sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

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quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

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A CONTROVÉRSIA STRAVINSKY

              por Eduardo Carli

(esse baita tijolão aê é um trampo
da disciplina "Filosofia da Arte",
que segui lá na FFLCH-USP com o Prof. Vladimir Safatle.
A quem suportar possa! :D
)



PRELÚDIO: ENTRE VAIAS E “BRAVOS!”
 
            Paris, 1913. Na prèmiere de A Sagração da Primavera, no teatro dos Campos Elíseos, a balbúrdia toma conta da platéia durante o balé do compositor russo Igor Stravinsky (1882-1971), no qual são retratados sangrentos ritos da Rússia pagã acompanhados por danças rituais. De imediato, ficou evidente que este não era um prato de fácil digestão para aqueles que o provavam pela primeira vez: a peça despertou reações extremadas de incompreensão, revolta, estranheza, espanto, desnorteio, escândalo.

         “Stravinsky conta que ao iniciar a execução de sua obra, logo nos primeiros compassos, a Sagração foi recebida com risadas e gracejos e em seguida explodiu o pandemônio que as crônicas da época registram. A descrição do impacto sobre os espectadores é clara: podia-se ler nos rostos expressões de desagrado, surpresa e terror. Quem mantinha o olhar fixo não estava dizendo senão que estava em choque. Vários músicos e orquestradores, entre eles Saint-Saëns, saíram horrorizados da sala logo na primeira parte da obra, protestando contra a maneira inusitada com que se tratava os instrumentos. A recepção variou do riso, inicialmente nervoso, para o protesto agressivo.”[1]

O próprio Stravinsky, rememorando este primeiro concerto, regido pelo maestro Pierre Monteux, comenta:



     “Eu estava na quarta ou quinta fila do lado direito, e a imagem das costas de Monteux é hoje mais vívida em minha lembrança do que o que se realizava no palco. Ele estava ali, de pé, aparentemente impenetrável, e tão destituído de nervos como um crocodilo. Ainda me parece quase incrível que tenha podido levar a orquestra até o fim. Deixei meu lugar quando os ruídos mais fortes principiaram – os mais leves se ouviam desde o princípio – e fui para os bastidores.”[2]

            No ano anterior, 1912, outra obra havia causado polêmica em sua estréia parisiense.  Prélude À L'Après Midi D'un Faune, de Debussy (1862-1918), inspirada num poema de Mallarmé e interpretada pelo dançarino russo Nijinsky, tornou-se mais uma peça que, apesar de destinada a ser consagrada pela posteridade, despertou reações bem adversas quando foi primeiro apresentada ao público. No jornal Le Figaro, por exemplo, o jornalista Gaston Calmette criticou as obscenidades de teor erótico-masturbatório na expressão corporal de Nijinsky --- um exemplo dentre tantos das querelas envolvendo esta obra que, como a de Stravinsky, nasceu envolta em controvérsia.

            Tais fatos são um bom índice de quão impactantes (e por vezes mau-compreendidas) foram as primeiras “engatinhadas” destas obras que depois seriam reconhecidas como luminares da música no século 20. O próprio Stravinsky, rememorando esta época de transformações e subversões, frisa:

          “Não esqueçamos que Petruchka, A Sagração da Primavera e O Rouxinol surgiram em um momento caracterizado por profundas mudanças, que subverteram muitas coisas e perturbaram muitos espíritos. (...) As transformações de que falo produziram uma revisão geral tanto dos valores básicos como dos elementos primordiais da música.” [3]

            Uma das reviravoltas mais fundamentais que ocorrem na estética musical ao alvorecer do século, como destaca Stravinsky, foi a transformação na visão que se tinha do sistema diatônico tradicional, que passa a ser visto como um sistema que “não possui valor absoluto”:

         “Já não estamos no contexto da tonalidade clássica, no sentido escolástico da palavra. Não fomos nós que criamos esse estado de coisas, e não é nossa culpa se somos confrontados com uma nova lógica da música que pareceria impensável para os mestres do passado. E essa nova lógica abriu os nossos olhos para riquezas de cuja existência nem mesmo suspeitávamos.” [4]


            ADORNO E A CRÍTICA À FETICHIZAÇÃO

            De certo modo, a reação do público parisiente à Sagração, apesar de distar quase um século de nós, simboliza uma dificuldade da compreensão da obra que persiste em nossa “sociedade do espetáculo” (para usar a expressão de Guy Debord) e do entretenimento consumista, na qual a arte "de vanguarda" sofre cronicamente com a ignorância, o desinteresse, o descaso ou o desprezo de ouvintes que relutam em aceitar aquilo que foge do costumeiro e quebra modelos tradicionais. Na tentativa de explicar o porquê da incompreensão de que foram vítimas as obras de compositores como Stravinsky e Schoenberg, dois nomes maiores da música no século 20, recorreremos a algumas reflexões de Theodor Adorno sobre estética musical. 

            Preocupado com o fenômeno da mercantilização da arte, com o agigantamento do processo de “liquidação do indivíduo” perpetrado pela indústria cultural e com a tendência do “ouvinte se converter em simples comprador e consumidor passivo”[5], Adorno aponta em seu clássico artigo O Fetichismo na Música e a Regressão da Audição que:

          “O princípio do ‘estrelato’ tornou-se totalitário. As reações dos ouvintes parecem desvincular-se da relação com o consumo da música e dirigir-se diretamente ao sucesso acumulado, o qual, por sua vez, não pode ser suficientemente explicado pela espontaneidade da audição mas, antes, parece comandado pelos editores, magnatas do cinema e senhores do rádio.”[6]

            A crítica de Adorno ao processo de fetichização da música passa também pela constatação de que o ouvinte passa a ter uma relação “atomizada” com a audição, ou seja, marcada por um certo imediatismo: a rememoração do que se acabou de ouvir e a expectativa pelo que ainda ouvirá deixam de guiar o processo, de modo que só se inteligem segmentos isolados da obra musical, desvinculados de seu contexto. Aquele que assovia trechos da 1a sinfonia de Brahms no metrô, para usar um eloquente exemplo adorniano, nem percebe estar lidando com as “ruínas” desta obra, suas mutilações, seus fragmentos.

         “Tal como o fetichista, que destrói de maneira metonímica a mulher para poder gozar dos traços isolados de seu corpo, o ouvinte moderno se encontraria na posição de gozo fascinado por momentos parciais, o que o desobrigaria de reconstruir a totalidade”.[7]

            Os ouvintes “já não são absolutamente capazes de uma audição concentrada”, sugere Adorno[8]. Viciados em prazeres imediatos e repetitivos, perdem a capacidade de contemplar demoradamente uma obra de arte complexa em sua totalidade. Tão habituados a consumirem produtos com alto teor de “atrativo sensorial”, de fácil assimilação, digestão e rememoração, tornam-se incapazes de suportar qualquer obra que exija deles um esforço maior de atenção e reflexão.

            O ouvinte-padrão da cultura de massas, habituado às músicas-mercadorias que a propaganda o coage a consumir, tornar-se-ia distraído, desconcentrado, sofrendo cronicamente daquela condição de que padecem tantas crianças viciadas em desenhos animados: short-attention span syndrome, ou transtorno de déficit de atenção e hiper-atividade. Tão acostumados a prestar atenção em canções pop de 3 minutos, no decurso dos quais refrões, riffs e sequências de acordes frequentemente se repetem, o ouvinte torna-se irrequieto e impaciente quando se trata de ouvir uma sinfonia inteira de Mahler.

            De modo que os ouvintes, infantilizados e irrequietos, seriam vítimas de um “mecanismo neurótico” baseado na “rejeição ignorante e orgulhosa de tudo o que sai do costumeiro. Os ouvintes, vítimas da regressão, comportam-se como crianças. Exigem sempre de novo, com malícia e pertinácia, o mesmo alimento que uma vez lhes foi oferecido. (…) A audição infantil requer sempre as soluções mais cômodas e comuns.”[9]

            Neste contexto de fetichização e mercantilização dos produtos culturais é que torna-se mais compreensível a recepção controversa das obras de muitos dos grandes compositores de vanguarda do século, cujas obras tentam escapar das armadilhas impostas pela indústria cultural e manter vivos ideais de subversão de formas naturalizadas, ampliação de horizontes musicais e libertação expressiva em relação a constrangimentos formais.

            Um excelente exemplo disto, segundo Adorno, é a música de Schoenberg, “tão diferente das canções de sucesso”, que não foi criada para entreter ou causar prazer; “não é degustada, não pode ser desfrutada”[10]. Sua música “nega a fé à fraude da harmonia existente”[11], aponta Adorno. Parafraseando a espirituosa frase de Steve Reich, lembremos que Schoenberg fazia músicas que o carteiro jamais conseguirá assoviar.

            Ora, a música destes compositores de vanguarda como Schoenberg, Stravinsky, John Cage, Pierre Boulez, dentre outros, surge sob a égide de um diagnóstico marcante para a estética musical do século 20: a de que o sistema tonal aproximava-se de um ponto de esgotamento e saturação. É o que Stravinsky esclarece:

         “Não acreditamos mais no valor absoluto do sistema maior-menor apoiado na entidade que os musicólogos chamam de escala de dó. (…) O desgastado sistema de tonalidade clássica, que serviu como base para construções musicais de fascinante interesse, só teve autoridade de lei, entre os músicos, por um curto período de tempo – um período muito mais curto do que se costuma imaginar, e que vai apenas de meados do século XVII a meados do século XIX. A partir do momento em que acordes já não servem para cumprir simplesmente as funções a ele atribuídas pela interação das notas musicais, mas, em lugar disso, esquecem todo constrangimento para se tornarem novas entidades, livres de todas amarras – a partir desse momento, pode-se dizer que o processo está completo: o sistema diatônico esgotou seu ciclo vital.”[12]

            Tendo-se sedimentado em fórmulas, clichês e procedimentos estereotipados, o tonalismo tinha se tornado uma jaula a encerrar dentro de si as aspirações expressivas de alguns artistas que, em sua ousadia quase temerária, desejavam expandir as potencialidades musicais, seja através da emancipação da dissonância, seja pelas vias do dodecafonismo, do serialismo ou do regresso à cultura arcaica.
            Esta última via foi vastamente explorada por Stravinsky, que afirmava que “uma renovação só é frutífera quando anda de mãos dadas com a tradição”[13]. Nas próximas páginas, iremos explorar mais à fundo as ideias de Stravinsky no intento de mapear sua importância na estética musical do século 20 e apontar algumas das razões da controvertida recepção de sua obra.




            STRAVINSKY POR ELE MESMO      

            A fim de avançarmos na compreensão a respeito da relevância e do impacto da obra de Stravinsky no século 20, ouçamos o que o próprio diz a respeito de suas composições e suas escolhas estéticas.

            A música, para Stravinsky, é uma criação exclusivamente humana. “O rumorejar da brisa nas árvores, o murmúrio de um riacho ou a canção de um pássaro”, apesar de sua capacidade de nos “acariciar os ouvidos”, não constituem música de fato pois falta a estes sons da natureza a organização que lhe oferece um “ato humano consciente”[14]

            O canto de uma cotovia pode até causar deleite sensorial, mas não foi concebido pelo animal com esta intenção e não é fruto de uma organização consciente; já a música “nos fará participar ativamente do trabalho de um espírito que ordena, dá vida e cria.” (idem) Nesta perspectiva, os sons que supostamente fariam as esferas celestes, segundo Pitágoras, não seriam música, propriamente falando, já que esta, na definição de Stravinsky, só se constitui quando “aos dons da natureza acrescentam-se os benefícios da elaboração humana – esta é a significação geral da arte.”[15]

            Apesar de ter sido um dos mais ousados “elaboradores sonoros” do século 20, e mesmo cônscio da originalidade de obras como A Sagração da Primavera, o compositor russo recusou ser classificado como um revolucionário:

         “Sustento que foi um erro terem me considerado um revolucionário. (...) Fizeram de mim um revolucionário à minha própria revelia. Ora, explosões revolucionárias nunca são totalmente espontâneas. Há pessoas argutas que produzem revoluções com um intuito malicioso. É sempre necessário estar em guarda contra as interpretações distorcidas dos que lhe atribuem uma intenção que você não tinha.”[16]

            Mas esta recusa de ser tido como revolucionário, da parte de Stravinski, deve-se à sua concepção sobre a arte como essencialmente construtiva e não disruptiva:

         “Na verdade, eu teria dificuldade em citar para vocês um único fato na história da arte que pudesse ser qualificado de revolucionário. A arte é, por essência, construtiva. Revolução implica ruptura de equilíbrio. Falar de revolução é falar de um caos temporário. Ora, a arte é o contrário do caos. Ela nunca se rende ao caos sem ver imediatamente ameaçadas suas obras vivas, sua própria existência.”[17]

            É como se Stravinsky se pusesse em guarda contra aqueles que, desejosos de causar impacto a qualquer preço, recorrem a expedientes um tanto arbitrários em sua tentativa de conquistar um status revolucionário.     Não se trata de negar o valor das atitudes audaciosas (“sou o primeiro a reconhecer que a audácia é a força motriz das melhores e maiores atitudes”, garante Stravinski); mas a audácia de ser caótico e arbitrário é certamente antipática ao compositor russo, que critica aqueles que “empregam-na levianamente a serviço da desordem e de um desejo mesquinho de causar sensação a qualquer preço”. Stravinsky nos alerta, pois, contra os “excessos gratuitos” e nos convida não nos deixarmos enganar pela “moeda falsa que gostaria de usurpar o lugar da audácia”[18].
            Não só contra os pseudo-revolucionários, mas também contra o esnobismo Stravinski dá vazão a seu fel: “Igualmente degradante é a vaidade dos esnobes que se jactam de uma intimidade embaraçosa com o mundo do incompreensível e confessam, deliciados, que ali estão em boa companhia. Não é música o que eles procuram, mas sim o efeito do choque, a sensação que embota o entendimento.”[19]


            KUNDERA DEFENDE STRAVINSKY
Milan Kundera

            O autor tcheco Milan Kundera, que dedicou boa parte de seu livro de ensaios Os Testamentos Traídos à obra de compositores fundamentais para a nossa problemática (como Stravinsky, Bartók, Janácek, entre outros), comenta que

“A crítica mais severa e mais profunda a Stravinsky é certamente a de Theodor Adorno em seu famoso livro A filosofia da nova música (1949). Adorno pinta a situação da música como se fosse um campo de batalha político: Schoenberg, herói positivo, representando o progresso (mesmo que se trate de um progresso, por assim dizer, trágico, de uma época que não pode mais progredir), e Stravinsky, herói negativo, representante da restauração. A recusa stravinskiana de ver a razão de ser da música na confissão subjetiva torna-se um dos alvos da crítica de Adorno; esse ‘furor antipsicológico’ é, segundo ele, uma forma de ‘indiferença em relação ao mundo’; a vontade de Stravinsky de objetivar a música é uma espécie de acordo tácito com a sociedade capitalista que esmaga a subjetividade humana; pois é a ‘liquidação do indivíduo que a música de Stravinsky celebra’, nada menos que isso.”[20]

               Polemizando contra esta interpretação adorniana da obra de Stravinsky, Milan Kundera tentará defender o compositor russo da acusação de “celebrar a liquidação do indivíduo'”.  “A Sagração da Primavera”, lembra Kundera, é “um balé que termina com o sacrifício de uma moça que deve morrer para que a primavera ressuscite. Adorno: Stravinsky está do lado da barbárie; sua música não se identifca com a vítima, mas com a instância destrutiva.” Ora, a interpretação adorniana de que Stravinsky estaria se identificando com o mal é contestável, e Kundera opõe-se a ela com eloquência:

          “Desde sempre, profunda, violentamente, detesto aqueles que querem encontrar numa obra de arte uma atitude (política, filosófica, religiosa etc.) em vez de procurar uma intenção de conhecer, de apreender este ou aquele aspecto da realidade. A música, antes de Stravinsky, nunca soubera dar uma forma aos ritos bárbaros. Não se sabia imaginá-los musicalmente. O que quer dizer: não se sabia imaginar a beleza da barbárie. (…) Dizer que um rito sangrento possui uma beleza, eis o escândalo, insuportável, inaceitável. No entanto, sem compreender esse escândalo, sem ir até o fundo desse escândalo, não podemos compreender grande coisa sobre o homem. Stravinsky dá ao rito bárbaro uma forma musical forte, convincente, mas que não mente: escutemos a última sequência da Sagração, a dança do sacrifício: o horror não é escamoteado. Está lá. Que seja apenas mostrado? Que não seja denunciado? Mas se ele fosse denunciado, isto é, privado de sua beleza, mostrado em sua feiúra, seria uma deslealdade, uma simplificação, uma 'propaganda'. É porque ele é belo que o assassinato da moça é tão horrível.
         Assim como ele fez um retrato da missa, um retrato da festa campestre (Petrouchka), Stravinsky fez aqui o retrato do êxtase bárbaro. É ainda mais interessante que ele tenha se declarado sempre e explicitamente partidário do princípio apolíneo, contrário ao princípio dionisíaco: A Sagração da Primavera (notadamente suas danças rituais) é o retrato apolíneo do êxtase dionisíaco... no entanto, a beleza apolínea desse retrato da barbárie não esconde o horror; ela nos mostra que no fundo do êxtase não se encontra senão a dureza do ritmo, as batidas severas da percussão, a insensibilidade extrema, a morte.”[21]
Chagall

            Já Ernest Ansermet, que a despeito de ter sido amigo e correspondente de Stravinsky não poupou o compositor de críticas ferrenhas, sustenta que o autor de O Pássaro de Fogo

         “não fez nem tentou fazer de sua música um ato de expressão de si mesmo; não foi por livre escolha, mas por uma espécie de limitação de sua natureza, pela falta de autonomia de sua atividade afetiva (por que não dizer, por sua pobreza de coração, que não deixa de ser pobre a não ser quando tem alguma coisa para amar)”.[22]
           
Kundera, empreendendo novamente uma espécie de defesa de Stravinsky contra tão implacáveis censuras, pergunta-se:

         “Por que essa intransigência? Será a herança do século passado, o romantismo em nós, que se revolta contra sua mais consequente, sua mais perfeita negação? Teria Stravinsky ultrajado uma necessidade existencial escondida em todos e em cada um de nós? Seria a necessidade de considerar olhos molhados como melhores que olhos secos, a mão pousada sobre o coração melhor que a mão no bolso, a fé melhor que o ceticismo, a paixão melhor que a serenidade, a confissão melhor que o conhecimento?”[23]
           
A “razão de ser da música”, para Stravinsky, não pode ser a expressão de afetos pessoais, de modo que Kundera descreve o compositor russo como um rebelde em relação ao romantismo.  Uma das peculiaridades maiores de Stravinsky seria a “recusa em ver a razão de ser da música exclusivamente na confissão da vida emocional, atitude que se tornou no século XIX tão imperativa quanto a obrigação da verossimilhança para a arte do romance da mesma época.[24]” Em outras palavras: segundo Kundera, Stravinsky foi um compositor que pôs em questão a afirmação romântica de que “o coração é eticamente superior ao cérebro”. É o que o autor d'O Livro Do Riso e do Esquecimento expressa ao nos perguntar:

“Não são as baixezas cometidas tanto com a participação do coração quanto sem ela? Não podem os fanáticos, com as mãos manchadas de sangue, vangloriar-se de uma grande ‘atividade afetiva’? Será que um dia terminaremos finalmente com essa inquisição sentimental imbecil, com esse Terror do coração?”[25]

            O próprio Stravinsky, rejeitando a tese de que os russos seriam naturalmente “arrebatados” em suas paixões, com uma tendência para o irracional e o desmedido, sustenta que “é mais que tempo de abandonar o ponto de vista banal e errôneo (e tantas vezes desmentido pelos fatos) que atribui à personalidade russa um elemento de irracionalidade inata, pretendendo encontrar nisto uma explicação para a predisposição russa ao misticismo e à devoção religiosa.”[26]

             A FERIDA DO EMIGRADO

            “A vida de Stravinsky”, como lembra Kundera, “está dividida em três partes de tamanhos mais ou menos iguais: Rússia, vinte e sete anos; França e Suíça francófona: vinte e dois anos; América: trinta e dois anos”[27]. Esta peculiaridade biográfica do compositor russo deve ser levada em conta para melhor compreendermos sua produção artística, já que esta estaria marcada por esta experiência de emigrado (vivida também por outros artistas de magnitude como Joseph Conrad, Gombrowicz e Vladimir Nabokov).
            O autor de A Insustentável Leveza do Ser afirma que “sem dúvida Stravinsky trazia em si a ferida de sua emigração”, esta “estadia forçada no estrangeiro para aquele que considera seu país natal como sua única pátria”[28]. Stravinsky “só depois da revolução [de 1917] compreendeu que seu país natal estava perdido para ele, provavelmente para sempre: começa a verdadeira emigração.”[29] Apesar das numerosas obras de Stravinsky intimamente relacionadas com a cultura russa (Mavra, de 1922, é uma ópera bufa baseada em Púchkin; Zvezdoliki baseia-se num poema russo de Balmon; A Raposa e A História do Soldado têm influência da poesia popular da Rússia etc), o compositor irá celebrizar-se posteriormente por sua aventureira jornada através de toda a história da música.

         “O começo de sua viagem através da história da música coincide mais ou menos com o momento em que seu país natal não mais existe para ele; tendo compreendido que nenhum outro país poderia substituí-lo, ele encontra sua única pátria na música; isso não é, de minha parte, uma bela versão lírica, penso assim de modo inteiramente concreto: sua única pátria, sua única casa, era a música, toda a música de todos os músicos, a história da música; foi ali que ele acabou encontrando seus únicos compatriotas, seus únicos parentes, seus únicos vizinhos, de Pérotin a Webern; foi com eles que começou uma longa conversa que só parou com a morte. (…) Seus detratores, defensores da música concebida como expressão dos sentimentos, que se indignavam com a insuportável discrição de sua 'atividade afetiva' e o acusavam de 'pobreza de coração', não tinham eles próprios coração bastante para compreender qual ferida sentimental se encontrava por detrás desse seu perambular através da história da música.”[30]
            Contra a crítica de Ansermet, que sugere em Stravinsky uma “inacreditável diversidade de procedimentos estilísticos (...) que parece uma ausência de estilo”, Kundera escreve:

            “Se Stravinsky, como nenhum outro compositor, antes e depois dele, inclinou-se sobre toda a extensão da história da música tirando dela a inspiração, isso não diminui em nada a originalidade de sua obra. (...) É precisamente seu perambular através da história da música, portanto seu ‘ecletismo’ consciente, intencional, gigantesco e sem igual que é sua total e incomparável originalidade.” [31]

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BOX com 8 CDs. Qualidade: 256kps.
           

CD 01 - O Pássaro de Fogo e A Canção da Cotovia
CD 02 - Petrouchka e A Sagração da Primavera
CD 03 - Pulcinella e Apollon Mussagète
CD 04 - The Fairy's Kiss e Renard
CD 05 - A Soldier's Tale e Pulcinella Suite
CD 06 - Sinfonia em C; Sinfonia em 3 Movimentos; Symphony For Wind Instruments
CD 07 - Concerto for Piano and Wind Instruments; Cappricio for Piano and Orchestra; Suite 1 e 2 para Pequena Orquestra; Scherzo à La Russe.
CD 08 - Mavra; Les Noces; Symphony For Psalms.

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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[1]    CAVALCANTI, J.D. A eterna Sagração da Primavera. Revista Eletrônica Digestivo Cultural, 24/03/2009. Disponível em: < http://www.digestivocultural.com/colunistas/coluna.asp?codigo=2767 >
[2]    TRAGTENBERG, Livio. Artigos Musicais. São Paulo: Perspectiva, 1991. P. 190.
[3]    STRAVINSKY, I. Poética Musical em 6 Lições. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1996. Pg. 20.
[4]    Op Cit. P. 41.
[5]    ADORNO, T.W. O Fetichismo na Música e a Regressão da Audição. In: Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1999. P. 70.
[6]    Op. cit. P. 74.
[7]    SAFATLE, V. Fetichismo e mimesis na filosofia da música adorniana. In: Revista Discurso, n. 37, 2007. P. 378.
[8]    ADORNO. Op Cit. P. 92
[9]    Op Cit. P. 94-95.
[10]  Op Cit. P. 71.
[11]  Op Cit. P. 70.
[12]  STRAVINSY. Op Cit. P. 42-43.
[13]  Op. Cit. 107.
[14]  Op. Cit. P. 31.
[15]  Op. Cit. P. 32.
[16]  Op. Cit. P. 21.
[17]  Idem.
[18]  Idem
[19]  Op Cit. P. 23.
[20]  KUNDERA, M. Os Testamentos Traídos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira,1993. P. 59.
[21]  Op. Cit. P. 83.
[22]  Op Cit. P. 60.
[23]  Op Cit. P. 59.
[24]  Op Cit. P. 68.
[25]  Op. Cit. P. 60.
[26]  STRAVINSKY. Op Cit. P. 95
[27]  KUNDERA. Op. Cit. P. 86.
[28]  Op Cit. P. 86-87.
[29]  Idem.
[30]  Op. Cit.  87-88
[31]  Op Cit. P. 68.

<<< 10 de 2010 >>>


 # 03

ARCADE FIRE
The Suburbs


"The pain of Win Butler and Regine Chassagne, the enigmatic husband-and-wife songwriting force behind the band, is not merely metaphorical, nor is it defeatist. (...) They have known real, blinding pain, and they have overcome it in a way that is both tangible and accessible. Their search for salvation in the midst of real chaos is ours; their eventual catharsis is part of our continual enlightenment." DAVID MOORE, na Pitchfork

"My family tree is losing all its leaves", cantava Régine Chassane em "In The Backseat", melancólico lullaby que encerra Funeral (álbum já amplamente coroado como um dos melhores da década passada). A beleza do verso, que lamenta que árvores genealógicas percam suas folhas e sejam tomadas por esqueléticos galhos de outono, só se amplia face à gigantesca catástrofe haitiana que tatuou com uma imensa cicatriz este ano de 2010 com os mais de 230.000 mortos, 300.000 feridos e 1 milhão de desabrigados pelo terremoto.

Esta, uma das mais desoladoras situações que frequentaram o noticiário neste ano, foi também ocasião para que a banda canadense mostrasse que enxerga bem além da música (e "além do que se vê", para usar uma expressão los-hermânica). Régine, que já havia cantado belamente sobre seu país natal em "Haiti" ("wounded mother i'll never see..."), foi à mídia nos momentos de urgência e fez campanha em prol do Stand With Haiti. Além disso, a banda se engajou na arrecadação de U$ 1 milhão de dólares a serem doados às vítimas da calamidade. Meses antes, o Arcade Fire tinha feito campanha para Barack Obama nos EUA e Win Butler tinha elogiado publicamente as atividades filantrópicas de Bono Vox.

Estas atividades extra-musicais do Arcade Fire já são uma boa demonstração de que este coletivo de artistas não aprecia a apatia primeiro-mundista daqueles que vivem na abundância material, mas são convenientemente cegos aos homens que morrem como moscas em todos os milhões de subúrbios do planeta. Se em alguns momentos parece que "the power's out in the heart of Man", como diz o poderoso épico "Power Out" (também de Funeral), há sempre aqueles que procuram reacender a chama necessária para encarar a desgraça e reconstruir a partir das ruínas.



O terceiro álbum do Arcade Fire, The Suburbs, lançamento de ampla repercussão mundo afora, serviu para sedimentá-los como uma das bandas que melhor representa o zeitgeist no Primeiro Mundo hoje-em-dia. E não surpreende que o tom lamentoso e a batalha contra a depressão sejam tão marcantes na "ambientação emocional" da banda.  Não é à toa que o som do Arcade Fire é "deprê": eles apenas canalizam o que é uma forte tendência nas sociedades industriais-consumistas "desenvolvidas" (mas que "desenvolvem", como cada vez vai ficando mais claro, muito mais tristeza, solidão, anomia e desconexão humana do que admitem as propagandas de margarina). É só lembrar das estatísticas alarmantes da OMS (Organização Mundial de Saúde), que numa pesquisa de 2000 indicou que
“o que mais mata no mundo, hoje, é o suicídio. Foram 815 mil suicídios naquele ano, contra 520 mil mortes ocasionadas por crimes e 310 mil em guerras. Ou seja, seria preciso somar as mortes decorrentes de crimes e guerras para empatar com o número de suicídios. Naturalmente, isso depende da região. Em alguns países, é a guerra que ocasiona mais mortes – como no Iraque. Em outros, como o Brasil, são os crimes. Portanto,  o mal-estar moral e ético, que pode levar a pessoa ao suicídio, manifesta-se de maneira mais forte no hemisfério norte, justamente aquele cuja cultura costuma ser considerada como a mais avançada e a mais desejável do mundo ocidental.” (YVES DE LA TAILLE, 2009, pg. 9)

* * * * * *

Há um vasto oceano entre o Canadá do Arcade Fire e a Inglaterra do Radiohead, mas o "espírito" das duas bandas não deixa de ter suas similaridades.

Ambas retratam, a seu modo, o desconforto e a angústia do "homem moderno" vivendo em civilizações capitalistas avançadas. Ambas procuram tornar sublime o angustiante desconforto dos descontentes. Ambas lidam com um certo lirismo de cativeiro: são cantos de pássaros engaiolados. E ambas desconfiam da tecnologia, são céticas quanto ao  império tecno-científico e as prometidas maravilhas de felicidade terrestre nunca cumpridas pelo hi-tech e pelo surround sound.

Decerto que Thom Yorke entrega-se mais amplamente ao queixume, sabe fazer sua voz chorar e é um cantor mais versátil e comovente. Já Win Butler, mais contido e racional, preza mais o auto-controle e o distanciamento crítico, mas sua melancolia parece tão incurável quanto aquela que tingia Ok Computer:

"I feel like I've been living in
A city with no children in it
A garden left for ruin
By a millionaire inside
Of a private prison..."

("City With No Children")



 Anos atrás, quando tentei mergulhar nos meandros de Funeral, buscando elucidar alguns dos mistérios desta belíssima obra-de-arte, cheguei à conclusão de que o Arcade Fire se defrontava essencialmente com dois desafios humanos: 1) enfrentar a morte de seres amados, penando para atravessar o luto sem sucumbir à tristeza mortal; e 2) lidar com o amadurecimento precoce imposto por vínculos afetivos rompidos. O próprio nome da banda --- "Incêndio no Fliperama" --- remete à uma repentina interrupção da brincadeira infantil, rompida por alguma catástrofe que nos chama à dureza do mundo adulto, mesmo quando ainda não nos sentimos prontos para aguentar seu tranco. Aqueles que estavam acostumados a viajar no banco dos passageiros são convocados para assumir o leme de suas vidas, e num ponto crítico da estrada...

A infância perdida e a pureza conspurcada são como recorrentes motivos de lamento na lírica arcadiana. Mas The Suburbs, o terceiro álbum do combo canadense, amplia ainda mais o leque temático da banda, demonstrando uma crescente confiança composicional de quem não teme explorar poeticamente alguns dos maiores espinhos da "vida moderna". The Suburbs é repleto de fantasmas de guerra, tédio, insônia, jardins arruinados e cinzas de um passado melhor. Ao fundo de tudo, observam os shopping centers, "like mountains beyond mountains" ("Sprawl II).

"I think I'll live to see the death of everything that's wild", canta Butler. E mais adiante: "I hope that something pure can last". 

Sem o impulso de uma utopia, resta à banda tentar criar beleza a partir do queixume. O problema é que tanta lamúria acaba, em algumas canções, vergando mais para o tedioso que para o sublime. O que mais assombra o álbum, me parece, é o fantasma do tédio. Boredom is the devil. Logo na faixa-título, que inaugura o álbum com uma linda cruza entre Echo & The Bunnymen e Neil Young, Butler solta a confissão de que a guerra nos subúrbios, longe de comover ou engajar, gera um embotamento geral: "By the time the first bombs fell we were already bored." Longe de elogiável, este sentimento que Butler encarna tão bem é sintomático de uma geração primeiro-mundista que só consegue opor à queda das bombas um bocejo entediado.


 Na faixa-seguinte, "Ready To Start", a banda escancara seu desconforto com o mercado fonográfico, o big business musical, que Win Butler comparou, em uma entrevista, a um sistema de coleta de impostos (aquele mesmo, trucidado pela chacota em "Taxman", dos Beatles). "Businessmen drink my blood", canta Butler, comparando executivos a vampiros, antes de dar razão à "galerinha na escola de arte": "Like the kids in art school said they would."

Mas o que dá o tom desta poderosa canção, das mais punky que a banda já compôs, e que remete ao Joy Division circa-1979 ou ao Gang of Four de Solid Gold, é uma crítica aos jovens que se curvam aos "imperadores" em obediência covarde. Ainda que saibam que são eles os responsáveis pelas chuvas de bombas que estraçalham os subúrbios.

 "All the kids have always known
That the emperor wears no clothes
But to bow down to them anyway
Is better than to be alone..."

("Ready to Start")


Em outras canções, o lamento se volta às "horas perdidas" ("Wasted Hours", bem mais desconsolada do que "Tempo Perdido", da Legião Urbana), à perda da amizade ("All my old friends, they don't know me now", em "Suburban War") ou às esperas infrutíferas (como em "Used To Wait", em que o eu-lírico e seu osso fraturado aguardam uma carta que não vem).


Gostemos ou não desta caravana de lamentos poéticos sublimes, o fato que não dá para contestar é que o Arcade Fire se impôs como uma das bandas mais cultuadas da atualidade, impondo respeito dentro e fora dos palcos e sugerindo que, além de terem muito a dizer, estão só começando a pôr a boca no trombone. O grupo liderado por Win Butler e Regine Chassanes entra na década 2010-19 numa posição de vanguarda, pau a pau com um Radiohead, um Wilco ou um Flaming Lips.

O mínimo que se pode dizer é que o Arcade Fire trouxe para o pós-Radiohead mais provas incontestáveis da aptidão primeiro-mundista para o lamento, a angústia e a melancolia musicada. Resta saber se esta semi-depressão, sublimizada e derretida em arte, é aquilo de que a cultura mundial necessita para se sentir revigorada após Auschwitzes e Hiroximas, Vietnãs e Iraques, terremotos e bombardeios, ou se aquilo que irá injetar vida nova no caldo da civilização terá necessariamente que sair do “Terceiro-mundo Festivo”, anunciado por Wado e seu Realismo Fantástico.


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terça-feira, 4 de janeiro de 2011

:: Oscar Niemeyer reabre seus portais para o 5º Goyaz ::


"O Goyaz Festival surgiu em 2006 com o objetivo de apresentar o que há de melhor no jazz e na música instrumental produzida no País. Em quatro edições realizadas, já passaram pelo festival artistas como João Donato, Paulo Moura, Duofel, Guinga, Leo Gandelman, Samba Jazz Trio, Ricardo Silveira, Libertango, Pife Moderno, Hamilton Pinheiro e Toninho Horta, entre outros. Com uma programação tão rica, o Goyaz Festival já se tornou um dos principais palcos da música instrumental brasileira e a cada ano ganha ainda mais expressão e importância no cenário nacional. A quinta edição do festival acontecerá de 19 a 22 de janeiro, no Centro Cultural Oscar Niemeyer, e reunirá alguns dos maiores nomes da música instrumental brasileira, como César Camargo Mariano, Jaques Morelenbaum, Yamandu Costa e Bocato, entre outros."

PROGRAMAÇÃO

19/02 (Qua) - Bocato e Múcio Guimarães
20/02 (Qui) - Marco Lobo e César Camargo Mariano
21/02 (Sex) - Tanghetto e Paraphernalia
22/02 (Sab) - Jaques Morelembaum e Yamandu Costa

Sempre às 21hrs. Entrada Gratuita. 
No Centro Cultural Oscar Niemeyer, Goiânia/Go.
Site oficial.