
:: ANTI-TERRORISMO LÍRICO ::
- Sobre os escombros do World Trade Center, o Sleater-Kinney ergue um colossal edifício punk celebrando o questionamento e o direito à discórdia nos EUA da paranóia e da patriotada -
“Are we innocent, the paragons of good?
Is our guilt erased by the pain that we've endured?”
"COMBAT ROCK"
Este é também o primeiro disco que Corin Tucker gravou depois de ter se tornado mãe - tanto que o tema da maternidade é explorado, com excelentes efeitos, em canções como "Far Away" e "Sympathy". One Beat ganha outra dimensão se for ouvido com isto em mente: é um álbum nascido da alma de uma mamãe-punk que vê seu país entrando numa era de instabilidade política extrema: ela vê a pátria-mãe atacada por fanáticos religiosos, testemunha seus "símbolos de poder" sendo reduzidos a ruínas e a "máquina de guerra" bushiana preparando-se para ir se vingar (e surrupiar um pouquinho de petróleo, é claro!) no Oriente Médio.

Aqui Corin e sua trupe, em seu disco mais ferozmente político (mas que não é por isso menos divertido), aparece vociferando com um ímpeto inaudito: como se ela tomasse maior consciência do mundo (e suas sangrentas intrigas geopolíticas) agora que uma criança sua vive nele. A vontade transformadora e crítica se intensifica, como se ela não quisesse legar aos filhotes um mundo cheio de Georges Bush, Bin Ladens e outros genocidas...
“Now all that's on the surface are bloody arms and oil fields”, cantam as meninas já nas primeiras estrofes do álbum. Esta situação trash – em que sangue e petróleo mesclam-se em sombria poesia, de modo semelhante à trama do Sangue Negro de Paul Thomas Anderson (aliás um dos mais geniais filmes da década) - fixa o clima emocional do disco. Mas o Sleater-Kinney não é da turma da paranóia nem do derrotismo. Pelo contrário!
“Far Away” é a primeira das canções que trata explicitamente do 11 de Setembro. Mas o clima aqui é mais de crônica do que de batalha (como se tornará em “Combat Rock”, canção muito bem batizada). “Far Away” descreve uma mãe cuidando de sua criança no sofá quando recebe um telefonema que informa da catástrofe em Manhattan: “Turn on the TV / Watch the world explode in flames / And don't leave the house!”. Aí está resumida a experiência que tiveram milhões de americanos naquela manhã de terça-feira onde foram despertados do pseudo-ídilio do american-way-of-life pelo alarme aflitivo da CNN Breaking News, que trazia, em clima de pesadelo, a notícia literalmente bombástica: "America Under Attack".
Mesmo aqueles que não tinham parentes dentro do WTC devem ter se perguntado com aflição: estará começando a Terceira Guerra Mundial? O Império Americano começa a ruir? Este é só o começo de um banho de cabeças inocentes que vão rolar para agradar a Alá? Será este o pior momento possível para trazer crianças a este mundo e a este país?
Corin descreve a sensação de ter o coração ferido (“the heart is hit”) pelos acontecimentos numa “cidade distante” mas que sente “tão próxima” (“in a city far away... but it feels so close!”). Como se tivesse composto ainda sob o impacto da tragédia sobre as retinas, descreve a bravura dos homens simples que arregaçaram as mangas para “darem suas vidas” enquanto o presidente se escondia (“the president hides while working men rush in to give ther lives”).

Pode-se até ler aqui uma pontinha de patriotismo que se assemelha àquele vinculado pelos filmes que louvam a audácia e a generosidade dos bombeiros e homens-de-resgate que, naquele dia, meteram-se em meio dos escombros, à caça de sobreviventes, muitas vezes não retornando vivos... Mas One Beat não é nada ingênuo, nem adere à patriotada ideológica, soando muito mais autêntico e questionador do que uma obra como o Torres Gêmeas de Oliver Stone.
Ela afirma-se, sem medo, cônscia de que discordar não é trair e que ser patriota não é ser uma ovelha que segue cegamente o que manda o pastor -- no caso, o Senhor da Guerra. "If we let them lead us blindly / The past becomes the future once again", já haviam cantado em "One Beat", a primeira faixa, e aqui retorna o mesmo espírito de ceticismo e questionamento: se nós nos deixarmos guiar por estes lunáticos que estão no poder, sem pôr em questão seus atos sangrentos, o passado se tornará o futuro mais uma vez - ou seja, a história regridirá à barbárie.
“Are we innocent, the paragons of good? Is our guilt erased by the pain that we've endured?” [Somos inocentes, paradigmas do bem? Nossa culpa foi apagada pelo sofrimento que suportamos?] Com essas palavras, pronunciadas como se fossem perguntas feitas à sua nação, Corin destroça todo o maniqueísmo hollywoodiano que Bush quis instaurar após o baque, fingindo que os yankees eram pobres inocentes injustamente feridos e que o “terrorismo muçulmano” trazia reunidos em si todo o diabolismo do mal absoluto. “Where is the questioning, where is the protest song? Since when is skepticism un-american?” [Cadê o questionamento, cadê a canção de protesto? Desde quando o ceticismo é anti-americano?]
In Hollywood where all the lights are lowAnd truth's as rare as the winter snowShe wanted a place arid as her soulWhere her only job was never to grow oldWhen the lights are shining, will you see my skin?Or just the shell that I'm packaged in?I've held my tongue and I've hid my soresIf I'm less of myself, will you love me more?
“With One Beat, Sleater-Kinney have turned in an album that absolutely, positively obliterates the gender card, an album so colossal that all prefixes to the label 'rock band' must be immediately discarded”.
Num momento histórico em que os “mocinhos” made in USA tacavam mil bombas no Afeganistão para limpar a Terra dos “inimigos da civilização” (ou seja, os fanáticos de uma outra religião, que não a do capital...), o Sleater-Kinney não se fez nem de crédulo, nem de ingênuo. Fez o que é missão histórica do punk fazer, mas que este anda fazendo tão pouco e tão mal: questionar, incomodar, provocar. Que este álbum não tenha "estourado" como um fenômeno de massas, como tanto merecia, só prova o quanto o mainstream é burro. Mas o fatos destas músicas terem ficado longe de se tornar hits não faz com que a nobreza das intenções seja menos admirável, nem que o poder destas canções seja menos estrondoso.


















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