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quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

:: shake you and your fossils out ::


:: ANTI-TERRORISMO LÍRICO ::

- Sobre os escombros do World Trade Center, o Sleater-Kinney ergue um colossal edifício punk celebrando o questionamento e o direito à discórdia nos EUA da paranóia e da patriotada -

“Are we innocent, the paragons of good?
Is our guilt erased by the pain that we've endured?”

"COMBAT ROCK"



One Beat, o magnum opus do Sleater-Kinney e um dos álbuns de rock mais estupendos da década passada, foi composto e gravado pouco depois do atentado às Torres Gêmeas. Tanto que alguns críticos o consideraram como um dos primeiros álbuns que sintetizam e exploram o novo zeitgeist americano, especialmente pelas canções de protesto e comentário social que o disco carrega. Pode ser enquadrado na onda de álbuns pós-11 de Setembro que retrataram os EUA após o baque, como fez Bruce Springsteen com seu The Rising e Tori Amos com seu Scarlet's Walk, ambos de 2002 (e que já foram alvo até de um estudo acadêmico).

Se Spike Lee, em seu A Última Noite, foi o primeiro a registrar no cinema o cenário de Manhattan dominado pela ausência das torres, colorido pelos melancólicos holofotes azuis de uma cidade tomada pelo blues, o Sleater-Kinney foi a primeira banda de rock a cometer uma obra-de-arte contundente sobre a realidade sócio-política peçonhenta da nova década, parida em meio ao sangue e aos escombros.

Este é também o primeiro disco que Corin Tucker gravou depois de ter se tornado mãe - tanto que o tema da maternidade é explorado, com excelentes efeitos, em canções como "Far Away" e "Sympathy". One Beat ganha outra dimensão se for ouvido com isto em mente: é um álbum nascido da alma de uma mamãe-punk que vê seu país entrando numa era de instabilidade política extrema: ela vê a pátria-mãe atacada por fanáticos religiosos, testemunha seus "símbolos de poder" sendo reduzidos a ruínas e a "máquina de guerra" bushiana preparando-se para ir se vingar (e surrupiar um pouquinho de petróleo, é claro!) no Oriente Médio.


Por isso a "esfera pessoal" acaba tão penetrada pela "esfera política". Jenniffer Kelly, da revista Splendid, destaca que este álbum “excelente” é uma lição de que “o pessoal é político" e "o político é pessoal". Pois Corin Tucker (gtr/vox), Carrie Browstein (gtr/vox) e Janet Weiss (bateria), que integram o power-trio, são brilhantes nesta mescla entre o indivual e o coletivo neste punhado inesquecível de canções. One Beat, apesar de não ser um disco conceitual, é perpassado pela angústia e a indignação de uma mãe que mostra-se preocupada com o futuro de sua criança em meio a uma conjuntura global tão desastrosa e cheia de perigos. E Corin Tucker, cantando (lindamente) sobre suas aflições, batalhas e alegrias, conquista neste disco um vocal comovente e catártico, sem perder nem um grão do punch.

Aqui Corin e sua trupe, em seu disco mais ferozmente político (mas que não é por isso menos divertido), aparece vociferando com um ímpeto inaudito: como se ela tomasse maior consciência do mundo (e suas sangrentas intrigas geopolíticas) agora que uma criança sua vive nele. A vontade transformadora e crítica se intensifica, como se ela não quisesse legar aos filhotes um mundo cheio de Georges Bush, Bin Ladens e outros genocidas...

“Now all that's on the surface are bloody arms and oil fields”, cantam as meninas já nas primeiras estrofes do álbum. Esta situação trash – em que sangue e petróleo mesclam-se em sombria poesia, de modo semelhante à trama do Sangue Negro de Paul Thomas Anderson (aliás um dos mais geniais filmes da década) - fixa o clima emocional do disco. Mas o Sleater-Kinney não é da turma da paranóia nem do derrotismo. Pelo contrário!

“Far Away” é a primeira das canções que trata explicitamente do 11 de Setembro. Mas o clima aqui é mais de crônica do que de batalha (como se tornará em “Combat Rock”, canção muito bem batizada). “Far Away” descreve uma mãe cuidando de sua criança no sofá quando recebe um telefonema que informa da catástrofe em Manhattan: “Turn on the TV / Watch the world explode in flames / And don't leave the house!”. Aí está resumida a experiência que tiveram milhões de americanos naquela manhã de terça-feira onde foram despertados do pseudo-ídilio do american-way-of-life pelo alarme aflitivo da CNN Breaking News, que trazia, em clima de pesadelo, a notícia literalmente bombástica: "America Under Attack".

Mesmo aqueles que não tinham parentes dentro do WTC devem ter se perguntado com aflição: estará começando a Terceira Guerra Mundial? O Império Americano começa a ruir? Este é só o começo de um banho de cabeças inocentes que vão rolar para agradar a Alá? Será este o pior momento possível para trazer crianças a este mundo e a este país?

Corin descreve a sensação de ter o coração ferido (“the heart is hit”) pelos acontecimentos numa “cidade distante” mas que sente “tão próxima” (“in a city far away... but it feels so close!”). Como se tivesse composto ainda sob o impacto da tragédia sobre as retinas, descreve a bravura dos homens simples que arregaçaram as mangas para “darem suas vidas” enquanto o presidente se escondia (“the president hides while working men rush in to give ther lives”).


Pode-se até ler aqui uma pontinha de patriotismo que se assemelha àquele vinculado pelos filmes que louvam a audácia e a generosidade dos bombeiros e homens-de-resgate que, naquele dia, meteram-se em meio dos escombros, à caça de sobreviventes, muitas vezes não retornando vivos... Mas One Beat não é nada ingênuo, nem adere à patriotada ideológica, soando muito mais autêntico e questionador do que uma obra como o Torres Gêmeas de Oliver Stone.

“Combat Rock”, cujo título ecoa um álbum tardio do Clash, traz o Sleater pondo o dedo na ferida americana e provando que esta não é uma banda patriótica, que vai cair de joelhos aos pés das pulsões bélicas de George W. Bush e lamentar ingenuamente a pobre vítima americana judiada pelo sadismo grotesco do Islã... Pelo contrário: “Combat Rock” vem para reclamar o direito à discordância e à voz dissidente. “Dissent's not treason, but they talk like it's the same / Those who disagree are afraid to show their face” [Discordância não é traição, mas falam como se fosse o mesmo / Aqueles que discordam têm medo de mostrar a cara] - canta Corin Tucker, de modo truncado, como se suas palavras de discórdia saíssem com dificuldade da garganta, como se sua língua estivesse ameaçada de amputação pelas autoridades (e como se, ainda assim, ela não se acovardasse e não se calasse).

Ela afirma-se, sem medo, cônscia de que discordar não é trair e que ser patriota não é ser uma ovelha que segue cegamente o que manda o pastor -- no caso, o Senhor da Guerra. "If we let them lead us blindly / The past becomes the future once again", já haviam cantado em "One Beat", a primeira faixa, e aqui retorna o mesmo espírito de ceticismo e questionamento: se nós nos deixarmos guiar por estes lunáticos que estão no poder, sem pôr em questão seus atos sangrentos, o passado se tornará o futuro mais uma vez - ou seja, a história regridirá à barbárie.

“Are we innocent, the paragons of good? Is our guilt erased by the pain that we've endured?” [Somos inocentes, paradigmas do bem? Nossa culpa foi apagada pelo sofrimento que suportamos?] Com essas palavras, pronunciadas como se fossem perguntas feitas à sua nação, Corin destroça todo o maniqueísmo hollywoodiano que Bush quis instaurar após o baque, fingindo que os yankees eram pobres inocentes injustamente feridos e que o “terrorismo muçulmano” trazia reunidos em si todo o diabolismo do mal absoluto. “Where is the questioning, where is the protest song? Since when is skepticism un-american?” [Cadê o questionamento, cadê a canção de protesto? Desde quando o ceticismo é anti-americano?]

Mas nem só de terrorismo e de maternidade trata o amplo leque temático de "One Beat". A provocação cultural, típica de uma banda que volta e meia sugeria em suas canções algumas revoluções de costumes, volta aqui e acolá. Como em "Step Aside", irresistível épico punk-pop que não teme ressuscitar o "peace and love" hippie em meio a um naipe de metais tão empolgante que nos arranca calafrios de excitação. Ou como em "Hollywood Ending", em que os holofotes recaem sobre uma personagem (que poderia muito bem ser influenciada pela protagonista de Cidade dos Sonhos, de David Lynch) que tenta viver o grande sonho de Hollywood, mas que é descrita como se atravessasse um pesadelo de artificialidade, desmontado pela cáustica ironia da narradora. Há certos trechos que sugerem até um certa influência da Escola de Frankfurt, como se o Sleater-Kinney tivesse tentado compor um punk que pudesse agradar a Theodor Adorno:

In Hollywood where all the lights are low
And truth's as rare as the winter snow
She wanted a place arid as her soul
Where her only job was never to grow old

When the lights are shining, will you see my skin?
Or just the shell that I'm packaged in?
I've held my tongue and I've hid my sores
If I'm less of myself, will you love me more?
Como se não bastasse, alguns punkões despretensiosos ("Oh!" e "Light Rail Coyete" se destacam) recheiam o álbum mantendo o grau de energia sempre lá no alto. Tudo isso faz com que One Beat seja, em nossa humilde opinião, um dos grandes álbuns do rock americano na década passada. Rob Mitchum, na Pitchfork, destaca a impossibilidade de reduzir um álbum tão “colossal” como este a um “cartão de gênero”, à “jaulinha” estreita de um “estilo” preciso.

“With One Beat, Sleater-Kinney have turned in an album that absolutely, positively obliterates the gender card, an album so colossal that all prefixes to the label 'rock band' must be immediately discarded”.

Sim: One Beat nos dá a impressão de que estamos diante de algo de uma riqueza tamanha que não cabe dentro de rótulo algum. O que não impede que arrisquemos inseri-lo numa certa linhagem histórica. Onde é que se encaixa este demônio-de-disco na árvore genealógica do rock'n'roll? No galho que sai de London Calling, passa por Nevermind e desemboca em Is This It? Como se a semente plantada pelo riot-grlll recebesse um “up” e se tornasse uma árvore mitológica e “épica” como o Led Zeppelin? O tipo de exuberante vegetação que cresceria se o Blondie gravasse um disco inspirado no Fun House, dos Stooges, mas com um espírito combativo à la The Clash? Ou então como se adubássemos com Pearl Jam a música de garotas amantes da new wave e do bubblegum? Todas opções mais ou menos válidas.

As meninas do Sleater, anos atrás, cantavam num memorável refrão: “quero ser seu Joey Ramone!”. E na sua frutífera carreira, encerrada em 2004 com o lançamento do belo canto-de-cisne The Woods, cometeram alguns dos punks mais deliciosos e divertidos dos últimos anos (como a genial “You're No Rock and Roll Fun”). Mas em One Beat que atingiram sua plena maturidade. Mas maturidade não significa caretice: só uma mescla ainda mais poderosa de diversão e política, de rock'n'roll fun e ativismo, que não carece nem de energia bruta (raw power, baby!) nem dum "recheio ideológico" riquíssimo.

Num momento histórico em que os “mocinhos” made in USA tacavam mil bombas no Afeganistão para limpar a Terra dos “inimigos da civilização” (ou seja, os fanáticos de uma outra religião, que não a do capital...), o Sleater-Kinney não se fez nem de crédulo, nem de ingênuo. Fez o que é missão histórica do punk fazer, mas que este anda fazendo tão pouco e tão mal: questionar, incomodar, provocar. Que este álbum não tenha "estourado" como um fenômeno de massas, como tanto merecia, só prova o quanto o mainstream é burro. Mas o fatos destas músicas terem ficado longe de se tornar hits não faz com que a nobreza das intenções seja menos admirável, nem que o poder destas canções seja menos estrondoso.

"One Beat" [2002]
(Para degustar, abra o forno dos comments!)
SIGA EXPLORANDO: PITCHFORK --- DUSTED --- NEUMU --- SPLENDID --- ALLMUSIC.

sábado, 5 de dezembro de 2009

Rockin' the party


LUDO
por Francine Micheli

Já te aconteceu de olhar uma pessoa e pensar: "esse é o/a homem/mulher da minha vida"? Pois bem, foi exatamente essa sensação que eu tive quando ouvi pela primeira vez esses malucos do LUDO. Exageros à parte, achei mesmo que teria direito a arrepio na espinha, sangue gelado e borboletas no estômago. Aquela banda pela qual eu gastaria 40 dólares num cd (ou $9,99 no iTunes), da qual eu comentaria com todos os meus amigos, a qual eu ouviria toda noite antes de dormir.

A minha experiência pessoal com esse quinteto foi muito por acaso, durante fuçações na internet no distante começo de 2008. Quando vi pela primeira vez o videoclipe de "Love me dead" - o grande çuçeço da banda, o coração acelerou.

Vinda diretamente de St. Louis - EUA, e com um nome até bastante xexelento, LUDO é uma daquelas bandas extremamentes viciantes que te fazem recusar a cervejinha do final de semana ou até mesmo esquecer que seu namorado ta te esperando com a barraca armada no quarto.

O power pop que eles fazem é irônico, inteligente, cheio de non-sensices e mais do que dignos de capas em NME, Rolling Stone ou Clashs da vida.

Além de tudo, o lider e vocalista Andrew Volpe tem um quê de Jim Carrey que quando se junta ao seu vozeirão de potência elástica faz emergir um artista mais do que completo, pronto pra abrir os braços e ter o mundo inteiro aos seus pés. Mesmo com seu sex appeal de chimpanzé reumático.
Resumindo, é tipo aquela banda que você daria tudo pra fazer parte dela. (isso é um comentário particular).

Fazia muito tempo que não via um clipe de tamanha criatividade - e aproveitamento de orçamento limitado, o que prova de uma vez por todas que, como diria o profeta Faustão, essa é uma das maiores bandas dos últimos tempos. Eu acrescentaria dos últimos tempos que ainda estão por vir, graças ao (não por muito tempo) anonimato no choubiznes. E tanto é que o çuçeço dos caras já foi previsto pelo Dr. House, cuja penúltima temporada conta com a mesma "Love me Dead" na trilha sonora. É pura poesia e frases como "How's your new boy? Does he knows about me? You've got the mark of the beast" pululam disco abaixo.

O primeiro cd "LUDO" é um garajão de primeira, já "You're awful, I love you" é de estourar os tímpanos, contagiante como ele só. "Broken Bride", o terceiro, segue a mesma linha, mas com uma maturidade maior sem deixar de lado o lado pop, indie, rocker, ou qualquer coisa que possa identificar a banda.

DOWNLOAD

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

:: Kyuss ::

Antes da idade da pedra
- Bernardo Santana -


Lançado em 1992, Blues For The Red Sun foi o segundo — e melhor — disco da curtíssima e ensurdecedora carreira do Kyuss (pronucia-se "cáius", a propósito). Talvez você tenha ouvido falar dos caras como sendo “a primeira banda do cara do Queens of the Stone Age” ou “aqueles doidões que tocavam no deserto”, ou quem sabe como “os precursores do Stoner Rock”, ou algo que o valha… mas o Kyuss merece, com certeza, muito mais que isso na história do tiozão barrigudo que é o rock and roll.

Na época com dezenove aninhos, Josh Homme já mostrava em Blues todo o peso malemolente de sua guitarra. Aliás, na minha humilde opinião subjetiva, nunca mais (e eu disse NUNCA MAIS) desde então o cara soou tão certeiro em seus riffs. O peso bíblico de Writhe, Apothecaries' Weight e Molten Universe que o digam. Mas o grande mérito do Kyuss daquela época — e do disco aqui pirateado, por conseguinte — sobre o Queens, por exemplo, foi contar com muito mais do que a habilidade do molecote Homme para fazer seu barulho.

Diferente das rainhas chapadas de hoje em dia, a banda que gravou Blues contava com um vocalista de verdade, um batera até hoje apontado como influência em som pesado (e baita compositor também) e um baixista que sabia inserir groove verdadeiro no meio da pancadaria. Todas as músicas do disco têm um esmero instrumental impressionante, mas sem a frescura tão peculiar e contraditória do metal atual. Muito mais que seguir o esquema intro-verso-refrão, o Kyuss subvertia as estruturas da música popular, cagando montes pra necessidade de achar refrões ganchudos e congêneres. Aliás, as cinco músicas instrumentais espalhadas por seu segundo disco conseguem a façanha de serem alguns dos pontos altos da bolacha. Ouça Catterpillar March e tire a prova. Todo o trabalho perfeito dos instrumentos, no entanto, não tira o mérito de John Garcia, vocalista esganiçado-agressivo que, nas ocasiões em que aparece cuspindo seus impropérios, faz você entender por que o Kyuss não decidiu ser “só” uma banda instrumental.

É só pra encerrar a seção de comparações covardes; durante toda a audição do disco percebe-se que aqueles barulhinhos gravados lá no fundo nas músicas do QOTSA também não são tão novidade assim. Aliás, aqui eles ajudam a fornecer o forte tom psicodélico-do-deserto, que ficou bem mais acentuado nos álbuns seguintes do Kyuss, e são essenciais para completar o clima de Black Sabbath em jam psicodélica do disco.

Não que mude alguma coisa, mas o fato de que a banda alcançou tudo isso quando seus principais compositores ainda nem tinham chegado na casa dos vinte é de fazer muito músico por aí entrar em desespero. E nem pense em contar pra eles que Blues For The Red Sun foi considerado um dos 50 álbuns mais pesados da história pela revista inglesa Q. Se você é músico, foi mal. Se não é, baixe a bolachinha agora, ignore o que é “afinação baixa” e divirta-se enquanto tenta descobrir como bater cabeça e rebolar ao mesmo tempo…

[Nota pós-cagada: avisado por nosso excelso administrador, o sr. Lux Lúcio, tomei conhecimento de que este disco já havia sido postado no Depredando. Duas vezes. Sendo assim, vai também o resto da discografia dos minino pra não ficar muito feio.]

Wretch [1991]
DOWNLOAD: 87 Mb - 11 faixas


Blues For The Red Sun [1992]
DOWNLOAD: 89 Mb - 14 faixas


Welcome To The Sky Valley [1994]
DOWNLOAD: 90 Mb - 11 faixas


...And The Circus Leaves Town [1995]
DOWNLOAD: 90 Mb - 13 faixas

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

:: Bolo!!! ::


CAKE
... e a arte de ser esquisito
por Francine Micheli


Certas bandas parecem ter sido criadas para levar o carimbo de favoritas pra sempre. Assim, instantaneamente e com força, CAKE é uma dessas aí e a receita do bolo é curiosa: bom humor, ingenuidade, róquenrol e um trompete preguiçoso que se mete em tudo.

Parece que foi ontem que uma versão doida de "I Will Survive" rolava por aí nas rádias. Sem lantejoulas, Vincent Di Fiore e seus comparsas mandaram ver cantando a dor de quem descobriu que o ser amado era um bosta. A música tornou a banda mais conhecida em 1996 (ela tá na estrada deste 1991) e trouxe uma esperança aos que não aguentavam mais o grunge empesteando a década de noventa.

A banda californiana então pegou a veia da coisa: muitas letras non sense e aparentemente infantis com a mistureba de ska, country, jazz, rap e pop (tudo com trompete no meio) fez com que o vocalista John Mc Crea criasse um jeito peculiar de cantar: muitas vezes ele recita a letra nas músicas. Tudo isso foi suficiente para classificar o CAKE como rock alternativo, não?

Lançado em 1998, o disco Prolonging the Magic traz preciosidades como a grooveada e mau humorada "Sheep go to Heaven". No mesmo álbum, "Satan is my Motor", que não tem nada de diabólica é, digamos, uma coisa fofa. Ah, a famosa e carentona "Never There" está lá também.

O ponto forte da banda e o recheio do bolo é a unidade, o que possibilitou que os músicos viajassem por diferentes estilos e experimentalismos sem nunca perder a personalidade.

A mesma coisa aconteceu com o trabalho seguinte, Comfort Eagle, que trouxe uma dosezinha de elementos eletrônicos, como em "Meanwhile, Rick James...". Mas isso não tirou as levadinhas de guitarra que botam a gente pra dançar e trouxe até mais brilho à voz inconfundível de Mc Crea.

Pra dar um break, em 2007 lançaram uma coletânia de raridades e b-sides incendiários, que traz um cover não menos nervoso de "War Pigs", do Black Sabbath e mais: pra dar uma sofisticada na coisa, enfiaram versões de Frank Sinatra e Barry White na parada, com "Strangers in the Night" e "Never, Never Gonna Give You Up".

Particularmente, o som do CAKE serve pra colocar qualquer um pra cima e o mais legal é que eles resistiram à saída de vários integrantes (seis no total). Além de tudo os caras são engajados e sempre divulgam a importância da consciência ambiental e política, seja nos shows - onde eles presenteiam os fãs com mudas de árvores - ou pela internet a fora. A outra grande sacada foi criar dentro do site deles um espaço para que os fãs se comuniquem para dividir o transporte para irem até os shows! Eles não são mesmo uns bacanudos?

Parece que agora a banda deu um tempo nas apresentações (que infelizmente se concentram mais nos EUA e Canadá - damn it!) e estão pra lançar um novo cd ao vivo.

E por enquanto a gente aqui fica chupando o dedo... só sentindo o cheirinho dessa próxima fornada.

Baixa aí:







terça-feira, 8 de setembro de 2009

:: os álbuns da década ::


:: THE WHITE STRIPES ::
White Blood Cells (2001)
por Eduardo Carli

Eles me fizeram encarar mais de 20 horas de viagem (somando ida e volta), apertado numa van com mais umas 10 pessoas, quando foram escalados como headliners do primeiríssimo TIM Festival, em 2003, no MAM carioca. Sinal de que minha fissura pela banda, naquela época em que Elephant era alvo de intenso hype mundial, estava parecendo a de um junkie por sua droga de preferência. Quando eu e o Bernie nos metemos a enfrentar os mais de 750 quilômetros que separam Bauru do Rio de Janeiro, num bate-volta de esgotar os ossos de qualquer mortal, esse ato tresloucado era uma confissão do quanto o White Stripes era uma banda extremamente magnética. A gente toparia ir até o Pará pra vê-los.

O show, confesso, me decepcionou um tantinho - mas muito provavelmente não por culpa da banda (apenas dos pinos que Jack trazia no dedo), mas devido ao cansaço extremo que tinha deixado a jornada e as 4 bandas que vieram antes. Quando Jack e Meg adentraram o palco, o ato de permanecer de pé já era sentido por meu pobre esqueleto como um martírio digno de Cristo subindo o Gólgota. Acabei aproveitando bem mais os shows que precederam: a caleidoscópica viagem psicodélica colorida dos Super Furry Animals e o dance-punk-com-saxofones do The Rapture, que levou o Rio ao êxtase coletivo absoluto com "House of Jealous Lovers". Mas ficou na lembrança, indelével, o fato: os White Stripes tinham sido o ímã que me sugou para meu primeiro rolê pelo Rio de Janeiro (voltaria anos depois, para o funeral dos Los Hermanos), aventura que haveria de ficar na minha memória pessoal gravada como algo especial e inesquecível.

Nos idos de 2001, quando lançaram White Blood Cells, o White Stripes estava prestes a dar um salto: de banda local a fenômeno global. Em Detroit, no Michigan, terra natal da Motown, da General Motors e do MC5, o duo já vinha ganhando uma certa notoriedade desde 1997, tocando seu primário e rústico rock garageiro em pubs locais hoje antológicos como o extinto The Gold Dollar. O grande chamariz era, é claro, a formação pouco usual: os White Stripes não eram de fato uma banda completa, mas um casalzinho, cujas misteriosas relações a imprensa mexeriqueira não parou de investigar.

Tanto fuçaram que trouxeram a tona a bombástica revelação: Jack e Meg não eram irmãos, como costumavam contar nas entrevistas, não se sabia se por pilhéria ou na honestidade; mas haviam sido casados e se divorciado. Quando a Glorious Noise jogou na internet o certificado de matrimônio de John Anthony Gillis e Megan Martha White, o enigma se dissipou. Mas os Stripes, que dizem adorar a reserva e a privacidade, não cessaram de ser alvos de fofoca.

White Blood Cells foi o primeiro álbum que os Stipes gravaram longe da cidade natal: foram até Memphis, no Tenessesse, cidade onde Elvis Presley desfilou seu topete por tantas décadas, para registrar seu terceiro petardo. A banda, que sempre primou pelo minimalismo, também não deixou jamais de possuir uma sensibilidade pop que a tornava altamente explodível no mainstream. O segundo álbum, De Stijl, já lapidara um pouco a crueza do debut, mas ainda mantinha-se com os pés fincados na rusticidade - o próprio nome do álbum fazia referência a um movimento artístico holandês que utilizava somente cores e formas primárias, tendo influenciado pesadamente a visão gráfica e fashion dos Stripes.



Mas foi Blood Cells o disco que escancarou imensas portas para que Jack e Meg se tornassem a coisa gigante que se tornaram nesta década. A explosão da nitroglicerina viria de fato com o álbum seguinte, Elephant. Gravado em Londres e puxado pelo hit "Seven Nation Army", chegou à estonteante marca de 1 milhão de discos vendidos - o que, na era do MP3, não é performance desprezível. Mas nada disso teria sido possível se White Blood Cells não tivesse chegado na voadora contra as cercas de Detroit Rock City e tornado os Stripes nacionalmente famosos, numa época em que os olhos dos EUA voltaram-se para a Cidade dos Motores, onde haviam surgidos tantos fenômenos pop famosos na época - como Eminem e Kid Rock.

Havia ali canções de uma infantilidade absolutamente adorável, que contrastava radicalmente com a pose de mau e de machão que costuma ser comum nos líderes de bandas de rock por aí. Quando White cantava "I'm so tired of acting tough and I'm gonna do what I please", os versos soavam como um manifesto e um grito de libertação. Nos folkzinhos bonitosos "Hotel Yorba", "We're Gonna be Friends" e "Same Boy You've Always Known", Jack White soa com um eterno menino, com uma autenticidade que é rara de se encontrar em qualquer canto do showbizz. Mas os Stripes também conseguiam fazer um barulho dos diabos - como em "Fell In Love With a Girl", um punkaço de 1h30min que remete aos Undertones ou aos Buzzcocks, em que uma guitarra encorpada e a gritaria frenética de White nos fazem esquecer completamente a falta de um contra-baixo na banda. O clipe da música, feito com animação de Lego, foi recentemente eleito o melhor da década pela Pitchfork. Mas havia também muito amargor espalhado pela lírica whiteana. "It can't be love, cause there is no true love", canta no refrão de "The Union Forever", petardo cínico e quase niilista que cita também uma cancioneta presente no Cidadão Kane de Orson Welles.

A imprensa mundial judiou bastante da pequena Meg, sempre descrita como uma batera tosqueira. Sua óbvia limitação técnica, porém, em nada prejudica a interação quase instintiva do casal, que mesmo depois do desquite permaneceu musicalmente muito bem transado. A evolução de Meg através dos anos também é notável - e longe vão os tempos em que Jack, nos primeiros shows de Detroit, falava ao microfone, na maior cara-de-pau e sacanagem, "tem alguém aí que saiba tocar bateria? I need a new drummer!" Eu, que nunca fui de ficar pagando pau pros bateristas punheteiros ao estilo do Rush ou do Dream Theather, acho a Meg eficiente, simpática e gracinha - e precisa de mais? Sem falar que, como disse o Lúcio Ribeito, "a estilosa Meg nem toca tão bem assim; mas não precisa. Jack toca por ela, pelo baixista que não existe e por mais um time de guitarristas que não há, tamanha a habilidade e velocidade em levar o som do White Stripes do blues ao rock ao punk ao country em uma canção".

Hoje, Jack White, merecidamente, é um dos maiores rock-stars sobre a face do planeta azul - e foi White Blood Cells o primeiro passo de gigante nesta direção. De um duo detroitiano tosqueira, que poderia ter continuado como um evento underground como são o The Go, o Paybacks ou o Detroit Cobras, os White Stripes subiram em seu foguetinho vermelho-e-branco rumo ao extremo estrelato. Provas? Eles têm clipes dirigidos por alguns dos maiores bã-bã-bãs do cinema mundial, como Michel Gondry (que fez "Fell In Love With a Girl" e "Dead Leaves and the Dirty Ground") e Sofia Coppola (que filmou "I Just Don't Know What To Do With Myself"). O próprio Jack já se arriscou como ator hollywoodiano, em "Cold Mountain" (de Anthony Mingella) e "Café e Cigarros" (de Jim Jarmusch). Nas filmagens do primeiro, conseguiu inclusive garfar a belezinha da Renée Zellwegger, com quem se casou e rapidamente desquitou. Jack montou ainda duas bandas paralelas, que o público e a imprensa mundial acompanha com olhos atentos, o Raconteurs e o The Dead Weather. Sem falar que juntou-se a Jimmy Page e The Edge (do U2) para o documentário It Might Get Loud, e fez participações especiais kick-ass em shows de ninguém menos que os Rolling Stones - façanha registrada por Scorcese em Shine a Light. Tanto que circulam na net notícias quentes de que está trabalhando com ele... Keith Richards! Não é de salivar?

DOWNLOAD >>> http://www.mediafire.com/?keiwhywnatv

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

:: Dirty Pretty Things ::

A Puta Perdida
- por Bernardo Santana -

Após o final do Libertines, uma das bandas mais adoradas da década na Inglaterra (e das pessoas que queriam ter nascido na Inglaterra…), uma das duas cabeças do monstro saiu do eixo. Ficou louca, doida mesmo, pinel, fora da casinha. No caso, estamos falando do guitarrista/cantor/chave-de-cadeia Pete Doherty, a manchete preferida dos The Suns, News of the Worlds e Daily Stars da vida. Foi em boa parte graças à publicidade gratuita trazida por estes e outros tablóides ingleses, que Doherty conseguiu emplacar uma carreira até que meia boca de sua banda posterior, o Babyshambles. Apesar de ter se mostrado bem aquém do resultado perfeito dos discos do Libertines, os BS logo estavam populando paradas, programas de rádio e a mídia “alternativa” de todo o globo. E infelizmente, também estavam ofuscando o ouro que era o Dirty Pretty Things.



Carl Barât, outra cabeça do tal monstro e fundador dos Things, sempre foi o antipático da turminha. Enquanto Doherty era o loucão, o batera era o simpático e o baixista fazia figuração, Barât esbanjava carranca pra todo lado. Um ótimo exemplo disso foi a passagem apagada do próprio Libertines pelo Brasil. Tanto nos shows que fizeram quanto nas aparições na televisão (Altas Horas com Serginho Groisman!!?), o guitarrista não parecia nem um pouco a fim de estar onde estava. Talvez fosse reflexo da saída ainda recente do amigo Doherty da banda, mas o que se viu era um artista de desempenho frouxo e cantando o cansaço e o desânimo. Nada mais longe da verdade…

Este primeiro disco dos DPT, lançado em 2006, mostra a cara real de Barât. Melancólico e ressentido, sim, mas ainda assim, um puta músico e compositor. Talvez seja injusto dizer que ele fosse a metade criativa de sua banda anterior, mas a julgar pelo trabalho pós-Libertines, seu trampo fica, sim, a anos luz do feito pelo ex-parceiro. Desde as referências ao Clash dos bons (muito mais claras aqui do que nos discos dos “putinhas”), até aquelas guitarras confusas, mas estranhamente carismáticas, está tudo aqui. Punk, pós-punk, um pouco de reggae, e a assinatura indefectível das bandas pós-Strokes, jogados no mesmo balaio.

Ao lado do baixista Didz Hammond, ex-Cooper Temple Clause, Carl Barât compôs este Waterloo To Anywhere espumando pela boca pra provar que era capaz. As letras dão muitas vezes um tom de amargura claramente inspirado no divórcio litigioso que deu fim à sua primeira banda, como no single-chiclete Bang Bang You’re Dead (I knew all along/That I was right at the start/Bout the seeds of the weeds/That grew in your heart/(…)/Well I gave you the Midas touch/Oh you turned round and scratched out my heart).

Mas essa postura ranzinza não contamina o som de jeito nenhum. Muito pelo contrário: o disco é um daqueles raros exemplares de bolachas ensolaradas que passam sem um momento medíocre, seja em nome da “experimentação sem inspiração” ou da incompetência mesmo. Os pontos altos são vários, Doctors and Dealers, com refrão empolgante, o reggae cheio de passagens The Gentry Cove, o punk um pouco mais ortodoxo de You Fucking Love It, o climão de If You Love A Woman… Quaisquer, e QUAISQUER mesmo, das músicas poderia ser colocada aqui como ponto alto.


Infelizmente, o Dirty Pretty Things acabou se tornando (mais) um projeto fracassado de Barât, após um segundo disco menos inspirado. A banda encerrou suas atividades no ano passado, alegando que os membros se dedicariam a “coisas novas que não são o Libertines”. Deixaram como testamento um dos melhores registros de rock da década, sem dúvida, e a torcida para que esse inglês carrancudo mantenha uma constância de qualidade em seu próximo projeto. Porque, seja lá ele qual for, vai valer a pena esperar.

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

:: The Smiths ::

THE SMITHS,
"Strangeways, Here We Come" (1987)

por Jardel Sebba
(no Noite Passada Um Disco Salvou Minha Vida)


Eu só não lembro se foi no fim de 1989 ou no começo do ano seguinte. O resto é nítido: minha mãe trabalhava no centro do Rio e eu, de férias, ia junto para me enfurnar pelos becos da Cinelândia. Algumas paradas eram obrigatórias, duas em particular. As bancas dos partidos políticos, na porta da Câmara dos Vereadores, onde discutia-se acaloradamente sobre a esquerda no Brasil e o novo Marxismo (existiam essas duas coisas na época). E a rua adjacente ao Teatro Municipal, onde colecionadores (e alguns recém-adeptos ao CD) se encontravam para trocar e vender discos de vinil. Ali foi a minha primeira prévia do Soulseek, onde conheci e ouvi milhões de coisas que não estavam à venda nas Lojas Americanas, e onde, numa dessas levas, trouxe para casa o disco mais importante da minha vida.

Naquele momento, eu tinha quinze anos e a triste convicção de que a música pop era burra. Gostosa de ouvir, dançante, excitante, intrigante, pegajosa, porém burra. Da voz rouca do Paul Young na Rádio Mundial AM aos primeiros números da Bizz, passando pela temporada histérica do RPM no Canecão e pelo meu primeiro disco, o sensacional Colours by Numbers, do Culture Club, o gosto pela canção pop já havia se instalado de forma irreversível em mim ao longo dos anos 80. Eu gostava daquilo, meu pé não negava, meu coração menos ainda. E não fazia diferença se fosse o Ritchie de óculos escuros no Chacrinha ou o absurdo show do Motorhead no Brasil que passou na Manchete. "A Vida tem Dessas Coisas" e "Ace Of Spades" nunca estiveram tão próximas.

Acontece que estávamos entrando nos anos 90, e os tempos eram outros. A América Latina tinha presidentes liberais, o Leste Europeu era um território livre, o mundo começava um ciclo sem Guerra Fria e o Brasil entrava na era Collor. Mais importante, eu estava naquele preciso momento deixando de ser um moleque descompromissado para me tornar um moleque chato, pedante, metido em discussões sobre a estética da crueldade enquanto bandeira ideológica em Saló, de Pasolini, ou sobre o impacto dos ensaios de Camus sobre a condição humana. Nesse contexto, a minha adorada música pop continuava grudenta como gel New Wave, mas parecia burra, muito burra.

Foi nesse contexto que, umas duas semanas depois de ter sido comprado nas bancas do centro, Strangeways, Here We Come, dos Smiths, tocou pela primeira vez na minha vitrola e mudou a minha maneira de encarar a música. Ele tinha a resposta. Nunca, em nenhum outro momento da história da música pop, a canção obteve um tratamento tão luxuoso quanto no derradeiro álbum dos Smiths. Ali, a música pop deixava a seção de enlatados e passava a integrar a de biscoitos finos.


Num primeiro momento, Strangeways... parecia uma mulher linda mas sem assunto; você se apaixona por ela, mas não entende muito bem o motivo. Algo que não estava claro então, mas que já se instalava no inconsciente, era que aquele disco fazia algo sublime a quem gosta de música: elevava a música pop à categoria de obra de arte. Se deixar apaixonar pela obra-prima dos Smiths é entender um disco de música pop de outra maneira, é perceber o artigo de luxo que aquela embalagem pode conter. Nunca o mundo foi tão simples e tão intenso, nunca poderia imaginar que meia dúzia de canções poderiam ser tão ricas, tão vivas, tão belas. Tão admiráveis e, principalmente, tão coesas entre si.

A partir de então, passei a entender que havia uma diferença entre os discos: havia aquele, como o Strangeways..., que precisam ser admirados como uma obra de arte, com a continuidade e coesão que se enxerga um quadro ou uma peça de teatro, e outros cujas canções podem figurar na próxima coletânea caça-níqueis da gravadora ao lado de meia dúzia de hits e lados Bs sem constrangimento algum para o consumidor. Algum estraga prazer há de mencionar a expressão "disco conceitual" para lembrar que discos para serem entendidos de forma contínua não eram novidade em 1987. Bullshit. Nenhum disco pode ser mais conceitual e coeso do que um que abre com "Oh, I Think I'm In Love" e fecha com "I Won't Share You".

É isso: o primeiro passo para me apaixonar por Strangeways... foi entender, depois de algumas audições, que aquele era um disco que falava essencialmente de amor. O amor da juventude perdida, o amor pelo que se começa e não se termina, o amor pelo ceticismo, o amor pela namorada em coma, o amor que é apenas um pouco menor do que costumava ser, o amor de sonho na noite anterior, o amor pelo ódio de quem não merece amor, o amor pelo que foi sua vida, embora você pudesse ter dito não, o amor de alguém que está perto, o amor que não compartilha seu objeto de amor. Dez faixas, dez tipos de amor. Se um disco podia ser tão simples e complexo, e ao mesmo tempo falar de amor de forma tão cortante e direta, talvezeu não precisasse de nenhum daqueles livros e cineastas e ensaístas, mas tão-smente de um quarteto de Manchester.

Há algo de mágico no testamento dos Smiths. Da capa, com Richard Davalos, à primeira faixa sem guitarras, a sublime "A Rush and a Push and The Land is Ours" (aliás, quantas vezes você começou a ouvir um disco e levou uma pedrada como "Olá, eu sou o fantasma de Joe, o encrenqueiro, enforcado em seu lindo pescocinho 18 meses atrás. Disseram 'há muita cafeína no seu sangue, e uma ausência de sabor na sua vida', eu disse 'me deixem sozinho porque eu estou bem, apenas surpreso de ainda estar sozinho'"?). Da linearidade das faixas nos dois lados do vinil (cinco de cada lado, uma canção "difícil" abrindo, uma canção épica no meio) à primeira participação de Morrissey como intrumentista num disco da banda, no dedilhado de piano da soberba "Death of a Disco Dancer" (aliás, quão profética ela seria sobre o futuro de Manchester e seu clube mais famoso, o Hacienda?). Da descuidada mixagem que deixou a frase de Morrissey no fim de "I Started Something I Could'nt Finish" perguntando ao produtor se aquele era o take final ("Ok Steven, shall we do it again?") ao inusitado solo no meio da inacreditável "Paint a Vulgar Picture", que nada mais era do que um recurso para cobrir o buraco que surgiu com a exclusão de parte da letra em cima da hora (aliás, quantas confissões são tão sinceras e ácidas sobre a vida no showbusiness?). Da introdução doentia de "Last Night I Dreamt That Somebody Loved Me" à declaração de amor de "I Won't Share You" (na época, dizia-se que a gota d'água para a separação da banda teria sido o fato de JoOhnny Marr abandonar as gravações no meio para participar de discos do Bryan Ferry e dos Talking Heads. Seja lá que peso isso tenha tido, "I Won't Share You" faz todo sentido).

Aquilo que para mim era a introudção de uma banda que continuaria a mudar a minha vida, para a própria banda era o epílogo. Strangeways... começou a ser concebido em fevereiro de 1987, depois de uma mini-turnê européia. A banda chegou ao Wool Hall Studio, em Bath, num clima de euforia. Era um estúdio caseiro no meio do nada, e pela primeira vez ninguém precisava gravar correndo para voltar para casa. Bem servidos de álcool numa casa aconchegante, as jams varavam a madrugada. Pelo menos entre Marr, Rourke, Joyce e o produtor Stephen Street, já que mOrrissey dormia cedo, por volta das onze da noite, e não socializava nem quando deveria - há a célebre história do take de "I Started Something..." que o produtor levou para o cantor ouvir na sala de tevê. Street voltou para o estúdio informando que Morrissey não teria gostado de algumas passagens da gravação. Johnny Marr respondeu com um singelo "fuck him".

Na receita dos meses em que a banda se trancou para produzir o disco, muita cerveja, vinho e dancinhas ridículas ao som de Sign O' The Times, o então recém-lançado disco do Prince. Era o fim, mas nem parecia. Havia problemas, claro, as relações já haviam se desgastado, Johnny Marr, que havia entrado na banda aos 19 anos, sofria de estafa, e Ken Firedman era uma figura nefasta que rondava o estúdio e interrompia as jams para conversar em separado com a dupla de compositores da banda sobre dinheiro. Apesar de tudo, segundo o relato de quem esteve lá, os Smiths poucas vezes pareceram tão felizes e à vontade na vida.

Poderão surgir bandas melhores que os Smiths, letristas mais espetaculares que Morrissey, compositores mais geniais que Johnny Marr. Mas nunca mais haverá um disco como "Strangeways, Here We Come". Ele não é só um símbolo da música pop como produto de primeira necessidade. É, também, um antídoto contra a mediocridade. Sempre que ouço uma versão lamentável de alguma canção que eu gosto, ou quando inventam um hype sobre uma banda ruim, ou quando alguma farsa se apresenta como artista, ou quando vejo surradas jogadas de marketing que "chocam" a opinião pública, eu o coloco no toca-discos. Se um disco como aquele existe, não há razão para perder a fé na música pop.


DOWNLOAD (35 MB, 11 músicas, 128kps):
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domingo, 29 de junho de 2008

:: Morphine ::


:: MORPHINE, Cure For Pain (1993)

Meu Rito de Iniciação no Jazz
(uma resenha gonzo)
- por Eduardo Carli de Moraes -


Julho de 1999. Uma pequena banda americana de status cult subia ao palco na Itália ainda desconhecendo a armadilha que o futuro próximo lhe reservava. A incomum formação (batera, sax e baixão-slide de duas cordas) despejava sobre o público seu costumeiro jorro de música madrugadeira quando um dos membros do grupo foi atingido por um relâmpago cósmico daqueles de previsão sempre impossível. Por uma daquelas tragédias repentinas que despencam sobre cabeças humanas sem aviso prévio, Mark Sandman, 47, vocalista, baixista e letrista do Morphine, foi nocauteado por um ataque cardíaco. Saiu do palco em Roma e foi direto pro necrotério. Coisas da vida.

Devido àquela mania humana incurável de esperar que um certo sujeito morra para só então descobrir que ele prestava, foi somente após a morte de Sandman que a heróica Trama resolveu realizar os esforços necessários para presentear o defunto com um tratamento digno de seu legado. Todos os álbuns do Morphine caíram juntos nas prateleiras brasileiras: além dos 4 álbuns de estúdio (Good, Cure For Pain, Yes e Like Swimming), foram lançados também o póstumo The Night e o ao vivo Bootleg Detroit, possibilitando ao público brasileiro um conhecimento aprofundado da obra do finado trio. A dupla restante - Dana Colley e Bill Conway - juntou-se com uma nova vocalista e fundou nova banda, o Twinemen, que lançou seu álbum de estréia em 2003.

Meu primeiro contato com o Morphine se deu com esse Cure For Pain (1993, o segundo), um daqueles espécimes comprados totalmente "no escuro". Na época dessa compra (mazomeno 2000) eu estava ainda contaminado por certos preconceitos contra o jazz, produto das inevitáveis ortodoxias de um adolescente que não conseguia aprovar ninguém a não ser Papai Rock como monarca único na nação dos gêneros musicais. Jazz, sacumé, era música de velho, trilha sonora para asilos, uma desgraceira aborrecida onde não havia nada senão aquelas malditas cornetas assopradas em musiquinhas sonolentas... Jazz era palavrão. Foi somente pelo bem do meu Conhecimento Musical e da Expansão de Horizontes que decidi: vou comprar um disco de jazz. E fui de Morphine.

Minha expectativa de encontrar um grupo tranquilão e sonolento, provável escolha preferencial para curar insônias, foi rapidamente desvanecida quando a galopante linha de baixo de "Buena", a primeira faixa, estremeceu o ar. O vocalzão grave de Sandman, à la Nick Cave, entrou declamando uma letra sobre um demônio feminino, e o sax, de início discreto e envergonhado, se encorpou depois num solo de arrepiar... Bateu aquela surpresa: ENTÃO ISSO AÍ É QUE É JAZZ!? Cure For Pain, mesmo não sendo exatamente um disco de jazz, adquiriu pra mim um significado gigantesco como um ampliador de horizontes: serviu como uma ponte conduzindo meus interesses para além do indie, do punk, do grunge, do metau - do Rock em geral, enfim - e creio que possa realizar muitas benfeitorias semelhantes para quem ainda não passou por seu rito de iniciação no mundo do jazz. Sem o Morphine, eu provavelmente teria continuado por muito tempo a achar que Miles Davis, John Coltrane, Ornette Coleman e Donald Byrd, atuais prediletos da casa ouvidos em alta rotação, eram uns chatões que não mereciam atenção - sem nunca ter ouvido deles uma nota sequer.


Claro que pouca coisa no Morphine fase Cure For Pain e Yes, além da presença marcante do saxofone como instrumento protagonista, tem a ver com jazz, na acepção clássica da palavra. Essa música é puro rock and roll torporizado pelo excesso de whisky, construída com os arroubos de um inspirado saxofone que não teme fazer barulho e amparada por uma vigorosa seção rítmica minimalista. Músicas como "Sheila", "Thursday" e "Buena" são dotadas de um andamento rock and roller bem distanciado do costumeiro lenga-lenga do jazz tradicional. Viagens mais experimentais podem ser ouvidas, por exemplo, em "In Spite Of Me", uma baladinha baixa-fidelidade cantada aos sussurros sobre um dedilhado ágil no violão e no mandolin, ou nas duas faixas instrumentais, silenciosas e atmosféricas. E onde mais dá pra encontrar uma banda com suficiente moral pra plugar um sax num pedal wah-wah (!) e fazê-lo soar tão deliciosamente como no solo de "All Wrong"?

Mas o mais legal mesmo na música do Morphine é que ela nos afunda num universo todo particular. Assombrado por entidades femininas sensuais e tentadoras (muito provavelmente imaginárias, meras musas poéticas), Cure For Pain nos transporta para um ambiente sombrio de filme noir e que cheira a adultério, nicotina e crimes carnais... Um mundo de refúgios alcóolicos para noites invernais, devassidões inundadas com complexos de culpa, jogos de bilhar em salões decadentes, desmaios de porre em noitadas solitárias, serenatas sombrias que se estendem em bares suburbanos até a closing time, ascensões drogadas a outras dimensões... "Tenho uma cabeça com asas. A única coisa que mantêm minha cabeça conectada ao chão é um pequeno fio esquelético", diz "Head With Wings". Muito na música do Morphine sugere uma efêmera alegria que explode na noite fechada da mente devido à atuação de substâncias químicas. "Um dia ainda vão inventar uma cura para a dor / Esse é o dia em que vou jogar todas as minhas drogas fora", canta Sandman na belíssima faixa-título.

Não é à toa que ele chamou sua banda de Morfina: essa música é extremamente recomendada às veias de todos, lícita e socialmente aprovada, como um entorpecente musical que abre espaço para altos vôos mentais aliviantes. Morphine. Injete e ascenda.


DOWNLOAD (mp3 de 192kps - 46MB):
http://www.mediafire.com/?qwu3myx0ghq

sábado, 21 de junho de 2008

:: Days Of The New ::


:: Days Of The New - Days Of The New [1997] ::

A DIALÉTICA DA CÓPIA

Sendo um estilo definido exatamente por não ter estilo nenhum, é fácil de se aceitar que “grunge”, na verdade, nunca foi um termo pra definir música. Soundgarden, Nirvana, Pearl Jam e Alice In Chains (os originais e/ou grandes da turma) tinham em comum, em seus tempos áureos, muito mais a estética e a proximidade geográfica do que qualquer outra coisa… Assim como o punk rock, o grunge acabou sendo definido musicalmente mais por suas milhares de cópias dos originais do que pelos próprios.

É um processo até lógico: a cópia pega tudo o que mais “dá certo” (e grandes aspas extras aqui…) em todos os originais, apara toda e qualquer inconveniente aresta de transgressão e pronto – um bonito retrato desalmado da alma de um movimento. Triste, mas verdadeiro.

Agora, filosofias de boteco fora, não é raro um desses copiões aparecerem vez por outra com um disco – e às vezes até com carreiras inteiras, vide o Rancid – genial. É o caso deste primeiro trabalho do Days of the New

Aqui, a banda, antes de se tornar os Engenheiros do Hawaii do vocalista Travis Meeks, mostra o lúgubre, denso, tenso – e outros adjetivos terríveis – cerne do que foi o grunge. Munido só de dedilhados e riffs (?!) de violões, baixo e bateria, o Days of the News compôs uma polaróide quase perfeita da época das camisas xadrez. Ah, e uma pancada de músicas quase perfeitas também. Shelf in the Room; Touch, Peel and Stand; The Down Town; Now; What’s Left For Me?… Se não tiver tempo de ouvir o disco inteiro, essas já bastam pra entender do que se trata o lance: toda as agruras e angústias adolescentes de um pobre menino norte-americano, branco e galã transformadas em vários surpreendentes minutos de boa música.

Fede um pouco a espírito adolescente, mas não é sobre isso mesmo que deveria ser?!

DOWNLOAD (mp3 - 74 MB - 12 músicas - 72 min.)

http://www.mediafire.com/?lb3llu52txj

terça-feira, 3 de junho de 2008

:: Beulah ::



:: BEULAH - Yoko (2003)

Pra mim, este magnífico e injustamente subestimado Yoko é um dos melhores álbuns de "rock alternativo" nesta década - e olha que mil trecos ultra-diferentes se enquadram debaixo do teto desse hospitaleiro rótulo. Que diabos houve para que tão poucos tenham descoberto e caído de amores por essa pérola?!

Antes de ter ouvido esse álbum, eu não tinha o Beulah em grande conta. A banda parecia só mais uma dentre tantas que fez fama por ressuscitar a clássica música pop dos anos 60 através de canções adocicadas e semi-sinfônicas, mas sem conseguir trazer uma proposta nova para um futuro desenvolvimento do rock nos moldes sessentistas. O Beulah era só um coletivo retrô de reconstrução de um mundo sônico feito à imagem e semelhança dos Beach Boys, dos Beatles e dos Kinks. Tudo era bem ensolarado, bonitinho e cheio de melodias infantilmente contagiantes, mas eu sentia falta de uma certa dose de originalidade, de idiosincrasia, de ímpetos ousados de forçar o gênero a uma evolução. Era como se eles acreditassem que a perfeição já havia sido atingida pelo pop das antigas e a única atitude cabível era imitá-lo. O Beulah era mais como um grupelho de crianças brincando no parque de diversões da psicodelia-pop sessentista, com um certo sabor lo-fi herdeiro do Pavement misturado ao caldo, mas onde faltava algo de distintivo que separasse a banda da multidão de outros grupos de proposta semelhante.

Haviam, é claro, os títulos das músicas, onde sobrava a criatividade que faltava na música ("Um Bom Homem É Fácil De Matar", "Se o Homem Pode Pousar Na Lua, Eu Certamente Posso Ganhar Seu Coração", "Eu amo John, ela ama Paul" e "Mecânica Popular Para Amantes" entre elas). Mas no fim o veredicto era: o Beulah certamente era uma das bandas menores dentre a galera da “nova psicodelia” da Elephant 6, não tão boa quanto o Neutral Milk Hotel ou o Olivia Tremor Control, mas que ainda assim conseguia ser simpática e acariciadora dos ouvidos. Banda passável, mas que deixava lá no fundo da boca, após a degustação de The Coast Is Never Clear ou When Your Heartstrings Back, aquele gostinho de comida requentada...

“Yoko”, o quarto (e derradeiro) full-lenght da banda, foi um imenso passo à frente para o Beulah. Este disco é um épico indie-rock grandioso, apaixonadamente eclético, duma musicalidade deliciosa e fluida. Foi com esse discaço que o Beulah se ergueu aos céus, aos meus olhos, tendo criado uma adorável e variada viagem pop que lembra o Summerteeth do Wilco ou o Grand Prix do Teenage Fanclub - um álbum com merecido lugar de honra no panteão de ouro do rock alternativo americano dos últimos anos. Uma grata surpresa vinda de uma banda que nunca pareceu capaz de parir tremenda obra-prima.

“My love is a lot like yours: it’s been crippled by the wars we wage. We’re hopeless. We’re on the losing side”, canta o vocalista Miles Kurowsky na primeira faixa deste “Yoko”, deixando claro que o antigo climão ensolarado foi momentaneamente afastado do céu beuliano. Em contraste com o material anteriormente lançado pela banda, o disco é realmente mais sombrio e melancólico do que seria de se esperar de banda outrora tão alegrinha. Mas ainda assim o Beulah continua sendo uma banda jovial e adequadíssima para curar melancolias suaves e depressões leves: uma vitalidade contagiante sempre se sobressai contra as sombras e a banda nunca escorrega para a morbidez joy-divisioniana.

A Dusted, revista eletrônica muito apreciável, disse o essencial: “[não há] nenhum traço de auto-piedade ou lambimento de feridas em ‘Yoko’, apenas uma nova gravidade lírica e um aproach um tanto mais maduro sobre o que já era uma quase-perfeita abordagem da canção pop. Se Heartstrings e Coast pintaram a banda como crianças em brincandeira na estética do pop anos 60, então eles cresceram um tanto nos últimos dois anos, refinando seus gostos de extendidos-demais para simplesmente versáteis”.

Nos meses de composição deste álbum, conta-se que quatro dos seis membros da banda passaram por divórcios ou relacionamentos de longa data finalizados, o que ajudaria a explicar as nuvens negras que deixam o ambiente nublado em “Yoko”. O nome do disco, aliás, provavelmente vai trazer à mente de quase todos a imagem de uma certa artista de olhinhos puxados famosa por ter capturado as atenções amorosas de John Lennon e por ter sido acusada de acabar com uma certa bandeca dos anos 60, servindo como um símbolo para o fantasma da Separação que assombra o álbum. Mas o título também pode ser simplesmente um acrônimo para “You’re Only King Once”, a faixa 3, lamentosa balada wilconiana que nos implora por um sorriso.

“Yoko” viaja num amplo espectro pop: passa pelo punk-pop garageiro barulhento e quase bubblegum (“Landslide Baby”, “Your Mother Loves You Son”, “My Side Of The City”), pela balada folk introspectiva (“You’re Only King Once”), pela balada épica e grandiosa (“Fooled With The Wrong Guy”), sempre com letras muito acima da média. Excelentemente produzido, o álbum traz os interlúdios entre as faixas recheados com barulhinhos atmosféricos que parecem saídos do Yankee Hotel Foxtrot do Wilco e contêm refrões soterrados lindamente debaixo duma parede de som spectoriana (“A Man Like Me").

O destaque supremo do disco, segundo as opiniões dos meus ouvidos deliciados, é certamente “Me and Jesus Don’t Talk Anymore”, uma canção pop que beira a perfeição. Pianos distantes se misturam às barulheiras foxtrotianas na longa introdução de um minuto, após a qual tudo se silencia. Kurowsky começa a cantar quase sem acompanhamento, a bateria começa a marcar o ritmo sem fazer estardalhaço e se encorpa na estrofe seguinte. No lindo pré-refrão, as guitarras entram rasgando acordes distorcidos enquanto ouvimos: “Though we are falling stars, we feel just fine”. A música vai num crescendo que culmina com o melhor momento do vocal de Kurowsky em todo o disco. Ele canta seu “your body's cold and you're going nowhere” com uma agudeza e uma emotividade não de se esperar de verso tão deprê, e tudo explode em “uh uh rúúúú! ahhhhhh ahhhhhs!” deliciosos, que preparam o caminho para solos de guitarra de derreter manteiga e metais de dar calafrios de delícia. É uma obra prima que traz à mente os melhores momentos do Wilco fase Summerteeth e uma das canções que certamente entraria num best of do indie-rock na década 00.

Resumo da ópera: nenhum outro disco do Beulah é tão competente em visitar ambientes tão diversos mantendo a homogeneidade e a fluência quanto Yoko. É aqui que a banda deixa de ser apenas um grupo que reverencia de joelhos os anos 60 e se transforma numa banda original, vigorosa, apaixonante, que anda por seu próprio caminho. E não chegou a ser má idéia dos caras acabar o percurso por aqui (o Beulah se desfez logo depois deste álbum, legítimo canto de cisne) . Pois como diabos eles conseguiriam compor um sucessor à altura?



DOWNLOAD (mp3 VBR - 67 MB) :
http://www.mediafire.com/?xlyzernny8y
link novo! arquivos com qualidade firmeza agora,
já que a versão postada antes tava meio zoada...
desculpem a nossa falha.

sexta-feira, 30 de maio de 2008

:: Devo ::



DEVO - “Q: Are We Not Men? A: We Are Devo” (1978)

APOCALIPSE SONORO EM VERSÃO IDEAL PARA NERDS
- O Devo juntou ficção científica com humor negro e Kraftwerk com Giorgio Moroder para fazer de sua estréia um manifesto contra a burrice -

por ANDRÉ BARCINSKI
(Showbizz, novembro de 2000, Discoteca Básica)

Corria o ano de 1974. Mark Mothersbaugh e Jerry Casale cursavam arte na Universidade Kent State, em Ohio (EUA), quando um evento macabro mudou a vida dos dois: naquele ano, a polícia invadiu o campus para reprimir uma manifestação estudantil. Os tiras distribuíram bordoadas e tiros. Quatro estudantes morreram. O fato ganhou manchetes em todo o mundo e inspirou Neil Young a escrever seu clássico “Ohio”, gravado pelo Crosby, Stills, Nash & Young.

A morte dos alunos mexeu muito com Mothersbaugh e Casale e convenceu-os da veracidade de uma teoria maluca que há muito vinha remoendo seu cérebro: a tese da “de-evolução”. “Começamos a perceber que o homem estava andando para trás”, disse Casale certa vez. “Atingimos o ápice do avanço tecnológico e, em vez de evoluir, passamos a retroceder, a voltar à época das cavernas.”Fanáticos por Kraftwerk, música eletrônica e artes plásticas, os dois juntaram tudo isso à teoria da de-evolução e formaram o grupo que, sozinho, fundou a new wave.

O Devo era mais um conceito do que uma banda. Antes de lançar qualquer disco, já tinham pensado num visual, uma mistura engraçada de roupas à Jornada nas Estrelas com ridículos capacetes de peão de obra. Em 1974, isso era o futuro. O grupo nasceu com o puro espírito punk do “faça você mesmo”. Casale e Mothersbaugh começaram a gravar demos num porão. A música era minimalista ao extremo: órgãozinho vagabundo, bateria eletrônica de quinta, uma ou outra guitarra, vocais quase falados. Apesar da precariedade, essas demos (editadas anos depois nos dois Cds da série Hardware Devo) são obras-primas absolutas.

O primeiro disco do Devo, “Q: Are We Not Men? A: We Are Devo” (1978), juntava todas as influências da banda: futurismo kitsch, George Orwell, Planeta dos Macacos, 2001, ficção científica barata, o humor negro do Monty Python, Kraftwerk, Giorgio Moroder, cinema experimental. Era uma experiência audiovisual, uma trilha sonora do Apocalipse, versão nerd. E a música era sublime: batidas eletrônicas capazes de sacudir até o mais enferrujados dos mortais, refrões pop pegajosos e letras espertas.

O trabalho causou comoção: o festejado Brian Eno produziu o álbum; David Bowie fez questão de apresentar a banda num show de Nova York. Grupos como Pere Ubu, B-52's e até o Talking Heads se inspiraram no pop cibernético de Mothersbaugh, Casale e cia. Como a maioria dos grandes discos da história, a estréia do Devo não vendeu bem. Sucesso comercial, o quinteto só obteria em 1980, quando a faixa “Whip It” estourou nas rádios. Mas a teoria da de-evolução se espalhou, influenciando muita gente: Kurt Cobain era um dos maiores fãs; Trent Reznor e Billy Corgan também; grupos como Man or Astro Man? e Atari Teenage Riot nem existiriam sem o Devo. E até os Simpsons usaram a banda como prova da teoria da de-evolução em Springfield. Homenagem maior, impossível.



DOWNLOAD (mp3 de 192kps - 47MB):
http://www.mediafire.com/?ibgm2bbzpmt

sábado, 10 de maio de 2008

:: Reef ::




:: REEF - Glow (1997) ::

EXUMANDO OS 90
(ou Como Acertar em Cheio e Depois Mandar Tudo pro Ventilador)

A melhor coisa deste Glow, lançado em 1997 pelos quase-merecidamente quase-desconhecidos do Reef é que ele não é nada novo, nada cool, e seus criadores não estão mais juntos por aí pra estragar tudo. A uma pirateada de distância, o que vai achar são só guitarras certas nas horas certas, um vocalista doidão cantando como um avatar chapado dos anos 90 e uma cozinha adepta daquele groove safado de quem não sabe nem o que a palavra significa.

Apesar do resto de trabalho da banda ser bem nota cinco, o disco é primoroso. É até difícil explicar por quê. Os riffs são OK, o vocal é OK, a produção chuta a banda lá pros anos 70 e tudo mais… mas a força da bolacha fica mesmo na impressão de estar ouvindo quatro caras amigos se divertindo pra caraleo. Place Your Hands lembra (um pouco) os Black Crowes no auge; Summer’s In Bloom tem um refrão feito pra mandar de volta pra garagem 90% das bandas atuais; Consideration é uma das melhores baladas “não-de-amor” já feitas, com uma puta letra corajosa nestes tempos de medo desmedido de tudo; Come Back Brighter é o single-hit perfeito, e que dá uma boa amostra de todo o resto do disco.

O Reef nunca foi um sucesso mundial porque talvez tenha feito as escolhas erradas depois deste disco. Refinou em vez de manter o bruto e simples perfeito de Glow, estilizou o barulho em vez de se preocupar só em fazê-lo, comprou equipamento bom, ouviu opinião de produtor ou sei lá o quê. Aqui, entretanto, têm-se um retrato bem representativo do que foi o melhor do rock nos anos 90: muita sujeira grunge, resgate de groove sem dispensar as melodias, vocalista esquizofrênico, respeito quase religioso com o som pesado feito duas década antes, experimentalismo em nome da diversão…

Enfim, tudo o que você precisa pra passar 50 minutinhos sonhando em montar aquela banda que só aparece depois de cinco cervejas com os camaradas. Precisa de mais?




DOWNLOAD (mp3 - 34,6 MB - 12 músicas - 50 min.)

http://www.mediafire.com/?ttdd29y2zdd