segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

<<< 7.000 pessoas prestigiam a fina nata do instrumental >>>

GOYAZ FESTIVAL 2011

- 5ª edição do Goyaz reúne 7,2 mil pessoas no Centro Cultural Oscar Niemeyer (GO) em 4 noites de finíssimo som instrumental latino-americano -


Antes, eu só conhecia o Centro Cultural Oscar Niemeyer de vista e reputação. O gigantismo do CCON, construído numa vasta esplanada de 27 mil metros quadrados, seduz o olhar de qualquer motorista que transite pela BR-153. Mas desde que conheci Goiânia, o Niemeyer estava infrequentável e chegava a meus ouvidos apenas como personagem de uma rocambolesca intriga política que fez com que o grande elefante branco passasse boa parte dos últimos  2 anos "às moscas", apesar dos R$65 milhões de reais investidos em sua construção.

Em ruidoso protesto contra esta sub-utilização ("o descaso com as instalações do centro cultural é de comover até mesmo um coração concretado", escreveu Pablo Kossa), ocorreu no ano passado o movimento Rock Pelo Niemeyer. Contando com a união de forças entre Monstro Discos, Fósforo Cultural e muitas das principais bandas da capital goiana, a "cena roqueira" de Goiânia, com notável estardalhaço, exigiu das autoridades a reabertura do CCON.


 
Tanta mobilização e protesto parece ter surtido efeito e foi comovente poder testemunhar a reabertura do CC Oscar Niemeyer neste Janeiro de 2011 --- e em tão grande estilo. No primeiro dia do V Goyaz Festival, uma Lua mesmerizante, baixinha no horizonte, parecia ter descido das alturas para fazer um dueto com o "iglu" de concreto de nosso mais célebre arquiteto. Com shows do trombonista Bocato e do DJ Múcio Guimarães, tinha sido dado o sopro inicial num belíssimo evento, que deveria servir como exemplo para outros semelhantes a pipocarem pelo grande Brasil.
Bocato

O ambiente estava tão agradável e cool que me senti na versão brazuca do Montreux (guardadas as devidas (des)proporções). Já o ingresso gratuito, benesse proporcionada pelo financiamento federal do Fundo Nacional de Cultura, é outra coisa que merece aplausos. São raríssimos os festivais na América Latina que proporcionam atrações culturais do primeiríssimo escalão e que levam a sério a questão da democratização do acesso. Ninguém pode acusar o Goyaz Festival de “elitismo”! Um festival nestes moldes, que em São Paulo ocorreria provavelmente num antro de grã-finos como o Bourbon Street, com um preço-facada duns 100 mangos a noite, para cerca de 200 endinheirados da elite cultural e financeira da mega-inegualitária megalópole, ocorreu em Goiânia como deveria ocorrer em todo canto: cultura para todos!

César Camargo Mariano
Claro que há uma pequena desvantagem para este imenso privilégio de poder assistir a todos estes artistas sem gastar um níquel: os inevitáveis ruídos de multidão, quase impossíveis de não surgirem quando se muvucam no mesmo ambiente 2.000 criaturas, muitas delas bastante alegres de tanto sax ou de tanta breja. Em quase todas as noites, a questão do silêncio (ou da falta dele) foi problemática. Por mais que a organização implorasse ao público, no início de todos os shows, que ficassem de bico calado, tanto em sinal de consideração e respeito pelos artistas, quanto para uma melhor apreciação da música, não se pode dizer que a sugestão tenha sido unanimente acatada. 

Uma parte minoritária mas considerável do público, especialmente a galera que ficou rodeando os dois bares, no arco superior do anfiteatro, pareciam mais a fim de trocar ideia, gargalhar, encher a cara e paquerar do que ouvir música em silêncio monástico. Não sou dos incomodados. Acho até um charme que exista aquele "coro" dissonante e farrista lá no fundo, frisando que a curtição deve prevalecer sobre a caretice. Mas um pulinho à comuna GRC no Orkut revela que muitas pessoas ficaram putas com os "bárbaros boçais" que não calavam a boca durante o Goyaz. É que o público de Goiânia, cme parece, tem impetuosas tendências para o hedonismo e costuma ir a shows não só com permissão para fazer barulho, mas sendo incentivado a fazer uma barulheira dos diabos, estando m tanto desacostumado com o mutismo que se exige dos "concertos de música séria". Quem mais sofreu com isso foi o show de César Camargo Mariano, que tocou pianíssimo, tendo como pano de fundo um burburinho um tanto aporrinhante. 

Marco Lobo

Quem roubou a cena na quinta foi o percussionista Marco Lobo que, no show de abertura, honrando a tradição de Hermeto Pascoal, tirou som das mais excêntricas fontes (como uma garrafa pet de 2 litros), desceu para o meio da galera e sagrou-se como um experimentador hippão de muita ousadia e um senso rítmico acachapante.

Na noite de sexta, a mais festiva do Goyaz, os argentinos do Tanghetto abriram a noite brindando o público com seu interessante “tango eletrônico”. Realizando uma peregrinação sonora em que a música tradicional da nação de Borges convive em harmonia com batidas eletrônicas, destilaram uma bem bolada mescla entre o tradicional e o moderníssimo, o primitivo e cibernético. Enquanto nuestros hermanos tocavam clássicos de Piazolla e outros, os telões passavam inebriantes imagens: de cenários urbanos argentinos a montagens psicodélicas, de versos em castelhano a vagas abstrações. Foi a única ocasião do festival em que o espetáculo tornou-se multi-mídia, com alto prazer não só sônico como cinematográfico.

Paraphernalia
Na sequência, o octeto carioca Paraphernalia, com um groove cabuloso e uma sessão de metais de esquentar qualquer bailão, fez o público se levantar e tomar a frente do palco. O fervilhamento não seria menor se quem estivesse ali fosse a Orquestra Imperial ou a Big Time Orchestra. O começo de madrugada de sexta-feira virou, de vez, balada. E das mais joviais. Transitando com ecletismo entre diversas sonoridades, inclusive uma música de inspiração indiana, com uma cítara tocada com um primor de fazer inveja à George Harrison, o Paraphernalia mostrou ser uma ótima promessa da nova música instrumental brasileira.

No sábado, Jacques Morelembaum e seu "Samba Cello Trio" fez um dos shows mais lindos do festival, ainda que eivado de melancolia. Mostrando que não há absurdo no intento de tocar samba no violoncelo, passeou por composições de João Gilberto, Tom Jobim, Jacob do Bandolim e Caetano Veloso com um bom-gosto e uma sensibilidade impecáveis. 



 Encerrando o festival, o prodigioso gaúcho Yamandu Costa fez o que sabe fazer melhor: deixar o público boquiaberto com tamanho virtuosismo técnico unido a uma "entrega" tão total e apaixonada ao instrumento. Com uma velocidade espantosa, digna de um Yngwie Malmsteen desplugado, Yamandu cavalgou e galopou em seu violão como um endemoniado. Acompanhado pelo acordeom de Alessandro Kramer, Yamandu esbanjou segurança e versatilidade cruzando o popular e o clássico, o choro e a música de fronteira, sempre recheando os intervalos entre as músicas com comentários  cômicos infames num gauchês desencanado. Eis um músico brasileiro que dá a impressão de que poderia tocar em qualquer canto do planeta causando a mesma impressão de assombro, admiração, inveja. Puta dum violeiro!


O saldo do V Goyaz, pois, foi imensamente positivo: foi o recorde de público nestes 5 anos de festival, contou com a reabertura histórica do Centro Cultural Niemeyer  (que poderá abrigar neste ano eventos ainda maiores, como o X Vaca Amarela e o XVII Goiânia Noise) e todos os shows valeram a pena. Deixo aqui meus votos de que os próximos janeiros em Goiânia possam ser presenteados com outros Goyazes tão bons quanto!

* * * * *

O Depredando, munido com um gravadorzinho portátil Sony, conseguiu registrar na moita alguns dos shows do V Goyaz, que agora disponibilizamos aí como Bootlegs Exclusivos do blog, bons como souvenir para quem esteve lá, mas também ótimos para que os ausentes se inteirem do que rolou. Curtam ae!

PARAPHERNALIA
<<< breve >>>

JACQUES MORELENBAUM
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YAMANDU COSTA
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sábado, 15 de janeiro de 2011

<<< 10 de 2010 >>>



















#2

BLITZEN TRAPPER
"Destroyer of the Void"

“Há um vínculo secreto entre a lentidão e a memória, entre a velocidade e o esquecimento. (...) Na matemática existencial, essa experiência toma a forma de duas equações elementares: o grau de lentidão é diretamente proporcional à intensidade da memória; o grau de velocidade é diretamente proporcional à intensidade do esquecimento.” MILAN KUNDERA, A Lentidão

Se Kundera tem razão, a arte de escutar música também oscila entre estes pólos, a memória e o esquecimento, conforme a pressa ou o cuidado com que a ouvimos. Um tímpano afoito, que faz uma audição apressada e desatenta, faz com que a música logo vaze da lembrança (como se entrasse por um ouvido e saísse por outro). Para que a música se torne algo de denso, para que desça como uma âncora até as profundezas de nosso oceano de neurônios, seria preciso demorar-se nela. Deixar que ela faça seu trabalho sorrateiro, que se infiltre em nosso interior e ali ecoe, que as melodias nos deixem insones, que versos se imponham à consciência como uma charada que queremos desvendar a todo custo...

Se o Blitzen Trapper foi uma das bandas que mais marcou meu 2010 foi pois senti necessidade de me demorar neles, de fazer repetidas visitas ao universo particular dos caras...  Destroyer of the Void, quinto álbum do sexteto de Portland (o terceiro lançado via-Sub Pop), desde a 1ª audição revela-se como um desses raros álbuns que exigem várias audições para serem devidamente apreciados.

Banda sempre surpreendente e ousada, o Blitzen Trapper no começo foi comparado ao "ecletismo lo-fi de Beck" --- e de fato um álbum como Wild Mountain Nation (2007) é loucão, lírico e esquizofrênico o bastante para poder ser equiparado a um Mellow Gold ou Odelay, ainda que seja bem menos impactante.

Mas foi nos dois últimos álbuns que o Blitzen Trapper realmente se encontrou; ao limitar um pouco o leque vasto demais de sonoridades, centrando o foco na música americana roots em todas as suas vertentes, os caras encontraram sua identidade e fizeram em Furr (2008) e Destroyer Of The Void (2010) dois dos mais admiráveis álbuns folk dos últimos anos. E quem diz "folk" diz "música tradicional norte-americana", o  equivalente da nossa "M.P.B."...


"Black River Killer", de Furr, já revelava qual a "viagem" do Trapper nos últimos anos: um mergulho às raízes da música americana "maldita", de Johnny Cash cantando na penitenciária Folsom à Bruce Springsteen uivando na madrugada em Nebraska, do blues satânico de Robert Johnson e Leadbelly ao desconsolo empoeirado do Wilco fase-Being There. 

O "Assassino do Rio Negro": está aí um nome propício para um western spaghetti --- e também esta influência marca presença nas letras altamente narrativas de Eric Earley, compositor e vocalista do grupo. Mas é como se algo de gótico, de noir, viesse escurecer muitos dos "causos" que nos conta o Blitzen Trapper. Uma lírica à la Nick Cave misturada a historietas sanguinolentas, dignas dum thriller caipira ou de Sobre Ratos e Homens, de Steinbeck.

A primeira música de Destroyer of The Void já escancara o quão ambicioso se tornou o Blitzen Trapper. Com mais de 6 minutos de duração, a faixa-título é uma espantosa suíte  folk-prog-psicodélica que transita por 3 diferentes seções, num procedimento que remete às faixas finais do Abbey Road. Construindo um complexo labirinto folk, a banda criou sua canção mais arrojada, remetendo a "Deja Vu", do Crosby, Stills, Nash & Young, ou ao clássico American Beauty (1970), do Grateful Dead.



Se a ambição musical atinge seu ápice já no início da álbum, daí em diante é a ambição poética quem toma conta em canções recheadas com tanto lirismo e mistério que não esgotam seu sentido mesmo depois de uma dúzia de audições. A melhor poesia do álbum surge em "The Man Who Would Speak True", canção irmã de "Black River Killer".  Ambas as cançõesse assemelham a rubros clássicos do folk americano que cheiram a sangue fresco e pecado. Filiam-se a uma longa tradição de músicas que narram assassinatos passionais, cometidos por homens arrebatados como heróis de Dostoiévski, que degolam pobres mocinhas, a quem depois dedicam um pungente folk confessional... É o caso de "Down By The River" de Neil Young, "Via Chicago", do Wilco, ou "Where Did You Sleep Last Night?", do Leadbelly (mais conhecida na voz de Kurt Cobain...).

"I fed my tongue on the Devil’s rum
In a roadhouse run by a godless bum
On a drunken night, with a stolen gun
I shot my lover as she made to run."

Depois de confessar ter cometido o homicídio de sua amada Grace (teria sido uma homenagem à anti-heroína de Lars Von Trier em Dogville/Manderlay?), o eu-lírico descreve sua vida como fugitivo da justiça, até ser pego e forçado a falar. Com um talento para a construção de metáforas de deixar boquiaberto, Earley faz sua língua, ao dizer a verdade, soltar fogo pelas ventas como um dragão...

"So I opened my mouth like a dragon’s breath
I only spoke truth, but it only brought death
And I laid those boys to rest
For the truth, in truth, is a terrible jest.

For there ain’t no road but the road to home,
There ain’t no crops but the ones you’ve sown
And if you'll learn one thing from me:
You better guard your tongue like your enemy."

Esta canção foi o que bastou para que eu colocasse Eric Earley no seleto rol dos meus poetas-da-música prediletos. E há tempos eu não encontrava alguém digno de fazer companhia à Dylan, Cohen, Springsteen, Tweedy, Patti Smith, Conor Oberst, Jeff Mangum... Mas não é só nesta que o lirismo do cara maravilha o ouvinte atento: o álbum inteiro é um banquete para quem gosta de poesia, de rima, de jogos-de-palavra e de vôos-livre da imaginação...

O psicodelismo delirante de Syd Barrett ou Skip Spence é o que dá o tom em "Lover, Leave Me Drowning", pink-floydesca pepita folk-psicodélica na qual violinos bucólicos convivem com guitarrismos nuggetianos. O folkão com pegada rocker do Black Rebel Motorcycle Club  circa-Howl é a onda de "Dragon's Song". E o fantasma de Nick Drake também dá as caras para assombrar as melancólicas (e belíssimas...) "Bellow The Hurricane" e "Heaven and Earth".


Já "The Tree" traz um dueto vocal de Earley com Alela Diane que remete a algumas das mais belas colaborações entre Gram Parsons e Emmylou Harris ou Damien Rice e Lisa Hannigan. Trata-se de uma fábula adocicada, impregnada de magia e simbolismos de conto-de-fadas, sobre uma árvore gigantesca que cresce sem parar, enquanto o eu-lírico e sua musa a escalam, ascendendo sempre, através dos enroscos dos galhos e das folhagens...

Ótima metáfora para o próprio Blitzen Trapper: uma banda com raízes profundamente plantadas no solo da música americana e que vem se transformando numa frondosa árvore, digna de ser escalada infindamente por nós, ouvintes, que só tem a ganhar se, com insistência, chegarem lá em cima, onde suculentos frutos nos aguardam....


(Destroyer of the Void, Sub Pop, 2010)
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(Furr, Sub Pop, 2008)
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(Wild Mountain Nation, Sub Pop, 2007)
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quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

:: envileço na cidade ::


:: 3 ANOS DE DEPREDAÇÃO! ::


"Don't hate the media. Become the media."
JELLO BIAFRA

Maomêno 3 anitos atrás nascia esta joça aqui. Nunca imaginei, na época em que dei à luz  o monstrengo e batizei-o com a primeira punkice adolescente que acorreu à mente, que  o danado ia crescer tanto --- a ponto de estar hoje com 200 seguidores (somando Blogger e Networked Blogs) e mais de 180.000 visitas. Me sinto, não nego, como um paizão orgulhoso, daqueles que gosta  muito de investir sua energia e seu suor em prol de sua criaturinha, ainda que não ganhe um tostão por isso. Mas todo bom hippie sabe que que os trabalhos não-remunerados têm altas possibilidades de serem os mais recompensadores de todos, existencialmente falando, e posso garantir que esse é o caso. O jornalismo à la Depredando é o jornalismo como eu gosto de fazer: sem patrão mala  me dando ordens, sem grandes corporações me querendo fazer de pau-mandado e pena de aluguel, e com o foco sempre  fixo no conselho certeiro de Jello Biafra, a lésbica mais esperta do punk: "Não odeie a mídia. Torne-se a mídia."

Fui nos outros 'nívers um pai meio desleixado, de não comprar presente ou fazer festinha pro rebento. Mas eis-me aqui, com a consciência um pouco culpada, vindo tacar um pouco de confete sobre o aniversariante Depredas. Afinal, ele já vai chegando na idade de largar a chupeta, as fraldas e a mamadeira de leite-com-uísque que o paizão aqui, à la Daniel Plainview, lhe providenciava todas as noites para que dormisse o sono dos justos...

Não sou muito chegado a discursinhos de festa de aniversário, mas hoje me sinto a fim de compartilhar com quem tiver saco de me ouvir um pouco da história e do significado deste treco aqui. Mas quem não estiver com saco pra papo quase-furado pode saltar ao fim deste post para devorar o bolo... =)

Esta brincadeira de moleque que era o Depredando o Orelhão não poderia ter nascido, claro, sem a revolução em nossos costumes musicais trazida pelo MP3 e pelos programinhas de comunismo cibernético como Napster, Audiogalaxy, E-mule e tantos outros, hoje reconhecidos como agentes de uma renovação no zeitgeist que faz a indústria fonográfica tremer nas bases e mijar nas calças feito um pirralho frente ao bully. As coisas jamais serão as mesmas.  

Muita gente graúda chiou e se enfezou (Metallica e Madonna  até deram-se as mãos [bizarra aliança...] para lutar contra a putaria-anarquista do MP3...), mas a oposição deu com os burros n'água. O MP3 veio pra ficar. E a indústria que se vire (ou que se foda): porque matá-lo não dá mais. O lance é que a disseminação massiva e incontrolável da música encodada em bits, que já faz alguns suspeitarem que o CD e a loja de discos estão fadados à obsolescência e que logo vão virar  itens de museu feito a fita K7 e o bolachão de vinil, fez com que pipocassem por toda a rede este fenômeno social que ainda carece de um rótulo melhor: os blogs de mp3.

A molecadinha de menos de 20 anos, da Geração "Born Digital", que já pegou o bonde do MP3 andando, tende a esquecer como era torturante a vida destes jurássicos seres da era pré-MP3. Mesmo na época  em que o CD nacional custava "só" uns 20 mangos e a Trama estava nos fazendo o favor de pôr no mercado muitas pepitas da Matador, por exemplo, o acesso a isso era bem restrito e possuir uma vasta coleção de discos era privilégio dos bufunfados.

 Foi este elitismo que o mp3 chutou pra escanteio, instaurando uma era de acesso muito mais democrático à produção musical da raça humana. A arte, afinal, é de todos, ou deveria ser; que ela permaneça acessível a uma elite de endinheirados deveria sempre ser motivo de revolta, e tudo aquilo que vira a mesa em prol do acesso global aos bens da cultura merece ser celebrado! É o que acho, mas sem entrar, por hoje, na espinhosa questão da pirataria, dos direitos autorais, e da discussão sobre o caráter criminoso ou não de blogs como este...


Durante a minha adolescência (+ ou - de 1995 a 2002) não me sobravam mais que uns 40 conto no fim do mês pra queimar em disco. A coleção avançava a passos de tartaruga. Com o ardor que donas-de-casa mão-de-vaca põe em comparar preços entre hipermercados, eu passeava pelas lojas de disco do ABC Paulista, tentando escolher, em meio a martirizantes crises de indecisão, entre o Black Crowes e o Pearl Jam, entre o AC/DC e o Jimi Hendrix... Cheguei  até às beiras de virar um adolescente esquelético como um somaliano de tanto ficar em jejum na hora do recreio. Enquanto outros devoravam suas coxinhas, eu me segurava na dieta que me permitiria, depois de muito passar fome, estar um passinho mais perto de completar a discografia do Nirvana ou do Led Zeppelin... Como tudo mudou!

Pois a era do mp3 pôs à disposição de qualquer reles mortal, desde que munido de banda larga e ímpetos exploratórios, uma imensa biblioteca sonora. Se a loja de discos periga ficar obsoleta e desaparecer da face da Terra, é pois a Internet transformou-se na mais utópica e deliciosa das lojas de discos: uma que tem quase tudo o que você procura e em que cada "produto" tem um custo que beira um maravilhoso zero. Quando comecei a descobrir os blogs de mp3, tive a impressão de ter descoberto um apetitoso novo universo para melômanos: eram como milhares de "lojas de disco" virtuais, em que brilhavam nas vitrines suculentos álbuns, a um mísero clique de distância, e melhor que tudo... tudigrátis! Até hoje, ainda que o costume acabe amainando o fascínio, me maravilho com as possibilidades abertas por esta tecnologia.

Um "causo" bem exemplar deste assombro tecnológico eu testemunhei estes dias em um dos meus passeios pela roça.  Eu estava num sítio em Lucianópolis,  cidadezinha digna de figurar no "Cidades Mortas" de Monteiro Lobato: roça braba do interior paulista, onde impera o marasmo e onde cada porrrta tem uns três Rs. Um senhor, que passou a vida no campo e parecia não ter o mínimo traquejo com as parafernálias da era da informática, manifestava o mais radical ceticismo diante da aparente lorota de que um aparelinho celular, que cabia no bolso, podia conter mais de 10.000 músicas. Parecia conversa de pescador. E o incrédulo só foi convencido da veracidade do que tinha tomado por conversa fiada ao ouvir, por cerca de 5 horas na sequência, crááássicos do cancioneiro sertanejo que não se repetiam nem que a vaca tussisse... Assombro: hoje em dia, uma HDzinha das mais furrecas é capaz de guardar o conteúdo de mega-stores inteiras. Em breve, um mísero pen-drive, que cabe no bolso junto do bocket-book e do chaveiro, poderá conter mais músicas do que todos os CDs  à venda em um gigantesco shopping center.


Que a indústria fonográfica se esfacele totalmente diante desta realidade acho até possível, mas improvável. O mais plausível é que a indústria se adapte à nova realidade, ao invés de se debater numa longa agonia de morte. Pois o capitalismo pode ser muita coisa --- perverso, injusto, maquiavélico... --- mas não é burro. E não devemos subestimar, como ensina o Slavoj Zizek, sua imensa plasticidade, ou seja, tudo aquilo que o "Sistema" é capaz de modificar em si mesmo para se adaptar a um ambiente cambiante e sobreviver nele...

E, quer saber? Quando a RIAA, que reúne as serpentes da Indústria Fonográfica Agonizante e seus Web Sherrifs escrotos, diz que "baixar MP3 é fazer download do comunismo", eu digo... ótimo! Continuemos, pois, levando adiante a bandeira do comunitarismo cibernético extremo, se isso ajuda a minar um pouco das fundações da indústria cultural cega pela ganância e obriga um nova cultura e uma nova consciência a emergir!

Sou destes que se assombra com a imensidão da mudança que isto está instaurando, não só na indústria mas em nossa percepção musical coletiva. Mas também nem tudo são rosas, sei bem. Um dos efeitos não tão bacanas desta revolução tecnológica, me parece, é que a imensidão dos itens no cardápio nos faz como desnorteadas crianças na loja de doces, que vão tirando lasquinhas de mil bolos e brigadeiros, quase nunca saboreando por inteiro e com vagar um deles. Querendo provar de tudo, provamos com uma pressa descuidada. Misturando farrapos de canções em nossa consciência, bem ao gosto pós-moderno, perigamos sofrer tanto de indigestão quanto de conhecimento superficial de tudo o que degustamos.

Eu mesmo sofro deste mal: baixo uma pá de discografias que ficam pegando pó no fundo de alguma gaveta do hard-disk, dou uma "ouvidinha" rápida em muita coisa que baixo, logo relegando ao ostracismo, enquanto só aumenta o desnorteio em relação à variedade imensa da informação disponível... Me tornei um ouvinte que conhece em mais quantidade, mas cuja escuta perdeu em qualidade. Muitas vezes, cometo com a música o crime que outros cometem com a literatura: a leitura dinâmica. Outras, julgo um álbum por algumas de suas faixas, uma injustiça infame: pois julgar parte pelo todo é justamente o que um crítico musical precisa se resguardar para não fazer!

Mesmo sob o risco de soar como um infame tiozão nostálgico, rememoro que, antes do Napster e seus sucessores surgirem para fazer todo o estrago que fizeram, minha relação com os álbuns era, necessariamente, mais demorada. Já que era mais complicado e custo$o comprar um CD do que é hoje baixá-lo em MP3 (quê tormentos de economia, que mão-de-vaquice cotidiana e que jejuns no recreio não eram necessários!), o apego sentimental acabava sendo maior. Cada nova adição à coleção era comemorada tanto quanto ganhar um novo amigo; e com cada um deles eu embarcava num longo relacionamento que, por vezes, reduzia o coitado à ficar arruinado de tantos riscos (o equivalente do "ouvir o vinil até furar" de nossos pais). Foi assim com Superunkown, Facelift, Back In Black, Electric Ladyland ou Dust, alguns dos meus companheiros mais recorrentes de aparelho de som.

Uma das principais funções de um blog como este, acho eu, é tentar "filtrar" toda a informação existente na net --- que existe numa quantidade tão monstruosa que um input de 5% dela seria o suficiente para fritar qualquer cérebro e gerar uma overdose mental letal... É um pouco a tarefa de separar o joio do trigo nesta colossal padoca cibernética. Pôr o senso crítico para funcionar e indicar aquilo que se julga digno de atenção e o que deve ser relegado ao status de besteirol. E sabemos bem que a Web têm doses de bullshit ainda mais cavalares do que a Televisão, até mesmo em virtude da extrema democratização da expressão: qualquer um pode ser um criador de conteúdo na internet ao criar um blog, um twitter, um facebook; ninguém precisa passar num teste de Q.I. ou descolar um alvará do governo federal para abrir a boca na Web (tais medidas totalitárias, aliás, seriam a ruína da Utopia Digital...).

Este blog nasceu com uma proposta modesta: ser o equivalente cibernético daquela  arte hoje um tanto esquecida, a do escambo de discos entre camaradas. "Cara, descobri um álbum foda, ouve isso aqui!"  Eis o impulso primário que fez nascer o Depredando o Orelhão: o desejo de compartilhar com os trutas no grande oceano blogosférico tudo aquilo que me maravilhado os ouvidos e injeta sangue novo nas veias... Com o tempo, claro, o jornalismo se misturou ao hobby, a paixão por escrever e pensar sobre música se mesclou com a vontade de disseminar bons discos, e o resultado é este rebento aqui, que já atravessou três camaleônicos anos e que pretende seguir adiante, enquanto durar a energia e o tesão.

E agora em novo domicílio: o Depredas, que nasceu em Sampa, agora é um goiano de coração, e contente de poder dar uma forcinha a mais para a constante efervescência não só da cultura independente em Goiânia, a Seattle brasileira deste começo de século, mas de tudo o está se produzindo na música brasileira atual - que, sem dúvida, tem tudo para estar entrando na melhor década de sua história. Nisto aposto, creio e trabalho!



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p.s.: Um "valeu!" especial pra "gangue" de contribuidores que, nestes três anos, ajudaram a manter a parada atulizada: Ana Alice, Bernie, Marco, Fran, Fabrício, Diogo, Alexandre, Mininão, Fred e Marcos. Portas sempre abertas para novas contribuições, galera!

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p.s. 2: E pra não dizerem que o festório num teve comes-e-bebes, largo aí 3 belos discos hedonistas, bons para tocar numa noite de farra: o Monkeywrench, garageira firmeza chefiada pelo Mark Arm do Mudhoney; Delta 72, mais uma garageira, mas com acentos soul e R&B, uma espécie de Afghan Whigs alto-astral; e o sempre sensacional Sly & The Family Stone, funk de primeiríssima...

Curtam ae!

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terça-feira, 11 de janeiro de 2011

:: DESCONTROLE PODCAST #10 ::


É isso ai, galera!

DESCONTROLE no ar!!!


E assim continuamos nossa parceria com o Descontrole Podcast. Só que agora você pode ouvir um dos podcasts mais aloprados da internet direto no Depredando, ao contrário do #009 que colocamos por aqui apenas a seleção de músicas para download.


No capítulo de hoje:


Contra todas as adversidades, desviamos os buracos mais profundos para falar de forma inédita (ou não!) sobre um assunto que somente o Descontrole Podcast poderia enfocar de maneira tão proprietária, tão persuasiva, com tanto expertise, know-how e conhecimento.


Vamos falar de MERDA!


Isso mesmo galera descontrolada. Viaje nesta primeira parte, com JOH (@excambau_joh), Lili (@LiliSzili), Almoph (@almoph1), Glomer (@feliperod), Matox (@personalspecial), e Zorba (11-9240-9000) pelo nefasto e florido mundo onde reina a merda. E pra quem enviou sua história de cocô, mas ainda não teve sua privacidade fecal escancarada para todo o sempre, aguarde a parte B do Descontrole de Cocôs!


Agradecimentos descontroladamente especiais aos descontrolados que enviaram suas histórias e participaram desta parte A: @ZeEuMesmo, @oNerdmaster (paranerdia podcast), @BorisDepre (aspiracast), Marião da Prel, Carlitão da Confusão, Gordo, o Espião Secreto


É só dar o Play aqui:


Download

Mevio
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SET LIST

A-HA - Touchy

ACDC - dirty deeds done dirt cheap

All Stars Jazz Band - All Stars Blues

Caetano Veloso-Meia lua inteira

Cris Nicolotti - Eu Falei Que Isso Ia Dar Merda

Engenheiros do Hawaí - O Papa é Pop

Fastway - Say What You Will

Lingua de Trapo - Cagar é bom

new kids on the block - step by step

Os Paralamas do Sucesso - Melo Do Marinheiro

Pepino Di Capri - Champagne

Reel Big Fish - Everything Sucks

Reel Big Fish - Somebody Hates Me

The Beach Boys - Good Vibrations

Tito and tarantula - angry cockroaches


DOWNLOAD


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DESCONTROLADO NOS EMAILS!


Comentário de Lucas Yassumura no gengibre para o DESCTRL009

http://www.gengibre.com.br/cast/V1ECCFDPD


Lucas Yassumura no gengibre

http://www.gengibre.com.br/perfil/lucas_yas


Farrazine

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TopZeroCast

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Profissional de Bermuda

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DESCONTROLADO NO CAST!


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segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

<<< oito ou oitenta! >>>>


OITO OU OITENTA!
Banda paulista retorna à Goiânia com seu tenso e intenso som autoral

"No ano passado, no Grito! Rock Goiânia 2010, eles fizeram um dos shows mais memoráveis do festival que agitou o Circo Lahetô. Agora retornam à cidade para rechear a programação de férias da Fósforo com seu catártico e ruidoso som autoral. Quem despenca de novo por aqui é o Alarde, grupo nascido em São José dos Campos (SP), em 2006, mas que migrou para a maior metrópole da América Latina lá pelo meio da década passada, onde lançou em 2008, via Pisces Records, seu intenso e tenso debut “8-80″ (gravado no Norcal com co-produção de Brendan Duffey). Certas similaridades são notáveis com a lírica dominante em bandas como o Violins e o Ludovic, mas o som do Alarde tem uma cara própria e não é fácil de rotular. Pablo Kossa dá seu pitaco: “ Lobão com a Patife Band tocando grunge!”.

Se uma das funções primordiais da cultura independente (ou da chamada “contra-cultura) é “desafinar o coro dos contentes”, para citar o célebre verso de Torquato Neto, a atitude e a lírica do Alarde fazem jus a esta tarefa. Eles parecem responder à demanda por artistas que “façam água e ameacem afundar a nau dos bem-adaptados ao século da velocidade, da euforia prêt-à-porter, do exibicionismo e do consumo generalizado”, para usar as palavras de Maria Rita Kehl. É um pouco  isto o que faz a Alarde,  capaz de articular a angústia e a revolta, o desconforto e a fúria, a incomunicabilidade e a catarse, numa música singular, tão atormentada quanto libertadora..." (CONTINUA AQUI...)

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Em mais uma produção Fósforo Cultural, o Alarde volta à Goiânia para um show neste Sábadão, dia 22/01, com abertura do Oye! e discotecagem de Pablo Kossa e J. Owl. Toda info que você precisa está no cartaz acima. É só colar! :)

:: Um olho no fósforo, outro na fagulha... ::


PATADA NO MARASMO!
- Pata de Elefante e Space Monkeys começam a incendiar o 2011 goiano
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   Por Eduardo Carli, especial para a Fósforo Cultural


A música instrumental brasileira, que tem no Pata de Elefante um de seus  mais longevos e ilustres representantes, vive uma de suas fases mais  efervescentes. São inúmeras as vertentes sendo exploradas por músicos que  estão, para usar uma expressão dos Novos Baianos, “tinindo e trincando”.  Do post-rock (Hurtmold, Labirinto...) à surf music (Dead Rocks, Sex On The Beach...), das doideras experimentais (Macaco Bong, Satanique Samba Trio...) ao groove regionalista (Burro Morto, Caldo de Piaba, Cega Machado...), as bandas "sem-voz" fazem cada vez mais barulho. E provam a imensidão do que se pode expressar sem palavras.

"Ontem o showzão da @patadeelefante, no Metrópolis, foi PATADA!" Foi esta a impressão compartilhada por Dieguito de Moraes sobre a mais recente passagem da manada gaúcha por Goiânia. Gustavo Telles (batera), Daniel Mossman (guitarra/baixo) e Gabriel Guedes (guitarra/baixo), que integram desde 2002 este mamífero proboscídeo de grande porte, deram partida ao 2011 da Fósforo Cultural em grande estilo.

Com um vigoroso som influenciado por classic rock, Ennio Morricone, surf music, Booker T & The MGs, bluegrass, Henry Mancini, dentre uma miríade de outras belas referências, os caras provaram mais uma vez o quanto são músicos versáteis, talentosos e que não deixam que seu virtuosismo degringole em punheta. Sempre com um olho no fósforo e outro na fagulha, a banda deu uma baita patada  no marasmo de começo de ano e destilou a mais pura nata do rockão instrumental tupiniquim num Metrópolis bombadaço (mais de 400 presentes).


Era uma madrugada de janeiro com um clima tão ameno em Goiânia que Mossman nos confidencia, antes do show: “Em Porto Alegre 'tá mais quente que aqui, cara”. Mas é só começar a rolar o show, e é só o povo se amontoar frente ao palco, que o fervo faz com que os gaúchos logo estejam suando em bicas. Com músicos e público incendiados, o Pata de Elefante deitou e rolou em cima de canções de seus três primorosos álbuns: o auto-entitulado, de 2004  (Monstro Discos); Um Olho No Fósforo, Outro na Fagulha, de 2006 (também  via Monstro); e Na Cidade, de 2010 (lançado pelo projeto  Álbum  Virtual da Trama). Vale lembrar: você pode baixar todos eles de graça no site oficial dos caras.


“Pô, isso aqui é melhor que uma sauna!”, mandou Gustavo Telles, o batera, que acaba de lançar seu primeiro disco solo (baixe já na Trama!), em que juntou os camaradas para tocar um rockão sulista, meio que um Lynyrd Skynyrd latino-americano, para louvar o amor em cada uma de suas 12 canções.

Mas não que o calorão tenha prejudicado a apresentação impecável da banda  porto-alegrense, que dá a impressão de que tocaria lindamente mesmo  desidratada e mau-paga no deserto do Saara. Lição de vida: para o bem da humanidade, o  processo de evolução das espécies nos providenciou sobrancelhas, que  impedem a cegueira em momentos de suadeira extrema, e principalmente com esta inestimável invenção  da civilização que é a 'breja --- e claro que as benditas geladas foram  prodigalizadas aos músicos por uma providencial Naya.


Quem abriu caminho para a manada de Poa foi a macacada guitarrenta do Space Monkeys, de Goiânia, que abriu a noite com seu indie-rock com pitadas punky tocado com garra e visceralidade. O som dos caras  remete àquelas bandas underground que agradam igualmente aos punks e aos indies ao mesclarem barulheira pesada e melodias memoráveis. Saltam à mente referências como Dinosaur Jr, Hüsker Dü, Seaweed ou o início do Weezer. Certas melodias, como a da canção gravada pelos caras para a UnConvention, durante o Goiânia Noise XVI, são tão boas que soam como um Foo Fighters na época que o Dave Grohl era mais do hardcore que do metal. Edimar, vocal e guitarra dos Monkeys, garante que os caras estão prestes a entrar no estúdio nas próximas semanas para gravar o álbum de estréia, que promete ser um dos mais interessantes dos lançamentos fosfóricos em 2011.

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sábado, 8 de janeiro de 2011

<<< videodrome >>>

Videodrome. O clássico sci-fi de Cronenberg servirá para batizar uma nova sessão do blog: todos os sábados, uma seleta de vídeos bacanas que colhemos pela net, sempre com algum tema como fio condutor. Pra hoje, selecionei 3 clipes bacanas de cantoras que, além de muito gás e muita voz, têm um certo engajamento político, senso crítico, espírito combativo. Com vocês, Nina Simone pranteando o assassinato de Martin Luther King, Mavis Staples num clipe que poderia ser um curta-metragem do Spike Lee e Janelle Monáe cantando comovida (e chorando como um chafariz) em "Cold War". Cheers!





sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

<<< Bang Bang Babies & Black Drawing Chalks >>>


Acabam de sair do forno, tinindo e trincando, dois compactos de duas das principais bandas da cena rocker de Goiânia. O single virtual "Constant Headache", gravado em Setembro de 2010, traz duas novas pedreiras garageiras do Bang Bang Babies, o Cramps de Goiás. É o primeiro lançamento dos caras desde o segundo CD, Love & Bullets, já devidamente postado por aqui, junto com o papo que bati com os caras durante o Goiânia Noise 2009.

Segundo Pedro Henrique, vocalista e guitarrista da Bang Bang, a idéia é pôr para circular na net as duas novas canções -- "Constant Headache" e "Brain Massage" ---  "como um aperitivo enquanto nosso vinil 7 polegadas não chega". Isso porque a paixão retrô pelo vinil é algo que a banda têm em comum com os idolatrados The Mummies e seu mote "fuck CDs!". Tanto que o próximo álbum será lançado bem ao paladar dos mummiemaníacos: bolacha na veia. "Vale lembrar", continua Pedrin', "que o compacto já está na fábrica na República Tcheca e vai apresentar uma sonoridade lo-fi e caseira, bem diferente de tudo que já lançamos anteriormente".

Agora vamos ao primeiro dos furos de reportagem desta matéria: no último Goiânia Noise, além de terem feito um dos shows mais ensurdecedores do festival, causando uma perda auditiva de 110% em cerca de 130% do público (se minha matemática não me engana...), Pedrin' (vox/gtr) e Vital (gtr) puderam ser vistos no público absolutamente enlouquecidos diante dos mitos Mummies. O primeiro, com uma camiseta estampando uma múmia-sentada-na-privada, e que acabou a noite autografada pelos californianos, e o segundo alucinando tanto lá na grade que o líder dos Mummies teve que lhe dizer: "Oh, man, you are scaaaaary!"  ("Raaaapaz, você é assustador!") Para os anais do Goiânia Noise.

The Mummies

Já o Black Drawing Chalks, cuja "My Favorite Way" é nada menos que um HINO local (e que ficou arrepiante como trilha-sonora do "Rock Pelo Niemeyer II", vídeo supimpa de Antonio Guerino), retorna com seu novo single contendo os sons "Simmer Down" e "Red Love". São mais dois turbinados petardos de rock'n'roll pauleira à la Hellacopters/Supersuckers pra headbanger nenhum botar defeito. Depois de terem gravado um dos melhores álbuns de hard-rock já feitos no Brasil, o pra lá de entusiasmante Life Is A Big Holiday For Us, e depois de tocarem em alguns dos mais importantes festivais da América Latina em 2010 (S.W.U. e Goiânia Noise), a banda se prepara para um 2011 que promete.


O segundo furo jornalístico deste post cheio dos mexericos diz respeito à curiosa gênese das canções dos Chalks. Mais especificamente ao cômodo residencial onde elas costumam dar suas primeiras ruidosas engatinhadas neste mundo. Foi-me fofocado por fontes confiáveis que é dentro de um banheirinho de empregada, preferido por sua acústica retumbante, que o vocalista/guitarrista Victor Rocha trabalha sobre os rascunhos daquilo que se tornarão os temporais de eletricidade distorcida do Chalks. Outra para os anais da música goiana: galera... jamais duvidem do potencial dos banheiros de empregada.

Tae, então: pra ouvir e disseminar!

BANG BANG BABIES - Constant Headache / Brain Massage [single]
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BLACK DRAWING CHALKS - Red Love / Simmer Down [single]
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