quinta-feira, 12 de julho de 2012
Mais de 200 álbuns clássicos na íntegra no YouTube. Banquete!
Além desses 200 discos já "reunidos" aqui, uma segunda seleção já está em progresso. Cole lá, suba o volume e boa viagem! Tweet
terça-feira, 10 de julho de 2012
Che Guevara por Zizek: "a beatificação inofensiva se mistura com a mercantilização obscena"
“Os protestos anticapitalistas dos anos 1960 (de Maio de 68 em Paris ao movimento estudantil da Alemanha e aos hippies dos EUA) remataram a crítica-padrão à exploração socioeconômica com os novos temas da crítica cultural: a alienação da vida cotidiana, a mercantilização do consumo, a inautenticidade da sociedade de massas, em que somos obrigados a “usar máscaras” e a nos submeter à opressão sexual, entre outras.
Podemos entender agora por que tanta gente insiste que Che Guevara, um dos símbolos de 68, tornou-se “o ícone pós-moderno quintessencial”, que significa ao mesmo tempo tudo e nada. Em outras palavras, significa qualquer coisa que se queira que signifique: rebelião da juventude contra o autoritarismo, solidariedade com os pobres e explorados, santidade, […] trabalho pelo bem de todos.
Há alguns anos, um alto representante do Vaticano afirmou que os louvores ao Che deveriam ser entendidos como expressão da admiração por um homem que arriscou e deu a vida pelo bem dos outros. Como sempre, a beatificação inofensiva se mistura com seu oposto, a mercantilização obscena.
Recentemente, uma empresa australiana pôs no mercado o sorvete “Cherry Guevara”, é claro que concentrando a propaganda na “experiência de comer”: “A luta revolucionária das cerejas foi esmagada ao serem encurraladas entre duas camadas de chocolate. Que a memória delas viva em sua boca!” (in: Michael Glover, “The marketing of a marxist”, Times, Londres, 6 jun 2006)
No entanto, há algo de desesperado nessa insistência de que o Che se tornou um logotipo-mercadoria inofensivo - testemunhamos a série recente de publicações que nos advertem de que ele também foi um assassino frio que organizou os expurgos cubanos de 1959 e assim por diante. É significativo que essas advertências tenham surgido exatamente quando novas rebeliões anticapitalistas começam a ocorrer no mundo, tornando o ícone mais uma vez potencialmente perigoso…”
SLAVOJ ZIZEK“Primeiro como Tragédia,Depois como Farsa”
Editora Boitempo
(Pg. 56, 57)
segunda-feira, 9 de julho de 2012
Fotos clássicas de Bob Gruen, um dos maiores fotógrafos do rock'n'roll (in: "Rockers", Ed. Cosac & Naify)
GALERIA DE IMAGENS ICÔNICAS
DE BOB GRUEN
Cosac & Naify: "Esse nova-iorquino é considerado um dos principais fotógrafos da cultura pop. Iniciou sua carreira em meados dos anos 1960. Na época, era apenas um grande fã de Bob Dylan - e desde então registra a trajetória das maiores bandas e ídolos do rock, do pop e do punk. Foi amigo de John Lennon e é o autor de uma de suas mais célebres imagens: Lennon em frente à Estátua da Liberdade vestido com uma camiseta na qual estava escrito “New York City”. Sua obra imortalizou também Led Zeppelin, The Who, David Bowie, Tina Turner, Elton John, Aerosmith, Kiss e Alice Cooper. Nos anos 1970, virou o fotógrafo dos bastidores de bandas emergentes de punk e new wave, incluindo New York Dolls, Clash, Ramones, Patti Smith Group e Blondie, tendo excursionado com os Sex Pistols pelos EUA. Gruen também chefiou a seção de fotografia da Rock Scene Magazine. O site do fotógrafo na internet é www.bobgruen.com."
Na sequência: Led; Lennon & Yoko; Jagger & Richards; McCartney; Ramones; Sex Pistols; Cale, Reed, Smith e Byrne; Dylan; J. Jett; Clash; Townshend; Pistols; Beastie Boys; D. Harrie; Marley; G. Day; Motoqueiros de Moscow; Ryan Adams; Sheryl Crow; Zappa; Blondie. Na nossa página no Facebook tem mais uma pá: cola lá! Tem mais aqui e acolá.
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quarta-feira, 4 de julho de 2012
Blueseiras de Blueswomen: Janis Joplin, Bessie Smith, Nina Simone, Big Big Mama Thornton, Susan Tedeschi e muito mais... [Click to play]
"I know why the caged bird sings."
Maya Angelou
"This loneliness... just won't leave me alone."
Portishead
01) Janis Joplin, "Try (Just a Little Bit Harder); 02) Bessie Smith, "After You've Gone"; 03) Big Mama Thornton, "Willie Mae's Trouble"; 04) Nina Simone, "I Wish I Knew How It Felt to be Free"; 05) Susan Tedeschi, "It Hurt So Bad"; 06) Aretha Franklin, "The Thrill is Gone"; 07) Portishead, "Numb"; 08) Eleni Mandell, "Moonglow, Lamp Low"; 09) Lisa Germano, "Red Thread"; 10) Os Mutantes & Rita Lee, "Meu Refrigerador Não Funciona".Tweet
terça-feira, 26 de junho de 2012
"No longer to be poisoned by civilization, he flees and walks alone upon the land to become lost in the wild..."

INTO THE WILD NA NATUREZA SELVAGEM
“…prefiro o céu salpicado de estrelas a um teto,
a trilha obscura e difícil, levando ao desconhecido,
a qualquer estrada pavimentada…”
Última carta de Everett Ruess
(11 de Novembro de 1934)
in: Jon Krakauer
”Na Natureza Selvagem”
(Ed. Cia das Letras, pg. 97)
I. AVENTUROSIDADE & HEROÍSMO
Reflexões sobre um fascínio
“Não é sinal de saúde estar bem adaptado
a uma sociedade profundamente doente”
Krishnamurti
Decerto que há os conformados, e que eles formam imensas manadas. Raul Seixas quiçá diria deles: são “pedras que choram sozinhas no mesmo lugar”. Gente que quer imitar o reino mineral. Criaturas com propensão para a estagnação e que sonham ser montanha ao invés de rios a fluir. Apegam-se às suas “identidades”, agarrados a um dogma que formaram sobre aquilo que são e devem ser, e seguem pelas vias estreitas de um mundo domado. E, seguras em suas fortalezas, detrás de seus muros e grades, protegidos pelo arame farpado ou pelo carro blindado, dizem em suas melancolias, com sorrisos forçados: “Pois não é verdade que se deve adorar as benesses da civilização? Ó estradas e pontes, edifícios de concreto e fortalezas de metal! Aleluias à riqueza material que nos permite viver no conforto, no Sacrossanto Conforto! Tudo isso não merece ser glorificado, ó Deusa Tecnologia, ó Deidade Engenharia, como algo que nos torna a vida mais fácil e confortável?” Eis a ladainha dos tempos.
Em contraste com esta “manada dos normais”, adormecida na crença de que a melhor vida é aquela “fácil e confortável”, há uma série de seres humanos bem mais turbulentos, inquietos, inconformados. É a eles que o mundo deve alguns dos maiores exemplos de heroísmo, subversão da ordem, revolução de costumes, obras de arte de impacto. Alguns restringem seu heroísmo ao “mundo do espírito”: inventam histórias de gente que realiza as proezas que eles nunca fizeram ou farão. Há desses pretendentes à Jack London que ficam, seguros em suas casas, de cachecol diante da lareira, escrevendo sobre aventuras na neve e confrontos com lobos… Mas há outros para quem o único heroísmo que conta é a ação real sobre o palco do planeta.
Como não trepidar e não se excitar ao ler a descrição que faz Jon Krakauer, por exemplo, desses humanos intrépitos que ousam encarar a natureza selvagem? Dinamietzsches, Blakeanos, Tolstoístas, Thoreauastas, Supertramps, Hippies, Beatniks, Easy-Riders, Boêmios Errantes… todos aqueles que preferem o destino de nuvens ciganas e pedras que rolam. São mendigos iluminados, malucos-beleza transbordantes de lucidez, xamãs involuntários de uma sociedade doente. “Não é sinal de saúde estar bem adaptado a uma sociedade profundamente doente”, diz Krishnamurti. Eles concordam.
Buscam estradas heróicas frequentemente sob a influência fascinante de algum herói prévio que idealizam. O heróico para Nietzsche, por exemplo, parece ser uma mescla de Diógenes e Heráclito, Sófocles e Dionísio… um “espírito livre”, desafiador de todas as convenções e convicções aprisionantes, que é sátiro e dançarino, que prefere usar a coroa de flores de Zaratustra à coroa de espinhos de Cristo, que conhece as tragédias mas sabe afirmar a vida, não foge do sofrimento mas aprende com ele, sabe-se descendo a corredeira do Tempo mas medita sobre os ciclos e os retornos… A figura das montanhas altaneiras, escaladas por um audaz “espírito livre” sem temor de enxergar mais longe e mais fundo do que o comum dos mortais, que suporta com o máximo de júbilo possível o seu fardo de solidão e clarividência, desenha uma auréola de heroísmo em torno de Nietzsche que talvez explique, ao menos em parte, sua “popularidade” póstuma.
O Capitão Nemo, protagonista de Vinte Mil Léguas Submarinas (Júlio Verne), personagem que “foge da civilização e corta todos os laços com a terra”, foi uma das inspirações do andarilho-alpinista infatigável Everett Ruess. Só que, ao invés de descer às profundezas do Oceano, Ruess preferiu lançar-se sem muitos escudos em meio à indomada Natureza. “Duas vezes quase fui morto pelos chifres de um touro selvagem; escapei por pouco de cascavéis e do desmoronamento de rochas; fui atacado por abelhas selvagens e algumas ferroadas a mais poderiam ter sido fatais para mim…” De relatos de proezas assim está repleto o relato de Everett Ruess que Krakauer reproduz. O que será isso: vontade de fazer disparar no sangue a adrenalina? É ser um junkie de excitações orgânicas? Ou será mero gosto pela bravata? Uma espécie de desejo de auto-glorificação ao buscar experiências de alto risco? Vive-se para vivê-las ou para contá-las?
O caso de Christoppher McCandless é para mim outro fascínio intenso. Muito por causa do impacto do filme Into the Wild – Na Natureza Selvagem, uma das obras que me são mais queridas no cinema deste jovem século. Sean Penn, em sua adaptação cinematográfica do livro-reportagem de Krakauer, soube “heroicizar” a figura de McCandless (vulgo Alexander Supertramp) ao invés de reduzi-lo através da “psico-patologização”. Em outras palavras: tratou McCandless/Supertramp não como um biruta qualquer, um cara com parafusos a menos, um vicioso “desajustado social”, mas sim revelando tudo que havia de romântico, idealista, rebelde, subversivo, doce e ambíguo neste destino tão heróico – e tão trágico.

II. DESPOJAMENTO & ABERTURA
Alexander Supertramp rumo à Natureza Selvagem
“Ele se chama Sonho Americano
pois você precisa estar dormindo
para acreditar nele.”
George Carlin
Christopher McCandless, no começo da Década Grunge, era um rapaz de uma abastada família americana de Washington, D.C. Excelente aluno, atleta de elite, tinha um Datsun que adorava e uma poupança pançuda. Ou seja: todos os ingredientes de um futuro “garantido”. McCandless se encontrava no que alguns veriam como uma situação privilegiada “invejável”, pronto para ajustar-se perfeitamente ao Sistemão Norte-Americano. Ao invés, porém, de seguir obediente nos trilhos do american way e sonhar de olhos abertos, junto com a manada dos normais, o Sonho Americano, McCandless, “no verão de 1990, logo após formar-se com distinção na Universidade, sumiu de vista. Mudou de nome, doou os 24 mil dólares que tinha de poupança a uma instituição de caridade, abandonou seu carro e a maioria de seus pertences, queimou todo o dinheiro que tinha na carteira” (Krakauer, pg. 9).
Até daria para dizer que aí já está presente um certo “elemento Tyler Durden”. Tyler Durden, me parece, é outro dos símbolos da época, de estandartes do zeitgeist, de retrato da nossa disgrama. “As coisas que você possui acabam por te possuir”, diz Brad Pitt a Edward Norton em um momento da obra de David Fincher em que ainda nem suspeitamos que está rolando uma alucinada conversação entre um funcionário do mundo corporativo e seu amigo-imaginário, Tyler Durden, o subversivo, o terrorista, o incendiário. Conforme a civilização nos EUA foi degringolando para um anarco-capitalismo cada vez mais irracional em sua fome de lucros e em sua ideologia kitsch em prol do Conforto, mais e mais pipocaram rebeldias, terrorismos, contra-culturas – e heroísmos.
Não se trata, porém, de “idealizar” o heroísmo, dizer que ele é a solução para o planeta e lançar toda uma carga positiva pra cima da idéia de um estilo-de-vida heróico. Com certeza muitos crimes e injustiças podem ser cometidos por gente que acredita estar agindo “heroicamente”. Reflitamos um pouco no fato de que, na perspectiva dos sujeitos que realizaram o Atentado do 11 de Setembro, eles estavam cometendo um ato de heroísmo religioso, um digníssimo e elogiável martírio (sem dúvida comemorado por muitos em Kabul ou Bagdá como se comemora, no Brasil, uma vitória na Copa do Mundo…). Derrubar um dos símbolos da arrogância capitalista da América, trazer abaixo o Templo onde os ímpios, esquecidos de Deus, cultuam o Bezerro de Ouro, tudo isso representava “missão”, “destino”, possibilidade de ascensão ao Paraíso. Enfim: Alá aprova e glorifica os que destroem a mundana ganância cega da América…
Porém, não é este o único meio – explodir prédios comerciais com aviões sequestrados numa hecatombe de milhares de mortos – para protestar contra o sistema econômico-político. Chris McCandless é uma figura tão instrutiva pois ele procura escapar das garras deste Capitalismo Neo-Liberal Ecocida que está aí por outras vias: segue o exemplo de Tolstói, Thoreau e Jack London, buscando a independência em relação às obsessões consumistas e às neuroses urbanas de que estão repletas as nossas metrópoles e os nossos subúrbios. Inteligente, bem-informado, sensível aos problemas alheios, mesmo aqueles de países distantes, McCandless é um desses que desperta para o fato óbvio de que o Capitalismo não está funcionando, que gera concentração imensa de capital nas mãos de pouca gente, gerando efeitos colaterais terríveis em termos de fome, miséria, doença, poluição, destruição ambiental – em suma: o Capitalismo é a desgraça de bilhões, ainda que seja a maravilha de alguns. No planeta Capitalista, é “normal” que 2 bilhões morram de fome para que uns 2 mil possam ter seus palácios, mansões e carrões onde possam sofrer de indigestão e obesidade.
McCandless, impregnado por um ideário ético que valoriza o vivenciar e não o possuir, o despojamento ao invés do conforto, a abertura de consciência contra o auto-aprisionamento em convenções, doa tudo o que tem para ajudar os necessitados – a Oxfoam recebe 100% de sua poupança – e parte para a aventura de ser um SuperMendigo, cuca-fresca e cabeça-aberta, que sabe que neste mundo, de onde nada se leva, quem perde o teto em troca ganha as estrelas.
Vade retro, Superman!!!

III. PREFERINDO O DIFÍCIL
“Eu queria movimento e não um curso calmo de existência. Queria excitação e perigo e a oportunidade de sacrificar-me por meu amor.Sentia em mim uma superabundância de energia que não encontrava escoadouro em nossa vida tranquila.”
Léon Tolstói
“Felicidade Conjugal”
Trecho sublimado em um dos livros encontrados com o cadáver de Chris McCandless
Eddie Vedder, nas canções que compôs e cantou sobre a inspiradora figura de Chris McCandless, destaca com frequência o fato de Alex Supertramp ter nascido de um desejo de sumir, desaparecer, vazar: ir pra bem longe da “sociedade” como a conhecia. “Society, you’re a crazy breed… hope you’re not lonely without me…” Estamos falando, é claro, daquela sociedade yuppie dos EUA, que celebrizou-se por criações como Walt Disney, Hollywood, McDonalds, Mickey Mouse, Tio Patinhas… As crianças que crescem sob tais influências sonham desde o berço em possuir a beleza de Barbies, ainda que a custo de plásticas, lipos e anorexias; obcecam com viagens maravilhosas à Disneylândia; com um imenso apetite por milk-shakes, marshmallows e Big Macs… O “ideal de vida” que por lá é vendido convida a todos a perceber a felicidade exatamente igual à maneira como um pato imbecil a concebia: aspirantes a Tios Patinhas, eles têm fantasias colonizadas pelo sonho de um dia nadarem em uma imensa piscina de moedinhas de ouro – e 18 quilates!…
“It’s a mystery to me: we have a greed with which we have agreed. You think you have to want more than you need. Until you have it all you won’t be free.” Em três versos riquíssimos (das riquezas que contam, do “ouro de dentro”, como diria Hilda Hilst), Vedder sintetiza a ópera: há um acordo tácito em relação à ganância; todos pensam que precisam ter mais e mais, esquecidos de suas verdadeiras necessidades; e é crença geral que só existe liberdade no possuir, no “have it all”. Uma imensa catarata sobre os olhos de milhões causa essa miopia epidêmica: só conseguir imaginar a felicidade sob a perspectiva do consumo e da posse. “Para ser feliz, é preciso comprar e comprar, possuir e possuir!” – assim prossegue a ladainha dos tempos…
Jon Krakauer insiste, em vários pontos de seu livro, no fato de Chris McCandless ser uma pessoa “extremamente ética” que “se impunha padrões bastante elevados” (pg. 30) e com “traços de idealismo obstinado que não combinavam facilmente com a existência moderna” (pg. 10). Krakauer relembra-nos com recorrência do culto que McCandless prestava ao escritor russo Tolstói: caroneiro atravessando milhares de quilômetros da América que está fora dos cartões-postais, McCandless costumava recomendar a seus companheiros de jornada a leitura de Guerra e Paz. Entre a dúzia de livros encontrados junto a seu cadáver no busão abandonado no Alasca, estavam livros de Tolstói e Thoreau, duas figuras que ele parecia enxergar como “paradigmas” éticos, modelos a serem imitados, “sábios” à cuja aprovação ele aspirava. “Cativado há muito tempo pela leitura de Tolstoi, admirava em particular como o grande romancista tinha abandonado uma vida de riqueza e privilégios para vagar entre os miseráveis” (pg. 10). Krakauer conta também dos cursos que McCandless frequentou sobre o problema racial na África do Sul do apartheid, de seu veemente interesse e preocupação em relação ao problema da fome no mundo e sua “intensa aversão ao governo” (pg. 204).
“Não é nada incomum para um homem jovem ser atraído para uma atividade considerada imprudente pelos mais velhos; o comportamento de risco é um rito de passagem em nossa cultura. O perigo sempre exerceu um certo fascínio. É em larga medida por isso que muitos adolescentes dirigem depressa demais, bebem demais e tomam drogas demais, e que sempre foi fácil para as nações recrutar jovens para a guerra. [...] Chris McCandless tinha necessidade de se testar em questões, como gostava de dizer, “que importavam”. Possuía grandiosas ambições espirituais. Conforme o absolutismo moral que caracterizava as crenças de McCandless, um desafio em que o sucesso está garantido não é desafio nenhum. [...] O significado que ele tirava da existência estava longe do caminho confortável: ele não confiava no valor das coisas que vêm facilmente.” JON KRAKAUER (pg. 192)
Alexander Supertramp, que tem nome de imperador mas aspirações a “mendigo iluminado”, é a encarnação de uma prática rebelde em relação ao estilo-de-vida dominante. Decerto que existem muitos exemplos na História de homens ricos que renunciam à sua fortuna: é uma estória tão velha quanto… Buda. Não se conta que Sidarta Gautama também abdicou de todo o luxo do palácio para se procurar a iluminação em andrajos pelos campos e debaixo de árvores? McCandless é um dos poucos norte-americanos que, tomando consciência mais plena dos rumos de sua pátria, decide pular do barco, procurar uma via própria, longe das estradas pavimentadas.
O dinheiro não lhe interessa – não mais. Uma vida fácil e confortável, rodeada de consumos e simulacros, lhe enoja. Prefere estar ao ar livre, sujando as botas na lama dos caminhos que ainda não foram trilhados, escalando montanhas rumo a cumes por poucos pisados. Não quer manter a Natureza à uma distância segura, só saber dela através dos livros ou dos vidros. Quer sentir a brisa na face e dormir sob um céu salpicado de indecifráveis estrelas. A facilidade é insossa, a busca por conforto é neurótica, a AmériKKKa está louca! E é assim que Chris McCandless larga tudo, aventura-se na Natureza Selvagem, como se seguisse o conselho que Rilke deu ao Jovem Poeta: “Prefira sempre o difícil; desse modo, sua vida não cessará de expandir-se.”

“Two years I walk the earth. No phones, no pools, no pets, no cigarettes. Ultimate Freedom. An extremist, an aesthetic voyager whose home is the road. So now, after two rambling years comes the final and greatest adventure - the climatic battle to kill the false being within and victoriously conclude the spiritual revolution. No longer to be poisoned by civilization, he flees and walks alone upon the land to become lost in the wild...”
McCandless, Maio de 1992
"Um horizonte sempre cambiante, a cada dia um novo Sol..."
Chris McCandless por Jon Krakauer: "A viagem ao Alasca seria uma odisséia no pleno sentido do termo, uma jornada épica que mudaria tudo. Ele passara os quatro anos anteriores, tal como via as coisas, preparando-se para cumprir um dever oneroso e absurdo: graduar-se na faculdade. Finalmente estava desimpedido, emancipado do mundo sufocante de seus pais e pares, um mundo de abstração, segurança e excesso material, um mundo em que ele se sentia dolorosamente isolado da pulsação vital da existência. Saindo de Atlanta para o oeste, pretendia inventar uma vida totalmente nova para si mesmo, na qual estaria livre para mergulhar na experiência crua, sem filtros.
Como adepto moderno de Henry David Thoreau, tinha por evangelho "A Desobediência Civil" e considerava, portanto, sua responsabilidade moral zombar das leis do Estado. Ele não se perturbava com a perspectiva de abandonar seu carro: via nisso uma oportunidade de abandonar bagagem desnecessária. (...) Num gesto que deixaria Thoreau e Tolstoi orgulhosos, empilhou todas as suas cédulas de dinheiro na areia - e tocou fogo. Cento e vinte e três dólares em dinheiro legal prontamente reduzidos a cinza e fumaça.
McCandless vagou pelo oeste, encantado com a escala e o poder da paisagem, excitado com pequenas escaramuças com a lei, saboreando a companhia intermitente de outros vagabundos que encontrou no caminho. Chris era muito da teoria de que você não deve possuir mais do que pode carregar nas costas numa corrida repentina. Ele não expressava senão desprezo pelos adereços burgueses da sociedade americana. Não era raro que a face de McCandless ficasse rubra de raiva enquanto vituperava contra seus pais, os políticos ou a idiotia endêmica do modo de vida dominante americano.
Mandou uma carta a seu amigo Franz que diz: "Tanta gente vive em circunstâncias infelizes e, contudo, não toma a iniciativa de mudar sua situação porque está condicionada a uma vida de segurança, conformismo e conservadorismo, tudo isso que parece dar paz de espírito, mas na realidade nada é mais maléfico para o espírito aventureiro do homem que um futuro seguro. A coisa mais essencial do espírito vivo de um homem é sua paixão pela aventura. A alegria da vida vem de nossos encontros com novas experiências e, portanto, não há alegria maior que ter um horizonte sempre cambiante, cada dia com um novo e diferente Sol".
Jon Krakauer
"Na Natureza Selvagem"
Ed. Cia das Letras
(pgs 34-39-40-43-63-67-68)
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sábado, 23 de junho de 2012
Eddie Vedder (Pearl Jam) - DVD "Water on The Road"
"I knew all the rules, but the rules did not know me."
E. VEDDER, "Guaranteed"
O primeiro DVD solo do líder do Pearl Jam, "Water on the Road", documenta a tour de Eddie Vedder em 2008, cerca de um ano depois do lançamento da trilha sonora original de "Into the Wild". Sozinho ao violão, à guitarra ou ao ukelele, Vedder toca covers de Bob Dylan e Beatles (dentre outros), faz releituras Unplugged de canções do Pearl Jam e até se arrisca como stand-up comedian. Showzaço! Gravado em Washington, D.C. Lançado em 2011. Baixe o DVD em altíssima qualidade lá no The Pirate Bay >>> http://bit.ly/KSghTx. Seguem alguns aperitivos!
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Filmografia dos Beatles (Help!, A Hard Day's Night, Magical Mystery Tour & Yellow Submarine) - Assista a todos na íntegra
Os Beatles no cinema: 4 filmes na íntegra!
"A HARD DAY'S NIGHT" (1964)
"HELP!" (1965)
"MAGICAL MYSTERY TOUR" (1967)
"YELLOW SUBMARINE" (1968)
segunda-feira, 18 de junho de 2012
Belo Monte - Anúncio de Uma Guerra [assista o documentário na íntegra]
“Belo Monte - Anúncio de uma Guerra”
(Documentário - Brasil - 2012 - 1h44min - diretor: André D'Elia)
“O Brasil do futuro: como diz Beto Ricardo, metade uma grande São Bernardo, a outra metade uma grande Barretos. E um punhado de Méditerranées à beira-mar plantados, outro tanto de hotéis de eco-turismo em locais escolhidos dentro do Parque Nacional “Assim Era a Amazônia”, criado pela Presidente Dilma Roussef (em segundo mandato) no mais novo ente da federação, o Iowa Equatorial, antigo estado do Amazonas. Bem, esse é só um pesadelo que me acorda de vez em quando…” (VIVEIROS DE CASTRO)
Dilma só aparece uma vez no filme, mas sua participação ligeira se encerra com uma fala que carrega um famoso maquiavelismo: "há males que vem para o bem", diz em reunião com sua trupe nossa presidenta. É o retorno do celebérrimo "o fim justifica os meios". Que soem os alarmes da suspeita (mais uma vez!) diante de idéias assim! Afinal de contas, que males são estes que se supõe como necessários? E vem eles para o bem de quem? Ademais, não há uma certa arrogância em se bancar o profeta visionário que consegue prever com certeza os caminhos que levam aos amanhãs cantantes?
A mesma lorota já ouvimos antes: "não se faz uma omelete sem quebrar alguns ovos". O desenvolvimento do Brasil exigiria, para que a omelete saísse ao gosto do Palácio, alguns "efeitos colaterais": milhares de índios expulsos das terras onde habitaram seus ancestrais, Altamira lançada ao Caos da superpopulação e das epidemias tropicais, e tudo em prol dos sacrossantos interesses de crescimento desse país que, após tanto tempo de Complexo de Vira-Lata, parece subitamente de ego inflado, pavoneando-se de estar entre a meia-dúzia de economias mais pujantes do globo. E se tem algo que aprendi lendo as tragédias gregas de Ésquilo, é isso: a soberba causa desgraça certa.
Os que estão embevecidos com a utopia desenvolvimentista, ainda hoje, parecem pintar um cenário cor-de-rosa dos tempos que virão: um Brasil "financeiramente forte", "competitivo no mercado internacional", com bolsas de valores bombadas e demais blá-blá-blás economicistas. Enquanto isso, muitos de nós, brasileiros, não conseguimos enxergar senão com horror e pavor a perspectiva de que brotem McDonalds às margens do Rio Xingu e que logo as latinhas de Coca Cola estejam boiando nas águas junto aos cadáveres dos cardumes.
Quiçá em algumas décadas teremos realizado a proeza de que se abram dúzias de Shopping Centers na Amazônia, rodeados por imensos favelões e outros bolsões de pobreza, onde novos Caveirões da Polícia Militar possam reprimir os que tem pouco para que possam prosseguir na bonança os que têm demais. Amazônia, 2050: gigantescos outdoors de néon anunciam as mais novas maravilhas em promoção nos Wal-Marts que vieram tomar o lugar da antiga rainforest. E as outrora cristalinas águas dos rios agora estão imundas feito as do Tietê.
Essa megalomania do desenvolvimentismo, esta vontade cega de crescimento, merece ser questionada: desenvolver o Brasil em direção ao quê? Qual o nosso modelo e paradigma de civilização digna de ser imitada? Queremos de fato seguir na senda dos EUA, feito uns totózinhos servis, de mentalidade ainda colonizada, que só sabem seguir pelas vias abertas pelos outros? Vamos ficar pagando-pau pra quem cagou em cima do Protocolo de Kyoto e que não pára de se meter em guerras no Oriente Médio para defender o interesse da indústria petrolífera? Queremos de fato imitar um país cujos gastos com tanques, bombas, mísseis e demais armas de destruição em massa dá de lavada em qualquer outro país? Queremos de fato prosseguir botando lenha na fogueira do Industrialismo, quando as ruas de nossas metrópoles mal conseguem suportar novos afluxos de carros em nossas avenidas abarrotadas? Queremos o tal do desenvolvimento ao preço da uma catástrofe ambiental, de um desflorestamento brutal dos alvéolos verdes amazôneos, tão cruciais para o planeta quanto são os pulmões que cada um de nós carrega no peito?
Se Belo Monte está sendo feita para o bem das grandes empresas e das grandes empreiteiras, se o governo Dilma só está tão obstinado em prosseguir com a obra por causa da grana alta correndo nos bastidores do poder, comprando eleições e mandando e desmandando com a força da bufunfa, então não tenho dúvida de que mais e mais multidões vão engrossar o coro: "Um, dois, três, quatro, cinco, mil / Ou pára Belo Monte ou paramos o Brasil!"

* * * * *

Viveiros de Castro: “Em uma fotografia de Miguel Rio Branco, que mostra um cárcere na Bahia, lemos uma frase arranhada no reboco da parede: “Aqui o filho chora e a mãe não ouve”. Frase terrível. Seria isso o Estado: onde o filho chora e a mãe não ouve. O lugar geométrico de todos os lugares onde o filho chora e a mãe não ouve. E ao mesmo tempo, o dossel que nos protege… Fora da cela, fora da jaula, seremos devorados – é o que nos contam.
Uma intenção poético-política sempre esteve comigo e diz muito diretamente respeito a um outro modo de imaginar o Brasil: o Brasil como multiplicidade complexa, original, polívoca, antropofágica. Quem sabe mesmo um “país do futuro” em outro sentido - no sentido de que o Brasil abriga virtualmente em si uma idéia futura, inédita, do que pode ser um país? Invenção, experimentação. Contra vento e maré, reinventar o Brasil. Com os índios, entre outros.
Uma boa política, aquela que me desperta simpatia de início, é aquela que multiplica os possíveis, que aumenta o número de possibilidades abertas à espécie. Uma política cujo objetivo é reduzir as possibilidades, as alternativas, circunscrever formas possíveis de criação e expressão, é uma política que descarto de saída.
A diversidade das formas de vida é consubstancial à vida enquanto forma da matéria. Essa diversidade é o movimento mesmo da vida. A diversidade dos modos de vida humanos é uma diversidade dos modos de nos relacionarmos com a vida em geral, e com as inumeráveis formas singulares de vida que ocupam todos os nichos possíveis do mundo que conhecemos. A diversidade é um valor superior para a vida. A vida vive da diferença; toda vez que uma diferença se anula, há morte. “Existir é diferir”.
É do supremo e urgente interesse da espécie humana abandonar uma perspectiva antropocêntrica. Os rumos que nossa civilização tomou nada têm de necessários… é possível mudar de rumo, ainda que isso signifique mudar muito daquilo que muitos considerariam como a essência mesma da nossa civilização.
Falar em diversidade socioambiental não é fazer uma constatação, mas um chamado à luta. Não se trata de celebrar ou lamentar uma diversidade passada, residualmente mantida ou irrecuperavelmente perdida. A bandeira da diversidade real aponta para o futuro: a diversidade socioambiental é o que se quer produzir, promover, favorecer. Não é uma questão de preservação, mas de perseverança. Não é um problema de controle tecnológico, mas de auto-determinação política."
| — | EDUARDO VIVEIROS DE CASTRO in: Encontros (org. Renato Sztutman) Azougue Editorial Leia na íntegra |
Assista ao documentário on-line ou faça o download:
Saiba mais: http://www.facebook.com/BeloMonteOFilme
domingo, 17 de junho de 2012
"Só morto não tem outro"

"Pôr em xeque a supremacia do pensamento ocidental-moderno fazendo-o experimentar outras ontologias, outras epistemologias e também outras tecnologias." Esta é, segundo Renato Sztutman, organizador do excelente livro Encontros (Azougue Editorial, 254 pgs, R$29,90), uma das intenções das reflexões antropológico-sociológico-políticas de Eduardo Viveiros de Castro. Inspirando-se em fontes tão variadas como o Movimento Tropicalista dos anos 1960, a Antropofagia de Oswald de Andrade, a literatura de Guimarães Rosa, a análise filosófica de Deleuze e Guattari, as teorias revolucionário-baderneiras de Hakim Bey, sem falar num punhado de outros antropólogos (Lévi-Strauss, Bruno Latour, Pierre Clastres, Roy Wagner, Marilyn Strathern...), Viveiros de Castro é um dos estandartes na resistência atual "contra a sujeição cultural na América Latina aos paradigmas europeus e cristãos" (Sztutman).
Mais de 30 anos atrás, quando começou a estudar antropologia, Viveiros de Castro rememora: "naquela distante época estávamos sendo acuados pela geopolítica modernizadora da ditadura - era o final dos anos 1970, que nos queria enfiar goela abaixo o seu famoso projeto de ocupação induzida (invasão definitiva seria talvez uma expressão mais correta) da Amazônia". Um dos esforços deste antropólogo, desde então, foi revelar a complexidade e riqueza dos povos indígenas latino-americanos, com a constante preocupação em "conceber todo nativo em sua capacidade de fabricar teorias sobre si e sobre outrem", como diz Sztutman. O conceito de "perspectivismo ameríndio", que caracterizaria o jeito indígena de conceber a realidade, visa nos abrir os olhos para outro modo de perceber o real, uma perspectiva nas antípodas do cartesianismo/positivismo tão típico do nosso Ocidente.
Por "perspectivismo ameríndio" ele se refere à "concepção indígena segundo a qual o mundo é povoado de outros sujeitos, agentes ou pessoas, além dos seres humanos, e que vêem a realidade diferentemente dos seres humanos" (p. 32). "Uma das teses do perspectivismo é que os animais não nos vêem como humanos, mas sim como animais" (p. 35), aponta Viveiros de Castro. Por exemplo: para os homens, as onças no mato são apenas animais, "bestas", "feras"; mas para as onças no mato, os homens é que não passam de bichos (e de carne sedutoramente suculenta). E na perspectiva dos urubus, a carniça... é um delicioso peixe-assado. Viveiros de Castro, com aquilo que aprendeu morando e convivendo com os índios da Amazônia, nos convida a olhar o mundo como eles o fazem: concebendo uma multiplicidade de consciências que se esparramam por toda a paisagem do real, sendo que cada animal teria uma tendência a fazer de sua perspectiva uma espécie de "centro-do-mundo", de conceber-se como "subjetividade" e objetificar o outro.
Em muitos mitos indígenas, deparamos com a noção de que os animais são criaturas que foram humanas um dia. "Tal humanidade pretérita dos animais nunca é esquecida, porque ela nunca foi totalmente dissipada, ela permanece lá como um inquietante potencial - justo como nossa animalidade "passada" permanece pulsando sob as camadas de verniz civilizador" (p. 36). Donde emergem frases, aparentemente absurdas, altamente poéticas, inspiradoras de reflexões altamente interessantes, como "onça também é gente" ou "a oncidade é uma potencialidade das gentes" (p. 38).
Com muito senso de humor, Viveiros de Castro aponta: "considerar que os humanos são animais não nos leva necessariamente a tratar seu vizinho ou colega como trataríamos um boi, um badejo, um urubu, um jacaré. Do mesmo modo, achar que as onças são gente não significa que se um índio encontra uma onça no mato ele vai necessariamente tratá-la como ele trata seu cunhado humano. Tudo depende de como a onça o trate... E o cunhado..." (p. 38)
Este pensamento antropológico, decerto, tem todo um impacto político, todo um "ideal" de diversidade socioambiental, todo um plano de resistência ao que Raul Seixas chamaria de "alugar o Brasil", toda uma revolta contra os desenvolvimentismos ecocidas, destruidores não só de ecossistemas que sustentam a biodiversidade, mas desrepeitosas afrontas à outridade de outros cujas perspectivas poderiam ampliar as nossas. Olhem só o pesadelo que faz Viveiros de Castro despertar em pânico em algumas madrugadas:
"O Brasil do futuro: como diz Beto Ricardo, metade uma grande São Bernardo, a outra metade uma grande Barretos. E um punhado de Méditerranées à beira-mar plantados, outro tanto de hotéis de eco-turismo em locais escolhidos dentro do Parque Nacional "Assim Era a Amazônia", criado pela Presidente Dilma Roussef (em segundo mandato) no mais novo ente da federação, o Iowa Equatorial, antigo estado do Amazonas. Bem, esse é só um pesadelo que me acorda de vez em quando..." (p. 252)
Em tempos como os nossos, em que a terceira maior usina hidrelética do mundo (Belo Monte) está sendo construída pelo Governo Federal, e em que o Novo Código Florestal gerou legítimos protestos por parte de ambientalistas e ecologistas, é bom lembrar, como faz Viveiros de Castro, que a ditadura no Brasil agia em prol de um "projeto de desindianização jurídica". Ela consistia na presunção do Estado autoritário de que podia impor à força o estatuto de "cidadãos brasileiros" (logo, de "súdito" sob a tutela e com dever de obediência ao Estado nacional) aos indígenas. "Índio" (ao menos era o que queria a ditadura...), era "atributo determinável por inspeção" e "tratar-se ia apenas de mandar chamar os peritos"... Viveiros de Castro sugere ainda que "des-indianizar" o Brasil servia para que os militares pudessem dizer: "Esse pessoal não é mais índio, nós lavamos as mãos. Não temos nada a ver com isso. Liberem-se as terras deles para o mercado; deixe-se eles negociarem sua força de trabalho no mercado."
Em levante contra isso, Viveiros de Castro comenta: "Nosso objetivo político, como antropólogos, era estabelecer definitivamente que índio não é uma questão de cocar de pena, urucum e arco-e-flecha, algo de aparente e evidente nesse sentido estereotipificante, mas sim uma questão de 'estado de espírito'. Um modo de ser e não um modo de parecer. A nossa luta, portanto, era uma luta conceitual: nosso problema era fazer com que o AINDA do juízo de senso comum "esse pessoal AINDA é índio" (ou "não é mais índio") não significasse um estado transitório ou uma etapa a ser vencida. A idéia, justamente, é a de que os índios "ainda" não tinham sido vencidos, nem jamais o seriam. Em suma, a idéia era que "índio" não podia ser visto como uma etapa na marcha ascensional até o invejável estado de "branco" ou de "civilizado".
(Abaixo, leia mais alguns instigantes trechos do livro:)
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| Tarsila do Amaral, "Abopuru" |
"Uma combinação perfeitamente equilibrada de sedução afetiva pelo concreto e amor intelectual pela abstração não existe, e, se existisse, geraria resultados provavelmente muito pouco interessantes.
Minha imersão no "vivido" dos povos junto a quem vivi (e pensei) sempre esteve acompanhada de um forte e primordial interesse pelo "pensado" destes povos, pelo modo como o seu vivido era igualmente e inevitavelmente um pensado. Nunca tomei como real a oposição - tão tomista, tão cristã - entre viver e pensar; e jamais acreditei que para afirmar o pensamento fosse preciso negar a vida, ou experimentá-la negativamente, isto é, vivê-la no sofrimento e como sofrimento. Ao contrário, faço minhas as palavras da sutil escritora portuguesa Maria Gabriela Llansol: "Creio que onde há prazer, o conhecimento está próximo".
Viver é pensar: isso vale para todos os viventes, sejam eles amebas, árvores, tigres ou filósofos. Não é isso, afinal, o que afirma o perspectivismo ameríndio, a saber, que todo vivente é um pensante?
Se Descartes nos ensinou, a nós modernos, a dizer "eu penso, logo existo" - a dizer, portanto, que a única vida ou existência que consigo pensar como indubitável é a minha própria -, o perspectivismo ameríndio começa pela afirmação duplamente inversa: "o outro existe, logo pensa".
E se esse que existe é outro, então seu pensamento é necessariamente outro que o meu. Quem sabe até deva concluir que, se penso, então também sou um outro. Pois só o outro pensa, só é interessante o pensamento enquanto potência de alteridade. O que seria uma boa definição da antropologia. E também uma boa definição da antropofagia, no sentido que este termo recebeu em certo alto momento do pensamento brasileiro, aquele representado pela genial e enigmática figura de Oswald de Andrade: "Só me interessa o que não é meu. Lei do homem. Lei do antropófago." Lei do antropólogo.
Minha história de amor e ódio se resumiria então assim: ódio ao preceito que ensina que é preciso negar o outro para afirmar o eu, preceito que me parece (com ou sem razão) emblemático do Ocidente moderno; e amor pelo pensamento indígena, pensamento de um outro que afirma a vida do outro como implicando um outro pensamento, e que é capaz de pensar sem puritanismo intelectual (quero dizer, sem hipocrisia) a identidade profunda e radical entre antropologia e antropofagia.
[...] Eu diria que minha interpretação do perspectivismo indígena é talvez mais nietzschiana do que leibniziana. Primeiro, porque o perspectivismo indígena não conhece um ponto de vista absoluto - o ponto de vista de Deus, em Leibniz - que unifique e harmonize os potencialmente infinitos pontos de vista existentes. Segundo, porque as diferentes perspectivas são diferentes interpretações, isto é, estão essencialmente ligadas aos interesses vitais de cada espécie, são as "mentiras" favoráveis à sobrevivência e afirmação vital de cada existente.
[...] Vejo o perspectivismo como um conceito da mesma família política e poética que a antropofagia de Oswald de Andrade, isto é, como uma arma de combate contra a sujeição cultural da América Latina, índios e não-índios confundidos, aos paradigmas europeus e cristãos. O perspectivismo é a retomada da antropofagia oswaldiana em novos termos."
EDUARDO VIVEIROS DE CASTRO
Entrevista à revista Amazonía Peruana, 2007
A foto de abertura do post é do próprio: índios Arawetés, 1991.
No YouTube tem muuuuito mais...
sexta-feira, 8 de junho de 2012
Queens of The Stone Age: 7 video-clipes
Puta banda fudida! Na ordem: Go With The Flow. No One Knows. Burn the Witch. The Lost Art Of Keeping a Secret. Little Sister. In My Head. 3's & 7's. Tudo na janelinha acima: é clicar, subir o som e viajar... Have a nice trip!
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