, rompida por alguma catástrofe que nos chama à dureza do mundo adulto, mesmo quando ainda não nos sentimos prontos para aguentar seu tranco. Aqueles que estavam acostumados a viajar no banco dos passageiros são convocados para assumir o leme de suas vidas, e num ponto crítico da estrada...

A infância perdida e a pureza conspurcada são como recorrentes motivos de lamento na lírica arcadiana. Mas The Suburbs, o terceiro álbum do combo canadense, amplia ainda mais o leque temático da banda, demonstrando uma crescente confiança composicional de quem não teme explorar poeticamente alguns dos maiores espinhos da "vida moderna". The Suburbs é repleto de fantasmas de guerra, tédio, insônia, jardins arruinados e cinzas de um passado melhor. Ao fundo de tudo, observam os shopping centers, "like mountains beyond mountains" ("Sprawl II).

"I think I'll live to see the death of everything that's wild", canta Butler. E mais adiante: "I hope that something pure can last". 

Sem o impulso de uma utopia, resta à banda tentar criar beleza a partir do queixume. O problema é que tanta lamúria acaba, em algumas canções, vergando mais para o tedioso que para o sublime. O que mais assombra o álbum, me parece, é o fantasma do tédio. Boredom is the devil. Logo na faixa-título, que inaugura o álbum com uma linda cruza entre Echo & The Bunnymen e Neil Young, Butler solta a confissão de que a guerra nos subúrbios, longe de comover ou engajar, gera um embotamento geral: "By the time the first bombs fell we were already bored." Longe de elogiável, este sentimento que Butler encarna tão bem é sintomático de uma geração primeiro-mundista que só consegue opor à queda das bombas um bocejo entediado.


 Na faixa-seguinte, "Ready To Start", a banda escancara seu desconforto com o mercado fonográfico, o big business musical, que Win Butler comparou, em uma entrevista, a um sistema de coleta de impostos (aquele mesmo, trucidado pela chacota em "Taxman", dos Beatles). "Businessmen drink my blood", canta Butler, comparando executivos a vampiros, antes de dar razão à "galerinha na escola de arte": "Like the kids in art school said they would."

Mas o que dá o tom desta poderosa canção, das mais punky que a banda já compôs, e que remete ao Joy Division circa-1979 ou ao Gang of Four de Solid Gold, é uma crítica aos jovens que se curvam aos "imperadores" em obediência covarde. Ainda que saibam que são eles os responsáveis pelas chuvas de bombas que estraçalham os subúrbios.

 "All the kids have always known
That the emperor wears no clothes
But to bow down to them anyway
Is better than to be alone..."

("Ready to Start")


Em outras canções, o lamento se volta às "horas perdidas" ("Wasted Hours", bem mais desconsolada do que "Tempo Perdido", da Legião Urbana), à perda da amizade ("All my old friends, they don't know me now", em "Suburban War") ou às esperas infrutíferas (como em "Used To Wait", em que o eu-lírico e seu osso fraturado aguardam uma carta que não vem).


Gostemos ou não desta caravana de lamentos poéticos sublimes, o fato que não dá para contestar é que o Arcade Fire se impôs como uma das bandas mais cultuadas da atualidade, impondo respeito dentro e fora dos palcos e sugerindo que, além de terem muito a dizer, estão só começando a pôr a boca no trombone. O grupo liderado por Win Butler e Regine Chassanes entra na década 2010-19 numa posição de vanguarda, pau a pau com um Radiohead, um Wilco ou um Flaming Lips.

O mínimo que se pode dizer é que o Arcade Fire trouxe para o pós-Radiohead mais provas incontestáveis da aptidão primeiro-mundista para o lamento, a angústia e a melancolia musicada. Resta saber se esta semi-depressão, sublimizada e derretida em arte, é aquilo de que a cultura mundial necessita para se sentir revigorada após Auschwitzes e Hiroximas, Vietnãs e Iraques, terremotos e bombardeios, ou se aquilo que irá injetar vida nova no caldo da civilização terá necessariamente que sair do “Terceiro-mundo Festivo”, anunciado por Wado e seu Realismo Fantástico.


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domingo, 19 de dezembro de 2010

<<< 10 de 2010: Supergrama Reloaded >>>


 #4

THE HOT RATS
"Turn Ons"

Mal tinham saído da puberdade e os pirralhos anfetaminados do Supergrass já tomavam de assalto as paradas com o delicioso bubblegum beatle-punky de "Allright". O hit, carro-chefe do delicioso e desavergonhado I Should Coco (1995), acabou tornando o Supergrama um one-hit-wonder dos mais memoráveis dos anos 90. Quem foi esperto de ir conferir os álbuns na íntegra, porém, pôde descobrir que o revólver do power-trio inglês não tinha aquela única bala no tambor e que a banda brigava pau-pau com o Oasis, o Blur e o Verve pelo posto de maiorais do Brit-pop.



Atirando pra todo lado, o Supergrass reverenciava o punk-pop de Buzzcocks e Undertones, a psicodelia sessentista dos Kinks e da coleta Nuggets, a fase glam de Bowie e do Roxy Music, dentre miríades de outras referências, sempre transbordando vitalidade juvenil, melodias ganchudas e refrões de tirar o sono do ouvinte. Após o debut, três pepitas deliciosas vieram na sequência - In It For The Money (1997), Supergrass (1999) e Life On Other Planets (2002) - antes de um certo mergulho numa sofisticação quase prog (Road To Rouen, 2005) e um retorno à jovialidade power-pop com Diamond Hoo Ha (2008).

Neste 2010, Gaz Coombes (vocal) e Dan  Goffey (batera), que com estes nomes podiam ser personagens de tirinhas humorísticas  do Angeli ou do Laerte, voltaram a dar o ar de sua graça. Enquanto Mick (o outro terço do Supergrass) se recupera dum capote que lhe arregaçou a coluna, Gaz & Dan montaram um projeto paralelo só pela curtição de tocar músicas que adoram. Juntaram-se ao renomadíssimo Nigel Grodrich (produtor de Ok Computer e The Soft Bulletin, dentre outros recentes clássicos modernos), pegaram o nome emprestado do fodástico LP de Zappa e gravaram um discaço de covers, semelhante ao que fez David Bowie em Pin-Ups.

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Eles andam chamando esta brincadeira de "punk psicodélico", mas pode chamar também de garageira-chic, retrô-sem-pudor ou reciclagem hedonística. Os caras não tiveram medo da mistureba: selecionaram um hip-hop dos Beastie Boys, um lisérgico bicicletismo do Floyd fase Syd Barrett, uma cacetada pós-punk do Gang Of Four, boniteza delicada do Roxy Music...

Mas não é uma gororoba indigesta o que sai desta mescla, mas um a iguaria fina: um álbum que parece feito por dois amantes entusiásticos da música pop, e com um conhecimento enciclopédico dela. Enquanto aguardamos pelo retorno do Supergrass, nada melhor do que curtir este passeio da dupla Gaz e Danny por  suasprediletas-da-casa, relidas e reinterpretadas com classe, desencanação e tesão de sobra. The kids are allright!


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01. I Can't Stand It (The Velvet Undergroud)
02. Big Sky (The Kinks)
03. The Crystal Ship (The Doors)
04. (You Gotta) Fight For You Right (To Party!) (Beastie Boys)
05. Damaged Goods (Gang Of Four)
06. Love Is The Drug (Roxy Music)
07. Bike (Pink Floyd)
08. Pump It Up (Elvis Costello)
09. The Lovecats (The Cure)
10. Queen Bitch (David Bowie)
11. E.M.I. (Sex Pistols)
12. Up The Junction (Squeeze)
13. Drive My Car (Beatles)








sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

<<< 10 de 2010 >>>



#5

BLACK CROWES
Croweology


É na estrada que o Black Crowes se sente mais em casa. Que o diga "Wiser Time", uma das mais lindas baladonas de Amorica, um hino em celebração da vida errante, cigana, boêmia, que louva o estilo-de-vida pé-na-estrada de quem sai em busca de tempos mais sábios. Eddie Vedder fez um excelente serviço com a trilha original de Into the Wild, mas "Wiser Time" também seria um belíssimo pano-de-fundo sonoro para as aventuras de Alexander Supertramp, no Alaska e além...

 Mas 20 anos vivendo à la Easy Rider, até para o mais entusiástico hippie, é algo um tanto desgastante. Chega uma hora, lá por perto dos 50, em que os cabeludos, depois de alguns milhões de quilômetros rodados e alguns milhares de miligramas de ácido ingeridos, escolhem tirar um descanso da vida de rolling stone pelas ladeiras do tempo... They choose to settle down. Começam a sonhar com a serenidade de uma cabana de madeira no bosque, lotada de vinis e violões, onde viver só fumando um baseado e ouvindo clássicos do Grateful Dead ou da The Band. "Who could ask for anything more?"


Tenho quase certeza que este é o fim da linha. Os irmãos Robinson dizem estar entrando num hiato (palavrinha cada vez mais recorrente: vide Los Hermanos e Sleater-Kinney....), mas suspeito que é só para que o pranto dos fãs não seja histérico, inconsolável. Eles dizem "hiato" e com isso nos dão de lambuja a esperança de um retorno, sabe-se lá quando. O fato é que ficaremos sem os Black Crowes por um punhado de anos, mas com um belo legado a explorar, re-ouvir, re-curtir, re-amar.

Como presente de despedida, os caras gravaram para os fãs este delicioso duplaço Croweology, com 20 das melhores canções da banda rearranjadas num classudo formato semi-acústico. Digamos que é o equivalente de um MTV Unplugged, mas realizado sem quaisquer obrigações contratuais com grandes emissoras de TV ou interesses corporativos. Liberdade não falta para que a banda encare long-distance-trips: 3 faixas tem mais de 9 minutos de duração, e apenas uma acaba em menos de 4'. Os Crowes aqui planam no ar com tranquilidade, sem pressa, viajando nos trilhos da memória e curtindo-se no processo de gerar curtição. Share the ride!

Talvez seja preciso já ser admirador de longa data da banda para enxergar este álbum pelo que ele é: um rico tesouro que nos deixam alguns amigos queridos antes de darem aquela sumida no mundo. Desde o primeiro play em Croweology, eu abri meus ouvidos para o que viria não com desconfiança, senso crítico, como um júri na frente de um réu, mas com o amplo afeto que os Crowes já me conquistaram. Neste disco, they preach to the converted. E eu, faz tempo, sou assecla entusiasta deste culto sem deus cuja única igreja é a estrada, cujo único messias é o som e cuja única pregação é em prol da paz, do amor e de uma rock'n'rolling soul...

Aqui pára, por hora, a caravana hippie'n'roll dos Crowes. Ao invés do pranto, prefiro a alegria por terem existido. Let's wave goodbye. And let's keep on playin' these songs!



<<<< disco 1  - disco 2 >>>>




(Assista em 360p para uma experiência estética completa!)


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domingo, 12 de dezembro de 2010

<<< 10 de 2010 >>>

# 07

G.B.H.
"Perfume and Piss"

"Perfume and Piss makes it clear that old punks don't have to burn out or fade away, they can just keep on rocking until they drop." JAMES ALLEN, AMG All Music Guide

No código penal britânico, G.B.H. é sigla para "Grievous Bodily Harm", algo como "Dano Corporal Cabuloso". É por este crime que um sujeito seria processado se enchesse alguém de porrada até reduzi-lo a farelo - ou um monte de ossos fraturados. Apologia da violência? No caso dos veteranos do punk inglês (Charged) G.B.H., com quase 30 anos com os amplificadores no talo, não se trata de fazer o elogio da violência gratuita, mas sim de uma violência bem dirigida e focalizada, mais artística que literal, mais sônica que armamentista: o pacifismo gandhiano é insuficiente para vencer os imperadores tiranos, parece dizer o G.B.H., mas talvez possamos confrontá-los com guitarras! They enrage to engage.

Com mais de 10 álbuns de estúdio (e mais um punhado de ao-vivos) no catálogo, o G.B.H. fez em Perfume and Piss um discaço de punk rock que só mesmo uma banda veterana, cheia de garra e extremamente segura de si poderia fazer. Uma das primeiras coisas que salta aos ouvidos é o sabor altamente rancidiano do disco, o que não é de surpreender, já que o G.B.H. foi uma das principais influências para a banda de Tim Armstrong e Cia. Agora Colin Abrahall e sua turma retornam o presente e gravam um comeback triunfante que honra o espírito do Rancid, coisa que os próprios não conseguiram fazer tão bem no ano passado, quando soltaram, após 6 anos de silêncio, Let The Dominoes Fall, disco que achei meio morno em comparação com a incandescência dos clássicos ...And Out Come The Wolves (1995) e Life Won't Wait (1998).

Se o mais recente álbum do Rancid tinha me feito concluir que é quase impossível que uma banda punk chegue à beira dos 20 anos de pogo e berro sem perder um pouco do gás, o novo do G.B.H. chegou para provar o contrário: que um bom punk sempre encontra a força para voltar a ser um vulcânico jorro de energia juvenil e indignação sadia. Está aí muito do meu afeto e empolgação por estas perenes Fontes da Juventude que são Rocket to Russia, Raw Power, London Calling, Blank Generation, Kick Out The Jams!, Nevermind the Bollocks, Zen Arcade, Fresh Fruit For Rotting Vegetables, Nevermind, dentre tantos outros... É só dar um play  neles e sentir a juventude voltar a correr pelas veias, sentir o sangue renovar-se, veloz como um gabba gabba hey!

Por isso gosto de pensar que o punk ensina não exatamente o "live fast, die young!", mensagem muito niilista e auto-destrutiva, mas algo muito mais positivo: "be young your whole fucking life!". Ao invés de morrer jovem e deixar um belo cadáver (para usar a expressão de Oscar Wilde), por que não procurar ser um velhinho com energia de moleque, com pilhas sempre renovadas? A efervescência da juventude pode até parecer tão efêmera quanto uma palhetada de Johnny Ramone; mas seus frutos, por vezes, são tão imortais quanto "Rockway Beach" ou "God Save The Queen".

* * * * * 


O G.B.H. sobrevive desde 1979, tendo participado da primeira onda do hardcore britânico (que contou ainda com Varukers, Exploited, Discharged, dentre outros). São eles os legítimos "last ones to die" e "indestructibles" de que falam as canções do Rancid.

Apesar de citados como uma das primeiras bandas a tentar o crossover entre punk e metal que gerou o thrash e o speed metal,  e apesar de terem conseguido influenciar tanto o Slayer quanto o Rancid, o G.B.H. é bem mais do pogo do que do headbangin', como prova o moicanão de Colin Abrahall. 
"There aren't many first-generation British punk bands that have stayed the course all the way up through the 2000s, and it's striking how much furious energy still leaps out of the band's guitars, drums, and throats on Perfume and Piss. Perhaps most impressive is the fact that G.B.H. have stayed close to their original aesthetic -- Perfume and Piss isn't watered down by any attempts at "maturity" or "sophistication" -- two words that spell death for street punks." --- AMG ALL MUSIC GUIDE
 Perfume and Piss é um álbum mais rancidiano e cláshico do que qualquer outro que eu tenha ouvido neste ano, o que se explica fácil: Lars Frederiksen ficou responsável pela mixagem e o disco foi lançado pelo selo Hellcat da Epitaph (co-fundada por Tim Armstrong), o que basta para rancidificar o climão do álbum. Além disso, o álbum traz uma homenagem póstuma a Joe Strummer ("San Jose Wind", quase uma elegia fúnebre em ritmo punk-77 dirigida ao falecido líder do The Clash, cujas cinzas foram espalhadas pelo vento da cidade espanhola de San Jose).

Como era de se esperar, o disco é pedrada pra todo lado: contra o terrorismo islâmico (em"Invisible Gun"), contra os reality shows ("This Is Not The Real World"), contra os presidentes genocidas ("Cadillac One") e, claro, contra baladinhas água-com-açúcar ("Ballads", que reclama pelo retorno da "teenage angst" bradada em alto e bom som e pelo fim das cancionetas de amor mela-cueca). 

 "All I can smell is perfume and piss!!!", esbraveja o G.B.H. na faixa-título.  Eu pensava que estavam se referindo, é claro, àquelas criaturas odiáveis que borrifam perfume pelo ambiente para que ninguém perceba que mijaram no chão: os políticos, esta raça que domina a arte do kitsch e maquia suas pilantragens com maquiavélicas artes de perfumaria... Que Estado neste mundo não fede a perfume francês? Queremos um Estado que feda a suor proletário!

Mas o próprio Colin, no encarte e em entrevistas, garante que "perfume and piss" é algo mais que uma botinada nos poliqueiros: é uma metáfora para a vida e sua mescla de bem e mal, perfume e fedor, maravilha e horror, elementos sempre em dialéticas transações. "Every dark cloud has its silver lining, and vice-versa", comentou o vocalista do penteado porco-espinho. Muito bem dito.

"You've got the power to throw the bomb / You can blow us all to kingdom come", cantam em "Cadillac One". E aqui se escancara que o inimigo contra quem se volta a fúria da música do G.B.H., é claro, são estes com poderes para lançar bombas, dizimar vilas, empilhar civis, incendiar histórias. O G.B.H. vem com seus riffs-molotov e seus rifles-refrões para nos ajudar a nos livrar tantos destes bombermen do Império, quanto dos sanguinários terroristas com o dedo no gatilho das invisible guns. E como fazem muito mais barulho, literalmente falando, do que uma palestra de Noam Chomsky!

Já "Power Corrupts" podia muito bem ser um hardcore inspirado por Dogville, o clássico brechtiano de Lars Von Trier. Só que o G.B.H., é claro, é bem menos intelectualizado que o cineasta dinamarquês, e ainda mais selvagem. Estes brados de Birmingham a respeito dos efeitos corruptores do poder, saturados dum anarquismo escancarado e desavergonhado, são chutes-na-porta mais que argumentos lógicos. 

Mas quem foi que disse que um chute-na-porta não possa ter sua lógica?

Seja bem-vindo ao punk rock pé-na-porta e polícia-pra-fora, que berra com plena convicção sua certeza de que para a corrupção ser diminuída, só há um meio: que o poder seja melhor distribuído. Pois poder absoluto corrompe absolutamente. Que os megalomaníacos e control freaks tomem um chute na bunda, para fora do trono, e fiquem na deles, ao invés de segurando o remote da bomba atômica...

Enfim: ouvir um álbum primoroso como Perfume and Piss é um excelente lembrete não só da vitalidade perene do movimento punk, mas do quanto o punk é o mais urgente de todos os estilos musicais já inventados por humanos: pois é fruto daqueles que são plenamente conscientes da urgência de agir contra as desigualdades sociais, autoritarismos escrotos, costumes sociais "quadrados" e outras desgraceiras que impedem a pedra de seguir rolando adiante, sem juntar limo...


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"There isn't a self-respecting gutter punk, hardcore kid or subcultural miscreant alive who hasn't seen the GBH logo emblazoned on the back of a leather jacket, a denim vest, or a torn-up t-shirt. And now the world  will be slapped upside the head with another reminder as to exactly why GBH is so important, in the form of Perfume and Piss, the legendary and iconic punk band's first album for Hellcat Records. Barn-burning, fist-pumping, palace-gates-storming tracks like "Kids Get Down," "Cadillac One" and "This is Not the Real World" carry the torch forward with the band's trademark fury that is alternately nihilistic, optimistic, pessimistic, anarchist, violent, humorous and deadly serious all at once." - Facebook 

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

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 #08

CORIN TUCKER BAND
"1.000 Years"


Após o lançamento do épico The Woods (Sub Pop, 2005; que disco do caralho!), o Sleater-Kinney decidiu fechar as cortinas vermelhas de seu teatro punk e entrar em hiato por tempo indeterminado. Foi a despedida (tomara que temporária!) de um dos mais geniais luminares do movimento Riot Grrrrl. Mas também o canto-de-cisne de um power-trio que tinha transcendido rótulos e gêneros redutores para se tornar uma das instituições sônicas mais respeitáveis (e adoráveis!) da América nos terríveis tempos de Bush Jr.

Fiéis à ética underground que preza por independência expressiva em face do corporativismo neoliberal, e patriotas mais da nação universal do Rock'n'roll  do que de um país endoidecido com um patriotismo fundamentalista, as garotas do Sleater-Kinney não sabiam separar expressão artística e ativismo político, música e transformação cultural. Mas sem jamais cair no panfletarismo, no dogmatismo, na demagogia ou na chatura. "A revolução não será televisionada", dizia Scott-Heron. E o riot-grrrl adicionava: a revolução será musicada, ritmada, festeira, ruidosa, cheia de melodia, revitalizando a sociedade com as potências vivificantes da música... E tão revolucionária das sensibilidades e das consciências quanto das instituições políticas. 

"I see myself as an artist and musician first and foremost", declarou um dia Corin Tucker, "but I believe that the political climate affects us all in some way, especially now. I've always seen things from a feminist, leftist point of view, and the current ultra-patriotic national fever chills me to the bone." 

O Sleater-Kinney, que em seus primeiros anos podia até ser tido como só mais um espécimen no balaio do "punk-de-menininha", vociferando sobre feminismo e convidando ao ativismo indie (e de modo não muito distinguível do que faziam na época o Bikini Kill e o Bratmobile), tinha se tornado em seus últimos anos uma das bandas alternativas mais respeitadas e cultuadas dos EUA. E com todo o mérito. Abriam shows para o Pearl Jam, tocavam no David Letterman e soltavam álbuns primorosos  --- como One Beat (2002), que considero, sem sombra de dúvida, uma das melhores coisas que a música americana produziu na década passada.

Depois que escolheram entrar de férias, cada uma das três Sleaters prosseguiu com seus projetos: Carrie Browstein prosseguiu em plena efervescência como uma espécie de ativista da cultura independente, fazendo experimentos com cinema e escrevendo o excelente blog Monitor Mix; Janet Weiss continuou tocando bateria no Quasi e depois foi integrar a banda de apoio de Stephen 'Pavement' Malkmus; e Corin Tucker foi ser mamãe por uns anos, para retornar neste 2010 com 1.000 Years, seu primeiro álbum-solo.

Seria desleal da nossa parte, fãs do Sleater-Kinney, exigir que Corin conserve o mesmo gás juvenil que demonstrava quando cantava "Quero Ser Seu Joey Ramone", lá pelos idos de 1996, agora que beira os 40 e tem 2 filhotes (virou uma legítima Rock'n'Roll Mama, que marcou até presença num documentário sobre roqueiras que arriscaram-se nos domínios frequentemente punk da maternidade...). Também não dá para pedir que a interação com os membros de sua nova banda chegue perto da magnífica harmonia e espírito colaborativo que ela tinha junto de Carrie e Janet.


Mas, de modo geral, o álbum de Corin é sereno, maduro, expressivo e muito simpático, ainda que bem modesto em suas pretensões. 1.000 Years tem uma clima relaxado, como se tivesse sido gravado num confortável estúdio caseiro, onde as guitarras disputavam espaço com os carrinhos de brinquedo e as mamadeiras. A instrumentação, apesar de rica, é discreta: um belo piano introduz "Thrift Store Coats", que soa como uma canção de The Hot Rock (outro disco lindo...), e belos violinos fazem de "Dragon" quase um quarteto-de-cordas em miniatura. A voz de Corin, porém, ganha licença neste álbum para ir ao primeiro plano e contentar nossos tímpanos com sua inefável beleza: "Miles Away" é uma balada bonita de chorar; "Doubt", um punk-pop bubblegum pra pogar-sem-pudor; e o resto... é tão fofo quanto o Belle & Sebastian e tão dinâmico quanto uma batida de Marky Ramone.

Não sei ao certo como este disco será sentido e julgado por alguém que não tenha tido, como eu, um vasto relacionamento de afeição duradoura e admiração alegre pelo Sleater-Kinney, uma banda que amo do fundo do coração (a ponto de fazer a ela declarações sentimentais saturadas de pieguice...). Talvez o ideal, antes de encará-lo, seja dar um passeio pelos álbuns de sua banda-matriz, ou pelo menos por algumas das canções do Sleater que mais se parecem com estas da carreira solo (fiz uma seletinha de 3 delas aí embaixo....). Pra mim, que considero Corin Tucker mais com os olhos benevolentes do coração do que com o juízo crico da racionalidade, 1.000 Years é um disco que me traz o tipo de contentamento que sentimos ao reencontrar uma velha amiga, com quem trocamos altas idéias anos atrás, e que animou muitas de nossas noites de fossa emocional, e que nos injetou entusiasmo em tempos de apatia, e que agora retorna para nos confidenciar sobre a quantas anda sua vida e quais são alguns dos segredos para envelhecer com tanta dignidade, tanta vitalidade e tanta beleza.






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domingo, 5 de dezembro de 2010

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#09

BLACK MOUNTAIN
"Wilderness Heart"


"In their heart of hearts, Black Mountain are really just peaceful hippies, but ones who aren't afraid to deploy heavy artillery to assert and protect their way of living" - PITCHFORK


"The children are havin' their fun with the blues". Este verso de "The Hair Song", um dos mais empolgantes singles já lançados pelo Black Mountain, serve como um bom cartão de visitas para o som dessas lisérgicas "crianças" canadenses. Mas o blues surge aqui não em seu estado primordial, como era nos tempos em que faziam-se pactos com Satanás na encruzilhada e Robert Johnson só tinha um violãozinho puído para acompanhar seus queixumes.  

O blues, em sua versão-Black Mountain, é algo como um navegante inter-estelar que pousa em 2010 depois de ter atravessado a psicodelia hippie dos 60, o metal-de-raiz dos 70,  o grunge dos 90 e o stoner-de-garagem dos últimos anos. Matematizando a coisa, eu arriscaria dizer que a banda é o resultado da soma Led Zeppelin + Soundgarden, Howlin' Wolf + Queens of the Stone Age, Black Sabbath + Black Rebel Motorcycle Club, Jimi Hendrix + Neil Young...

(Sim, sim: escolhi o jornalismo por ser mó prego em aritmética...)


Wilderness Heart, terceiro álbum da banda de Vancouver, é tão aventureiro, eclético e chapado quanto seus dois precedentes, In The Future (2008) e Black Mountain (2005), mas tem a vantagem de ser mais sintético (nada daquelas jams viajadas de 17 minutos, só curtíveis por quem tomou as drogas propícias para embarcar na onda dos caras...).
O que se destaca de imediato, além dos galopantes riffões à la Page e Iommi que recheiam boa parte das canções (com destaque para a fodástica "Roller Coaster"), é a transa certeira entre os vocais de Stephen McBean (genes-XY) e Amber Webber (XX). A beleza das melodias vocais e o modo como elas se fundem com perfeição na densa massa sonora da banda é acachapante, mesmo para um ouvinte sóbrio. E é difícil não sentir um delicioso arrepio na espinha, por exemplo, quando a linda voz de Amber canta: "I will cradle you beneath my wings / As you tremble in my warmth / I will cradle you beneath my wings / And teach you all my scorn".

Mas "blues" refere-se não só a um estilo musical, mas também a um estado de espírito --- e é este blues da melancolia e do desconsolo que impregna as baladonas soturnas que o Black Mountain nos entrega aqui: "Buried By The Blues" (o nome diz tudo...), "Sadie" (quase um lullaby) e "The Space of Your Mind" (uma espécie de tributo a David Bowie em sua fase "espacial"). Nestas faixas, a banda uiva na madrugada como nas melhores faixas do Howl, do Black Rebel Motorcycle Club, e demonstra que é tão poderosa acústica quanto elétrica. 

Agora resta torcer para que eles retornem em breve ao Brasil: quando vieram em 2008, como uma das atrações internacionais do Goiânia Noise (que naquele ano trouxe também Helmet, Vaselines e Black Lips), não tive a chance de conferi-los ao vivo.  E eis uma banda cujos álbuns me deixam afinzaço de testemunhá-los de perto gerando este chapante roller coaster de peso, blueseira, psicodelia e lirismo.



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sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

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#10

TAME IMPALA
"Innerspeaker"


O Tame Impala faz de seu albúm Innerspeaker uma profunda e psicodélica viagem pelo existencialismo.Os jovens australianos de Perth que integram o power-trio conseguiram mesclar guitarras mais "modernas" a um som retrô digno do mais puro "malte" da psicodelia dos anos 60. Sem passar por nicho algum do rock progressivo (graças a Deus!), o Tame Impala se destaca por abordar um tema dificil sem ser prolixo nem chato, utilizando-se de frases como "you won't get far telling me that you are all you're meant to be" ou "You will never come close to how I fell".

O álbum retrata desde os dias em que somos mais introspectivos ("Solitude is Bliss", assistam o clipe!), os dias em que simplesmente estamos apaixonados pela idéia e não pela realidade ("It's Not Meant to Be"), até mergulhar no conceito da aprovação que precisamos ter, mas que no fundo não passa da forma como a ótica individual de cada um enxerga o todo (em "Alter Egor").

A banda promete com sua música, letras e estilo, demonstrando extremo talento. Mas para o Tame Impala se destacar entre artistas do momento é importante que levem em consideração que vivemos uma época em que a música não peca por falta de opções, mas por falta de ícones.

Definitivamente, esta música nos faz apertar os cintos e saborear a viagem com todos os seus ritmos e batidas, que animam até o mais presunçoso e preguiçoso neurônio. Bem vindo, Tame Impala! Espero que tenham vindo para ficar. E você, leitor, aproveite a viagem:
Innerspeaker pode estar prestes a fazer sua mente decolar...

Por Luckyano


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