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domingo, 26 de maio de 2013

A Revolução Verde Em Marcha: reflexões sobre a Marcha da Maconha e o movimento global em prol da legalização da cannabis!


A REVOLUÇÃO VERDE EM MARCHA!

A luz verde marcha pelas cidades, desfila na frente de universidades e drogarias, de shoppings e prefeituras, de cara limpa e na maior paz, disseminando informação e consciência enquanto dança e canta ao som de Raul Seixas, O Rappa, Manu Chao, Planet Hemp... É a luz verde que acende-se nos corações para peitar o farol vermelho todo manchado de sangue! Fervilhando pelas ruas, vão os dionisíacos maconheiros, demandando com uma mescla de revolta indignada e triunfante festa: 

"Dilma! Rousseff! Legaliza o beck!"; "Se a erva legalizar, olê-olê-olá... eu vou plantar!"; "Fumo proibido: traficante agradecido!"... dentre outras pérolas do slogan genuinamente popular. Enquanto marcha o verde, a tensão está no ar, já que há forças inimigas que espreitam, com seus revólveres no coldre, seus cassetetes e bombas de gás que saltam tão fácil sobre o corpo dos "desordeiros", dos "inimigos da Lei e da Ordem"...

Alegremente, sabendo que não vale a pena brigar com os carrancudos com a mesma soturna rigidez que eles demonstram, manda a trupe herbácea o aviso pros "hômi-de-farda": "Ei, polícia, maconha é uma delícia!". É um meio de dizer, através do humor e da provocação, que afinal de contas maconha não é nenhum bicho de sete cabeças - e pode até mesmo, se legalizada e tratada sem histeria, ser uma dispensadora de amplos benefícios, uma dádiva da Terra para nossas mentes...

Hoje em dia um movimento internacional vem colorindo de verde as ruas para escancarar o absurdo desperdício - de dinheiro público e de vidas humanas - acarretado pela Guerra às Drogas, em especial a estupidez descomunal da guerra empreendida contra a maconha, ou melhor, contra as pessoas que a plantam, a comercializam e a consomem. "Adivinha, Doutor, quem tá de volta na praça?" A esquadrilha da fumaça! Mas não a fumaça de que gosta o capitalismo - a fumaça das indústrias que vomitam seus poluentes na atmosfera e das armas de guerra a lançar seus mísseis e a provocar seus incêndios mortíferos que queimam civis e crianças... - mas a fumaça que deixa a "mente ativa" e que, para usar a expressão do B Negão, "passa de mono pra estéreo a tua compreensão"...


Em Goiânia, a Marcha Maconheira 2013 foi linda, excitante, barulhenta, diversificada... (Veja o vídeo) Pelo menos 2.000 pessoas estavam lá para o rolê que, saindo da Praça Universitária, atravessou a Rua 10 e encheu de verde a Praça Cívica iluminada por uma Lua cheíssima. A "causa" cannábica foi conectada com muitas outras: a feminista (hoje em dia bombando com a "Marcha das Vadias"...), a causa do Estado laico (hoje em dia ameaçadíssimo por Feliânus e Malafaias, dentre outros salafrários...), a causa anti-manicomial (hoje em dia na crista da onda com a instauração das "internações compulsórias para usuários de crack"...). 

Além disso, os problemas locais não foram negligenciados e a Marcha da Maconha Goiânia 2013 pôde dar seu recado sobre muitos temas de relevância para o goiano: o aumento abusivo das tarifas do transporte público; as alterações no Plano Diretor que ameaçam destruir o meio ambiente em prol do grande trator do capital corporativo; o governo todo roído por vermes de Marconi Perillo, tucano cachoeirista que, no ano passado, quando reveladas as tramóias em que se meteu, viu a juventude sair às ruas em consideráveis marchas "Fora Marconi" - algumas delas com mais de 5 mil participantes...

Debaixo de uma Lua cheia que não conhece nenhuma lei humana, que segue em sua órbita em total desprezo por quaisquer ditames, A.I.s ou dogmas que humanos tentem lhe impor, Goiânia marchou em prol de leis mais sábias. E marchou de cabeça erguida, com muita gente já convicta de que a vitória não tarda e que não há Lei neste mundo que vá impedir esta erva de prosseguir brotando por mil recantos deste planeta...

Contra o machismo que estupra e mata, contra os pastores fanáticos que só sabem condenar os "comportamentos desviantes", contra os militares broncos que querem resolver tudo no tiro, contra os vendedores de drogas bem mais perigosas do que a erva, e que se interessam mais por seu lucro do que pela saúde de um povo... Contra esses, marchamos! Em prol de um mundo mais verde, com menos motosserras e hiper-mercados, onde cada um tenha o direito de consumir - não as geringonças e quinquilharias que o capitalismo põe no mercado... - mas aquilo que cada um sente lhe ajudar a melhor "vislumbrar o infinito" e melhor perceber-se como parte do todo, capaz de conexão e soma.



Marcha das Vadias, São Paulo, Maio de 2013. Veja mais fotos.
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A Marcha da Maconha brasileira, ano-a-ano, tem insistido em tentar convencer a opinião pública brasileira do fracasso absoluto da atual política pública em relação às drogas, um tema que já foi muito bem exposto por ótimos filmes como "Cortina de Fumaça""Quebrando o Tabu""Notícias de uma Guerra Particular""Dançando com o Demônio", "Grass" - pra ficar só nos documentários.

O proibicionismo é uma política surgida nos EUA no século XX e que, pela primeira vez na história, pôs fora-da-lei a produção, a venda e o consumo de uma planta que havia sido perfeitamente legal por mais de 30 séculos - ou melhor, que nunca antes havia sido estigmatizada, demonizada outlawed. 

Por um lado, o proibicionismo yankee fede à xenofobia e preconceito racial: a marijuana era a substância de predileção dos negros, dos mexicanos, dos porto-riquenhos, e criminalizá-la era um meio de controle destas populações empobrecidas e exploradas, quase um pretexto para encarcerar aqueles que, pela cor de sua pele, seu sotaque excêntrico ou seu estranho local de origem eram considerados como elementos potencialmente perigosos.

Além disso, sabe-se do papel das grandes corporações do ramo da indústria têxtil em prol da criminalização do cânhamo, já que a fibra do hemp é muito melhor do que algodão e nylon e sua legalização acarretaria uma catástrofe para os lucros destas empresas. Tanto que William Randolph Hearst, o cidadão Kane, magnata da mídia e ultra-capitalista egocêntrico, tratou de caluniar e denegrir a imagem da maconha na opinião pública tendo em vista seus mesquinhos interesses pecuniários. Cuzão!

A cada dia se torna mais claro que o proibicionismo só serve aos interesses sórdidos daqueles que estão no negócio do encarceramento em massa de cidadãos; só serve às empresas do ramo de bebidas e de cigarro, cujo produto gera mais morte e mais doença em 1 ano do que a maconha causou em 3 milênios, e que perderiam largas fatias de lucro caso a maconha fosse legalizada; que o proibicionismo é amigo dos mega-traficantes e dos trustes do narcotráfico, com tudo o que isso acarreta de policiais, políticos e juízes aceitando propinas e vendendo favores; e, é claro, o proibicionismo é resquício de uma mentalidade ditatorial e militarzóide, que tem como ideal uma política onde mandam militares broncos que pensam poder resolver qualquer problema na bala, e que desejam se fazer necessários ao perpetuar as guerras... E, last but not least, a política proibicionista só agrada aos membros do governo, do empresariado e da mídia que desejam nossas mentes cativas, manipuláveis, encharcadas de besteirol, governáveis, eles que tem tudo a perder com a expansão da consciência coletiva que a legalização da cannabis poderia acarretar...

Marcha da Maconha em Brasília, 2012. Veja o álbum de fotos com várias marchas, incluindo Rio, Sampa, B.H., Goiânia, Salvador, Porto Alegre, dentre outras cidades...


A Marcha da Maconha convida jovialmente os proibicionistas, os repressores radicais que desejam "exterminar" estes viciosos sem-vergonhas e moralmente corruptos que são os maconheiros: em lugar de tanta bala, tanta cadeia e tanta repressão, porque não pensar em leis mais sábias? Aliás, é suspeita antiga minha que a grande maioria dos proibicionistas nunca fumou um beck, ou ao menos não tragou, o que merece uma paráfrase da excelente idéia de Terence McKenna (originalmente sobre o LSD): "A maconha é uma substância capaz de produzir efeitos psicóticos e paranóicos intensos naqueles que não a utilizaram."

Afinal, seriam da mesma opinião os senhores proibicionistas se tivessem de fato experimentado  e pesquisado concretamente os efeitos da substância? Não seria mais interessante, ao invés da perseguição belicista, uma atitude mais curiosa e inquiritiva, ou seja, fazer pesquisas científicas sérias, com pesquisadores e intelectuais bem pagos, sobre os potenciais benéficos e possíveis perigos desta planta? Por que não deixar os psicólogos, os antropólogos, os filósofos, os juristas, opinarem sobre a melhor maneira de lidar politicamente com uma erva tão amplamente utilizada e tão entusiasticamente aclamada por seus usuários? Por que não dar uma chance para um novo ciclo vegetal iniciar sua jornada legal sobre solo brasileiro, e por que não considerar a hipótese de que ele possa ser um dos pilares de uma sociedade menos nefasta, opressora e hierarquizada do que aquelas que se ergueram sobre o açúcar, o café e a pecuária?

"Se as palavras vida, liberdade e procura da felicidade não incluem o direito de experimentar com a própria consciência, então a Declaração de Independência não vale o cânhamo onde foi escrita." - Terence McKenna

O cânhamo, muito provavelmente, é a autêntica "planta do futuro": e quem não acordar pra isso vai ficar sendo parte do passado. O vasto leque de utilidades do cânhamo - que pode ser usado para fazer papel, roupa, combustível, remédio... - é sinal do quanto a estupidez do proibicionismo está nos privando de uma planta prodigiosamente benéfica em muitos domínios além da expansão da consciência e da "recreação" psicodélica. Quando a Era do Petróleo acabar (deste século não passa...), talvez a revolução verde agora em marcha torne-se não somente altamente desejável, mas absolutamente necessária. O tempo dirá! 

O Tempo, afinal de contas, já é velho conhecido e comparsa do cânhamo: eis uma planta que atravessou os milênios, não só sobrevivendo muito bem a todas as intempéries e desmatamentos, como também prestando múltiplos serviços aos humanos. O cânhamo está profundamente enraizado no passado humano, tendo participado ativamente da Invenção da Imprensa de Gutemberg e das Grandes Navegações pelas quais os europeus invadiram e pilharam a América; foi coadjuvante da Declaração de Independência dos Estados Unidos da América (que foi escrita em papel de cânhamo1), tendo sido cultivado em imensas fazendas por yankees de bufunfa grossa, chegando a ser um dos produtos agrícolas mais importantes do país, pau-a-pau com o milho e o algodão; sem falar que remédios derivados do cânhamo já foram onipresentes nas farmácias, sendo usados até pela Rainha da Inglaterra para minorar os efeitos de suas cólicas menstruais...

Além disso, mundo afora, e mais particularmente no Oriente, o cânhamo foi sacralizado por muitas culturas, consagrado em evangelhos, poemas e canções, tendo sido muito provavelmente um dos elementos importantes para a emergência histórica de vários cultos e religiões xamânicas, hinduístas, budistas, rastafaris, umbandísticas...


São milênios de usufruto e apenas décadas de repressão. Sagrada em muitas civilizações, a cannabis foi parte importante da nossa história, marcando ramos diversos da condição humana: a religião e o misticismo (ela é sagrada para os hindus da Índia, por exemplo, que em sua mitologia transformaram a maconha numa dádiva feita pelo deus Shiva à humanidade...); a criação artística e filosófica (quantas obras e quantas descobertas não foram auxiliadas pelas alterações de consciência desencadeadas pelo THC no cérebro humano?); a farmacologia e a medicina (a cannabis consta entre os remédios mais antigos e mais eficazes que o homo sapiens descobriu no imensamente bio-diverso reino da phýsis...). 

Mundo afora, este último aspecto - o potencial benéfico ou terapêutico da maconha - ganha progressiva credibilidade e comprovação científica. E em muitos países os benefícios da cannabis medicinal já podem ser usufruídos por milhões de pessoas que sofrem de AIDS, câncer, depressão, glaucoma ou dúzias de outras condições sobre as quais a maconha age de modo benéfico, por exemplo minorando os efeitos adversos da quimioterapia ou reabrindo um apetite de leão (vulgo "larica") naqueles fragilizados pela doença. Estados norte-americanos de peso, como Califórnia e Washington, e países inteiros, como a Holanda e o Uruguai sob a presidência de Mujica, já deram este passo à frente.

Quanto ao uso dito "recreativo", a maconha é a substância ilícita mais usada no planeta, a mais popular e a mais universal, e não cessa de espantar a bizarra situação histórica em que nos encontramos: apesar dos milhões de mortos, nas últimas décadas, por causa do cigarro e do álcool, estas substâncias são de comércio legal e protegidas por mega-corporações e governos a elas favoráveis, enquanto que a maconha, que jamais na história registrada causou uma única morte por overdose, prossegue ilegal - seu usuário criminalizado, seu plantio proscrito, sua comercialização reprimida, seus comerciantes encarcerados... 

A Guerra às Drogas não chegou nem perto de exterminar as substâncias alteradoras da percepção, mas conseguiu exterminar... pessoas: nos campos de batalha do Rio de Janeiro e de Bogotá, de Lima e da Cidade do México, os corpos sem vida de traficantes e policiais não cessam de cair. E não há de cessar tão cedo a sanguinolência e violência nos clashes entre as Cidades de Deus e os Caveirões da s Tropas-de-Elite caso a política proibicionista hoje em vigor prossiga. Com o proibicionismo, caminhamos para a catástrofe: penitenciárias super-lotadas, com condições de vida abomináveis, onde centenas de milhares de pessoas são trancafiadas não para qualquer tipo de "reeducação moral", mas sim para serem apresentadas a uma das facetas mais sórdidas e fascistas deste Sistema. Com a continuação da política proibicionista, o Brasil pode esperar novos Carandirus, novas Candelárias, novos escândalos para manchar nossa imagem e nossa história com seu sangue jorrante... 

E pra falar no dialeto "economiquês" tão apreciado pelos políticos que nos impõe o proibicionismo, eis um fato simples: é absurdo querer guerrear contra produtos cuja demanda, por parte da população, é gigante. Quando há uma demanda tão vasta, é óbvio que haverá uma oferta para supri-la. No excelente filme The Union - O Negócio Por Trás do Barato, o espectador conhece o gigantismo deste mercado e o quão irrealizável é o projeto de alguns proibicionistas radicais de aniquilá-lo por inteiro. Em outros termos: em um país como o nosso, onde pelo menos umas 5 milhões de pessoas (chutando muito baixo!) desejam consumir maconha, é absolutamente ridículo pretender extinguir este mercado a força de bala e de cadeia.

A demanda das massas pela maconha não cessou durante as décadas de brutalidade policial e ferocidade carcerária, mas, pelo contrário, só tendeu a se fortalecer e se disseminar. Imaginem um governo que tentasse banir de seu território o comércio de café, e que para isso lançasse na cadeia todas as pessoas que fossem pegas em flagrante delito de traficar café. Em breve não haveria mais lugar algum para novos presos. É o que dá quando se proíbe e criminaliza um comportamento amplamente disseminado, a despeito das leis, e quando se quer criminalizar algo que as pessoas continuarão comprando de qualquer jeito, mesmo que tenham que recorrer ao mercado clandestino.

 A Lei Seca americana, que quis proibir o álcool, foi um retumbante fracasso que gerou como subprodutos um mercado negro enorme e a proliferação de Al Capones e violências sanguinolentas mil. A História mostra a ineficácia de um sistema que lança na cadeia as pessoas quando estão comercializando produtos que elas desejam intensamente "consumir" e cujos benefícios desejam gozar. O proibicionismo está fadado ao fracasso recorrente pois ele se choca contra a vontade de milhões. E uma vontade coletiva, aliás, cada dia mais tenaz e organizada, cada dia mais triunfante e de cabeça erguida, cada dia reivindicando mais alto, nas ruas, um outro mundo possível. E onde haja mais luz verde!


quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Depredando o Neoliberalismo - Parte II: O Público Que Vai Privada Abaixo... (Refletindo com Foucault, Todorov, Bourdieu, Arendt, Viveiros de Castro...)



O NEOLIBERALISMO E A PRIVATIZAÇÃO GENERALIZADA
DOS SERVIÇOS PÚBLICOS


É bem conhecido o estratagema ideológico de mascarar realidades espúrias detrás de belas palavras de tonalidade positiva: ao invés de falar em demissões em massa, fala-se em “reestruração das empresas”; para não se referir aos brutais cortes de recursos destinados aos serviços públicos essenciais, refere-se à “redução dos gastos sociais”; para justificar as cada vez mais célebres “medidas de austeridade”, que sufocam atualmente as populações de países como a Espanha e a Grécia, fala-se na necessidade de “manter a confiança dos investidores”. São alguns dos muitos exemplos desta “retórica eufemística que corre hoje nos mercados financeiros” (BORDIEU: 1998, p. 65) e domina o dialeto economiquês. O uso que o neoliberalismo faz da palavra “Liberdade” também fede a abuso, o que Todorov soube bem destrinchar em sua obra mais recente: “Não sabemos que os tiranos do passado invocavam regularmente a liberdade? (…) Somos verdadeiramente a favor de toda liberdade, incondicionalmente, inclusive a da raposa no galinheiro?” (TODOROV)

Através de discursos repletos de eufemismos e termos técnicos, que escondem realidades sujas, os apologistas do neoliberalismo põe a “estabilidade dos mercados financeiros” em uma posição privilegiada em relação às necessidades mais urgentes das populações. O que ocorre de fato sob a vigência do neoliberalismo é a “privatização generalizada dos serviços públicos, a redução das despesas públicas e sociais, (…) o agravamento extraordinário das diferenças entre as rendas, o desaparecimento progressivo dos universos autônomos de produção cultural em virtude da intrusão crescente das considerações comerciais...” (BOURDIEU: Contrafogos 1, p. 143)

Será que não estaria em jogo, com o termo “globalização”, um procedimento semelhante de eufemismo, mascaramento e enganação? Não estaríamos diante de um processo que consiste em “unificar para melhor dominar”, como diz Bourdieu? Afinal de contas, esta tal de globalização será algo além do processo de imposição das doutrinas neoliberais em escala planetária? Não esconderá uma divisão internacional do trabalho que prossegue, tal qual nos dias do colonialismo, a favorecer os países capitalistas avançados em detrimento dos países por eles explorados? “Em suma”, afirma Bordieu, “a globalização não é uma homogeneização, mas, ao contrário, é a extensão do domínio de um pequeno número de nações dominantes sobre o conjunto das praças financeiras nacionais.” (BOURDIEU, idem, p. 54).

“'Globalização é uma palavra que, funcional como uma senha e uma palavra de ordem, é com efeito a máscara justificadora de uma política que visa universalizar os interesses e a tradição particular das potências econômica e politicamente dominantes, sobretudo os Estados Unidos, e estender ao conjunto do mundo o modelo econômico e cultural mais favorável a essas potências apresentando-o ao mesmo tempo como norma, um tem-que-ser e um fatalismo, destino universal, de modo a obter a adesão ou, pelo menos, resignação universais. (…) A globalização econômica é o produto de uma política implementada para fins específicos, a saber, a liberalização do comércio (trade liberalization), isto é, a eliminação de todas as regulações nacionais que freiam as empresas e seus investimentos. (…) Assim, nas economias emergentes, o desaparecimento das proteções destina à ruína as empresas nacionais e, para países como a Coréia do Sul, a Tailândia, a Indonésia ou o Brasil, a supressão de todos os obstáculos ao investimento estrangeiro acarreta a ruína das empresas locais, adquiridas frequentemente por preços ridículos pelas multinacionais. (…) As diretrizes da OMC sobre as políticas de concorrência e de mercado público teriam por efeito, ao instaurar uma concorrência 'de armas iguais' entre as grandes multinacionais e os pequenos produtores nacionais, provocar o desaparecimento maciço destes últimos.” (BOURDIEU: 2001, pg. 90 e 101-102.)
* * * * *


PRIVATIZAÇÕES & ESTADO POLICIAL

“Há hoje um sentimento amplamente difundido na Esquerda de que o neoliberalismo efetivamente enfraqueceu o poder do Estado nas sociedades ocidentais modernas, e que é chegada a hora de abandonarmos a postura antiestatista e antitotalitarista associada à crítica do stalinismo e ao autonomismo utópico dos anos 60 e 70. Enfim, é tempo de constatarmos, com não pequeno constrangimento, que talvez tenhamos sido cúmplices do Mercado em sua luta para diminuir e subjugar o Estado, última barreira protetora dos direitos do povo contra a sanha do Capital. (…) Não posso deixar de dizer que não acredito nem um pouquinho nisso. A ideia de que o capitalismo globalizado acarretou uma diminuição do poder do Estado parece-me inverossímil. À parte o fato de que foi e continua a ser preciso um gigantesco aparelho regulador e interventor, administrado pelo Estado, para produzir a 'desregulação da economia', jamais o Estado esteve tão presente, tão perto da vida cotidiana. A Grã-Bretanha, por exemplo, com suas câmeras de vigilância penduradas por toda parte, seus agentes secretos infiltrados nos movimentos civis, sua polícia neo-orwelliana, transformou-se em um espaço de autoespionagem universal e perpétua; nos EUA, a Guerra contra o Terror justificou uma invasão dos espaços privados e uma violação das liberdades públicas como jamais se viu na história das democracias modernas, o que tornou a paranóia o modo de produção dominante da subjetividade nativa. E no mundo inteiro, vemos o aparelho jurídico-policial dos Estados nacionais prestando seu apoio solícito aos esforços das corporações transnacionais para cercar definitivamente os commons da noosfera e esmagar com a máxima violência qualquer resistência à bioeconomia política do Capital.” (VIVEIROS DE CASTRO: Posfácio à Arqueologia da Violência, de Pierre Clastres, 2004, p. 325)

Michel Foucault, que investigou o
neoliberalismo em "O Nascimento
da Biopolítica"
(1979)
Uma certa “fobia ao Estado” parece animar as doutrinas liberais e similares, como sugere Foucault: “o que é posto em questão atualmente e a partir de horizontes extremamente numerosos é quase sempre o Estado: o Estado e seu crescimento sem fim, o Estado e sua onipresença, o Estado e seu desenvolvimento burocrático, o Estado com os germes de fascismo que ele comporta, o Estado e sua violência intrínseca sob seu paternalismo providencial.” (FOUCAULT: 2008, p. 259) Os espectros temíveis dos Estados totalitários do século XX – como a Alemanha do III Reich e a União Soviética sob Stalin estariam na raiz dessa “guinada neoliberal”?

Foucault esclarece que o totalitarismo não lhe parece decorrer de uma “elefantíase” do Estado, mas sim do Partido: “esse Estado que podemos dizer totalitário, longe de ser caracterizado pela intensificação e pela extensão endógenas dos mecanismos de Estado, (…) constitui, ao contrário, uma atenuação, uma subordinação da autonomia do Estado, em relação a algo diferente: o partido. (…) É essa governamentalidade de partido que está na origem histórica de algo como os regimes totalitaristas, de algo como o nazismo, como o fascismo, como o stalinismo.” (idem, p. 264)

O totalitarismo, pois, equivaleria a um “sequestro” do Estado por um partido que pretende reinar sem oposição - donde os “expurgos” do stalinismo, com tantos opositores enviados às gulags, e a tentativa do Partido Nazi alemão de impor a “purificação racial” através do genocídio sistemático. O totalitarismo como imposição de uma homogeneidade a uma massa, como máquina de varrer gente para fora do território com a terrível vassoura da limpeza étnica, a imposição da morte em escala industrial através de “conquistas tecnológicas” como as câmeras-de-gás que vomitam Zyklon B...

Já o avanço da aplicação de medidas neoliberais dá a impressão de que o Estado estaria cada vez mais limitado em sua esfera de ação: tudo o que um dia foi público vai passando por um inexorável processo de privatização. Outrora responsável por serviços essenciais à população nas áreas de saúde, alimentação, moradia e transportes, o Estado privatizador que o neo-liberalismo prega como ideal tende a conservar apenas funções policiais e militares, como se sua função fosse somente a defesa, a vigilância, a segurança. Nisto, este Estado é fidelíssimo à tradição política burguesa que, segundo Hannah Arendt, “sempre considerou instituições políticas exclusivamente como um instrumento para a proteção da propriedade individual” (The Origins of Totalitarianism, p. 199).

“A filosofia neoliberal pretende apagar todos os vestígios do Estado social como obstáculos ao funcionamento harmonioso dos mercados” (BOURDIEU: 1998, p. 84). O neoliberalismo, com sua sanha de privatizações, procura “enxugar” cada vez mais aquelas funções estatais típicas do welfare state e realiza um “corte, absolutamente injustificável, entre o econômico e o social, que define o economicismo” (idem, p. 70). “O programa neoliberal tende assim a favorecer globalmente a ruptura entre a economia e as realidades sociais.” (idem, p. 138).

Defender o Estado, diz Bourdieu, não equivale a ser reacionário, defensor de um arcaísmo: o Estado, “depositário de todos os valores universais associados à ideia de público(idem, p. 145), têm agido “rebaixando sua dignidade estatutária ao multiplicar as reverências diante dos patrões de multinacionais, ou ao competir com sorrisos e acenos coniventes diante dos Bill Gates...” (idem, p. 145)

O Estado, segundo a interpretação de Bourdieu, possui duas mãos: a esquerda, devotada às necessidades sociais como habitação, saúde, educação, e a direita, onde concentra-se a burocracia, a polícia, o exército. Nos EUA, por exemplo, é fácil constatar que a “mão direita” do Estado cresceu desproporcionalmente, enquanto a mão esquerda foi sendo vendida, sucateada, privatizada, relegada a um status secundário, transformada em mercadoria. O Público foi privada abaixo.


País de recordes, alguns deles não tão “gloriosos” quanto aqueles que decoram os Guiness Books que os americanos adoram consumir, os EUA não é somente o maior poluidor atmosférico, o mais sedento consumidor de petróleo e a nação do planeta com o mais alto orçamento militar (“600 bilhões de dólares por ano”, segundo Todorov [2012: pg. 69]). Em 2008, como relata Ziegler, “pela primeira vez na História as defesas com armamento dos países membros da ONU ultrapassaram um trilhão de dólares por ano. Os Estados Unidos gastaram com armas 41% desse montante (a China, segunda potência militar mundial, 11%).” (ZIEGLER: 2011, p. 12).

Este imenso poderio militar é posto em ação em cruzadas no exterior, justificadas como guerras de legítima defesa (como a do Afeganistão, que seria uma retaliação contra o atentado do 11 de Setembro) e “guerras preventivas” (como a do Iraque, que supostamente livraria o mundo de um regime que abrigava armas em destruição em massa...). “Os valores democráticos, brandidos pelos países ocidentais como motivo da intervenção, foram percebidos, pela população de outros países, como a confortável camuflagem de intenções inconfessáveis.” (TODOROV: 2012, p. 63).

 É nos Estados Unidos, que possui 5% da população mundial, que se concentra a maior população carcerária, cerca de 25% de todos os encarcerados da Terra, o que denota “um Estado repressor, policialesco”: “No estado da Califórnia, um dos mais ricos dos EUA, o orçamento das prisões é superior, desde 1994, ao orçamento de todas as universidades reunidas. Os negros do gueto de Chicago só conhecem, do Estado, o policial, o juiz, o carcereiro e o parole officer...” (BORDIEU: 1998, p. 46)

O fato do cowboy from hell George W. Bush ter podido apontar o presidente da Goldman Sachs, Hank Paulson, um dos mais bem-pagos CEOs de Wall Street, como seu Ministro do Tesouro, em 2006, é bem sintomático da infiltração insidiosa e disseminada do big business no próprio coração do capitalismo neoliberal. Um sistema que, longe de globalizar o acesso gratuito e universal à alimentação, à saúde e à educação, é “globalizador” de sua tara economicista e de sua mania obsessiva de concentrar riqueza e produzir miséria.

Dois anos depois da Goldman Sachs ganhar da bandeja de Bush o Tesouro, uma crise monumental estoura nos EUA de 2008: falências colossais (como da Lehman Brothers e da Merryll-Lynch, esta última comprada pelo Bank of America...) e símbolos do capitalismo americano indo à beira da falência (a General Motors quase vai à bancarrota, só sobrevivendo com os bilhões pagos pelo Salvador, o Estado que gere o dinheiro recolhido dos taxpayers...).

A inescrupulosidade, ineficiência e a irresponsabilidade do capitalismo comercial corporativo causou grave crise social e os responsáveis pelo desastre, ao invés da cadeia ou da demissão, prosseguiram com suas fortunas intactas:“The men who destroyed their own companies and plunged the world into crisis walked away from the wreckage with their fortunes intact” (Inside Job, documentário de Charles Ferguson). O Estado, nesse caso, serviu como aquele que tira do povo (pobres dos cidadãos, cujo suado dinheirinho foi todo transferido para o “salvamento” urgencial da Merryll-Lynch e da GM...) e entregue logo aos capitalistas que causaram a desgraça.

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