sábado, 29 de agosto de 2009

:: Rato Modesto ::


:: MODEST MOUSE ::
No One’s First You’re Next

VENENO ANTIMONOTONIA
Por Ana Alice Gallo


Se Mick Jagger, Keith Richards e Win Butler (Arcade Fire) se sentassem em um boteco para lamentar da vida, poderiam parir algo tão belo como “Satellite Skin”. Dylan e seu bandolin respingariam na canção seguinte, “Guilty Cocker Spaniels” (excelente nome de música, por sinal), como se tivessem ido a um show de free jazz e acordassem na ressaca do vislumbre. Thruston Moore vomitaria as guitarras em “The Whale Song” e Jack White teria inveja do timbre do riff que explode aos três minutos de “King Rat”. Pois é como se fosse essa salada hipotética de retalhos sonoros que “No One’s First, You’re Next”, EPzinho delícia do Modest Mouse, desce macio e reanima o bom ouvintindie.

Feito basicamente com as sobras dos álbuns anteriores (Good People Who Loves Bad News e We Were Dead before the Ship Even Sank), esse álbum mostra, como já disse o sábio Mininão, que dá, sim pra conhecer e amar uma banda só pelos B-Sides. Longe de parecer um amontoado de canções sem rumo, No One’s First mostra todas as pontas de um iceberg criativo que vai do folk psicodélico ao pop gostoso e fácil até chegar à influência inegável de Seattle, cidade onde a banda deu seus primeiros passos e que marcou o gene da Modest Mouse de forma indelével.

Formada no início dos anos 90, a banda é um híbrido dos mais bacanas a fazer a ponte da era grunge ao rock 00 passando pela psicodelia e o pós-punk. Pra completar, ganhou em sua formação ninguém menos que Johnny Marr, ex-Smiths, para um tempero extra da salada. Será que deu pra entender? Vixe, tá parecendo papo de bêbado, acho melhor deixar vocês ouvirem logo.

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quinta-feira, 27 de agosto de 2009

:: Baladas de Assassinato ::


:: NICK CAVE AND THE BAD SEEDS ::
Murder Ballads (1996)

Como bom poeta bafejado pelo lado negro do rock, não foi surpresa saber que Nick Cave era um admirador das baladas sobre assassínios, um tipo de canção popular no séc. 18 que, evidentemente, narrava crimes particularmente violentos.

Desde a capa - uma reprodução de uma pintura a óleo que retrata um ambiente invernoso, muito diferente das imagens que compuseram as capas dos seus primeiros trabalhos - até aos cantores convidados (incluindo a sereia do pop Kylie Minogue), este não é um LP típico dos Seeds. A banda toca a um nível quase jovial, com um Cave intimista que desfruta com contentamento a criação de uma galeria sombria de estudantes assassinas, cônjugues tarados e psicopatas.

O lendário Stagger Lee ("bad motherfucker called Stagger Lee"), cuja notoriedade tinha já sido celebrada por James Brown e Wilson Pickett, entre outros, aparece na canção homônima perpetrando crimes inenarráveis contra os clientes da taberna The Bucket of Blood. "The Curse of Millhaven" é protagonizada pela angélica Loretta, que aos 14 anos se transforma numa fada e que confessa ter assassinado todos os habitantes da sua aldeia. Ao longo do álbum, os Seeds controem um ambiente claustrofóbico onde as almas condenadas de Cave estão irremediavelmente perdidas.

Cave atribuiu desde sempre o êxito do álbum à presença de Kylie Minogue e afirma que a banda encarou o disco como umas férias para a banda. Mas o álbum, que encerra com uma surpreendente e doce versão do tema de Dylan "Death Is Not The End", com PJ Harvey e Shane MacGowan como estrelas convidadas, é uma peça da discografia dos Seeds que exige o máximo respeito. --- 1.001 DISCOS PARA OUVIR ANTES DE MORRER


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(192kps, 77mb)
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terça-feira, 25 de agosto de 2009

:: da série PÃO QUENTINHO ::

REGINA SPEKTOR - Far
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AKRON FAMILY - Set 'Em Wild, Set 'Em Free
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SON VOLT - American Central Dust
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TORTOISE - Beacons of Ancestorship
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:: Echo and the Bunnymen (Live) ::


:: ECHO & THE BUNNYMEN ::
Live In Liverpool

(2002)

Liverpool, cidade abençoada pelos deuses do barulho, não é somente a terra natal daqueles mocinhos que foram mais amados pela juventude sessentista do que Jesus Cristo. Ali surgiria também, em 1978, mesclando pós-punk sombrio, psicodelia à la Doors, viagens veludosas velvetianas e pretensões literárias cohenianas, uma das bandas mais cult dos anos 80. Live In Liverpool é o Echo & The Bunnymen em sua nova encarnação, depois que saíram do limbo em 1997, e oferece tanto um banquete delicioso para fãs de longa data quanto um excelente cartão de visitas para os leigos. It's the Bunnymen for fans and for dummies.

Tocando com uma serenidade e uma desenvoltura que só possui uma banda em sua sweet home (ainda que não seja o Alabama), o Echo toca aqui como se estivesse de pantufas e pijamas. Ouvi-los neste discaço reativa lembranças do grande show que pude testemunhar em Sampa (lá por 2006, se num me engano), com direito a uma cover matadora de "Take a Walk On The Wild Side", de Lou Reed, e uma tentativa de encarnar Jim Morrisson que deixou Ian McCullogh tão cool que dava até raiva.

Este Live In Liverpool é o primeiro ao-vivão da nova fase (recentemente soltaram mais um: I'm All Smiles). Frente ao comportadinho e respeitoso público britânico, que não é de muita histeria e frenesi, os mestres McCullogh, Sergeant e companhia viajam pelos hinos clássicos ("Killing Moon", "Lips Like Sugar", "Rescue" etc.), pelas obras-primas poéticas ("The Cutter", "Ocean Rain") e pelas lindezas tardias compostas já nos anos 90 (como a belíssima "Nothing Lasts Forever"), sempre com resultados primorosos. O som é um tanto "basicão", é verdade, mas a magia que dele emana é de uma sedução indizível.

Hoje, já com um status de "dinossauro do rock" que dá entrada em sua terceira década de vida, eles continuam dando reiteradas provas de não ter decaído com a jornada, mas sim de terem se tornado progressivamente mais serenos e mais sábios. Os Bunnymen prometem retornar logo mais com o pão quentinho The Fountain, a ser lançado ainda em 2009 - dez anos depois de cometerem o que eu considero o mais magnífico dos álbuns "pós-Ressurreição": What Are You Gonna Do With Your Life? (99). Enquanto aguardamos este - um dos mais promissores lançamentos do ano... - viajemos nas ondas de tantos clássicos, tocados na terra dos Beatles, rebentos de uma das maiores bandas inglesas vivas - e uma que continua fazendo da Inglaterra um local de peregrinação santa para os rock-aficcionados...



DOWNLOAD (94 MB):
http://www.mediafire.com/?yhzbnelkmzy

VEJA TAMBÉM:
nosso post sobre "Porcupine"!

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

:: PODCAST ::


Explodindo o orelhão!

Depredando orgulhosamente apresenta seu podcast piloto. É papo de boteco gravado em boteco. Ainda não tem nome, mas no próximo remediamos. Em homenagem ao podcast de estreia nada melhor do que falarmos dos álbuns de estreia explosivos. Fica pra download, já que pra fazer o streaming por aqui a coisa complica um pouco. Xingamentos, sugestões, declarações e correções (eu mesmo já mandaria várias) mandem pro email depredando.podcast@gmail.com ou comentem aqui embaixo.

DOWNLOAD


Um streaming (graças ao Diogo) antes tarde do que nunca:





:: Kurt Cobain: About a Son ::


A ARTE DE OUVIR

- Por Ana Alice Gallo -

Há muito tempo não escutava sua voz. Achei que ela fosse ter um efeito absurdo e que, subitamente, toda aquela idolatria descontrolada da adolescência (e que só se é capaz de sentir na adolescência) voltaria à tona. Para meu espanto, mal reconheci o timbre que, monotonamente, recontava uma infância estilhaçada já nos primeiros momentos de “Kurt Cobain – About a Son”, enquanto a bucólica cidade de Aberdeen passava pelos meus olhos.

Documentário baseado única e exclusivamente nos monólogos que o vocalista do Nirvana travava em entrevista a Michael Azerrad, o filme tem esse poder de choque e distanciamento que desgosta os fãs mais afoitos, aproxima os indiferentes mas, acima de tudo, dá a chance ao morto Cobain de contar sua própria história. Com todas aquelas mentiras, versões e pequenos esquecimentos que acometem a todos os humanos, quando falamos de nós mesmos.

A falta de imagens do próprio Kurt e de músicas da banda é o primeiro passo que permite esse distanciamento da idolatria. O espectador se depara com imagens bucólicas, às vezes pseudo-simbólicas, que pouco parecem ter a ver com a estética explorada pela banda em álbuns, vídeos e nas próprias matérias relacionadas ao grupo.

E a trilha sonora, se algumas vezes esbarra no óbvio (como em “The Man Who Sold the World”, cantada pelo Bowie, da qual todo mundo lembra a regravação feita pelo Nirvana), em outras horas, traz os nem tão manjados (no caso) Queen e Credence Clearwater Revival para ambientar passagens das lembranças de Cobain.


E foi quase que com choque que ouvi os trechos da entrevista, em que os timbres da voz de Kurt ora se aproximam do que habita as minhas lembranças, ora voam longe pelo nível de droga ou de amargor existente no sangue do entrevistado. É impossível não se interessar por coisas que só ele poderia admitir (como quando assume que consumia 400 dólares de droga por dia) e também pelas contradições quando o cara discorre sobre fama, dinheiro, drogas e a própria banda.

No entanto, mais que filme, documentário ou reportagem, “About a Son” é um belo exercício da arte de ouvir. Mesmo que não seja exatamente o que esperávamos escutar.


* texto originalmente publicado no Credencial Tosca: glue there!


* * * * *


por Diogo Soares

O doc. inicia com uma série grande de tomadas feitas ao ar livre provavelmente da região de Aberdeen onde Kurt nasceu e cresceu. Estas tomadas vão se repetindo durante o filme, mas vão diminuindo em intensidade e sendo trocadas por rostos, e afazeres, comuns de Seattle. Começa aí um jogo com o espectador bem interessante. O diretor sabe que as pessoas ouvirão uma série de falas sobre Kurt. Mas quem será Kurt? Um deus ou um mortal?

As primeiras cenas do filme, monumentais paisagens, nos dão a certeza que o mundo não acabou depois da morte de Kurt. O mundo continua a girar e produzir seu balé fantástico de luzes, água e vida. Nada mudou. Kurt é um drogado, mimado e poderia ser qualquer um no lugar dele contando a história de qualquer um americano comum. Essa é a brincadeira mais legal com o título do filme: afinal ele é sobre um dos filhos prediletos de Deus, ou é mais um filho igual aos milhões de estadunidenses de sua geração?

Kurt vive esta mesma contradição em suas frases. Diz que é filho de alienígenas, um escolhido, capaz de realizar o que bem entendesse. Denuncia a mesmice do show business, sua futilidade e inconseqüência. Ao mesmo tempo que se vê preso em sua história de dores, de disputas por dinheiro, de querer apenas uma família constituída, que se vê preso ao não conseguir brigar, como antes, em razão da manutenção de sua casa, riqueza e status.

As tomadas da natureza, somadas com a composição das cidades/pessoas onde Kurt nasceu, morou e morreu, dão um toque especial ao filme. Afinal não podemos dizer que ele é um simples produto da relação complicada de seus pais ou de sua pequena escola que o massacrava. Ele não é único neste sentido restrito. Ele é, e nós todos somos, esta composição mais complexa e ambígua da nossa psique e ambiente.

Ao mudarmos o mundo, o mundo nos muda. Acho que isso Kurt entendeu muito bem. Não somos reféns da história. Mas não existe Kurt Cobain sem que exista uma platéia ávida para ouvir histórias em comum. Portanto não há divindade que resista ao mainstream. Porém. Ao mesmo tempo que todos podem ser artistas, nem todos podem ser bons artistas. Todos somos filhos, mas nem todos somos escolhidos.

DOWNLOAD - Trilha Sonora do Filme
http://www.mediafire.com/?tiodhjwlx5g

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

:: Bluebell ::


:: BLUEBELL ::
Slow Motion Ballet (2005)

A pequena Bel Garcia, mescla de endiabrada Betty Boop e afinada Fada Sininho, ao cantarolar seus encantadores blues, me faz pensar que estou diante duma dessas musas raras que surgem tão raramente na música brasileira. Com seu primeiro álbum, o magnífico Slow Motion Ballet (de 2005), cometeu já em seu debut um dos grandes discos nacionais da década, arrancando elogios entusiasmados de gente importante, de Marisa Monte a Fernando Meirelles.

Certos pop-rocks bastante radiáveis, como "Ordinary Life", renderam a ela o apelido, entre nós depredadores, de Natalie Imbruglia paulistana, mas uma que não se tornou - pobrecita! - uma one hit wonder. Mas o álbum traz muito mais do que popices cantadas em inglês por uma indie-chick adorável em seus all-stars e roupas pretas: Bel prova aqui ser a única mina brasileira que consegue soar como a cópia fidedigna da Regina Spektor ("The Fight In The Cafe"), da Aimee Mann ("Pack and Go" ou "Translation") e da Fiona Apple. E tudo isso sem soar nem um pouco como um plágio ou como um item de segunda categoria, mas sim como um genuíno talento em seus primeiros florescimentos.

O disco tem até uns grunges de menininha ("Who's The Freak?" e "It's Out There"), cantados com uma sensibilidade e uma finesse que deixam Pitty parecendo uma caminhoneira truculenta. Sem falar de algumas bonitezas folk, como "I Could Have Been", "Bolas de Sabão" e o semi-hit "Dull Routine", que nos fazem questionar se Mallu Magalhães é realmente a princesinha folk do Brasil ou se isso é só exagero da hype machine, que esqueceu de nos avisar do quanto Bel é material mais fino, apesar de não ter tchubarubado seu caminho rumo à fama.

E, para não dizer que não falamos de covers, Bel (que já tem anos e anos de estrada cantando róque em bandinhas de garagem - saca só ela mandando "Remedy" dos Crowes em 2001) também manda bem em suas escolhas para Slow Motion Ballet. Ela se apossa de modo adorável de "Junk", musiqueta solo do velho Macca, que não soará mal aos ouvidos de nenhum beatlemaníaco. Insere ainda o refrão de "La Vie En Rose", um dos mais célebres itens do cancioneiro popular francês, em sua genial "La Vie en Close", cantando-o três vezes em três inflexões completamente diferentes: primeiro serena, depois histérica e aos prantos, e finalmente libidinosa e sedutora. Esta música, aliás, talvez seja o ponto alto do lirismo de Bel, que descreve alguns "prazeres Amélie Poulain", brinca sacana e sexymente com a pronúncia do francês e cria um hino luxurioso e irresistível sobre fossas, porres e hedonismo que vale citar na íntegra:

Me deixa quieta no meu canto que eu sei me virar
As mágoas da vida serviram pra me vacinar
Eu aprendi que não importa o mal é possível curar
Dançando tango, comendo pastel ou no banho a cantar

Às vezes um porre de vodka pode ajudar
A vida pode ser melhor pra lá de Badgá
Outras vertentes holísticas recomendam meditar
Ou aceitar que você está na fossa e nela mergulhar.

E se depois disso tudo nada adiantar
Se lembre: o que não tem remédio remediado está.
Erga a cabeça, mude de estação e vá se aprumar.
Tome alguns goles e saia de casa disposto a flertar.

Je vois la vie en rose, mon amour!



Quatro anos depois do lançamento de seu Balé em Câmera Lenta, a sumida Bluebell está prestes a reaparecer com um novo EP, fruto de anos e anos tocando em pubs do underground paulistano acompanhada por uma jazz-band fabulosa. A julgar pelo show recente que Bel deu no Studio SP, em que o público foi docemente judiado por um trompete matador, o futuro do Bluebell será repleto de frutos doces.

Cada vez mais longe do pop-rock, Bel agora aderiu à pira de ser a nossa mini-Ella Fitzgerald, a Edith Piaf sul-americana, a Nina Simone do nosso indie. Vestida como se quisesse homenagear Betty Boop, a ninfeta do desenho animado que cantava como uma russa embriagada de vodka, Bel Garcia surgiu quase como uma criaturinha do Noiva Cadáver, de Tim Burton, se ele se passasse na Jazz Age.

Bel, sobre o palco, está cada dia mais confiante. O domínio espantoso que possui sobre sua voz, que pode até ser magra e fininha, mas tem um timbre adorável e autêntico, faz com que perdoemos com facilidade a relativa timidez de seu corpo. Afinal, não estamos frente a uma cheerleader nem uma pretendente a pop-star, mas a uma mocinha sensível, serena e que parece ter imensos mananciais de talento que só estão começando a desabrochar...

Hoje em dia, a destemida Bel não teme atacar standards do jazz de modo dilacerante. E canta como se estivesse tentando realmente quebrar nosso coração - e mais à maneira de Chet Baker do que de Jeff Tweedy. E consegue fácil, como provam as lagriminhas que derrubei na caipirinha ao ouvi-la cantar uma sequência mortífera de uns 3 ou 4 blues sobre corações estraçalhados, madrugadas solitárias e mágoas afogadas no álcool.

Pra continuar com confissões constrangedoras, revelo que depois do show, com o meu CDzinho original em mãos, fiquei ali, zanzando pelos bastidores, querendo chegar perto da criatura, querendo beliscá-la para conferir se ela é mesmo de verdade e não uma criatura de fábula... E, pela primeira vez em anos, me vi recorrendo a essa bestice de tiete que é ir atrás de um autógrafo, com as mãos trêmulas e o coração palpitando... Taí: quer elogio melhor à música de Bel do que dizer que testemunhá-la, ao vivo e com surround sound, me deixou feito um menininho trepidando em admiração frente à visão da musa?...


DOWNLOAD (192 kps, 60 mb):
http://www.mediafire.com/?mjmn1myyend

ENTREVISTA:
http://musicapoesiabrasileira.blogspot.com/search?q=bluebell

LA VIE EN CHOSE no MÚSICA DE BOLSO:

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

:: Screaming Trees ::

Chorando o grunge derramado
- Bernardo Santana -

Quem liga se uma banda é considerada avó do grunge ou não? Quem liga se o vocalista tem uma voz que parece curtida em 50 anos de uísque e cigarro? Quem liga se eles compuseram um dos hinos injustiçados de uma década? O que importa mesmo é que os Screaming Trees são um dos maiores e mais sintomáticos exemplos da porrada de One Hit Wonders fodaços paridos nos anos 90. Mas, diferente dos Ugly Kid Joes, Candleboxes e Dee-Lites da vida (nada contra nenhum deles, tudo muito bom…) os caras têm pelo menos uns três discos crássicos no undeground-de-flanela que todos aprendemos a amar. É um deles é esse aqui.

Infelizmente para o mundo, o Screaming Trees só ficou conhecido mesmo por Nearly Lost You, que figurou na trilha sonora de Singles (aquele filme que usa a cena de Seattle como pano de fundo pra algum enredo que eu esqueci…) e, claro, nesse Sweet Oblivion, que tão diligentemente postamos agora.


Mas não só de quase-perdas são feitos os crássicos, meus amiguinhos! Sweet Oblivion, na verdade, tem pelo menos umas cinco músicas do mais puro suco do grunge/psicodélico que batem em Nearly fácil. Winter Song, Troubled Times, Shadow of the Season, The Secret Kind, Dollar Bill… Pode escolher qualquer uma pro test-drive: letras intrigantes, guitarra suja tipo não-estamos-nem-aí-mas-sabemos-o-que-fazemos, baixo criativo, bateria cavalar; tá tudo ali.

Ah, e tem o Mark Lanegan também. Talvez melhor que ficar caçando adjetivos pra falar do vocal extraordinário do cara seja lançar um vídeo com um dos pontos altos de Sweet, tocado aqui mesmo no Brasil há mais ou menos um mês: Dollar Bill.


Eu chorei. Ouve o resto aí.


DOWNLOAD: 86 Mb - 11 faixas

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

:: Marsalis Plays Monk ::


WYNTON MARSALIS
Marsalis Plays Monk

por Arthur Nestrovski


Wynton Marsalis é, por consenso, o maior virtuose do trompete em atividade. Mas sua paixão pela música parece ainda maior do que a paixão pelo instrumento; e neste disco se desdobra em homenagens ao precursor Thelonious Monk (1917-82).

Compositor, intérprete, regente, arranjador, produtor, professor e diretor musical: não há função que Marsalis não tenha dominado, mais cedo ou mais tarde. Geralmente mais cedo: tocava trompete com seis anos e em 1980, com 19, já era membro dos Jazz Messengers de Art Blakey. Em 1984, ganharia de uma vez só dois prêmios Grammy: melhor disco de jazz e melhor de clássico (concertos barrocos, com a New Philharmonia Orchestra). Em 1990, foi nomeado diretor musical do Lincoln Center, onde formou sua própria orquestra.

Autor de peças orquestrais, música para balés e trilhas de filmes, grande divulgador musical em escolas e na televisão, Marsalis assume hoje um papel no jazz semelhante ao que teve Leonard Bernstein na música clássica, ou Pierre Boulez na contemporânea. Talvez não seja, ele mesmo, o centro do mundo; mas está no centro de tudo, e sabe usar essa perspectiva privilegiada a seu favor, e no da música.

Marsalis Plays Monk é o volume 4 da coleção Swinging into the 21st: sete CDs, compondo juntos uma imagem do trompetista em suas várias faces. Aqui ele toca num octeto, em arranjos pensados como reedição das artes de Louis Armstrong, na década de 20. A mistura é inesperada. Armstrong-Monk-Marsalis decerto não soa como a sequência mais natural; mas o resultado soa, sim, naturalmente exato, e inverte, nalguma medida, o vetor da influência.

Nenhum rigor, nenhum virtuosismo, seja individual ou de conjunto - as duas coisas, nesse caso -, poderia fazer páreo ao anarquismo de Monk. Seguidores mais devotados do pianista vão reclamar da beleza controlada desses solos, obviamente ensaiados, e das elegâncias desenhadas de duos, trios e quartetos. Trompete, saxofones e trombone movem-se juntos como bailarinos no palco; e são capazes de provocar o mesmo calafrio de algum gesto complexo descrito ao mesmo tempo por 2 ou 3 ou 4 corpos. Essas vertigens estão muito longe da música original de Monk, um músico de transitoriedades, para quem não existe pensamento musical se não for um pensamento se fazendo.

Traduzida para a bonomia de Marsalis, essa música perde densidade, mas ganha em superfície; e vai se desvelar em outras formas, que são e não são as mesmas do original. Aburguesou-se, nalguma medida; mas também se multiplicou em riquezas e sutilezas, e outras rimas musicais. (...) Marsalis é mais Marsalis nos solos de trompete, em suas recriações de Monk, que ele sempre toca com uma fluência desproporcional à dificuldade que ele mesmo se criou. Ninguém resiste à exibição de semicolcheias em "Four in One", se descarrilhando e recarrilhando para cima e para baixo em alta velocidade, entremeadas de fragmentos de blues. Nesses momentos, o trompete transcende seu próprio senso de ordem, e acende a música de entusiasmo. O prazer físico de tocar serve de imagem e objeto de algum prazer maior, adivinhado. O que ele adivinhou, Monk sabia; e cada um de nós, agora, que tente adivinhar como puder.





DOWNLOAD (160kps, 70 MB):
http://www.mediafire.com/?n2qztnynmej

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

:: Pixies ::


PIXIES
Complete B-Sides


- por Flávio, o Mininão -

Conhecer uma banda a partir de seus trabalhos considerados por ela mesmo como “lado-b” é, no mínimo, pouco usual. Pouco recomendável também, alguns diriam e prontamente argumentariam: a essência de um artista está em sua obra canônica, e só por meio dela se pode entendê-lo. Mentira. Porque enquanto eu capinava um terreno baldio ao som de “Basket Case”, parei tudo e resolvi me atrever. “Complete B-Sides”, a primeira coisa dos Pixies que eu ouvi, é um disco esquisito. E Pixies é uma banda esquisita. Calypso também é uma banda esquisita, coisa que agora realmente não vem ao caso.

A história resumida: Kim, Dave, Joey e Black Francis foram tomar uma cerveja com alguém muito importante da gravadora 4AD – conversaram, discutiram e provavelmente brigaram. O resultante disso saiu, em 2001, na forma de uma compilação com faixas de singles, covers, versões ao vivo, instrumentais e até os vídeos-bônus de “Here Comes Your Man” e “Alison” (não inclusos no download). Tudo muito esquisito, incluindo “Winterlong” de Neil Young. Não chega a ser um cover – é uma versão-pixies, tal o empenho da banda em deixar a canção como se fosse genuinamente deles.

Ao fim da última faixa, “Complete B-Sides” mostrou-se muito com aquele CD-R que a gente monta de forma bem displiscente, pra ouvir de forma displiscente – misturando climas e intercalando estúdio, ao vivo, covers e versões. Capa esquisita, praxe. E um encarte que não decepciona, com comentários de Black Francis sobre cada faixa. Cômico, informativo, esquisito e de primeira qualidade.


DOWNLOAD:
http://www.mediafire.com/?zked2jmv2rz

quarta-feira, 29 de julho de 2009

:: da série PÃO QUENTINHO ::

WYNTON MARSALIS - He and She
CHICKENFOOT [SAMMY HAGAR + JOE SATRIANI + etc.] - idem


IAN HUNTER [do MOTT THE HOOPLE] - Man Overboard
http://www.mediafire.com/?cghnmmivwmg



PREFUSE 73 - Everything She Touched Turned Ampexian
http://www.mediafire.com/?ezmyhmm3nzy

domingo, 26 de julho de 2009

:: The Dead Weather ::


:: THE DEAD WEATHER::

- Horehound -


Retroceder, jamais?

Por Ana Alice Gallo


Há pouca (ou nenhuma) dúvida de que “Seven Nation Army” seja o hino dos anos 00. Ao som dessa música, sacolejam pessoas sem a mínima ligação com o rock and roll e que talvez nem saibam da existência de uma banda chamada The White Stripes. Patricinhas brasileiras se jogam na pista, donas de casa australianas assobiam e a torcida da Itália vai ao delírio. A mente por trás dessa obra-prima transmoderna é Jack White, criador de uma banda indie que tomou o planeta com um som minimalista constituído basicamente pelo timbre de sua guitarra e pela genialidade de seus riffs. O mesmo White que trouxe frescor às sonoridades vigentes parece querer voltar no tempo com sua mais nova banda, The Dead Weather. O grupo faz em seu álbum de estréia, “Horehound”, o caminho oposto ao que vimos o líder do White Stripes traçar com tanto brilhantismo.


Antes que os indies comecem a atirar seus All Stars customizados em mim, explico. A estrada comumente percorrida por qualquer banda ordinária do planeta é começar chupinhando, sem dó nem piedade, o som de seus ídolos – as famosas “influências”. Parte-se do que se admira para então trilhar um caminho próprio, até que, então, algumas (poucas) bandas conseguem se libertar dessa herança musical e encontram um espaço fresco e criativo no panteão dos clássicos. Jack White pulou todas essas etapas com sua primeira grande banda, The White Stripes. Confesso admirador de bandas dinossáuricas como Led Zepelin, White atualizou toda a mitologia musical dos anos 70 ao basear o som de seu grupo em riffs econômicos e brilhantes, uma estética vintage envernizada e uma constituição minimalista do grupo, contrariando as grandes formações de bandas setentistas que também davam a cada integrante a oportunidade de realizar solos intermináveis em uma única canção.


Era inevitável, porém, que Mr. White sentisse falta de trocar figuras e virtuoses com outros integrantes que não sua ex-mulher Meg, baterista propositalmente amadora e cúmplice do guitarrista nos álbuns da banda. Daí surgiu o segundo grande projeto do branquelo, The Raconteurs. Com uma formação mais clássica, White pode enfim expressar seus timbres com o respaldo de ótimos músicos, além de dividir composições.


Mas White pareceu precisar, cada vez mais, de uma aproximação maior das suas origens setentistas. E eis que chegamos ao The Dead Weather, grupo que não deve nada aos dinossauros do rock – mas também não acrescenta. Como qualquer banda em início de carreira, a TDW chupinha sem vergonha na cara as estruturas musicais roqueiras já consagradas, com direito a teclados solando e um vocal com timbre agudo o suficiente para duelar com guitarras e teclas. Se colocar um vocal feminino, a princípio, parecia uma inovação na carreira de White, acostumado a comandar Meg no grupo anterior e que agora teria à frente da banda justamente uma mulher, na segunda audição do disco apenas confirma uma tentativa frustrada de achar um timbre parecido ao de Robert Plant.


“60 Feet Tall”, canção blueseira que abre o álbum, já mostra muito do potencial retrô do grupo, que será explorado em músicas como “Treat Me Like Your Mother”, “New Pony” e “Will that be enough water”, e em outras veias como o reggae “I Cut Like a Buffalo” e as “Rocking Horse” e “3 Birds”, perfeitas trilhas sonoras de um longa do Tarantino - o que, convenhamos, nos dias de hoje soa tão clichê como imitar o Led Zeppelin.


A virtuose dos músicos e a qualidade do trabalho, no entanto, satisfazem e bem o ouvido de um depredador à procura de bons sons. Há destaques como “So Far From Your Weapon”, que derrete nos ouvidos, e “Bone House”, demonstração de como ainda há terrenos de timbres nervosos a serem explorados por Jack White. Além disso, há boas canções rock como “Hang You up from the Heavens” e “No Hassle Night”. Podemos dizer que há boa música, mas não há muito de nova música aí. Dependendo da sede do ouvinte, pode ser água o suficiente. Ou não.



Download:
http://www.mediafire.com/?mlmdzzmnn4j

sexta-feira, 24 de julho de 2009

:: Seguro como Leite ::


CAPTAIN BEEFHEART
Safe as Milk

Talvez hoje a fotografia na capa, na qual o capitão e sua tripulação aparecem muito conservadores, não pareça revolucionária, mas em 1965-66, enquanto o R&B britânico era a tendência oficial dos circuitos underground dos EUA e "Beatles" e "Tamla" eram as palavras que dominavam a programação radiofônica, Safe As Milk era um disco obrigatório para o público mais sofisticado.

Contra todas as previsões, a combinação da produção pop de Krasnow e Perry e a visão do inimitável Beefheart resultou numa tempestade. O capitão não perdia de vista o êxito comercial e encarregou o baixista e compositor Herb Bermann de fazer o arranjo musical de algumas melodias, enquanto Ry Cooder adicionou alguns arranjos e também a sua slide guitar. O vibrafonista de jazz Milt Jackson e os fabulosos alicerces dos Magic Band - Alex St Clair e John French - rematavam o núcleo instrumental desta combinação experimental de blues, jazz, psicodelismo, R&B e folk-rock tradicional dos meados de 1960.

Neste disco abundam maravilhas, desde o encanto infantil de "Yellow Brick Road" ao sarcasmo de "Dropout Boogie". "I'm Glad" é puro soul, "Autumn's Child" uma ambiciosa sinfonia ácida e "Electricity" um clássico interpretado com uma nova energia. No âmago de tudo isto, o acento blues na voz de Beefheart desperta poesias surrealistas. O álbum resultante é um híbrido equilibrado que caiu na boa graça das emissoras de rádio e dá algumas pistas sobre o que estava para chegar: Trout Mask Replica. --- 1.001 DISCOS PARA OUVIR ANTES DE MORRER.


DOWNLOAD:
http://www.mediafire.com/?wnhjomxommm

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Proletários, punks e bem comportados



THE OFFSPRING
- por Francine Micheli -


Certas bandas têm um papel definido na vida da gente: o mesmo papel que aquele amigo seu de infância tem.

É o amigo que te conhece desde quando você nem tinha peito - ou pinto - crescido, que te acompanhou pela adolescência e pelos ataques de rebeldia infundamentada, pelos amores eternos de dois dias e também esteve do seu lado enquanto outros amigos iam e vinham.

O amigo que era o melhor de todos e depois foi se afastando, abandonando o cargo de parceiro pra tudo, mas que nem por isso saiu do seu caminho, sempre aparecendo pra dar um alozinho, ou ligando pra perguntar como estavam as coisas. Ele sempre faz questão de se fazer presente, seja no seu aniversário - porque catolicamente você sempre o convida - ou naquelas horas que a gente precisa botar os bofes pra fora.

Ouvindo "Rise and Fall, Rage and Grace" o último e ótimo do Offspring é possível que alguns sintam a banda dessa forma: como um amigo de infância que apareceu depois de muito tempo com filhos e esposa, mas com a mesma carinha de menino dizendo que está com saudade. Ele bate na porta da sua casa pra te dar um abraço e apresentar sua nova vida.

Em meia hora de conversa você percebe o quanto ele mudou e o quanto ele ainda é o mesmo. Talvez por causa daquele sorriso que você conhece tão bem ou por causa das manias que parecem nunca ir embora, te deixando intrigado e ao mesmo tempo emocionado por ter ali uma parte da sua vida passada que ainda faz uma puta diferença.

Quando ouvi "Rise and Fall", a primeira faixa do disco, lá estava eu com 14 anos de novo, pulando no meu quarto planejando pintar o cabelo de azul. A sensação veio mais forte quando começou "You gonna go far, Kid", dilacerante no mais puro estilo do clássico e brilhante "Smash", de 1994.

Dexter Holland ainda destrói meu coração quando canta e, além de ter uma voz absolutamente única, é o tal do meu melhor amigo de infância, ainda com o mesmo timbre e as mesmas letras azedas prontas pra te fazer sacudir a cabeça e cantar até ficar rouco no meio da casa.

Mas aí, vem "Kristy, are you doing ok?" e "Fix you". Foi então que eu percebi que o meu amigo tinha realmente se casado, tido filhos e um emprego estável. De certa forma, meu amigo não era mais o mesmo. Mesmo. Tinha se tornado bem comportado, arrumadinho, cheiroso e politicamente correto.

Da mesma forma, The Offspring está bem mais comportado, definitivamente, e não vale a pena entrar em questões como marketing, porque essa parte é bastante chata e não vem ao caso.

Pra dizer a verdade, eu sempre espero das bandas - não só do Offspring - que elas me tragam cds como Smash, um dos melhores sempre. Ou até como o Dookie - do Green Day, outro da lista de paixões devastadoras.

Melancolias a parte, não dá pra esperar que seu amigo de 15 anos atrás ainda esteja se vestindo de calça rasgada, bebendo até cair e rindo da vida à toa. Tudo muda.

As bandas favoritas são como esses amigos aí. Eles mudam, mas você não se atreve a falar mal porque o sentimento aí no meio é verdadeiro demais pra isso.

E Offspring é um desses melhores amigos de infância, agora de terno e gravata.

E All Star no pé.

DOWNLOAD AQUI

quinta-feira, 16 de julho de 2009

:: Ella! ::


ELLA FITZGERALD

por Arthur Nestrovski
(Folha de S. Paulo, 13/3/99)


"Get happy!" - nem sempre é tão fácil. A alegria é uma forma de sabedoria: toda alegria é sábia, mas nem toda sabedoria é alegre, e, se uma já é difícil, imagine-se a outra. Alegria e sabedoria se cruzam, imprevistamente, na voz dessa mulher, capaz de fazer qualquer um feliz, ou pelo menos mais feliz, se não mais sábio.

Seu nome não podia ser mais apropriado: Ella. Uma voz como essa, com todas as metamorfoses para cima e para baixo de três oitavas, escapa a qualquer definição. Toda palavra, afinal, é uma generalização, a média do significado. Mas uma voz - qualquer voz, e essa de modo mais marcante que as outras - é o que existe de mais específico no mundo: seu sentido não pode ser traduzido, embora seja muito bem compreendido. É a voz dela. Não tem descrição, mas tem nome: Ella.

Não é um acidente, então, que Ella Fitzgerald (1917-96) seja nossa maior intérprete de canções de amor. O que há de repetitivo nessas músicas, nessas letras, torna-se específico como nunca, peloa força da voz e pela inteligência da paixão. Talvez não haja outro modo mais imediato de alimentar a presença do afeto fora do próprio afeto senão nessas palavras tão engenhosamente simples e nessas melodias tão simplesmente engenhosas, que a voz dela faz flutuar no ar. Só ar no ar, afinal: que mistério é a música...

Assim como os terrores do amor não estão nunca completamente ausentes de uma alma que já se apaixonou antes, também as sombras de um passado vivido e de um futuro imprevisível cercam as canções, mesmo ali onde menos se espera. As inúmeras façanhas de scat-singing, que Ella exibe como se tivesse virado um trompete humano, ou sobre-humano, não deixam de fazer escutar um lamento entre as notas que, por sua vez, deixa escutar o quanto não foi vivido e vencido para chegar até aqui..."
* * * * *
Disponibilizamos abaixo um ótimo ponto de partida para quem quer começar a se aventurar no Universo Ella: 2 CDs dElla cantando clássicos de Cole Porter. Como diz a AMG, "a striking two-CD set featuring arguably history's finest jazz singer singing some of the best-written American pop standards on one of jazz's most prolific labels." Essencial!

segunda-feira, 13 de julho de 2009

:: Ratos de Porão ::


DNA do hardcore
- Bernardo Santana –

Na esteira oportunista das parcas exibições no Rio e em SP do documentário-monstro Guidable – A Verdadeira História do Ratos de Porão, o D.O. aproveita pra “deixar a disposição” o último disco de estúdios dos caras, Homem Inimigo do Homem. Talvez seja aí um pouco de deslumbre (palavra definitivamente errada pra falar de Ratos…), mas é sempre bom dizer alto pra todo mundo o que se tem convicção-plena-por-duas-semanas: melhor banda do Brasil. De qualquer época. E de longe.

Jão é o melhor guitarrista que já pisou em solo tupinica. Gordo canta mais que qualquer Nelson Gonçalvez da vida. Boca trucida João Barone e Iggor Cavallerah (ou seja lá como se escreve isso hoje) juntos. E Juninho é o baixista novato mais preza que existe. Não precisa nem contar os quase trinta anos de som pesado, fodido, terceiro-mundista e algumas vezes impagável que os caras carregam na corcunda punk pra chegar a conclusão mais uma vez que brasileiro não entende nada de banda brasileira.

HIDH já começa com Pedofilia de Plantão, que… puta merda, melhor publicar a letra:

Catequese de ódio dentro de mim
Inquisição de merda vem vindo ai

Habemus papam senil macacada

Pedofilia santa dogmas da utopia

Sagrada hipocrisia não tem mais fim

Geriatria é fogo no estopim

Bomba moral na igreja desgraçada

O Bento te convida pra orgia na sacristia


Desacreditei

Nunca concordei

Não me emocionei

Desconectei


A sociologia tenta explicar

Toda antipatia em dose cavalar

Parâmetros sem nexo prometo estudar

Um jovem coroinha pelado no altar


Letra retardada regurgitada a quatrocentos e oitenta e sete kilômetros por segundo. Ninguém precisa que mais que isso pra viver a vida, mano… Temos Expresso da Escravidão pra substituir qualquer reportagem chorenta do Caco Barcelos. O Equivocado pra quando você se sentir o revoltado com o mundo (seu bosta). Homem Inimigo do Homem pra não ter que ouvir seu camarada falar da genialidade de Matrix pela 43ª vez. Quem Te Viu… pra ter assunto na rodinha da política. Enfim, lição de vida hardcore em 12 murros na sua cara.

Pois é, nada de ouvir na pegada adulta que não vai fazer sentido nenhum. Agora se você muitas vezes sente que o mundo é uma roda de pogo daquelas mais encruadas, descendo o cacete nas suas boas intenções, vai que vai! E se nunca tinha parado pra prestar atenção e gostar do que ouvir, pode ficar contente que igual a essa os caras têm mais umas quatro ou cinco obras-primas. E tenho dito.

DOWNLOAD: 47 Mb - 12 faixas

sexta-feira, 10 de julho de 2009

:: o começo do r.e.m. ::

R.E.M.

"MURMUR"
por Carlos Eduardo Lima

(Discoteca Básica Rock Press - ano v, #24)


Estamos caminhando pelas alamedas da Universidade de Georgia. É o fim da década de 70, mais precisamente o ano de 1978. Michael Stipe sai apressado de uma de suas aulas do curso de pintura e fotografia. Hoje ele pretende comprar alguns discos na cidade. Após revirar as prateleiras da Wustry Records, em Athens, sua cidade natal, atrás de coisas como Television, Patti Smith, Velvet Underground e Sex Pistols, Stipe é atendido por um vendedor com cara de nerd. O cara gostava das mesmas coisas que ele e dali eles trocaram telefones e endereços.

Michael Stipe e o vendedor (e guitarrista amador) Peter Buck formaram neste dia a medula óssea do R.E.M. Dias depois conheceram a outra metade da vindoura banda, Bill Berry e Mike Mills, numa festa e formaram de fato o grupo. Ensaiaram durante dois anos até o primeiro show, realizado em uma igreja nos arredores de Athens. A partir daí, o R.E.M. (sigla de rapid eye movement, nome dado ao movimento dos globos oculares durante os sonhos) passou a frequentar o circuito alternativo da cidade e dos arredores, tocando em todos os lugares possíveis.

Nesta via crúcis, comum a todas as bandas iniciantes, o R.E.M. tocava suas primeiras composições, mas também atendia às solicitações das platéias, que poderiam varias de "Anarchy In The UK" dos Pistols a "All I Have To Do Is Dream", dos Everly Brothers. No ano seguinte, eles resolvem gastar suas economias na produção de um single, "Radio Free Europe", que disparou nas paradas independentes, chegando a ser considerado o single do ano pelo jornal Village Voice.

De volta ao circuito de shows, passaram a ser observados pelos executivos de selos indepentes, entre eles o dono da IRS, Miles Copeland, que ficou tão impressionado com a performance de Stipe e cia que assinou com eles ali mesmo, no camarim. Copeland bancaria a distribuição do recém-lançado EP Chronic Town e colocaria os rapazes em estúdio imediatamente. Assim foi feito. Murmur foi gravado em janeiro de 1983 no estúdio Reflection, em Charlotte, na Carolina do Norte, sob a batuta de Don Dixon e Mitch Easter, o mesmo produtor de Chronic Town.

Poucas vezes uma banda foi tão bem sucedida em uma estréia. Não que Murmur seja de fato o debut do R.E.M. em disco, mas certamente foi seu primeiro LP (lembram-se dessa sigla?). O crossover de folk, new wave e atitude punk desceu redondo nas gargantas alternativas. Bill Berry tinha o polimento dos bateristas new wave, econômico e eficaz; Mills, o homem do baixo, faz de seu instrumento uma espécie de violão mais grave, enquanto Buck conseguia um mix de Roger McGuinn (ex-Byrds) e Alex Chilton (ex-Box Tops e Big Star), com jeito de Neil Young. Stipe já destilava seu quase incompreensível sotaque sulista, chegando a soar quase ininteligível em alguns momentos.

Como se não bastasse esse background sonoro, as letras de Stipe eram inteligentes o bastante para fundir latim, citações da mitologia grega, em "Talking About the Passion", e libelos anti-conformistas, como a própria "Radio Free Europe", sobre famosa rádio aliada que transmitia mensagens anti-nazismo e, posteriormente, anti-comunismo na Europa dos anos 40.

Miles Copeland gostou tanto do resultado que chamou seu irmão, um certo baterista de nome Stewart Copeland, para assistir um de seus shows. O sujeito ficou tão impressionado que levou os novatos para abrirem as apresentações de sua própria banda, um certo trio chamado The Police, nos EUA.

Murmur acabou sendo, pelos motivos certos, um divisor de águas no som jovem americano, além de ter sido o marco zero do que se convencionou chamar de "rock alternativo", "college rock" e afins.

'Murmur' [1983] (63 MB - 192 kps):
http://www.mediafire.com/?myztwm2nw2w

* * * * * *

"RECKONING"
por Matt LeMay
(Pitchforkmedia, Julho de 2009)

It may be R.E.M.'s insistence upon operating as a fully democratic entity that has allowed them to shapeshift so completely and convincingly. Whether crafting a subdued folk song or an over-the-top glam rock stomper, R.E.M. have always embraced their chosen approach completely, even if it means former drummer Bill Berry laying low for an acoustic number or singer Michael Stipe handing off a lead vocal to bassist Mike Mills. On their sophomore LP, Reckoning, those polymorphous tendencies find root as palpable, electrifying, yet-unexplored potential. (...) Reckoning couples the energy of Murmur with the experience of a group that has spent a few years touring and recording, documenting that crucial moment when a band's ideas and ambitions are overtaken by the unique chemistry of its players.

Many of the best songs on Reckoning follow the formula set forth on this debut track: a methodical verse followed by a sly turnaround into a cathartic chorus. Bill Berry's drum parts are at times virtually indistinguishable from song to song, and Michael Stipe tends to sing verses and choruses in the same respective registers. But Reckoning is far from formulaic-- instead, it is host to a kind of determined minimalism, each song building via subtle variations in performance and instrumentation. "Discipline" is not a word that gets thrown around a lot when discussing rock music, but it is key to Reckoning's success.

Case in point: As with countless songs written before and after it, "So. Central Rain" takes up the simple phrase "I'm sorry" as its chorus. But the combination of Stipe's strong-yet-unmistakably-fragile voice, Berry's nervous drumming, and the melodic interplay of Mills' bass and Peter Buck's guitar imbue these well-worn words with remarkable force and meaning. For all the arty, pretentious gestures the band was given to, Reckoning shows that they were not afraid to embrace the universal, to transfigure clichés rather than ham-fistedly avoiding them (see also "Everybody Hurts").

As with its predecessor, Reckoning finds R.E.M. touching upon different styles while working within a fairly consistent aesthetic. The latter half veers a bit towards Americana, without sacrificing any of the momentum built over the album's stunning opening tracks. Slight embellishments go a long way towards highlighting the band's versatility-- a propulsive piano line in "(Don't Go Back to) Rockville" elevates the homespun whimsy of Stipe's voice, and hand percussion on "Time After Time (Annelise)" hints at the more understated turn the band would take with Fables of the Reconstruction.

Declaring Reckoning to be R.E.M.'s "best" album sells short just how many different kinds of great albums R.E.M. have released. But, more so than any other R.E.M. record, Reckoning is unified and energized by the very restlessness that has driven the band to explore so many different ideas and identities. It is this paradoxical engine of transparency and mystery that has made the band so unique, regardless of the particular approach they choose to take for a given record. Any way you look at it, this is R.E.M.

'Reckoning' [1984] (57 MB - 192 kps):
http://www.mediafire.com/?hhnytyyt3zt

quarta-feira, 8 de julho de 2009

:: Chris Joss ::


Manual de uma festinha moderna
– Por Marco Souza –

Aqueles que acompanham o sensacional Blog do Nirso já devem conhecer essa nova pérola de 2009. Para os que não acompanham (comecem a acessar já) apresento aqui o último trabalho de Chris Joss: Sticks, um instrumental funkjazzeado tirado dos anos 60 e 70. 

O francês em questão é um produtor-multinstrumentista-autodidata que montou esse ótimo disco, ideal para colocar naquela festinha bacanuda em sua casa. O LP abre com bateria, baixo, orgão e cítara(!) num clima lounge relax, que é quebrado por um refrão muito bem ritmado e demasiado grudento. A faixa "Little Nature" se mantém com sutis solos de guitarra e baixo, além de suaves vocais. Perfeita composição pra receber a galera.

Em "Surrounded" o orgão Hammond queima solto a lá Mr. Medeski. Incersões de flauta e solos de guitarra constrõem essa trilha, que irá fazer todos mexerem os quadris, ou no mínimo a cabeça.

É recomendado um LSD para os convidados entrarem no clima de psicodélia moderna-retro(-caipira?) de "Charmer". Tudo no melhor timbre acústico de violão. As palminhas começarão a tomar conta da festança em "Danger Buds" com os outros clichês sonoros (muito bem empregados) de pianos e sax.

Um dos fortes de Chriss Joss são as excelentes linhas e timbres de baixo, que carregados de swingue dão o tom no álbum inteiro e em "Rififi Rococco" elas têm o seu ápice. Em contraponto a cítara novamente dá um tom oriental e distinto a todo o conjunto, mas sem perder o caráter dançante. Chega a hora da vitamina rápida "Root Juice" pra ninguém perder o pique.

No ponto alto da festa tem de se manter a diversidade, num ambiente mais intimista em que são adicionados pequenos ruídos não pelo estranhamento, mas pra tudo ficar perfeito. Clima de meia luz deve acompanhar o misterioso funk-sci-fi "Melisma Mercury". Depois disso a segunda parte começa.

Para aqueles ainda empolgados recomeçamos com "Night Scare" que, a partir de baixo acústico e bateria, gradativamente traz o pessoal de volta à quebradeira sonora. No clímax, quem não dançou vai dançar, e quem já dançou vai quebrar tudo. Cuidado.

Hora de baixar o tom, se acomodar no sofá e ter um descanso merecido com "Tune Down". Com todo mundo levemente recuperado chega o momento de cantar junto os "uás" e "dadas" da contagiante "Zingy Twangs", para a empolgação não acabar. Seguindo deve-se utilizar uma faixa tranquila, de preferência uma versão leve do que tocou, "A Soft Reprise", pra cada um aproveitar sua viagem de forma tranquila, uns bêbados, outros apagados.

"Tea Age Sea" é servido no fim. Aqui não temos a empolgação da festa, mas uma precisa faixa de despedida, mais lenta e comedida, porém com o todo o groove, além da cítara, que marca o disco. Pra quem quiser manter a festa, sempre existe o botão repeat.

DOWNLOAD: 61 Mb - 12 Faixas

*imagens tiradas do clipe de "Danger Buds"