domingo, 5 de setembro de 2010

:: Eu Sou Ozzy ::

:: O Forrest Gump do Metal ::
- Ana Alice Gallo -

Bons colegas de boteco são, por essência, ótimos contadores de história. Você sabe que não pode acreditar em tudo o que o cara tá dizendo, mas nem esse é o propósito: vale mais o sabor dos causos. Imagine, então, um desses sujeitos com mais de 40 anos de experiências em pubs, puteiros e muitas situações insólitas. Pois é isso que faz Ozzy em sua auto-biografia: conta causos e mais causos, como um bom Forrest Gump do heavy metal.

Dois fatores desarmam de cara o leitor: o fato de o livro ser narrado em primeira pessoa, o que já pressupõe que o sujeito vai contar tudo do jeito dele; e, no caso desse rockstar, a declaração na primeira página de uma lista de drogas gigantes que fizeram ele não se lembrar direito de tudo, e que era bem possível que outras pessoas contestassem a sua versão dos fatos. Resta-nos, então, pedir ao garçom mais uma breja e saborear tudo sem pudores ou ressalvas. São, sim, histórias do vovô Ozzy.

Entre a infância fodidamente pobre, uma passagem rápida pela prisão e um trabalho em um abatedouro, desenha-se o personagem Ozzy, que cresceu e conquistou o mundo portando dislexia, déficit de atenção e, mais tarde, uma rara doença chamada de síndrome parksoniana – sem nunca ter exatamente noção disso tudo. Descobre-se que a magia negra nada mais era que uma tosca jogada de marketing inventada quando os integrantes do Balck Sabnbath viam filas enormes na frente do cinema quando passavam filmes de terror e imaginavam que coisas aterrorizantes chamavam a atenção. E que eles detestavam, na verdade, os seguidores de Satã que passaram a fazer vigília nos hotéis da banda e a pintar crucifixos invertidos com sangue nas portas de seus quartos.



Não vou contar todos os “bombons” que Ozzy entrega aos leitores enquanto abre a caixa de chocolates (recheados de álcool e cocaína) que é sua vida. Mas algumas pérolas se destacam, como quando descreve como explodiu uma pomba em uma sala com executivos da gravadora, ou jura que morder a cabeça de um morcego foi um acidente inesperadíssimo. Em turnê com o Mötley Crue, um belo dia Ozzy acordou no canteiro central entre as pistas de uma rodovia, e não espere descobrir como ele foi parar lá, se nem o próprio se lembra.

O ex-vocalista do Black Sabbath foi um pai lastimável, um filho um tanto mesquinho e um marido quase homicida (se ele não lembra, ele não fez?). Mas brigas familiares, momentos desprezíveis e lutas de consciência passam sutilmente pelos capítulos, nada que realmente estrague a noite do leitor. Ozzy é tão complacente consigo mesmo que, quando se culpa por não estar presente na criação dos filhos ou de se arrepender de ter feito o seriado “Os Osbournes”, você o desculpa junto, só pra poder ouvir logo o próximo causo. E chamar o garçom de novo.

>>> Leia trechos do livro!

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

:: Liszt-mania ::


"Gold Soundz", do Pavement, acaba de ser eleita pela Pitchfork a mais fina pepita da década de 90. Vale relembrar que a banda de Stephen Malkmus e companhia, recém renascida das cinzas, pousa no Brasil em breve para tocar no festival Planeta Terra. A revista selecionou 150 sons que considera os mais significativos e marcantes da era 1990-99 e o o Top 10 ficou assim:
1. Pavement - "Gold Soundz"
2. Pulp - "Common People"
3. Dr. Dre [ft. Snoop Doggy Dogg] - "Nuthin' But a 'G' Thang"
4. Radiohead - "Paranoid Android"
5. Wu-Tang Clan - "Protect Ya Neck"
6. My Bloody Valentine - "Only Shallow"
7. Neutral Milk Hotel - "Holland, 1945"
8. Aaliyah - "Are You That Somebody?"
9. Beck - "Loser"
10. Weezer - "Say It Ain't So"
E aí: protestos e objeções? ("Smells Like Teen Spirit" merece estar relegada ao 13º lugar?) Mande nos comments o teu top 10 e concorra a um CD de uma banda nacional independente!

:: les pains pour la faim des oreilles... ::

MANIC STREET PREACHERS
Postcards From a Young Man
[dwld]

LES SAVY FAV
Root To Ruin
[dwld]


HANS ZIMMER
Inception OST
[dwld]



BLACK MOUNTAIN
Wilderness Heart
[dwld]



WHITE HINTERLAND (CASEY DIENEL)
Kairos
[dwld]


ESPERANZA SPALDING
Chamber Music Society
[dwld]

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

:: Frusça! ::

 F R U S C I A N T E 

Há aqueles fãs que, de tão fanáticos, dão aprovação integral a tudo o que está relacionado ao ídolo cultuado: todos os discos, todas as fases, todas os projetos paralelos, todas as frases de todas as entrevistas, todas as fotos desfocadas e demos muito mau-gravadas, tudo é "lindo, divino, maravilhoso, impecável"... Se o ídolo lhe entregasse um saquinho plástico com seu vômito, este fã iria guardá-lo dentro de um santuário; a camiseta fedida a suor que o deus concedeu nunca mais será lavada; e, no dormitório, não há um único fragmento de parede sem um pôster do messias...

        Há algo desta devoção um tanto fanática na minha longa relação com a vida e a arte do Frusciante: é uma daquelas criaturas com quem a gente é capaz de se identificar tanto que ele mais parece um irmão que calhou de nascer de outra mãe. He is my brother from another mother.

        E pode até soar surpreendente que alguém que nunca ligou muito pros Chilli Peppers tenha acabado por cair de amores pela música de John Frusciante, e com um nível de devoção considerável. Mas o fato é que a música do Frusça me capturou, me tem acompanhado faz anos, e a persona artística magnética e enigmática do cara também. É como se ele fosse um amigo do peito que ainda não tive chance de conhecer. E hoje aperto os discos de John junto ao peito como jóias de raro valor e fico a me perguntar: como é possível que o mundo ainda não tenha reconhecido que o trabalho do cara está entre o que de melhor se fez na música deste jovem século 21?


        Conta a história que o garoto John Frusciante, nascido em New York, 1970, se mudou com a família para a Califórnia ainda cedo. Ali (batata!) se tornou fã de skate, punk rock e guitarra como tantos outros adolescentes californianos. Começou a "tirar" músicas dos Germs já aos 9 anos de idade. Lá por 1989, um jovem de 17 anos era conhecido nas redondezas por ser o maior fã dos Red Hot Chilli Peppers do mundo. Ia a quase todos os shows como quem segue um culto, feliz por estar cara a cara com sua banda local predileta. E olha que os Peppers eram naqueles tempos apenas um pequeno combo de funk-rock regional, de baixa vendagem, ainda longe de explodir no mainstream. Quando Hillel Slova (o guitarrista original do Red Hot) bateu as botas após uma overdose de heroína, foi Frusça quem assumiu o comando das seis cordas. Tinha 18 anos de idade e já tocava lindamente, feito um Jimi Hendrix branquelo que tinha o funk e o blues no sangue e os turbinava com punk rock, Lou Reed, psicodelia e o caralho a quatro... Com esta formação, os Red Hot Chilli Peppers, com o lançamento de Blood Sugar Sex Magik, iriam se tornar uma das maiores bandas do planeta.


Alcançando o sucesso mundial em idade prematura, Frusça, por razões até hoje obscuras, abdicou da fama e do posto como guitarrista principal naquela que era uma das mais bem sucedidas bandas da Terra. Na turnê de Blood Sugar, decide abandonar a banda que lhe estava enchendo a poupança com milhares de dólares e lhe rendendo enxurradas de fãs e groupies. Sabe-se que, apesar da forte amizade que tinha (e tem) com o baixista Flea (com quem montou uma banda paralela, o 3 Amebas), certas animosidades entre Frusciante e o vocalista Anthony Kiedis tornavam o relacionamento interno um tanto intragável. Mas o mais provável é que John não estivesse se sentindo bem com a fama, desejando abandonar, desiludido, a celebridade conquistada: antes tão desejado, o sucesso agora se mostrava desalentador e insatisfatório (situação que merece ser batizada como "Dilema Kurt Cobain"...).
    
  Abandonando os shows em estádios lotados e a paparicação (e perseguição) da mídia, deixou para Dave Navarro o comando das seis cordas dos Chilli Peppers (John, anos depois, voltaria a assumir as guitarras para gravar Californication, By The Way e Stadium Arcadium). Tendo chegado àquele status com que todo jovem fã de rock sonha chegar em seus delírios adolescentes (guitarrista de uma banda enorme que fascina as multidões, ganha rios de dinheiro e deixa as garotas enlouquecidas de tesão...), John Frusciante, muito estranhamente, jogou tudo fora. E foi passar uma temporada no inferno.


     STONED AND DETHRONED

      Conta a lenda que, deprimido e com a sanidade psíquica em frangalhos, John se trancou em uma bela mansão californiana que o sucesso com os Chilli Pepers lhe permitiu comprar e entrou numa fase crítica de consumo desenfreado de junk. Entre 1993 e 1996, consumindo quantidades altamente desaconselháveis de heroína, injetando gradativamente toda a sua fortuna veias adentro, John flertou perigosamente com a morte. Sua chapação, entremeada com períodos de loucura e depressão, gerou algumas obras de arte sombrias. Imaginem a cena: acompanhado por guitarras e violões, gravadores de 4 canais e vinis antigos, pincéis e tubos de tinta, seringas ensanguentadas e pílulas de Prozac, camisetas do Velvet Underground e pôsters de Frank Zappa, John Frusciante, artista recluso e esquizofrênico, desiludido com a fama e desencantado com a vida, põe-se a vomitar pinturas basquiatianas e fragmentos de música demencial... O jovem guitarrista parecia cair definitivamente no abismo do vício e da demência, descendo no barranco da mais completa auto-destruição, enquanto deixava atrás de si uma arte perturbadora e acabrunhante...

      Não faltaram resenhas que atentavam raivosamente contra os primeiros álbuns-solo de Frusciante, Niandra Lades (And Usually Just a T-Shirt) [1995] e Smile From The Streets You Hold [1997]. Muitos os acusaram (até com uma certa justiça) de serem insuportáveis amontoados de barulho desconexo, vocais desafinados e gravações tosquérrimas. Mas a maior parte das críticas negativas centravam mesmo seu ataque em outro alvo: no fato de que o disco mostrava um artista que permitia que sua desordem mental se explicitasse com uma falta de pudor extremamente desconcertante. Um crítico duma renomada revista eletrônica, após dar nota ZERO para o álbum Smile..., disse que ouvir o álbum constituía uma experiência desagradável pois era como "olhar direto para o interior de uma alma sem óculos de escuro" ("Looking into someone's soul without sunglasses"). A revista Kerrang, por sua vez, disse que Smile From The Streets You Hold "serviu apenas para exibir a mente cheia de angústia de um junkie".

      Que seja: esses discos são tão "terríveis" pois neles não há lugar para nenhuma maquiagem, nenhum disfarce, nenhuma auto-idealização. Frusciante se revela nu, dilacerado, espalhado pelo chão, só cacos, berrando de agonia como um interno de hospício. Não disfarça nada de sua dor, não maquia ou esconde seus tormentos, o que leva àqueles acostumados ao kitsch a se sentirem incomodados por sua excessiva sinceridade. Creio mesmo que poucos discos na história conhecida da música pop fotografam com tanta nudez um artista cujo estado mental está se estilhaçando: nem Syd Barrett, nem Arnaldo Baptista, nem Skip Spence, nem Peter Hammill chegaram a gravar um álbum tão esquizofrênico e tão demencial quanto Smile From The Street You Hold ou Niandra Lades.

      John, posteriormente, chegou até mesmo a renegar sua obra inicial e proibir a reedição desses dois discos, confessando que na época da gravação, estando ainda em meio ao redemoinho de um imperioso vício à heroína, permitiu tais lançamentos principalmente pra descolar uma graninha pra comprar droga. Mesmo assim, esses obscuros documentos de música lo-fi (mais depressiva que o mais deprê dos funerais) é um fascinante retrato de uma alma perdida nos recantos mais sombrios da vida. Mas, por outro lado, também mostra uma alma num processo de purgação, de purificação, de catarse, que faz suspeitar que o que poderia sair dali, do outro lado dessa experiência, poderia ser uma pessoa diferente, completamente purificada...

      De qualquer modo, os dois primeiros discos-solo de John Frusciante não venderam quase nada, não receberam muita atenção de imprensa e público e passaram um tanto desapercebidos. Ganharam fama de serem apenas dois tolos e excêntricos amontoados de loucuras que o guitarrista dos Chilli Peppers, biruta como é, resolveu lançar "para ninguém"... Era muito fácil concluir com precipitação que não havia ali nenhum talento. O que só faz a obra posterior de Frusciante parecer ainda mais estonteante. Pois ninguém em sã consciência julgaria que um cara que conseguiu cometer dois discos tão abomináveis, mau gravados, heterogêneos e incoerentes pudesse ter um dose suficiente de talento para criar algo meramente AUDÍVEL. Muito menos que pudesse criar algumas da músicas mais profundas e emocionalmente poderosas que já conheci.


 ESTIVE NO INFERNO E RETORNEI. TRAGO BOAS NOTÍCIAS.       
     
Tudo indica que o abandono da vida junkie fez um bem imenso à vida e à arte de John. O esforço para sair do pântano do vício o impeliu para uma outra paisagem existencial e começou a fazer jorrarem com exuberância suas fontes artísticas. "Foi somente nas últimas semanas de 1996 que J Frusciante pôde finalmente chutar pra longe o seu vício de três anos, que contribuiu para a perda de sua casa em Hollywood e para a gradual deterioração de seu corpo", contava a reportagem da Guitar Player, em Novembro de 1997. Só pra ter uma idéia de quão baixo ele chegou no buraco, note-se esse pormenor grotesco: "No começo daquele ano [1997], os dentes remanescentes de John foram removidos e substituídos por dentaduras com o fim de evitar uma infecção que lhe ameaçava a vida". Eis um que não tomou drogas just for fun, isso é certo.

        E foi então que, limpinho das drogas, entrando em sua faze zen, que incluía até sessões de ioga e dieta exclusivamente baseada em healthy food, John entrou no estúdio para gravar somente água por dez dias. E a partir daí sua carreira entrou em outro nível e escalou velozmente um Everest inteiro. To Record Only Water For Ten Days, de 2001, representou um ponto de virada na carreira do jovem guitarrista: um discão vigoroso, bem cantado, repleto de poesias sombrias, que revelaram um Frusciante capaz de compor lindamente e cantar de modo apaixonado, tortuoso, confiante, viajado, comovente. Em entrevista daquele ano, ele diz: "Eu não preciso mais tomar drogas. Eu me sinto muito mais 'alto' ["high"] o tempo todo, agora, por causa do tipo de 'momentum' que uma pessoa pode conseguir quando simplesmente se dedica a algo que realmente ama. (entrevista à Rock Sound Magazine, Fevereiro de 2001).

        Cansado de ter seus discos xingados por serem mal-gravados, amadorísticos e toscos - e de fato eram... - se pôs a gravar Shadows Collide With People (2004), seu único álbum a protagonizar técnicas avançadas de produção e gravação. Este épico de 70 minutos de duração é, na minha opinião, um dos melhores álbum da década passada. E, atingindo uma fase de sua vida de criatividade borbulhante, lançou nada menos que SEIS ÁLBUNS em 2004, numa epopéia de lançamentos das mais prolíficas de que se tem notícia na história da música pop. A façanha seria menos chocante se os discos fossem ruins - afinal, que adiantaria lançar meia dúzia de discos porcos por ano, ao invés de lançar um disco fodão a cada três? O incrível é a qualidade desses álbuns. Investindo em rock minimalista e guitarroso (em The Will To Death e Inside Of Emptyness), dilacerantes e sombrias canções semi-acústicas (em Curtains) e experimentalismo kraut-punk-velvetiano (em Automatic Writing e A Sphere in The Heart of Silence), Frusciante provou ser um artista plural no ápice de sua vida criativa, emanando boa música como se fosse uma emanação natural de seu corpo, uma florescência selvagem de seu cérebro...



 "Um voraz ouvinte musical, pintor talentoso e devoto de trágicos anjos caídos como Syd Barrett, Marc Bolan, Kurt Cobain e Sid Vicious, Frusciante é uma mistura de paixão, auto-didatismo na erudição cultural e ingenuidade, particularmente a respeito da mitologia do rock and roll", diz a Guitar Player. De fato, John Frusciante consumiu altas quantidades de música estranha, maníaca e aventureira, o que faz com que suas influências, muito diversas das do Red Hot Chilli Peppers, sejam em sua maioria obscuros artistas progressivos, alternativos ou proto-punk do passado.

    John ouviu todas as cultuadas e estranhas estrelas do prog e kraut anos 70 (Van Der Graaf Generator, Robert Fripp, Peter Hammill, Neu!, Can, Faust...), estudou profundamente a obra dos dois malucos experimentalistas mais marcantes dos anos 60 e 70 (Frank Zappa e Captain Beefheart), juntou a isso seu amor ao punk antigo de Germs, Velvet Underground, Gang Of Four e Stooges, pegou emprestado um pouco do climão sombrio do Joy Division e um pouco da psicodelia do mal de um Syd Barrett, e se saiu com um som que tem muito pouco a ver com o funk-rock ensolarado que tornou os Chilli Peppers mundialmente conhecidos.

        Mas não é somente pela síntese que faz de todas essas influências que a música de Frusciante é notável. A percepção de mundo de John Frusciante não parece ser nada parecida com a percepção das ditas "pessoas normais", o que faz com que o ouvinte de sua música seja conduzido a um universo perceptivo e poético particularíssimo. Talvez devido ao excessivo e duradouro uso de substâncias psicotrópicas, conjugadas com seu pendor para o misticismo e para as meditações búdicas, Frusciante parece agora habitar numa outra dimensão percepcional, engolindo e processando o mundo mais ou menos à maneira dos esquizofrênicos, dos místicos ou dos iluminados. Suas letras, por vezes mais crípticas que os mais rebuscados textos do misticismo oriental, deixam claro que a viagem espiritual de John atinge estranhos reinos. Poucos artistas utilizam tanto as palavras "life" e "death" em suas letras; a presença abundante dessas duas palavrinhas na poética de Frusciante demonstra que está aí seu principal interesse: a vida, a morte, a dor, a redenção, a culpa, o céu, o inferno, a condição humana naquilo que ela tem de mais dilacerante e de mais sublime...

        Imaginem um artista que fosse buscar inspiração lírica em "Tomorrow Never Knows" dos Beatles (a célebre canção de Lennon inspirada no Livro Tibetano dos Mortos), na poesia demencial dum Syd Barrett ou nos versos góticos e sombrios de um Ian Curtis... Junte-se a isso uma personalidade propensa ao misticismo, que crê ser um veículo para a expressão obscuras dimensões psíquicas, e se terá uma idéia do que significa ser John Frusciante. E não é justamente essa uma das principais funções da arte: permitir que tenhamos um vislumbre do que é a vida quando percebida por uma mente diversa da nossa? Não é fascinante poder olhar pelo buraco de fechadura destas músicas e penetrar no vasto oceano de uma outra consciência, registrada em todos os seus tormentos e alegrias, angústias e sonhos, feridas e ascensões?...

        E talvez o que mais me atraia na música de John Frusciante é essa estranha espécie de beleza que dali emana e que é uma conjunção improvável entre a tristeza e a elevação, a melancolia e as mais altas alturas estéticas. Aquilo que eu já pude sentir com o Radiohead, com o Joy Division, com a Clarice Lispector, com o Céline: uma arte que eleva a tristeza a um status sublime. Eis-nos frente a frente com um homem que olhou de cara para o abismo, que por muito pouco não despencou no nada, que encarou a morte e a auto-destruição de frente, que passou por mil delírios e mil sofrimentos, e que ainda conseguiu se erguer das cinzas. Voltou do inferno e trouxe boas notícias. E mais: ergueu-se não como alguém mutilado, mas como alguém fortalecido, como alguém que vive a vida indo sempre direto ao essencial, como alguém que faz sua arte jorrar das profundezas com uma sinceridade tão gigantesca que chega a desconcertar. Pois exibe com muita crueza como nossas vidas são rasas e pouco autênticas. Num mundo tão dominado pelo cinismo, pela futilidade, pelo consumismo, por ideologias prá-frentex e otimismos baratos, John Frusciante tem a coragem de ser quem é: um dilaceramento humano, uma contradição em carne-e-osso, que faz arte para se encontrar e que, no processo, ilumina e comove todos nós que estamos nesta mesma estranha viagem de vida...

       É muito fácil acusar sua música de ser "muito depressiva" ou "muito negativa" e virar o rosto, fechar o ouvido, como se faz tão costumeiramente frente às verdades mais cruéis da existência... Abrir-se a essa arte exige uma certa coragem pois o que nela se concentra é uma dose muito alta de autenticidade, de catarse, de purgação de feridas; é quase uma beleza dolorosa, que se choca contra nossas vidas que já se resignaram a suas feiúras miúdas... Frusciante canta e toca como se o mundo estivesse para acabar no próximo instante, como se estivesse numa corda bamba, suplicando: don't push me, i'm too close to the edge... Eis uma arte que vive, respira e se alimenta da presença da morte: uma arte feita por um discípulo do abismo e que injeta em nossos ouvidos e em nossas vidas, tão acostumadas à banalidade, alguns sentimentos de intensidade fortíssima. Uma arte que, para ser bem descrita, necessita que o crítico de músico se faça poeta. Ou que chame um em seu auxílio:

"...o que é o Belo senão o grau do Terrível que ainda suportamos e que admiramos porque, impassível, desdenha destruir-nos?" (Rilke)


:: OUÇA! ::





[dwld]


---- Eduardo Carli
educmoraes@hotmail.com

terça-feira, 31 de agosto de 2010

:: "é a parte que te cabe neste latifúndio..." ::

Sebastião Salgado. Terra.

"...o Brasil ficou para trás na história e ainda busca uma reforma agrária feita há séculos nos países desenvolvidos. O Brasil é hoje o segundo maior em concentração fundiária, perdendo apenas para o Paraguai. Segundo estudos do MST, 2,8 % das propriedades rurais ocupam 56,7 % de todas as terras cadastradas.

Na Europa, a democratização do uso da terra foi feita ao mesmo tempo em que os centros urbanos começaram a se desenvolver com a Revolução Industrial. A criação e o fortalecimento das pequenas propriedades impediu um êxodo rural excessivo e propiciou um crescimento equilibrado das cidades. Os feudos da Idade Média foram então substituídos por propriedades menores e produtivas. 

Na Inglaterra, a mudança na estrutura agrária foi feita no século 18. Na Alemanha, embora mais lenta, a reforma se deu na mesma época. A Revolução Francesa, iniciada em 1789, transformou os latifúndios da Igreja e da nobreza em propriedades bem menores destinadas aos camponeses. Na Rússia, com a revolução socialista, os latifúndios também foram loteados. 

Nos EUA, a democratização da terra foi feita há mais de cem anos. Pequenos lotes de terra foram formados na medida em que o oeste do país foi tomado e as tribos indígenas que lá viviam, massacradas. 

"Na América Latina, a maioria das tentativas de reforma agrária foi frustrada. Poucos são os exemplos como o de Cuba, que começou a repartição das grandes propriedades com a Revolução Cubana, em 1959, e ainda hoje avança na redução dos latifúndios", diz Correia de Andrade.

No Brasil, a história dos latifúndios tem início na colonização, com a doação de sesmarias a apadrinhados da Coroa. A sesmaria de Pernambuco, uma das mais importantes economicamente, ia da ilha de Itamaracá até o rio São Francisco, no Sertão. Essa política durou mais de trezentos anos. Em 1852, foi instituída uma lei que estabelecia que a relação de posse de terra seria de compra e venda, o que se perpetua até hoje, com poucas modificações. 

Durante todo esse tempo, muitos movimentos foram formados em prol da reforma agrária no Brasil. Antes do MST, o mais expressivo foram as Ligas Camponesas, abafadas com o golpe militar de 1964. Hoje, sob lonas pretas de acampamentos país afora, trabalhadores sem-terra dos mais variados movimentos levam adiante a luta pela democratização do campo. E marcham na direção de um país com menos desigualdades, sem latifúndios."

Mariana Camarotti
CAROS AMIGOS #74, Maio de 2003.

Segundo as estatísticas da ONU, cerca de 930 milhões de pessoas no mundo passam fome. A cada cinco segundos morre  uma criança no planeta devido à subnutrição ou doenças evitáveis - como o "Ponto de Mutação" (livro de Fritjof Capra depois adaptado para o cinema por seu irmão) já denunciava décadas atrás. Umas trinta crianças já morreram desde que você começou a ler este texto. Só no Brasil, segundo o IBGE, nada menos que 11 milhões de famílias padecem de “condições de insegurança alimentar grave”, situação desastrosa que recentemente o Garapa do José Padilha tão bem soube documentar e denunciar.

Já no quesito concentração fundiária, nosso país é a segunda nação mais injusta do mundo, atrás somente do Paraguai. Cerca de 3% de latifundiários detêm mais de 50% das terras do Brasil. E, claro, as tentativas de modificar este quadro normalmente são repudiadas pelos reaças ou banhadas em sangue pelas autoridades: lembremos de todas as campanhas de difamação contra o MST que a Veja e a Rede Globo perpetraram por anos; e lembremos também do massacre de Eldorado dos Carajás (dentre outras chacinas menores...) quando 19 camponeses foram assassinados, "a maioria a golpes de armas brancas ou de coronhadas na cabeça, e vários assassinados depois de presos, dezenas de feridos gravemente, e muitos desaparecidos até hoje." (Stedile)

Entre 01 e 07 de Setembro/2010, acontece o "Plebiscito sobre a Limitação da Propriedade da Terra --- em defesa da reforma agrária e da soberania territorial e alimentar". Faço questão de divulgar por aqui esta iniciativa elogiável e convidá-los a conhecer a campanha e dar um pulo na urna. Para começar a terminar com a festa do agronegócio corporativo e dos latifundiários herdeiros das capitanias hereditárias é preciso ir lá e dizer "basta!" para essa obscena desigualdade que continua, em 2010, a somente fornecer a multidões de camponeses apenas o direito a uma parca terra: o túmulo. "É a parte que te cabe neste latifúndio...".

E é sempre boa hora para relembrar os versos de João Cabral que Chico musicou e o Ilha das Flores de Jorge Furtado - que, na minha opinião, é um dos melhores curtas já feitos aqui.


sábado, 28 de agosto de 2010

:: We Are All Made of Star Stuff... and we harvest starlight! ::


Terminei de ver estes dias o Cosmos de Carl Sagan, aquele instigante seriado do fim dos anos 1970 onde sondam-se os grandes mistérios cosmológicos de nossa galáxia e além.  Recomendo muitíssimo: Sagan nos oferece mui interessantes aulas de ciência e de especulação astronômica e filosófica, sem falar que carrega na manga muitas revelações e descobertas chocantes de tão fantásticas! Por exemplo: todos nós, essas estranhas criaturas de carbono e água que chamamos de homo sapiens, somos de fato... poeira estelar. Tudo o que nos constitui foi gerado no útero das estrelas, há bilhões de anos  no passado e a infindáveis anos-luz de distância... É ou não é um espanto? Outras das impressões e reflexões causadas por esta estranha jornada pela Via Láctea e pelo universo sub-atômico eu postei lá no Depredando o Cinema. Ah! E leia ainda o que Sagan pensava sobre a maconha e como ele relata suas "viagens" sob o efeito do Lado Verde da Força... :)

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

:: Coming Atractions! (II) ::


Pra completar o line-up de um 2o semestre recheado com shows gringos de prima, o S.W.U. (o Woodstock-de-Itu) confirmou o que tantos esperavam salivando: vem ae o Queens Of The Stone Age (dia 11/10, junto com Pixies e Incubus) e o Mars Volta (no dia 09/10, mesmo do Rage Against, dos Mutantes e do Black Drawing Chalks). O terceiro lote de ingressos já está a venda pela facadinha no peito de R$ 210 reais a inteira - por dia.



Quanto aos festivais indie, o Porão do Rock anunciou que este ano irá ocorrer num único dia: 11 de Setembro, com as atrações distribuídas em 3 palcos. São elas:

Internacionais: She Wants Revenge (EUA), The Supersuckers (EUA), Los Primitivos (Argentina) e Right Ons (Espanha). Nacionais: André Matos (SP), Autoramas (RJ), Filhos da Judith (RJ), Gangrena Gasosa (RJ), Korzus (SP), Mechanics (GO), Mindflow (SP), Mombojó (PE), Música Diablo (SP), Pato Fu (MG), Sick Sick Sinners (PR) e Zémaria (ES). Brasília: Cassino Supernova, Death Slam, Deceivers, Dynahead, Enema Noise, Galinha Preta, Mork, Soatá, The Squintz, Trampa, Watson e Tributo a Led Zeppelin.

Já o Vaca Amarela acaba de soltar sua programação completa e um site de divulgação bem firmeza. O festival goiano vai rolar entre 15 e 18 de Setembro com palestras, oficinas e os seguintes shows:

SEXTA (16/09):  Lobão, TNY, Edy Star, Umbando, Terra Celta, La Cartelera, Pata de Elefante, Fusile, Mersault e a Máquina de Escrever, Passarinhos do Cerrado, Stereovitrola, Oye!, Novos Vinis, Rádio Carbono, Trivoltz e Chimpanzés de Gaveta.

SÁBADO (17/09): Velhas Virgens, Mugo, Claustrofobia, Nitrominds, Johnny Suxx n’ the Fucking Boys, Necropsy Room, Johnny Hooker & Candeias Rock City, Hellbenders, Baudelaires, Gramofocas, Space Monkeys,  Inimitáveis, Ultravespa, Sunroad, Black Queen, Coerência e Antes do Fim.

O passaporte da alegria pra conferir tudo morre em 40 contos reais.

:: Um texto inspirador! ::



"...em plena era da cultura industrializada, faz-se necessário acentuar o que vale a pena."

(ARTHUR NESTROVSKI)


"Jornalismo cultural", a rigor, é uma contradição de termos. A palavra "jornalismo" vem do latim diurnalis, que significa "do dia", menos no sentido de diurno do que de diário, cotidiano. "Cultural" é um termo figurado, por analogia ao cultivo da terra. Jornalismo é do dia-a-dia; cultural, de longa duração. O jornalismo reage rapidamente aos acidentes; a cultura define a identidade de um grupo, ou de uma sociedade, e só se transforma aos poucos. O jornalismo cultural existe nessa tensão entre o contingente e o permanente, com a balança quase nunca no meio.

Para continuar na veia etimológica: "crítica" vem de uma palavra grega, krinein, que quer dizer "quebrar". A mesma palavra está na raiz de "crise", por exemplo. E a crítica, nalguma medida, faz isso mesmo: quebra uma obra em pedaços, ponde em crise a idéia que se fazia dela. (...) [Ao crítico] cabe identificar o que compõe uma obra; questionar, onde necessário, nossos hábitos de compreensão; e situar suas interpretações no contexto mais amplo da cultura, sem perder o senso de urgência. Isso vale tanto para o crítico mais geral e conceitual quanto para o intérprete mais detalhado das obras. Vale para qualquer um que escreva sobre cultura num jornal - incluindo, naturalmente, o crítico de música.

A crítica musical nasce no início do século 19. Não seria exagero afirmar que surge para dar conta da música de Beethoven. Foi a dificuldade de compreender suas últimas obras - dificuldade que permanece até hoje e não vai deixar de existir nunca, porque faz parte do que elas têm a dizer - que levou um autor como E. T. A. Hoffmann a redigir os primeiros ensaios de interpretação musical. A compreensão, portanto - não o "gosto" -, é o ponto de partida e chegada da crítica.

A crítica expressa, sem dúvida, alguma coisa de gosto pessoal, tanto quanto guarda (ou deveria guardar) algo de objetivo e informativo também. Mas ela é mais do que opinião e reportagem e mais do que a soma dos dois. O crítico não está só defendendo uma escolha; o que interessa é a natureza dessa escolha. A missão da crítica implica construir consenso sobre uma obra, um intérprete, um compositor. Mas não qualquer consenso. O caráter das respostas põe em xeque mais do que opinião que se tem sobre determinada obra, o que não seria pouco.

Contra a instrumentalização da cultura, que parece não ter mais limite, a crítica tem uma função de "desintoxicação", como diz Geoffrey Hartman. Gosto não só se discute, como é importante que seja discutido. Discutir uma obra de arte, pensando bem, não é mais nem menos pessoal do que debater questões da política; e ninguém sugere que "política não se discute" (pelo menos não numa sociedade democrática).

Essa lição é antiga: está na Crítica do Juízo de Kant, escrita em fins do século 18, nas raízes da era moderna. Para que isso não seja mal entendido: não é preciso que a crítica musical envolva temas políticos explícitos para que, de qualquer modo, se abra para um contexto mais amplo, envolvendo noções como liberdade, expressão e individualidade. Ela se abre, precisamente, para a cultura. 


Ninguém pensa em tudo isso enquanto escuta Bach ou Mozart; e é improvável que mesmo o crítico mais autoconsciente se lembre com clareza desses argumentos ao mesmo tempo que escreve sobre a Missa em mim menor ou A Flauta Mágica. Mas também não se esquece inteiramente deles. Exercer a crítica exige pelo menos uma tentativa de saber onde se está. No nosso caso, estamos todos no Brasil, o que dá à questão outras conotações. 

Informação já é formação, num país tão pobre de escolas. Escolas de música, então, ou música nas escolas, pior. E num momento como este, em que a universidade parece ter perdido boa parte do engajamento que já teve, o jornalismo cultural pode, quem sabe, assumir um papel mais relevante. Desde que não perca o sentido de contexto, a crítica pode vestir, também, o manto da pedagogia. Simplesmente situar um leitor na floresta de nomes e correntes já seria uma ajuda considerável. 

O que não é tão fácil - nem para o leitor, nem para o crítico - é conjugar o aprendizado mais enciclopédico com a experiência direta da música. Duzentos anos de modernismo devem ter servido para nos ensinar que não existe relação direta com obra nenhuma, como não existe relação imediata e transparente com nada neste mundo. Mas a ilusão de imediatez existe; e nalguma medida tem de ser preservada. A crítica pode auxiliar na divulgação e organização do conhecimento musical. Mas não existe "conhecimento" musical divorciado da escuta. Fazer escutar a música: fazer da música algo de vivo, ou mais vivo: reinventar a música, em resposta ao que ela nos dá - tudo isso é um ideal da crítica. Como todo ideal, só se realiza imperfeitamente; mas nem por isso deve ser deixado de lado quando se fala de crítica, música e cultura...










in: ARTHUR NESTROVSKI.
Notas Musicais: Do Barroco Ao Jazz
Ed. Publifolha
, 2000, Pgs. 10-12.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

:: da série: pão quentito! ::

ISOBEL CAMPBELL & MARK LANEGAN Hawk


JAMIE LIDELL Compass

JANELLE MONÁE The Archandroid



EELS Tomorrow Morning




NINA NASTASIA Outlaster




JOHN MELLENCAMP  No Better Than This

domingo, 22 de agosto de 2010

:: Jello Biafra and the Guantanamo School of Medicine ::

De volta à escola
- Bernardo Santana -

Antes de qualquer coisa, o bom e velho serviço de utilidade pública punk para a comunidade: Jello Biafra and the Guantanamo School of Medicine no Brasil, em novembro. Dito isso, à música, então. The Audacity of Hype é o primeiro disco do projeto mais recente de Jello Biafra – que, pra quem não sabe, era o vocalista do Dead Kennedys e, ainda hoje, um dos músicos mais politizados e politicamente ativos do planeta. Ele é o cara que introduziu a ironia e o humor na cena hardcore dos EUA. Ele é o moleque que concorreu à prefeitura de São Francisco em 1979, conseguindo nas urnas um resultado bastante expressivo pra alguém de 21 anos e anarquista confesso (foi 4o lugar). Ele é o tal que fundou um dos selos independentes mais longevos do planeta, o Alternative Tentacles, exemplo até hoje pra quem não fica sentado esperando a bigorna das grandes gravadoras cair na cabeça de suas bandas, projetos e congêneres. Enfim, é um cara a ser ouvido – mesmo que seja em seus discos só de spoken words.

Mas esse não é o caso da primeira bolacha do JB & GSM, graças ao misericordioso Tolstoy. Lançado em 2009, The Audacity... traz um som bastante próximo daquele que os DK fizeram. E, apesar de qualquer bronca inicial com isso, é garantido: se você gosta dos Kennedys, dificilmente vai se entediar com os Schoolers! É a barulheira da antiga banda de Jello, mas com um pouco mais de proto-punk tipo Detroit como ingrediente.

Sinta um pouco do amor dos caras no ar:



Ao lado de Billy Gould (recentemente saído para voltar ao Faith No More) e de outros amiguinhos, Jello Biafra conseguiu, mais de trinta anos depois de surgir em cena, soltar um libelo do tipo entretenimento-bomba como fazia com maestria quando ainda nem bem tinha saído dos remendados cueiros. As letras dessa vez – e como não podia deixar de ser – tratam de temas atuais pós-Bush, como a insistente orientemediofobia estadunidense, causa número um de distorções bizarras na lei daquele país ainda hoje, e assuntos infelizmente recorrentes desde o início da carreira de JB, como violência policial, estupidez institucionalizada e consumismo.

No entanto, existem momentos de espanto em Audacity mesmo pra aquele macaco mais velho. I Won't Give Up, maior exemplo, merece um parágrafo só pra ela, tanto pela música quanto pela letra. A primeira surpreende por fugir da cartilha tradicional do punk rock – coisa que nem é tão novidade quando se trata de Jello Biafra –, usando um espantoso slide em algumas partes e quase parecendo um hard rock zeppeliano em diversas outras. Vale lembrar que o Lard, outra banda de Jello, soltou um EP chamado 70's Rock Must Die há uns dez anos... Me lembrou o Pagode Nuclear, aquele grupo de samba do Gordo e do Clemente que pagodiava clássicos do punque nacional. Coisa linda! Já a letra é de fazer chorar quem vive num país como o nosso, com um processo eleitoral sério com um episódio dos Trapalhões. Veja se você se identifica com esses versos:

Here's to fear
'Nother circus election year
Clown-didates pretend they're human beings

Here's the ads
We vote and someone wins
That's all we're allowed to really change

(Tradução livre: Um brinde ao cagaço / Mais um ano elegendo um palhaço / Candibobos fingindo que são seres humanos / Chegou a propaganda / A gente vota e um outro manda / É só isso que nos deixam mudar)

E por aí vai...

E aí, vamo?

DOWNLOAD: 82 Mb - 9 faixas

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

:: Woody alfineta o padre e o crente... ::


"O que estou dizendo de fato - e não é oculto, nem esotérico, é claro e simples como água - é que nós temos de aceitar que o universo é sem deus, e a vida é sem sentido, muitas vezes uma experiência brutal e terrível, sem esperança, e que as relações amorosas são muito, muito difíceis, e que ainda precisamos encontrar um jeito não só de suportar, mas de levar uma vida decente e moral... estamos juntos num bote salva-vidas e é preciso tentar e fazer o bote ser o mais decente possível para você e para todo mundo. (...)
Se você admite a terrível verdade da existência humana e escolhe ser um ser humano decente diante dela, em vez de mentir para si mesmo que vai haver alguma recompensa ou algum castigo celestial, ou algum tipo de ganho, e você age bem, então está agindo bem não por esses nobres motivos, os mesmos motivos chamados cristãos. (...) De todo modo, os religiosos não querem admitir a realidade, que contradiz o conto de fadas deles. E se o universo for sem deus (ri baixo) eles perdem o emprego. Interrompe o fluxo de caixa.
Para mim, é uma grande vergonha o universo não ter nenhum Deus ou nenhum sentido, e no entanto só quando se admite isso é que se pode levar o que as pessoas chamam de uma vida cristã - isto é, uma vida moral decente. Você só leva uma vida assim se, para começar, admite o que tem diante de si e joga fora toda a casca de conto de fadas que leva a pessoa a fazer escolhas na vida não por razões morais, mas para marcar pontos no pós-vida... "

[+]? DepOCine!

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

:: Porão do Rock & Vaca Amarela ::

Supersuckers!

COMING ATRACTIONS!

Em Outubro e Novembro, o estado de São Paulo recebe uma enxurrada de atrações internacionais de grande porte (e, claro, de altíssimo cu$to). O S.W.U. já confirmou que aportarão por aqui Rage Against the Machine, Pixies, Incubus, Yo La Tengo, Regina Spektor, Dave Mathews, Kings of Leon, Linkin' Park etc. O Planeta Terra, que ocorre de novo entre as montanhas-russas e elevadores-despencantes do Playcenter, terá Pavement, Smashing Pumpkins, Phoenix, Of Montreal... E o Natura About Us trará ainda Jamiroquai, Air e Snow Patrol.

Mas o mês de Setembro também vem recheado de belas atrações --- desta vez concentradas no Planalto Central --- para quem procura shows bacanas e quer degustar novidades da cena independente. Nos dias 11 e 12/09, vai rolar o já consagrado Porão do Rock, em Brasília, um dos mais expressivos festivais indie do país, que chega ao seu 13º ano e que prossegue (nossos bolsos agradecem!) inteiramente gratuito.

O Porão já confirmou um headliner de peso: o Supersuckers. Os punks-caipiras tão prometendo visita ao Brasil faz tempo (foram oficialmente escalados pro Goiânia Noise do ano passado mas "furaram" por causa de problemas com o visto...), mas agora parece que vai. Já confirmada também a presença do She Wants Revenge e dos espanhóis do The Right-Ons (sonzeira!). Dentre as demais atrações, destaque para Korzus, Mechanics, Gangrena Gasosa, Sick Sick Sinners e os argentinos do Los Primitivos. Ainda há 3 vagas para bandas independentes que terão oportunidade de mostrar seu som no Porão e ainda estão sendo definidas pelas últimas seletivas.


Uma semana depois, em Goiânia, rolam mais dois dias de sonzeira firmeza: é o Vaca Amarela, uma produção da Fósforo Cultural e que é uma espécie de  irmão caçula do Bananada e do Noise. O Vaca já vai chegando à sua pré-adolescência e atinge sua 9ª edição; e vai rolar nos dias 17 e 18/09, no Martin Cererê. Dentre as atrações já confirmadas (segundo o Gyn Rock News) estão Velhas Virgens, Nitrominds, Lobão, Pata de Elefante, Umbando, Mugo, Claustrofobia, Fusile (que a gente já entrevistou aqui no Depredas) e o sensacional Terra Celta (que tem um dos shows mais insanos e diferentes do Brasil). Da gringa, virão ainda os argentinos do La Cartelera Y Sos Limones Domingueros, skazeira latina bem interessante.

O Depredando, é claro, promete estar lá e depois contar como foi direitinho --- com as compreensíveis lacunas, causadas por amnésias (alcóolicas ou canábicas...) e pelas bandas emo, que nós nos recusamos terminantemente a cobrir (a não ser que seja de tomates...). Assim que forem divulgadas as programações completas dos dois festivais que agitam o Planalto Central em Setembro, a gente posta aqui para os interessados se programarem... Por hora, aqueçamos os motores que estes próximos meses prometem ser deliciosamente estrondosos para nossos tímpanos!...