segunda-feira, 13 de agosto de 2012

"Deus e o Diabo na Terra do Sol" (1964), de Glauber Rocha



O VALE DAS DORES & AS FLORES IMAGINÁRIAS
- Tentativa de análise de um dos clássicos maiores do cinema brasileiro - 


Na vastidão do sertão, terra desoladora e árida onde carcaças de cavalos mortos apodrecem em meio aos cactos, desenrolam-se algumas das obras-de-arte mais significativas da história da cultura brasileira: “Grande Sertão: Veredas”, de Guimarães Rosa; “Os Sertões”, de Euclides da Cunha”; "Vidas Secas", de Graciliano Ramos; e “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, de Glauber Rocha, decerto uma das maiores obras-primas cinematográficas da estória do nosso cinema. 

O filme de Glauber, me parece, é muito mais um “estudo sociológico” do que um manifesto político ou um tratado teológico, apesar de poder ser visto como tudo isso por diferentes espectadores. É uma brilhante descrição das lógicas desesperadas da religiosidade e do misticismo popular. O vaqueiro Manoel, que já no começo do filme tem explicitada sua condição de espoliado, ao ser despedido e açoitado pelo patrão, reage com agressividade visceral à arrogância patronal, gerando o primeiro ciclo de violência que vemos na tela, e que acaba gerando, por efeito dominó, a morte de sua mãe. Primeiro inocente que tomba. 

A mãe não morre “da morte de Deus”, como diz a letra da canção entoada pela ressonante voz de Sérgio Ricardo: “foi de tiro que jagunço deu”, “foi de briga no sertão”. A brutalidade da guerra é sempre escandalosa, mas seria um pouquinho menos se no processo os inocentes não tombassem – mas tombam sempre, sejam com balas perdidas, bombardeios indiscriminados ou pelo sadismo dos inimigos. Lembrem-se do desfecho crudelíssimo, de estilhaçar o coração, da trilogia “O Poderoso Chefão” --- o modo como o ciclo de violência, que vem desde Vito Corleone, e muito antes dele, continua derrubando o sangue puro de quem não tem nada a ver com a história. São as próprias escadarias da História – símbolo cinematográfico supremo: a Escadaria de Odessa no “Encouraçado Potemkin” de Einsenstein – que não cessam de ter seus degraus encharcados de sangue animal, de sangue humano. 

O filme de Glauber possui sua versão pessoal do “pregador-da-miséria”, o beato Sebastião, aquele que as autoridades temem que se torne um novo Antonio Conselheiro. Ele profere apocalípticas profecias, garantindo que as bolas do inferno são iminentes, que virão para calcinar as injustiças da terra, ao mesmo tempo que promete aos seus crédulos fiéis uma bem-aventurança utópica. Promete “uma terra onde tudo é verde; os cavalo comendo as flor; os menino bebendo o leite que flui nos rio”. Na “ilha” paradisíaca que imagina, tem água e comida em abundância; “do lado de lá tem ouro no mar; tem a fartura do céu e todo dia, quando o Sol nasce, aparecem Jesus Cristo e a Virgem Maria...”. 

Usa o Sermão da Montanha, que diz que é mais difícil um rico entrar no paraíso do que um camelo passar pelo buraco de uma agulha, para fisgar fiéis: “quem é pobre, vai ser rico no céu; quem é rico, vai ser pobre nas profunda do inferno!” A luta de classes se escancara; o “santo” é um líder de massas que nada tem a perder senão sua fome. Não se vê muito “pacifismo” nas atitudes deste Sebastião, homem negro e tão miserável quanto seus seguidores: ele entra nas cidades mandando que atirem para o alto, como se a força das orações não pudesse prescindir da persuasão das armas. Quer demonstrar o seu poder, e o faz de modo alucinado, megalomaníaco, acompanhado por uma romaria de deserdados, de vira-latas, que cantam em coro um lamento por vidas vivas que estão morrendo – de sede e fome, de insolação e medo. 

O vaqueiro Manoel, após a perda súbita do emprego e da mãe, partirá numa jornada mística pelas veredas deste grande sertão, experimentando os meios que estão acessíveis --- todos eles dilacerantemente espinhentos --- para a salvação do corpo e da alma. Em Monte Santo, filia-se aos seguidores de Sebastião, beija-lhe os pés sujos como se fosse o próprio Salvador, numa submissão absoluta a uma autoridade que ele não questiona seriamente, por mais que sua esposa, Rosa, tente-lhe inculcar um pouco de ceticismo e lucidez. A razão não funciona tão bem debaixo dum Sol de 40 graus, dentro dum corpo onde ronca de fome o estômago subnutrido e humilhado de alguém que está à espera de um milagre. E todo mundo sabe que estar à espera de um milagre é o equivalente a estar muito ferrado na vida, amarrado à impotência, sem forças próprias e só na esperança de auxílios transcendentes. 

As consequências da credulidade de Manoel ao pseudo-santo são terríveis. Este homem já tão dorido, que tantos fardos já carregou para os senhores das terras, convence-se da necessidade do martírio e de que estará comprando com ele um tíquete de entrada no paraíso. Na longa cena em que ele sobe o Monte Santo, com uma imensa pedra na cabeça, arrastando os joelhos num solo cheio de pedregulhos, acompanhado por um inclemente Sebastião, é uma das cenas mais eloquentes da história do cinema sobre a absurda loucura capaz de se apossar dos homens que abraçam uma ideologia religiosa que lhes diz que precisam sofrer e padecer para a recompensa divina merecer. 

É uma atitude de um masoquismo tão lunático, um comportamento auto-destrutivo e auto-flagelador de uma absurdidade tamanha, que não se sabe se é compaixão pela dor de Manoel ou revolta contra sua burrice a sensação que nos domina. Há por aqui certos ecos de “O Pagador de Promessas”, de Anselmo Duarte, outro clássico da cinemografia brazuca que também narra os paroxismos neuróticos a que podem chegar homens-do-povo quando inebriados pelo ópio religioso. 

Como se fosse pouco, quando atingem o topo, Sebastião o maltrata e faz uma exigência tão cruel quanto a de Deus quando pediu que Abrãao sacrificasse seu filho Isaac ---- o “santo” (que o espectador já vai notando que é um doido varrido...) pede a Manoel que lhe traga sua esposa Rosa e um bebê para um ritual de sacrifício. O espectador, se for sensato, torce, é óbvio, para que o vaqueiro acorde de seu transe e fique indignado contra um pedido tão estapafúrdio e obsceno. José Saramago, em seu Caim, escreve: “...o senhor ordenou a Abraão que lhe sacrificasse o próprio filho, com a maior simplicidade o fez, como quem pede um copo de água quando tem sede, o que significa que era costume seu, e muito arraigado. O lógico, o natural, o simplesmente humano seria que Abraão tivesse mandado o senhor à merda...” (Caim, pg. 79, ed. Companhia das Letras). 

No filme de Glauber, Manoel é uma espécie de novo Abraão, ofertando um bebêzinho que se debate ao punhal de um louco metido-a-santo. Do mesmo modo que Saramago diz “não compreendo como irão ser abençoados todos os povos do mundo só porque Abraão obedeceu a uma ordem estúpida” (idem, pg. 81), o espectador do filme de Glauber é levado a perceber o absurdo de um sacrifício que, ao derramar o sangue de um inocente, não gera nada além da estúpida proliferação da violência e da superstição sanguinária.




O sertão de Glauber mais se assemelha a um hospício a céu aberto, onde os enfermos passeiam no pátio, em meio aos cactos, delirando seus deuses em meio a insolações, carcaças e fomes. Como se não houvesse coquetel mais enlouquecedor do que esta mistura de seca, miséria, falsos profetas e promessas falsas de soluções milagrosas. 

O povão que arrasta-se atrás do santo, esperando um presente dos céus, só recebe bala – como na clássica cena em que Antonio das Mortes, o mercenário matador de cangaceiros, irrompe na tela, pau-mandado do clero e do Estado, para dizimar os beatos, num banho-de-sangue que remete tanto ao morticínio de Canudos quanto à cena da escadaria do “O Encouraçado Potemkin” de Eisenstein. 

Depois de passar a primeira metade do filme seguindo os passos de Sebastião, Manoel depara-se com Corisco, uma outra face da vasta geografia humana do Sertão. Depois do messianismo, o cangaço. O enlutado Corisco, que acabou de perder Lampião, recentemente assassinado junto à Maria Bonita, é desses que pega no rifle e no punhal para tentar consertar as mazelas do sertão – crendo, é claro, que tem um santo do seu lado. Manoel, porém, vai notar que o derramamento de sangue que Corisco prega não vai de encontro com suas próprias perspectivas: “Não dá pra fazer justiça no derramamento de sangue!” 

Dos mais profundos lodaçais da miséria e da infelicidade ergue-se, como uma flor nascendo no deserto mais árido, uma utopia religiosa-política muito bem simbolizada pelo mote “o sertão vai virar mar, o mar vai virar sertão...”. 

Uma perspectiva bem marxista sobre a religião, que reconhece nas condições materiais as fontes destas idéias ilusórias e alucinatórias que formam o corpo da ideologia religiosa, parece dar o tom no clássico de Glauber: é a miséria, o analfabetismo, o desemprego, a má distribuição de renda e de terra, que faz com que as pessoas se agarrem de modo tão cego a doutrinas-de-salvação. Quando a vida na Terra é tão terrível e árida, só resta fabricar a esperança de uma felicidade que começará Do-Lado-De-Lá... 

O cangaço, de certo modo, representa já uma ruptura com o resignacionismo daqueles que, ao invés de agirem em prol de mudança, caem de joelhos e rezam para deuses que não existem e santos há muito mortos. É na base da porrada, diz em suma a ideologia do cangaço, que os exploradores e opressores serão arrancados de suas posições de poder e usurpação. O problema é que o poder possui a grana que compra os mercenários – o Dragão da Maldade é financiado pela bufunfa, e o que pode o santo guerreiro contra este colosso dotado de fuzis, escopetas e balas à rodo? Antonio das Mortes triunfa sobre uma pilha de cadáveres e Glauber, realista, se recusa a dar ao público a papinha reconfortante de um happy end. 

Numa cena cáustica e brilhante, que remete às mais sarcásticas “tiradas” de Luis Buñuel – em “A Via Láctea” ou “Tristana”, por exemplo... - Glauber mostra o conluio da Igreja com o Estado para pagar o genocídio dos beatos. Oferecem a Antonio das Mortes uma fortuna, que o transformaria em um dos homens mais ricos do Brasil, em um abastado fazendeiro com as mãos sujas do sangue dos miseráveis, e ele não resiste à atenção: é assim, em nosso país, que agem os ricos. É assim que nascem os ricos. A miséria é explorada porque dá lucro e é eliminada em hecatombes genocidas quando se torna ameaçadora. 

* * * * *

No sertão de Glauber, a fé viceja em meio à seca como uma negação da realidade: o que os religiosos imaginam é justamente aquilo que não possuem. Nietzsche explicava o ímpeto religioso que deu origem ao Cristianismo, “religião de escravos”, remetendo ao ressentimento que sentiam as classes pisoteadas e oprimidas que, não conseguindo uma vida decente e digna na Terra, fabricavam fantasias vingativas onde os Senhores queimavam nas danações infindáveis do Inferno. Teólogos de muito renome e Papas ungidos de auréolas garantiram por séculos a seus fiéis que “dentre as delícias que serão gozadas pelos eleitos no Paraíso estará a possibilidade de testemunhar o sofrimento dos condenados ao Inferno” (ver “A Genealogia da Moral”). Mas uma vingança imaginária não cria um mundo melhor, eis o ponto. Imaginar uma vitória no além-túmulo significa resignar-se à derrota neste mundo. É neste sentido que Marx referia-se, numa formulação ainda atualíssima, à religião como “ópio do povo”. 

Diz Lúkacs: “o ateísmo marxista é parte de uma práxis social que oferecerá um dia a todos os homens uma vida na qual as exigências religiosas estarão completamente superadas. Elas já não existem para aqueles que combatem conscientemente em prol deste futuro. E, dado que o mundo real é tomado como o campo de luta pela auto-libertação do homem, este mundo sem Deus não é mais um mundo de prosaísmo desesperado: ao contrário, nele nasce o pathos deste sentido terrestre consumado, no qual todos os valores espirituais e morais até hoje existentes sob formas religiosas ou semi-religiosas emergem com seu pleno relevo.” (pg. 79) 

A abolição da religião passa necessariamente pela abolição das condições materiais que geram a “necessidade” da religião, ou melhor, o “campo psíquico” fecundo onde desabrocham as sementes do fanatismo – a miséria e o espoliamento, a submissão absoluta ao poder transcendente do patrão ou do sistema econômico, a sensação de dependência e de fraqueza, são algumas das fontes que tornam a adoção de uma ideologia religiosa quase uma “necessidade” para estas massas que, por não terem nada neste mundo, só podem projetar seus bens num outro mundo - num fantástico além-túmulo de conto-de-fadas. 

Mas permitir que os pobres se inebriem com a falsa crença de que terão no Céu a riqueza, a justiça e a caridade que lhe foi negada na Terra é o cúmulo do conformismo e da crueldade; libertá-los das cadeias da religião, para que sintam e saibam com lucidez que só existe este mundo, e que é neste mundo que é preciso construir uma conjuntura mais justa e mais humana, é indispensável. A crença religiosa é um fator anti-progressista, como aponta tão claramente Jean-Marie Guyau. A melhora das condições-de-vida da humanidade depende da libertação desta cegueira da esperança, deste ressentimento vingativo que, ao invés de agir, imagina a derrota do inimigo. Neste sentido, as palavras de Marx prosseguem perfeitas:

   
“A angústia religiosa é ao mesmo tempo a expressão de uma angústia real e o protesto contra ela. A religião é o suspiro da criatura oprimida, o coração de um mundo sem coração, tal como é o espírito de uma situação não espiritual. É o ópio do povo. A abolição da religião como a felicidade ilusória do povo é necessária para sua felicidade real. O apelo para que abandonem as ilusões sobre sua condição é o apelo para abandonarem uma condição que necessita de ilusões. A crítica da religião é, portanto, em embrião, a crítica do vale das dores, cuja auréola é a religião. A crítica arrancou as flores imaginárias que enfeitavam as cadeias, não para que o homem use as cadeias sem qualquer fantasia ou consolação, mas que se liberte das cadeias e apanhe a flor viva. A crítica da religião desaponta o homem com o fito de fazê-lo pensar, agir, criar sua realidade como um homem desapontado que recobrou a razão, a fim de girar em torno de si mesmo e, portanto, de seu verdadeiro sol. A prova evidente do radicalismo da teoria alemã, e deste modo a sua energia prática, é o fato de começar pela decisiva superação positiva da religião. A crítica da religião culmina na doutrina de que o homem é o ser supremo para o homem. Culmina, por conseguinte, no imperativo categórico de derrubar todas as condições em que o homem aparece como um ser degradado, escravizado, abandonado, desprezível." 
KARL MARX. Crítica à Filosofia do Direito de Hegel - Introdução, p. 145-146, 148, 151; como citado por LÚKACS em O Jovem Marx e Outros Escritos de Filosofia, p. 173-174, ed. UFRJ.


Assista na íntegra >>>

Ismail Xavier e Joel Pizzini falam sobre o cinema político de Glauber >>>

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

O filósofo francês André Comte-Sponville reflete sobre a Geração 68, a Morte de Deus, o Triunfo do Capitalismo e a Necessidade da Ética, dentre outros temas...




"O Capitalismo é Moral?"



“Faço parte da chamada Geração 68, e se isso não me dá nem orgulho nem vergonha, guardo desse pertencimento algumas das minhas mais belas lembranças. […] A moda, naqueles anos, era o imoralismo, a libertação geral e irrestrita. Os mais filosóficos dentre nós reivindicavam Nietzsche: queríamos viver além do bem e do mal. Quanto aos que não eram filosóficos, contentavam-se em pichar os muros da faculdade os belos lemas de então: “É proibido proibir!” ou “Vivamos sem tempos mortos, fruamos sem limites!”

O apoliticismo, então, era quase inimaginável. O engajamento, quase uma evidência. Naqueles anos de 60-70, tudo era política. […] Uma boa política nos parecia ser a única moral necessária. Uma ação nos parecia moralmente válida se fosse, como dizíamos, politicamente justa. Moral de militante, cheia de boa consciência e entusiasmo.

Meu melhor amigo daqueles anos não faria mal a uma mosca (a não ser, talvez, a uma mosca de extrema direita). Mas a moral lhe parecia uma ilusão inútil e nefasta. Ele era ao mesmo tempo nietzschiano e marxista, como muitos de nós. […] A moral? Ideologia servil e judaico-cristã. O dever? Idealismo pequeno-burguês. Disparávamos flechas incendiárias contra o estado-maior da consciência. "Abaixo a moralina!", como dizia Nietzsche, viva a Revolução e a Liberdade!

Da geração de 68 - “geração do tudo política” - à geração atual ocorreu uma “crise considerável da política. É na medida em que os jovens de hoje têm cada vez menos a sensação de poder influir coletivamente sobre seu destino comum - o que é a verdadeira função da política - que eles tendem a encerrar-se no terreno dos valores morais. […] De um lado, não podemos deixar de nos felicitar com o fato de que os jovens empreendam uma espécie de retorno a uma forma de exigência moral ou humanista; de outro lado, que o façam em tamanho detrimento de toda e qualquer ação propriamente política é algo que não pode deixar de nos preocupar.

O “TRIUNFO DO CAPITALISMO”

A expressão “o triunfo do capitalismo” me deixa um tanto perplexo. Não que eu conteste o desmoronamento do bloco soviético, no final dos anos 80. Mas, quando dois sistemas estão em concorrência um com o outro, nada prova que o desmoronamento de um seja o triunfo do outro. Os dois poderiam ruir: a coisa não é nem logicamente, nem historicamente inconcebível. O fracasso de Spartacus não bastou para salvar o Império Romano…

O capitalismo, apesar de seus desacertos, apesar das suas injustiças, que são incontáveis, desfruta hoje de uma espécie de quase monopólio ideológico. Mas surge a desconfiança de que ele venceu seu adversário histórico (o comunismo) por nada. Para que vencer, quando não se sabe por que viver? […] O Ocidente tem ainda alguma coisa a propor ao mundo? Acredita o bastante em seus próprios valores para defendê-los? Ou, incapaz de praticá-los, não sabe fazer outra coisa que produzir e consumir - que fazer negócios, à espera da morte?


A VIDA DEPOIS DE DEUS

A chamada “morte de Deus” é um processo que se estendeu por vários séculos. Começou na Renascença, acelerou-se no século XVIII, em torno do chamado Iluminismo, e continuou ao longo dos séculos XIX e XX inteiros. Constatamos hoje, na França, seu quase acabamento. Esse processo é um processo de laicização, de secularização, de descristianização. 

Era esse processo que Nietzsche diagnosticava, já no fim do século XIX, ao falar da morte de Deus. É esse mesmo processo que o sociólogo Max Weber analisava a seu modo ao falar de “desencantamento do mundo”. […] Falar da morte de Deus não quer dizer que hoje seria impossível acreditar em Deus. Claro que continua sendo possível! […] Mas a fé, hoje em dia, pertence unicamente à esfera privada, como dizem os sociólogos: continuamos podendo , individualmente, acreditar em Deus; mas não podemos mais, socialmente, comungar nele… nossa sociedade não pode mais basear nele sua coesão. 

O que hoje nos ameaça é o que chamarei de uma era da negligência generalizada, isto é, uma dissolução da ligação, do vínculo social, de tal sorte que nossos concidadãos, tornando-se incapazes de comungar no que quer que seja, não podem mais fazer outra coisa senão cultivar sua estreita esfera privada - o que os sociólogos chamam de triunfo do individualismo, ou, no franglês costumeiro deles, de cocooning. […] O individualismo, o cocooning, dá ótimos consumidores…

Minha inquietação é que essa morte social de Deus, em nossos países, seja ao mesmo tempo o desaparecimento, pelo menos no Ocidente, de toda vida espiritual digna desse nome. A tal ponto que, com o esvaziamento das igrejas, só saibamos preencher nossa manhã de domingo com o supermercado… Seria um erro rejubilar-se com isso. Permitam que o ateu que sou lhes diga que este, o supermercado, não substitui aquela, a igreja.

Durante 20 séculos de Ocidente cristão, no fundo era Deus que respondia à pergunta “O QUE DEVO FAZER?” - que é a questão moral - por seus mandamentos, seus sacerdotes, sua Igreja. […] Mas eis que à pergunta “que devo fazer?”, Deus não responde mais. Ou, mais exatamente, eis que suas respostas se tornam socialmente cada vez menos audíveis… Todas as pesquisas confirmam que uma maioria de cristãos praticantes não se sente mais obrigada pelas injunções morais da Igreja ou do papa - basta pensar nos problemas da contracepção ou da sexualidade fora do casamento. Quantos cristãos que aclamaram João Paulo II fazem verdadeiramente questão de se casar virgens? Quantos renunciaram definitivamente à pílula e à camisinha?

Muito ingênuos eram os que acreditavam que o ateísmo suprimia a questão moral. “Se Deus não existe”, dizia um personagem de Dostoiévski, “tudo é permitido”. Eu diria o contrário: se Deus existisse, poderíamos a rigor nos permitir tudo, em outras palavras, entregar nas mãos dele o problema. Necessitamos tanto mais de moral quanto menos temos religião - porque temos de responder à questão “que devo fazer?” quando Deus não responde mais. 

Necessitamos de moral, hoje, sem dúvida muito mais que em qualquer outra época conhecida da humanidade civilizada. Porque nunca, desde há trinta séculos, conheceu-se uma sociedade a tal ponto laicizada; nunca, desde há trinta séculos, conheceu-se uma sociedade tão pouco religiosa, em suas profundezas, quanto a nossa.


O integrismo religioso - o que chamo de “angelismo” - quer que a religião diga o bem e o mal, o legal e o ilegal, o verdadeiro e o falso. Mas se Deus é soberano, como o povo poderia sê-lo? Por exemplo: essas seitas protestantes que pretendem proibir, nos EUA, o ensino do darwinismo nas escolas, a pretexto de que é contrário aos ensinamentos do Gênese, na Bíblia… É o momento de recordar, com Rilke, que “todo anjo é assustador”. O angelismo não é menos perigoso que a barbárie, às vezes é até mais. É quase sempre em nome do Bem que se autoriza o pior. […] Se Bush e Bin Laden não estivessem tão convencidos de representar o Bem, ou Deus mesmo, poderíamos temer menos a política deles…

O mais grave, na guerra americana contra o Iraque, não é que ela tenha sido decidida para defender os interesses dos EUA; é que ela os defenda mal (o balanço global, mesmo de um ponto de vista americano, corre o risco de ser terrivelmente negativo), desdenhando o direito internacional e fazendo pouco-caso dos milhares de mortos que ia acarretar.

Ora, por que essa guerra? Por medo das armas de destruição em massa? Para assegurar a segurança do povo americano? Para barrar o terrorismo? Pelo petróleo? Todorov mostra que nenhuma dessas explicações se sustenta. Essa guerra também se fez, e quem sabe se fez sobretudo, em nome do Bem e da Liberdade, digamos em nome dos valores da democracia liberal. Isso, longe de justificá-la, só a torna mais inquietante. Porque, onde é que se vai parar? Quem decidirá o que é o Bem e o que é o Mal? Fazer a guerra em nome de um Bem absoluto é o princípio das cruzadas, e não conheço princípio mais pernicioso. É angelismo moralizador (se não teológico, quando invoca o nome de Deus), bastante comparável, quanto ao fundo, ao de Bin Laden. 


A NECESSIDADE DA ÉTICA

Imagine um indivíduo perfeitamente respeitoso da legalidade do país em que vive, que faria sempre o que a lei impõe, que nunca faria o que a lei veda - o legalista perfeito. Mas que se ateria unicamente a essa determinação. Ora, nenhuma lei veda a mentira. Nenhuma lei veda o egoísmo. Nenhuma lei veda o desprezo. Nenhuma lei veda o ódio. Nenhuma lei veda - vejam só - a maldade. 

De modo que nosso indivíduo perfeitamente legalista poderá, em plena conformidade com a legalidade republicana, ser mentiroso, egoísta, cheio de ódio e desprezo. O que ele seria, então, senão um canalha legalista?

Na Sorbonne, costumo propor a meus alunos o seguinte tema: “O povo tem todos os direitos?” Corrijo os trabalhos e descubro que a quase totalidade dos nossos alunos, com uma boa consciência democrática um tanto inquietante, me respondia que sim, claro, o povo tem todos os direitos: é assim que tem de ser, é o que se chama democracia.

Devolvo os trabalhos… Digo a eles: “Tudo bem, o povo tem todos os direitos. Logo… tem o direito de oprimir esta ou aquela minoria, por exemplo, votando leis antijudaicas; logo… tem o direito de praticar o assassinato legal, por exemplo, abrir campos de concentração; logo… tem o direito de deflagrar guerras de agressão… O que então - perguntei a eles - vocês criticam em Hitler, que por sinal foi nomeado chanceler em 1933 de uma forma mais ou menos democrática?”

A democracia, e na Europa estamos bem situados para sabê-lo, não é de forma alguma uma garantia, nem mesmo contra o pior. […] De modo que se quisermos escapar, coletivamente desta vez, desse espectro do povo que teria todos os direitos, inclusive do pior, somos também obrigados a limitar essa ordem jurídico-política. Temos duas razões para querer limitá-la: uma razão individual, para escapar do espectro do canalha legalista, e uma razão coletiva, para escapar do espectro do povo que teria todos os direitos, inclusive de fazer o pior.

Há coisas que a lei autoriza e que no entanto devemos nos vedar, outras que a lei não impõe, que no entanto devemos nos impor. Um projeto de lei racista, mesmo se a Constituição o possibilitasse, seria moralmente imperativo rejeitá-lo. […] O amor à liberdade não está submetido à democracia: uma maioria totalitária nunca impedirá que os espíritos livres amem a liberdade.

 “A única medida do amor”, dizia Agostinho, “é amar desmedidamente”. Estamos longe disso, quase todos, quase sempre. O amor, no mais das vezes, só brilha por sua ausência. Mas o amor, para quase todos, é o valor supremo. […] O amor infinito não tem por que ser temido. Por duas razões: a primeira é que não se poderia desejar nada melhor que o amor infinito; a segunda é que, cá entre nós, não é o amor infinito propriamente o que nos ameaça… Todos, crentes ou descrentes, devem habitar neste mundo a finitude do amor, logo (já que ele se pretende infinito) sua incompletude também; é o que se chama ética, e que a torna necessária.


O CAPITALISMO É MORAL?


Minha tese é radical: na ordem econômico e tecnocientífica, nada nunca é moral. As cotações do petróleo e do euro não dependem de maneira nenhuma da moral, mas sim do andamento geral da economia, das relações de forças (inclusive de forças políticas: a potência dos EUA, por exemplo…) na escala do mundo, enfim da lei da oferta e da procura. […] Não é a moral que determina os preços; é a lei da oferta e da procura. […] O capitalismo não é moral; mas também não é imoral; ele é - e é total, radical, definitivamente - amoral.

O objetivo de Marx, no fundo, era moralizar a economia. Ele queria que a ordem econômica fosse enfim submetida à ordem moral. É o que se joga, na sua obra, em torno das noções de alienação e exploração. […] Marx queria acabar com a injustiça, não por uma simples política de redistribuição, mas inventando outro sistema econômico que tornaria enfim os seres humanos economicamente iguais. 

 É aí que encontramos a dimensão utópica do marxismo. Para que o comunismo, tal como Marx o concebeu, tivesse uma chance de triunfar, era necessário pelo menos uma coisa: que os homens parassem de ser egoístas e pusessem enfim o interesse geral acima do seu interesse particular. A jogada genial do capitalismo, ao contrário, está em não pedir aos indivíduos nada além de serem exatamente o que são: “Sejam egoístas, cuidem do seu interesse, e não é que tudo correrá às mil maravilhas no melhor dos mundos possíveis…” 

A análise que faz Marx do capitalismo continua sendo, sob muitos aspectos, uma das mais esclarecedoras. […] O capitalismo é um sistema econômico baseado na propriedade privada dos meios de produção e de troca, na liberdade do mercado e no trabalho assalariado. […] Os que possuem a empresa (os acionistas) vão portanto fazer trabalhar - com base num contrato voluntário e em troca de um salário - os que não a possuem (os assalariados). Os acionistas só tem interesse em firmá-lo porque os trabalhadores produzem mais valor do que recebem: é o que Marx chama de mais-valia. […] A única maneira de satisfazer o acionista é, evidentemente, satisfazer o cliente - inclusive vendendo-lhe, se a este aprouver, produtos que lhe fazem mal: fumo, álcool, programas de TV idiotizantes…

O capitalismo serve para produzir, com riqueza, mais riqueza. Estou apenas retomando uma das definições canônicas do que é um capital: riqueza criadora de riqueza. […] Alguns enriquecem sem trabalhar, outros se esgotam no trabalho e continuam pobres. Vocês acham isso moral? Vão responder que um rico pode se arruinar, que um pobre pode fazer fortuna… Às vezes acontece, mas a melhor maneira de morrer rico, num país capitalista (mas também era assim num país feudal!) ainda é nascer rico. […] Isso não é motivo para nos pormos de joelhos diante dele. […] Se o mercado virasse uma religião, seria a pior de todas, a do bezerro de ouro. E a mais ridícula das tiranias, a da riqueza.

* * * * *

A coisa se torna inquietante quando, de tanto repetir que o Estado é grande demais, acaba nascendo a tentação de que não tem de haver mais Estado algum, ou só tem de haver um Estado mínimo, que deixaria funcionar os célebres mecanismos auto-reguladores do mercado. O único problema é que, nesse caso, não é mais o povo que é soberano: são os capitais ou os que os possuem. Portanto não se está mais numa democracia. Barbárie liberal: tirania do mercado.

Conhecemos pelo menos um caso: é o Chile de Pinochet. Você toma o poder com um golpe de Estado militar (o povo, esses incompetentes que elegeram Allende, fica assim fora de jogo por vários anos), assassina um pouco, tortura muito, mas gestão não é sua especialidade: essa tarefa você confia a alguns especialistas, muitas vezes saídos das melhores universidades americanas, dentre os quais vários alunos ou colegas (os “Chicago Boys”, dizia-se então) do liberalíssimo e futuro prêmio Nobel, Milton Friedman…

A política econômica é marcada por privatizações, supressão do controle dos preços, abertura para a concorrência internacional… Ou seja, você retira o máximo possível de poder do Estado e dos sindicatos, dá o máximo possível de poder ao mercado e aos empresários… 

Ora, o Chile de Pinochet não é uma democracia. […] Numa democracia, o povo é que é soberano, o que exclui que os mercados o sejam. […] O povo é que é soberano, o que exclui ou deve excluir (se os democratas derem mostra de vigilância) que Wall Street o seja. […] O mercado e as empresas não são muito bons para criar justiça; somente os Estados têm uma chance de criá-la, mais ou menos.

* * * * * *

É sabido desde Rabelais: “Ciência sem consciência é ruína da alma”. […] Alguém que põe o dinheiro acima do amor é o que chamamos de um pobre coitado. […] O crescimento, em princípio indefinido, da economia (sempre é possível, teoricamente, acrescentar riqueza à riqueza) vem se chocar, cada vez mais, contra os limites, estritamente finitos, da ecologia. 

Se os 7 bilhões de seres humanos vivessem como vivem os ocidentais (com o mesmo consumo de água potável, de proteínas animais e de energias não renováveis), o planeta não aguentaria dez anos. A situação planetária é dramática… pois a elevação ou a manutenção do nível de vida se choca cada vez mais com os limites do planeta. Daqui 30 anos, diziam-me alguns peritos, não haverá mais petróleo e a água potável terá se tornado um artigo raro. […] A humanidade, que fez progressos tão consideráveis nos últimos dez mil anos, saberá controlar as consequências desse progresso?





in: 



André Comte-Sponville (1952 - ... )

"O Capitalismo é Moral?"
Ed. Martins Fontes, 2002
Trad. Eduardo Brandão





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segunda-feira, 23 de julho de 2012

"O poeta desfolha a bandeira e a manhã tropical se inicia..." - Especial Torquato Neto (1944-1972), por Fred Di Giacomo Rocha

Torquato e Gil na Passeata dos Cem Mil, 1968.


“Existirmos, a que será que se destina?”

por Fred DiGiacomo Rocha (@Punk Brega)



Quando eu nasci
um anjo louco muito louco
veio ler a minha mão
não era um anjo barroco
era um anjo muito louco, torto
com asas de avião 
eis que esse anjo me disse
apertando minha mão
com um sorriso entre dentes
vai bicho desafinar
o coro dos contentes

TORQUATO NETO



É legal que a gente encontre fácil no Brasil a edição da Conrad de Reações Psicóticas” de Lester Bangs, famoso crítico musical americano. Seria legal termos essa facilidade com a obra de Torquato Neto (1944-1972), um dos nossos Lester Bangs.

Torquato Neto era um blogueiro dos anos 70. Escrevia a coluna “Geléia Geral” no jornal Última Hora, onde cobria a vida cultural brasileira (especialmente do Rio), com foco na música, no cinema e num pouco de literatura. Do teatro ele não gostava muito, mas anunciava as novidades, assim como uma ou outra notinha sobre artes plásticas.

 É legal acompanhar dia após dia, na sua “Geléia Geral”, a história da música brasileira (e mundial) nos ricos anos 71 e 72. Torquato, saudosista, reclamava que a MPB estava muito parada. Pra quem lê hoje soa como ironia. Eram os anos de Fa-Tal da Gal (Com “Vapor Barato” e “Pérola Negra”), Transa  (disco em inglês cult do Caetano), Construção do Chico Buarque (com a faixa título mais “Cotidiano”, “Deus lhe pague”, “Valsinha” e meia dúzia de clássicos) e o discão do rei Roberto Carlos que trazia “Detalhes”, “Debaixo dos Caracói dos seus cabelos” e “Como dois e dois”.

 Lá fora, John Lennon estava de música nova: "Imagine". E Torquato avisava a galera pra se ligar em uma banda inglesa que estava amadurecendo bem; o Pink Floyd. (Ainda dois anos distante de lançar seu mega-sucesso The Dark Side of the Moon). E os Novos Baianos começavam a se tornar íntimos de João Gilberto (influência que daria origem ao clássico Acabou Chorare).

No cinema, Torquato era do time dos “undigrudis”: Ivan Cardoso, Rogério Sganzerla e, claro, Zé do Caixão. Descia a lenha no cinema novo, de Cacá Diegues e Arnaldo Jabor, que passara a ser patrocinado com grana estatal. Só poupava Glauber das críticas. E se empolgava com a tecnologia das câmeras Super 8. 40 anos antes de Youtube e das filmadoras digitais ele previa: todo mundo vai ser cineasta.


“Os últimos dias de paupéria” (organizado por Wally Salomão e Ana Maria Silva de Araújo Duarte) foi publicado postumamente. Torquato estava preparando um livro ( que devia chamar-se “Do lado de dentro”) quando se suicidou com gás de cozinha no dia do seu aniversário de 28 anos.

Morreu sem publicar nenhum livrinho em vida. Deixou suas crônicas musicais, suas letras (“Geléia Geral” e “Louvação” com Gil, mais uma dezena com Caetano, Jards Macalé, Edu Lobo e a parceria póstuma de “Go Back” com os Titãs), algumas cartas (numa das quais conta como fumou haxixe com JIMI HENDRIX) e poesias – era poeta tropicalista, amigo dos concretistas e admirador da poesia marginal de Chacal, então estreante. 

Também dirigiu e atuou em alguns filmes Super 8. Sua empolgação com música-cinema-literatura não o segurou na vida, deprimido com a falta de liberdade da ditadura e a falta de bom gosto da esquerda. Nasceu no tempo errado. Inspirou Caetano numa de suas melhores letras; “Cajuína”, do álbum Cinema Transcendental (1979). Aquela que começa existencialista assim:

“Existirmos, a que será que se destina?”

Torquato Neto For Dummies: 15 canções que introduzem ao mundo do poeta que "desafinava o coro dos contentes". Segue o setlist! 01) "Marginália II" (Gil); 02) "Domingou" (Os Mutantes & Gil); 03) "Louvação" (Elis Regina e Jair Rodrigues); 04) "Geléia Geral" (in: Tropicália ou Panis et Circenses); 05) "Ai de Mim, Copacabana" (Caetano Veloso); 06) "Go Back" (Titãs e Fito Paez); 07) "Minha Senhora" (Gal Costa); 08) "Lua Nova" (Edu Lobo); 09) Jards Macalé, "Let's Play That"; 10) "Veleiro" (Elis Regina); 11) "Vento de Maio" (Nara Leão); 12) "Mamãe Coragem" (Gal Costa); 13) "Cajuína" (Caê); 14) "Que Loucura" (Sérgio Sampaio); 15) "Três da Madrugada" (Gal).

O Poeta Desfolha a Bandeira... (1985) >>> download

Todo Dia é Dia D - Tributo a Torquato Neto >>> download

domingo, 22 de julho de 2012

"Basta de rosários em nossos ovários!" - O fundamentalismo religioso e sua tirania sobre os corpos




Carla Herrara, 11, garota salvadorenha, segura contra
o peito uma foto de sua mãe, Carmen Climaco,
condenada a 30 anos de prisão por causa
de um aborto que foi julgado como "homicídio"
Todo apoio à mobilização: "Afastem seus rosários de nossos ovários, seus fanáticos!" Um exemplo contemporâneo paradigmático do Cristianismo como doutrina machista e retrógada (além do mito que conta que Eva, nascida de uma costela de Adão, é culpada pelo pecado original...) é a situação hoje em El Salvador, país extremamente religioso.

Em El Salvador, relata Sam Harris, "o aborto é hoje ilegal sob quaisquer circunstâncias. Não há exceções para o estupro ou o incesto. No momento em que uma mulher chega a um hospital com o útero perfurado, indicando que fez um aborto caseiro em algum beco, ela é algemada à cama do hospital e seu corpo é tratado como uma cena de crime. Médicos forenses chegam para examinar seu útero. Há mulheres hoje cumprindo penas de 30 anos de prisão pelo crime de interromper sua gravidez. Imagine tal cenário em um país que também estigmatiza o uso de anticoncepcionais e os vê como um pecado contra Deus." (Carta a Uma Nação Cristã, Cia das Letras, Pg. 46)

É em direção à barbáries semelhantes que iremos caso a laicidade prossiga sendo tão mau-tratada pelos dogmatismos e fanatismos religiosos.
* * * * *

Outro exemplo: 

Segundo Harris, avanços na área da medicina são obstaculizados em sua implementação por ações contrárias de religiosos fundamentalistas que “estão mais preocupados com os embriões humanos do que com a possibilidade de salvar vidas oferecida pela pesquisa com células-tronco” e que “são capazes de pregar contra o uso da camisinha na África subsaariana, enquanto milhões de pessoas morrem de AIDS nessa região a cada ano”. 

Um caso paradigmático: “o papilomavírus humano (HPV, na sigla em inglês) é hoje a doença sexualmente transmissível mais comum nos Estados Unidos. Esse vírus infecta mais da metade da população americana, causando a morte de quase 5 mil mulheres a cada ano, de câncer cervical. O Centro para Controle de Doenças (Center For Disease Control – CDC) estima que mais de 200 mil mulheres morrem anualmente dessa doença no mundo inteiro. 

Hoje temos uma vacina para o HPV que parece ser segura e eficiente. A vacina produziu uma imunidade de 100% nas 6 mil mulheres que a receberam como parte de um teste clínico. Contudo, os conservadores cristãos no governo americano opõem resistência ao programa de vacinação, alegando que o HPV é um impedimento valioso contra o sexo antes do casamento. Esses homens e mulheres piedosos desejam preservar o câncer cervical como incentivo para a abstinência sexual, embora ele tire a vida de milhares de mulheres a cada ano."



Um dos melhores documentários sobre esta problemática toda do fundamentalismo religioso e a cerca que ele pretende impor aos corpos e mentes humanas é Lake of Fire, filme de Tony Kaye (A Outra História Americana) que você pode assistir na íntegra abaixo:


quarta-feira, 18 de julho de 2012

Uma Cachoeira de Corrupção - Clipping de uma Ladroagem sem Fim



O "pacto" firmado foi o seguinte: Cachoeira pagava 30% dos lucros da jogatina ao carequinha Demóstenes; o protegée da Revista Veja, apesar de vestir a máscara de "mosqueteiro da ética", enchia os bolsos com milhões de reais no backstage.
 "Demóstenes tinha direito a 30% da arrecadação geral do esquema de jogo clandestino, calculada em aproximadamente 170 milhões de reais nos últimos seis anos. Na época, o império do bicheiro incluía 8.000 máquinas ilegais de caça-níqueis e 1.500 mil pontos de bingos.

A jogatina foi desbaratada na Operação Monte Carlo e as contas apresentadas pela PF demonstram que a parte do parlamentar deve ter ficado em torno de 50 milhões de reais. O dinheiro, segundo a PF, estava sendo direcionado para a futura candidatura de Demóstenes ao governo de Goiás."
CARTA CAPITAL, Os 30% de Demóstenes (Março de 2012)



"Logo após ser preso, o juiz determinou que Cachoeira fosse transferido para um presídio federal de Mossoró (RN) porque os procuradores temiam que ele continuasse a comandar o esquema criminoso de dentro de uma prisão de Goiás. “Em mais de uma década, Carlinhos Cachoeira dedicou-se a comprar informações e proteção de agentes do estado vendíveis. Em outras palavras, tornou a sociedade e o próprio estado mais vulneráveis ao crime”, escreveu Lima. 

Os números listados na Justiça Federal falam por si só do tamanho da investigação que une os negócios de Cachoeira com a rotina do governo de Goiás. Ao todo foram identificados como integrantes da quadrilha do bicheiro 43 agentes públicos. Desses, seis delegados da Polícia Civil, 30 policiais militares, dois delegados da PF, um administrativo da PF, um policial rodoviário federal, dois agentes da Polícia Civil e dois servidores municipais."- CARTA CAPITAL - O Crime no Poder

"A reportagem de capa de Carta Capital, "O Crime Domina Goiás", assinada pelo jornalista Leandro Fortes, aborda documentos, gravações e perícias da Operação Monte Carlo que indicam uma sinergia total entre o esquema do bicheiro, Demóstenes e o governador de Goiás, Marconi Perillo" ( "O Estranho Sumiço da Carta Capital Das Bancas de Goiânia", Abril de 2012). "Carros sem placa de identificação percorreram as bancas de jornal de Goiânia, capital de Goiás, com homens comprando, de uma só vez, todos os exemplares disponíveis..." (Brasil 247, Abril de 2012).

Um relatório da Polícia Federal, narra a Revista Época, "de 73 páginas e 169 diálogos telefônicos", indica que "são contundentes os indícios de que a Delta deu dinheiro a Perillo. Alguns desses 169 diálogos já vieram a público; a vasta maioria ainda não. Encontram-se nesses trechos inéditos as provas que faltavam para confirmar a simbiose entre os interesses comerciais da Delta em Goiás e os interesses financeiros de Marconi Perillo.


O exame dos diálogos interceptados fez a Polícia Federal, baseada em fortes evidências, conclui que:

1) assim que assumiu o governo de Goiás, no ano passado, Marconi Perillo e a Delta fecharam, diz a PF, um “compromisso”, com a intermediação do bicheiro Carlinhos Cachoeira: para que a Delta recebesse em dia o que o governo de Goiás lhe devia, a construtora teria de pagar Perillo;
2) o primeiro acerto envolveu a casa onde Marconi Perillo morava. Ele queria vender o imóvel e receber uma “diferença” de R$ 500 mil. Houve regateio, mas Cachoeira e a Delta toparam. Pagariam com cheques de laranjas, em três parcelas;
3) Perillo recebeu os cheques de Cachoeira. O dinheiro para os pagamentos – efetuados entre março e maio do ano passado – saía das contas da Delta, era lavado por empresas fantasmas de Cachoeira e, em seguida, repassado a Perillo. 
4) a Delta entregou a um assessor de Marconi Perillo a “diferença” de R$ 500 mil;"

REVISTA ÉPOCA, "Como a Delta pagava Marconi Perillo"


* * * * *
"O líder do PT na Câmara dos Deputados, deputado Jilmar Tatto (SP), defendeu nesta segunda-feira, 16 de Julho, o afastamento do governador de Goiás, Marconi Perillo (PSDB), devido aos indícios de envolvimento de Perillo com o bicheiro Carlinhos Cachoeira. Segundo o deputado, é uma "temeridade" que a população do Estado tenha Perillo como governador.

 "Para o bem do povo de Goiás, ele tem que sair rápido do governo", afirmou Tatto. O petista disse que, se a Assembleia Legislativa de Goiás "tiver o mínimo de decência", deve abrir o processo de impeachment contra o governador. "Perillo mentiu descaradamente sobre a relação dele com Carlos Cachoeira na CPI", disse Tatto.

Demóstenes passou por processo de cassação por quebra de decoro parlamentar no Conselho de Ética da Casa. Em 11 de julho, o plenário do Senado aprovou, por 56 votos a favor, 19 contra e cinco abstenções, a perda de mandato do goiano. Ele foi o segundo senador cassado pelo voto dos colegas na história do Senado." 
Portal Terra


Em resumo: manda aí a real, Laertón! 

"SAI DISGRAMA!"
GOIÂNIA EM MARCHA CONTRA A CORRUPÇÃO
(Documentários independentes sobre o Movimento Fora Marconi)




Uma produção indiegena e tosqueira... do Depredando o Orelhão. Trilha sonora a cargo de Dead Kennedys, Rage Against the Machine e Raul Seixas (1); The Clash, AC/DC, Legião Urbana (2). Inclui fotografias de Jean-Pierre Pierote, Tiago Lemos e muitos outros fotógrafos anônimos. Tudo filmado com câmera tremida nas mãos, seguindo os preceitos estéticos do Dogma 1,99, em meio às marchas contra a corrupção de 2012 em Goiânia. "Sai, disgrama!"

domingo, 15 de julho de 2012

I have been witness to such wonders...



UMA APOLOGIA DOS ESTICADORES DE HORIZONTE
Um ensaio sobre arte, filosofia e psicodelia

“Everything that lives 
Lives not alone nor for itself.”

WILLIAM BLAKE





Manoel de Barros gostava de dizer que a poesia deve servir como um "esticador de horizonte".
William Blake queria que sua arte nos fizesse "romper a concha do prosaico", nos levando a enxergar as coisas com "as portas da percepção purificadas". E toda filosofia, diz-se desde a Grécia mais remota, é "filha do espanto" - e da angústia, eu adicionaria. A arte e a filosofia que mais me agradam agem sobre a consciência de modo a deixá-la boquiaberta. Wonderstruck.

Banalidade que sabem todos que já embarcaram numa viagem nas asas do THC ou do LSD: a consciência é expansível. Os horizontes humanos são esticáveis. É o que ocorre com a leitura de um bom poeta, que nos abra os olhos para aquilo a que antes éramos cegos; a audição de uma boa sinfonia, que nos escancara os ouvidos para aquilo que antes éramos surdos; a contemplação de alguma paisagem ou pessoa ou prodígio impressionante que nos deixe boquiabertos, aumentados em nossa vitalidade e em nossa capacidade de atenção [awareness], vencendo a triste tirania do tédio e da indiferença.

Ouçamos o que diz Nietzsche sobre o assunto: “A consciência é o último estágio, o mais tardio, daquilo que é orgânico; é, por conseguinte, também o que há de menos acabado e de menos forte. [...] Considera-se [erroneamente] a consciência como uma grandeza constante! Nega-se seu crescimento, sua intermitência! [...] Julgando já possuir  o consciente, os homens pouco se esforçam por adquiri-lo – e hoje ainda não é diferente!”  (A Gaia Ciência, #11) É preciso, pois, considerar a Consciência como um campo a ser conquistado, e não algo cuja conquista já se “possua”. A “expansão de consciência” que se pode, com muito custo, conquistar através da leitura de Baudelaire ou da audição de Wagner, é-nos fornecida com uma força e uma vivacidade acachapantes por algumas gotículas de LSD diluídas num cubículo de açúcar.

O que chamamos de "consciência" individual, longe de ser algo de estável, é uma pirralha irrequieta como aquele fluxo, dentro do qual está contida, que Heráclito pensava constituir o próprio rosto mutante do cosmos. Everything flows... Nunca se pisa duas vezes nem no mesmo rio, nem no mesmo segundo. O tempo, irreversível e imparável, flui adiante, arrastando-nos com ele feito folhas caídas na correnteza.

Nós, em nossa sina de transitoriedade, provisoriamente viventes em meio ao arrastão cósmico, acompanhamos o carrossel dos dias às vezes sem nem notarmos esta verdade que nos sussurra o vento ("the answer, my friend, is blowing in the wind..."): estamos - pasmem! - rodopiando feito um pião pelo salão de danças do cosmos, viventes conscientes "in a green ball which floats through the heavens" (pra usar uma expressão de Ralph Waldo Emerson em seu ensaio "Nature").

Sabe aquela história de que só usamos uns 10% do nosso cérebro? Que digam os neurologistas se é fato ou não; só sei que me parece muito plausível. Minha opinião é a de que estamos realmente longe de sabermos utilizar todo o potencial que trazemos, cada um de nós, dentro de nossos crânios. A consciência está longe de estar pronta: consciência é uma "coisa" passível de ser progressivamente ganha. Ora, impactar-nos de modo a que usemos mais os miolos, expandindo nossos horizontes, parece-me uma das funções essenciais da arte e da filosofia (minhas musas...): elas devem servir a re-espantar-nos, enxotando-nos de nosso torpor, despertando-nos das letargias. A missão da canção, do poema e da substância psicodélica: avivar e expandir consciência.

A infância, chamada pelos ingênuos de "idade da inocência", é também a idade - essa parte da história os adultos não gostam muito de mencionar... - em que se instalam em nós os cabrestos. Os freios. Os ditames. Os ideais sublimes. As noções religiosas. As regrinhas de etiqueta. As sugestões dietéticas. Enfim: o cérebro mirim, desde cedo, recebe um influxo cultural tremendo. Uma força externa, social, cultural, molda-o para os mais diversos fins, dos mais bem-intencionados aos mais sórdidos. A criaturinha é domesticada, "moralizada" com punições e recompensas, forçada a seguir certas vias pré-determinadas por gerações já mortas, às vezes incluída sem consulta em uma comunidade religiosa, um time de futebol, um preconceito político.

Logo vai-se a inocência e embarca-se na triste loucura de ser um homem normal: assalariado, cheio de sonhos de consumo, confortavelmente entorpecido, zumbi da rede Globo, resignado aos infortúnios, temente a Deus, esperançoso de bens de outro mundo, fidelíssimo a quase tudo que o funil cultural lhe impingiu. "Quem não se move não sente as correntes que lhe prendem", diz a Rosa Luxemburgo (se não me engano...). Com a consciência parece ser o mesmo: quem não se esforça por expandi-la, quem não tenta romper as couraças e esticar os próprios horizontes, acaba nem sentindo seu cabresto. E aí... é a festa dos tiranos!



LUCY IN THE SKY WITH DIAMONDS

A transformação operada no cérebro pela ação desta poderosa substância é dificilmente descritível em termos puramente “neutros” e “científicos”: o LSD tem o notável poder de despertar em cientistas uns “ímpetos místicos” e “arroubos poéticos” que não se esperaria de homens tão devotados à razão. Albert Hoffman, cientista suíço que sintetizou a substância ("minha criança maravilha que se tornou criança problema..."), quando tenta descrever a experiência subjetiva de tomar LSD e andar de bicicleta pelos prados da Suíça, descreve-a como algo muito semelhante à experiências místicas vividas na infância, o que é referendado por Aldous Huxley, que, depois de experimentar com a mescalina (substância extraída de um cacto mexicano chamado peiote), relata que ficou a observar as coloridas flores que tinha diante de si “como Adão as deve ter visto no Jardim do Éden”.

A realidade que se “desvela” com o LSD é descrita, no filme The Beyond Within (O Além Interior), como “un-censored reality” ou “naked truth” (“realidade sem censura” e “verdade nua”). O LSD convida-nos a uma visão de mundo em que estar diante da “Verdade Nua-e-Crua” não é uma experiência sórdida, deprimente e aterradora (ou não necessariamente: há as bad trips...); mas que pode ser uma experiência de êxtase, de profunda “iluminação”, de beatitude terrena. Uma criança que experimentou o LSD relata inclusive, e com uma sinceridade de que não dá pra duvidar, que a substância possibilita uma “experiência religiosa mais forte do que ler a Bíblia 6 vezes ou se transformar em Papa”.  

Mas não se trata de uma droga que infantilize, no sentido de retornar o indivíduo a um padrão de comportamento mais “instintivo”, “animalesco”, arcaico. O álcool é uma droga muito mais infantilizante, que parece despertar comportamento imaturos e insensatos em bebuns bastante mamados. O LSD, em contraste, é uma droga para “usuários maduros” e desejosos de maturação – e uma substância que têm, conforme muitos relatos, um efeito a um só tempo rejuvenescedor e amadurescente.

É que amadurecer não é necessariamente distanciar-se o máximo possível da criança: talvez uma parte importantíssima do amadurecer consista em reencontrar muito daquela virgindade de olhar e daquele espanto total diante do mundo que tínhamos em nossos primeiros anos. Os olhos arregalados de uma criança diante da Lua ou das estrelas, sem saber entendê-las, nem de onde vieram, nem quem as grudou no firmamento, nem porque emanam luz e porque nunca nos falam - isso não é algo digno de ser morto em nossa vida adulta!

Nietzsche, por exemplo, não se contenta em somente de ser um leão que ruge, muito adulto e viril, contra o camelo que antes carregava pesos no lombro, resignado, retraído e oprimido sob o fardo por outros transmitido, sob o peso das autoridades passadas, dos preconceitos venerados e das crenças sacralizadas.

Zaratustra faz a criança ser o ideal do leão. Não basta rugir, destruir e depois ficar “pastando”, leoninamente, sobre os escombros. Não basta viver só de oposição, de querela, ofendendo o inimigo, polemizando com o rival. Não basta espezinhar o camelo. Não basta só dizer não e não e não. E a criança é o símbolo do ser que diz sim. Com o olho. Com a consciência. Com todo o seu ser. Diante do espetáculo cósmico inteiro, pede bis.

A criança é a criatividade ainda na fonte, é ainda o frescor pleno de potencialidades de uma mente que ainda não foi “estragada” por doutrinas, ortodoxias, catequisações. A criança é um novo começo. Zaratustra, pois, é esse poeta-dançarino, mais sátiro do que santo, que nos convida a voltar a olhar o mundo com os olhos espantados e cheios de curiosidade de uma criança, cujo arregalamento das pupilas nos deixa comovidos perante o espetáculo de um espanto.

Uma criança que se espanta nos redesperta para o mistério. E os que dormem para o mistério estarão de fato com as consciências vivas? vivacidade de consciência fora do mistério? A convicção ortodoxa de “possuir a verdade”, de “já saber tudo”, não é justamente isso que obstaculiza e trava a consciência em seu processo de expansão?

Terence McKenna, me parece, forneceu a melhor das metáforas para explicar esse “potencial dos psicodélicos”. Segundo McKenna, o que essas substâncias como o THC, o LSD e o DMT realizam em nosso cérebro consiste em “limpar” o nosso sistema operacional: para usar a metáfora informática que ele usa, significa desinstalar o Windows, ou seja, o “sistema operacional” mais comum, mais “normal”, mais comercial, por um sistema operacional espetacularmente novo. Neste novo “modo de operação”, os condicionamentos sociais perdem sua força, como se perdessem sua força de adesão ao nosso “eu” (não à toa muitos usuários e psiquiatras descrevem o processo como uma espécie de “dissolução do eu”, o que para alguns é uma “near-death experience”).

O novo olhar que o LSD ou o DMT nos permitem lançar sobre a realidade circundante consiste exatamente numa ressurreição da novidade. Olhamos para as coisas como se elas fossem novas, em contraste com o tédio e a indiferença com que costumamos lidar com tudo aquilo que chamamos de “banal”, “trivial” e cotidiano. Aquilo que só os maiores dos poetas conseguem realizar em nossas consciências quando os lemos, quando sentimos o impacto de suas imagens, estas substâncias realizam, mas com um potencial amplificado. Elas escancaram as portas da percepção dando um chute químico nos ferrolhos e nas couraças e nos escudos. Tudo nos aparece como se fosse recém-nascido, e nós mesmos nascidos agora para a experiência misteriosa de estar vivo. O presente enfim impera, repleto de cor e de luz, de brisa e de encanto.

Em The Beyond Within, uma moça sob efeito de LSD, segurando uma laranja entre suas mãos, a observa com uma atenção extremamente anormal em relação à atenção que o comum dos mortais normalmente dedica a essa “babaquice sem graça” que é uma fruta. A moça, profundamente fascinada pela cor da laranja, relata, em meio a seu encantamento, uma experiência lapidar: “antes eu jamais havia realmente visto a cor; antes eu vivia num mundo monocromático...” 





TERENCE MCKENNA: A CULTURA É NOSSO SISTEMA OPERACIONAL

O LSD e o THC, é plausível supor e lícito especular, talvez conduzam seus usuários a um certo estado de consciência em que torna-se mais difícil para eles a obediência e a subserviência. Suponham que houvesse uma substância que, nos antípodas da Droga da Obediência imaginada por Pedro Bandeira, fosse uma espécie de... agente da desobediência. Terence McKenna, em uma de suas metáforas mais impressionantes e memoráveis, compara a Cultura a um sistema operacional que estaria instalado em nossos cérebros de modo análogo ao Windows ou Linux que roda em nossos PCs. O hardware que é o cérebro humano, portanto, têm a potencialidade para ser utilizado de mil maneiras, mas acaba sendo “formado” e deformado por programações culturais, condicionamentos de behaviour, tempestades de anúncios e propagandas, ciclones e tsunamis de convites a comprar, a um ponto tal que sua mente outrora virgem transformou-se num imenso cabide onde outros depositaram seus mofados casacos, ternos e japonas.

Segundo McKenna, estas substâncias ditas “psicodélicas”, que também são conhecidas hoje por “enteógenos”, aí incluídos o ácido lisérgico, a mescalina, o DMT etc., teriam a capacidade de realizar no “cérebro” uma “limpeza de sistema operacional”, limpando os nossos olhos das cataratas culturais em nós implantadas. Essas drogas teriam um efeito “descondicionador”, por assim dizer: tudo aquilo que autoridades exteriores a nós ordenaram que decorássemos, tudo aquilo que obrigaram-nos a papaguear, todos os evangelhos dogmáticos que nos foram impostos por potências exteriores, muitas vezes tirânicas em seu absolutismo, recebe um golpe profundo destas substâncias alteradoras da percepção. A consciência, se consegue se “expandir”, é justamente por este alargamento dos horizontes humanos que se dá quando quebramos as jaulas de nosso cárcere cultural. 

Conhecer outras culturas é tão instrutivo, tão urgente, tão crucial e necessário! Pois só assim cessamos de absolutizar nossos próprios costumes, cessamos de adorar apenas nosso próprio país, como fizeram, por décadas e séculos, os papagaios de patriotadas... Há na “psicodelia” um elemento de universalismo que, me parece, consiste na sensação que estas drogas são capazes de despertar de que o sujeito é cidadão do mundo, hospedeiro da natureza, habitante da galáxia, parte do cosmos.

”Parece que a hipótese de trabalho mais satisfatória sobre a mente humana tem que seguir, até certo ponto, o modelo bergsoniano, no qual o cérebro, com seu eu normal associado, age como um mecanismo utilitário para limitar e selecionar o enorme mundo de consciência possível e para canalizar experiências em canais biologicamente lucrativos. Doenças, mescalina, choque emocional, experiência estética e iluminação mística, todos têm o poder, cada um de um modo diferente e em graus variáveis, de inibir as funções do eu normal e sua atividade comum do cérebro, permitindo assim que o ‘outro mundo’ invada a consciência. [...] Pode-se dizer que um homem consiste num Velho Mundo de consciência pessoal e, do outro lado de um oceano divisor, numa série de Novos Mundos. Esses Novos Mundos de um subconsciente nunca podem ser colonizados, raramente são perfeitamente explorados, e em muitos casos ainda esperam o descobrimento.” - Aldous Huxley


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