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quarta-feira, 27 de março de 2013

"Por que não viver neste mundo... Se não há outro mundo?" (Novos Baianos)


Coletânea fresquinha saindo, só com as brasileiragens! A viagem começa eufórica mas deságua na melancolia. No cardápio… 01) Novos Baianos, “Besta é Tu”; 02) Wado, “Uma Raiz e uma Flor”; 03) Ellen Oléria, “Testando…”; 04) Gal Costa canta Chico Buarque, “A História de Lily Brown”; 05) Los Hermanos, “O Vento”; 06) Mundo Livre S.A., “Super Homem Plus”; 07) Diego e o Sindicato, “Quase Nada”; 08) Vinicius de Moraes e Baden Powell, “Tempo de Amor”; 09) Baden Powell, “Sorongaio”; 10) Céu, “10 Contados”; 11) Transmissor, “Aquática”; 12) Lenine, “O Silêncio das Estrelas”.


Outras “fitinhas” de boa música? Chega mais: http://8tracks.com/depredando

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

"Nem todo trajeto é reto, nem o mar é regular..." - A UTOPIA ANTROPOFÁGICA [Coletânea, 10a Edição]



“Nem todo trajeto é reto
Nem o mar é regular…”
METÁ METÁ

Coletânea fresquinha saindo… É o 10º volume da série que congrega em caixinhas digitais de música só as brasileiragens em impudico mélange antropofágico. Nesta edição... 01) Elis Regina & Adoniran Barbosa, “Tiro ao Álvaro”; 02) Metá Metá, “Cobra Rasteira”; 03) Lenine, “Jack Soul Brasileiro”; 04) Guinga, “Par ou Ímpar”; 05) Los Hermanos, “Paquetá”; 06) Chico Buarque, “Noite dos Mascarados”; 07) João Bosco e Aldir Blanc, “Bala com Bala” (com Elis Regina); 08) Mundo Livre S.A., “Quem Tem Bit Tem Tudo”; 09) El Efecto, “O Encontro de Lampião e Eike Batista”; 10) Tulipa Ruiz, “Víbora”.

Edições anteriores: 09 - 08 (*) - 07 - 06 - 05 - 04 - 03 - 02 - 01.

 (*) #8 = Especial Torquato Neto

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Saudades dos Tempos de Pipa - Uma homenagem à Cícero e seu "Canções de Apartamento"


"Um grupo de porcos-espinho ia perambulando num dia frio de inverno. Para não congelar, os animais chegavam mais perto uns dos outros. Mas, no momento em que ficavam suficientemente próximos para se aquecer, começavam a se espetar com seus espinhos. Para fazer cessar a dor, dispersavam-se, perdiam o benefício do convívio próximo e recomeçavam a tremer. Isso os levava a buscar novamente a companhia uns dos outros, e o ciclo se repetia, em sua luta para encontrar uma distância confortável entre o emaranhamento e o enregelamento" - Deborah Anna Luepnitz em Os Porcos Espinhos de Schopenhauer

SAUDADES DOS TEMPOS DE PIPA



No bondinho de Santa Tereza, um tímido fanfarrão improvisa uma festa para a deslumbrante donzela a seu lado: oferece bombons e fitas vermelhas, saca do coldre seus brinquedos e seu nariz de palhaço, brinca de cheerleader ; mas nada parece retirar a moça de sua pétrea impassibilidade. 

O cenário que circunda este casal de estranhos que se trombam no bonde é bem diferente das latas-de- sardinha que são os busões lotados de nossas metrópoles, é bem verdade. Remete a algo mais retrô, a tempos idos onde a pressa era menor e os sorrisos mais demorados. Ainda não éramos os alucinados frenéticos de hoje em dia, esses speed-freaks que se deixaram convencer por calhordas capitalistas de que “tempo é dinheiro”. Emana das imagens de “Tempo de Pipa” a saudade de tempos onde os céus ainda eram coloridos com balões e papagaios ao invés de poluição, arranha-céus e nuvens negras de chuva ácida. 

Com suas mais de 150.000 visualizações no YouTube, o primeiro video-clipe do carioca Cícero já virou um novo fenômeno do hype digital (embora não tão colossal quanto a Banda Mais Bonita da Cidade). Nele, Cícero parece querer relembrar-nos de uma ternura cotidiana cada vez mais rara e que corre o risco de ser perdida em nossa modernidade assassina-de-auras e tão repleta de estouros de violência – que têm como exemplos cariocas recentes o Ônibus 174 e o tiroteio de Realengo. “Como amar em tempos de cólera?” - a enigmas assim, me parece, a música de Cícero tateia em busca de respostas. 

No clipe, a mulher desejada mostra-se um tanto inacessível às cabriolas e aos xavecos deste Pierrot sedutor. Ele parece encarnar o mote los-hermânico “deixa eu brincar de ser feliz, deixa eu pintar o meu nariz...”. “Tempo de Pipa”, que já no título traz um sabor de nostalgia de infância, uma saudade de balões coloridos e algodão-doce, é um dos clipes mais singelos da música brasileira recente. Mas a melancolia que à melodia se mistura sugere um intrasponível abismo que se abrisse aquelas duas pessoas, sentadas lado a lado no bonde, e como se o clipe fosse a crônica das tentativas de construir uma ponte que conduza a “viver sem escolta”, para usar uma expressão de “Vagalumes Cegos”. 

Cansado de não encontrar calor ou aplauso de sua pétrea musa, Cícero desce do bonde, como que resignado à frieza das relações humanas no cinza das megalópoles. Mas quando se vai, ela enfim abre um sorriso sem testemunhas, em tardia florescência de grata alegria. É um the end que não chega a ser feliz, mas que carrega muita beleza e nos faz pensar que, de fato, das curvas do corpo humano, o sorriso é a mais bela.




OS PORCOS-ESPINHO DE SCHOPENHAUER

"A solidão é mais uma questão da sociedade hoje em dia do que uma característica de personalidade", disse Cícero em entrevista. "Todo mundo está está se relacionando com essa coisa de viver numa bolha, de sentir falta de uma comunicação sincera. Não é uma coisa que só eu sinto. Todo mundo sente." 

É o que nossos melhores psicanalistas têm frisado insistentemente nos últimos anos: O Tempo e o Cão, de Maria Rita Kehl, e Crônicas do Individualismo Cotidiano, de Contardo Calligaris, são duas notáveis obras a dissecar o isolamento social causado pelas ânsias individualistas de nossas sociedades que, infelizmente, incorporaram até o tutano dos ossos o credo neoliberal da competição e da rivalidade e pretenderam enterrar a ideia, tida por alguns como caduca e demodê, de comunitarismo e fraternidade. 

 A epidemia de depressão e a explosão no consumo de Prozacs é só mais uma evidência das solidões que o capitalismo vai semeando por seu caminho. Se Criolo descreve São Paulo como um labirinto místico, com “bares cheios de almas tão vazias”, onde “a ganância grita e a vaidade excita”, Cícero pinta, lá do Rio de Janeiro, um retrato complementar sobre este “rodopiar em busca do que é belo e vulgar” e sobre o “céu engarrafado” (às vezes até nos esquecemos que existem estrelas, tamanhos os obstáculos urbanos ao nosso olhar...). 




Canções de Apartamento, porém, está longe de poder ser rotulado como uma obra-de-arte deprês, negativista, ideal para quem pretende cortar os pulsos; pelo contrário, carrega antídotos poéticos e belezas abundantes que procuram remediar os males desta condição de desconexão que muitos sentem nas grandes cidades. Em uma das dúzias de vezes em que escutei o álbum na íntegra, relembrei de uma das melhores cenas de Edifício Master, do mestre Eduardo Coutinho, quando ele entrevista a Daniela, moradora um tanto reclusa e anti-social do apartamento-formigueiro em Copacabana.

De olhos baixos diante das câmeras, Daniela vai se desvelando diante de Coutinho como alguém que sofre de “sociofobia”, de stress diante das aglomerações caóticas nas ruas estreitas em que os humanos, ao invés de interagirem ou se conectarem, põe em prática verbos mais broncos como “se trombar” e “se atropelar”. “Não sei se são pessoas demais ou calçadas muito estreitas – ou se é uma fusão desagradável dos dois elementos...”.

Entrevistas que li de Cícero aponta que ele preocupa-se bastante com questões do tipo e que sua obra procura tematizar esta condição psico-social que eu chamaria de “síndrome alone-together” - a sensação de anomia ou de isolamento em meio à muvuca; a solidão no meio da multidão. Ao Scream & Yell, Cícero comentou:
“comecei a ver que a solidão é muito mais um “mal do século” do que uma característica da minha personalidade. São milhares de pessoas sozinhas… juntas, sabe? E esse foi o mote do Canções de Apartamento. […] Estão todos sozinhos. E isso gera uma paranóia que eu acho que é o grande potencial destrutivo dessa nossa sociedade. As pessoas se relacionam até certo ponto, mas dali pra dentro é solidão. E isso é a semente da loucura. “João e o Pé de Feijão” é uma música que fala da mais sincera forma de solidão que eu senti ao morar longe pra cacete, sabe? E “Vagalumes Cegos” fala da forma mais sincera de se combater isso, que eu acredito, que é quebrar com essa paranóia, com essa pressa, com essa muvuca, não comprar esse meio de vida e ir fazer o básico...”


A ÉTICA DO FAÇA-VOCÊ-MESMO NA ERA CIBERCULTURAL 


cícero -  "laiá laiá" [click para ouvir]






Como foi amplamente comentado em quase tudo que se escreveu sobre Canções de Apartamento, este álbum é fruto da solidão criativa de um jovem carioca de 25 anos de idade que resolveu reavivar a ética do-it-yourself – aquela mesmo que já motivou tantas bandas a arregaçarem as mangas ao invés de aguardar as graças de cima. Sinal de que há o potencial para que a Internet, através da disseminação das criações através das redes sociais, torne-se realmente o “novo rádio”. Multiplicam-se os artistas que atingem um sucesso considerável junto a um público que não precisa possuir o CD físico para conhecer todas as músicas, e que por vezes acaba por investir no artista, comprando ingressos de shows ou camisetas, por exemplo, numa recusa prática da tese de que o MP3 transformará artistas e gravadoras em mendigos. Ao invés de conduzir à bancarrota geral, como temem os nóias, o MP3 está reconfigurando e transformando o cenário musical a ponto de abrir horizontes de imensa potencialidade. 

A importância de Cícero neste alvorecer de década está na inspiração que ele pode lançar sobre uma multidão de outros jovens compositores(as) que hoje vivem em anomia e silêncio em milhões de “apartamentos-bolhas” deste país-continente. A atitude de gravar um álbum em casa remete àquela galera do rock independente americano, como o Guided By Voices ou o Magnetic Fields, que sacramentou o low-fi como uma espécie de gênero autônomo, ou seja, mais como uma estética escolhida de forma voluntária do que algo a que se adere por causa de meras limitações técnicas. Já a sonoridade folk remete ao que vêm fazendo, nos últimos anos, nomes como Devendra Banhart, Bon Iver, Beirut ou Fleet Foxes.



Mas Cícero parece, sobretudo, mais um rebento do que poderíamos chamar de “los-hermanização” da música popular brasileira. Cada vez se torna mais explícito o quanto os Los Hermanos foram, na década passada, a mais influente das bandas, impulsionando o nascimento de grupos como o Apanhador Só, Do Amor, Graveola e o Lixo Polifônico e Volver. Grande parte das canções de Cícero também remetem àquelas belas e doloridas canções de Camelo que preenchem Quatro (“Dois Barcos” e “Pois É”), por exemplo, e à poesia amarantina que se espraia por pérolas como “O Velho e o Moço” e “Paquetá”. A sonoridade de Canções de Apartamento, aliás, combina muito bem com aquela dos dois álbuns solo do “hermano”, com quem Cícero têm dividido o palco em shows elogiados como aquela no Circo Voador.

Na coletânea da Musicoteca que presta tributo aos Los Hermanos,
Cícero canta "Conversa de Botas Batidas"

Recentemente, Cícero esteve mais uma vez aqui em Goiânia, num excelente evento do Vacas Magras, e pude assisti-lo ao vivo pela primeira vez. A beleza maior do show no Diablo Pub esteve na experiência de estar diante de um jovem cantor e compositor, ainda um tanto tímido e inseguro, mas que arrisca-se a expor sentimentos íntimos diante de desconhecidos predispostos a emprestar-lhe o ouvido e a atenção. Foi um show low-key, sem arrebatamentos ou pirotecnias, mas que me agradou bastante, especialmente pois Cícero parece ter conseguido compor canções extremamente pessoais, em que sentimentos autênticos estão envolvidos, mas que não deixam de possuir um valor de comentário social, um valor de crônica do zeitgeist e, sobretudo, um valor de re-conexão humana através da música.

Canções de Apartamento, um dos álbuns brasileiros mais importantes desta jovem década, plantou uma semente promissora que tende a desabrochar nos campos férteis de muitos outros anônimos que hão de, no futuro, usar seus apertamentos e suas solidões como trampolim para uma expressão-conexão que equivale a uma criação-de-pontes. Canções compostas na solidão de um apartamento ganharam o mundo, tocaram milhares e construíram laços afetivos múltiplos, muitos deles bem mais promissores, artisticamente, que os encontrões e os solipsismos de nossa cotidiana urbanidade.


LEIA MAIS: Scream & Yell - Rock in Press - Miojo Indie - Canções de Apartamento no Facebook - Download.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

<<< Camelo e Wander Em Busca do Zen >>>

 
Wander Wildner, "meio Wando e meio wild", é um punkbrega cigano e beberrão que vai da Argentina à Berlim em busca da vida fodona e do lugar-do-caralho (mas sem jamais esquecer das fomes simples do coração). Camelo, cada vez mais pra Chico que pra Weezer, com o legado los-hermanístico como respaldo, prossegue em sua bela busca por um amor zen e por uma paz-de-espírito quase búdica.

Tanto Toque Dela quanto Camiñando Y Cantando, os discos com que Camelo e Wander nos brindaram neste 2011, são discos "de maturidade" que retratam artistas de muita estrada dando sua versão particular dos dramas (e dos ridículos) da procura pela boa-vida em meio a inevitáveis auto-transformações. Ambos estão à procura de uma felicidade muito singular, como se soubessem que nenhuma receita-de-bolo ou manual de auto-ajuda-para-as-massas aguenta o tranco: cada um, com seu destino irremediavelmente único, que encontre seu caminho e, como canta o Dieguito, "trace sua meta".

"Eu sou parte de nós": a idéia-mestra do debut do Diego e o Sindicato também marca uma certa presença na carreira solo do hermano Camelo, que na capa do primeiro disco já afirmava a ilógica e poética matemática do SOU = NÓS (vire o sou de ponta-cabeça e encontre o nós, e vice-versa). Toque Dela prossegue na mensagem do não sou nada sem ti (e tu não és nada sem mim).

A arte do zen é o que mais parece interessar Camelo nos últimos tempos. Ele quer que o fio da maldade se enrole, não se cansa de cantar chamegos para sua Morena e parece ansiar que seu rosto sereno faça com que o mundo lhe fite surpreso, perguntando: "de onde vem a calma daquele cara?" Cada vez mais vagaroso, investindo num folk com post-rock que flerta com o dub (bem a cara do Hurtmoltd), Camelo canta os encantos do amor cada vez escancarando mais que é a paz bem mais do que a excitação aquilo que procura.

Já Wander Wildner, camiñante de dentes tortos e sangue gaúcho, também anda atrás de sua versão da sabedoria, bem mais punk e bem-humorada que aquela Camelo parece estar desvendando, mas não menos instigante. Wander também procura a paz de estar de bem consigo e seus próprios defeitos, mas é rindo deles ao invés de lastimá-los. Ele abre o coração ainda que saiba que ele é brega, desafinado e horrorshow: o que importa, na real, é que seja verdadeiro (e, de lambuja, engraçado). "Vou levantar as âncoras, abrir as trancas, sentir que o mundo é o que sou. Seguir o trilho do coração, ir para onde ele for" ("Puertas y Puertos).



Wander conserva ainda a atitude desleixada de um punk mesmo no seu disco mais folk, e prossegue dizendo (e fazem uns 20 anos já) que não sabe tocar direito e... que está pouco se fodendo pra isso. Mas aquele que já verteu para o português "I Believe In Miracles", dos Ramones, agora procura uma sábia simplicidade diferente da ramônica. Aspira pela simplicidade e despojamento de um Johnny Cash, por exemplo, e em certas composições de lírica mais ambiciosa ("As Coisas Mudam"), anda pretendendo igualar também as densas ressonâncias emocionais que foram capazes de comover os presidiários da Folsom Prison.

Já Camelo, que andou sendo perseguido por papparazis tupiniquins e revistinhas de fofoca para adolescentes, todos querendo tirar uma lasca de seu namoro com Mallu Magalhães (a princesinha prodígio do folk-fofinho brasileiro), tem bons motivos para desejar PAZ. Sua sensibilidade deve estar um tanto irritada com o excesso de holofotes e flashes, e isto deve explicar um pouco o porquê de sua escolha por estar mais "pianinho", na moita, querendo se fazer de discreto. Mas Toque Dela é um álbum lindo demais para que fique restrito a discretos fones-de-ouvido de fãs de Los Hermanos tentando curar as feridas de sua orfandade. Camelo (e preparem-se para as manchetes bombásticas que logo virão!) é mesmo o nosso mais sério candidato a "novo Chico Buarque".

Wander, que é mais chegado na vida podreira que o bom-moço Camelo, continua escancarando que anda tomando muita tequila e fumando muita marijuana. A felicidade, para ele, tem muito a ver com uma alegre desencanação (preocupar-se é sempre besteira), inclusive para, diante das más notícias, dizer um "daí fudeu!" que transmute a tragédia em gargalhada. "Pra Ti Juana", por exemplo, é uma baladão com bigode mexicano e portunhol macarrônico em que a "musa" Juanita tem elogiados seu perfume e seus "besos calientes" num banquete pra nenhum brega-punk botar defeito.

Já Camelo, que não abdicou da barba de profeta e a atitude filosófica-contemplativa, é o poeta curtidor de suaves brisas e que diz que o amor desconhece os abismos da idade. Também ele, há anos, parece procurar pelos poderes redentores da simplicidade e da inocência (características que deve ter encontrado em altas doses na pessoa e na música da Mallu, e que explicam um pouco do fascínio dele por um garota quase 15 anos mais jovem.)

Os Hermanos já nasceram com o objetivo escancarado de "cantar o amor", ainda que no início à maneira do Weezer ou de um skacore nervoso e frenético. O jovem e quase pueril Camelo que despontou com "Anna Júlia", um dos maiores hits do rock brasileiro noventista, amadureceu um bocado nesta longa jornada que passou pelo Bloco do Eu Sozinho, pela culminação gloriosa do Ventura, pela melancolia agridoce do 4, pelas nebulosidadesvagarosas de Sou/Nós.O que manteve-se constante foi o desejo de encantar ao cantar o amor sem pingo de cinismo e sem pudor de se mostrar frágil e sensível. E ele faz isso muito bem, melhor que ninguém.

Ambos não têm medo algum do brega e cantam sobre amor sem a paralisia que é o temor do ridículo e da chacota. Camelo, rapaz mais tímido, que às vezes deve "não achar lugar no corpo em que deus lhe encarnou" (para usar o verso de "Cara Estranho"), tem um romantismo mais idealizado, cheio de perfumes e juras, declarações de amor e saudades, como bem mostra "Meu Amor É Teu", das mais belas canções de Toque Dela.



Wander, ao contrário, sacaneia contra os que mandam flores e falam sobre o luar: "No seu beijo falta corte! / Venha com tudo, baby, e me dê amor e morte!". Em contraponto à delicadeza etérea de Camelo, Wander põe Eros e Tânatos para dançar bêbados pelas ruas de Buenos Aires e canta o amor em seu aspecto mais sarjeta-sangue-e-sujeira. Camelo tem pendores idealistas; Wander é mais um materialista visceral. Mas no firmamento dos dois, bem se vê, brilha o amor como valor supremo, ainda que os meios para atingi-lo divirjam.

Em ambos também, me parece, se manifesta uma certa fascinação pela vida nômade: Wander e Camelo, como ciganos cósmicos, escrevem canções sobre o viajar como este fora não um hábito de pegar estrada e ser hóspede frequente de aeroportos, mas mais como metáfora da vida. Mas cada um curte esta viagem de um jeito: Wander prefere ir de trem, cabeça pra fora da janela, vento bagunçando os cabelos sem nenhum grilo, com o perigo de esmagar o crânio contra um poste ou parede de túnel se a gente vacilar.

Já Camelo prefere o mar e não se cansa de falar, malemolente como Jack Johnson em seu melhor álbum (In Between Dreams), que convêm navegar devagar, marinheiro... Camelo escreve canções "Pra Te Acalmar", caro ouvinte. E pra te recomendar: "Se faltar a paz: Minas Gerais". Em momento auto-ajuda e guia-turístico, o compositor carioca, atualmente morando em São Paulo, recomenda descanso dos frenesis paulistanos e cariocas.

"Timoneiro", de Paulinho da Viola, talvez seja a composição clássica da música brasileira que mais reflete o atual "climão" da arte de Camelo, encarnação do "não sou eu quem me navega, quem me navega é o mar". A lição de Camelo é a de deixar-se levar ao invés de contra a correnteza lutar. Já Wander Wildner, mais inquieto, conservou um pouco da urgência dos tempos dos Replicantes, enquanto Camelo está procurando a ausência absoluta de ansiedade. Wander parece preferir galopar pelos pampas gaúchos num cavalo que bebeu uísque a velejar tranquilo na barcola camelística (e só topa ir pra alto-mar se for pra "navegar em mares de cerveja"...).


"A Palo Seco", canção de Belchior (*) que ambos gostam de cantar, fica linda tanto no voz de Camelo quanto na de Wander Wildner. Com bem mais de 25 anos de sangue, sonho e América do Sul, estes dois ícones da nossa música brazuca atual, ambos desesperadamente cantando em português, prosseguem na estrada em suas buscas próprias (e públicas), e que muito iluminam as alheias (ou seja, as nossas). Wander e Camelo, cada um de seu jeito, cada um com seus tropeços, cada um com seus talentos, perseveram (ainda bem!) na busca do zen.


(*) Se você vier me perguntar por onde andei
No tempo em que você sonhava.
De olhos abertos, lhe direi:
- Amigo, eu me desesperava.
Sei que, assim falando, pensas
Que esse desespero é moda em 73.
Mas ando mesmo descontente.
Desesperadamente eu grito em português.

- Tenho vinte e cinco anos de sonho e
De sangue e de América do Sul.
Por força deste destino,
Um tango argentino
Me vai bem melhor que um blues.
Sei, que assim falando, pensas
Que esse desespero é moda em 73.
E eu quero é que esse canto torto,
Feito faca, corte a carne de vocês.


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WANDER WILDNER Caminando y Cantando [2011]

quinta-feira, 10 de março de 2011

<<< Legado Hermanístico >>>

O CompactoREC, selo virtual vinculado ao circuito Fora Do Eixo, acaba de disponibilizar para download gratuito o álbum de estréia do Maglore, banda de Salvador-BA. O disco se chama Veroz e vem se somar a uma "vertente los-hermanística" do novo rock brazuca, fazendo coro ao Apanhador Só (Porto Alegre-RS) e ao Volver (Recife-PE), dentre outros. Vale conferir!


quarta-feira, 13 de outubro de 2010

<<< S.W.U. >>>


CALM LIKE A BOMB
por Ana Alice Gallo

Difícil ler dois textos com informações parecidas sobre esse festival monstruoso (em todos os sentidos possíveis) que assolou nosso planeta São Paulo nos últimos dias. Abalou tudo o que conhecíamos e estávamos acostumados em Pacaembus, Morumbis e Arenas da vida, tirou todo mundo do prumo e não deixou muita alternativa. O saldo varia a cada veículo: faltou água x teve banheiro, sem ocorrências graves x tumulto generalizado. Talvez por isso eu tenha reanimado esse velho blog pra contar, aqui, como foi o meu SWU. O primeiro e, provavelmente, o último. Fui obrigada a engrossar o caldo dos que cantavam “Admirável Gado Novo”, de Zé Ramalho, enquanto esperávamos loucamente por Queens of the Stone Age, ontem.

“Já esteve em Aparecida? É igual”, zombava um ambulante, durante a peregrinação do estacionamento (o mais próximo possível) até a entrada do festival – apelidada por nós singelamente de “diáspora”. Se ao primeiro dia os vendedores e cambistas se mostravam tímidos com as placas de proibição nesses quilômetros, no último já havia pequenos minibares e barraquinhas à vontade. O motivo é muito simples: não havia uma única alma da organização ou da segurança por lá, tanto de dia como à noite. Bom para os ambulas, péssimos pra quem avistava um matagal gigante e nenhum policial em um raio de muitos, muitos quilômetros. Fora a ausência de lixeiras, que fez com que no terceiro dia Ilha das Flores parecesse mais bonita que aquilo.

De espírito preparado para filas gigantes, um tanto de espera e muita paciência pra obter comida e breja, fui surpreendida com a desorganização da bagaça. No primeiro dia (09), ficamos 40 minutos no balcão esperando um cachorro-quente que não veio. Veja bem: eu não estava numa fila interminável, eu estava encostada no balcão. E o hot dog não veio. E daí, o que fazer com as fichas (que só conseguimos comprar porque tínhamos grana viva – pois o sistemas de cartões estava fora do ar e ninguém tinha avisado?)

Ainda bem que isso tudo foi até a hora do show dos Mutantes cover. Até então, tínhamos visto um pedaço de Black Drawing Chalks, Mallu e trechos do Infectious Grooves, banda bem capitaneada pelo vocal do Suicidal com um funkeado nervoso. E verdade seja dita: nenhum show atrasou. Uma apresentação no palco Água, à esquerda, terminava e minutos depois o palco Ar, ao lado à direita, já estava aceso e com a banda a postos.


Os palcos, a massa, a guitarra, a ira


Daí os esperados Hermanos entraram em ação e lá fomos nós tentar um lugar ao sol. Sabe aquele canto mara, na lateral do palco, em que você consegue ficar sossegado e ainda sim ver os homenzinhos minúsculos lá na frente? Esqueça essa manha. No SWU, duas torres gigantes de som e luz atrapalhavam a vista do Palco Ar (à direita) e, no meio delas, uma casa de manutenção giga-master que as ligava impedia qualquer mortal de ver o palco – um dos principais, diga-se de passagem.

Contentamo-nos em ouvir Camelo, Amarante & Cia e, a julgar por um telão bem distante, eles pareciam felizes. Bem mais que nós. O set list foi melhor que o do ano passado, na apresentação com o Radiohead, mas não me sinto capaz de resenhar um show que começou sem que eu ouvisse a bateria, o baixo e o teclado, ou sequer enxergasse alguma coisa.

O Mars Volta serviu para nos posicionarmos melhor, entre os dois palcos principais e, em nossa vã ilusão, ver o que rolava lá na frente em um local confortável. Vale lembrar, caro leitor, que como bem diz a descrição desse blog a autora aqui se considera uma rata-de-palco – com muito show do Sepultura na bagagem pra ter a noção de que precisávamos de uma margem segura para o show do Rage. Estávamos da metade da arena para trás, bem no meio. E assim, quando a sirene e a estrela vermelha surgiram, meu coração só queria saber de pular, pular muito no peito, pois uma das bandas mais geniais do rock estava prestes a soltar sua ira ali, conosco. “Testify” fez cada segundo até ali valer a pena. Uma massa gigante de pessoas pulava e bradava, e eu ia junto. Havia espaço para respirar, cantar, erguer os braços. Rodas surgiam aqui e ali. Eu era uma pessoa extremamente feliz. A catarse era completa.


Segundos separaram esse momento de um instinto de sobrevivência hediondo que assolou o meu ser, quando uma horda interminável de pessoas, comigo no meio, não conseguia conter um movimento frenético de ir e vir. Era gente demais em pouco espaço, e gente desesperada. Não havia mais como controlar para onde o corpo ia ou vinha. Por sorte, o movimento da massa foi para trás – como se o Godzilla himself atacasse Nova York. Fomos tão levados para trás que subimos até demais. A trilha sonora desse momento, soube depois, foi “Bombtrack”. Não me lembro do que tocava na hora.


O show, no entanto, prosseguiu catártico. A guitarra de Tom Morello chega aos ouvidos como uma voz de comando: é impossível resisti-la. É preciso ouvi-la, devorá-la, louvá-la a cada novo timbre, a cada som que parece vir de um outro tempo-espaço. Zack de La Rocha, após o discurso pacífico para que tomássemos conta um dos outros, movimentava as mãos para baixo, como pedindo calma. Seu corpo todo, no entanto, dizia o contrário: víamos a banda em êxtase, pulando e gritando lá em cima, e obedecíamos. Um menino com o boné do MST ao meu lado sorria. Não me lembro do discurso de Zack em “People of the Sun”. Não prestei atenção que o tal boné que a banda colocou no show era o mesmo do menino ao meu lado. Eu só queria saber da catarse, da guitarra, da ira. “Bulls on Parade”, “Bullet in the Head”, “Guerrilla Radio”, “Sleep Now in the Fire”, “Freedom”, “Killin in the Name”. O quê?

E esse sentimento sobreviveu melhor ao dia seguinte do que o meu corpo. Embora ele mereça palmas por enfrentar a peregrinação da volta, duas horas imóvel no carro, dentro do estacionamento, e mais algumas até que chegássemos em nosso destino final – em um reino muito, muito distante de Itu, graças aos céus.