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sexta-feira, 18 de maio de 2012

Raul Seixas - Maluco Beleza em Metamorfose Ambulante (um retrato)

Documentário de Walter Carvalho (2012)

"...um espírito versado na serpentina arte de mudar de pele. [...] E feliz em não abrigar em si uma alma imortal, mas muitas almas mortais."
NIETZSCHE
(Humano Demasiado Humano II - Prólogo #2 e #17).



O nome escrito no RG perdura do nascimento à morte, quiçá modificado, vez ou outra, por casório, mudança-de-sexo ou ida-pro-estrangeiro. Já a criatura que este nome batiza decerto é bem mais fluida e líquida do que sugere a fixidez dos documentos. Somos seres mutantes! As barbas sucederam aos meus dentes-de-leite do mesmo modo como os cabelos alvos da velhice hão de esbranquiçar estas madeixas temporariamente cheias de cor. E não será melhor aquiescer à roda-viva dos tempos ao invés de aspirar por impossíveis imutabilidades?

“Não se entra duas vezes no mesmo rio”, dizia Heráclito uns 2.500 anos atrás. A ancestralidade do dito, seu caráter de “clássico” da filosofia, não significa que o rio de que ele falava – o rio cósmico, o rio universal, o rio de Tudo o que escorre... - cessou de correr. Prosseguem as marés em sua dança com a Lua. Prosseguem as águas a responderem aos chamados invisíveis das gravitações planetares, eternamente fluentes, e sempre aos humanos  indiferentes, por mais embasbacados que fiquem estes diante de mares e luares!

Se a própria Natureza ao nosso redor é dinâmica eterna e imparável mobilidade, seríamos loucos se quiséssemos, apegando-nos a dogmas e nos engessando em ortodoxias, sermos fixos como as “pedras que choram sozinhas no mesmo lugar”. Raul, como canta-nos em "Medo da Chuva", "aprendeu o segredo da vida vendo essas pedras que choram sozinhas no mesmo lugar". Conheço poucos versos mais lindos na história da poesia e da música brasileira. Raul Seixas nos comove e nos encanta tanto, me parece, pois não quis ter um destino de pedra, estagnada em sua solidez, e preferiu ser rio. "Eu preferiu ser uma metamorfose ambulante do que “ter aquela velha opinião formada sobre tudo...”.

E isso, pra mim, é rock'n'roll até o osso. Pedras que rolam não criam limo. Mas melhor que ser pedra que rola é ser homem-rio. Não é à toa que Walter Carvalho inicia seu filme com um dos símbolos-mor da contracultura hippie sessentista: os dois motoqueiros de Easy Rider, encarnados por Dennis Hopper e Peter Honda. Raul Seixas, seguindo essa metáfora, teria sido um easy rider tupiniquim, um que põe o pé-na-estrada ao invés de ser samambaia, um maluco beleza sem medo de ver o misticismo misturado com a lucidez, nem o rock com o baião, Jimi Hendrix com Luiz Gonzaga, Satanás com Cristo, Crowley com Shiva... A ousadia das mesclas, a leveza desse saltar eclético em várias “ilhas” da cultura, faz de Raul um desbravador de novas sendas para a liberdade!... “Faze o que tu queres... há de ser tudo da lei!”

Que esse anarquismo estético todo seja altamente subversivo eu não duvido. E é ótimo que seja. Raul Seixas permanece um remédio necessário contra o caretismo. Longe de mim bancar aqui o bully dos caretas, ainda mais considerando que tenho, com certeza, minhas próprias caretices, como todos. O problema é que o caretismo não é tão inofensivo como parece: estou convencido de que muitos “homens de poder”, muitas altíssimas autoridades políticas-militares-religiosas-policiais, muitos destes que são responsáveis por criar as nossas leis e vigiar nossos comportamentos e nossas interações sociais, são caretas dogmáticos.

Um exemplo: a sangrenta Guerra às Drogas, baseada em ortodoxias proibicionistas, por exemplo, já deixou 50.000 mil mortos no México nos últimos 5 ou 6 anos... A mesma guerra absurda, levada a cabo faz algumas décadas pelo DEA norte-americano, que segue seguindo à risca a cartilha do czar Anslinger, causou trilhões e trilhões de desperdício de verba pública e o encarceramento em massa de um imenso contingente populacional: 25% dos presos do planeta estão nos Estados Unidos da América, o maior Estado policial e militar do mundo. Quanto aos assassinados no Rio de Janeiro ou na Colômbia, bem... quem é que está contando? E como não perder a conta diante de um genocídio tamanho? 

Aliás, não haveria um certo eufemismo no próprio termo “Guerra às Drogas”? Como se as perseguidas fossem só as substâncias, e não... as pessoas que as utilizam e comercializam! Esta guerra contra pessoas, movida por preconceitos que se agarram com a obstinação de sanguessugas às nossas legislações, tem a ver – e me arrisco agora em psicologia social raul-seixista! - com o caretismo institucionalizado dos fanáticos pela ordem. E Raul Seixas é um providencial antídoto.


O que eu quero dizer é que acho ótimo que tenha existido uma figura como Raul para ser uma mosca na sopa de tudo quanto é discursinho pró DOPS, Opus Dei, Caveirão do BOPE... Raul foi, de fato, uma das maiores figuras da contracultura brasileira na segunda metade do século passado, um artista de criatividade exuberante, e que nos mostrou a beleza da ousadia, da quebra de paradigmas, do comportamento distoante. Ouvir Raul é uma cura contra a normopatia, termo que empresto do psicanalista José Ângelo Gaiarsa, talvez o mais brilhante e mais célebre dos nossos reichianos.

“Normopata” é aquele tipo de neurótico, comuníssimo aliás, que deseja, acima de tudo, ser normal. Somos todos um pouco normopatas: em situações sociais, especialmente, modelamos nosso comportamento de acordo com o que nos foi ensinado sobre o que é normal e o que é patológico, o que aceito e o que é ilícito. Ah, esses sininhos de Pavlov que não cessam de bater, infernais e aporrinhantes, dentro de nossos cérebros! 

A normopatia, neurose de massa, talvez ajude a explicar fenômenos tão atuais, e tão justamente combatidos por tantos movimentos sociais, como a homofobia, o racismo, o bullying. Pessoas que possuem uma “imagem ideal” do que seja a normalidade – por exemplo, normal é quem é branco, católico, heterossexual e “democrata” – tendem a soltar seus anátemas (e às vezes seus cachorros e sua polícia...) pra cima de quem destoa desse ideal do “Normal”. E dá-lhe pauladas e preconceitos pra cima de comunistas, negros, homossexuais, ateus, anarquistas, índios, “hippies” e tantos outros “desviantes” (na perspectiva dos fanáticos pelo normal, claro...).


No Brasil, como prova a onipresença e onirecorrência do "Toca Rauuul!" em qualquer show, boteco, pub, roda-de-samba ou concerto de música clássica, Raul Seixas virou uma espécie de mito nacional, neo-Macunaíma, objeto de um culto equivalente em terras de Pindorama àquele prestado à Che Guevara em outras plagas (cubanas ou argentinas, por exemplo). Raul é muito mais que música: é um "modelo" de comportamento, um ideal de personalidade, alguém que muita gente se põe a imitar e reverenciar como se se tratasse de um novo Cristo - e bem peculiar, aliás, dadas as propensões de Raul para o satanismo e seu amor muito maior pelo Baghavad-Gita dos indianos do que pela Bíblia dos romanos...

O pivete baiano que se encantou com Elvis Presley e Litte Richard, que puxou a gola pra cima e começou a rosnar e uivar com "Tutti Frutti" ou "Be-Bop-A-Lula", acabou sendo, junto com os Mutantes, um dos principais agentes da mistura entre a música brasileira e o que estava na crista da onda no panorama musical internacional. Raul não tinha medo de "importar" - e sem pagar direitos autorais ou ter que responder processos por plágio - o que havia de melhor no rock gringo. Ele não copiava - ele expropriava. Quer dizer: apropriava-se de modo muito próprio do que suas espertas antenas incorporavam e acabava por realizar uma síntese absolutamente original e inaudita de elementos antes considerados imisturáveis. Um antropófago!

Com Raul, acontece na cultura brasileira um dos mais poderosos fenômenos do que eu chamaria de idolatria secular. O pop star, afinal de contas, é uma espécie de ídolo a vagar fora das igrejas. Cultuado, como outrora Dionísio e Baco, nos locais de dança e carnaval, nos agrupamentos clandestinos de entusiastas, nos locais onde emergem zonas autônomas temporárias e os sujeitos experimentam as "delícias do deslimite" (Rüdiger Safranki). Como quantificar o impacto de uma figura carismática dessas nos sonhos de milhares de homens e mulheres? Como calcular quantas personalidades são moldadas, ao menos em parte, tendo o raul-seixismo como modelo e ideal? Quando John Lennon soltou aquela que deixou de cabelos em pé os fundamentalistas religiosos ("Os Beatles são mais populares do que Jesus Cristo"), estava só dando amostras de seu apuradíssimo senso social. Pois de fato, em nossas sociedades do espetáculo, pra usar a expressão consagrada por Guy Debord, os pop-stars talvez tenham mais impacto social do que alguns mofados símbolos religiosos de milênios atrás. 

Raul Seixas, arauto da contracultura brasileira, padroeiro de todas as lutas anti-manicomiais e anti-dogmáticas, sátiro e palhaço de uma sociedade gerida por elites doentes, é também aquele que nos ensinou que para desafinar o coro dos contentes não é necessário ser soturnamente triste. Com que contentamento e com que jovial audácia Raul não encarnava a ovelha negra! Esta é uma mosca risonha pousando nas intragáveis sopas dos dogmáticos, dos fanáticos, dos caretas. Como a Mafalda de Quino, Raul é um quixotesco protestador contra as sopas azedas deste mundo. E, nos antípodas do inseto nauseante e repugnante no qual o Gregor Samsa de Kafka se viu transformado, Raul Seixas é uma mosca feliz e saltitante. Provoca e alfineta, introduz a dissonância no coro dos normais, questiona as autoridades autoritárias, abre novas vias de interpretação do mundo e da vida, escancarando portas e janelas com pontapés de poeta... O estrago que causou, a influência que gerou e os encantamentos que despertou prosseguem agindo e ecoando, anos e anos depois que os primeiros vermes roeram as frias carnes de seu cadáver alcóolatra e de pâncreas mutilado. E hoje em dia, fantasma entre nós, que frequenta nossos pesadelos e sonhos, que anima nossas festas e nossos cinemas, que é semente nos solos de nossa cultura e inspiração para o desabrochar de nossa criatividade, Raul parece uma figura que saiu da vida só para gozar, altaneiro, da notável sobrevida dos mitos.





segunda-feira, 21 de maio de 2012

Raul Seixas - Discografia Selecionada (para Download)

Raul Seixas, Sérgio Sampaio, Edy Star e Míriam Batucada – Sociedade da Grã Ordem Kavernista Apresenta Sessão das Dez (1971) download


Krig-Ha, Bandolo! (1973) download


Gita (1974) - Download


 Raul Seixas e Paulo Coelho - Trilha Sonora Original O Rebu (1974) download


"Há Dez Mil Anos Atrás" (1976) download


 "Novo Aeon" (1975) download


Raul Seixas e Marcelo Nova - "A Panela do Diabo" download


agradecimentos e saudações ao providencial baú-de-tesouros do Um Que Tenha!

domingo, 27 de maio de 2012

Coleta de Música Brasileira (Volume VI)

01. Raul Seixas, "Sociedade Alternativa"; 02. Os Mutantes, "Tecnicolor"; 03. A Banda Tropicalista do Rogério Duprat, "Chega de Saudade"; 04. Gilberto Gil, "Back in Bahia"; 05. Marcelo D2, "A Maldição do Samba"; 06. Fino Coletivo, "Uma Raiz, Uma Flor" (Wado); 07. Graveola e o Lixo Polifônico, "Desdenha"; 08. Siba, "Cantando Ciranda na Beira do Mar"; 09. Cambriana, "The Sad Facts"; 10. Sérgio Sampaio, "Brasília"; 11. Jorge Mautner, "Maracatu Atômico"; 12. Raul Seixas, "Metamorfose Ambulante".

VOLUMES ANTERIORES: CINCO - QUATRO - TRÊS - DOIS - UM


Documentário (curta-metragem) "Um Sampaio Teimoso"

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

"Eu Sou Parte de Nós" (Diego de Moraes & o Sindicato)


#1

DIEGO E O SINDICATO
Parte de Nós



A normalidade... de ponta-cabeça.
Está mais do que na hora de dar um pé-na-bunda do "complexo de vira-lata", termo que Nelson Rodrigues cunhou para se referir ao complexo de inferioridade brasileiro, este "narciso às avessas que cospe na própria imagem". 

"Coitado de quem pensa que me faço de coitado!", garante Diego de Moraes em "Sobrevivo", negando-se a baixar a cabeça só por ser brasileiro --- no caso, um "cuiabano de Goiás" (e muito mais).

Com a cabeça muito erguida e o canto muito solto, o cantor e compositor estréia em álbum com um grau de auto-confiança, versatilidade e transbordante criatividade que não encontrei em nenhum outro canto do mundo neste 2010. Por essas e outras, Parte De Nós, debut do Diego e o Sindicato, me parece ser um sopro de vida que o Terceiro Mundo Festivo, para usar o termo do Wado, lança sobre a cultura de hoje, tão marcada lá fora pelas melancolias desanimadoras de Radiohead e Arcade Fire.

Se esta é a nova cara da música brasileira, fico muito feliz pelo presente (e pelo futuro) da música brasileira. Pois o rosto que vejo é risonho, criativo, ousado. É como que um redespertar do espírito lúdico que um dia deu o tom na vanguarda da música brasileira com o tropicalismo,  Raul Seixas, Tom Zé, Os Mutantes, Rita Lee e Arnaldo Baptista ("o lóki surreal")...

Mas “neo-tropicalismo” não cola, como rótulo, pelo menos pra mim: soa redutor para um artista que, apesar da influência da Tropicália, também gosta de Raul Seixas e dos Stooges, de música sertaneja de raiz e dos ruídos rock'n'roll de Goiânia Rock City. Outros dos compositores em quem Diego se inspira são "marginais" da MPB: Sérgio Sampaio, Itamar Assumpção, Luiz Tatit, artistas em que o jogo lúdico com palavras e sons dá o tom. É nesta senda que Diego se aventura, quase sempre com resultados muito positivos. 

O álbum, concebido como um livro ou um álbum de fotografias (alegre às vezes como um Monteiro Lobato), e dotado de um dos mais belos encartes que já vi (ilustras de Thiago Xavier), é um carrossel poético de um cara atravessando tudo sem jamais “se estrupicar”: “sem medo de falar e errar, sem medo de andar e tropeçar” (“Quase Nada”).

Diego de Moraes não é exatamente um sujeito normal. Em primeiro lugar, pois o grau de inventividade e amor-pelo-ofício necessários para levar 3 bandas simultâneas encontra-se em poucos cantores-compositores brasileiros. Além do Sindicato, Diego dedica-se ao tropicalismo experimental do Pó de Ser e à dupla indie-sertaneja Waldi e Rédson (onde faz par com o Chelo do Porcas Borboletas). Como se não bastasse, ainda tem ânimo para escrever uma coluna semanal no Diário da Manhã, dar aulas no ensino médio em sua cidade (Senador Canedo-GO), fazer Mestrado em História e deixar sua marca na blogosfera em seu diegodemoraes.blogspot.com.


O leque de referências contidas no álbum é vasto: de Stooges a Chacrinha, de John Lennon a Tonico e Tinoco, de Nietzsche a Jesus. "Pelas Barbas do Profeta", que conclama o ouvinte a "acordar agora pois o tempo está indo embora", mapeia um pouco da constelação que influi sobre a arte de Diego. Nela, ele cita os olhos de Chico Buarque, as veias de Jimi Hendrix, os traços de Robert Crumb, os versos de Camões e o Grande Sertão: Veredas... Diego saúda ainda “quem quer que fume”, e o verso tem muito mais aroma de cannabis que de tabaco, ainda que a referência seja bem mais sutil do que os escancarados maconheirismos de D2 e Cia. O ecletismo desta miscelânea pop-cult demonstra a versatilidade da formação cultural de Diego e o quanto ele é capaz de aprender de várias fontes. O resultado é um álbum de alguém bem mais sábio do que seus vinte e poucos anos sugerem.

O moog do Astronauta Pinguim deslancha o álbum em ritmo de new-wave, algo entre Blondie e Elvis Costello. Diego começa sua viagem poética sublinhando a inerente irracionalidade do coração: "Eu queria pensar em quem me quer / Querer quem pensa em mim". Seria o mais racional. Mas, como um dia perguntou Renato Russo, "quem um dia irá dizer que existe razão nas coisas feitas pelo coração?" Diego assina em baixo e termina por problematizar a noção aristotélica de que o homem seria um ser racional. "Sou só um homem: um animal irracional".

"Amigo" já declara em seu título suas intenções benévolas. É uma música que chega estendendo a mão com simpatia, aberta à amizade, mas que sabe que a verdadeira amizade não se dá entre seres idênticos, mas entre criaturas capazes de se amar na diferença. "Amigo, eu sempre tento ser um pouco diferente", já sai dizendo Diego, como quem confessa um traço de caráter: um desejo de não ser um clichê ambulante conjugado a uma certa antipatia pela diferença extrema, aquela que isola e desamiga. "Só um pouquinho diferente já me é suficiente".

Quando Diego entoa "eu me sinto tão igual / Um sujeito tão normal / Não sou nada genial", não é no tom reclamão ou ranzinza de quem se deprimisse com isso. O disco celebra a capacidade do afeto ultrapassar as pontes erguidas pela diferença, pelo preconceito, pela rotulação. A alegria de que, ainda que sejamos diferentes uns dos outros, cada um possa se tornar não um eu-ilhado, mas uma parte-de-nós. Ponha Tom Zé e John Donne no liquidificador, e eis "Amigo": um semi-hino neo-tropicalista que já transcendeu as fronteiras do Brasil e andou sendo citado até na Inglaterra pelo jornal Guardian UK como representante notável da nova MPB.

"Anormalidade" volta a pôr em lúdica questão um dos eixos temáticos principais do álbum, a oposição normal/anormal, sadio/patológico. Diego está a todo momento querendo borrar os limites desta dicotomia e mostrar o quanto de loucura cavalar há em nossa normalidade, e o quanto de sopro de vida sadio há no que chamam de loucura. Na colorida jornada de "busca de si" narrada pelo álbum, a identidade pessoal nunca é idêntica à persona social que cada um assume, às vezes por pura "normopatia" (termo de Gaiarsa para descrever aqueles obcecados com as normas, obedecedores neuróticos dos clichês).


Os esparsos comentários sobre religião em Parte de Nós também são reveladores de uma atitude questionadora e brincalhona, heterodoxa e tolerante, de quem demole dogmas e clichês com a malandragem marota e desencanada típica do brasileiro. "Todo Dia" rascunha ironias pra cima daqueles que "todo dia carregam sua cruz e rezam pra Jesus". Em "Quase Nada", Diego faz uma crônica paródica de uma reza popular: "eu rezo pro meu padim Ciço e pra Nossa Senhora do Perpétuo Socorro pra abençoar esse povo trabaiadô do meu sertão, obrigado meu Jesus!". Em um dos poucos momentos que torna-se mais sentencioso do que lúdico, Diego arrisca uma tese teológica que não é sem ligação com aquela de Lennon ("God is a concept by which we measure our pain"):

"Você olha pro céu tentando achar aquilo que já está em você
Vamos vivendo à prestação: esperar o céu e viver no chão"


Laerte
Mas é em "Deus Seja Louvado", épico de 6 minutos que nada tem de um gospel tradiça, que Diego sintetiza seu irônico e complexo comentário religioso num idiossincrático papo musicado com a divindade. O ouvinte desavisado que pensa encontrar nesta canção uma louvação ao Bom Velhinho lá nas nuvens irá logo ser desiludido pelo sarcasmo benigno de Diego.

Este deus ele utiliza sem nenhuma fidelidade bíblica, prestando tributo mais às tirinhas do Laerte do que aos Evangelhos. É um deusinho fia-da-puta, capaz de, quando andando detrás da gente, nos dar um empurrão. Deusinho que está lá, como exortação à prece, na “nota de um real”, a cédula com que sonham os mendigos. Deusinho que os cachaceiros invocam nos botecos quando ficam sem um trocado e querem que chova dos céus a "pinga com limão (aleluia irmão!)"

Escancarando que os pedidos que os humanos dirigem aos céus são sempre impregnados de desejos mundanos, Diego faz uma mosaico de preces tão autênticas quanto cômicas. Põe lado a lado preces mais tradicionais (sobre libertar da culpa, tirar do fundo do poço, cicatrizar feridas, dar coragem para continuar neste "mundo imundo"...), com desejinhos bem mais simples: pão, mussarela e presunto.

A ironia fina (e pesada) perpassa os comentários sobre os pastores evangélicos pilantras ("vou virar pastor para faturar a próxima eleição", alfineta Diego), sobre a polêmica evolucionismo vs. criacionismo ("tantos séculos de evolução para acabar nesta situação...") ou a floresta de pensadores que se contradizem ("Marx, Buda, Nietzsche, Cristo, Freud, Alá, Sartre ou Tupã?"). Em suma, fica-se com a agradável impressão de que nenhuma ortodoxia ou crença é pregada pelo poeta, mas que ele é capaz de tirar aprendizado e alegria tanto da "mente do descrente" quanto do "amai-vos uns aos outros" dos Evangelhos.

Outra das obras-prima de Parte de Nós é "Todo Dia", canção também épica que tem pelo menos uma irmã ilustre na história da MPB: “Cotidiano”, de Chico Buarque (já regravada num remix electro-tropicalista por Seu Jorge), que também faz a crônica chacotística da vida perdida nas chaturas da monotonia.

“Todo dia ela faz tudo sempre igual
Me sacode às seis horas da manhã
Me sorri um sorriso pontual
E me beija com a boca de hortelã

Todo dia ela diz que é pr'eu me cuidar
E essas coisas que diz toda mulher.
Diz que está me esperando pr'o jantar
E me beija com a boca de café.”


Diego, porém, mostra-se mais impaciente e furioso do que Chico e ergue a voz em protesto contra a "monotonia, burocracia, desarmonia, correria" (que agonia!) de "todo dia". Todo dia é a mesma novela, a mesma fila, a mesma espera, a mesma cruz. Todo dia, "espremido no buzão"; e todo dia, "arroz com feijão". Esta repetitititividade irritante é o que a canção radiografa, mais uma vez pondo em questão a sanidade do que tomamos por normalidade mas não passa de tique, neura, compulsão à repetição...


É o mesmo espírito de Monteiro Lobato em Cidades Mortas, clássico livro a tirar um fino sarro dos "mesmeiros", aqueles que "todos os dias fazem as mesmas coisas, dormem o mesmo sono, sonham os mesmos sonhos, comem as mesmas comidas, comentam os mesmos assuntos, esperam o mesmo correio, gabam a passada prosperidade, lamuriam do presente e pitam - pitam longos cigarrões de palha, matadores do tempo..." (in: Cidades Mortas, p. 26, Ed. Brasiliense).

“Todo dia eu posso morrer. Todo dia você foge de você.” Diego canta sobre a consciência da certeza inelutável da morte e da fuga do auto-conhecimento com uma simplicidade, uma serenidade e um senso de humor altamente vivificantes! Diego traz a boa nova: a de que é possível cantar um “tudo bem, tudo bem, tudo além do bem e do mal...”. Quase como um nietzschiano dos sertões de Goiás, inconsciente talvez dos pressuspostos filosóficos que correm, como rios secretos, por detrás da correnteza de suas letras...

Não há dúvida que grande parte do charme do álbum está na descoberta quase inevitável que quase todo ouvinte atento fará: a de que está diante de um novo poeta. É a palavra que se impõe quase imediatamente quando penso em Diego de Moraes: poeta. Ele tem a vantagem prévia, que não é pouca, de ter o mesmo sobrenome de Vinícius. Não é negligenciável, especialmente junto ao público mais velho, fã de bossa nova e saudoso de Toquinhos e Toms. Só que Diego é bem pouco bossa-novístico. Seu tom-zézismo desencanado, sua sadia incapacidade de se levar muito a sério, o preservam da pretensão excessiva, da gravidade empolada. Diego, por exemplo, tem a manha de rimar "Romeu & Julieta" com "punheta" (!).

A arte e a brincadeira são parentes próximas, parece sugerir o artigo primeiro da Estética Dieguiana. Não é à toa que as mães costumam censurar as peraltices de seus filhos chamando-os de “arteiros”. Para Diego, a arte tem que ser cheia de piscares de olhos, zuadinhas marotas e chutes na bunda. A música do Sindicato (ótima banda, também!) é tão livre e solta que é como uma ventania fresca que derruba das árvores as folhas secas dos dogmas. Não há espaço algum para autoritarismo, aqui: tudo no álbum remete à criação alegre de uma brincadeira fecunda.

Álbum simpático e amigo, criativo e alegre, poético e lúdico, colorido e complexo, que há de ensinar ao ouvinte a maravilha da diferença, da amizade e da arte de, ao invés de se conjugar na primeira do singular, saber que "eu" não passa de "parte de nós".

DIEGO E O SINDICATO Parte De Nós (Fósforo Cultural, 2010)
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quinta-feira, 11 de julho de 2013

Nova coleta brazuca: Chico Science, Criolo, Curumin, Raul, Wilson das Neves, Emicida, Legião, Dom Salvador e a Abolição... Suba o som e boa viagem!


Saindo do forno a 16ª EDIÇÃO da série de mixtapes que agregam só música popular brasileira, de todos os estilos e várias épocas, numa salada-gororoba que vai do rap ao rock, do samba manguebeat, do indie à tropicália… embarque na última:

01) EMICIDA - “Dedo na Ferida" (Ao Vivo)
02) LEGIÃO URBANA, “Mais do Mesmo"
03) RAUL SEIXAS, “Cidade de Cabeça Pra Baixo"
04) DOM SALVADOR & A ABOLIÇÃO, “Uma Vida"
05) WILSON DAS NEVES, “O Dia Em Que O Morro Descer e Não For Carnaval"
06) CRIOLO, “Não Existe Amor em SP" (Ao Vivo)
07) CURUMIN, “Guerreiro"
08) FILOMEDUSA, “Baixaria Blues"
09) EL EFECTO, “O encontro de Lampião com Eike Batista"
10) CHICO SCIENCE & NAÇÃO ZUMBI, “Banditismo por Questão de Classe"

http://8tracks.com/depredando/brazucas-16-edicao

terça-feira, 26 de junho de 2012

"No longer to be poisoned by civilization, he flees and walks alone upon the land to become lost in the wild..."



INTO THE WILD  
NA NATUREZA SELVAGEM



“…prefiro o céu salpicado de estrelas a um teto,
a trilha obscura e difícil, levando ao desconhecido, 
a qualquer estrada pavimentada…”

Última carta de Everett Ruess
(11 de Novembro de 1934)

in: Jon Krakauer
”Na Natureza Selvagem”
(Ed. Cia das Letras, pg. 97)




I. AVENTUROSIDADE & HEROÍSMO
Reflexões sobre um fascínio


“Não é sinal de saúde estar bem adaptado
a uma sociedade profundamente doente” 

Krishnamurti


Decerto que há os conformados, e que eles formam imensas manadas. Raul Seixas quiçá diria deles: são “pedras que choram sozinhas no mesmo lugar”. Gente que quer imitar o reino mineral. Criaturas com propensão para a estagnação e que sonham ser montanha ao invés de rios a fluir. Apegam-se às suas “identidades”, agarrados a um dogma que formaram sobre aquilo que são e devem ser, e seguem pelas vias estreitas de um mundo domado. E, seguras em suas fortalezas, detrás de seus muros e grades, protegidos pelo arame farpado ou pelo carro blindado, dizem em suas melancolias, com sorrisos forçados: “Pois não é verdade que se deve adorar as benesses da civilização? Ó estradas e pontes, edifícios de concreto e fortalezas de metal! Aleluias à riqueza material que nos permite viver no conforto, no Sacrossanto Conforto! Tudo isso não merece ser glorificado, ó Deusa Tecnologia, ó Deidade Engenharia, como algo que nos torna a vida mais fácil e confortável?” Eis a ladainha dos tempos.

Em contraste com esta “manada dos normais”, adormecida na crença de que a melhor vida é aquela “fácil e confortável”, há uma série de seres humanos bem mais turbulentos, inquietos, inconformados. É a eles que o mundo deve alguns dos maiores exemplos de heroísmo, subversão da ordem, revolução de costumes, obras de arte de impacto. Alguns restringem seu heroísmo ao “mundo do espírito”: inventam histórias de gente que realiza as proezas que eles nunca fizeram ou farão. Há desses pretendentes à Jack London que ficam, seguros em suas casas, de cachecol diante da lareira, escrevendo sobre aventuras na neve e confrontos com lobos… Mas há outros para quem o único heroísmo que conta é a ação real sobre o palco do planeta.

Como não trepidar e não se excitar ao ler a descrição que faz Jon Krakauer, por exemplo, desses humanos intrépitos que ousam encarar a natureza selvagem? Dinamietzsches, Blakeanos, Tolstoístas, Thoreauastas, Supertramps, Hippies, Beatniks, Easy-Riders, Boêmios Errantes… todos aqueles que preferem o destino de nuvens ciganas e pedras que rolam. São mendigos iluminados, malucos-beleza transbordantes de lucidez, xamãs involuntários de uma sociedade doente. “Não é sinal de saúde estar bem adaptado a uma sociedade profundamente doente”, diz Krishnamurti. Eles concordam.

Buscam estradas heróicas frequentemente sob a influência fascinante de algum herói prévio que idealizam. O heróico para Nietzsche, por exemplo, parece ser uma mescla de Diógenes e Heráclito, Sófocles e Dionísio… um “espírito livre”, desafiador de todas as convenções e convicções aprisionantes, que é sátiro e dançarino, que prefere usar a coroa de flores de Zaratustra à coroa de espinhos de Cristo, que conhece as tragédias mas sabe afirmar a vida, não foge do sofrimento mas aprende com ele, sabe-se descendo a corredeira do Tempo mas medita sobre os ciclos e os retornos… A figura das montanhas altaneiras, escaladas por um audaz “espírito livre” sem temor de enxergar mais longe e mais fundo do que o comum dos mortais, que suporta com o máximo de júbilo possível o seu fardo de solidão e clarividência, desenha uma auréola de heroísmo em torno de Nietzsche que talvez explique, ao menos em parte, sua “popularidade” póstuma.

O Capitão Nemo, protagonista de Vinte Mil Léguas Submarinas (Júlio Verne), personagem que “foge da civilização e corta todos os laços com a terra”, foi uma das inspirações do andarilho-alpinista infatigável Everett Ruess. Só que, ao invés de descer às profundezas do Oceano, Ruess preferiu lançar-se sem muitos escudos em meio à indomada Natureza. “Duas vezes quase fui morto pelos chifres de um touro selvagem; escapei por pouco de cascavéis e do desmoronamento de rochas; fui atacado por abelhas selvagens e algumas ferroadas a mais poderiam ter sido fatais para mim…” De relatos de proezas assim está repleto o relato de Everett Ruess que Krakauer reproduz. O que será isso: vontade de fazer disparar no sangue a adrenalina? É ser um junkie de excitações orgânicas? Ou será mero gosto pela bravata? Uma espécie de desejo de auto-glorificação ao buscar experiências de alto risco? Vive-se para vivê-las ou para contá-las?

O caso de Christoppher McCandless é para mim outro fascínio intenso. Muito por causa do impacto do filme Into the Wild – Na Natureza Selvagem, uma das obras que me são mais queridas no cinema deste jovem século. Sean Penn, em sua adaptação cinematográfica do livro-reportagem de Krakauer, soube “heroicizar” a figura de McCandless (vulgo Alexander Supertramp) ao invés de reduzi-lo através da “psico-patologização”. Em outras palavras: tratou McCandless/Supertramp não como um biruta qualquer, um cara com parafusos a menos, um vicioso “desajustado social”, mas sim revelando tudo que havia de romântico, idealista, rebelde, subversivo, doce e ambíguo neste destino tão heróico – e tão trágico.






II. DESPOJAMENTO & ABERTURA
Alexander Supertramp rumo à Natureza Selvagem


“Ele se chama Sonho Americano
pois você precisa estar dormindo
para acreditar nele.”

George Carlin



Christopher McCandless, no começo da Década Grunge, era um rapaz de uma abastada família americana de Washington, D.C. Excelente aluno, atleta de elite, tinha um Datsun que adorava e uma poupança pançuda. Ou seja: todos os ingredientes de um futuro “garantido”. McCandless se encontrava no que alguns veriam como uma situação privilegiada “invejável”, pronto para ajustar-se perfeitamente ao Sistemão Norte-Americano. Ao invés, porém, de seguir obediente nos trilhos do american way e sonhar de olhos abertos, junto com a manada dos normais, o Sonho Americano, McCandless, “no verão de 1990, logo após formar-se com distinção na Universidade, sumiu de vista. Mudou de nome, doou os 24 mil dólares que tinha de poupança a uma instituição de caridade, abandonou seu carro e a maioria de seus pertences, queimou todo o dinheiro que tinha na carteira” (Krakauer, pg. 9).

Até daria para dizer que aí já está presente um certo “elemento Tyler Durden”. Tyler Durden, me parece, é outro dos símbolos da época, de estandartes do zeitgeist, de retrato da nossa disgrama. “As coisas que você possui acabam por te possuir”, diz Brad Pitt a Edward Norton em um momento da obra de David Fincher em que ainda nem suspeitamos que está rolando uma alucinada conversação entre um funcionário do mundo corporativo e seu amigo-imaginário, Tyler Durden, o subversivo, o terrorista, o incendiário. Conforme a civilização nos EUA foi degringolando para um anarco-capitalismo cada vez mais irracional em sua fome de lucros e em sua ideologia kitsch em prol do Conforto, mais e mais pipocaram rebeldias, terrorismos, contra-culturas – e heroísmos.

Não se trata, porém, de “idealizar” o heroísmo, dizer que ele é a solução para o planeta e lançar toda uma carga positiva pra cima da idéia de um estilo-de-vida heróico. Com certeza muitos crimes e injustiças podem ser cometidos por gente que acredita estar agindo “heroicamente”. Reflitamos um pouco no fato de que, na perspectiva dos sujeitos que realizaram o Atentado do 11 de Setembro, eles estavam cometendo um ato de heroísmo religioso, um digníssimo e elogiável martírio (sem dúvida comemorado por muitos em Kabul ou Bagdá como se comemora, no Brasil, uma vitória na Copa do Mundo…). Derrubar um dos símbolos da arrogância capitalista da América, trazer abaixo o Templo onde os ímpios, esquecidos de Deus, cultuam o Bezerro de Ouro, tudo isso representava “missão”, “destino”, possibilidade de ascensão ao Paraíso. Enfim: Alá aprova e glorifica os que destroem a mundana ganância cega da América…

Porém, não é este o único meio – explodir prédios comerciais com aviões sequestrados numa hecatombe de milhares de mortos – para protestar contra o sistema econômico-político. Chris McCandless é uma figura tão instrutiva pois ele procura escapar das garras deste Capitalismo Neo-Liberal Ecocida que está aí por outras vias: segue o exemplo de Tolstói, Thoreau e Jack London, buscando a independência em relação às obsessões consumistas e às neuroses urbanas de que estão repletas as nossas metrópoles e os nossos subúrbios. Inteligente, bem-informado, sensível aos problemas alheios, mesmo aqueles de países distantes, McCandless é um desses que desperta para o fato óbvio de que o Capitalismo não está funcionando, que gera concentração imensa de capital nas mãos de pouca gente, gerando efeitos colaterais terríveis em termos de fome, miséria, doença, poluição, destruição ambiental – em suma: o Capitalismo é a desgraça de bilhões, ainda que seja a maravilha de alguns. No planeta Capitalista, é “normal” que 2 bilhões morram de fome para que uns 2 mil possam ter seus palácios, mansões e carrões onde possam sofrer de indigestão e obesidade. 

McCandless, impregnado por um ideário ético que valoriza o vivenciar e não o possuir, o despojamento ao invés do conforto, a abertura de consciência contra o auto-aprisionamento em convenções, doa tudo o que tem para ajudar os necessitados – a Oxfoam recebe 100% de sua poupança – e parte para a aventura de ser um SuperMendigo, cuca-fresca e cabeça-aberta, que sabe que neste mundo, de onde nada se leva, quem perde o teto em troca ganha as estrelas. 

Vade retro, Superman!!! 




III. PREFERINDO O DIFÍCIL


“Eu queria movimento e não um curso calmo de existência. Queria excitação e perigo e a oportunidade de sacrificar-me por meu amor.Sentia em mim uma superabundância de energia que não encontrava escoadouro em nossa vida tranquila.” 

Léon Tolstói 
“Felicidade Conjugal” 
Trecho sublimado em um dos livros encontrados com o cadáver de Chris McCandless



Eddie Vedder, nas canções que compôs e cantou sobre a inspiradora figura de Chris McCandless, destaca com frequência o fato de Alex Supertramp ter nascido de um desejo de sumir, desaparecer, vazar: ir pra bem longe da “sociedade” como a conhecia. “Society, you’re a crazy breed… hope you’re not lonely without me…” Estamos falando, é claro, daquela sociedade yuppie dos EUA, que celebrizou-se por criações como Walt Disney, Hollywood, McDonalds, Mickey Mouse, Tio Patinhas… As crianças que crescem sob tais influências sonham desde o berço em possuir a beleza de Barbies, ainda que a custo de plásticas, lipos e anorexias; obcecam com viagens maravilhosas à Disneylândia; com um imenso apetite por milk-shakes, marshmallows e Big Macs… O “ideal de vida” que por lá é vendido convida a todos a perceber a felicidade exatamente igual à maneira como um pato imbecil a concebia: aspirantes a Tios Patinhas, eles têm fantasias colonizadas pelo sonho de um dia nadarem em uma imensa piscina de moedinhas de ouro – e 18 quilates!… 

“It’s a mystery to me: we have a greed with which we have agreed. You think you have to want more than you need. Until you have it all you won’t be free.” Em três versos riquíssimos (das riquezas que contam, do “ouro de dentro”, como diria Hilda Hilst), Vedder sintetiza a ópera: há um acordo tácito em relação à ganância; todos pensam que precisam ter mais e mais, esquecidos de suas verdadeiras necessidades; e é crença geral que só existe liberdade no possuir, no “have it all”. Uma imensa catarata sobre os olhos de milhões causa essa miopia epidêmica: só conseguir imaginar a felicidade sob a perspectiva do consumo e da posse. “Para ser feliz, é preciso comprar e comprar, possuir e possuir!” – assim prossegue a ladainha dos tempos… 

Jon Krakauer insiste, em vários pontos de seu livro, no fato de Chris McCandless ser uma pessoa “extremamente ética” que “se impunha padrões bastante elevados” (pg. 30) e com “traços de idealismo obstinado que não combinavam facilmente com a existência moderna” (pg. 10). Krakauer relembra-nos com recorrência do culto que McCandless prestava ao escritor russo Tolstói: caroneiro atravessando milhares de quilômetros da América que está fora dos cartões-postais, McCandless costumava recomendar a seus companheiros de jornada a leitura de Guerra e Paz. Entre a dúzia de livros encontrados junto a seu cadáver no busão abandonado no Alasca, estavam livros de Tolstói e Thoreau, duas figuras que ele parecia enxergar como “paradigmas” éticos, modelos a serem imitados, “sábios” à cuja aprovação ele aspirava. “Cativado há muito tempo pela leitura de Tolstoi, admirava em particular como o grande romancista tinha abandonado uma vida de riqueza e privilégios para vagar entre os miseráveis” (pg. 10). Krakauer conta também dos cursos que McCandless frequentou sobre o problema racial na África do Sul do apartheid, de seu veemente interesse e preocupação em relação ao problema da fome no mundo e sua “intensa aversão ao governo” (pg. 204).


“Não é nada incomum para um homem jovem ser atraído para uma atividade considerada imprudente pelos mais velhos; o comportamento de risco é um rito de passagem em nossa cultura. O perigo sempre exerceu um certo fascínio. É em larga medida por isso que muitos adolescentes dirigem depressa demais, bebem demais e tomam drogas demais, e que sempre foi fácil para as nações recrutar jovens para a guerra. [...] Chris McCandless tinha necessidade de se testar em questões, como gostava de dizer, “que importavam”. Possuía grandiosas ambições espirituais. Conforme o absolutismo moral que caracterizava as crenças de McCandless, um desafio em que o sucesso está garantido não é desafio nenhum. [...] O significado que ele tirava da existência estava longe do caminho confortável: ele não confiava no valor das coisas que vêm facilmente.” JON KRAKAUER (pg. 192)
Alexander Supertramp, que tem nome de imperador mas aspirações a “mendigo iluminado”, é a encarnação de uma prática rebelde em relação ao estilo-de-vida dominante. Decerto que existem muitos exemplos na História de homens ricos que renunciam à sua fortuna: é uma estória tão velha quanto… Buda. Não se conta que Sidarta Gautama também abdicou de todo o luxo do palácio para se procurar a iluminação em andrajos pelos campos e debaixo de árvores? McCandless é um dos poucos norte-americanos que, tomando consciência mais plena dos rumos de sua pátria, decide pular do barco, procurar uma via própria, longe das estradas pavimentadas.

O dinheiro não lhe interessa – não mais. Uma vida fácil e confortável, rodeada de consumos e simulacros, lhe enoja. Prefere estar ao ar livre, sujando as botas na lama dos caminhos que ainda não foram trilhados, escalando montanhas rumo a cumes por poucos pisados. Não quer manter a Natureza à uma distância segura, só saber dela através dos livros ou dos vidros. Quer sentir a brisa na face e dormir sob um céu salpicado de indecifráveis estrelas. A facilidade é insossa, a busca por conforto é neurótica, a AmériKKKa está louca! E é assim que Chris McCandless larga tudo, aventura-se na Natureza Selvagem, como se seguisse o conselho que Rilke deu ao Jovem Poeta: “Prefira sempre o difícil; desse modo, sua vida não cessará de expandir-se.”



“Two years I walk the earth. No phones, no pools, no pets, no cigarettes. Ultimate Freedom. An extremist, an aesthetic voyager whose home is the road. So now, after two rambling years comes the final and greatest adventure - the climatic battle to kill the false being within and victoriously conclude the spiritual revolution. No longer to be poisoned by civilization, he flees and walks alone upon the land to become lost in the wild...”
 McCandless, Maio de 1992

segunda-feira, 1 de julho de 2013

"Calar a boca nunca mais!" (Tom Zé) - Ouça a coletânea #15... Bezerra da Silva, Itamar Assumpção, Rauuuul, Vandré, Buarque e por aí vai...



CALAR A BOCA NUNCA MAIS!

(BRASILIANADA! 15ª EDIÇÃO)

Coletânea de música brasileira:
01) TOM ZÉ, “POVO NOVO"
02) BEZERRA DA SILVA, “PASTOR TRAMBIQUEIRO"
03) CHICO BUARQUE, “APESAR DE VOCÊ"
04) GABRIEL O PENSADOR, “ATÉ QUANDO?"
05) OTTO E LECI BRANDÃO, “VÍTIMAS DA SOCIEDADE"
06) RITA LEE & TUTTI FRUTTI, “COM A BOCA NO MUNDO"
07) FLICTS, “ASSIM CAMINHA O BUSÃO"
08) RAUL SEIXAS, “MOSCA NA SOPA"
09) TOM JOBIM, “O MORRO NÃO TEM VEZ"
10) GERALDO VANDRÉ, “PRA NÃO DIZER Q NÃO FALEI DE FLORES"
11) BELCHIOR, “A PALO SECO"
12) ITAMAR ASSUMPÇÃO, “Nego Dito"

Ouça já!
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Siga viagem...
No nosso Feicibúqui, vários Álbuns Clássicos da Música Brasileira
(Ouça-os na íntegra e di-grátis!)

domingo, 26 de maio de 2013

A Revolução Verde Em Marcha: reflexões sobre a Marcha da Maconha e o movimento global em prol da legalização da cannabis!


A REVOLUÇÃO VERDE EM MARCHA!

A luz verde marcha pelas cidades, desfila na frente de universidades e drogarias, de shoppings e prefeituras, de cara limpa e na maior paz, disseminando informação e consciência enquanto dança e canta ao som de Raul Seixas, O Rappa, Manu Chao, Planet Hemp... É a luz verde que acende-se nos corações para peitar o farol vermelho todo manchado de sangue! Fervilhando pelas ruas, vão os dionisíacos maconheiros, demandando com uma mescla de revolta indignada e triunfante festa: 

"Dilma! Rousseff! Legaliza o beck!"; "Se a erva legalizar, olê-olê-olá... eu vou plantar!"; "Fumo proibido: traficante agradecido!"... dentre outras pérolas do slogan genuinamente popular. Enquanto marcha o verde, a tensão está no ar, já que há forças inimigas que espreitam, com seus revólveres no coldre, seus cassetetes e bombas de gás que saltam tão fácil sobre o corpo dos "desordeiros", dos "inimigos da Lei e da Ordem"...

Alegremente, sabendo que não vale a pena brigar com os carrancudos com a mesma soturna rigidez que eles demonstram, manda a trupe herbácea o aviso pros "hômi-de-farda": "Ei, polícia, maconha é uma delícia!". É um meio de dizer, através do humor e da provocação, que afinal de contas maconha não é nenhum bicho de sete cabeças - e pode até mesmo, se legalizada e tratada sem histeria, ser uma dispensadora de amplos benefícios, uma dádiva da Terra para nossas mentes...

Hoje em dia um movimento internacional vem colorindo de verde as ruas para escancarar o absurdo desperdício - de dinheiro público e de vidas humanas - acarretado pela Guerra às Drogas, em especial a estupidez descomunal da guerra empreendida contra a maconha, ou melhor, contra as pessoas que a plantam, a comercializam e a consomem. "Adivinha, Doutor, quem tá de volta na praça?" A esquadrilha da fumaça! Mas não a fumaça de que gosta o capitalismo - a fumaça das indústrias que vomitam seus poluentes na atmosfera e das armas de guerra a lançar seus mísseis e a provocar seus incêndios mortíferos que queimam civis e crianças... - mas a fumaça que deixa a "mente ativa" e que, para usar a expressão do B Negão, "passa de mono pra estéreo a tua compreensão"...


Em Goiânia, a Marcha Maconheira 2013 foi linda, excitante, barulhenta, diversificada... (Veja o vídeo) Pelo menos 2.000 pessoas estavam lá para o rolê que, saindo da Praça Universitária, atravessou a Rua 10 e encheu de verde a Praça Cívica iluminada por uma Lua cheíssima. A "causa" cannábica foi conectada com muitas outras: a feminista (hoje em dia bombando com a "Marcha das Vadias"...), a causa do Estado laico (hoje em dia ameaçadíssimo por Feliânus e Malafaias, dentre outros salafrários...), a causa anti-manicomial (hoje em dia na crista da onda com a instauração das "internações compulsórias para usuários de crack"...). 

Além disso, os problemas locais não foram negligenciados e a Marcha da Maconha Goiânia 2013 pôde dar seu recado sobre muitos temas de relevância para o goiano: o aumento abusivo das tarifas do transporte público; as alterações no Plano Diretor que ameaçam destruir o meio ambiente em prol do grande trator do capital corporativo; o governo todo roído por vermes de Marconi Perillo, tucano cachoeirista que, no ano passado, quando reveladas as tramóias em que se meteu, viu a juventude sair às ruas em consideráveis marchas "Fora Marconi" - algumas delas com mais de 5 mil participantes...

Debaixo de uma Lua cheia que não conhece nenhuma lei humana, que segue em sua órbita em total desprezo por quaisquer ditames, A.I.s ou dogmas que humanos tentem lhe impor, Goiânia marchou em prol de leis mais sábias. E marchou de cabeça erguida, com muita gente já convicta de que a vitória não tarda e que não há Lei neste mundo que vá impedir esta erva de prosseguir brotando por mil recantos deste planeta...

Contra o machismo que estupra e mata, contra os pastores fanáticos que só sabem condenar os "comportamentos desviantes", contra os militares broncos que querem resolver tudo no tiro, contra os vendedores de drogas bem mais perigosas do que a erva, e que se interessam mais por seu lucro do que pela saúde de um povo... Contra esses, marchamos! Em prol de um mundo mais verde, com menos motosserras e hiper-mercados, onde cada um tenha o direito de consumir - não as geringonças e quinquilharias que o capitalismo põe no mercado... - mas aquilo que cada um sente lhe ajudar a melhor "vislumbrar o infinito" e melhor perceber-se como parte do todo, capaz de conexão e soma.



Marcha das Vadias, São Paulo, Maio de 2013. Veja mais fotos.
* * * * * 

A Marcha da Maconha brasileira, ano-a-ano, tem insistido em tentar convencer a opinião pública brasileira do fracasso absoluto da atual política pública em relação às drogas, um tema que já foi muito bem exposto por ótimos filmes como "Cortina de Fumaça", "Quebrando o Tabu", "Notícias de uma Guerra Particular", "Dançando com o Demônio", "Grass" - pra ficar só nos documentários.

O proibicionismo é uma política surgida nos EUA no século XX e que, pela primeira vez na história, pôs fora-da-lei a produção, a venda e o consumo de uma planta que havia sido perfeitamente legal por mais de 30 séculos - ou melhor, que nunca antes havia sido estigmatizada, demonizada e outlawed. 

Por um lado, o proibicionismo yankee fede à xenofobia e preconceito racial: a marijuana era a substância de predileção dos negros, dos mexicanos, dos porto-riquenhos, e criminalizá-la era um meio de controle destas populações empobrecidas e exploradas, quase um pretexto para encarcerar aqueles que, pela cor de sua pele, seu sotaque excêntrico ou seu estranho local de origem eram considerados como elementos potencialmente perigosos.

Além disso, sabe-se do papel das grandes corporações do ramo da indústria têxtil em prol da criminalização do cânhamo, já que a fibra do hemp é muito melhor do que algodão e nylon e sua legalização acarretaria uma catástrofe para os lucros destas empresas. Tanto que William Randolph Hearst, o cidadão Kane, magnata da mídia e ultra-capitalista egocêntrico, tratou de caluniar e denegrir a imagem da maconha na opinião pública tendo em vista seus mesquinhos interesses pecuniários. Cuzão!

A cada dia se torna mais claro que o proibicionismo só serve aos interesses sórdidos daqueles que estão no negócio do encarceramento em massa de cidadãos; só serve às empresas do ramo de bebidas e de cigarro, cujo produto gera mais morte e mais doença em 1 ano do que a maconha causou em 3 milênios, e que perderiam largas fatias de lucro caso a maconha fosse legalizada; que o proibicionismo é amigo dos mega-traficantes e dos trustes do narcotráfico, com tudo o que isso acarreta de policiais, políticos e juízes aceitando propinas e vendendo favores; e, é claro, o proibicionismo é resquício de uma mentalidade ditatorial e militarzóide, que tem como ideal uma política onde mandam militares broncos que pensam poder resolver qualquer problema na bala, e que desejam se fazer necessários ao perpetuar as guerras... E, last but not least, a política proibicionista só agrada aos membros do governo, do empresariado e da mídia que desejam nossas mentes cativas, manipuláveis, encharcadas de besteirol, governáveis, eles que tem tudo a perder com a expansão da consciência coletiva que a legalização da cannabis poderia acarretar...

Marcha da Maconha em Brasília, 2012. Veja o álbum de fotos com várias marchas, incluindo Rio, Sampa, B.H., Goiânia, Salvador, Porto Alegre, dentre outras cidades...


A Marcha da Maconha convida jovialmente os proibicionistas, os repressores radicais que desejam "exterminar" estes viciosos sem-vergonhas e moralmente corruptos que são os maconheiros: em lugar de tanta bala, tanta cadeia e tanta repressão, porque não pensar em leis mais sábias? Aliás, é suspeita antiga minha que a grande maioria dos proibicionistas nunca fumou um beck, ou ao menos não tragou, o que merece uma paráfrase da excelente idéia de Terence McKenna (originalmente sobre o LSD): "A maconha é uma substância capaz de produzir efeitos psicóticos e paranóicos intensos naqueles que não a utilizaram."

Afinal, seriam da mesma opinião os senhores proibicionistas se tivessem de fato experimentado  e pesquisado concretamente os efeitos da substância? Não seria mais interessante, ao invés da perseguição belicista, uma atitude mais curiosa e inquiritiva, ou seja, fazer pesquisas científicas sérias, com pesquisadores e intelectuais bem pagos, sobre os potenciais benéficos e possíveis perigos desta planta? Por que não deixar os psicólogos, os antropólogos, os filósofos, os juristas, opinarem sobre a melhor maneira de lidar politicamente com uma erva tão amplamente utilizada e tão entusiasticamente aclamada por seus usuários? Por que não dar uma chance para um novo ciclo vegetal iniciar sua jornada legal sobre solo brasileiro, e por que não considerar a hipótese de que ele possa ser um dos pilares de uma sociedade menos nefasta, opressora e hierarquizada do que aquelas que se ergueram sobre o açúcar, o café e a pecuária?

"Se as palavras vida, liberdade e procura da felicidade não incluem o direito de experimentar com a própria consciência, então a Declaração de Independência não vale o cânhamo onde foi escrita." - Terence McKenna

O cânhamo, muito provavelmente, é a autêntica "planta do futuro": e quem não acordar pra isso vai ficar sendo parte do passado. O vasto leque de utilidades do cânhamo - que pode ser usado para fazer papel, roupa, combustível, remédio... - é sinal do quanto a estupidez do proibicionismo está nos privando de uma planta prodigiosamente benéfica em muitos domínios além da expansão da consciência e da "recreação" psicodélica. Quando a Era do Petróleo acabar (deste século não passa...), talvez a revolução verde agora em marcha torne-se não somente altamente desejável, mas absolutamente necessária. O tempo dirá! 

O Tempo, afinal de contas, já é velho conhecido e comparsa do cânhamo: eis uma planta que atravessou os milênios, não só sobrevivendo muito bem a todas as intempéries e desmatamentos, como também prestando múltiplos serviços aos humanos. O cânhamo está profundamente enraizado no passado humano, tendo participado ativamente da Invenção da Imprensa de Gutemberg e das Grandes Navegações pelas quais os europeus invadiram e pilharam a América; foi coadjuvante da Declaração de Independência dos Estados Unidos da América (que foi escrita em papel de cânhamo1), tendo sido cultivado em imensas fazendas por yankees de bufunfa grossa, chegando a ser um dos produtos agrícolas mais importantes do país, pau-a-pau com o milho e o algodão; sem falar que remédios derivados do cânhamo já foram onipresentes nas farmácias, sendo usados até pela Rainha da Inglaterra para minorar os efeitos de suas cólicas menstruais...

Além disso, mundo afora, e mais particularmente no Oriente, o cânhamo foi sacralizado por muitas culturas, consagrado em evangelhos, poemas e canções, tendo sido muito provavelmente um dos elementos importantes para a emergência histórica de vários cultos e religiões xamânicas, hinduístas, budistas, rastafaris, umbandísticas...


São milênios de usufruto e apenas décadas de repressão. Sagrada em muitas civilizações, a cannabis foi parte importante da nossa história, marcando ramos diversos da condição humana: a religião e o misticismo (ela é sagrada para os hindus da Índia, por exemplo, que em sua mitologia transformaram a maconha numa dádiva feita pelo deus Shiva à humanidade...); a criação artística e filosófica (quantas obras e quantas descobertas não foram auxiliadas pelas alterações de consciência desencadeadas pelo THC no cérebro humano?); a farmacologia e a medicina (a cannabis consta entre os remédios mais antigos e mais eficazes que o homo sapiens descobriu no imensamente bio-diverso reino da phýsis...). 

Mundo afora, este último aspecto - o potencial benéfico ou terapêutico da maconha - ganha progressiva credibilidade e comprovação científica. E em muitos países os benefícios da cannabis medicinal já podem ser usufruídos por milhões de pessoas que sofrem de AIDS, câncer, depressão, glaucoma ou dúzias de outras condições sobre as quais a maconha age de modo benéfico, por exemplo minorando os efeitos adversos da quimioterapia ou reabrindo um apetite de leão (vulgo "larica") naqueles fragilizados pela doença. Estados norte-americanos de peso, como Califórnia e Washington, e países inteiros, como a Holanda e o Uruguai sob a presidência de Mujica, já deram este passo à frente.

Quanto ao uso dito "recreativo", a maconha é a substância ilícita mais usada no planeta, a mais popular e a mais universal, e não cessa de espantar a bizarra situação histórica em que nos encontramos: apesar dos milhões de mortos, nas últimas décadas, por causa do cigarro e do álcool, estas substâncias são de comércio legal e protegidas por mega-corporações e governos a elas favoráveis, enquanto que a maconha, que jamais na história registrada causou uma única morte por overdose, prossegue ilegal - seu usuário criminalizado, seu plantio proscrito, sua comercialização reprimida, seus comerciantes encarcerados... 

A Guerra às Drogas não chegou nem perto de exterminar as substâncias alteradoras da percepção, mas conseguiu exterminar... pessoas: nos campos de batalha do Rio de Janeiro e de Bogotá, de Lima e da Cidade do México, os corpos sem vida de traficantes e policiais não cessam de cair. E não há de cessar tão cedo a sanguinolência e violência nos clashes entre as Cidades de Deus e os Caveirões da s Tropas-de-Elite caso a política proibicionista hoje em vigor prossiga. Com o proibicionismo, caminhamos para a catástrofe: penitenciárias super-lotadas, com condições de vida abomináveis, onde centenas de milhares de pessoas são trancafiadas não para qualquer tipo de "reeducação moral", mas sim para serem apresentadas a uma das facetas mais sórdidas e fascistas deste Sistema. Com a continuação da política proibicionista, o Brasil pode esperar novos Carandirus, novas Candelárias, novos escândalos para manchar nossa imagem e nossa história com seu sangue jorrante... 

E pra falar no dialeto "economiquês" tão apreciado pelos políticos que nos impõe o proibicionismo, eis um fato simples: é absurdo querer guerrear contra produtos cuja demanda, por parte da população, é gigante. Quando há uma demanda tão vasta, é óbvio que haverá uma oferta para supri-la. No excelente filme The Union - O Negócio Por Trás do Barato, o espectador conhece o gigantismo deste mercado e o quão irrealizável é o projeto de alguns proibicionistas radicais de aniquilá-lo por inteiro. Em outros termos: em um país como o nosso, onde pelo menos umas 5 milhões de pessoas (chutando muito baixo!) desejam consumir maconha, é absolutamente ridículo pretender extinguir este mercado a força de bala e de cadeia.

A demanda das massas pela maconha não cessou durante as décadas de brutalidade policial e ferocidade carcerária, mas, pelo contrário, só tendeu a se fortalecer e se disseminar. Imaginem um governo que tentasse banir de seu território o comércio de café, e que para isso lançasse na cadeia todas as pessoas que fossem pegas em flagrante delito de traficar café. Em breve não haveria mais lugar algum para novos presos. É o que dá quando se proíbe e criminaliza um comportamento amplamente disseminado, a despeito das leis, e quando se quer criminalizar algo que as pessoas continuarão comprando de qualquer jeito, mesmo que tenham que recorrer ao mercado clandestino.

 A Lei Seca americana, que quis proibir o álcool, foi um retumbante fracasso que gerou como subprodutos um mercado negro enorme e a proliferação de Al Capones e violências sanguinolentas mil. A História mostra a ineficácia de um sistema que lança na cadeia as pessoas quando estão comercializando produtos que elas desejam intensamente "consumir" e cujos benefícios desejam gozar. O proibicionismo está fadado ao fracasso recorrente pois ele se choca contra a vontade de milhões. E uma vontade coletiva, aliás, cada dia mais tenaz e organizada, cada dia mais triunfante e de cabeça erguida, cada dia reivindicando mais alto, nas ruas, um outro mundo possível. E onde haja mais luz verde!