terça-feira, 2 de março de 2010

:: Medeski Martin & Wood ::

Três do trio
– Por Marco Souza –

A trilogia da evolução celular está completa e o resultado é essa pequena e bela monstruosidade musical compilada em 3 CDs, a qual alguns felizardos (eu logo, logo, assim espero) podem contemplar na sua forma completa: um magnífico box contendo 5 CDs, 2 LPs e 1 DVD, intutilado Radiolarians: The Evolutionary Set.

Todo o processo de composição desses álbuns já foi explicado tempos atrás, junto com um elogio desmedido a Radiolarians I. Então irei me ater apenas em fazer um breve comentário das partes II e III.


Dessa vez fui capturado pela música do trio da maneira que eles haviam planejado. Fui aos dois shows (totalmente diferentes) que eles realizaram no Sesc Vila Mariana (SP) em 2008 e a maioria das canções apresentadas eram totalmente inéditas para mim, mesmo eu sendo fã deles das antigas. Experimentações que faziam parte da série Radiolarians.

Ao escutar Radiolarians II tive uma sensação diferente em reconhecer grande parte dessas músicas, pois havia as escutado ao vivo. De certa forma a surpresa incial de conhecer o disco perdeu um pouco o vigor, mas ouvindo hoje percebo que a segunda parte é tão viceral quanto a primeira.

Pode se dizer que chega a ser mais experimental do que seu antecessor. Começa de maneira incomum com Chris Wood desgastando agressivamente as cordas de seu baixo elétrico, na rasgada Flat Tires, tem música que lembra uma época boa do DJ Shadow, Chasen Vs Suribachi, improvisos sobre a repetição minimalista em Dollar Pants e ápice da estranhesa em Ijiji. Isso sem esquecer a palavra que não canso em repetir ao falar de MMW, groove.


Para mim o ponto alto foi relembrar umas das mais bonitas melodias de John Medeski em Riffin' Ed, música que me emocionou no show. Esperava que essa canção se extinguisse gradualmente da minha mente, na incerteza de que ela seria gravada, mas pude ouvi-la novamente, tal qual voltasse a encontrar uma paquerinha de infância, que já estava fadada ao esquecimento.

Como se a ordem das músicas estivesse invertida o final é composto por um jazz mais standard, uma versão de Baby, Let Me Follow You Down, que ficou famosa na voz inconstante de Bob Dylan.

Assim passamos para o terceiro ato, que tão logo se tornou meu preferido. Dos três é o que mais remete ao começo da trio, com sua sonoridade clássica e característica, evidenciada pelos teclados Hammond de cara em Wonton. Lindo. Então Satan Your Kingdom Must Come Down, música gospel tradicional norte-americana que é transformada num épico vibrante de 4 minutos e meio através de um piano alucinado e baixo distorcido soando como guitarra.


Sempre que escuto Undone, acho que é a minha música perfeita a qual eu nunca fiz. Potência rock marcada pela bateria e uma linha de baixo simples e intrigante que explode num "refrão" inspirador. Música preferida do disco.

A série se encerra com elegância — Broken Mirror — e referência às sonoridades que fazem parte do repertório dos músicos desde a cítara indiana até funk agressivo dos anos 70 em Gwyra Mi. São trabalhos assim que fazem valer a pena nosso sistema auditivo.


Radiolarians I (10 músicas - 88 MB)

Radiolarians II (10 músicas - 113 MB)

Radiolarians III (9 músicas - 80 MB)

segunda-feira, 1 de março de 2010

:: da série PÃO QUENTINHO ::

LOCAL NATIVES - Gorilla Manor

"Silver Lake five-piece Local Natives deliver their debut album after enjoying a decent degree of media coverage, especially throughout the blog world, much of which has concluded that the band could well follow in Fleet Foxes’ footsteps and take their brand of Americana-flecked indie-rock into the mainstream. (...) The oddly titled Gorilla Manor features 12 tracks that successfully stir thoughts of a host of comparative ensembles – Band of Horses, O’Death, Pinback and, yes, Fleet Foxes – but Local Natives’ arrangements can express a cheery effervescence only sporadic in much of the aforementioned acts’ work. (...) Local Natives’ evident ambition and accomplished execution of even the grandest ideas sets them in good stead to not only follow several leads, but stand out on their own before long.Gorilla Manor is no classic – it’s too indebted to its makers’ influences for that. But it is a strong, striking debut that exceeds expectations and should open enough doors for the band to ensure that album two is immediately placed at the top of journalist must-listen-to piles and consumers’ to-buy lists alike." --- BBC


EELS - End Times
"Everett has written songs increasingly obsessed with his own loneliness and aging. Adrian Tomine's cover illustration for End Times depicts a raggedy old man reinforcing these themes before the album even starts. They are so prevalent, expressed so intimately — even by the Eels' own standards - it’s almost uncomfortable listening. E's self-reflection feels like he’s singing into a dirty, distorted mirror to offer the truth of his situation back at him — and consequently, us. End Times is ultimately about the end of a relationship that has left him shattered; reinforcing his loneliness and sense of mortality. E blames no one but himself. (...) He describes actions he takes to stem desperation: pushing the bed against the wall so it won’t feel so empty. In the end, he expresses his truth: that he loved fully even if imperfectly..." - Thom Jurek (Allmusic Guide)

JOANNA NEWSON - Have One On Me
"It was a little disturbing at first to hear that Joanna Newsom's full-length follow-up to the ambitious and polarizing Ys would be a triple album. (...) I had troubling visions of 25-minute songs with lyrics that stretched to 5,000 words. (...) [The new album is] not a progression, exactly, more of a deepening. You can feel roots going down and an edifice being built. Her voice has gained depth and she sings with more force and clarity. The best songs feel more like conversations rather than artworks to be hung on the wall and admired from several paces away. Newsom seems to sing from somewhere deep inside of them, and her earthy presence has a way of drawing you in, bringing you closer to her music than you've been before.The name you'll most hear in discussion of this record is Joni Mitchell. Part of it is that Newsom can sound a fair bit like her with her more richly textured voice." - PITCHFORK
[ cate-os nos côuments!]

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

:: Jack Rose ::

(1971-2009)

por Alexandre Nakamura

Havia apresentado aqui no depredando o mestre da “música primitiva americana” John Fahey. Dessa vez trago um dos remanescentes do primitivismo musical, Jack Rose.

Nascido no estado da Virgínia, EUA, antes de ser “violeiro” já era “primitivo” com a banda de drone-xamânico Pelt. Diferentemente do que se conhece por drone hoje em dia (algo como Sunn o))), apenas guitarras ultra distorcidas tocadas em power chords com sustain infinito) o Pelt era um grupo que usava primordialmente instrumentos acústicos. Em 2004 Devendra Banhart lança a coletânea revival de folk contemporâneo “Golden Aples of the Sun”. No disco uma faixa é de Jack Rose, agora solo.

Seus discos variam do puro improviso, à “ragas” com certo sabor oriental/hindu, ao blues com slide na guitarra havaiana, ao drone-mântrico e country folk bem ao estilo pré II Guerra Mundial.

No fim do ano passado Jack Rose faleceu. No meio da noite um ataque cardíaco ceifou a vida do violeiro. Havia sido lançado um disco com o The Black Twig Pickers (antigo Pelt) de canções country folk, na maioria composições de domínio público da época pré II Guerra Mundial e algumas canções próprias.

Este é o disco póstumo, Jack Rose & The Black Twig Pickers:


Em breve será lançado um dvd dele junto com Glenn Jones, outro “primitivista” do violão americano. Já adianto o

trailer:




ps: por falar em primitivismo grassroots, visitem meu myspace. "Novas" antigas músicas de "folk" (minyô) okinawano que acabei de gravar e disponibilizar.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

:: Especial Eisenstein ::


Galerinha, no blog gêmeo do Orelhão tá rolando um Especial Sergei Eisenstein em homenagem a um dos gênios maiores da história do cinema. Tá lá um artigo genial do Paulo Emílio Salles Gomes, um dos críticos de cinema mais brilhantes do Brasil, esmiuçando "O Encouraçado Potemkin" e "Outubro", duas obras revolucionárias do maior cineasta russo de todos os tempos. Pra quem ainda pensa que o Rubens Etêwaldo Filho é nosso "maior crítico" (blargh!), leiam Paulo Emílio e pirem com a qualidade do bagulho! O texto foi publicado em 1962 no Suplemento Literário do Estadão e até onde sei não está disponível na net (um crime!). Por isso, encarei o trampo de digitá-lo inteiro, ainda que me doessem os dedinhos, e disponibilizei lá no http://www.depredandoocinema.blogspot.com. Glue there!

Um trechinho: "Não é preciso ser comunista, socialista ou anarquista para se apreciar Potemkin. Também é desnecessário conhecer o episódio da rebelião na Marinha russa durante os acontecimentos revolucionários de 1905. Basta ao espectador a mediana e generalizada capacidade de se insurgir contra a injustiça. Em suma, a cultura não é codição indispensável para se gostar do filme. A não ser as de Chaplin, não conheço outra grande obra de arte cinematográfica que, como Potemkin, exija tão pouco do espectador e ao mesmo tempo lhe dê tanto."

sábado, 20 de fevereiro de 2010

:: O Sonso::


por Ana Alice Gallo (*)

A psicodelia é uma faca de dois legumes. Pode descambar em uma vala rasa de arremedo saudoso, mas pode também gotejar lucidez furtacor no rock-misturado-a-tudo como é bem costumeiro no cenário brazuca pós-Mutantes. Pois foi com felicidade que farejei a simpática banda O Sonso, mezzo Ceará, mezzo paulistana já, com todo aquele caldo bem maturado no azeite de uma banda independente, e me rendi.

Não há nenhuma referência obscura, nenhuma reinvenção: de Jovem Guarda a Waldick Soriano, nada de radioheadeado ou sintetizado. Mas se as notas são sete pra todos nós, ocidentais, a sonoridade sonsa é múltipla. Confira com seus ouvidos que a terra há de levar, ainda na embrionária demo disponibilizada no MySpace do grupo.

Está tudo lá. “Desfila” traz um vocal a la Roberto Carlos com teclados Doorianos. “Sei lá”, típico samba-rock gafieira, dá vontade de batucar na caixinha de fósforo. “Nós Dois”, em forma de um verdadeiro expoente do rock setentista, lembra a irreverência de Secos & Molhados. A referência não vem de bobeira: Gerson Conrad, integrante do lendário grupo, já deu uma palhinha de Sonso no tangopop ”As Frases Mais dramáticas que Guardei pra Ti”.

E foi assim que eu tentei fugir ao tenebroso clichê Música Popular Psicodélica, mas não deu.

(*) visite também o outro blog da Ana, o Credencial Tosca!

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

:: shake you and your fossils out ::


:: ANTI-TERRORISMO LÍRICO ::

- Sobre os escombros do World Trade Center, o Sleater-Kinney ergue um colossal edifício punk celebrando o questionamento e o direito à discórdia nos EUA da paranóia e da patriotada -

“Are we innocent, the paragons of good?
Is our guilt erased by the pain that we've endured?”

"COMBAT ROCK"



One Beat, o magnum opus do Sleater-Kinney e um dos álbuns de rock mais estupendos da década passada, foi composto e gravado pouco depois do atentado às Torres Gêmeas. Tanto que alguns críticos o consideraram como um dos primeiros álbuns que sintetizam e exploram o novo zeitgeist americano, especialmente pelas canções de protesto e comentário social que o disco carrega. Pode ser enquadrado na onda de álbuns pós-11 de Setembro que retrataram os EUA após o baque, como fez Bruce Springsteen com seu The Rising e Tori Amos com seu Scarlet's Walk, ambos de 2002 (e que já foram alvo até de um estudo acadêmico).

Se Spike Lee, em seu A Última Noite, foi o primeiro a registrar no cinema o cenário de Manhattan dominado pela ausência das torres, colorido pelos melancólicos holofotes azuis de uma cidade tomada pelo blues, o Sleater-Kinney foi a primeira banda de rock a cometer uma obra-de-arte contundente sobre a realidade sócio-política peçonhenta da nova década, parida em meio ao sangue e aos escombros.

Este é também o primeiro disco que Corin Tucker gravou depois de ter se tornado mãe - tanto que o tema da maternidade é explorado, com excelentes efeitos, em canções como "Far Away" e "Sympathy". One Beat ganha outra dimensão se for ouvido com isto em mente: é um álbum nascido da alma de uma mamãe-punk que vê seu país entrando numa era de instabilidade política extrema: ela vê a pátria-mãe atacada por fanáticos religiosos, testemunha seus "símbolos de poder" sendo reduzidos a ruínas e a "máquina de guerra" bushiana preparando-se para ir se vingar (e surrupiar um pouquinho de petróleo, é claro!) no Oriente Médio.


Por isso a "esfera pessoal" acaba tão penetrada pela "esfera política". Jenniffer Kelly, da revista Splendid, destaca que este álbum “excelente” é uma lição de que “o pessoal é político" e "o político é pessoal". Pois Corin Tucker (gtr/vox), Carrie Browstein (gtr/vox) e Janet Weiss (bateria), que integram o power-trio, são brilhantes nesta mescla entre o indivual e o coletivo neste punhado inesquecível de canções. One Beat, apesar de não ser um disco conceitual, é perpassado pela angústia e a indignação de uma mãe que mostra-se preocupada com o futuro de sua criança em meio a uma conjuntura global tão desastrosa e cheia de perigos. E Corin Tucker, cantando (lindamente) sobre suas aflições, batalhas e alegrias, conquista neste disco um vocal comovente e catártico, sem perder nem um grão do punch.

Aqui Corin e sua trupe, em seu disco mais ferozmente político (mas que não é por isso menos divertido), aparece vociferando com um ímpeto inaudito: como se ela tomasse maior consciência do mundo (e suas sangrentas intrigas geopolíticas) agora que uma criança sua vive nele. A vontade transformadora e crítica se intensifica, como se ela não quisesse legar aos filhotes um mundo cheio de Georges Bush, Bin Ladens e outros genocidas...

“Now all that's on the surface are bloody arms and oil fields”, cantam as meninas já nas primeiras estrofes do álbum. Esta situação trash – em que sangue e petróleo mesclam-se em sombria poesia, de modo semelhante à trama do Sangue Negro de Paul Thomas Anderson (aliás um dos mais geniais filmes da década) - fixa o clima emocional do disco. Mas o Sleater-Kinney não é da turma da paranóia nem do derrotismo. Pelo contrário!

“Far Away” é a primeira das canções que trata explicitamente do 11 de Setembro. Mas o clima aqui é mais de crônica do que de batalha (como se tornará em “Combat Rock”, canção muito bem batizada). “Far Away” descreve uma mãe cuidando de sua criança no sofá quando recebe um telefonema que informa da catástrofe em Manhattan: “Turn on the TV / Watch the world explode in flames / And don't leave the house!”. Aí está resumida a experiência que tiveram milhões de americanos naquela manhã de terça-feira onde foram despertados do pseudo-ídilio do american-way-of-life pelo alarme aflitivo da CNN Breaking News, que trazia, em clima de pesadelo, a notícia literalmente bombástica: "America Under Attack".

Mesmo aqueles que não tinham parentes dentro do WTC devem ter se perguntado com aflição: estará começando a Terceira Guerra Mundial? O Império Americano começa a ruir? Este é só o começo de um banho de cabeças inocentes que vão rolar para agradar a Alá? Será este o pior momento possível para trazer crianças a este mundo e a este país?

Corin descreve a sensação de ter o coração ferido (“the heart is hit”) pelos acontecimentos numa “cidade distante” mas que sente “tão próxima” (“in a city far away... but it feels so close!”). Como se tivesse composto ainda sob o impacto da tragédia sobre as retinas, descreve a bravura dos homens simples que arregaçaram as mangas para “darem suas vidas” enquanto o presidente se escondia (“the president hides while working men rush in to give ther lives”).


Pode-se até ler aqui uma pontinha de patriotismo que se assemelha àquele vinculado pelos filmes que louvam a audácia e a generosidade dos bombeiros e homens-de-resgate que, naquele dia, meteram-se em meio dos escombros, à caça de sobreviventes, muitas vezes não retornando vivos... Mas One Beat não é nada ingênuo, nem adere à patriotada ideológica, soando muito mais autêntico e questionador do que uma obra como o Torres Gêmeas de Oliver Stone.

“Combat Rock”, cujo título ecoa um álbum tardio do Clash, traz o Sleater pondo o dedo na ferida americana e provando que esta não é uma banda patriótica, que vai cair de joelhos aos pés das pulsões bélicas de George W. Bush e lamentar ingenuamente a pobre vítima americana judiada pelo sadismo grotesco do Islã... Pelo contrário: “Combat Rock” vem para reclamar o direito à discordância e à voz dissidente. “Dissent's not treason, but they talk like it's the same / Those who disagree are afraid to show their face” [Discordância não é traição, mas falam como se fosse o mesmo / Aqueles que discordam têm medo de mostrar a cara] - canta Corin Tucker, de modo truncado, como se suas palavras de discórdia saíssem com dificuldade da garganta, como se sua língua estivesse ameaçada de amputação pelas autoridades (e como se, ainda assim, ela não se acovardasse e não se calasse).

Ela afirma-se, sem medo, cônscia de que discordar não é trair e que ser patriota não é ser uma ovelha que segue cegamente o que manda o pastor -- no caso, o Senhor da Guerra. "If we let them lead us blindly / The past becomes the future once again", já haviam cantado em "One Beat", a primeira faixa, e aqui retorna o mesmo espírito de ceticismo e questionamento: se nós nos deixarmos guiar por estes lunáticos que estão no poder, sem pôr em questão seus atos sangrentos, o passado se tornará o futuro mais uma vez - ou seja, a história regridirá à barbárie.

“Are we innocent, the paragons of good? Is our guilt erased by the pain that we've endured?” [Somos inocentes, paradigmas do bem? Nossa culpa foi apagada pelo sofrimento que suportamos?] Com essas palavras, pronunciadas como se fossem perguntas feitas à sua nação, Corin destroça todo o maniqueísmo hollywoodiano que Bush quis instaurar após o baque, fingindo que os yankees eram pobres inocentes injustamente feridos e que o “terrorismo muçulmano” trazia reunidos em si todo o diabolismo do mal absoluto. “Where is the questioning, where is the protest song? Since when is skepticism un-american?” [Cadê o questionamento, cadê a canção de protesto? Desde quando o ceticismo é anti-americano?]

Mas nem só de terrorismo e de maternidade trata o amplo leque temático de "One Beat". A provocação cultural, típica de uma banda que volta e meia sugeria em suas canções algumas revoluções de costumes, volta aqui e acolá. Como em "Step Aside", irresistível épico punk-pop que não teme ressuscitar o "peace and love" hippie em meio a um naipe de metais tão empolgante que nos arranca calafrios de excitação. Ou como em "Hollywood Ending", em que os holofotes recaem sobre uma personagem (que poderia muito bem ser influenciada pela protagonista de Cidade dos Sonhos, de David Lynch) que tenta viver o grande sonho de Hollywood, mas que é descrita como se atravessasse um pesadelo de artificialidade, desmontado pela cáustica ironia da narradora. Há certos trechos que sugerem até um certa influência da Escola de Frankfurt, como se o Sleater-Kinney tivesse tentado compor um punk que pudesse agradar a Theodor Adorno:

In Hollywood where all the lights are low
And truth's as rare as the winter snow
She wanted a place arid as her soul
Where her only job was never to grow old

When the lights are shining, will you see my skin?
Or just the shell that I'm packaged in?
I've held my tongue and I've hid my sores
If I'm less of myself, will you love me more?
Como se não bastasse, alguns punkões despretensiosos ("Oh!" e "Light Rail Coyete" se destacam) recheiam o álbum mantendo o grau de energia sempre lá no alto. Tudo isso faz com que One Beat seja, em nossa humilde opinião, um dos grandes álbuns do rock americano na década passada. Rob Mitchum, na Pitchfork, destaca a impossibilidade de reduzir um álbum tão “colossal” como este a um “cartão de gênero”, à “jaulinha” estreita de um “estilo” preciso.

“With One Beat, Sleater-Kinney have turned in an album that absolutely, positively obliterates the gender card, an album so colossal that all prefixes to the label 'rock band' must be immediately discarded”.

Sim: One Beat nos dá a impressão de que estamos diante de algo de uma riqueza tamanha que não cabe dentro de rótulo algum. O que não impede que arrisquemos inseri-lo numa certa linhagem histórica. Onde é que se encaixa este demônio-de-disco na árvore genealógica do rock'n'roll? No galho que sai de London Calling, passa por Nevermind e desemboca em Is This It? Como se a semente plantada pelo riot-grlll recebesse um “up” e se tornasse uma árvore mitológica e “épica” como o Led Zeppelin? O tipo de exuberante vegetação que cresceria se o Blondie gravasse um disco inspirado no Fun House, dos Stooges, mas com um espírito combativo à la The Clash? Ou então como se adubássemos com Pearl Jam a música de garotas amantes da new wave e do bubblegum? Todas opções mais ou menos válidas.

As meninas do Sleater, anos atrás, cantavam num memorável refrão: “quero ser seu Joey Ramone!”. E na sua frutífera carreira, encerrada em 2004 com o lançamento do belo canto-de-cisne The Woods, cometeram alguns dos punks mais deliciosos e divertidos dos últimos anos (como a genial “You're No Rock and Roll Fun”). Mas em One Beat que atingiram sua plena maturidade. Mas maturidade não significa caretice: só uma mescla ainda mais poderosa de diversão e política, de rock'n'roll fun e ativismo, que não carece nem de energia bruta (raw power, baby!) nem dum "recheio ideológico" riquíssimo.

Num momento histórico em que os “mocinhos” made in USA tacavam mil bombas no Afeganistão para limpar a Terra dos “inimigos da civilização” (ou seja, os fanáticos de uma outra religião, que não a do capital...), o Sleater-Kinney não se fez nem de crédulo, nem de ingênuo. Fez o que é missão histórica do punk fazer, mas que este anda fazendo tão pouco e tão mal: questionar, incomodar, provocar. Que este álbum não tenha "estourado" como um fenômeno de massas, como tanto merecia, só prova o quanto o mainstream é burro. Mas o fatos destas músicas terem ficado longe de se tornar hits não faz com que a nobreza das intenções seja menos admirável, nem que o poder destas canções seja menos estrondoso.

"One Beat" [2002]
(Para degustar, abra o forno dos comments!)
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quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

:: Dom Salvador e A Abolição ::

Funkjazzpsicodeliabossassambasoulforró
- Bernardo Santana -

Sério, se eu lesse um título desses em uma resenha um dia, nunca que ia chegar perto nem da primeira faixa da bolacha. Se tem uma coisa que o excesso matou nos últimos 15, 20 anos foi a fusão de estilos como uma característica de banda que chame a minha atenção. Na verdade virou algo como um adjetivo bem do malandro pros departamentos de marketing espertinhos. Em resumo — Chico Sciences e outras exceções fora — o lance hoje praticamente se alimenta de si mesmo, na maioria das vezes sem entregar o que é primário: música original (interessante ou divertida).

Já dita a desgraça, o lance é ouvir esse Som, Sangue e Raça, lançado em 1971 pelo pianista Dom Salvador e o grupo de músicos negros chamado A Abolição, e voltar a ter fé na tal mistura de ritmos. Como pode ter dado para perceber, A Abolição era bem influenciada pelo movimento dos direitos civis, que naquele tempo dava uma canseira no status quo do mundo. Mas, apesar disso, a influência parava por aí mesmo: nenhuma das três faixas cantadas do disco quase todo instrumental pega muito pesado na questão da segregação racial. E mesmo assim faz o serviço melhor que muita cota em universidade pública por aí…

Um dos pais do que se resolveu chamar de Brazilian Jazz, Dom Salvador já era uma figura respeitada no cenário da música nacional e internacional no começo dos anos 1960. Vindo do interior de São Paulo, em dez anos o músico tocou com precursores hoje clássicos da black music nacional, como Copa Trio e o Rio 65 Trio. Quando fundou A Abolição, Salvador colocou em prática seu plano-mestre (que ele na verdade chama de “coincidência”) e criou a obra-prima do tal Funkjazz blá blá blá do começo deste post.

Nas 12 faixas do disco, A Abolição lançou o embrião do movimento Black Rio, completando a técnica jazzística de Dom Salvador com suingues — rá! adoro essa palavra — emprestados do soul (Uma Vida, Hey Você), da bossa (O Rio, Samba do Malandrinho), do funk (Guanabara, Tio Macro) e até do forró (Folia de Reis). E o melhor, sem você nem perceber que está ouvindo tudo isso. Em vez de fazer como algumas bandas/músicos atuais e tulhar o cavaquinho (ou coloque aqui o instrumento típico brasileiro da sua escolha) lá na frente pra mostrar a malemolência brasileira, em Som, Sangue e Raça está tudo ali no lugar certo, fazendo seu papel com sossego…

É um disco que chega a ser até mesmo enciclopédico em sua excelência na hora de mostrar o que é o tal do supracitado Brazilian Jazz, e que conquistou admiradores tanto aqui quanto no exterior. Não à toa, Dom Salvador se mudou para Nova York dois anos depois do lançamento e lá reside até hoje, naturalizado e tocando em bares de jazz pelo país natal do ritmo. Ele às vezes ainda volta ao Brasil, faz alguns shows esporádicos e já falou até em montar uma nova versão d’A Abolição. A gente espera chacoalhando os fundilhos com o groove!

DOWNLOAD: 60 Mb - 12 faixas

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

:: padoca reloaded ::

BEACH HOUSE - Teenage Dream
[Sub Pop; 2010]
"Teen Dream, Beach House's third album and first for Sub Pop, is both the most diverse and most listenable of their three full-lengths, and yet it never seems like a compromise. It feels like the product of careful, thoughtful growth, bringing in new influences-- bits of mid-1970s Fleetwood Mac, sparkling indie pop, even a few soul and gospel touches--- while maintaining the group's core sound. Teen Dream is a stirring reminder that good things can happen when you move out of your comfort zone. (...) Despite the brighter, more pop-informed sound and an album title that brings to mind the hazy nostalgia of youth, Teen Dream has a pretty sad heart." --- PITCHFORK (9.0)


SURFER BLOOD - Astro Coast
[Kanine; 2010]
"This is a great guitar album in the way Weezer's Blue Album, Built to Spill's Keep It Like a Secret, or, more recently, Japandroids' Post-Nothing are: six-strings serve as a multiplier for hooks, making it every bit as easy and fun to air guitar with as it is to sing along to. (...) Astro Coast is lyrically landlocked and lonely. (...) Topics of concern include confusion about romance, confusion about friendship, confusion about the future, confusion about religion. It's hard not to think that most of Astro Coast was borne of a relationship dissolved by distance, especially if we're to take the otherwise chipper "Twin Peaks" at face value: Pitts travels to Syracuse, watches David Lynch films, and wrenches out lyrics of sexual frustration that suggest most of the drive was spent listening to Pinkerton. (...) ambition can just as easily manifest itself as a desire to create a relentlessly catchy, "classic indie" album in your own dorm room, and if that's what Surfer Blood set out to do, Astro Coast succeeds wildly." --- PITCHFORK

MAGNETIC FIELDS - Realism
[Nonesuch, 2010]
"The antithesis of 2008’s noisy Distortion, Realism revels in folk music in a way that hasn’t appeared on a Magnetic Fields album since 1990’s Distant Plastic Trees. (...) By far his most listenable and fully realized work since 1999’s mammoth 69 Love Songs, Realism feels slight because it is. It’s hard to hear someone so adept with a poison pen preen instead of brood, but it’s also rewarding. In the end, longtime fans will want to go back to the opening cut and seek out the comfort of those familiar first three chords that, like a seasoned bluesman with his E to A to B, have become synonymous with their creator, but hopefully, they’ll decide to take another trip through the countryside, soak in some much needed sun, and let bygones be bygones." -- ALLMUSIC

Se interessou? Convide estes álbuns recém-nascidos a puxar uma cadeira, pedir um copo extra, bebericar uma breja e apresentar-vos suas canções - tudo isso clicando nos comments abaixo .

sábado, 30 de janeiro de 2010

:: Perucas Afegãs? ::


:: AFGHAN WHIGS ::
"1965"

"Evolving from a garage punk band in the vein of the Replacements, Dinosaur Jr, and Mudhoney to a literate, pretentious, soul-inflected post-punk quartet, the Afghan Whigs were one of the most critically acclaimed alternative bands of the early '90s. Although the band never broke into the mainstream, they developed a dedicated cult following, primarily because of lead singer/songwriter Greg Dulli's tortured, angst-ridden tales of broken relationships and self-loathing. The Afghan Whigs were one of the few alternative bands around in the late '90s to acknowledge R&B, attempting to create a fusion of soul and post-punk." -- ALL MUSIC GUIDE

Unindo o sinistro som de Seattle com o sabor sexy do soul sessentista, o Afghan Whigs criou neste 1965 (seu magnum opus) um dos álbuns mais luxuriantes a surgir na 2a metade dos anos 90. Ainda subestimado e menos cultuado do que merecia, 1965 é como uma atormentada viagem noctívaga, uma one-night-stand bêbada repleta de delícias e de traumas, meio Irreversível e meio Boogie Nights. É um disco tão libidinoso que daria pra dizer que inaugura um novo sub-estilo: o grunge pornô.


Apesar de ser uma legítima e barulhenta banda de rock'n'roll noventista, que integrou o cast da Sub Pop no ápice do selo, lançando o petardo Congregation (91) em meio à efervescência grunge, os Whigs eram também uma banda amante da soul music. Volta e meia faziam a gracinha de gravar um hit das Supremes ou tocar um clássico da Motown num show --- claro que em volume ensurdecedor. Greg Dulli, o vocalista e principal compositor, queria cantar como Al Green, Sam Cooke, Otis Redding ou Jimi Hendrix, mas ao mesmo tempo não temia assumir a gravidade dum Lanegan ou a fúria dum Cobain.

Já era 1998 quando saiu 1965 e a poeira do grunge já começava a baixar. Como o astronauta da capa do disco, o Afghan Whigs parece com um quarteto de soulmen que foi posto num foguete, aos fim dos anos 60, que ficou em órbita por quase trinta anos, só ouvindo LPs antigos de rhythm & blues e filmes da blaxpotation, e quando retorna do espaço pra Terra cai direto no era do trip-hop e do pós-grunge. Eles tentam soar tão sombrios quanto o Portishead e barulhentos feito o Soundgarden, ao mesmo tempo que mantêm viva toda a sacanagem libertina tão bem simbolizada pelo slogan sexual de Marvin Gaye, "let's get it on" (que ressurge no álbum berrado como se fosse um refrão de rock and roll).

Greg Dulli, em algumas das maiores performances vocais de sua carreira (e do rock dos 90), canta em 1965 mais ou menos como se estivesse sufocando no interior de um escafandro, ao mesmo tempo que anseia por tocar nas inacessíveis borboletas que vê esvoaçarem lá fora, do outro lado do vidro. Ou então como se estivesse usando, e em doses imoderadas, os mesmos psicotrópicos que o Tricky (um nêgo que, a julgar por seus inebriantes discos solo, não pegava leve...).

O climão que emana de 1965 nos dá a sensação de estarmos acompanhando um midnight cowboy, um perdido navegante noturno, que ainda que procure no hedonismo e numa transa fácil a anestesia para suas angústias, sempre prossegue com a mente transtornada e assombrada. E sempre desperta, na ressaca do dia-seguinte, ainda com seu coração sanguessuga e vampiresco intacto ("this vampire only wants a little love", canta Dulli).

A sensação é de que este é um disco de canções de amor e tesão escritas por um bêbado melancólico, amante do soul e da poesia, que está largado na sarjeta com suas memórias e seus fantasmas, suas polaróides e seu uísque. Como se fosse full-time aquele personagem de Tom Waits que diz "I hope that I don't fall in love with you / Cause falling in love only makes me blue".

(Não à toa, após o fim dos Whigs, Greg uniu forças com Mark Lanegan, ex-Screaming Trees e Queens Of The Stone Age, criando o muito bem batizado Gêmeos da Sarjeta - The Gutter Twins.)

Em "Neglekted", diz o eu-lírico, frente à mulher tentadora e irresistível que lhe sugere que façam algo "pouco higiênico": "You can fuck my body, baby / But please don't fuck my mind". Pois para ele é como se a transa dos corpos não deixasse jamais de deixar suas cicatrizes na mente após a passagem das delícias. Ainda que estas não sejam poucas (e talvez justamente por serem tão intensas!).

Não encontro adjetivo melhor para descrever o solo de sax que finaliza a catártica "John the Baptist" a não ser "orgástico" - e parece ser na direção deste alvo que os Afghan Whigs apontam suas armas. Tanto que os backing vocals femininos, que adornam lindamente canções como "Somethin' Hot", podem até ser chamados pelos desavisados de "gospel", mas são na verdade bem pouco católicos, simulando gemidos e gritos de prazer (e dor) que fariam qualquer freirinha ruborizar...

This music is a hell of a mindfuck!

Cena de balada em "A Última Noite", de Spike Lee

Pra mim, desde 11:11, o debut do Come (a melhor banda-grunge-que-ninguém-conhece), não se realizava no rock independente americano uma obra tão atormentada e intensa, tão azul-escura e com cheiro de madrugada. E ouso dizer que na música dos anos 90 este 1965 encontra poucos rivais à altura - talvez Cure For Pain do Morphine, ou algo do Massive Attack - na batalha pelo troféu de "Álbum Mais Sexy da Década".

É apertar o 'play' e embarcar numa noitada de arromba - e de ressaca.


Para degustá-lo, dê um pulo nos comments!


segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Castanhas de Ésquilo

Acredito que todos temos o direito primordial de falar mal das coisas que não conhecemos. Que filme é esse? Não faço idéia, mas pra mim é uma grande merda por enquanto. Aí é que está o cerne, na verdade. Posso em momentos futuros, passar a adorar a coisa que antes me era repugnante. Eu não gosto de Midnight Oil. Minto: Eu não CONHEÇO Midnight Oil, portanto escolhi não gostar. Enfim, ouvi de um amigo: “Baixei tudo de Midnight Oil”. Manifestações de ojeriza á parte, até aí tudo bem. Eis que este mesmo amigo me contou sobre outra banda. Esses tais “Squirrel Nut Zippers” eram pra mim, na exatidão dos termos e no desconhecimento de causa, australianos chatos, assim como os supracitados oleosos. Enfim, ouvi.

Meio jazz, será? Não, é “new swing”. Anote: a mesma pessoa que traduz – ou pelo menos tenta, com insucesso - os nomes dos filmes estrangeiros que aqui chegam, também usa do mesmo tino cultural pra nomear as vertentes musicais. “Hot jazz” é o que dizem também fazer parte das influências do grupo de Chapel Hill, Carolina do Norte, mas de maneira um pouco mais atravessada, quase na diagonal. Squirrel Nut Zippers, tocando as músicas de seu álbum “Hot”, de 1997, parecem estar atrás das câmeras que filmavam Tom perseguindo Jerry pela casa de imensos corredores e baixíssima densidade demográfica.

É, não são australianos chatos – mas ainda não gosto de Midnight Oil.

DOWNLOAD
Squirrel Nut Zippers - "Hot"

:: Billy e Woody ::


Hey galera! No Depredando o Cinema, pus dois artigos sobre duas comédias clássicas que eu adoro: Zelig, do Woody Allen (incluindo uma galeria de snapshots com mais de 20 "encarnações" do herói!) e A Primeira Página, de Billy Wilder. Confiram e comentem por lá! Estou ansioso por opiniões, críticas, conselhos e dicas sobre o novo blog camarada do Orelhão --- um recém-nascido que vai dando seus primeiros passos. Será que engrena?

sábado, 23 de janeiro de 2010

:: a primeira fornada do ano... ::

SPOON - Transference


VAMPIRE WEEKEND - Contra



OWEN PALLETT - Heartland



OK GO - Of The Blue Colour Of The Sky



CHARLOTTE GAINSBOURG - IRM

Para degustá-los, abra o forno dos milagres
que é o comments abaixo...

domingo, 17 de janeiro de 2010

:: Expansão da Depredação! ::


Hey depredadores! Pra começar bem este 2010, anunciamos a criação de um blog paralelo que vem para se somar à Família Depredando Corleone. Agora há mais um navio singrando os mares da blogosfera com uma orgulhosa bandeira pirata hasteada: é o Depredando o Cinema, blog irmão e camarada do Orelhão, onde trataremos de assuntos cinematográficos em geral. Pra começar, postamos um especialzão sobre Robert Crumb, com destaque para o documentário de Terry Zwigoff, disponibilizando os scans do livro Blues e o disco "Heroes of Blues, Jazz & Country". Além disso, matéria minuciosa sobre o clássico M.A.S.H., de Robert Altman; Garapa, o instigante documentário de José Padilha; e Marat/Sade, uma das pepitas mais incríveis do cinema de vanguarda sessentista. Para os próximos dias, prometemos posts compartilhando nossas impressões sobre Avatar e Lula - Filho do Brasil, dois dos filmes mais comentados deste início de ano. Confiram, opinem e depredem!

Abraços --- Luxponja.

Fácil fácil de decorar:

depredando o cinema PONTO blogspot PONTO com
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segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

:: Big Time Orchestra em... "Guitar Freakout!" [LIVE in Goiânia!] ::

Vídeozin exclusivo para o Depredando: Big Time Orchestra agitando o pós-Reveillon, no Bolshoi de Goiânia, dia 02/01/2010. Com um medley matador, chefiado pelo Satrianinho sacana e seus Saxofonetes, a banda leva o público ao delírio. Começa AC/DC, cai no Chuck Berry, vira solo com guita nas costas à la Hendrix, arranca prum Lédão das antiga, desce prum Kiss deslavado e tudo vai parar lá no Ramones... Depredador!!!

O cinematografista, pra lá de amador, pede desculpas pelos tremeliques e inconstâncias de foco: no meio da muvuca é foda gravar sem ficar parecendo um velhinho com Parkinson. Sem falar que este jornalista sempre pôs o alcoolismo acima do profissionalismo... =)

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

:: TONY SHERIDAN::


O Tony Tornado da backbeat
por Ana Alice Gallo


“Todos os possíveis companheiros de palco de Tony Sheridan sempre sentiam certo receio quando tinham que abrir o show para ele – ou de acompanhá-lo. Mas os Beatles aguardavam ansiosamente por isso: as apresentações de Sheridan eram desenfreadamente soltas, como as deles, além de ter mais energia e propiciar mais integração que as dos outros conjuntos da zona. Ele era incansável e imprevisível, é certo, mas estava sempre progredindo ao seu estilo, fazendo força para quebrar a monotonia dos padrões estabelecidos onde quer que tocasse”
Bob Spitz, The Beatles – A Biografia

Tocar nos inferninhos da Augusta é brincadeira de criança perto do que o inglês Tony Sheridan e um embriônico Beatles, ainda com Pete Best na bateria, passaram na Alemanha no início da década de 60. Puteiros eram até artigos de luxo perto dos lugares onde os artistas passavam das sete da noite às cinco da manhã tocando ininterruptamente para platéias tão bêbadas quanto eles, que eram levadas pra fora do bar a pauladas pelos garçons caso rolasse uma briga – e sempre rolava.

Nascido da Inglaterra, Sheridan fez longa carreira na Alemanha tocando em bares, sempre com bandas de acompanhamento. Os Beatles, que foram para Hamburgo ainda sem saber como preencher o repertório de sete exaustos dias por semana em cima de um palco, ganharam a simpatia de Sheridan pela energia transgressora que transmitiam ao vivo. E Sheridan ensinou aos rapazes como levar a música a noite toda na palma das mãos em um buraco chamado Top Ten. A musicalidade do guitarrista também foi fundamental para que a hoje considerada melhor banda do mundo ganhasse algo importante para sua sobrevivência: mojo, a famosa cancha.


Apesar de já terem gravado em um fundo de quintal em Liverpool, Sheridan foi o responsável pelas primeiras gravinas de respeito dos quatro. E como “Beatles” tem quase a mesma pronúncia que “pidels”, gíria germânica que significa pau pequeno, os meninos toparam assinar como The Beat Brothers e só usaram o nome verdadeiro posteriormente, quando já tinha alcançado certa fama.

Nessa época, nada de canções Lennon/McCartney rolavam, apenas releituras explosivas de faixas já consagradas eram escolhidas de set list para palcos e estúdio. E é isso o que se ouve na compilação “The Early Tapes”: basicamente uma banda cover, formada por um já consagrado crooner e uma banda iniciante, que queriam viver de música, seja ela de quem fosse.

Sheridan segue carreira até hoje e, inclusive, se apresenta no Brasil nesse findes, em Vitória. Do restante do grupo, é melhor nem tentar falar nada. Arraste as cadeiras da sala e just dance.


http://www.megaupload.com/?d=NRJBBJKH

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

:: The Bad Plus ::


Numa pegada mais adulta
(Ainda assim Smell[ing] Like Teen Spirit)
- Marco Souza -

Como imaginar um trio jazzístico com pegada rock (ou vice versa)? Esqueça qualquer palhaçada fusion, The Bad Plus é a resposta. Nascida em meados de 2000 a banda tem como formação o baixista Reid Anderson, Ethan Iverson no piano e o baterista Dave King.

Legal, mas então você me pergunta qual o diferencial dessa rapaziada. Bom, além das composições próprias deles serem ótimas, o que falarei a seguir, eles fazem versões sensacionais de músicas de estilos variados, indo desde o músico de jazz dos anos 60 Ornette Coleman até músicas do Nirvana (em outros álbuns como These Are The Vistas e For All I Care). Mas o destaque desse álbum fica para uma das melhores versões que já ouvi, Velouria dos Pixies nas mãos do The Bad Plus. Quem é fã de Pixies não pode deixar de ouvir, apenas essa música já vale o disco. Fora Street Woman do Coleman e Velouria, temos Iron Man do Black Sabbath mais soturna do que nunca.

Acabou sendo essas "covers" que me levaram a conhecer a a banda e no começo essas eram as faixas que eu mais escutava em Give, o LP em questão. Depois de um tempo passei a reparar nos sons próprios e, após passar o estranhamento inicial da anarquia sonora causada pelos músicos, comecei a admirar mais o trabalho autoral deles. E o que mais me chamou a atenção é a força de uma bateria agressiva, típico do rock, contrastando com a bela melodia do piano. Isso é evidenciado em And Here We Test Our Powers Of Observation de Anderson, numa das mais vigorosas canções que ouvi esses últimos tempos. Vale destacar também 1979 Semi-Finalist e Dirty Blonde.

Creio que The Bad Plus perde um pouco de mérito ao manter um estilo que não agrada os ouvintes mais conservadores de jazz, tampouco os rockeiros mais fechados a experimentações sonoras. Mas eles se matêm autênticos ao soar como garotos fãs de rock'n'roll tocando jazz, o que talvez seja o mais honesto que eles possam soar.


DOWNLOAD - 11 faixas - 60 mb