sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

:: a nova imperatriz do blues? te cuida, janis! ::




SUSAN TEDESCHI
"Just Won't Burn"

(1998)



Just Won't Burn foi um dos discos que eu mais ouvi na vida. E mesmo tão repetidas audições não diminuiu em nada o charme irresistível que ele tem pra mim e o impacto emocional que o clássico da pequena Susan Tedeschi me causou. Foi a primeira vez que eu me apaixonei pelo blues - ou melhor: por esta loiraça de voz deliciosa que o revitalizou de modo vibrante. Eu achava "It Hurt So Bad" melhor que qualquer música da Janis Joplin. Achava que "Looking For Answers" era o tipo de pungente balada que Jeff Buckley faria se fosse uma mina. Achava que "Rock Me Right" poderia ser um rock and roll enfezado do Led Zeppelin e que essa menina bem poderia se candidatar a substituta de Robert Plant numa turnê revival. E achava estupendamente empolgantes as releituras de standards de blues que ela nos entregava em "Little By Little" ou "Mama, He Treats Your Daughter Mean".

A aparência dócil e infantil da mocinha na capa pode ser enganadora: quem já ouviu o tipo de furacão que Susan consegue criar com seu abençoado gogó sabe que aquela garotinha que parece tão meiga esconde uma fera dentro de si. Surgida na segunda metade dos anos 90 como um dos novos talentos que procuravam ressuscitar o blues, estilo jurássico muitas vezes considerado como um morto vivo em relação a seu mais famoso filhinho, o rock and roll, Susan Tedeschi vem se transformando num das forças mais explosivas do estilo na atualidade. Transpirando uma paixão inegável pelas formas mais básicas e consagradas de bluezera, a moça juntou uma boa dose de rockão clássico e de sensibilidade baladeira na receita, empunhou sua guitarra com uma competência poucas vezes antes vista numa mulher, tacou por cima sua bela voz capaz de estourar vidraças e saiu-se com um resultado que - apesar de pouco original e despretensioso - enche os ouvidos de prazer e a vida de excitação.

Principalmente por ser mulher e branquela, ela chega derrubando alguns dos estereótipos sempre vinculados ao blues. Grande parte dos maiores nomes da história do estilo - B.B. King, John Lee Hooker, Muddy Waters, Albert King, Howlin Wolf, Buddy Guy, Robert Johnson, Skip James, Junior Wells etc. - tinham em comum a pele negra. As mitologias (sempre abundantes no reino do blues) diziam que era preciso, para ser um verdadeiro bluesman, ter sentido nos ossos o sofrimento e a humilhação, que seriam depois expiados e transfigurados através da expressão musical. Não é à toa que em inglês a palavra "blues" é gíria pra designar estados melancólicos e depressivos. A "alma africana", vítima da tortura de séculos, seria então o lugar privilegiado para que vicejasse a semente dessa música básica e dolorida que transforma o sofrimento em ascensão.

Uma nova geração de artistas surgidos na década de 90 tentou questionar esse axioma que dizia que bom blues só sai da garganta de um negão. Eric Clapton, Stevie Ray Vaughan e Janis já haviam inserido seus nomes na história do estilo e eram branquelos de exceção que demonstravam qualidades comparáveis àquelas dos grandes mestres. Já a nova geração tinha como principais nomes Johnny Lang, Kenny Wayne Sheperd e a própria Susan Tedeschi, figuras importantes do revival de blues-rock na última década. Muito inspirada por Janis Joplin e Bonnie Raitt (mas também por Bob Dylan, Muddy Waters, velharias gospel e R&B, entre outras coisas), Tedeschi chegou pra mostrar que pra mandar bem não era necessário exatamente ser um bluesMAN (por que não uma bluesWOMAN?) e nem tampouco ser negão.



Susan (nascida em 1970, na região de Boston), começou a fazer-se notar após o lançamento de seu segundo álbum de estúdio, esse Just Won't Burn, de 1998. O álbum, lançado por uma pequena gravadora local (Tone Cool), transformou-se num surpreendente sucesso comercial à base de publicidade boca-a-boca e vendas nas saídas dos shows. Com pouco respaldo da mídia e da MTV, o álbum teve uma vendagem estimada em 600.000 cópias, quantia bastante considerável para uma nova artista de blues.

Em 2000, Susan foi indicada pela primeira vez ao Grammy ("o Oscar da Música") como artista revelação, tendo como competidores Britney Spears, Macy Gray, Kid Rock e Christina Aguilera. Não levou o troféu, mas a indicação foi o bastante para chamar a atenção da imprensa especializada. A Rolling Stone, por exemplo, declarou que sua música representava "uma vitória para qualquer um procurando por um oásis rock and roll em meio ao árido território perdido do pop-teen". Mais duas indicações ao prêmio se seguiriam nos anos subsequentes: o de Melhor Performance Vocal Feminina em 2003 e Melhor Álbum Contemporâneo de Blues, por Wait For Me, em 2004. Abrindo shows pra gente de peso (como Rolling Stones, Bob Dylan, B.B. King e Allman Brothers), a moça já vai lentamente se consolidando como uma diva do blues.

Just Won't Burn, segundo álbum dela (o primeiro se chama Better Days e saiu em 95), traz uma série de releituras de clássicos do blues ("Little By Little" de Junior Wells, "Angel Of Montgomery" de John Prine, e o "standard" "Mama, He Treats Your Daughter Mean") lado a lado com composições originais (algumas da própria Susan, outras de seu colega de banda Tom Hambridge). Entre estas últimas, destacam-se "Rock Me Right" (blues-rock contagiante, que se tornou um improvável semi-hit nas rádios paulistanas anos atrás [principalmente na Brasil 2000]), "It Hurt So Bad" (um exercício jopliano de catarse, numa performance vocal lotada de berros e gemidos impressionantes) e a balada "Looking For Answers" (uma espécie de diálogo metafísico de Susan com o Todo-Poderoso, onde ela diz: "Lord, I love you in so many ways / Lord, I love you each and every day / But now's the time I must ask you why / Why must we live and why must we die? / I'm looking for answers / Looking for answers and nobody knows / Looking for answers from above, not from below...").

Complementada por uma banda competente (com os tradicionais baixo-batera-e-harmônica), Susan dá um show na guitarra, sem precisar da ajuda de pedaleiras ou grandes efeitos de produção, e surpreende principalmente pela potência de sua voz. Ela berra de excitação, geme de dor e urra "com suficiente estrondo sensual para quebrar garrafas de uísque e despregar as folhas das árvores", como disse Timothy White. O tipo de cantoria que condena todos que se aventurarem a um singalong a perder o gás e abandonar a empreitada. Susan não é apenas uma cantora: sua vocalização é uma PERFORMANCE apaixonada, cheia de groove, sensualidade e oscilações entre leveza e explosões. É como se dissesse que não basta um bom pulmão e uma garganta sadia para bem cantar: é preciso que o pulsar do coração faça correr no sangue um combustível essencial para a manufatura do blues: o tesão.

Discaço!



OUÇA NA ÍNTEGRA A PÉROLA!
http://www.mediafire.com/?8c422wikxi799jy

DISCOGRAFIA COMPLETA DE ÁLBUNS DE ESTÚDIO 
[DOWNLOAD GRATUITO]
Better Days (1997) [baixar]
Wait for Me (2002) [baixar]
Hope and Desire (2005) [baixar]
Back to the River (2008) [baixar]

SITE OFICIAL:
http://www.susantedeschi.com/

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

::excambau! ::


E X C A M B A U !
[entrevista exclusiva]

- por
Lux Ponja e Marco Souza -


A banda paulistana Excambau! já possui quase 10 anos de história, mas agora é a hora em que chegam ao seu auge: o novo disco Então se Explica! está saindo do forno, com excelente produção (a cargo de um gringo, Brendan Duffey), e promete torná-los cada vez mais fortes no underground rocker nacional. O som dos caras mescla peso, groove e ataque frontal, com influências fortes de Rage Against The Machine, Faith no More, Sevendust, Suicidal Tendencies, Body Count, Pantera, Beastie Boys, entre outros. Com letras em português repletas de provocação política e raiva bem canalizada, o Excambau quer meter o dedo nas feridas e tem orgulho de se dizer uma banda totalmente movida a ideologia.

Como eles mesmos dizem: "acreditando que a música, e principalmente o rock, possa ser o combustível da atitude contra a mesmice e o conformismo que impera não só na nossa maneira de pensar, como no cenário musical atual, o EXCAMBAU! traz um álbum repleto de peso, riffs marcados, vozes urgentes, poesia questionadora e ritmo empolgante. O álbum conta com 12 faixas e temas variados: desde inspirados no filme Apocalypse Now (Coppola, 1979) em "Charlie Don't Surf" passando pela ditadura brasileira em "AI-5" ...".

O vocalista Joh, junto com dois camaradas dele, topou bater papo com o
Depredando o Orelhão num boteco de Sampa e explicar a quantas anda os escambaus que eles têm causado. Ele chega num fusquinha amarelo, que estaciona com classe num espacinho miúdo, e vem se sentar na mesa do boteco em Moema pr'um longo papo regado a cerveja. A esposa Lili chega perto da meia-noite, depois de colocar as duas filhas do casal para dormir, e entra no papo também. Em meio às garrafas de Serra Malte que se acumulam, o vocalista fala sobre a história da banda, o disco novo, influências e perspectivas. Elucida também os trampos extra-musicais em que estão envolvidos, como o Projeto Caixa Preta, e comenta um pouco da relação efervescente que possuem com a internet e a cibercultura. Abaixo, os melhores momentos da conversa... com a palavra, Joh!


MÚSICA TURBINADA COM IDÉIA. "Uma coisa que nós tínhamos conversado antes de começar este disco novo foi que música sem idéia é peido, arroto... não faz sentido! A nossa banda existe por causa da idéia; não é que a banda teve uma idéia... Num país onde tem tanta coisa errada, numa sociedade que está cada vez pior, para nós fazer música sem idéia não tem porquê. E me fala uma banda hoje em dia que tem idéia, cara! É B Negão e olhe lá... Eu não lembro de várias. Se você for pegar o maior evento de música jovem no Brasil, o VMB, foi pífio de idéia! A única idéia que teve foi a do Excambau!, que apareceu lá com as caixas pretas. E o legal de conversar sobre isso, com vocês do blog ou com camaradas, é que dá pra deixar muito claro que a gente quer expandir o pensamento para além da música."

"música sem idéia é peido, arroto..."

BAND OF BROTHERS. "A banda pra gente é uma válvula de escape. Até bolei uma teoria ultimamente que diz tem dois tipos de banda: aquele de gente que 'gosta' de ter banda e de música, e aquela pra quem a banda é quase uma necessidade física. A gente do Excambau! tem banda porque a gente precisa! Se você fica sem ensaiar, sem fazer música, sem tocar, bate um desespero, uma vontade extrema de divulgar o som, a idéia...

"Eu não tenho banda porque eu 'gosto'. Você gostaria de deixar suas filhas em casa chorando pra ir ensaiar? Gostaria de brigar com a sua esposa porque precisa tirar um pouco do seu orçamento mensal pra pagar num-sei-quê-lá da banda? Gostaria de ter que fazer uns trampos frilas pra bancar algo da banda? Gostaria de arranjar uma treta com um brother seu de infância por causa de uma idéia? Ninguém gosta disso, velho!

"Só que a questão é que eu PRECISO desses caras. É um bagulho que a gente escolheu. Não é uma gravidez indesejada. Às vezes falo pra mim mesmo: 'Caralho, eu sou louco, como é que eu posso me foder tanto por uma coisa que eu escolhi fazer?' É que não tenho outra escolha! É tipo Call Of Duty, você é obrigado a fazer aquilo. É tipo Band of Brothers: os caras se voluntariaram a ir pra guerra; chegou lá, se fode, num tem jeito... Tá no inferno, abraça o diabo..."



VIDEOCLIPE NO MEIO DA RUA: "Surgiu a idéia de fazer o clipe na faixa de pedestres, e aí criamos a história de um menino que antes vendia balas e depois decide fazer malabares no farol. Tivemos a idéia de fazer um flash mob... Na gravação, teve uma pá de gente pra montar o bagulho. A gente ficou lá no cruzamento da Avenida Rebouças com a Avenida Brasil das 9 da manhã até as 9 da noite, sem parar o trânsito um segundo! A chance de chover, a polícia parar, qualquer merda acontecer e o clipe não sair, era grande. E deu certo pra caralho, foi bem louco, velho! A polícia parava, olhava, num tinha o que fazer... Veio a CET, helicóptero da Record! Aí veio a reportagem da Record, 'a gente quer falar com a banda!' Aí foram conversar comigo: 'o que vocês vieram fazer aqui hoje?' Aí eu fiz um puta discurso, falei poucas e boas pra repórter, sem palavrões nem nada, aí chegou na hora de sair no telejornal, numa materiazinha sobre artistas de rua: 'Os artistas tentando divulgar o seu som, em busca do grande público, tomaram conta da faixa de pedestres...' E aí aparece o Joh falando: 'É, artista é exibido!' (gargalhadas gerais) Ah nããão! Puta que o pariu! Foi uma experiência muito louca."

CRÍTICA SOCIAL E CHAMADO AO DESPERTAR. "Tem nêgo que faz disco temático, tipo 'As Nove Noivas do Rei Arthur' (risos), de quatro, cinco horas de duração. Já nós do Excambau!... 'qual o assunto que a gente está tratando?' Falar que é 'crítica social' é pouco. Não é só isso! As nossas letras falam de um jeito muito pessoal: o que você faz? o que você vê com os olhos fechados? Acreditamos que ao invés de você tentar atingir a massa, que é um negócio disforme, burro e chato, é muito mais interessante você tentar atingir o indivíduo. Se você não atingir o indivíduo, você não transforma a massa. É muito mais realista, no meio dessa utopia toda, que você consiga fazer uma pessoa despertar do que milhares despertarem."

"Se você não atingir o indivíduo,
você não transforma a massa."

APOCALIPSE OU UTOPIA? "Eu não diria que o Excambau é uma banda apocalíptica; é uma banda utópica, com uma atitude 'positivista'. Porque o que estamos propondo pras pessoas é uma mudança individual. Ninguém está dizendo pra você sair mudando o mundo. Muda a tua rotina! Um mudando sua rotina é uma coisa; mas quando mil caras mudam suas rotinas, aí já começa a ficar relevante. Mas minha visão pessoal é mesmo um pouco apocalíptica.

"E sabe como você percebe essas coisas? Quando pode comparar. Já estive em lugares que eram paraísos naturais, porque eu gostava de acampar em lugares bem selvagens, e quando você volta e vê casas em volta, pessoas jogando lixo no riozinho onde você pegou água para fazer almoço, aí você começa a pensar assim, velho: daqui cinco anos tem uma empresa aqui do lado, um bairro aqui do lado que não vai ser planejado... E assim o ser humano avança como um câncer sobre a terra.

"Se você ver uma mancha demográfica no Google Earth, velho, é tipo uma casca duma ferida! O ser humano é podre, tá ligado? Mas isso é uma visão particular minha. Isso não transparece na música do Excambau! porque a gente tenta passar uma mensagem positiva, de que existe esperança no indivíduo."

DISCO NOVO. "Neste novo disco, Então se Explica, a gente botou tudo: força, grana, tempo, criatividade, tudo no extremo. É a conseqüência de 10 anos de trabalho. O produtor gringo, o Brendan Duffey, foi tipo jogar na mega-sena, só que a gente não jogou: foi só achar o bilhete; a coisa caiu no nosso colo. O Lagarto (baterista) já conhecia o gringo enquanto ele trampava no Midas, até o dia que o Brendan nos fez a proposta. Ele trampa com estúdio e já fez trabalhos com uma pá de gente, desde Black Eyed Peas até Machine Head e gravou diversos artistas da cena do rock. O cara quis abrir um estúdio no Brasil, armou um bunker de 3 andares, o melhor estúdio que eu já toquei! Aí fomos convidados pra ser a 'cobaia' desse estúdio. Ele podia ter escolhido qualquer banda da cena underground, então pra nós foi um puta orgulho ele ter escolhido a gente. Foi muito bom lidar com um cara que manja de música, que decidiu trampar com a gente, que dividiu as idéias... foi do caralho.

"No primeiro disco tinha uma música chamada 'Jesus te Ama, Mas eu Te Odeio' e uma que chamava 'Ajoelhou Tem Que Rezar', que era sobre um boquete – ou seja, puta coisa de moleque, condizente com a idade que a gente tinha. No primeiro álbum, a influência era muito Rage Against The Machine. Agora gravamos um material um pouco mais maduro, o que é inevitável. No primeiro eu não era casado. Agora já sou, tenho duas filhas, sei como funciona o sistema, o que é botar óleo nele, ter que pagar as contas..."


CAIXA PRETA. "Eu percebi, em alguns shows, que entre cada música eu queria falar tudo que eu tinha pra falar nos últimos dois anos. E a gente inventou a caixa preta para isso: por essa necessidade de expandir nossa atividade para além do som. A idéia surgiu quando terminamos o disco, pegamos a master às 3 da manhã e aí falei: 'vou ouvir essa porra inteira!' Fui e fiquei dando rolê na Marginal, com o som no talo, pegando um monte de ponte. Ficava pensando: como a gente consegue atingir as pessoas sem ser um lance marqueteiro, sem ser um 'ouça meu som! Ouça meu som!'?

"Surgiu a viagem de que a gente deveria interferir na vida das pessoas: vamos colocar uma coisa que as pessoas digam: 'que porra é essa? O que isso significa?' É pelo tesão de ir lá e cutucar. Isso mobilizou muito a banda e os amigos que nos rodeiam. E pra pintar as caixas foi um épico, velho! Fizemos uma pá de reuniões, com oito pessoas, lá em casa, pintando as caixas uma por uma, quase 300 caixas! Até minha irmã foi uma pessoa que abraçou a parada, tava lá no dia que botamos 100 caixas na Avenida Paulista...

"A HQ
V de Vingança influenciou muito a idéia, também. Sem falar que ela surgiu depois da efervescência que eu tive depois de assistir o novo filme do Batman, Cavaleiro das Trevas. Aquele Coringa, aquele terrorismo ideológico que ele propôs, eu achei que fez tanto sentido, velho! Pra mim ele é o herói do filme, tá ligado?! Tem umas frases dele que são foda! Aquela parada da barca, de botar as pessoas em xeque daquela maneira, é bem louco. Nem sei se a conclusão daquela cena é a conclusão que eu gostaria de ver. Se fosse no quadrinho talvez não fosse daquela maneira."

INTERNET, BLOGOSFERA E CIBERCULTURA. "A gente só prensou 500 CDs porque rola um trabalho forte de divulgação na internet. E essas paradas com a Internet sempre existiu: a gente tinha um site em Flash numa época que que banda nenhuma tinha site. Depois que ajeitamos nossa página no Myspace, pulamos de repente de 70 pra 900 amigos. Achei muito massa que calhou de vocês do Depredando mostrarem interesse em falar com a gente, porque era justamente o que a gente tava procurando: blogs legais onde divulgar nosso som e o que a gente pensa. Dei uma lida, falei 'o blog dos caras tem uma profundidade que é legal'. Queremos fazer mais disso: entrar em blogs, ler com cuidado, entender o que o cara curte, entrar em contato, até pra não colocar seu som em qualquer lugar. Somos a favor de divulgar o som na net. Fazer o bagulho e guardar no bolso, guardar na meia, num tem porquê!

"O blog chega e fala,
pau no cu da gravadora.
Fala tudo na lata, como tem que ser!"

"E esse lance de blog é muito democrático. Tem muito blog que tem o trampo de uma revista, se pá até melhor! Porque revista tem que fazer concessão, tem que ser político, o blog não! O blog chega e fala, pau no cu da gravadora. Fala tudo na lata, como tem que ser! Às vezes o cara nem é jornalista, nem é profissional, mas é apaixonado por música, gosta de propagar o que ele curte, meter o pau no que acha ruim... Não tem público de divulgação melhor que esse! A Internet é uma criança: fala o que quer, sem filtro nenhum."


DOWNLOAD DO ÁLBUM "ENTÃO SE EXPLICA":
http://mediafire.com/?jt1yzzif2li


BLOG AÇÃO CAIXA PRETA

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

:: John Zorn ::


Zorn(oise)
- por Marco Souza -

A primeira vez que fiquei chocado ao ouvir um disco foi quando comprei (promoção de 3 CDs por 10 reais!) o CD do Mr. Bungle, Disco Volante. Final de 90. Esquisitice das boas, mas na época achei apenas esquisito. Uma mistureba de estilos sonoros e a doidera vocálica de Mike Patton (ex-Faith No More). Há algumas semanas atrás o Mr. Patton e o baixista Trevor Dunn, resquícios de Mr. Bungle, me chocam de novo, mas dessa vez em um grupo comandado por John Zorn.

O grupo em questão é Moonchild (Patton, Dunn e Joey Baron na bateria), até ai tudo bem, um som sujo, hardcore (mais no significado da palavra do que no estilo musical), denso, pesado, como vocês podem conferir no myspace da banda. Baixo distorcido, bateria quebrada e vocal... bem, pra dizer tudo: Mike Patton. O mesmo grupo do álbum Astronome. Ambos tem como compositor John Zorn.

Em Six Litanies to Heliogabalus a coisa chega num grau diferente. Zorn pega seu sax alto, se junta a Moonchild, chama Ikue Mori, compositora e performer de sons eletrônicos, e Jamie Saft, tecladista que já tocou com Beastie Boys, B-52's, além de outros que desconheço, mistura com um trio de vocal lírico composto por Abby Fischer, Martha Cluver, Kirsten Soller (de quem não consegui foto) e resolve compor coisas absurdas.

O resultado é uma barulhenta loucura sonora, uma banda de grindcore tentado jazz em um hospício. Suas ladainhas são o extremo do experimentalismo atual. Há faixas que fogem do rótulo de música, Litany IV por exemplo é um gigante solo (no sentido musical e solitário da palavra) de vocal de Mike Patton, algo que se eu for explicar através de palavras ficaria assim: "TÁ tuctaqdoqtada TÁ tuctaqdoqtada Tá tá schá AAAhhhhhhhhhhhhhhh". No meio disso existem riffs interessantes, mas tudo que foge à menor lembrança em meio a complexidade e textura sonora geral. Litany V parece que terá um padrão quando o vocal lírico a interrrompe e o Sax estridente já desestrutura o padrão musical que montavamos em nossas cabeças. O excelente começo de Litany I parece um dos mais pesados e violentos trash metal existentes, e se completa pela calma induzida pelo vocal lírico, que acaba massacrado pelo baixo monstruoso de Dunn e os teclados de Saft. A maior parte do álbum é assim, algazarras alternadas com pausas e insanidades.

Orações para o Imperador Romano (ou o deus?) Heliogabalos é o conceito do álbum. Há um tom profano e de ironia no som, mesclando a pureza e aura sacral do coro lírico com a frieza dos instrumentos metálicos/eletrônicos e a gritaria sarcástica de Patton.

Six Litanies to Heliogabalus é uma experiência sonora de difícil assimilação. A primeira vez que ouvi achei genial, a segunda não aguentei dois minutos, ouvi pela terceira vez e resolvi apresentar aqui pois sei de pessoas que irão adorar o álbum. A maioria irá odiar.

Recomendado para fãs incondicionais de Mike Patton, pessoas que procuram os sons mais pesados e/ou experimentais possíveis e para aqueles que queiram se chocar. Típico som que dá medo de escutar sozinho.

Download (6 músicas - 68 MB)

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

:: Tokyo Ska Paradise Orchestra ::

"Tokyo Ska Paradise Orchestra are legendary, essential, and flawless. They don't make mistakes. They are a robot of skank sent from the future to teach us how to get down. Ten lions, one god. Ska music."

Taylor Morris


Tokyo Ska é foda. Não botava fé em japoneses tocando ska, até que o Hugo (ex-trompetista das extintas bandas, de Bauru-SP, Egg's Best Friend e Comida Skazera) me apresentou essa banda única, que mistura ska, jazz, blues e rock desde o fim dos anos 80. O som que eles fazem é simplesmente o que há de melhor no gênero. E o melhor álbum para apresentar a banda talvez seja Answer de 2005.


O álbum se destaca por canções únicas como Left With The Dog, que começa com um riff blues e tem uma das mais empolgantes introduções de metais da história, e Suna No Oka (Shadow On The Hill), um perfeito ska para rodinhas de pogo. Possui faixas mais lentas como Kanashimi No Mukou Gawa (Hello Happiness), clima de praia com uma bela (bela pra caralho) melodia executada pelos metais, e músicas cantadas em inglês e japonês, mas a maior parte é instrumental. O início com Tongues Of Fire já dá o tom da quebradeira que está por vir.


Uma Big Band japonesa com excelentes músicos, muito groove, solos e ska. Se você gosta de jazz, som instrumental ou música de qualidade não pode deixar de conhecer Tokyo Ska Paradise Orchestra. Tae a chance:



Download (14 músicas - 92 MB)

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

:: dj lux lúcio na grand irish party ::


Nesta trimmassa festança irlandesa - mas com muita pinga mineira (e da marvada!) - DJ Lux Lúcio estreou colocando som na Funhouse, pub paulistano firmezura. Achei uma dilícia ouvir essas canções que curto tanto com o som no talo (eu que estou acostumado a ouvir música nas minhas míseras caixinhas do PC...) e no meio de uma festa cheia de amigos e conhecidos - e com apresença até de espantosas criaturas que já foram em 3 shows dos Ramones e viram Nirvana no Brasil (!). Pra quem perdeu a Grand Irish Party, posto aqui a maioria dos sons que rolei por lá. O meu setlist - tirando o monte de punkaiada ramônica e cráshica que pus no meio (e que deixo de fora do zip pois são sons que todo mundo conhece) - foi mais ou menos assim...

01. sly and the family stone - i want to take you higher
02. stone roses - driving south
03. ben harper - black rain
04. big star - in the street
05. bob dylan - highway 61 revisited
06. delta 72 - i feel fine
07. the gits - another shot of whiskey
08. murder city devils - i drink the wine
09. graham coxon - spectacular
10. radio 4 - calling all enthusiasts
11. johnny thunders - born to lose
12. primal scream - medication
13. hot hot heat - you owe me an iou

DOWNLOAD PT 1: http://www.mediafire.com/?tqmq3j2j3gl

14. international noise conspiracy - capitalism stole my virginity
15. new pornographers - mass romantic
16. supergrass - rush hour soul
17. big star - don't lie to me
18. rancid - fall back down
19. dirtbombs - chains of love
20. the stooges - fun house
21. johnny thunders - do you love me?
22. the sonics - maintaining my cool

DOWNLOAD PT 2: http://www.mediafire.com/?vzlxqznnjmv

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

:: Medeski Martin & Wood ::


A EVOLUÇÃO EM ESCALA CELULAR
– por Marco Souza –

Esse Medeski juntamente com Martin e o companheiro de aventuras sonoras Wood são os músicos mais desgraçadamente (no bom sentido) criativos e produtivos dessa geração. Devem ter quebrado algum recorde ao lançarem três álbuns de músicas inéditas em um ano, pelo menos entre os álbuns de jazz. Mas não são (não querem ser chamados de) uma banda de jazz. São baderneiros, barulhentos, eletrônicos, groovados, harmônicos, dissonantes, experimentais e absurdamente bons. Como uma criança cheia de imaginação com um brinquedo novo, eles fazem sua poesia sonora. E se divertem com isso. E nos divertimos também.

Pra começar a retrospectiva 2008 relembremos o divertido Let's Go Everywhere, já postado, repostado e apostado aqui. Depois os danados lançaram Zaebos - Book Of Angels Volume 11 que é uma piração com composições do camaradinha John Zorn, que iniciou essa série em 2005 com o primeiro Book Of Angels. A primeira música é tensão sonora total, a última fase que dá medo naquele jogo de 16 bit. Depois as coisas se acalmam. Jazz e experimentalismo sem groove, o que eu senti falta. Mas não vim aqui para falar dele. O destaque é para o lançamento do final de setembro, Radiolarians I, uma inovação no atual sistema de produção musical, mesmo que sutil.

O padrão é compor – gravar – tocar ao vivo, assim todos vão degustar de músicas que já conhecem, podendo cantar, dançar e rebolar de maneira bem ensaiada durante a performance ao vivo. Também é isso que move o mercado, vamos a um show para escutar nossas músicas favoritas. O trio deve ter pensado "Whattafuck!? Vamos mudar essa parada" "Como?" "Compondo e tocando direto para platéias" "Isso ai, e o que ficar bom gravamos depois". Dito e feito Radiolarians. O projeto consiste em três volumes em que cada um será uma compilação de músicas que se desenvolveram em shows da banda. Dizem que o show do dia 20 de setembro, no Sesc Vila Mariana em São Paulo, foi essencialmente Radiolarians II. Enfim, com essa proposta o show torna-se uma experiência mais interessante, pois não iremos ouvir apenas reproduções ao vivo de músicas que conhecemos, mas seremos capturados por uma musicalidade inédita. Renasce daí o conceito de música como arte e forma de expressão, perdendo um pouco seu caráter mercadológico (ainda comprarei os CDs da banda). E assim nasceu o primeiro Radiolarians, um dos trabalhos do trio que apresenta maior diversidade musical.


Tudo que MMW se mete a fazer é sensacional e temos aqui outro exemplo disso. O álbum começa com uma ambientação sonora mais do que necessária para a levada dos teclados de John Medeski, em seguida, com o baixo de Chris Wood, eles relembram uma sonoridade clássica da época de Shackman. Aqueles já familiarizados se sentirão em casa. A segunda faixa Cloud Wars, síntese de um punk-funk-jazz, é dominada pelo baixo agressivo e apimentada pelo groove dos teclados. Muchas Gracias me lembrou a diversão de escutar Let's Go Everywhere mas sem aquela característica infantil (em nota que não é um disco apenas para crianças, mas suas composições foram orientadas para elas). Professor Nohair dá uma aula de piano em um bar de New Orleans. Iniciada por Wood, a anarquia sonora toma conta de Reliquary, a faixa mais experimental do disco. Nela o baixo rasga tudo com um riff punk básico em conjunto com teclados sintetizados e a bateria estilhaçada de Billy Martin, que quebra tudo o que pode com suas baquetas para dominar essa música nervosa. Uma interrupção com um improvável piano clássico a deixa com um aspecto estranho e belo. Em contrapartida Free Go Lily já traz um MMW com suas influências funk bem a mostra, agradando a todos com sua melodia. A experiência continua na batida selvagem e no timbre assustador de Rolling Son, outra estranheza das boas. A sonoridade alegre característica reaparece em Sweet Pea Dreams, durante a curta faixa de três minutos, tempo suficiente pra nos deixar com um belo sorriso no rosto. God Fire traz a loucura de volta aos teclados com um clima sombrio e o espetáculo termina sutilmente com Hidden Moon.

Um dos lançamentos do ano: lindo, essencial, raivoso e revigorante. Creio que eles são uma das maiores figuras da música atual e ficarão para história como um dos grande ícones de nossa geração.

Medeski Martin & Wood - Radiolarians I
Download (10 músicas - 88 MB)

Medeski Martin & Wood – Zaebos - Book Of Angels Volume 11
Download (11 músicas - 96 MB)

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

:: arnaldo baptista ::


CÊ TÁ PENSANDO QUE EU SOU LÓKI, BICHO?

- Documentário sobre Arnaldo Baptista ilumina vida e obra de um dos mais excêntricos e idiossincráticos artistas da música brasileira -

por EDUARDO CARLI DE MORAES,
vulgo LÚCIO ESPONJA.


Um gênio incompreendido? Um mito vivo? Um loucão que fritou os miolos no ácido? Um artista versátil com alma de criança? Um brilhante arquiteto de canções pop? Uma prova viva do poder devastador de um coração partido? Todas essas hipóteses – e muitas mais... - podem servir para descrever o eterno menino Arnaldo Baptista, uma das figuras mais excêntricas, pitorescas e inesquecíveis da história da música nacional.

Na nova cine-biografia do artista, LóKi, produzida pelo Canal Brasil e dirigida por Paulo Henrique Fontenelle, raras entrevistas e imagens de arquivo elucidam um pouco do percurso artístico e existencial do ex-Mutante através dos tempos: suas bandas, amores, casamentos, manicômios, exílios, tombos e vôos. Em duas horas e pouco de passeio, mergulhamos na alma do cara e todos os que o rodearam, num percurso repleto de revelações comoventes e com um desfile de brilhantes loucuras.

Lóki poderia ser um pungente documentário sobre a queda de um rock star no labirinto da loucura, das drogas e da auto-destruição. Mas a chincha, a essência, a gema da coisa está em outro lugar: na descrição de como Arnaldo Baptista, mesmo aos trancos e barrancos, conseguiu se tornar algo muito mais belo: um sobrevivente. Pode ter chegado ao aqui-e-agora meio estropiado, na mente e no coração, e com algumas dúzias de parafusos soltos na cabeça, mas chegou. E é comovedor que ele ainda esteja entre nós, falando, pintando, cantando, brincando, iluminando e marcando época.

Quem pode negar que foi uma inacreditável volta por cima? Ele, que depois de integrar o trio mais genial da história do rock nacional, passou por várias pedreiras, provou que saiu delas vivo e tendo o que comunicar - o que já é grande coisa. Pois foram muitas orgias de tomação ácido. Cinco internações em hospícios. Um exílio de eremita numa chácara em Minas. Uma tentativa de suicídio seguida de coma. Três casamentos (o último ainda vigente). E pelo menos um coração partido em mil pedaços - que Rita Lee, seu primeiro amor, não parece ter feito esforço algum para ajudar a curar. Tudo combustível para o mito.

Apesar de fiel aos fatos, o documentário beira a elegia, montando um mosaico de hinos em louvor ao homenageado. O panteão de entrevistados que dão declarações extremamente positivas sobre Arnaldo só contribui para adicionar ainda mais densidade ao seu status mitológico. Para Tom Zé, Arnaldo Baptista é o depositário de uma sabedoria vivida que transcende o domínio da Academia e do conhecimento livresco, sendo descrito como um Iluminado com quem temos muito a aprender. Nosso pequeno Buda!


Para o maestro Rogério Duprat, foi ele o grande criador dentro dos Mutantes, que por sua vez foram os grandes criadores dentro do tropicalismo, e por isso o responsável direto por tudo que ocorreu na música brasileira de 1967 para frente. Para Lobão, compôs um dos 10 melhores álbuns da história da música nacional, Lóki. Já o irmão e mutante Sérgio Dias trata-o com reverência e o defende da acusação de ser um louco-bobo qualquer, destacando a espantosa sensibilidade que possui Arnaldo – e perguntando, provocativo: “quem é louco, Van Gogh ou a gente?”

O fã Sean Lennon, um dos responsáveis pelo “re-despertar” de Arnaldo na mídia após um longo período de ostracismo, chegou a considerá-lo o “Syd Barrett brasileiro”, estabelecendo altos paralelos entre o menino mutante e o genial e esquizofrênico primeiro vocalista do Pink Floyd.

Para o também fã Devendra Banhart, os Mutantes foram melhores do que os Beatles (!) em termos de ousadia, criatividade e capacidade de unir ecletismos radicais dentro da mesma canção. Zélia Duncan, que assumiu o papel de vocalista no revival dos Mutantes, descreve Arnaldo como “a encarnação da ‘Balada do Louco’” por conseguir encontrar um modo de ser genuinamente feliz, mesmo vivendo de seu próprio modo num mundo de fantasia completamente idiossincrático.

Já Kurt Cobain, no auge do sucesso do Nirvana, quando passou pelo Brasil para tocar no Hollywood Rock, derreteu-se em elogios à heróica banda que enfrentou um regime militar perverso a golpes de irreverência e psicodelismo. Escreveu para Arnaldo uma carta, que caiu na Internet e assim se espalhou para o resto do mundo, elogiando o músico, que mal sabia quem era esse tal de Cobain.

Os exemplos poderiam se multiplicar... mas só por esse grupo seleto de fãs e admiradores de Arnaldo Baptista já se vê o poder do retrato que Lóki traça. Partindo do passado distante, onde narra rapidamente a infância e a adolescência do artista, o filme chega até tempos mais recentes. O lançamento do disco de inéditas “Let It Bed”, em 2002, produzido por John, do Pato Fu, e distribuído nas bandas de jornal pela revista criada por Lobão, trouxe-o de volta à cena com um álbum elogiado.

Depois, é a hora do filme mostra o quanto o ‘revival’ dos Mutantes foi extremamente bem-sucedido, com DVD gravado em Londres e ovações em Nova York, mostrando ser algo muito maior que uma mera turnê caça-níqueis. Sabe disso quem esteve nos dois brilhantes shows que os novos Mutantes fizeram em São Paulo nos últimos anos: na Virada Cultural, em 2008, e no aniversário da cidade, em 2007, em ambas ocasiões tocando para um público que ultrapassava as 50 mil pessoas. Se foi bom? Como diria Devendra Banhart: “em uma palavra: bompracaralho!”

Já Rita Lee é assunto tabu quando se trata da vida de Arnaldo Baptista. Os dois, de namoradinhos juvenis e casal sacramentado pelos laços do santo matrimônio, passaram a um quase completo afastamento. Rita, como era de se prever, não dá declaração alguma para o filme. Mas Sérgio Dias aponta, sem firulas, que a saída de Rita Lee dos Mutantes, o que daria início à fase prog chatona e viajandona da banda, tem pouco a ver com diferenças musicais. Nada a ver com a suposta falta de virtuosismo instrumental dela, que a tornaria inapta a acompanhar os Mutantes em suas novas viagens nas estratosferas sônicas. Sem meias palavras, Sérgio indica que foi o fim do casamento entre Arnaldo e Rita foi o que causou a saída dela da banda e, assim, o desfazimento do trio mais genial da história do rock nacional.

Lóki é um documento histórico de primeira linha que homenageia uma de nossas figuras musicais mais excêntricas, idiossincráticas e doidamente geniais. Como filme, tem a vantagem de não ser uma mera descrição de um percurso pessoal, mas uma panorâmica de uma época cultural efervescente, dominada pela psicodelia, pelo tropicalismo, pelo LSD e pela experimentação vivencial livre e solta.

Além do mais, é uma meditação sobre a loucura, que nos convence, mais uma vez, que não há nada de errado em ter um ou outro parafuso solto e dizer coisas sem pé-nem-cabeça – e que louco mesmo é quem diz que não é feliz. Arnaldo Baptista aparece aqui como uma pessoa no limiar entre a doidice e a genialidade e um convite vivo para que reencontremos a simplicidade da infância perdida.

Arnaldo sempre jurou: “é bem melhor não ser um normal / se posso crer que Deus sou eu”. O filme só traz mais fiéis a este credo. Se Lóki, o filme, servir para deixar os normopatas menos orgulhosos de sua insossa normalidade, já terá feito muito bem. Mas faz mais: ergue um monumento sobre a ascensão, queda e ressurreição desse adorável pimpolho pirado que o Brasil faz muito bem em louvar.


TRAILER:





DOWNLOADS:

Alguns destaques da discografia de Arnaldo pós-Mutantes:

LÓKI
http://www.mediafire.com/?yi0mijguztb


SINGIN' ALONE
http://www.mediafire.com/?vwmmmzolzyz