sábado, 18 de abril de 2009

Jeff Buckley


"There's no time for the hatred, only questions: What is love? Where is happiness? What is life? Where is peace? Where will I find the strength to bring me release? Tell me where is the love in what your prophet has said! Man, it sounds to me just like a prison for the walking dead! Oh, i've got a message for you and your twisted hell! You better turn around & blow your kiss goodbye - to life eternal, angel..."

(JEFF BUCKLEY)


"Love is not a victory march,
It’s a cold and it’s a broken hallellujah…"

(LEONARD COHEN)



Foi uma das mortes mais misteriosas que o rock já conheceu. Conta a lenda que, na noite de 29 de maio de 1997, Jeff Buckley, 30 anos de idade, bebeu um pouco de vinho, entrou num afluente do rio Mississipi completamente vestido e cantando alto um clássico do Led Zeppelin. Depois de alguns minutos nadando de costas, desapareceu debaixo d'água, deixando pasmo o amigo que tinha ficado ali, na margem, só observando a extravagância do companheiro... Dias e dias depois, o cadáver foi descoberto boiando nas águas do lendário curso d'água, aquele mesmo que testemunhou o nascimento do blues e que, nesse dia, servia de leito funerário para um pequeno gênio da música americana... e até hoje, sem achar resposta, ficamos a nos perguntar: o que diabos aconteceu?

As investigações da polícia concluíram por "afogamento incidental", já que nenhum sinal de intoxicação química foi encontrado no corpo de Jeff e a hipótese de suicídio parecia improvável. O fato é que, naquela noite, o mundo perdia um dos maiores talentos musicais que tinham surgido nos anos 90: Jeff Buckley, filho do mito do folk Tim Buckley, deixava atrás de si um pequeno legado - mas um que não pararia de emocionar, conquistar corações e influenciar dúzias de músicos e bandas. As dez músicas de Grace (além das quatro do Sin-é EP) são o único documento musical que Jeff Buckley lançou em vida. Depois, é claro, como é costume, uma avalanche de lançamentos póstumos chegariam às lojas, incluindo o inacabado segundo disco Sketches For My Sweetheart The Drunk, alguns álbuns ao vivo (com destaque para o ótimo Mystery White Boy), coletâneas de Eps (Grace EPs) e relançamentos de projetos antigos (Songs For No One, com Gary Lucas).



A morte trágica de Jeff, que parecia ecoar o fim de seu pai, morto após uma overdose de heroína em 1975, aos 28 anos, foi o que bastou para selar seu destino como um mito de primeira grandeza - e hoje não há dúvida de que ele é um dos maiores ídolos cult dos anos 90 e Grace um dos discos mais peculiares, tocantes e lindos da década. O sucesso comercial nunca veio de verdade (ele era bom demais para o mainstream...), mas Jeff Buckley conquistou uma série de fãs famosos que ajudaram a fazer seu elogio e propagandeá-lo: de Patti Smith (que convidou-o para um dueto em "Beneath The Southern Cross") a Jimmy Page (que o considerava um dos melhores vocalistas surgidos nos últimos 20 anos), de Brad Pitt (que considera a música de Buckley "uma obsessão" e que esteve cotado para encarná-lo na telona) a Chris Cornell (que gravou "Wave Goodbye", linda música de seu primeiro disco solo, em homenagem e tributo à Jeff), de Elizabeth Frazer (a vocalista do Cocteau Twins) a Bono Vox... entre muitos outros.

A história, em resumo, é a seguinte: Jeff Buckley deixou sua Los Angeles natal para tentar a sorte em Nova York no começo dos anos 90 e deu um jeito para se inserir na cena folk e boêmia do Greenwich Village - onde tocou por alguns anos em vários barzinhos, cafés e boates, lentamente construindo uma procissão de fiéis seguidores, até ser descoberto por uma grande gravadora e lançar, em 1994, este Grace. Steve Berkovitz, um dos chefões da Sony Music, revelou em entrevista à BBC (para o documentário Everybody Here Wants You) o tamanho da empolgação que Buckley causou. Era crença geral na gravadora de que ele se inscreveria na história do rock junto a nomes míticos de primeira grandeza: "Acho que a Columbia e a Sony meio que pensaram que a coisa seria: Dylan -> Springsteen -> Buckley". Não somente ele era o filho de um grande mito musical do passado, como também tinha um talento próprio inegável - não é à toa que tinha assinado um contrato de um milhão de dólares (!!) com a Columbia...

E Grace, apesar de não ter virado um sucesso de vendas espantoso (“Last Goodbye” foi a única música a se tornar um semi-hit), foi amplamente elogiado pela crítica e parecia ser apenas a primeira pedra na construção de um edifício que teria tudo para ser monumental. Todo mundo pensava que Jeff Buckley iria lançar uns 30 discos, gravar até fazer 70 anos de idade e consagrar-se como um dos gigantesco deus do rock - sim, na altura de um Dylan, de um Springsteen, de um Van Morrison... Mas ah! Esse foguete, na ascendente, explodiu em pleno vôo - e até hoje os fogos de artifício resultantes dessa explosão se esparramam pelos céus do rock, para deleite dos nossos olhos...


Convivo com Grace há pelo menos uns 8 anos, o que já basta para dizer que somos amigos de longa data, íntimos, inseparáveis, que não brigam jamais - e é incrível que eu não tenha enjoado nem um pouco de um disco que já escutei na íntegra dezenas e dezenas de vezes. Há alguma coisa aqui que impede que essas músicas envelheçam, algo que não deixa a familiaridade se tornar enjôo, algo que permanece sempre novo, sempre fresco, sempre tocante... Eu não acho difícil me imaginar com 60 anos de idade e ainda gostando de Grace tanto quanto sempre gostei (mais fácil do que ser um velhinho que curte Nirvana, isso é... :)

Grace não foi somente um mero princípio promissor de uma carreira que tinha tudo pra ser brilhante. Foi sim um clássico instantâneo e reconhecido como tal antes mesmo do fim trágico de Jeff. Essas 10 canções foram o suficiente para escrever seu nome na história da música nos anos 90 - e, se me permitem um pouco de sentimentalismo, mesmo que não houvesse mais gravação alguma disponível (felizmente há bastante material, como provam os vários lançamentos póstumos), só Grace já bastaria para que eu levasse Jeff Buckley e sua música primorosa pra sempre inscritos no coração.

Jeff Buckley é certamente um dos meus cantores prediletos de todos os tempos: que voz! QUE VOZ! Que união perfeita entre um feeling extremo e uma técnica espantosa. Que coragem para passar do sussurro que beira o silêncio ao grito mais primal. Que ousadia para ir até o limite extremo da voz, até o ponto em que parece que as cordas vocais já estão prestes a se rasgar. É de deixar boquiaberto.

Sempre me deixou pasmo, por exemplo, a maneira como ele conseguia prolongar a voz - dar um "sustain" - por um tempo incrivelmente longo, como no final de "Grace", quando ele tira do fundo da alma um inacreditável grito - que sempre me dá uns calafrios lá no fundo da alma. E, como nota muito bem o Gary Marshall, Jeff Buckley nunca se deixou dominar pelo exibicionismo ególatra que contamina muitos vocalistas de talento ("he never let his ego get in the way of the songs and Grace is mercifully free of the vocal histrionics that plague most naturally talented singers", diz Gary). E o melhor: ele parecia ter uma conexão íntima e profunda com as letras e nunca cantava palavras que não tivessem uma ressonância sentimental. "I need to inhabit every bit of a lyric", disse ele em outra entrevista, "or else I can't bring the song to you - or else it's just words..."

Sim, Grace está longe de ser um disco "homogêneo". O mesmo garoto que cantava aos sussurros a melancólia balada "Hallellujah" entrava num transe cobainiano e berrava como um endemoniado sobre um fundo quase speed-metal em "Eternal Life"... O mesmo cara que cantava com voz afeminada e operística "Corpus Christi Carol" soltava a voz como um bom rock star no refrão explosivo de "Mojo Pin"... O que levou alguns a acharem Buckley um cara incoerente e que não soube dar unidade ou continuidade ao álbum. Não concordo. Pra mim a coisa faz todo o sentido e a variedade de estilos em Grace só comprova a variedade dos gostos e habilidades de Buckley, um artista realmente plural e um vocalista ultra-eclético e de voz realmente abençoada. O lance é que ninguém aprende a cantar desse jeito: essa voz é um dom. É graça.

Tim Buckley, o paizão, também era um cara bastante eclético e que usava sua voz com uma radicalidade extrema – mas acho bobagem reduzir a música do Jeff a uma mera continuação da obra do seu velho (que Jeff, aliás, mal conheceu, que o influenciou muito pouco e que morreu quando ele era ainda criança). Apesar da semelhança de voz inegável (a genética explica...), Jeff Buckley foi pescar suas influências em outros lugares: no Led Zeppelin e nos Smiths, em Van Morrison e Janis Joplin, no Big Star e no MC5, na diva francesa Edith Piaf e no paquistanês Nusrat Fateh Ali Khan... Page & Plant, como ele sempre confessou, tiveram para ele uma influência muito mais marcante do que a música e a voz do pai. "A primeira voz pela qual me apaixonei", disse em uma entrevista, "foi aquela do jovem Robert Plant" - e ele completava, engraçadinho: "na época em que ele soava como a Janis." (É um momento hilário: "He was trying to sound like Howlin' Wolf, but he didn't. He sounded like some fucking animal.")

O disco inteiro é excelente e eu nunca tive vontade de pular música nenhuma, mas é claro que tenho minhas prediletas. “Grace”, a música, é um fenomenal exercício de exorcismo da morte e tem um dos clímaxes mais arrepiantes que eu conheço; “Lover, You Should Have Come Over” me lembra as melhores coisas do The Queen Is Dead dos Smiths e é, fácil fácil, uma das minhas 10 músicas prediletas em todos os tempos; o grunge “Eternal Life”, que entra rasgando a tranquilidade do disco com guitarras distorcidas e gritos irados, é um das músicas de rock pesado que eu mais admiro e que mais me emocionam entre todas que já ouvi – e tem outro daqueles clímaxes inacreditáveis...

As 3 covers também foram muito bem escolhidas e, melhor que isso, são muito mais do que meras "cópias" das originais: Jeff transformou cada uma delas em uma coisa absolutamente sua. A lindíssima versão para "Hallellujah", de Leonard Cohen (já gravada também por John Cale), é um daqueles casos de cover que ultrapassa a original de tal maneira que fica em seu lugar como a versão definitiva e incomparável - mais ou menos do jeito que foi com a versão de Hendrix para "All Along The Watchtower", de Bob Dylan. O standard jazz "Lilac Wine" (famoso na voz de Nina Simone) e o exercício vocal quase operístico de "Corpus Christi Carol" (de Benjamin Britten) também ficaram excelentes.




Grace é um disco atormentado, sim, cheio de angústia e melancolia, onde a voz é quase sempre o veículo para um lamento todo dolorido - repleto de sombras, como se essas músicas estivessem todas mergulhadas na penumbra... Em "Last Goodbye", é a morte do amor ("I hate to feel the love between us has died - but it's over...") e a distância e a dificuldade de vencer as barreiras entre os amantes ("Why can't we overcome this wall? Well, maybe it's just because i didn't know you at all...") o que ele narra; em "Lover...", é a ânsia por um amor impossível de satisfazer ("I'm broken down and hungry for your love, with no way to feed it... Oh, child, where are you tonight? You know how much I need it...") e a falta de experiência e de sabedoria ("Maybe I'm just too young to keep good love from going wrong..."); em "So Real", é simplesmente o medo de amar, confessado com uma simplicidade tocante ("I love you, but i'm afraid to love you... I'm afraid to love you...")... Conheço poucos versos que pareçam mais sinceros, mais humildes e mais verdadeiros.

Ouvir o canto frequentemente lamentoso de Jeff não é algo que deprima; é algo que eleva, purifica e comove - porque o lirismo e a beleza estão lá para redimir toda a tristeza. A morte é também um fantasma presente em vários cantos do álbum, mas nunca a coisa descamba pra morbidez. A mensagem de "Eternal Life" é que devemos aceitar nossa finitude, por mais amargo que isso seja ("You better blow your kiss goodbye to life eternal, angel..."), já que a morte, como canta ele em "Grace", não é assim tão má: "Não tenho medo de ir", canta, "Ela me lembra de toda a dor que vou deixar pra trás...".

Sim, a vida de Jeff, breve como foi, e tão tragicamente interrompida, não deixa com isso de ter sido completa e de ter rendido lindos frutos. Sim. Mas como evitar a imaginação dos futuros que nunca serão? Ah, tudo o que ele poderia ter sido... Nós todos, fãs de Jeff Buckley (mas não só dele: de Kurt Cobain, de Elliott Smith, de Nick Drake, de Schubert... e de tantos outros que morreram ainda na juventude, e com tanto ainda a dizer...), não conseguimos evitar essa sensação de termos perdido demais com sua morte - apesar de termos ganhado tanto com sua vida...

Muito da beleza trágica de Grace está em saber que o cara que deu à luz esta pérola não passou mesmo de uma estrela cadente, que passou pela Terra espalhando pelo céu um brilho efêmero mas memorável, antes que a morte, como sempre faz, tenha rasgado bruscamente um trabalho em andamento. É um destino trágico, sim, que nos sugere que nossas vidas nunca vão passar de rascunhos que nunca teremos tempo de passar à limpo... mas que belos rascunhos saem, às vezes! Pelo menos, se isso serve de consolo, é bom saber de algo que ficou dessa vida - e algo de magnífico. E é bom saber que sempre teremos Grace e suas dez músicas nos fornecendo um interminável alimento para a saudade...


"Grace" (1994) Legacy Edition (Deluxe)
download CD 01 || CD 02

"Sketches for My Sweetheart the Drunk" (póstumo)
download (álbum duplo em zip único)

quarta-feira, 15 de abril de 2009

:: Road Rash ::


You've been away for so long
You can't ask why
Swervedriver – Duel

Nesses dias de vida de proletário de merda o que me deixa feliz é botar o fone e escutar música no talo. E música que me dá nostalgia. E música das minhas tardes de nerd vagabuundo jogando 3do com a camaradagem. E música rock dos bão. Grunge dos bão. Anos 90 dos bão. Tempo dos bão. Continuo aqui com fone na cabeça e sorriso na cara.


1. Hammerbox – Simple Passing
2. Hammerbox – Trip
3. Paw – Jessie
4. Paw – The Bridge
5. Paw – Pansy
6. Swervedriver - Duel
7. Swervedriver – Last Train to Satansville
8. Soundgarden – Rusty Cage
9. Soundgarden – Kickstand
10. Soundgarden – SuperUnknown
11. Soundgarden – Outshined
12. Monster Magnet – Dinosaur Vacume
13. Therapy – Auto Surgery
14. Therapy – Teethgrinder

DOWNLOAD (60MB)


terça-feira, 14 de abril de 2009

:: da série PÃO QUENTINHO ::

HEAVEN & HELL [Iommi, Dio, Butler e Appice] - "The Devil You Know"
http://www.mediafire.com/?w1gjzwm1g1z [192kps - 73 MB]


DOVES - "Kingdom Of Rust" [192kps - 68 mb]
http://www.mediafire.com/?mtngtjx0ntn


FEVER RAY - idem [160kps - 54 mb]
http://www.mediafire.com/?nynhqytmdkd



GOMEZ - "A New Tide" [192kps - 73 mb]
http://www.mediafire.com/?mzomtjtzgdi



BAT FOR LASHES - "Two Suns"
http://www.mediafire.com/?vmmkium52zn [192kps - 61 mb]

domingo, 12 de abril de 2009

:: saldão de móveis coloniais ::


FEIJOADA BÚLGARA II - A MISSÃO

- os Móveis Coloniais de Acaju preparam um novo levante
para tomar de assalto o pop nacional com seu segundo álbum
-


por Eduardo Carli de Moraes


Eles não são somente uma banda: são uma comunidade neo-hippie. E vêm aí, a todo gás, convidando-nos a aderir à seita! E quem há de resistir?! Na estrada desde 1998, o Móveis Coloniais de Acaju, a big-band mais cool do Brasil, prepara-se agora para lançar seu segundo petardo. "Compl_t_", o aguardado disco novo do super-grupo de Brasília, desembarca prometendo ser um dos grandes acontecimentos no Pop tupiniquim em 2009.

O álbum foi produzido pelo gabaritado Carlos Eduardo Miranda (que já trabalhou com Skank, O Rappa, Cordel do Fogo Encantado e Cansei de Ser Sexy, entre outros) e será disponibilizado para download gratuito no site da Trama Virtual neste mês de Abril. Profetizar que será um grande sucesso não é risco algum: nada parece mais plausível do que vermos o Móveis tomando o pop de assalto e tornando-se uma das maiores bandas desse país.

Mas a responsa é grande: depois de terem lançado um dos álbuns de estréia mais espetaculares que uma banda nacional lançou nesta década, eles retornam tendo que fazer jus às altas expectativas dos milhares de fãs que já conquistaram. O disco novo chega tendo várias missões na mira: tentar transpor para o estúdio todo o punch e paixão que demonstram em cima do palco; provar que a criatividade está intacta mesmo depois da perda de um membro-chave (o guitarrista e compositor Leonardo Buzrstyn, que mudou-se para os EUA); e dar mais uns passos em direção ao mainstream nacional, onde o vácuo deixado pelo hiato dos Los Hermanos solicita um preenchimento à altura.


O grupo é composto por nada menos que 10 músicos, o que já torna a sonoridade bem mais rica do que a média, com a presença de instrumentos que incluem flauta transversal, sax, trombone, gaita e escaleta, entre outros. Talvez pelo tamanho grandalhão da turma, o som do Móveis seja tão variado e aventureiro, síntese de influências das mais diversas. Definir o som da banda, além de tarefa ingrata, seria um mutilamento: eles soam ora como uma banda de ska que gosta de Jorge Ben, ora como uma big band de jazz que tivesse um tempero MPB, ora como rock and roll de maconheiro ou como um samba-funk de malandrão – daqueles pra ouvir num churras, em dia de Sol escladante, com muitas geladas e direito a uma pelada de futebol... Uma verdadeira "feijoada búlgara", como eles mesmos curtem se auto-definir.

Talvez dê para encontrar similaridades com big-bands gringas como o Big Bad Voodoo Daddy ou o Royal Crown Revue. E no Brasil talvez seja possível enxergar no Karnak um grupo precursor dessa zoada salada mista. Mas o Móveis na verdade soa fresco e original como pouca coisa que veio antes deles. E o que é soa ainda mais inaudito e surpreendente é a performance ao vivo dos caras, que já deixou muita gente boquiaberta e encharcada de suor pelos palcos por aí. Não é à toa que ganharam reputação de terem um dos shows mais espetaculares do Brasil: em carne e osso, os malucos são uns alucinados.

O Móveis ao vivo é pura catarse: chove sobre o público uma tempestade de energia bruta e excitação descontrolada, num ritual hedonista festeiro que é capaz de nos levar a um estado quase de Êxtase. O vocalista André González parece um molecão anfetaminado que pula, se contorce, se esgoela e se esparrama pelo chão e pelos ares, sempre com a energia no talo, como um coelho da Duracell chapadaço que está sempre com as pilhas repletas. É tão cool que dá até raiva. O cara faz qualquer outro "líder" de banda nacional ficar parecendo sem sal e necessitado de passar por um Curso Intensivão de “Como Ser um Showman Do Caralho”. Ele canta como faria um Frejat mais punk e desencanado, um Amarante de cabelo-sujo ou um Julian Casablancas mais extrovertido e sacana. E sempre se entregando com toda a alma à performance.

Já os caras dos metais, pisoteando os clichês que mandam os músicos ficarem quietinhos num canto do palco, saem correndo feito uns insanos, fazem micagens e macacagens, bolam dancinhas curiosas - tudo com a sonzeira rolando. Quem já viu sabe: a banda inteira parece morrendo de tesão de estar ali, envolvida nesta Experiência Coletiva Fuderosa que apaga os contornos entre público e artista e nos junta a todos na mesma festa, no mesmo lugar do caralho, "todos juntos numa pessoa só" (como diriam os Mutantes sob efeito de LSD). Num show dos Móveis, nem é preciso ácido para que estejamos todos juntos numa pessoa só. E isso é um dos maiores elogios concebíveis que se pode fazer à performance ao vivo de uma banda. Dá pra acreditar que os putos fazem a galera pogar e pular mesmo quando estão tocando (pasmem!) uma cover do Portishead?!?

Enquanto o álbum novo não sai e uma nova turnê não se inicia, um tiragosto do futuro do Móveis já está disponível no site oficial da banda e no You Tube: vídeos da banda tocando ao vivo todas as músicas de "Compl_t_". À primeira audição, as novas composições parecem um tanto menos saborosas no quesito literário, o que talvez se explique pela saída do (ex)guitarrista Leonardo Bursztyn, que compôs as letras (geniais) de "Perca Peso", “Aluga-se Vende”, "Copabacana" e "Menina Moça", dentre outras pérolas do 1o disco. (Bursztyn, que já demonstrava ser uma mente brilhante na música, está fazendo doutorado em economia na Univerdade de Harvard, prova de que é tem mesmo uma puta cabeça).

O “novo Móveis” não possui mais a sátira social cáustica que se via em "Perca Peso" (que zoava, por exemplo, os ricaços que levam o cachorro ao cabeleireiro). Nem tem mais a constelação de referências engraçadinhas, levada ao extremo em músicas como "Copabana" (que juntava Gorbatchev, Corvettes, marajás, perestroikas, chás, iôgas e dicionários numa bizarra e irresistível canção de amor). Também ficam para segundo plano as citações culturais às pencas, que iam de Kafka (cujo Gregor Samsa, protagonista do clássico “A Metamorfose", torna-se Gregório Sansonite na música "E Agora, Gregório?") à "Fellini, Buñuel, Pasolini e Fidel" (que são imaginados juntos, numa roda de samba em Havana, em "Receio do Remorso").

Esta "aura cult" aparece bem atenuada nas músicas novas, dando a impressão de que o Móveis tornou-se uma banda mais simples e direta, com "riffs" de metais sempre certeiros e melodias memoráveis, mas cujas palavras carregam menos ambição e soam menos lúdicas. A faceta mais crítica e sarcástica praticamente sumiu (a não ser, talvez, em canções como “Cheia de Manha” ou “Para Manter Ou Mudar”). As músicas de amor parecem tomar o primeiro plano: "Cão Guia" é uma prova de que ainda é possível compor uma cancioneta romântica que soa original. "Adeus" traz bonitas promessas do eu-lírico à sua musa: "refaço meus planos para rimar com os seus / eu trago meus sonhos pra somar aos seus". Em "Falso Retrato", a tônica é mais de hostilidade ("não me enquadro com você"), enquanto que “O Tempo”, single candidato a hit, traz pílulas de filosofia sobre o quanto o amor distorce nossa percepção temporal, engatinhando ou acelerando como se obedecesse às batidas do coração.

Sim, o Móveis Colonias de Acaju tem tudo para conquistar as multidões – e seria uma glória merecida. Se a fama, que provavelmente virá mais forte do que nunca agora, será benéfica ou danosa, só o tempo dirá. Mas dá pra profetizar que um grupo tão seguro de si, e que faz tudo dando passos tão firmes, será um edifício sólido que não vai se abalar com as ventanias do pop. Os caras vieram para ficar. E não há nem sinal de cupins roendo o coração destes flamejantes móveis coloniais!



o primeiro EP (2001)
http://www.mediafire.com/?z5ggn2jiyjt [7 faixas, 20 MB]


o primeiro álbum (2003):
http://www.mediafire.com/?m12mz52ldem


preview das músicas novas:







segunda-feira, 6 de abril de 2009

sábado, 4 de abril de 2009

:: Los Porongas ::

- ACREANIDADE CONFIGURADA PARA A TRANSCENDÊNCIA -
por Eduardo Carli de Moraes

É, amiguinhos, hoje (pasmem!) falaremos sobre o Acre. Sem zueira. E olha que dele tenho até trauma: no ginásio, sempre rodava na prova de Geografia se me pedissem para nomear a capital desses "estados bizonhos". Tropeçava na decoreba e era obrigado a protestar: "vô lá saber, 'fessora?" Peguei até raiva. Agora tô superando os preconceitos. Porque visto daqui "de baixo", com este olhar preso à maior megalópole do Sudeste, o Acre sempre me pareceu como algo alien. Um lugar que eu imagino mais parecido com algum exótico país estrangeiro do que similar às paisagens poluentas e repletas de arranha-céus de Sumpaulo. E quem diria, caros leitores, que eu um dia sentiria ímpetos de pesquisar mais sobre aquelas lonjuras do Brasil por causa de uma recém-adquirida paixão por uma banda acriana! Com passaporte sônico nos tímpanos, bóra então fazer um rápido turismo cultural, subindo "por escadarias amazônicas até Marte"!..

Pedi uma mãozinha pra Wikipédia e descobri curiosidades interessantes sobre este canto do Brasil repleto de vazios populacionais, reservas indígenas e matas intocáveis: o Acre um dia já foi território pertencente à Bolívia e só foi englobado ao Brasil no começo do século 20; a produção de borracha por ali era tão exorbitante que, durante a II Guerra Mundial, os aliados foram muito auxiliados pelas nossas exportações, tanto que depois mandaram muito capital para a criação da Companhia Siderúrgica Nacional; e existem sim, pasmem, alguns "acrianos ilustres": Enéias Carneiro (ele mesmo, do "meu nome é Enéias!" e do "vote no PRONA!"), Armando Nogueira e Glória Perez. Depredando também é cultura!

Pois é de lá, das profundezas da Amazônia selvagem, erguendo-se do meio das seringueiras que produziram tanta borracha exportável, que jorra o som do Los Porongas - uma das mais incríveis, originais e idiossincráticas das bandas nacionais recém-nascidas. Gravado e produzido pelo Philippe Seabra, da Plebe Rude, o álbum de estréia dos caras é fodástico. Soa como um pós-grunge nacionalíssimo feito e tocado com muita garra, ambição e frescor de idéias. A banda, por não inserir no caldo muito tempero regional, tem potencial para ser curtida em todo território nacional, agradando a indies, grunges, hippies, MPBistas e mangue-beatniks.

O vocalista e principal compositor Diogo Soares (não confundir com seu xará, o colunista do Depredando), mostra-se um letrista prendado, cheio de versos misteriosos, associações-de-palavras pouco usuais e uma performance vocal que beira o teatral mas que jamais soa afetada. Já os riffs e dedilhados do guitarrista João Eduardo são espetáculo à parte: ele soa como um adolescente grungy, com manifesto gosto pelas sombras, daqueles que provavelmente cresceu com os ouvidos antenados em Seattle e predileção pelos pedaizinhos repletos de fuzz e bigmuff. Os Porongas parecem estar tentando estabelecer uma ponte entre o grunge e a sonoridade do britpop noventista ("Enquanto uns Dormem" começa soando como a irmã latino-americana de "High and Dry" do Radiohead) e do pós-punk deprê do começo dos 80 ("Subvertigem" é quase um abrasileiramento de "She's Lost Control", do Joy Division, inclusive contando com uma personagem feminina atormentada).


O tormento é sempre a solução
Me atormenta a calma e a mansidão


João Eduardo encarna ora um Jerry Cantrell ("Tudo ao Contrário" é Alice in Chains puro), por ora um Kim Thayil ("Suspeito de Si" lembra muito Soundgarden da última fase), indo de tranquilos e climáticos dedilhados à explosivos clímaxes saturados de efeitos. E tem até a manha de arriscar quase um stoner-metal brutal no riff de "Subvertigem" (quase um Kyuss sujão). Costumo reclamar que o rock brasileiro sofre de raquitismo guitarrístico: falta guitarra foda em quase toda banda nacional que ouço por aí (com raras exceções: o Cachorro Grande, que possui um mini Keith Richards de boina em seu line-up, sendo a principal delas). Com o Los Porongas dá gosto de ver uma guitarra ser usada de modo tão eficaz e inventivo, ainda que nada soe extremamente original - soa massa, e é o que conta.


Serei cortante como a lâmina da língua
Eu vivo à míngua do meu próprio ser
E vá crescer! Que eu sempre serei criança


Quanto à temática, uma melancolia terna, expressa em catarse poética, parece dominar o "ambiente sentimental" dos Porongas. Mas em nenhum momento eles caem no xorôrô emo tão em voga em nossos lacrimejantes tempos, ainda que certos versos venham carregados de desalento ("transparente a dor / diluída em lágrimas / e outras invenções febris", diz a letra de "Suspeito de Si"). Mas a tristeza, aqui, alça um vôo de lirismo e fina poesia, não resvalando jamais para o sentimentalismo barato.

"Sou metade com inteira dor",
canta Diogo, e ficamos nos perguntando se ele se refere a Platão e sua mítica sugestão de que somos todos partes de organismos mutilados, que um dia foram plenos, mas que agora estão condenados a ser metades em incansável e cansativa busca de suas "almas-gêmeas". "Eu não sou daqui, eu sou de Plutão / Sou um praça em combate vão", canta desconsolado, como se fosse mesmo uma metade reconhecendo-se incapaz de completar-se.

A razão espaço-tempo
é sempre tão desencontrada
Todo início quase um fim
Tanto sempre sempre acaba...

A sensação, ao embarcar na viagem poronguiana, é a de caminhar num mundo sem pistas, em estado de desnorteio, meio que às cegas, sem muitas bússolas e à luz de velas. "Vou por atalhos / Se faço curva faço nó / Eu não tenho timão / Nem direção maior", diz "Enquanto uns Dormem". É um mundo onde até mesmo as "entidades" que normalmente simbolizam a Perfeita Positividade revelam que trazem em si toda uma ambivalência e um jogo de contradições. É o caso de "Como o Sol", onde o Astro-Rei é descrito como algo mutante e pleno de consequências das mais diversas: "como o Sol / que se esconde ou se espalha / Que aquece ou atrapalha / Que derrete ou agasalha".

A cabaça das idéias
Conhecida por cabeça
Quem sabe talvez mereça
Rosa, lírio ou azaléia.


Vai-se pela vida com o peito repleto de "anseios temperados com receios, paranóias e outras dúvidas". Cada um com seu escudo e seu esconderijo. Cada um pedindo aos outros emprestadas as escadas, que vem sempre sem degraus, e que devolvemos sempre depois do Carnaval. O que importa é jogar fora "tudo o que não interessa agora" e ir, de barco à vela ou à nado, que "guarda o horizonte o nome de amanhã". Complicou? É que os Porongas estão aí nos confundindo para nos esclarecer - e essa arte é mais feita para desnortear que para apontar caminhos. É som que espalha sombras para ver se as luzes se acendem. Poesia que causa uma vertigem do bem.

A vontade é citar mais uma meia-dúzia de versos e estrofes, mas deixo aí somente o convite: caiam de cabeça no som e no "lego de palavras" poronguiano - vale a pena! É um discaço, original e lírico, catártico e sombrio, sentimental e elevado, de uma banda que conseguiu cometer logo em sua estréia um clássico instantâneo do rock independente nacional. Los Porongas é um álbum que vai revelando um valor cada vez maior com repetidas audições e possui tão numerosos quebra-cabeças poéticos que consegue manter nossas mentes intrigadas por muito tempo. Borracha o escambau: é isso aqui é o melhor produto de exportação do Acre!


DOWNLOAD (11 músicas - 256 kps - 85 MB):
http://www.mediafire.com/?zmywt13dkjj

“Contradição primeira. Urbanidade amazônica. Seiva que escorre nas veias. Ceia do cosmopolitismo. Correr nos rios assim como se corre nas ruas. Inundado a cada verão do sul. O destino. Se é que há. E se houver. Feito pelas mãos próprias. Impropriedade do termo. Porque coletivo. Despropriedade imaterial. Cultura pop?ular. Para cada verso uma nota e em cada nota um valor. Seringais perdidos em nossa memória genética. Eletrizados no passado do amanhã. Hoje. Batalha. Poética da chama. Irmandade. Los. Acreanidade configurada para a transcendência. Porongas.” - do ENCARTE do 1o ÁLBUM PORONGUIANO

segunda-feira, 30 de março de 2009

quinta-feira, 26 de março de 2009

:: radiohead no brasil! ::


por DIOGO SOARES


Saí do show do Radiohead com isso na cabeça: "Você não conhece de verdade uma banda se você somente ouviu o que tem num CD".

Não sei se outros colunistas aqui irão tecer comentários sobre o show do Radiohead, acontecido no último dia 22 de março de 2009 em Sampa. Eu não esgotarei o evento com este post, nem acho que conseguiria, mas tentarei remexer nesta coisa delicada que é a distensão entre bandas e álbuns novamente.

Ao ouvir uma dezena de músicas que passearam em meus playlists durante mais de uma década (éééé, The Bends completa 14 anos) tive a nítida sensação de que era outra banda que estava escutando. Era como se as letras viessem em minha mente, mas ao cantar houvesse um estranhamento. Não eram mais aquele grupo que ouvia deitado em minha cama, que sempre foram um assunto pessoal pra mim. Sessões de discussão ou mesmo de audição nunca foram atrativas quando se falava de Radiohead. Me incomodava por que ninguém parecia entender o que eles queriam dizer. Depois do show eu é que fiquei sem entender.

Não sei se vocês sabem, mas o In Rainbows não contava com músicas inéditas. Apesar de não contarem com uma gravação excelente era só percorrer os fóruns de discussão na internet que rapidamente vocês encontravam diversas versões destas músicas ainda com nomes provisórios.

O único paralelo que faço é com bandas em seu primeiro trabalho oficial. O grupo chega pra gravar uma série de músicas já experimentadas, seguras de si mesmas e selecionadas pelos shows da vida. E é por isso que se chama o 2º álbum de encrenca. O grupo volta de uma grande turnê, e se mete a compor músicas de uma maneira totalmente nova. E é por isso que se chama o 3º álbum de maduro. Pois já está adaptado ao novo formato de composição. E é assim que vamos distanciando o álbum do trabalho real da banda.

É certo que à partir da década de 90 o número de álbuns "ao vivo" aumentou muito nas prateleiras. Era uma forma de tentar diminuir o abismo que se formava a olhos vistos. O "ao vivo" serve para fazer releituras de músicas que em estúdio não "funcionam" e também dar uma aquecida na pegada das músicas com o som ambiente dos fãs, mais instrumentos etc.

A brincadeira que o Radiohead propôs para o In Rainbows foi bem pensada: afinal foi lançado em 2007 ou em 2008 o álbum? Nas lojas, fisicamente, chegou somente em 2008, no site saiu em 2007. Um álbum feito de músicas "ao vivo" terminadas em estúdio. Terminadas? Será que tô escrevendo isso mesmo? No show a sensação é de que In Rainbows funciona mais do que um álbum, mais do que esta coisa finalizada.

Mas não é somente isso. O In Rainbows consegue a façanha de iluminar os outros álbuns. Consegue dar garra e calor para o Ok Computer, dar batidas pop ao Kid A, e tornar o The Bends menos fácil. Meu chute é que ao realizarem suas músicas ao vivo o amálgama de In Rainbows com os outros álbuns pareceu a única maneira de realizar o projeto. Não foi um retorno ou uma releitura. Foi um passo pra frente.

As câmeras de vigilância que "perseguem" o Radiohead durante o show são uma forma deles de brincar com esta hipervisibilidade que um artista tem hoje. Apesar de tudo isso não conseguem desvendar o passe de mágica que o público descrente vê a banda realizar na nossa frente.

* * * * * *

Aproveitamos a ocasião para compartilhar a primeira parte do ESPECIAL RADIOHEAD - com um monte de raridades da banda - EPs, singles, álbuns ao vivo e coletas de lados-B. Devorem!



"DRILL" EP [1992 - 4 faixas]
http://www.mediafire.com/?tmidmmyg2zw


"ITCH" EP [1994 - 8 faixas]
http://www.mediafire.com/?eynznuo4mmm



"LOST TREASURES" [1993-1997, 2 CDs]
CD 01: http://www.mediafire.com/?zzczkwjxoqm
CD 02: http://www.mediafire.com/?zj5ux2j5imz


"AIRBAG / HOW AM I DRIVING" EP [1998 - 7 faixas]
http://www.mediafire.com/?2uznmvvumty



"I MIGHT BE WRONG" [2001 - AO VIVO oficial]
http://www.mediafire.com/?dy2t5zzyyii



"COM LAG" [2004 - 10 faixas]
http://www.mediafire.com/?nygzmxy2dfx



"THOM YORKE ACÚSTICO": aqui!

segunda-feira, 23 de março de 2009

sexta-feira, 20 de março de 2009

:: Nina Simone ::

Viagem Bipolar
- Por Bernardo Santana -


Nina Simone era o nome artístico da cantora, compositora, pianista e arranjadora norte-americana Eunice Kathleen Waymon, nascida em 1933 e, por um azar dos diabos, morta setenta anos depois, em 21 de abril de 2003. Influente como poucas cantoras populares no mundo da música, Nina (o apelido vem da palavra espanhola “niña”, pequena) fez a cabeça de gente como John Lennon, Peter Gabriel, Jeff Buckley, Alicia Keys, David Bowie, Muse, Cat Power e até mesmo de divas muito mais conhecidas que ela, como Aretha Franklin.

Talento precoce revelada no maior revelador de talentos precoces do mundo, as igrejas cristãs do sul dos Estados Unidos, Nina alcançou logo no início de sua longa carreira, um status de respeitabilidade e influência impressionante, não só por seu talento musical, mas também pela personalidade forte e ativismo social raivoso.

I Put Spell On You é um dos clássicos discos que a moça pôs na praça durante o auge de sua carreira, que durou até meados dos anos 1970. “Clássico”, aliás, é até um adjetivo fraco. Spell deveria é ser ensinado nas escolas ou aparecer sobre o verbete “interpretação musical” nas enciclopédias por aí, se é que elas ainda existem.

Se Nina Simone é conhecida por sua busca constante por expressar em música as emoções, este disco, lançado em 1965, periga ser o maior exemplo dessa atitude. Indo da melancolia frágil à alegria sacana, passando por tristeza trágica e deboche safado, o disco não só mostra como a voz é um instrumento perfeito de manipulação sensorial (quer dizer, pelo menos pra ela…) como também expõe o lado arranjadora genial da High Priestess of Soul.

Com Ne Me Quitte Pás você chora sem entender a letra. Em seguida, Marriage Is For Old Folks faz pensar: “cara, como eu sou estúpido por ter chorado na música anterior. Que se dane o amor!”. Aí vem July Tree e a montanha-russa te joga lá embaixo de novo… E assim o disco inteiro age como uma amostra grátis de transtorno bipolar do bem. Tente ouvir a penúltima canção, You’ve Got To Learn, sem sentir que, puxa vida, você tem mesmo muita coisa a aprender…

A carreira de Nina Simone tem muito mais que só I Put A Spell On You, com certeza. Mas como nós aqui do Depredando gostaríamos de ter logo mais colegas viciados, prescrevemos uma dose que cause dependência imediata de uma vez. Não diga que não avisamos. E não precisa agradecer.

terça-feira, 17 de março de 2009

:: just chicks! ::

ROLÊ DE METRÔ - VOLUME II
- seleção por Eduardo Carli de Moraes -

"vc é tudo o que come e o que consome.
consome tudo e só aumenta a tua fome!
do quê vc tem raiva e o que te deixa insone?
peito de silicone, lipo no abdomen.
se a situação tá crítica,
só te resta fazer plástica.
e de comer tanta titica
vai precisar de soda cáustica.
estética pura chula é tão patética!
astetica, estica e puxa,
da xuxa faz uma réplica.
por fora até parece mágica
mas por dentro fica a mesma lástima..."

DONA ZICA


Em homenagem tardia mas merecida ao Dia Internacional da Mulher, celebrado no último 08 de Março, Depredando disponibiliza uma coletinha de 1h hora com algumas notáveis musiquetas brazucas só com vocal feminino. O privilégio é para letras em português, mas abrimos uma ou outra exceção (The Hats e Bluebell). Por razões de homogeneidade, separamos também os sons mais sussa dos mais púnque (e nos permitimos repetir algumas bandas, como o Luxúria, que tem pepitas notáveis tanto no ramo das baladas quanto na das porradas). Então não se assustem: o disco começa devargarzinho, mas vai ganhando pique. Ia botar uns riot grrrl loucos no meio (tipo Bulimia, Anti-Corpos e TPM - Trabalhar Para Morrer), mas as gravações são tão zuadas e cheias de ruído que iam bagunçar o disquinho... Sugestões de outras bandas indie que merecem estar nas próximas coletas, berrem nos comments. Curtam ae!

PLAYLIST:

MAIS SURSSA
01. tiê, "passarinho"
02. bluebell, "la vie en chose"
03. luxúria, "lama"
04. dona zica, "nua e crua (psico samba)" [feat. b negão]
05. nina becker, "o bom veneno"
06. transmissor, "janela"
07. os the dárma lovers, "sr. da dança"
08. mallu magalhães, "vanguart"
09. plano próximo, "eu só queria conhecer seu cachorro"
10. érika machado, "alguém da minha família"
11. casino, "samba dada"
12. stela campos, "questão de prioridade"
13. karine alexandrino, "ando jururu"

UM TANTINHO MAIS PÚNQUE
14. luxúria, "frankenstein do subúrbio"
15. dominatrix, "vá lá"
16. biônica, "aventuras da berne biônica no país tropical de atabaques"
17. plano próximo, "vou capotar"
18. the hats, "little rocker"
19. leela, "ver o que faço"
20. bluebell, "who's the freak"

DOWNLOAD (68 MB): http://www.mediafire.com/?ymec4tokzti

domingo, 15 de março de 2009

:: Grito Rock ABC ::


- Por Joh Excambau -


Pela primeira vez, fui compelido pelo destino a comparecer ao Grito Rock, festival de música independente que ocorre em diversas cidades no Brasil durante o período do Carnaval. Neste caso, especialmente à edição ABC do festival, que é abrigado já há dois anos sob o teto do Cidadão do Mundo. 


O Grito Rock ABC 2009 aconteceu e ponto: Aconteceu! Só isso já o faz exceção à regra. Contra todas as adversidades, mas a favor da expressão cultural, o Grito Rock segue desde 2003, mostrando o que é possível ser feito com vontade, parceria e organização.



MÚSICO IGUAL PEDREIRO

Foi numa manhã, bem manhã mesmo, que passei pela ponte que liga meus caminhos a São Caetano do Sul, SP – o "C" do famoso ABC paulista, que me lembra indústrias, o movimento punk e a efervescência sindical dos anos 80, começo do final da ditadura no Brasil. O tempo passou, os ditadores foram depostos (foram?), mas a chama se mantém acesa nos diversos projetos que o Cidadão do Mundo toca pra frente, sempre em frente.


Naquele dia, quando entrei na sede, os caras estavam em obras. A toque de caixa. Se preparando como loucos para o Grito Rock, que estava marcado para 2 ou 3 semanas a partir dali. Era escada pra um lado, lata de tinta pra outro, cursos rolando, alunos, palestrantes, todos ali estavam completamente contaminados e se organizando, tomados pela vibe da batalha que estava por vir. Isso às 8 da matina de um sabadão nublado! 


MISSÃO DADA É MISSÃO CUMPRIDA

E foi em outro sábado, 07 de março, que tivemos a honra e o privilégio de comparecer e contemplar o trabalho feito. A missão fora cumprida e com louvor. A sede estava pronta, as pessoas felizes, o som acertadíssimo e a web-rádio estava propagando os shows que se seguiam de forma crescente em sua intensidade.


Estava entretido com a verdadeira festa que tomou a rua Rio Grande do Sul – muita coisa aconteceu – e único show que pude apreciar, com mais calma, foi o do Lenzi Brothers, que mandou o verdadeiro e puro rock and roll. E mandou com vontade!


"NÁNÁNÁ É O DIABO!"

Uma apresentação com energia. E ela fluía dos solos, era visível na expressão do batera - Matheus, e alcançou um pico legal quando Márcio Lenzi exibiu o velho e sempre eficaz truque do solo com a guitarra nas costas (manobra também conhecida como Back Flip in Flames Solo). Deus salve a pentatônica e a música do sul do Estados Unidos!


Apesar de pesado e maciço, o som que saía do trio deixava claro as melodias nas bases e nos backing vocals-na-hora-certa. Era o específico-necessário para a sonoridade que te faz bater o pé, balançar a mão ou entrar no pogo. Um som sem frescura e contagiante.


Depois, rolou uma entrevista com os caras do Lenzi Brothers, Cidadão do Mundo e alguém do Circuito Fora do Eixo. Bem legal. Ver essa estrutura montada era emocionante!


Penosos, abandonamos o barco ainda cedo (faltava ver Macaco Bong e Thunderbird), mas certos de que aquele momento era admiravelmente memorável – o que nos dá a certeza de que o ânimo de quem trabalhou para o Grito Rock ABC acontecer se encheu de energia para as próximas edições, e para tocar pra frente o barco independente.


Vida longa ao Cidadão do Mundo!


Vida longa ao Grito Rock ABC!


Myspace da banda:

Músicas para download:

quinta-feira, 12 de março de 2009

:: THE NAME - ASSONANCE ::



HERE, THERE AND EVERYWHERE
- Banda de Sorocaba prova que Londres cabe no Brasil, e que a vanguarda sonora brazuca está em qualquer canto além da capital de São Paulo -

por Ana Alice Gallo


Apenas 10 minutos de permanência no Milo e a fumaça do local já entupia minhas narinas. Pegar uma breja foi um pouco de consolo, mas nada tirava meu mau humor de uma sexta-feira esfolada. Olhei de relance para os caras que, segundo me mostravam, tocariam naquela noite. Nada de grandes produções de figurino, três sujeitos aparentemente normais confundiam-se com os espectadores e alguns gatos pingados que sacolejavam na (pseudo) pista do local. Suspirei e desejei minha cama.

O cuspe caiu na testa quando os rapazes da The Name empunharam instrumentos e notebook e eu fui obrigada a segurar o queixo. Mal podia acreditar que aquele som era brasileiro. Rapidamente fui transportada para algum pub londrino, daqueles em que você não sabe ao certo se é 1980 ou 2080. O ano, na real, era 2007, eles já haviam lançado um primeiro EP, “Gone”, e eu gravei o nome da banda na minha discoteca particular.

Meu queixo voltou a cair há poucas semanas, quando ouvi o segundo EP do grupo, “Assonance”. Produzido pelo grupo em parceria com Eduardo Ramos e Sergio Ugeda, o projeto traz guitarras mais encorpadas, porções generosas de experimentalismo não-orgânico e uma banda calejada da estrada que dá gosto. O álbum me levou ao mesmo sentimento estrangeiro – algo como um jogo de poker entre Robert Smith, Alex Kapranos e Alex Turner – mas, ao mesmo tempo, mostra a capacidade das bandas brazucas de todas as partes do país de produzirem um som com linguagem sem fronteiras.

O Depredando bateu um papo assonante com o grupo por e-mail a respeito do novo EP e traz o link fresquinho do álbum pra você conferir se a gente tá mentindo. Bom apetite.

Do primeiro EP Gone, de 2006, para o Assonance, é possível perceber de cara um timbre mais encorpado de guitarras e mais elementos eletrônicos. Isso foi fruto da estrada ou tem a ver com a inclusão de mais gente na produção além da banda?
Achamos que são as duas coisas, para dizer bem a verdade. Além da produção do Du e do Ugeda, tivemos a oportunidade de fazer bastante durante o processo de composição e gravação, contando com a turnê que fizemos junto com o Macaco Bong. Inclusive, das cinco músicas gravadas inicialmente, apenas "Come Out Tonite" ficou no EP final, as outras foram descartadas.

Como foi o processo de compor e gravar? Rolou tudo de uma vez ou as músicas foram surgindo ao longo do tempo?
A gente começou a gravação com músicas que já estavam compostas. Depois do começo das gravações e a possibilidade de testar essas músicas na estrada, repensamos timbres, arranjos e compusemos músicas novas, que acabaram entrando no EP. A música "Assonance", por exemplo, foi gravada exatamente como foi composta, pela primeira vez, em uma jam de estúdio.

Algumas influências de vocês ficam um tanto nítidas (e por favor me digam se foi impressão, please), como grandes bandas da nova safra, tipo Arctic Monkeys e Franz Ferdinand, até todo o caldo sonoro dos anos 80, incluindo The Cure. Isso ainda vale? As influências mudaram, ficaram mais fortes ou menores nesse segundo álbum?
Legal! Inesperada a citação destas bandas! The Cure e Franz a gente curte, mas não foram influências diretas durante as gravações e durante o trabalho de arranj
os e composições. Podemos citar Liquid Liquid, Chic e Pil, por exemplo, como bandas que tiveram relevância nas influências do EP. Além de serem bandas que ouvimos com bastante frequência hoje em dia!

Vocês são do interior de SP. Pela sonoridade urbana-contemporânea da banda, vocês enfrentam muito problema para conseguir um espaço longe da capital, ou até mesmo em outros estados?
É engraçado, mas, em quase 3 anos de existência, fizemos apenas quatro shows aqui. O intercâmbio entre produtores e bandas, além do incentivo da imprensa independente, ajuda muito na hora de ir pra outros estados e outras cidades. A gente acha que Sorocaba está caminhando para se tornar, como foi no final dos anos oitenta e durante os anos noventa, mais um pólo do circuito independente do estado. Ainda tem muito trabalho pela frente, mas logo esperamos que isso se torne real.

É possível seguir na cena independente sem um grande padrinho "celebrindie" por trás? Como vocês buscaram o espaço de vocês?
A gente começou sem conhecer ninguém. Achamos que a postura, o profissionalismo e a persistência contam muito antes de pensar em um padrinho ou algo do gênero. No início, gravamos e começamos a mandar material pra quem a gente pesquisava na internet, como blogs, revistas, outras bandas e aos poucos o pessoal começou a conhecer e abrir portas para shows, resenhas e matérias. A primeira aparição nossa em um veículo independente foi na TramaVirtual e isso nos deu muito acesso na época. Depois, com o passar do tempo você começa a conhecer algumas pessoas que podem te ajudar e a coisa caminha para que você tenha uma parceria com uma produtora (no nosso caso a Tronco Produções) e um produtor musical e artístico (trabalhamos com o Eduardo Ramos, também da Tronco), que ajuda muito na hora de colocar seu trabalho no meio, continuando sempre a ser independente.

DOWNLOAD: Baixe o EP “Assonance” aqui