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domingo, 27 de dezembro de 2009

:: Projetores Sujos ::


:: DIRTY PROJECTORS ::
por Eduardo Carli de Moraes

"I want to believe that the creative life is a sustainable life, and that
invention is an endless renewable resource. It's depressing to think of
creativity as psychic deforestation -- I don't want to be bald at the end of this.”
--- David Longstreth

Projetores sujos não necessariamente estragam o filme: talvez o deixem mais vago e onírico, surreal e bizarro, psicodelizando o que seria sem graça se viesse sem distorções. Imaginem que massa um filme de David Lynch ou Guy Maddin projetado por lentes imundas sobre um lençol esvoaçante! Talvez ter isto em mente ajude os viajantes a curtirem a estranhíssima viagem de cinema auditivo que o Dirty Projectors nos oferece com seu Bitte Orca, um dos discos mais celebrados (e esquisitos) de 2009.

Este sexteto de Nova York, liderado pelo inventivo David Longstreth (possuidor dum diploma responsa de composição musical em Yale), não tem alergia à esquisite nem o mínimo medo de ser weird(o). Prova da aventurosidade destes arteiros é o álbum de 2007, Rise Above, onde regravaram um clássico do punk (Damaged, do Black Flag) inteiramente "de memória". Ou seja, entraram no estúdio para coverizar um álbum que não ouviam há mais de 10 anos, marco de suas adolescências, desconstruindo e re-criando, sem nenhuma vontade de soarem fidedignos, as ferozes pepitas de Henry Rollins & Cia. O bizarro resultado é semelhante ao que ocorreria se o Belle & Sebastian, por exemplo, regravasse Fresh Fruit For Rotting Vegetables, do Dead Kennedys.

Já no novo álbum, universalmente aclamado como o ápice da carreira da banda, os Projectors viajam felizes por um amplo espectro sonoro, realizando "uma perfeita união entre excentricidade e acessibilidade" (como diz a resenha do A.V. Club). "Virtuosístico mas lúdico, imprevisível mas acessível, Bitte Orca não é um álbum de gênero, encapsulando idéias em demasia para poder ser arquivado convenientemente sob o rótulo 'indie' ou 'experimental'", escreve a Slant (que os compara aos Books, aos Battles e ao Of Montreal).


Findo este 2009, ano fértil em experimentalismos (a julgar pelos álbuns do Animal Collective e do Grizzly Bear, ambos incensados pela crítica mundial), o Dirty Projectors vê-se sagrado como uma das bandas de saco-mais-puxado pelos cri-cris: Bitte Orca foi eleito o 2º melhor disco do ano tanto pela revista Time (ficando atrás de Brad Paisley) quanto pela Pitchfork (que elegeu o Animal Collective) – dois vice-campeonatos de muita responsa. Entrou ainda no 6º posto da Rolling Stone e no 4º da Pop Matters. Como se não bastasse, eles têm feito timinho com jogadores de peso, como o Talking Head David Byrne (fizeram juntos um som pra coleta Dark Was The Night).

Mateus Potumati, do +Soma, destaca que a banda gerou "uma onda violenta de reações que vão da adoração efusiva - aí inclusos nomes como David Byrne, Arto Lindsey e Caetano Veloso - ao ceticismo e ao mais franco desprezo". Isso devido ao radicalismo de "sua abordagem vanguardista de estilos variados como o punk, o indie rock, a no-wave, o pós-punk, a música africana, o hip-hop, a composição européia contemporânea e os ares tropicalistas".

Em sua primeira passagem pelo Brasil, o sexteto desfilou seu excêntrico som em São Paulo, Rio e Goiânia (e Depredando esteve nesta última para conferi-los!). Com o cancelamento da turnê latino-americana do Supersuckers (os caipiras-punk tiveram problemas com o visto), os Projectors alçaram-se ao nível de headliner gringo principal do 15º Goiânia Noise, festival que têm procurado trazer novidades do cenário internacional que estão despontando coroadas de elogios da crítica mundial -- como foi o caso com o Black Lips e Black Mountain em 2008 e o Battles em 2007.

O Dirty Projectors, sobre o palco, emanava esquisitice. Um tanto fora-de-contexto num dos dias mais noisy do festival, subiram ao palco do Centro Cultural Martin Cererê depois que tinham passado sobre os tímpanos do público verdadeiros rolos compressores de barulho assassino: o stoner rock do Black Drawing Chalks, o pãnque-métal do Mechanics e o tosqueira'n'roll das Mercenárias. Foi um tanto estranho ver a boniteza folk "Two Doves", cantada lindamente pela gracinha da Angel Deradoorian, com uma guita limpinha a acompanhando, depois de tanta balbúrdia e insanidade. O que para alguns foi um começo "morno" me pareceu, muito mais, um prelúdio sussa para uma viajada jornada que, aos poucos, foi conquistando o público - que pode ter entendido pouco, mas que soube abandonar-se a sentir muito.

Me pareceu que os Projectos ouviram os discos dos Talking Heads com muita devoção, em especial o clássico Remain In Light (1980), mas que tentam simular aqueles cabulosos grooves criados por Byrne & cia sem antes dar um rolê, pelo menos, por Funkadelic e Sly & The Family Stone - pra não falar em malandros remolejos africanos. Mas dá pra notar que estão indo na ondinha de valorização das sonoridades africanas, que conta com outros defensores no Vampire Weekend, desconstruindo os clichês do pop sem medo de cair na bizarria.

Pasmo frente à estranheza do show, eu me perguntava quando é que o vocalista tinha sido liberado do hospício e quando foi que tinha começado a perceber que fazer música podia ser boa terapia contra a esquizofrenia... Não à toa já andam chamando Longstreth de “mad genius”! Ele parecia quase às beiras de ter un "ataques epiléticos" à la Ian Curtis, mas não tinha o mínimo “pudor” em fazer suas “dancinhas” - uma delas que eu logo apelidei de “pescocinho”, em que ele ficava bicando o ar como uma galinhazinha de pescoço de elástico que algum adolescente peralta tivesse feito fumar maconha... (Desculpem, mas só metáforas muitíssimo estranhas descrevem a coisa!).

A guitarrinha de Longstreth, mais rítmica do que solante, é do tipo que nos deixa indecisos quanto ao talento do músico, mas que não deixa que se duvide do quanto ele é criativo e amalucado ao lidar com suas próprias limitações técnicas. Mateus arrisca uma descrição, mais ou menos precisa (mas nenhuma precisão é possível na transmissão deste bizarre-way-of-playing), dizendo que "Dave Longstreth alternava, na guitarra, a levada à The Contortions com solos que remetiam a um Robert Fripp ou Steve Howe como vistos por Stephen Malkmus".

Já a gracinha de vocalista Angel, vestida num pijaminha amarelo quase infantil, como quem quisesse se sentir de volta ao quarto onde aos 5 aninhos pela primeira vez começou a cantar frente ao espelho, dava a sensação de não ter nascido para o palco e de não saber ao certo o que fazer de si mesma ali em cima -- mas mandou bem com seu "timbre delicado e folk, que se situa entre a voz de uma Joanna Newsom e a de uma Björk" (+Soma).

Para adicionar esquisitices ao quadro já bizarro, as três vozes femininas entoavam cânticos malucos, como se tivessem sido alunas de uma instituição psiquiátrica ou orfanato-reformatório -- o ápice sendo a bela "Stillness Is The Move". Em muitos momentos, davam a nítida impressão de estarem cantando em línguas estranhas, remetendo a “I Zimbra”, música de Fear Of Music em que Byrne constrói uma letra inteira com fonemas que nada significam – ou seja, canta num idioma inventado, fazendo das concatenações de sons arbitrários e sem sentido a inebriante matéria do canto.

Precioso privilégio o nosso: o de poder ver ao vivo os Dirty Projectors justo no momento em que eles, na crista da onda, são consagrados como uma das mais marcantes bandas de 2009. Ouvir Bitte Orca repetidas vezes, abrindo-se à tanta criatividade concentrada e dispersa, é não só ótimo para expandir horizontes sônicos como também é uma lição maior. A de que às vezes “louco” é só um rótulo que os babacas grudam naqueles que se comportam de modos que eles não podem entender ou aceitar - e que são, muitas vezes, muito mais autênticos e criativos do que os comportamentos estereotipados dos normopatas. Caso de Longstreth, artista amalucado que bota fé que o processo da criatividade possa ser contínuo e perpétuo: a criação não gera um "desflorestamento cerebral" e não nos deixa carecas no fim do processo.

DOWNLOADS:

BITTE ORCA (2009)
http://www.mediafire.com/?xdj1m2znlh5


RISE ABOVE (2007)



DAYTROTTER SESSIONS:
http://www.mediafire.com/?xuzumhjzjgw


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segunda-feira, 19 de outubro de 2009

:: Kyuss ::

Antes da idade da pedra
- Bernardo Santana -


Lançado em 1992, Blues For The Red Sun foi o segundo — e melhor — disco da curtíssima e ensurdecedora carreira do Kyuss (pronucia-se "cáius", a propósito). Talvez você tenha ouvido falar dos caras como sendo “a primeira banda do cara do Queens of the Stone Age” ou “aqueles doidões que tocavam no deserto”, ou quem sabe como “os precursores do Stoner Rock”, ou algo que o valha… mas o Kyuss merece, com certeza, muito mais que isso na história do tiozão barrigudo que é o rock and roll.

Na época com dezenove aninhos, Josh Homme já mostrava em Blues todo o peso malemolente de sua guitarra. Aliás, na minha humilde opinião subjetiva, nunca mais (e eu disse NUNCA MAIS) desde então o cara soou tão certeiro em seus riffs. O peso bíblico de Writhe, Apothecaries' Weight e Molten Universe que o digam. Mas o grande mérito do Kyuss daquela época — e do disco aqui pirateado, por conseguinte — sobre o Queens, por exemplo, foi contar com muito mais do que a habilidade do molecote Homme para fazer seu barulho.

Diferente das rainhas chapadas de hoje em dia, a banda que gravou Blues contava com um vocalista de verdade, um batera até hoje apontado como influência em som pesado (e baita compositor também) e um baixista que sabia inserir groove verdadeiro no meio da pancadaria. Todas as músicas do disco têm um esmero instrumental impressionante, mas sem a frescura tão peculiar e contraditória do metal atual. Muito mais que seguir o esquema intro-verso-refrão, o Kyuss subvertia as estruturas da música popular, cagando montes pra necessidade de achar refrões ganchudos e congêneres. Aliás, as cinco músicas instrumentais espalhadas por seu segundo disco conseguem a façanha de serem alguns dos pontos altos da bolacha. Ouça Catterpillar March e tire a prova. Todo o trabalho perfeito dos instrumentos, no entanto, não tira o mérito de John Garcia, vocalista esganiçado-agressivo que, nas ocasiões em que aparece cuspindo seus impropérios, faz você entender por que o Kyuss não decidiu ser “só” uma banda instrumental.

É só pra encerrar a seção de comparações covardes; durante toda a audição do disco percebe-se que aqueles barulhinhos gravados lá no fundo nas músicas do QOTSA também não são tão novidade assim. Aliás, aqui eles ajudam a fornecer o forte tom psicodélico-do-deserto, que ficou bem mais acentuado nos álbuns seguintes do Kyuss, e são essenciais para completar o clima de Black Sabbath em jam psicodélica do disco.

Não que mude alguma coisa, mas o fato de que a banda alcançou tudo isso quando seus principais compositores ainda nem tinham chegado na casa dos vinte é de fazer muito músico por aí entrar em desespero. E nem pense em contar pra eles que Blues For The Red Sun foi considerado um dos 50 álbuns mais pesados da história pela revista inglesa Q. Se você é músico, foi mal. Se não é, baixe a bolachinha agora, ignore o que é “afinação baixa” e divirta-se enquanto tenta descobrir como bater cabeça e rebolar ao mesmo tempo…

[Nota pós-cagada: avisado por nosso excelso administrador, o sr. Lux Lúcio, tomei conhecimento de que este disco já havia sido postado no Depredando. Duas vezes. Sendo assim, vai também o resto da discografia dos minino pra não ficar muito feio.]

Wretch [1991]
DOWNLOAD: 87 Mb - 11 faixas


Blues For The Red Sun [1992]
DOWNLOAD: 89 Mb - 14 faixas


Welcome To The Sky Valley [1994]
DOWNLOAD: 90 Mb - 11 faixas


...And The Circus Leaves Town [1995]
DOWNLOAD: 90 Mb - 13 faixas

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

:: John Zorn ::


Zorn(oise)
- por Marco Souza -

A primeira vez que fiquei chocado ao ouvir um disco foi quando comprei (promoção de 3 CDs por 10 reais!) o CD do Mr. Bungle, Disco Volante. Final de 90. Esquisitice das boas, mas na época achei apenas esquisito. Uma mistureba de estilos sonoros e a doidera vocálica de Mike Patton (ex-Faith No More). Há algumas semanas atrás o Mr. Patton e o baixista Trevor Dunn, resquícios de Mr. Bungle, me chocam de novo, mas dessa vez em um grupo comandado por John Zorn.

O grupo em questão é Moonchild (Patton, Dunn e Joey Baron na bateria), até ai tudo bem, um som sujo, hardcore (mais no significado da palavra do que no estilo musical), denso, pesado, como vocês podem conferir no myspace da banda. Baixo distorcido, bateria quebrada e vocal... bem, pra dizer tudo: Mike Patton. O mesmo grupo do álbum Astronome. Ambos tem como compositor John Zorn.

Em Six Litanies to Heliogabalus a coisa chega num grau diferente. Zorn pega seu sax alto, se junta a Moonchild, chama Ikue Mori, compositora e performer de sons eletrônicos, e Jamie Saft, tecladista que já tocou com Beastie Boys, B-52's, além de outros que desconheço, mistura com um trio de vocal lírico composto por Abby Fischer, Martha Cluver, Kirsten Soller (de quem não consegui foto) e resolve compor coisas absurdas.

O resultado é uma barulhenta loucura sonora, uma banda de grindcore tentado jazz em um hospício. Suas ladainhas são o extremo do experimentalismo atual. Há faixas que fogem do rótulo de música, Litany IV por exemplo é um gigante solo (no sentido musical e solitário da palavra) de vocal de Mike Patton, algo que se eu for explicar através de palavras ficaria assim: "TÁ tuctaqdoqtada TÁ tuctaqdoqtada Tá tá schá AAAhhhhhhhhhhhhhhh". No meio disso existem riffs interessantes, mas tudo que foge à menor lembrança em meio a complexidade e textura sonora geral. Litany V parece que terá um padrão quando o vocal lírico a interrrompe e o Sax estridente já desestrutura o padrão musical que montavamos em nossas cabeças. O excelente começo de Litany I parece um dos mais pesados e violentos trash metal existentes, e se completa pela calma induzida pelo vocal lírico, que acaba massacrado pelo baixo monstruoso de Dunn e os teclados de Saft. A maior parte do álbum é assim, algazarras alternadas com pausas e insanidades.

Orações para o Imperador Romano (ou o deus?) Heliogabalos é o conceito do álbum. Há um tom profano e de ironia no som, mesclando a pureza e aura sacral do coro lírico com a frieza dos instrumentos metálicos/eletrônicos e a gritaria sarcástica de Patton.

Six Litanies to Heliogabalus é uma experiência sonora de difícil assimilação. A primeira vez que ouvi achei genial, a segunda não aguentei dois minutos, ouvi pela terceira vez e resolvi apresentar aqui pois sei de pessoas que irão adorar o álbum. A maioria irá odiar.

Recomendado para fãs incondicionais de Mike Patton, pessoas que procuram os sons mais pesados e/ou experimentais possíveis e para aqueles que queiram se chocar. Típico som que dá medo de escutar sozinho.

Download (6 músicas - 68 MB)

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

:: Arrigo Barnabé ::


ARRIGO BARNABÉ

"Clara Crocodilo" (1980)

por ROGÉRIO SKYLAB


Eu não vivi a experiência do tropicalismo nem a ditadura militar. Para a minha geração essas duas referências nunca chegaram a ser marcantes no sentindo vivencial do termo, muito menos para mim que sempre tive uma família pacífica, para não dizer alienada. Conheci filhos de pais torturados pela ditadura militar e para esses, de uma certa forma, 68 continua. Pra mim não: nada mais longe do que isso.

Esse preâmbulo serve para dar a devida dimensão a um acontecimento aparentemente sem nenhuma importância: a chegada às minhas mãos de uma fitinha cassete, contendo as músicas do disco Clara Crodolilo. Quem me apresentara foi Sérgio Shuller. Na ocasião, 1982, fazíamos Faculdade de Letras na UFRJ, localizada na Av. Chile. É curioso que Sérgio dizesse parte daquele contingente citado acima de "filhos de pais torturados", porque todo seu movimento era justamente no sentido de negar esse fato. Fazíamos parte de grupos de poesia, líamos Rimbaud e fundamentalmente ele discutia muito com a mãe, formada no quado do antigo partido comunista. Claro que Caetano era uma referência, assim como Chico Buarque e toda mpb. E eu ia vivendo essa estória meio a contragosto, como se tivesse sido empurrado para dentro dela.

Até que a fitinha chegou. Muito mal gravada por sinal. Que som quebrado era aquele? Não compreendi nada. Uma voz gutural, e outra, mais aguda, que eu já tinha ouvido. Os sons de metais, a guitarra, a bateria, as canções completamente esquisitas. A minha turma não estava compreendendo nada, com exceção do Sérgio que lançava-me uns olhares cúmplices. Aquela primeira audição foi marcante: eu sabia que tinha um disco importante em mãos, mas não compreendia nada. Eu sabia naquele momento que haveria de ouvi-lo por muito tempo. E assim foi.

Hoje pensando no choque que representou Clara Crocodilo, produzido em 1980 (produção independente de Robinson Borba) com Arrigo Barnabé e a banda Sabor de Veneno, e trazendo no cast pessoas como Paulo Barnabé (Patife Band), o baixista Otávio Fialho, Itamar Assunção, Vânia Bastos, Tetê Espíndola, para não mencionar o texto das músicas e a capa do disco, é que de fato um novo mundo se descortinava. Era um golpe de karatê na MPB já moribunda.

Fodeu!!! Caetano deve ter percebido o estrago, tanto que tentou seduzir o inimigo. A música "Língua" traz uma menção explícita a Arrigo. A partir daí, o rock Brasil entra em cena. Basta pensarmos na Blitz, a 1a das bandas a surgir: uma versão carioca e ipanemense de "Clara Clocodilo". Estamos sob um outro sistema: a partir de Clara Crocodilo a reflexão dá lugar à ação; o banquinho e o violão dão lugar aos gritos e aos movimentos largos; a música tônica dá lugar aos ruídos, ao atonal e ao dodecafonismo.

Em referência à MPB, em nível de texto, desde a bossa-nova, tem-se a idéia da meditação, da reflexão, da mensagem a ser codificada. Quando a gente pensa no axé, nos grupos de pagode, ou mesmo numa música sertaneja, ainda que sejam formas exorbitantes, a MPB permanece dentro delas, senão como estrutura musical, ao menos como um modelo ao qual elas se aproximam ou se afastam. O sujeito na MPB está preservado: é ele que dá unidade a possíveis dissonâncias que são rapidamente resolvidas na tônica.

A pergunta "onde andará Clara Crocodilo?", pergunta essa que eu reintroduzo no "SKYLAB III", abre uma nova perspectiva: não se fala mais do sujeito, mas sobre o sujeito; se está além dele. Após possíveis respostas sobre onde andará Clara, chega-se nesta: "Será que ela está adormecida em sua mente, esperando a ocasião propícia para despertar e descer até seu coração, ouvinte meu, meu irmão?" Essa última possibilidade nos desloca para fora do sujeito, objetivando-o e dando-lhe um campo de foco. E esse é o último momento do disco, como se para chegarmos a tal revelação fosse preciso uma longa travessia: não só pelas músicas anteriores como pelos 20 anos que passou aprisionada num disco de sebo. De fato essa idéia de tempo contrasta com o imediatismo do mercado. E talvez tenha sido esse o pecado capital do rock brasileiro.

Em verdade, o rock Brasil traiu suas origens. A Blitz é um bom exemplo, porque foi a partir dali que o rock brasileiro dava os seus primeiros passos - isso, claro, sem considerar experiências isoladas e anteriores como os Mutantes. Mas foi com a Blitz que se desencadeou um movimento articulado que viria a dar no "Rock Brasil". E a experiência bem sucedida do movimento deve-se única e exclusivamente a essa traição: aproveitam-se as inovações no tocante a idéia de coro, a narrativa descolada da música, a total informalidade do narrados, coisas que estão presente em Clara Crocodilo, mas a estrutura musical continua intacta, dentro do universo da MPB - tão convencional como esta. Daí porque a sensação de que o rock brasileiro foi muito mais reformador que revolucionário: muda-se exteriormente toda a mis-èn-scène da MPB, mas interiormente a estrutura é intocável.

Talvez o futuro da música brasileira acene numa outra direção e algumas bandas, muito precariamente, já começam a dar sinais nesse sentido. A semelhança com a MPB é puramente externa - porém ao nível da estrutura, internamente falando, há uma profunda inversão. E a idéia de perversão é justamente essa. Os refrões não foram abolidos,mas têm uma outra função. O canto continua presente, assim como a guitarra, o violão, o baixo. Como em Clara Crocodilo, tudo isso está presente, mas a sensação de estrago, de terra arrasada é grande. Revivendo aquela primeira audição, a primeira idéia que surge é a falta de chão. Nada disso foi sentido ouvindo os grandes ícones da música brasileira. Seja Tom Jobim, seja Villa Lobos, você está em território seguro: nenhum susto, nenhuma sensação de mal estar; tudo já foi devidamente explorado antes: em Tom Jobim o jazz americano, em Villa Lobos o folclore nacional com a dignidade da música clássica. Mas em Arrigo há uma junção insólita: a música contemporânea com suas dissonâncias e seu atonalismo mais a cultura de massa. E isso deixa no ouvinte uma certa perplexidade: tudo que é dito em Clara Crocodilo é estranho e familiar ao mesmo tempo. "Você, ouvinte incauto, que no aconchego do seu lar, rodeado de seus familiares, desafortunadamente colocou esse disco na vitrola... o pesadelo começou."

É claro que esse pesadelo foi recalcado. A cultura tem essa função e o rock brasileiro serviu para isso. Em todas essas palavras, eu confesso que sempre tive em mente a idéia de não universalizar o sentido do rock. Até mesmo porque, ainda que o modelo do rock brasileiro seja o britânico ou o americano, a sua histórica começa com o declínio da MPB. Por outro lado, Beatles não seriam o que são sem o "Álbum Branco" e "Sargeant Peppers", experiências que estão longe de ter uma correspondência no rock nacional. A mesma coisa em relação a Frank Zappa. Portanto, é importante que relativizemos os termos.

Mas todo o recalcado volta. Outro dia, entrevistado por um grupo de estudantes, eu ressaltava a importância para a arte contemporânea da idéia da diferença. E um desses estudantes me perguntara na ocasião "por que a idéia da diferença seria a mais importante?". Eu diria que não é uma questão de importância, mas de ocultamento. Assim como a História da Filosofia é a história da Metafísica ou do ocultamento do Ser, segundo Heidegger, poderíamos também pensar na arte e portanto na MPB, esse mesmo processo de ocultamento. O prívilégio à loucura ou ao "non sense", que podemos vislumbrar hoje em algumas bandas independentes, participaria desse mesmo movimento da arte contemporânea no sentido de um desnivelamento. E o que é ocultado senão a physis (natureza para os gregos) ou o que se convencionou chamar modernamente de "politicamente incorreto"? Tudo aquilo que não tivesse uma lógica aparente ou fosse contraditório em si; tudo que estivesse fora do minimamente aceitável, estaria alijado do processo produtivo. Pensar a diferença é justamente pensar o que está à margem, o que ainda não foi domesticado, o que ainda não tem nome. E para tanto é preciso ser trágico.

Não existe uma história do trágico. Até mesmo porque ele aparece repentinamente, abruptamente. "Araçá Azul" é o momento trágico na MPB, rapidamente ocultado. Assim como foi "Cabeça Dinossauro" no rock brasileiro. Daminhão Experiença é tão trágico que a MPB permanece resoluta em desconhecê-lo. Mas Clara Crocodilo, mais do que Tubarões Voadores ou Gigante Negão, é a expressão mais acabada do que poderíamos denominar "trágico" na música brasileira. Até mesmo porque tudo aquilo foi construído conscientemente. E também porque não existe antecedente nessa junção da música erudita, via atonalismo e dodecafonismo, com a música popular. Essa junção insólita extrapola todos os códigos: é algo novo no Brasil e no mundo.

Fazer música para mim é não encontrar ressonância no punk, nem no Rock Brasil, e nem no hip-hop - esse último, hoje em dia, tão em voga através da MTV e selos supercultuados como o Instituto. O que significa estar também a mil milhas da MPB. Porque fazer música é fundamentalmente captar o que ainda não foi transformado em ideologia. O mais terrível é ouvir artistas supercultuados, como é o caso de Marcelo D2, passando pelos Racionais MCs, Nação Zumbi, e sentir em toda a verborragia exposta o laivo de moralismo que a sustenta. Fazer música pra mim é de uma certa forma repetir Clara Crocodilo. Ou então repetir infinitamente aquele momento inusitado quando ouvi pela 1a vez aquela fita cassete. Sérgio Schüller continua me olhando enquanto eu vou combinando alguns acordes para uma nova música. Logo ele que nunca mais encontrei. Lógico que existe um abismo entre essas minhas músicas e Clara Crocodilo. Mas o processo de repetição é esse mesmo: o eterno retorno do diferente.


(in: Noite Passada um Disco Salvou Minha Vida
- org: Alexandre Petillo. Ed. Geração Editorial)



DOWNLOAD (192kps, 58 MB):
http://www.mediafire.com/?jzmhyzi2yjn

domingo, 29 de junho de 2008

:: Morphine ::


:: MORPHINE, Cure For Pain (1993)

Meu Rito de Iniciação no Jazz
(uma resenha gonzo)
- por Eduardo Carli de Moraes -


Julho de 1999. Uma pequena banda americana de status cult subia ao palco na Itália ainda desconhecendo a armadilha que o futuro próximo lhe reservava. A incomum formação (batera, sax e baixão-slide de duas cordas) despejava sobre o público seu costumeiro jorro de música madrugadeira quando um dos membros do grupo foi atingido por um relâmpago cósmico daqueles de previsão sempre impossível. Por uma daquelas tragédias repentinas que despencam sobre cabeças humanas sem aviso prévio, Mark Sandman, 47, vocalista, baixista e letrista do Morphine, foi nocauteado por um ataque cardíaco. Saiu do palco em Roma e foi direto pro necrotério. Coisas da vida.

Devido àquela mania humana incurável de esperar que um certo sujeito morra para só então descobrir que ele prestava, foi somente após a morte de Sandman que a heróica Trama resolveu realizar os esforços necessários para presentear o defunto com um tratamento digno de seu legado. Todos os álbuns do Morphine caíram juntos nas prateleiras brasileiras: além dos 4 álbuns de estúdio (Good, Cure For Pain, Yes e Like Swimming), foram lançados também o póstumo The Night e o ao vivo Bootleg Detroit, possibilitando ao público brasileiro um conhecimento aprofundado da obra do finado trio. A dupla restante - Dana Colley e Bill Conway - juntou-se com uma nova vocalista e fundou nova banda, o Twinemen, que lançou seu álbum de estréia em 2003.

Meu primeiro contato com o Morphine se deu com esse Cure For Pain (1993, o segundo), um daqueles espécimes comprados totalmente "no escuro". Na época dessa compra (mazomeno 2000) eu estava ainda contaminado por certos preconceitos contra o jazz, produto das inevitáveis ortodoxias de um adolescente que não conseguia aprovar ninguém a não ser Papai Rock como monarca único na nação dos gêneros musicais. Jazz, sacumé, era música de velho, trilha sonora para asilos, uma desgraceira aborrecida onde não havia nada senão aquelas malditas cornetas assopradas em musiquinhas sonolentas... Jazz era palavrão. Foi somente pelo bem do meu Conhecimento Musical e da Expansão de Horizontes que decidi: vou comprar um disco de jazz. E fui de Morphine.

Minha expectativa de encontrar um grupo tranquilão e sonolento, provável escolha preferencial para curar insônias, foi rapidamente desvanecida quando a galopante linha de baixo de "Buena", a primeira faixa, estremeceu o ar. O vocalzão grave de Sandman, à la Nick Cave, entrou declamando uma letra sobre um demônio feminino, e o sax, de início discreto e envergonhado, se encorpou depois num solo de arrepiar... Bateu aquela surpresa: ENTÃO ISSO AÍ É QUE É JAZZ!? Cure For Pain, mesmo não sendo exatamente um disco de jazz, adquiriu pra mim um significado gigantesco como um ampliador de horizontes: serviu como uma ponte conduzindo meus interesses para além do indie, do punk, do grunge, do metau - do Rock em geral, enfim - e creio que possa realizar muitas benfeitorias semelhantes para quem ainda não passou por seu rito de iniciação no mundo do jazz. Sem o Morphine, eu provavelmente teria continuado por muito tempo a achar que Miles Davis, John Coltrane, Ornette Coleman e Donald Byrd, atuais prediletos da casa ouvidos em alta rotação, eram uns chatões que não mereciam atenção - sem nunca ter ouvido deles uma nota sequer.


Claro que pouca coisa no Morphine fase Cure For Pain e Yes, além da presença marcante do saxofone como instrumento protagonista, tem a ver com jazz, na acepção clássica da palavra. Essa música é puro rock and roll torporizado pelo excesso de whisky, construída com os arroubos de um inspirado saxofone que não teme fazer barulho e amparada por uma vigorosa seção rítmica minimalista. Músicas como "Sheila", "Thursday" e "Buena" são dotadas de um andamento rock and roller bem distanciado do costumeiro lenga-lenga do jazz tradicional. Viagens mais experimentais podem ser ouvidas, por exemplo, em "In Spite Of Me", uma baladinha baixa-fidelidade cantada aos sussurros sobre um dedilhado ágil no violão e no mandolin, ou nas duas faixas instrumentais, silenciosas e atmosféricas. E onde mais dá pra encontrar uma banda com suficiente moral pra plugar um sax num pedal wah-wah (!) e fazê-lo soar tão deliciosamente como no solo de "All Wrong"?

Mas o mais legal mesmo na música do Morphine é que ela nos afunda num universo todo particular. Assombrado por entidades femininas sensuais e tentadoras (muito provavelmente imaginárias, meras musas poéticas), Cure For Pain nos transporta para um ambiente sombrio de filme noir e que cheira a adultério, nicotina e crimes carnais... Um mundo de refúgios alcóolicos para noites invernais, devassidões inundadas com complexos de culpa, jogos de bilhar em salões decadentes, desmaios de porre em noitadas solitárias, serenatas sombrias que se estendem em bares suburbanos até a closing time, ascensões drogadas a outras dimensões... "Tenho uma cabeça com asas. A única coisa que mantêm minha cabeça conectada ao chão é um pequeno fio esquelético", diz "Head With Wings". Muito na música do Morphine sugere uma efêmera alegria que explode na noite fechada da mente devido à atuação de substâncias químicas. "Um dia ainda vão inventar uma cura para a dor / Esse é o dia em que vou jogar todas as minhas drogas fora", canta Sandman na belíssima faixa-título.

Não é à toa que ele chamou sua banda de Morfina: essa música é extremamente recomendada às veias de todos, lícita e socialmente aprovada, como um entorpecente musical que abre espaço para altos vôos mentais aliviantes. Morphine. Injete e ascenda.


DOWNLOAD (mp3 de 192kps - 46MB):
http://www.mediafire.com/?qwu3myx0ghq

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

:: os 10 melhores dos anos 60...- #09 ::

[9º]

FRANK ZAPPA
"Hot Rats"

(1969)


JAZZ FROM HELL
- por Eduardo Carli de Moraes -

Hoje Frank Zappa (1940-1993) é reconhecido como uma figura gigante no panorama da música moderna, um verdadeiro Mestre da composição, do arranjo, da guitarra e da iconoclastia cultural. Com mais de 80 álbuns em sua incrivelmente prolífica discografia, o cara tem um dos materiais sônicos mais volumosos que se conhece - e mais importante: essas toneladas de material são dignas de exploração minuciosa.

Através de sua longa e variadíssima carreira, Zappa demonstrou uma extrema versatilidade no domínio dos idiomas do pop, transitando com facilidade do rock ao jazz, da música eletrônica a trabalhos orquestrados, misturando humor escatológico, esperteza política e experimentalismo vanguardista como poucos outros artistas da música popular neste século. Aliás, ele sempre foi contra uma divisão rígida entre a música popular e a alta cultura – até porque seu gosto musical era ultra eclético. Zappa colecionava singles de rock and roll e R&B dos anos 50 ao mesmo tempo que reverenciada compositores clássicos contemporâneos como Stravinksy e Edgard Varèse.

Zappa teve uma vida pitoresca e quase engraçada (cito só meia dúzia de bizarrices): tentou estudar teoria musical numa facul da California, mas abandonou o curso depois de 6 meses; no começo dos anos 60, fez uma trilha sonora para um filme de terror B chamado O Maior Pecador Do Mundo e para um western, trampo que gerou a grana necessária para que ele construísse um estúdio em Cucamonga, California; chegou a ser acusado de conspiração para criação de pornografia (!) depois que um policial tomou posse de fitas com sex parties e passou só 10 dias (de uma sentença de seis meses) em cana. E pra que não fiquem dúvidas de que esse mago doidão da música tinha excentricidades que beiravam a loucura mais deslavada, é só ver como ele batizou sua prole. Com sua segunda esposa, Zappa teve quatro filhos, que ganharam os singelos nomes de Moon Unit, Diva, Dweezil e Ahmet Rodan. Quer mais?!?

Perfecionista ao extremo, Frank Zappa requeria dos membros de suas bandas uma “técnica intimidora”, o que ajudou a revelar ao mundo excelentes músicos, como o guitar hero Steve Vai e o fundador do Little Feat, Lowell George. Zappa também demonstrou inovações consistentes em tecnologia instrumental e de estúdio, experimentou com praticamente todos os estilos de música, inclusive música clássica, com uma versatilidade igualada por poucos nomes musicais do século 20.

Conta-se que Zappa chegava ao fim dos anos 60 “frustrado” com as vendas de seus discos, que nunca chegaram a ser sucesso comercial, e com problemas para sustentar sua banda de apoio, a Mothers of Invention, com quem tinha gravado alguns instigantes álbuns como Freak Out! (de 1966, disco que acabou perdendo dinheiro) e We’re Only In It For The Money (de 1967, uma selvagem paródia do Sgt Peppers dos Beatles onde Zappa fazia miséria com o ideário hippie).

Alguns críticos acusavam Zappa e os Mothers of Invention de serem nada além de uma piada cínica, escatológica e monumental, mas “Zappa não mostrava o mínimo desconforto em assumir duas personas aparentemente contraditórias: o debochado provocador e o compositor sério (cuja estatura de fato iria aumentar através dos anos e cujo culto sempre permaneceu intenso)” – como diz a Enciclopédia do Rock da Rolling Stone (pg 1106). Num ato de radicalismo que não é estranho a esse excêntrico gênio do rock moderno, desfez sua banda e refugiu-se no estúdio com novas companhias para gravar aquele que se tornaria um de seus discos mais notáveis: o monstro de jazz-rock dos infernos que é esse Hot Rats.

Acompanhando-o nessa jornada estavam seu velho amigo Captain Beefheart (que canta “Willie The Pimp”, única música com vocais do disco), o multi-instrumentista francês Jean Luc Ponty (que em 1970 lançaria o aclamado King Kong, só com composições de Zappa), o violinista Don ‘Sugarcane’ Harris e ainda Ian Underwood (que já havia colaborado com Zappa em Uncle Meat).

Hot Rats une radicais improvisos em que os saxofones e as guitarras endoidecem loucamente, em um pandemônio que lembra o free jazz de Ornette Coleman e Peter Brötzmann (“Gumbo Variaton” a mais incrível delas), com canções mais palatáveis e digeríveis (“Peaches Em Regalia”). Este álbum já prenuncia o trabalho de outro grande mestre do crossover entre as facetas mais radicais do rock com o jazz, John Zorn, que décadas depois marcará época fazendo o hardcore mais agressivo usando saxofones como tática de ataque. O Funhouse dos Stooges, um dos mais originais álbuns punk da história, também não existiria sem Hot Rats.

Neste álbum, provavelmente o melhor de sua carreira nos anos 60 (apesar do impacto cultural maior de Freak Out!), Frank Zappa está no cume de sua genialidade. Ele prova para qualquer cético o quanto ele tinha de inventividade musical em sua fusão de jazz e rock – e quanto era um guitarrista fudido de bom e com um estilo próprio bastante fresco e original. Em 6 músicas, três delas passando dos 9 minutos de duração (“Gumbo Variation” bate nos 16!), Zappa passeia com segurança, confiança e muito groove por esses 47 minutos de música brilhante - que consegue soar sofisticada e empolgante, ao mesmo tempo, o que não é coisa das mais fáceis de atingir. Não há nem sinal do deboche zappiano clássico, já que Hot Rats é um dos “discos sérios” da carreira do compositor, onde a sátira e as piadinhas escatológicas saem completamente do quadro, deixando subsistir somente som – e que som!

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“A genius of the guitar and a great producer and composer, Zappa left an immense musical legacy to be explored, much still hidden and all illuminated by a intellect that was lyrical and farsighted, when it was not obscured by its polemic trait. He had almost a philosophical attitude to music, the absolute liberty of being and playing without barriers or boundaries. Radical sounds were sewn into musical contexts never touched on by other pop musicians, in a sort of stylistic nomadism across all the territories he defined “conceptual continuity”; pop melodies were woven into jazz and virtuoso instrumentals; sequences of sounds and fragments of conversation were attached to extraordinary music. Zappa painted panoramas that surpassed sound to become culture.

(...) Zappa’s concerts with the Ensemble Modern in 1992 were a real event for the conservative world of classical music. A rock composer spearking in the tongue of the classics and proposing a sort of fragmentary yet coherent “suite”, using a quite personal linguistic crossover (linked to both his previous 30 years of work in rock and to the development of classic post-Schoenberg language) was not a common or easily digestible event. The Ensemble’s immaculate rendition empowers Zappa’s skill for constructing scores, and allows the referenced substrata to emerge – Webern, Stravinsky, Ligeti, Varèse, Bartok – as 20th century classical music as read and experienced through the Zappa composition. These final compositions may not be the favorite listening of those who prefer Zappa’s histrionics as a satirist, or his fluid, errant guitar solos, but they are definetely worthy products that delve into the depths of the restless soul of a musician who was totally immersed in such a complex century.” (ASSANTE)

DOWNLOAD (mp3 de 192kps - 63 MB - 6 faixas - 47 min):
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