Bob Dylan e Allen Ginsberg diante do túmulo de Jack Kerouac: que bela imagem! São três dos centro-avantes mais artilheiros que já marcaram gols-de-placa nos campos verdejantes da literatura norte-americana, balançando as redes com seus certeiros pontapés de poesia beatnik. Mestres de uivos místicos, protestos líricos, rupturas contra-culturais, sugestões de novas vias. Três poetas audazes que viveram a dar dribles desconcertantes pra cima dos cintura-dura repletos de autoridade.
Metáforas futebolísticas infames à parte, queria hoje "viajar" um pouco sobre um mistério que me intriga: Bob Dylan e seu impacto cultural tão tremendo. Ainda não li nem um terço dos livros que estão sendo publicados sobre ele (com destaque para a biografia do Howard Sounes e a do Greil Marcus), mas me parece já assentado que, dentre os compositores da música popular, Dylan talvez seja o único cujo domínio sobre o Verbo e dom poético é realmente descomunal em relação ao "resto". (Heterodoxa definição do gênio: aquele que transforma outros artistas em resto.) Eu mesmo, que me encanto há anos com o poder do verbo dylanesco - especialmente da fase que vai de Freewheelin' a Desire (1963 a 1976), com destaque supremo para aquela magnífica Trilogia Bringin' It All Back Home - Highway 61 - Blonde on Blonde - não acharia nada absurdo que ele fosse laureado com um Nobel de Literatura (ao qual, aliás, já foi indicado algumas vezes).
Seu poder, me parece, emana sobretudo de sua poesia. A voz anasalada (e hoje já embargada e quase estragada) do velho Zimmermann, com seus 70 anos de idade completados neste 2011, não é lá grande coisa quando comparada à de um Sinatra ou uma Ella Fitzgerald. Suas melodias tampouco eram tão imediatamente memoráveis quanto as de Lennon & McCartney. Muitos tinham mais presença de palco que ele, eram ou mais performáticos, ou mais coloridos, ou mais brilhantes de glitter, ou mais esfarrapados e vira-latas. Bowie era bem mais excêntrico, Iggy era bem mais selvagem, Springsteen bem mais enérgico... E ele? O que é que Dylan tinha demais? O que o distinguia de todos os seus contemporâneos? Por que foi entronado como um ícone cultural desse tamanhão? Como pôde ser transformado em mito sem nem precisar da morte, a grande mitificadora?
Não conheço resposta melhor que esta: foi a poesia. Difícil acreditar que a poesia possa tudo isso? Mas quem foi o miserável que inventou a mentira abominável de que a poesia é algo... impotente? Que ideia pouquíssimo poética, digna de burocratas! Os maiores poetas são aqueles que, justamente, acreditam na potência da poesia. Sabem que palavra não é uma coisa à toa, uma bestice sem relevância, um punhado de fonemas que se dissolve ao vento. Sabem que palavras mudam consciências, animam sentimentos, despertam entusiasmos, apontam estrelas. Sabem que falar é agir, e que a palavra cantada (melodizada, rimada e ritmada) talvez haja com ainda maior eficácia e impacto do que aquela aprisionada no papel. O grande poeta sabe que discursos movem e comovem. Que são instrumentos de transformação (inclusive social, política, cultural). Que não há revolução silenciosa.
Lembremos as palavras de Leminski, talvez o poeta brazuca mais próximo dos
beatniks, que diz muito melhor do que eu saberia aquilo que estou tentando expressar: "não sei se todos os povos amam seus cientistas, mas todos os povos amam seu poetas", diz o lírico curitibano. Pensem no amor dos gregos por Homero, ou dos romanos por Virgílio, dos italianos por Dante, dos ingleses por Shakespeare, ou dos franceses por Hugo... (
o funeral de Victor Hugo em Paris,1885, com 2 milhões de parisienses nas ruas: que prova mais comovente do amor dos povos por seus poetas!). "No Brasil, Vinícius de Moraes, Chico Buarque, Caetano Veloso, Milton Nascimento e seus parceiros: os poetas são amados por milhões. Por que os povos amam seus poetas? É porque os povos precisam disso: os poetas dizem coisas que as pessoas precisam que sejam ditas. O poeta não é um ser de luxo, não é uma excrescência ornamental da sociedade... Ele é uma necessidade orgânica de uma sociedade! Ela precisa da loucura deles para respirar: é através da loucura dos poetas, da ruptura que eles representam, que a sociedade respira!" Muito bem dito, Leminski!
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| O funeral de Victor Hugo, Paris, 1885. 2 milhões de franceses nas ruas. |

Impossível explicar o fenômeno Dylan sem isto: o amor dos povos pelos poetas. Dylan não foi somente um leal aprendiz de Hank Williams, Woody Guthrie, Leadbelly, Robert Johnson... ele bebeu, e em doses aparentemente dignas de “porre”, em John Steinbeck, F. Scott Fitzgerald, Herman Melville, Ezra Pound, Walt Whitman, T.S. Eliot, Arthur Rimbaud... Foi um experimentador lingüístico de marca maior, quase o equivalente de James Joyce ou o William Faulkner na música (vejam "It's Allright Ma", o Finnegan's Wake do pop!). Sabia entregar-se ao fluxo-de-consciência e lançar cacos de imagens poéticas desconexas ao papel; flertava com o surrealismo e o Dadá (“Ballad for a Thin Man”); sabia escrever biblicamente como um Milton (“Gates of Eden”), mas também sabia ser pé-no-chão e indignado, feito um Brecht norte-americano (“Blowin' in The End”, “A Pawn In Their Game”, “The Times They Are A-Changin'"...). Dylan é o tipo de escritor que não tinha medo de tarântulas, não ia com a cara dos senhores da guerra e não era profeta de nenhuma verdade eterna, mas somente da inelutável mudança.
O grande poeta não é aquele cujo livro está repleto de bonitezas, versinhos agradáveis, flores de plástico; o grande poeta é aquele cujas palavras estão na boca do povo (ou na goela, engasgados; ou no coração, ainda vagas e disformes, carentes de ordem e ímpeto...). É aquele que expressa aquilo que multidões gostariam de dizer mas não conseguem (por não saberem como formular, por não terem voz para bradar...). Um grande verso poético é aquele cuja mensagem ou imagem é tão memorável que torna-se parte de nosso ser, incorporado ao nosso cérebro, inserido no nosso repertório de sentido, nosso cardápio de encantos... Pois a vida só é vivível se pudermos enxergar nela alguma beleza. O grande poeta faz com que sintamos a beleza da vida, que talvez ele mesmo tenha ali posto. Talvez a tenha simplesmente encontrado, como uma moedinha de ouro perdida entre as rachaduras da calçada. Vai ver uma grande poeta é simplesmente alguém que se dá conta de uma beleza invisível, que os outros passam ao largo sem ver, cegos ao seu feitiço. O poeta não está indo a lugar algum, mas nos ensinando a estarmos onde já estamos: professor da arte de estar presente à presença presente de tudo, ele não mais vê o aqui-e-agora como mero chão de passagem. O presente, para ele, torna-se campo de pouso e palco de tudo.
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(Abaixo: a trilha sonora de I'm Not There, o filme de Todd Haynes, que traz canções de Dylan interpretadas por muita gente bacana. Ouçam no talo e atentos às palavras e seus encantos! Cheers!)

- Eddie Vedder & The Million Dollar Bashers – All Along The Watchtower
- Sonic Youth – I’m Not There
- Jim James & Calexico – Goin’ To Acapulco
- Richie Havens – Tombstone Blues
- Stephen Malkmus & The Million Dollar Bashers – Ballad Of A Thin Man
- Cat Power – Stuck Inside Of Mobile With The Memphis Blues Again
- John Doe – Pressing On
- Yo La Tengo – Fourth Time Around
- Iron & Wine & Calexico – Dark Eyes
- Karen O & The Million Dollar Bashers – Highway 61 Revisited
- Roger McGuinn & Calexico – One More Cup Of Coffee
- Mason Jennings – The Lonesome Death Of Hattie Carroll
- Los Lobos – Billy 1
- Jeff Tweedy – Simple Twist Of Fate
- Mark Lanegan – Man In The Long Black Coat
- Willie Nelson & Calexico – Señor (Tales Of Yankee Power)
DOWNLOAD CD 1: http://www.mediafire.com/?mjkpc7665s01qxo
- Mira Billotte – As I Went Out One Morning
- Stephen Malkmus & Lee Ranaldo – Can’t Leave Her Behind
- Sufjan Stevens – Ring Them Bells
- Charlotte Gainsbourg & Calexico – Just Like A Woman
- Jack Johnson – Mama, You’ve Been On My Mind / A Fraction Of Last Thoughts On Woody Guthrie
- Yo La Tengo – I Wanna Be Your Lover
- Glen Hansard & Markéta Irglová – You Ain’t Goin’ Nowhere
- The Hold Steady – Can You Please Crawl Out Your Window?
- Ramblin’ Jack Elliott – Just Like Tom Thumb’s Blues
- The Black Keys – Wicked Messenger
- Tom Verlaine & The Million Dollar Bashers – Cold Irons Bound
- Mason Jennings – The Times They Are A-Changin’
- Stephen Malkmus & The Million Dollar Bashers – Maggie’s Farm
- Marcus Carl Franklin – When The Ship Comes In
- Bob Forrest – Moonshiner
- John Doe – I Dreamed I Saw St. Augustine
- Antony & The Johnsons – Knockin’ On Heaven’s Door
- Bob Dylan With The Band – I’m Not There
DOWNLOAD CD 2: http://www.mediafire.com/?g8xwnkmtwf2ll2b