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quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Ouça na íntegra o álbum "Cruel" de Sergio Sampaio



Meus caros, estava faltando no Youtube o sensacional álbum de Sergio Sampaio, "Cruel" (2006), lançado postumamente e produzido por Zeca Baleiro. Depredando o Orelhão subiu o discaço na íntegra e aqui compartilha com os amantes da boa música brasileira: http://youtu.be/G2glPHJ-mDs. Disseminem!

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Sérgio Moraes Sampaio (Cachoeiro de Itapemirim, 13 de abril de 1947 — Rio de Janeiro, 15 de maio de 1994) foi um cantor e compositor brasileiro. Suas composições variam por vários estilos musicais, indo do samba e choro, ao rock'n roll, blues e balada.1 Sobre a poética de suas composições, em que se vê elementos de Kafka e Augusto dos Anjos, que lia e apreciava,2 declarou num estudo Jorge Luiz do Nascimento: "A paisagem urbana em geral, e a carioca em particular, na poética de Sérgio Sampaio, possui a fúria modernista. Porém, o espelho futurista já é um retrovisor, e o que o presente reflete é a impossibilidade de assimilação de todos os índices e ícones da paisagem urbana contemporânea." No dizer do cantor Lenine, Sampaio foi um nome marginalizado que equipara a Tim Maia e Raul Seixas, como um dos "malditos" da música popular brasileira..." - Prossiga lendo a biografia da Wikipédia - http://bit.ly/1cY25VM

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CRUEL (2006)

Músicas:

01) Em Nome De Deus (3:26)
02) Roda Morta (3:03)
03) Polícia Bandido Cachorro Dentista (2:05)
04) Brasília (4:06)
05) Magia Pura (3:29)
06) Rosa Púrpura De Cubatão (3:03)
07) Muito Além Do Jardim (4:01)
08) Real Beleza (3:37)
09) Pavio Do Destino (3:52)
10) Quero Encontrar Um Amor (2:09)
11) Quem é Do Amor (2:30)
12) Cruel (4:11)
13) Uma Quase Mulher (3:01)
14) Maiúsculo (3:06)

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Para download do álbum, dê um pulo no
UM QUE TENHA.


 

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Nova coleta brazuca: Chico Science, Criolo, Curumin, Raul, Wilson das Neves, Emicida, Legião, Dom Salvador e a Abolição... Suba o som e boa viagem!


Saindo do forno a 16ª EDIÇÃO da série de mixtapes que agregam só música popular brasileira, de todos os estilos e várias épocas, numa salada-gororoba que vai do rap ao rock, do samba manguebeat, do indie à tropicália… embarque na última:

01) EMICIDA - “Dedo na Ferida" (Ao Vivo)
02) LEGIÃO URBANA, “Mais do Mesmo"
03) RAUL SEIXAS, “Cidade de Cabeça Pra Baixo"
04) DOM SALVADOR & A ABOLIÇÃO, “Uma Vida"
05) WILSON DAS NEVES, “O Dia Em Que O Morro Descer e Não For Carnaval"
06) CRIOLO, “Não Existe Amor em SP" (Ao Vivo)
07) CURUMIN, “Guerreiro"
08) FILOMEDUSA, “Baixaria Blues"
09) EL EFECTO, “O encontro de Lampião com Eike Batista"
10) CHICO SCIENCE & NAÇÃO ZUMBI, “Banditismo por Questão de Classe"

http://8tracks.com/depredando/brazucas-16-edicao

segunda-feira, 1 de julho de 2013

"Calar a boca nunca mais!" (Tom Zé) - Ouça a coletânea #15... Bezerra da Silva, Itamar Assumpção, Rauuuul, Vandré, Buarque e por aí vai...



CALAR A BOCA NUNCA MAIS!

(BRASILIANADA! 15ª EDIÇÃO)

Coletânea de música brasileira:
01) TOM ZÉ, “POVO NOVO"
02) BEZERRA DA SILVA, “PASTOR TRAMBIQUEIRO"
03) CHICO BUARQUE, “APESAR DE VOCÊ"
04) GABRIEL O PENSADOR, “ATÉ QUANDO?"
05) OTTO E LECI BRANDÃO, “VÍTIMAS DA SOCIEDADE"
06) RITA LEE & TUTTI FRUTTI, “COM A BOCA NO MUNDO"
07) FLICTS, “ASSIM CAMINHA O BUSÃO"
08) RAUL SEIXAS, “MOSCA NA SOPA"
09) TOM JOBIM, “O MORRO NÃO TEM VEZ"
10) GERALDO VANDRÉ, “PRA NÃO DIZER Q NÃO FALEI DE FLORES"
11) BELCHIOR, “A PALO SECO"
12) ITAMAR ASSUMPÇÃO, “Nego Dito"

Ouça já!
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Siga viagem...
No nosso Feicibúqui, vários Álbuns Clássicos da Música Brasileira
(Ouça-os na íntegra e di-grátis!)

domingo, 26 de maio de 2013

A Revolução Verde Em Marcha: reflexões sobre a Marcha da Maconha e o movimento global em prol da legalização da cannabis!


A REVOLUÇÃO VERDE EM MARCHA!

A luz verde marcha pelas cidades, desfila na frente de universidades e drogarias, de shoppings e prefeituras, de cara limpa e na maior paz, disseminando informação e consciência enquanto dança e canta ao som de Raul Seixas, O Rappa, Manu Chao, Planet Hemp... É a luz verde que acende-se nos corações para peitar o farol vermelho todo manchado de sangue! Fervilhando pelas ruas, vão os dionisíacos maconheiros, demandando com uma mescla de revolta indignada e triunfante festa: 

"Dilma! Rousseff! Legaliza o beck!"; "Se a erva legalizar, olê-olê-olá... eu vou plantar!"; "Fumo proibido: traficante agradecido!"... dentre outras pérolas do slogan genuinamente popular. Enquanto marcha o verde, a tensão está no ar, já que há forças inimigas que espreitam, com seus revólveres no coldre, seus cassetetes e bombas de gás que saltam tão fácil sobre o corpo dos "desordeiros", dos "inimigos da Lei e da Ordem"...

Alegremente, sabendo que não vale a pena brigar com os carrancudos com a mesma soturna rigidez que eles demonstram, manda a trupe herbácea o aviso pros "hômi-de-farda": "Ei, polícia, maconha é uma delícia!". É um meio de dizer, através do humor e da provocação, que afinal de contas maconha não é nenhum bicho de sete cabeças - e pode até mesmo, se legalizada e tratada sem histeria, ser uma dispensadora de amplos benefícios, uma dádiva da Terra para nossas mentes...

Hoje em dia um movimento internacional vem colorindo de verde as ruas para escancarar o absurdo desperdício - de dinheiro público e de vidas humanas - acarretado pela Guerra às Drogas, em especial a estupidez descomunal da guerra empreendida contra a maconha, ou melhor, contra as pessoas que a plantam, a comercializam e a consomem. "Adivinha, Doutor, quem tá de volta na praça?" A esquadrilha da fumaça! Mas não a fumaça de que gosta o capitalismo - a fumaça das indústrias que vomitam seus poluentes na atmosfera e das armas de guerra a lançar seus mísseis e a provocar seus incêndios mortíferos que queimam civis e crianças... - mas a fumaça que deixa a "mente ativa" e que, para usar a expressão do B Negão, "passa de mono pra estéreo a tua compreensão"...


Em Goiânia, a Marcha Maconheira 2013 foi linda, excitante, barulhenta, diversificada... (Veja o vídeo) Pelo menos 2.000 pessoas estavam lá para o rolê que, saindo da Praça Universitária, atravessou a Rua 10 e encheu de verde a Praça Cívica iluminada por uma Lua cheíssima. A "causa" cannábica foi conectada com muitas outras: a feminista (hoje em dia bombando com a "Marcha das Vadias"...), a causa do Estado laico (hoje em dia ameaçadíssimo por Feliânus e Malafaias, dentre outros salafrários...), a causa anti-manicomial (hoje em dia na crista da onda com a instauração das "internações compulsórias para usuários de crack"...). 

Além disso, os problemas locais não foram negligenciados e a Marcha da Maconha Goiânia 2013 pôde dar seu recado sobre muitos temas de relevância para o goiano: o aumento abusivo das tarifas do transporte público; as alterações no Plano Diretor que ameaçam destruir o meio ambiente em prol do grande trator do capital corporativo; o governo todo roído por vermes de Marconi Perillo, tucano cachoeirista que, no ano passado, quando reveladas as tramóias em que se meteu, viu a juventude sair às ruas em consideráveis marchas "Fora Marconi" - algumas delas com mais de 5 mil participantes...

Debaixo de uma Lua cheia que não conhece nenhuma lei humana, que segue em sua órbita em total desprezo por quaisquer ditames, A.I.s ou dogmas que humanos tentem lhe impor, Goiânia marchou em prol de leis mais sábias. E marchou de cabeça erguida, com muita gente já convicta de que a vitória não tarda e que não há Lei neste mundo que vá impedir esta erva de prosseguir brotando por mil recantos deste planeta...

Contra o machismo que estupra e mata, contra os pastores fanáticos que só sabem condenar os "comportamentos desviantes", contra os militares broncos que querem resolver tudo no tiro, contra os vendedores de drogas bem mais perigosas do que a erva, e que se interessam mais por seu lucro do que pela saúde de um povo... Contra esses, marchamos! Em prol de um mundo mais verde, com menos motosserras e hiper-mercados, onde cada um tenha o direito de consumir - não as geringonças e quinquilharias que o capitalismo põe no mercado... - mas aquilo que cada um sente lhe ajudar a melhor "vislumbrar o infinito" e melhor perceber-se como parte do todo, capaz de conexão e soma.



Marcha das Vadias, São Paulo, Maio de 2013. Veja mais fotos.
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A Marcha da Maconha brasileira, ano-a-ano, tem insistido em tentar convencer a opinião pública brasileira do fracasso absoluto da atual política pública em relação às drogas, um tema que já foi muito bem exposto por ótimos filmes como "Cortina de Fumaça", "Quebrando o Tabu", "Notícias de uma Guerra Particular", "Dançando com o Demônio", "Grass" - pra ficar só nos documentários.

O proibicionismo é uma política surgida nos EUA no século XX e que, pela primeira vez na história, pôs fora-da-lei a produção, a venda e o consumo de uma planta que havia sido perfeitamente legal por mais de 30 séculos - ou melhor, que nunca antes havia sido estigmatizada, demonizada e outlawed. 

Por um lado, o proibicionismo yankee fede à xenofobia e preconceito racial: a marijuana era a substância de predileção dos negros, dos mexicanos, dos porto-riquenhos, e criminalizá-la era um meio de controle destas populações empobrecidas e exploradas, quase um pretexto para encarcerar aqueles que, pela cor de sua pele, seu sotaque excêntrico ou seu estranho local de origem eram considerados como elementos potencialmente perigosos.

Além disso, sabe-se do papel das grandes corporações do ramo da indústria têxtil em prol da criminalização do cânhamo, já que a fibra do hemp é muito melhor do que algodão e nylon e sua legalização acarretaria uma catástrofe para os lucros destas empresas. Tanto que William Randolph Hearst, o cidadão Kane, magnata da mídia e ultra-capitalista egocêntrico, tratou de caluniar e denegrir a imagem da maconha na opinião pública tendo em vista seus mesquinhos interesses pecuniários. Cuzão!

A cada dia se torna mais claro que o proibicionismo só serve aos interesses sórdidos daqueles que estão no negócio do encarceramento em massa de cidadãos; só serve às empresas do ramo de bebidas e de cigarro, cujo produto gera mais morte e mais doença em 1 ano do que a maconha causou em 3 milênios, e que perderiam largas fatias de lucro caso a maconha fosse legalizada; que o proibicionismo é amigo dos mega-traficantes e dos trustes do narcotráfico, com tudo o que isso acarreta de policiais, políticos e juízes aceitando propinas e vendendo favores; e, é claro, o proibicionismo é resquício de uma mentalidade ditatorial e militarzóide, que tem como ideal uma política onde mandam militares broncos que pensam poder resolver qualquer problema na bala, e que desejam se fazer necessários ao perpetuar as guerras... E, last but not least, a política proibicionista só agrada aos membros do governo, do empresariado e da mídia que desejam nossas mentes cativas, manipuláveis, encharcadas de besteirol, governáveis, eles que tem tudo a perder com a expansão da consciência coletiva que a legalização da cannabis poderia acarretar...

Marcha da Maconha em Brasília, 2012. Veja o álbum de fotos com várias marchas, incluindo Rio, Sampa, B.H., Goiânia, Salvador, Porto Alegre, dentre outras cidades...


A Marcha da Maconha convida jovialmente os proibicionistas, os repressores radicais que desejam "exterminar" estes viciosos sem-vergonhas e moralmente corruptos que são os maconheiros: em lugar de tanta bala, tanta cadeia e tanta repressão, porque não pensar em leis mais sábias? Aliás, é suspeita antiga minha que a grande maioria dos proibicionistas nunca fumou um beck, ou ao menos não tragou, o que merece uma paráfrase da excelente idéia de Terence McKenna (originalmente sobre o LSD): "A maconha é uma substância capaz de produzir efeitos psicóticos e paranóicos intensos naqueles que não a utilizaram."

Afinal, seriam da mesma opinião os senhores proibicionistas se tivessem de fato experimentado  e pesquisado concretamente os efeitos da substância? Não seria mais interessante, ao invés da perseguição belicista, uma atitude mais curiosa e inquiritiva, ou seja, fazer pesquisas científicas sérias, com pesquisadores e intelectuais bem pagos, sobre os potenciais benéficos e possíveis perigos desta planta? Por que não deixar os psicólogos, os antropólogos, os filósofos, os juristas, opinarem sobre a melhor maneira de lidar politicamente com uma erva tão amplamente utilizada e tão entusiasticamente aclamada por seus usuários? Por que não dar uma chance para um novo ciclo vegetal iniciar sua jornada legal sobre solo brasileiro, e por que não considerar a hipótese de que ele possa ser um dos pilares de uma sociedade menos nefasta, opressora e hierarquizada do que aquelas que se ergueram sobre o açúcar, o café e a pecuária?

"Se as palavras vida, liberdade e procura da felicidade não incluem o direito de experimentar com a própria consciência, então a Declaração de Independência não vale o cânhamo onde foi escrita." - Terence McKenna

O cânhamo, muito provavelmente, é a autêntica "planta do futuro": e quem não acordar pra isso vai ficar sendo parte do passado. O vasto leque de utilidades do cânhamo - que pode ser usado para fazer papel, roupa, combustível, remédio... - é sinal do quanto a estupidez do proibicionismo está nos privando de uma planta prodigiosamente benéfica em muitos domínios além da expansão da consciência e da "recreação" psicodélica. Quando a Era do Petróleo acabar (deste século não passa...), talvez a revolução verde agora em marcha torne-se não somente altamente desejável, mas absolutamente necessária. O tempo dirá! 

O Tempo, afinal de contas, já é velho conhecido e comparsa do cânhamo: eis uma planta que atravessou os milênios, não só sobrevivendo muito bem a todas as intempéries e desmatamentos, como também prestando múltiplos serviços aos humanos. O cânhamo está profundamente enraizado no passado humano, tendo participado ativamente da Invenção da Imprensa de Gutemberg e das Grandes Navegações pelas quais os europeus invadiram e pilharam a América; foi coadjuvante da Declaração de Independência dos Estados Unidos da América (que foi escrita em papel de cânhamo1), tendo sido cultivado em imensas fazendas por yankees de bufunfa grossa, chegando a ser um dos produtos agrícolas mais importantes do país, pau-a-pau com o milho e o algodão; sem falar que remédios derivados do cânhamo já foram onipresentes nas farmácias, sendo usados até pela Rainha da Inglaterra para minorar os efeitos de suas cólicas menstruais...

Além disso, mundo afora, e mais particularmente no Oriente, o cânhamo foi sacralizado por muitas culturas, consagrado em evangelhos, poemas e canções, tendo sido muito provavelmente um dos elementos importantes para a emergência histórica de vários cultos e religiões xamânicas, hinduístas, budistas, rastafaris, umbandísticas...


São milênios de usufruto e apenas décadas de repressão. Sagrada em muitas civilizações, a cannabis foi parte importante da nossa história, marcando ramos diversos da condição humana: a religião e o misticismo (ela é sagrada para os hindus da Índia, por exemplo, que em sua mitologia transformaram a maconha numa dádiva feita pelo deus Shiva à humanidade...); a criação artística e filosófica (quantas obras e quantas descobertas não foram auxiliadas pelas alterações de consciência desencadeadas pelo THC no cérebro humano?); a farmacologia e a medicina (a cannabis consta entre os remédios mais antigos e mais eficazes que o homo sapiens descobriu no imensamente bio-diverso reino da phýsis...). 

Mundo afora, este último aspecto - o potencial benéfico ou terapêutico da maconha - ganha progressiva credibilidade e comprovação científica. E em muitos países os benefícios da cannabis medicinal já podem ser usufruídos por milhões de pessoas que sofrem de AIDS, câncer, depressão, glaucoma ou dúzias de outras condições sobre as quais a maconha age de modo benéfico, por exemplo minorando os efeitos adversos da quimioterapia ou reabrindo um apetite de leão (vulgo "larica") naqueles fragilizados pela doença. Estados norte-americanos de peso, como Califórnia e Washington, e países inteiros, como a Holanda e o Uruguai sob a presidência de Mujica, já deram este passo à frente.

Quanto ao uso dito "recreativo", a maconha é a substância ilícita mais usada no planeta, a mais popular e a mais universal, e não cessa de espantar a bizarra situação histórica em que nos encontramos: apesar dos milhões de mortos, nas últimas décadas, por causa do cigarro e do álcool, estas substâncias são de comércio legal e protegidas por mega-corporações e governos a elas favoráveis, enquanto que a maconha, que jamais na história registrada causou uma única morte por overdose, prossegue ilegal - seu usuário criminalizado, seu plantio proscrito, sua comercialização reprimida, seus comerciantes encarcerados... 

A Guerra às Drogas não chegou nem perto de exterminar as substâncias alteradoras da percepção, mas conseguiu exterminar... pessoas: nos campos de batalha do Rio de Janeiro e de Bogotá, de Lima e da Cidade do México, os corpos sem vida de traficantes e policiais não cessam de cair. E não há de cessar tão cedo a sanguinolência e violência nos clashes entre as Cidades de Deus e os Caveirões da s Tropas-de-Elite caso a política proibicionista hoje em vigor prossiga. Com o proibicionismo, caminhamos para a catástrofe: penitenciárias super-lotadas, com condições de vida abomináveis, onde centenas de milhares de pessoas são trancafiadas não para qualquer tipo de "reeducação moral", mas sim para serem apresentadas a uma das facetas mais sórdidas e fascistas deste Sistema. Com a continuação da política proibicionista, o Brasil pode esperar novos Carandirus, novas Candelárias, novos escândalos para manchar nossa imagem e nossa história com seu sangue jorrante... 

E pra falar no dialeto "economiquês" tão apreciado pelos políticos que nos impõe o proibicionismo, eis um fato simples: é absurdo querer guerrear contra produtos cuja demanda, por parte da população, é gigante. Quando há uma demanda tão vasta, é óbvio que haverá uma oferta para supri-la. No excelente filme The Union - O Negócio Por Trás do Barato, o espectador conhece o gigantismo deste mercado e o quão irrealizável é o projeto de alguns proibicionistas radicais de aniquilá-lo por inteiro. Em outros termos: em um país como o nosso, onde pelo menos umas 5 milhões de pessoas (chutando muito baixo!) desejam consumir maconha, é absolutamente ridículo pretender extinguir este mercado a força de bala e de cadeia.

A demanda das massas pela maconha não cessou durante as décadas de brutalidade policial e ferocidade carcerária, mas, pelo contrário, só tendeu a se fortalecer e se disseminar. Imaginem um governo que tentasse banir de seu território o comércio de café, e que para isso lançasse na cadeia todas as pessoas que fossem pegas em flagrante delito de traficar café. Em breve não haveria mais lugar algum para novos presos. É o que dá quando se proíbe e criminaliza um comportamento amplamente disseminado, a despeito das leis, e quando se quer criminalizar algo que as pessoas continuarão comprando de qualquer jeito, mesmo que tenham que recorrer ao mercado clandestino.

 A Lei Seca americana, que quis proibir o álcool, foi um retumbante fracasso que gerou como subprodutos um mercado negro enorme e a proliferação de Al Capones e violências sanguinolentas mil. A História mostra a ineficácia de um sistema que lança na cadeia as pessoas quando estão comercializando produtos que elas desejam intensamente "consumir" e cujos benefícios desejam gozar. O proibicionismo está fadado ao fracasso recorrente pois ele se choca contra a vontade de milhões. E uma vontade coletiva, aliás, cada dia mais tenaz e organizada, cada dia mais triunfante e de cabeça erguida, cada dia reivindicando mais alto, nas ruas, um outro mundo possível. E onde haja mais luz verde!


domingo, 12 de maio de 2013

GRASSHOPPER NIGHT: O show de Paul McCartney em Goiânia...



GRASSHOPPER NIGHT
Uma Gonzo-Reportagem


"...a imperecível necessidade humana de viver em beleza." 
Johan Huizinga em "Homo Ludens"
(Ed. Perspectiva, pg. 71)




"Remember to let her into your heart, 
Then you can start to make it better
The minute you let her under your skin,
Then you begin to make it better.
So let it out and let it in...
Hey Jude, begin!
Don't carry the world upon your shoulders..."





Paul McCartney teve que percorrer uma longa e tortuosa estrada até vir parar, com mais de 70 anos rodados pelas trilhas da vida, aqui nas terras dos Goyazes... 

Em sua primeira infância, na Inglaterra de 1942, durante a 2ª Guerra Mundial, o garoto de Liverpool brincava pelos territórios bombardeados pelo III Reich, como ele mesmo narra no início do Beatles Anthology: "We played on bomb-sites a lot and I grew up thinking the word 'bomb-site' almost meant 'playground'. Reminders of the war were all around..." (p. 17). 

Foi por pouco que Hitler e sua gangue de arianos genocidas não adicionaram ao seu horrendo catálogo de atrocidades a morte da família McCartney: estima-se que 4.000 pessoas morreram durante os ataques da Luftwaffe que ficaram conhecidos como Liverpool Blitz.


Filho de um pai protestante que tocava piano, e que desde o berço fez o pequeno Paul "mergulhar" no mundo do jazz e do folk, e de uma enfermeira católica, que sempre cuidou de sua saúde com muito esmero, McCartney desde cedo esteve rodeado e possuído pelas musas da música. 

Desde tenra idade, decorava os hits do rádio, tocava piano em festinhas familiares, compunha cantigas ao violão e ia atrás de conhecer e se amigar com os melhores músicos de Liverpool: antes dos 16 anos de idade, já impressionava os músicos ao seu redor com suas versões bem-timbradíssimas de Eddie Cochran, Little Richard e Elvis Presley, dentre outros roqueiros das antigas. E logo o mocinho integraria a Banda de Besouros, a Banda do Sargento Pimento e do Submarino Amarelo, aquela que se tornaria um dos monumentos musicais mais importantes do século 20 e uma das cerejas no bolo do Sonho Hippie...

E hoje em dia, me parece, McCartney prossegue, apesar de ser um perfeito gentleman britânico, um hippão de coração. Talvez o hippie, neste planeta, com a maior conta bancária (sua fortuna é estimada em mais de U$1.000.000... um bilhão de doletas!), e cujo ideário hippie decerto não inclui como ideal norteante a pobreza voluntária. McCartney ainda fala em favor da legalização da maconha, que, conta a lenda, teria sido apresentado aos Beatles em 1964 por Bob Dylan, o que parece ter sido para Paul o início de um caso de amor de fidelidade ímpar, com o cânhamo sagrado, já que ele segue pró-cannabis mesmo tendo sido preso algumas vezes, em alguns países, por posse de fontes de THC. McCartney também ilita em prol dos direitos animais,  sendo talvez o vegan com maior apelo de massas no atual showbizz global, capacitado para gerar discussão e debate público sobre um tema ainda tabu (os bilhões de criaturas mortas para serem consumidas por humanos na forma de hambúrgueres, salsichas e fatias de bacon). 

Outro índice de hippiedade é que em  muitas ocasiões ele já escancarou, em suas declarações, uma mui-hippie predileção intensa pela psicodelia. Teve uma experiência existencial significativa quando olhou através dos telescópios e microscópicos lisérgicos, nos anos 60, época em que ingeriu muitas doses da Poção de Hoffmann que o Dr. Leary andava louvando por aí (o LSD... homenageado singelamente em "Lucy in the Sky With Diamonds", dentre outras cantigas). Os pendores de Paul McCartney ao louvor arrebatado e hiperbólico às substâncias psicodélicas ficam claros, por exemplo, em declarações como a seguinte, que foi pescada do Anthology e em que ele relata sua experiência com  o LSD:


"After I took LSD, it opened my eyes: we only use one-tenth of our brain. Just think what we could all accomplish if we could only tap that hidden part. It would mean a whole new world. If the politicians would take LSD, there wouldn’t be any more war or poverty or famine."

McCARTNEY
No "The Beatles Anthology"
(Chronicle Books, San Francisco, Pg. 255)
[ Re-blogar citação no Tumblr ]

McCartney, hoje em dia? Um setentão que aguenta 3 horas de show sem precisar beber uma gota d'água. E esta turnê pelo Brasil, em 2013, certamente deixará lembranças indeléveis nos corações e mentes dos cerca de 150.000 brasileiros que o viram de perto em Belo Horizonte (no Mineirão), Goiânia (no Serra Dourada) e em Fortaleza (no Canecão).




Foi uma oportunidade magnífica ver em carne-e-osso esse mito-vivo, em sua primeira aparição por Goiás, com um showzaço que satisfez com folga o público que encheu o Serra Dourada. Até agora não conversei com ninguém que não tenha descrito o espetáculo com os mais entusiásticos e gratos dos termos. Foram 38 músicas, com um repertório repleto de clássicos dos Beatles (com destaque para "Hey Jude", "Let It Be", "Eleanor Rigby", "Get Back", "Helter Skelter", "The Long and Winding Road", "Yesterday", "Back in the U.S.S.R"...) e dos Wings (incluindo as estupendas "Live and Let Die" e "Maybe I'm Amazed"). 

Num espetáculo grandioso, cheio de pirotecnias, com psicodelia bem-bolada rolando nos telões, e acompanhado por uma bandaça impecável, Paul McCartney passou por Goiânia impressionando geral com sua vivacidade, sua simpatia e seu embriagante e revigorante tônico musical, bebido com tanta sede e deleite pelas massas-em-festa... Em suma: reativando a beatlemania nestas noites brasileiras repletas de histerias ultra-admirativas e aclamações esfuziantes, Macca encantou geral com sua voz e suas melodias, dando farto alimento à "imperecível necessidade humana" (pois nem só de pão vive o homem...) "de viver em beleza" - como diz no Homo Ludens o Huizinga. 

"Goiânia Grasshopper Stage Invasion!" 
[Vídeo oficial do PaulMcCartney.com]

Sem dúvida, o elemento pitoresco do show em Goiânia, e que ficará indelével na memória do público e do músico, foi a alegre invasão daqueles beatlemaníacos alados que não perderam a chance de fazer o que muito mortal fica só passando vontade: tocar a carne de um mito. Viraram até notícia internacional! Goiânia fez jus a sua fama de "roça asfaltada" e, ao mesmo tempo, esta imprevista irrupção de vida fez com que o ambiente, saturado da artificialidade ultra-tecnológica daquele palco hi-tech, se reconectasse com a natureza. Como notório defensor dos direitos dos animais, Paul McCartney em nenhum momento foi agressivo contra os visitantes inesperados - aliás bastante inofensivos, desprovidos que são de malícia e de ferrão. Ao invés de enxotá-los com tapões ou piparotes que poderiam equivaler, para tão frágeis criaturas, a severos hematomas, ou mesmo a golpes fatais, McCartney divertiu-se como um pirralho com os bichinhos - dotados, aliás, de excelente gosto musical. 

Tem gente dizendo que eram grilos-esperança, outros que eram gafanhotos, outros ainda "insetos vetores"; pouco importa. O que importa é aquilo que o episódio revelou sobre a personalidade de Paul, seu espírito lúdico tão vivaz e seu senso-de-humor tão espontâneo. Também se tornou clara a capacidade enorme de empatia com outros terráqueos que é uma marca de personalidade de McCartney, que aliás criou uma das máximas mais célebres da história do vegetarianismo (que era também praticado por Linda): "se os abatedouros tivessem paredes de vidro, todos seriam vegetarianos". O estádio Serra Dourada foi proibido de vender espetinhos de carne no espaço do show, por pedido do próprio McCartney, que é militante pelos direitos animais há muitos anos. O que se escancarou com este episódio é que não é somente em prol de vacas, bois, galinhas, porcos e perus - dentre outros animais que os humanos devoram!  - que McCartney milita e defende. Que coerência genuína de pensamento e ação o episódio com os grasshoppers revelou! 

Pego de surpresa, McCartney mostrou excelente capacidade de improviso: usou o acaso a seu favor e transformou os bichos numa atração à parte. Um deles (ou seria uma delas?), particularmente obstinado em manter-se coladinho no Beatle, foi batizado de Harold e convidado a saudar a platéia no microfone. Mas Harold se intimidou diante dos mais de 45 mil humanos presentes e manteve-se calado. Quando veio o clássico "Hey Jude", um dos muitos ápices emocionais do show, com 40 mil vozes se juntando no coro de "nánáná", ocorreu um momento mágico: o grasshopper beatlemaníaco estava pousado nos ombros de McCartney quando veio o verso "The movement you need is on your shoulder", e Macca, veloz e sagaz, não perdeu a ocasião da alusão.

(Lembrei de uma das melhores cenas do documentário sobre Raul Seixas, O Início, o Fim e o Meio, quando o diretor Walter Carvalho recebeu, também, um presente do acaso muito bem aproveitado: entrevistando Paulo Coelho em Genebra, cidade onde quase não existem moscas,  Carvalho viu o "set" ser invadido por uma inesperadíssima aparição alada; Paulo Coelho não perdeu a ocasião de apontar: "deve ser o Raul...". Depois de ser esmagada a mosca pelo místico higienista, a sacada do documentário, aliás brilhante, está edição de som, que faz com que Raulzito, eterno mosca-na-sopa da caretice e do quadradismo, entre cantando logo na sequência: "E nem adianta vir me dedetizar... Pois você mata uma e vem em outra em seu lugar!")



O que mais me assombra e me impressiona é uma pessoa com tamanha capacidade (intacta!) para as alegrias fáceis, para as cantorias vivazes, para as melodias memoráveis, quando sabemos quantas tragédias e lutos ele não teve que enfrentar nesta longa e tortuosa estrada da vida! Fora os horrores da guerra, experenciados na infância, que relatamos no começo desta gonzo trip, cabe lembrar que Paul, na adolescência, quando tinha 14 anos de idade, perdeu a mãe para o câncer - foi quando viu seu pai chorar pela primeira vez. Resistiu vivo através de outras tempestades, sobrevivendo ao assassinato que levou Lennon em 1980, ao câncer que matou sua esposa (e mãe de seus filhos) Linda em 1998, tendo também se despedido do caixão de George Harrison em 2001. É uma lição de vida testemunhar que nada disso aniquilou o senso de humor e a capacidade de empatia com os viventes deste artista com espírito perpétuo de menino e que encantou com sua graça os mais de 45 mil mortais que encheram o Serra Dourada para prestigiá-lo.



É bem verdade que este espetáculo Out There usa e abusa da pirotecnia, não economizando no tamanho dos telões, na coloridice extrema das imagens, na variedade de holofotes e luzes, na profusão de fogos de artifício e lançadores-de-chama (que fazem sua estrondosa aparição-clímax em "Live and Let Die"). Há algo de arrasa-quarteirão roliudiano no show, que pretende ser uma torrencial chuva de estímulos sensíveis sobre um público que McCartney deseja levar ao delírio, ao êxtase coletivo, depois recolhendo com deleite as aclamações, as salvas de palmas e os ursinhos de pelúcia lançados sobre o palco por mocinhas apaixonadas. 


Um crítico de arte que conhecesse de Adorno e Horkheimer, que soubesse das críticas de Guy Debord à "sociedade do espetáculo", talvez pudesse destroçar criticamente este show como mero showbusiness alienante, como uma criação do capitalismo hi-tech que serve para algo similar ao que o "Pão & Circo" fazia para o Império Romano. Acho plausível, aliás, que nosso governador tucano e cachoeirista, Marconi Perillo, tenha investido dinheiro público neste show com intenções de, através de uma pão-e-McCartney grandioso e crowd-pleaser, fazer com que os goianos esquecessem de suas tenebrosas e escusas relações com o Al Capone do Cerrado, o gangter Carlinhos Cachoeira, pra não falar do esquema de espionagem escancarado recentemente pela revista Carta Capital.


Só que, me parece, o show de McCartney jamais poderia ser reduzido a isso, um instrumento político na mão de um governo corrupto, pois é um evento cultural que transcende o presente: foi uma oportunidade de receber um "banho de imersão" na história da música pop inglesa em algumas de suas mais geniais criações nas últimas décadas, um embarque numa viagem que nos carrega de volta para os anos 60 e 70, que nos dá um vislumbre do que foi o frenesi da beatlemania, que nos deixa instigados a criar uma cultura cuja efervescência aspire a igualar aquela que incendiou o pop nos crazy sixties. 


McCartney escapa do "imediatismo" do showbizz, que costuma dar ao público algo que ele possa consumir e logo esquecer (a fila das mercadorias anda!). McCartney parece desejar que cada um no público leve para casa uma lembrança indelével, algo a ser carregado pelo resto da vida, por isso não se economiza, não poupa seu coração, não retêm seu sentimento; sentimos algo de genuinamente humano e caloroso sobressaindo sobre aquela parafernália técnica toda. McCartney anda fazendo, ao vivo, um ritual auto-celebratório em que resgata seus mais de 70 anos de vida e seus quase 50 anos de carreira, arrastando o público numa jornada colorida, lisérgica, psicodélica, às vezes kitsch, sempre emotiva e emocionada, por uma vida cuja criatividade e talento os milhões de beatlemaníacos não param de celebrar. 

Aliás, McCartney consegue muito bem, sem tecnologia pesada o acompanhando, encantar uma multidão com simplicidade e frugalidade: sozinho ao violão, quando canta "Blackbird" ou "Yesterday", não precisa de pirotecnia alguma para nos deixar encantados. Na homenagem à imortal canção de George Harrison, "Something", soube deixá-la graciosa em seu despojamento ao re-interpretá-la no ukelele.

Talvez tenha razão quem disse que a música é a única língua universal: Mozart ou Bach, tocados em qualquer latitude, em qualquer continente, independente do idioma que ali domine, são deleitáveis experiências para os tímpanos humanos; e "nánáná" em inglês, em japonês e em português é sempre "nánáná". Os sons, como anarquistas desrespeitadores de todos os arames farpados, não respeitam as fronteiras: caçoam delas, velejando no vento, voando por sobre os muros e atravessando as paredes. Talvez não haja nada, dentre as criações humanas, nada com mais benéfico potencial de congraçamento do que a música. Quando 50 mil pessoas houvem a mesma música, no mesmo espaço, quando suas vozes se unem para cantar uma melodia, podem sentir-se unidas em um sentimento como só deve ocorrer em raríssimas ocasiões e para raríssimas massas, quiçá só equiparável à fervura de um levante revolucionário... O mínimo que se pode dizer de Sir Paul McCartney é que ele tem uma capacidade de comunicação afetiva com as massas que é rara; que sua música prossegue tendo uma graça que transborda e que não envelhece; que com mais de 70 anos, prossegue com espírito de menino, legítimo espécimen do homo ludens; que muitas de suas melodias tem vocação para a eternidade e muito provavelmente poderão agradar também a nossos bisnetos e tataranetos; e que os Beatles não deixarão mais a história da música do século 20 como um de seus acontecimentos mais dourados. 

"And in the end
The love you take
Is equal to the love 
You make."


"Live and Let Die" e "Hey Jude"
(ao vivo em Goiânia, Maio de 2013)

Siga viagem em outras criações do Mega-Macaco Macca...


ÁLBUNS DE ESTÚDIO (COMPLETOS)

MCCARTNEY (1970)
MCCARTNEY II (1980) 
RUN DEVIL RUN (1999) 


ALGUMAS CANTIGAS MEMORÁVEIS

“WHEN I’M 64” DO SGT PEPPERS
“SHE’S LEAVING HOME” OUTRA DO SARGENTO PIMENTA

THE BEATLES ANTHOLOGY (ÁUDIO)
(6 horas de Beatles!)


quinta-feira, 1 de novembro de 2012

"O Livre Caminhar das Pernas" >>> Entrevista exclusiva com Diego de Moraes


O LIVRE CAMINHAR DAS PERNAS (*)
A aventura estética de Diego de Moraes

(*) verso de Fernando Simplista, 
camarada e parceiro  de Dieguito




"Nenhuma fórmula para a contemporânea expressão do mundo. Ver com olhos livres."

OSWALD DE ANDRADE. Manifesto da Poesia Pau Brasil. 
(in: "A Utopia Antropofágica", Ed. Globo, pg. 65.)

"Parte de Nós" (Fósforo Cultural, 2010)
download | matéria
Poucos dos jovens artistas hoje na ativa no fervilhante cenário musical brazuca empunha tão bem a bandeira da diversidade e da criatividade  quanto este "cuiabano de Goiás", legítimo exemplar do homo ludens, "dom" Dieguito de Moraes. 

Seu álbum de estréia, Parte de Nós, lançado em 2010 pela Fósforo Cultural, já foi esmiuçado e celebrado aqui no blog em outra ocasião. O tempo passa, o tempo voa, e o disco prossegue um álbum de cara estimação e alta rotação por aqui, quiçá valendo como um dos trabalhos mais interessantes de nossa música indiegena, cá em terras de Pindorama, neste jovem século 21. 

Múltiplas e diversas são as "facetas" de Diego de Moraes: cantor, compositor, músico, poeta, cronista, chargista, professor, palhaço, mascate... Múltiplos são os projetos, bandas e parcerias em que o inquieto Dieguito injeta seus ímpetos criativos atualmente: toca as aventuras do Pó de Ser e do Waldi & Redson; canta em parcerias com as cantoras Rosa Ferraz e Sara Não Tem Nome; e nesta próxima Sexta-Feira, 05 de Outubro, apresenta seu novo espetáculo solo, no Centro Cultural UFG, onde música, teatro, circo e poesia prometem dar-se as mãos em lúdica comunhão. 

Pra quem ainda não conhece a obra de Diego de Moraes, eis aqui, nesta matéria e entrevista, o convite e a janela aberta. 

Já veterano no cenário de festivais de Goiânia (já tocou em inúmeras edições do Goiânia Noise, do Bananada e do Vaca Amarela...), Diego de Moraes já abriu shows para Rita Lee (no FICA 2011), já fez dueto com o Jards Macalé (no Bananada 2012) e já vociferou "Bichos Escrotos", dos Titãs, num festival dedicado ao cinema ambiental. É uma das forças criativas mais exuberantes da nova música que se inventa no Cerrado brasileiro, às vezes "desafinando o coro dos contentes" (Torquato Neto), às vezes "botando seu bloco na rua" (Sérgio Sampaio). Dieguito já merece juntar-se a Cícero e Camelo, Wado e Amarante, Criolo e Emicida, Karina Buhr e Blubell, no time dos grandes compositores que esta geração está rendendo. 

Em "Pelas Barbas do Profeta", Diego abre o leque de suas diversas influências e mestres: dos versos de Camões aos traços de Robert Crumb, dos olhos de Chico Buarque às veias de Jimi Hendrix, de Grande Sertão: Veredas à "transa de Romeu & Julieta" ("quem não pode, que fique na punheta!").

 Esta pequena galeria de heróis poderia ser muito ampliada com a adição de tantos outros inspiradores, de Paulo Leminski a Sérgio Sampaio, de Raul Seixas a Mazzaropi, de Odair José a Arrigo Barnabé. Todos esses ingredientes são lançados num caldeirão - com umas pitadas apimentadas de Iggy e os Stooges e de new wave à la Elvis Costello - o que gera algo de um frescor e uma novidade que arejam e rejuvenescem a música brasileira. "Somos os criadores da estética dodecafona", brinca Diego, junto de seus camaradas de banda do Pó de Ser, depois do show no último Festival Vaca Amarela.

Diferença e diversidade parecem ser palavras de ordem da estética dieguista: como ele próprio avalia, seu percurso artístico no cenário musical têm primado pela valorização da diferenciação ("eu sempre tento ser um pouco diferente", canta em seu hit "Amigo"). Com uma inquietude criativa que transborda por todos os poros, incontenível, Diego segue travessia por um "caminho torto", de bicho-urbano-rural, longe de percursos pré-definidos, "na dança da canção incerta". 

Ao mesmo tempo que circula livre-e-solto no cenário de Goiânia Rock City, repleto de bandas roqueiras ruidosas, que tanto marcaram a história recente do rock goiano e brasileiro (MQN, Hang The Superstars, Mechanics, Vícios da Era, Black Drawing Chalks, Hellbenders, Bang Bang Babies, Ultravespa...), Diego de Moraes também sabe mergulhar suas raízes nos solos férteis da cultura popular, inclusive a sertaneja, admirador que é de figuras como Juraildes da Cruz e Domá da Conceição.

  

Parte de um cenário musical que não produz apenas sertanejo comercial, nem somente stoner rock pauleira e rock-de-garagem sujo, mas que também é repleto de brasilidades (é só pensar no trabalho de Umbando, Coró de Pau, Cega Machado, Grace Carvalho, Chimpanzés de Gaveta, Radiocarbono, Casa Bizantina, Passarinhos do Cerrado...) Diego de Moraes, artista singular e irrotulável, circula por estes meios sem o mínimo pudor, com um sadio desrespeito pelas fronteiras e pelos sectarismos. Não se deixa prender a uma persona ou a um estilo fixos - e não teme dar murro em ponta de faca. 

Mestre em História pela UFG (Universidade Federal de Goiás), Dieguito fala do passado com a urgência de quem sabe que viver é agora. Nenhuma veneração passiva do que passou, mas sim uma intensa atividade criativa que, debruçando-se sobre o que já foi criado, liquidificando ingredientes antigos, produz a diferença e dá-à-luz o novo. 

Contra a imposição de uma meta única a todos os tão diversos mortais, "cada um que trace sua meta". Contra a "monotonia, burocracia, desarmonia e correria (que agonia!)" de "Todo Dia", o remédio é o "livre caminhar das pernas", como diz um verso de Fernando Simplista que Diego adora e adota. "A liberdade existencialista te condena à tua própria jornada", canta Dieguito em uma das canções registradas na Depredando Sessions, sessão acústica gravada no aconchego do sofá de Diego em sua casa em Senador Canedo, Goiás, e que você pode ouvir (11 faixas) no fim deste post.

"Não quero ser só mais um que foge de si fingindo estar tudo bem. 
Não quero ser só mais um que foge de si num tranquilo além."


Diego de Moraes - "Anormalidade"




Depredando: Sua música, que já transcendeu os limites do Brasil e foi disseminada "na gringa", numa coletânea do jornal inglês The Guardian, por exemplo, costuma ser rotulada por alguns como "neo-tropicalismo". O que você acha da etiqueta? Qual a sua relação com a Tropicália e a herança tropicalista? Repetir ou reinventar?
DIEGO: Além de "Amigo" ter saído nesta coletânea do Guardian, lá fora também saiu uma música nossa, "Todo Dia", numa coletânea da Nova Tropicália. Outro dia eu tava na Avenida Goiás [em Goiânia] e um cara me abordou: “Você não pode parar não, Diego, você é a Tropicália aqui em Goiás!” Pois é: pelo fato de minha música sempre ter tido "brinquedinhos" e piruetas que levaram muita gente a associá-la com aquela “euforia” tropicalista, aquele espírito lúdico. Mas eu também gosto muito de um cara como o Sérgio Sampaio, que já é mais soturno e depressivo. 
Acho que o pensamento do tropicalismo não é uma fórmula - é algo muito abrangente. O liquidificador que era aquilo não se reduz ao ficar-repetindo o que um jornalista “fixou”. O Sindicato era uma banda heterogênea, mas  havia alguns artistas que nossas opiniões convergiam: os Mutantes é unanimidade! O Transa do Caetano Veloso também. (O Eduardo Kolody, guitarrista da banda, fez até um mestrado sobre os Mutantes chamado “Qualquer Bobagem”). Existe portanto muito interesse pela tropicália - mas não para repetir.
A crítica que faço é ao revisionismo da nossa cultura. A nossa intenção nunca foi do tipo "criar uma banda mod porque quero ser igual ao The Who". Queremos absorver essas influências e recriar. Pra mim esse é o caminho da música no Brasil e no mundo hoje: recriar é criar também. Ninguém começa do nada. Alguns tem aquela estafa de pensar: “ah, tudo já foi feito! Agora só podemos copiar!” Não: a gente pode reprocessar as influências. Essa foi sempre a idéia que norteou nossa ação no Sindicato e agora no Pó de Ser também.
Sou meio desconfiado dessas coisas de “preservar”, saca? A cultura é dinâmica e tem muita gente por aí que "se aproveita" dessas coisas da identidade cultural. O Pó de Ser polemiza nesse sentido. O meu parceiro Kleuber Garcez vem de uma banda, o Mina D'água, que tinha sempre uma presença forte ritmos tradicionais como ciranda e baião - em suma, ritmos da cultura popular. Ele começou a se sentir cobrado a ficar fechado naquilo. Ele - que é apaixonado por Caetano, tem muita coisa do Lenine, conheci o Luiz Tatit por ele... - não compactua com o "folclorismo", esses discursos que se formam em torno da preservação da identidade.  

Banda Pó de Ser, projeto que une Diego de Moraes, Klêuber Garcez e membros do Vida Seca

Você é mestre em História e pesquisador da Cultura Brasileira, alguém interessado em se debruçar sobre o passado da produção artística nacional: conte-nos um pouco sobre esta jornada de ser ao mesmo tempo um artista criador e um "entusiasta" e pesquisador da cultura nascida em terra brasilis.
No meu mestrado estudei o ISEB (Instituto Superior de Estudos Brasileiros), que existiu de 1956 a 1964. Quando ocorre o golpe militar, ele é destruído, o que é uma grande derrota não só pro ISEB, mas para a própria esquerda nacionalista, que acreditava num projeto de desenvolvimento que não estava associado à ESG (Escola Superior de Guerra). Muito da discussão do ISEB é em relação à questão da cultura autêntica, em oposição ao imperialismo. Não é exatamente folclorismo, mas uma cultura crítica e combatente.
Pegavam muita influência de conceitos do existencialismo, de “autenticidade”, não-se-perder-no-outro, aquela coisa de que fala um pouco o Heidegger em Ser e Tempo: a existência autêntica. O pessoal do ISEB, alguns deles, eram influenciados pela discussão filosófica do pós-guerra e reprocessaram isso nas formulações deles. O Renato Ortiz fala que o ISEB, no fim dos 50 e início 60, estava continuando os debates do Modernismo, mas em outras bases, num contexto de nacionalismo e  desenvolvimentismo. Mesmo com a derrota em 1964, a influência do ISEB e dos CPCs (Centros Populares de Cultura) continuou.
Movimento Estudantil, Anos de Chumbo
Nos seus últimos anos, o ISEB teve uma influência muito grande sobre os estudantes da UNE e os Centros Populares de Cultura. Muitos caras do tropicalismo começaram ali, naquela arte política dos CPCs, onde havia muito aquela coisa da conscientização, levantar os problemas do povo brasileiro... Foi posto como “arte populista”. Acho fascinante esse momento do debate da poesia concreta com os CPCs. A Tropicália é, entre outros fatores, uma resposta a esses debates: vamos só importar e repetir, como a Jovem Guarda faz? Ou vamos olhar pro Brasil?

Todos esses fenômenos culturais que foram se sucedendo - Modernismo, Antropofagia, ISEB e CPCS, Tropicália, mangue-beat, Fora do Eixo... - têm noções sobre a relação entre o nacional e o estrangeiro: até que ponto devemos nos deixar influenciar pelos "gringos", o quanto devemos ser "antropófagos", qual a diferença entre o colonizado e o imperialista... Como você vê essa questão?
A Tropicália está olhando pro Brasil, pra sanfona do Luiz Gonzaga, por exemplo. Muita coisa que estava perdida e esquecida é trazida à tona. Mas ao mesmo tempo é trazida também a psicodelia: mistura-se Jimi Hendrix com Roberto e Erasmo. Nos meios mais intelectualizados, a Jovem Guarda era muito mau-vista como alienação, entretenimento, mas a Bethânia, por exemplo, percebeu que ali tinha alguma coisa, incentivou o Caetano a olhar pro Roberto com outro olhar. Entre 64 e 68 é um momento de muita efervescência, mas depois disso começa a censura, os exílios...
A Tropicália tem repercussão nos festivais, mas batendo de frente nas fórmulas dos festivais, indo contra o nacionalismo ufanista. Ainda tem nacionalismo na Tropicália, só que um nacionalismo internacionalista. Já o Teatro Opinião é quase o resquício do CPC que tinha acabado. Lá tinha 3 grandes figuras: a Nara Leão representando a bossa nova e a Zona Sul, já que o apartamento dela era um centro de reunião importante (até brincam que lá era preciso cantar baixinho, porque era apartamento...). João do Vale, pedreiro e grande poeta. E o Zé Keti, representando o morro.
Nos anos 60 houve toda uma polêmica sobre a arte política: de um lado a esquerda nacionalista, por exemplo o Geraldo Vandré, e de outro lado a antropofagia total que os tropicalistas queriam. Minha música vai mais na veia do tropicalista, mas não sou como muita gente, que vê o Vandré como um retardado nacionalista, nem como aqueles mais politizados que o endeusam... 
“Pra Não Dizer Que Não Falei De Flores” virou um grande emblema das lutas sociais no Brasil: impossível pensar essa época sem citar essa música. O Pablo Kossa escreveu no manifesto do Rock pelo Niemeyer: “se disseram que quem sabe faz a hora, o pessoal de Goiânia entendeu isso”. Muitas manifestações ainda fazem referência a essa música. Já o pessoal que venera Mutantes, Tom Zé, Caetano, parece que despreza o Vandré, uma galera que diz que ele é personagem datado. O Julio Medaglia, que é um cara polemicíssimo, eu adoro as coisas que ele fala sobre isso: os provocadores são sempre interessantes. 



Ainda em 2012 seu projeto Waldi & Rédson, dupla caipira que você integra junto com o Chelo, da banda mineira Porcas Borboletas, vai estrear em disco?

Sim! O nosso primeiro disco, Minha Vida Empanzinada, já está engatilhado e deve sair em breve.  A gente acha que no Waldi e Rédson dá pra amarrar uma história, construir um fio narrativo, e até mesmo com mais concisão do que foi no Parte de Nós. Nós achamos que pode rolar um lance meio Léo Canhoto e Robertinho, sabe? Aquelas histórias de bangue-bangue. Ou algo no estilo do Estrada da Vida, aquele filme feito pelo Nelson Pereira dos Santos.
De tudo que eu já fiz na vida, o Waldi e Rédson é aquilo que tem o conceito mais bem definido. É uma dupla sertaneja com influência dos clássicos que a gente escuta – Milionário e Zé Rico, João Carreiro e Pardinho, forte inspiração no bang-bang de Léo Canhoto e Robertinho, então é esse universo. Mas nas letras... Nas letras é a loucura, a junkeria, a piração... E as nossas piadas internas, como o F.O.B. (Fura-Olho-de-Brother), uma expressão que o Chelo sempre usa e que acabou entrando pro vocabulário do nosso círculo de amigos. “O cara é FOB, hein?” “Tá FOBANDO o outro!” Virou até o verbo fobar. (rs) Já chegaram até a inventar o P.I.B., que é o Pega-Irmã-de-Brother. Não dá pra saber o que é pior: o cara que fura o olho ou o cara que pega a irmã do brother... (rs)”

Dieguito e o violeiro Domá da Conceição




Se nada se cria do nada, tudo se cria a partir de criações prévias, ainda que transformadas, ultrapassadas, pervertidas, traduzidas, atualizadas. Conte-nos um pouco mais sobre alguns de seus "heróis" musicais, os compositores e cantores que mais te influenciaram.

Quando a gente abriu o show do Cérebro Eletrônico, fiz uma entrevista com o Tatá Aeroplano. A paixão pelo Sérgio Sampaio e pelo Júpiter Maçã nos une. Ele também venera o trabalho desses caras. Toda essa cena tem uma veneração pelos Mutantes e por Tom Zé que está sempre presente. É aquela coisa... Não ter medo da liberdade! A velha mensagem de abrir as portas da percepção. Estar com as antenas abertas para absorver e manter contatos.


Walter Franco é um grande criador, de uma obra inquietante, criada já depois do tropicalismo. Até acho que o Araçá Azul é uma resposta do Caetano ao Ou Não do Walter. Acho Walter Franco um grande artista, até pelo lance da poesia concreta. Já o Sergio Sampaio é muito visceral, cru. O último disco que ele lançou em vida foi o Sinceramente, de 1982 - até morrer em 1994, não lançou mais nada. Tem aqueles vídeos no Youtube dele, tocando pra meia-dúzia de amigos bêbados, que eu acho extremamente belo, sofisticadíssimo. Acho tudo que ele faz biográfico. Já o Walter Franco acho mais conceitual,  Sergio Sampaio é mais pessoal. Sérgio tem umas parcerias incríveis com o Raul Seixas na Sociedade Grã-Cavernista do Brasil. E ele tem todo um diálogo implícito com Drummond: “cansei de ser moderno, vou ser eterno...". 

O Juraildes da Cruz é outro que pra mim é gênio. Essas discussões do nacionalismo, da importação, que vem dos anos 60, aparecem no Juraildes: “Se farinha fosse americana e mandioca importada, banquete de bacana era farinhada...” Tem gente que trata o Juraildes como regionalista, mas eu o considero um grande criador. Um cara único, pelo violão dele, pela maneira como ele constrói. Foi uma grande felicidade quando ele nos convidou para tocar com ele lá na Praça Cívica. Um cara que a gente admira demais, que já participou de festivais com Walter Franco e Djavan, que já tinha ganhado Prêmio Sharp, depois ganhou prêmio de música brasileira no Teatro Municipal do Rio de Janeiro – e olha que foi por votação na Internet! (E ele nem tem Twitter!)



"não bato boca com o destino
o que pintar eu assino."

PAULO LEMINSKI

E quais você diria que são os teus Poetas de Cabeceira, os teus livros prediletos na área da Poesia? 


Um dos meus livros de cabeceira é o 26 poetas hoje da Heloísa Buarque de Hollanda, um livro histórico que legitimou a chamada “poesia marginal”, fenômeno das mesas de bar e das portas de cinema, da geração mimeógrafo, de mão em mão. A poesia marginal tirou a poesia da gaveta, tornou-a popular, colocou-a na calçada, levou-a para todos os lugares, para fora das bibliotecas, até por causa das gírias, da loucura das drogas. “Lugar de poesia é na calçada”. A Heloísa, de dentro da academia, reconheceu esse fenômeno da poesia marginal e arriscou,  trouxe isso pro cânone. Gosto muito do Torquato Neto, do Wally Salomão, do Jorge Mautner (gosto da obra musical quanto escritor), Paulo Leminski...

O Itaú tá com uma coleção chamada ICONOCLÁSSICOS. Eles fizeram um filme sobre o Itamar Assunção. E fizeram também um baseado no Catatau do Leminski. A viagem do Catatau é: “e se René Descartes tivesse vindo pro Brasil junto com Maurício de Nassau?” O que seria do racionalismo do ocidente se acontecesse isso? Uma prosa experimental muito bacana. 

Gosto muito do Pio Vargas, um poeta goiano que morreu aos 26 anos, em 1991, de overdose de cocaína. Leminski via o Pio Vargas como provável sucessor. É um cara marginalizado, esquecido, pela figura polêmica que foi - não baixava a crista pra ninguém. A Revista Bula organizou a publicação. 

Maiakósvki também é um cara que eu gosto pra caralho. No debate que eu te falava entre Poesia Concreta e CPC, eu acho que o Maiakósvki é referência pros dois lados. Tanto pros militantes engajados, que são a favor de uma poesia para o povo, quanto para os concretistas. Ele tem os dois lados: o do engajamento e o do experimentalismo da linguagem.


Torquato Neto


Parece-me que os seus projetos artísticos seguem um pouco a sugestão de Torquato de "desafinar o coro dos contentes" - isso no sentido de uma procura consciente pelo "ser diferente", uma fascinação pela anormalidade, uma busca por uma expressão artística excêntrica, original, que fuja dos clichês. Como é este processo de "tentar fazer diferente", ainda que destoando do coro dos contentes? 

A gente sempre fui um pouco Estranho no Ninho. Erramos mais que os outros. A gente se beneficiou muito com toda a bizarrice e a abrangência do que a gente fez. Por um lado a gente se beneficiou, mas também pagamos o preço por este caminho torto. “Um anjo torto, muito doido, veio ler a minha mão. Não era um anjo barroco...”, como diz o Drummond. A minha escolha foi usar as composições como meio de comunicar anseios, observações do cotidiano.

Eu vim da bateria. Tocava Nirvana e Ramones. Quando eu saí da Igreja, o rock foi uma válvula de escape. Até os 15 anos, eu tinha lido a Bíblia duas vezes e levava tudo aquilo tudo muito a sério. Bem nessa época aqui em Senador Canedo surgiu a primeira banda autoral, o Nóia Catódica. Quero até fazer um documentário sobre isso, sobre o cenário em redor dessa banda: eu tinha 15 anos e a galera era toda mais velha, tinha muito mais informação que eu, tinham vinis do Jethro Tull, Black Sabbath, Iron... O que nos unia era o rock. Não tinha divisão de tribos entre punk, metal, grunge – não, quem era do rock tava junto. Fazíamos cover de "Pet Cemetery", Sabbath, Iron Maiden... Foi muito legal. A minha identificação era com o grunge, com o punk, com Dead Kennedys, Stooges... Fui começando a ser incluído na MPB depois que tava tocando bateria, fui conhecendo mais coisas e me abrindo.

Quando eu morei em Goiânia, período tenso e intenso, em 2007/2008, momento em que estávamos ocupando os espaços, o Sindicato tocou muito. Em cada show a gente inventava um nome... Diego e os Fritos da Terra. Diego e os Moraes. Diego e os Mendigos. Os Imoraes. O Fal do Rollin Chamas até falou pra gente deixar uma cartola no palco e dizer pro público depositar ali sugestões de nomes de banda. Em 2007 a gente foi em nossa 1º viagem pra São Paulo porque ganhei o Prêmio Capricho. Fui o único cara feio que saiu na Capricho: foi um momento em que eles não tiveram muito capricho e, como diz o Zagallo, tiveram que me engolir. 

Em 2007, quando a gente começou, gerava um estranhamento muito grande. É a coisa do Patinho Feio. O 1º Bananada em que tocamos, você pega o flyer e vê que quem tocava: Violins, Mechanics, Sangue Seco. Naquele momento, a diversidade não estava tão grande como hoje. A gente, mesmo com nosso caminho torto, que não deve ser imitado pelas crianças (rs), da nossa maneira conseguimos contribuir para ampliar o cenário independente no sentido dele absorver a diversidade. Hoje é uma coisa mais consolidada e a gente participou nessa direção.




Próximo Show: 05/10, Centro Cultural UFG, Pça Universitária