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quarta-feira, 2 de junho de 2010

:: especial BANANADA... parte final ::


"Exaltar a era dos festivais — onde surgiram grandes nomes da MPB como Caetano Veloso e Chico Buarque — é um argumento clássico dos saudosistas. Bem, agora eles não têm mais do que sentir saudade: a era dos festivais está de volta. Nunca houve tantos festivais de música popular no Brasil, nem mesmo no tempo em que Nara Leão usava saia acima do joelho e Sérgio Ricardo atirava o violão na plateia. Em geral realizados em capitais brasileiras fora do eixo Rio-São Paulo, pelo menos 38 são vinculados à Abrafin, Associação Brasileira de Festivais Independentes (sim, existe até uma entidade que reúne dados sobre o assunto). De acordo com a Abrafin, em 2008 cerca de 800 artistas se apresentaram em eventos como o Bananada, o Rec-Beat, em Recife, e o Calango, em Cuiabá. Estima-se que tenham reunido, ao todo, um público da ordem de 250 mil pessoas.

No essencial, os festivais do século 21 têm a mesma função dos realizados na década de 1960: revelar novos talentos. No restante, e a começar pelo fato de que não são competitivos, são completamente diferentes. Essas diferenças estão ligadas às mudanças que o mundo da música experimentou nos últimos anos. A década de 60 do século passado foi o período em que a televisão se consolidou como principal meio de divulgação de música popular, superando o rádio. Os festivais eram promovidos por emissoras como a Tupi e a Excelsior. Quando apareciam na televisão, artistas como Caetano Veloso e Chico Buarque passavam a fazer parte de uma espécie de mainstream da música e, assim, conseguiam contratos com grandes gravadoras. Hoje o conceito de mainstream não existe mais. A internet vem substituindo o rádio e a televisão como principal meio de divulgação de música. As gravadoras enfrentam dificuldades financeiras, e os artistas, novos ou não, sobrevivem sobretudo de shows. É justamente esta uma das principais funções dos novos festivais: ver quem se sai bem no teste do palco."
- JOSÉ FLÁVIO JR, Revista BRAVO!, Maio de 2009

:: FAÇAMOS JUNTOS!  ::

Uma das coisas mais impressionantes que venho notando, conforme vou conhecendo mais e mais a cultura de Goiânia, tendo marcado presença no último Bananada e Goiânia Noise, sem falar em outros shows esporádicos nos pubs da cidade, é o quanto a “cena” por ali é forte. Não sei se "cena" é palavra mais adequada para descrever o troço, mas é aquela que foi consagrada pelo uso --- tanto que falamos hoje em “cena de Seatlle na era grunge”, “cena de Manchester na época dos Stone Roses”, “cena de Brasília no rock brazuca dos anos 80” ou “cena de Recife quando estourou o manguebeat”, e entendemos mais ou menos bem o que queremos dizer...

“Cena musical”, me parece, é um conceito que descreve o “complexo” de eventos e acontecimentos relacionados à música que ocorrem em sincronia e de modo simultâneo em uma certa cidade, num certo período, incluindo aí não só uma profusão incomum de bandas e artistas, mas de gravadoras e selos, fanzines e blogs, pubs e festivais, cartazes e panfletos, articulados de modo que a cooperação entre estas partes ocorre num grau bem superior ao comum. Pois uma cena é essencialmente uma questão de comunicação --- entre pessoas, artistas, bandas, empresas, jornais, instituições, ativistas... em suma: pessoas em sinergia. Uma cena forte é uma cena em que a comunicação é intensa, a troca de idéias é constante, o “agito” não cessa, de modo que qualquer um sinta, sem dúvida, que há uma “efervescência cultural” rolando.

Não é a quantidade de bandas tocando que constrói uma cena. Qualquer metrópole tem trocentas bandinhas de garagem, o que não impede uma hierarquia entre a “qualidade” das respectivas cenas. São Paulo e Rio De Janeiro, apesar de seu gigantismo e importância econômica, não possuem nada que se assemelhe a uma "cena" que seja capitaneada por um grande festival de rock independente como um Abril Pro Rock ou Rec Beat (Recife), um Goiânia Noise ou um Bananada (Goiânia) , um Casarão (Porto Velho), um MADA (Natal), um Calango (Cuiabá) ou um Porão do Rock (DF). A Nova Era dos Festivais, como aponta o Zé Flávio Jr., se desenrola "fora do eixo" Rio-São Paulo.

É importante frisar que estes dois festivais que ocorrem anualmente em Goiânia, cidade que já foi apelidada pelo Jornal O Globo como "a nova capital do rock", já se tornaram instituições sólidas, que ocorrem todos-os-anos com uma certeza e uma pontualidade digna de um ritual religioso. O Bananada comemorou em 2010 seu 12º aniversário, e o Noise irá comemorar seu 16º neste ano, o que é um feito pra lá de louvável para um festival de rock independente neste país. "15 anos não são 15 dias". Chegar à "adolescência" (a mais rock and roll das idades!) é um prodígio num país que vê tantos recém-nascidos morrendo no nascedouro (como ocorreu com o Groselha Fuzz, no interior de São Paulo, evento muito bacana que rolou anos atrás como uma espécie de Woodstock ribeirão-pretense, mas que naufragou logo no primeiro dia, tendo cancelado o seu segundo dia e sua segunda edição).

Hígor Coutinho, blogueiro forte na "cena", comenta que

"O tempo também garantiu ao Noise, ano a ano, o título de maior festival independente do Brasil. Mas o “maior” da honraria diz respeito menos ao seu tamanho que à sua importância. Em dimensões físicas e quantitativas, o Noise não é o maior festival independente do País, mas é seguramente o mais influente. E talvez sua posição estratégica, tanto no calendário quanto no mapa, tenha favorecido o destaque: Goiânia se localiza no epicentro do território brasileiro, o que facilita o deslocamento de visitantes e bandas vindos de qualquer outra grande cidade. E o fato de ser o último grande festival do ano faz do Noise um grande ponto de encontro de produtores, bandas e jornalistas, que interagem tanto numa espécie de balanço anual das realizações do circuito, quanto nas projeções para o ano seguinte."

Indispensável frisar também o imenso mérito da Monstro Discos neste quadro. Guardadas as devidas proporções, sinto que a Monstro tem feito por Goiânia aquilo que a Sub Pop fez por Seattle. E foi fascinante pra mim conhecer pessoalmente o headquarter monstruoso, lá no número 1.000 da Avenida Circular, notando que de dentro duma salinha apertada, minúscula, quase uma kitnet, repleta de Cds, vinis, pôsteres e camisetas (smells like teen spitit?), essa galera têm feito tanto para botar combustível novo no rock'n'roll nacional.

E que diferença entre o tamanhico do escritório da Monstro e a literal monstruosidade dos dois festivais anuais idealizados e concretizados pelos caras! O Bananada (no 1o semestre) e o Goiânia Noise (no 2o) não são somente 5 dias de música, em maio e em outubro, onde dúzias de bandas se reúnem numa grande festa. São algo que “articula” toda a cena de modo a deixar O ANO INTEIRO com cara de que “algo tá acontecendo”.

Isto quer dizer o seguinte no cotidiano das bandas locais: todo mundo sabe que, com certeza, todo ano tem Bananada e Noise, e isto é um baita dum incentivo pra tocar, ensaiar, compor, se mexer. Uma banda iniciante de Goiânia já nasce com a perspectiva muito instigante de ser escalada pro line-up do próximo ano, já que a organização sempre reserva um pequeno espaço para as “bandas mirins” --- caso do Ultra Vespa, do Coerência, do Space Monkeys e do !Oye!, que tiveram 20 minutos cada no Bananada 2010.

Mas Dizer que a “cena local” é forte pode levar à idéia enganadora de que se trata de uma cidade auto-centrada, “fechada” em si mesma, quando o oposto é o verdadeiro: as portas de Goiânia estão abertíssimas para quem vem de fora. O Bananada e o Noise, apesar de recheados de atrações da região (incluindo aí Brasília, Anápolis e outras...), representam um apanhado geral do que de melhor acontece na cena independente nacional, latino-americana ou mesmo mundial.

O Bananada 2010, por exemplo, contou com bandas de 11 Estados e do Distrito Federal: Paraná (1), Minas Gerais (1), Rio Grande do Norte (1), Sergipe (1), Bahia (1), Ceará (1), Acre (1), Paraíba (2), Brasília (2), São Paulo (3), Rio Grande do Sul (3) e Goiás (27), além de um grupo do Chile, totalizando 45 shows. Já o Noise do ano passado, também recheado de atrações nacionais, contou com bandas do Chile, do Canadá, da Suíça, da Argentina e dos Estados Unidos.

* * * * *

O que temos visto, nos últimos tempos, é uma profusão de festivais espetaculosos e super-produzidos, financiados por grandes multinacionais, especialmente do ramo da telefonia e da internet --- como o TIM Festival, o Claro Que é O Rock, o Motomix e o Planeta Terra. São eventos grandiosos, elitizados, carésimos, centrados em grandes atrações internacionais ou bandas brasileiras que tem contrato assinado com majors. São paquidermes capitalistas que tomaram o lugar dos velhos Free Jazz e Hollywood Rock, que aliás eram bancados pelos propagores-de-câncer da indústria tabagista tão bem satirizados no Obrigado Por Fumar. E estes "mega-eventos" às vezes soam como “duelos de esgrima”, no palco da nossa economia privatizada e dominada por mega-corporações, entre a Tim, a Claro, a Motorola, a Terra, a Campari, dentro outras grandes empresas. Não acho que seria uma tese ingênua dum comunistinha simplório sugerir que são feitos mais em vistas do lucro do que da promoção de uma cultura genuinamente popular.


A lógica vigente no Bananada, no Noise e nesta profusão de festivais de música independentes hoje operantes no país é outra, completamente. Os ingressos, ao invés de custarem 200 reais, o que já “recorta” o público, "tesourando" toda a imensidão de gente abaixo da classe média, custam em média umas 20 pilas/dia. E pensem bem: 20 conto pra ver 15 bandas é uma pechincha supimpa!

Um dos fatores mais pé-no-saco dos grandes festivais são os longos intervalos entre os shows. Lembram da era geológica inteira que decorreu até que os Strokes surgissem depois do Kings of Leon naquele TIM? Ou daquele atraso monumental que fez com que o show do Killers, anos atrás, começasse umas 3 horas depois do horário previsto? E daquele quase insuportável aperto, no meio da muvuca e da suvaquiera, enquanto vocês esperavam aquela trupe de dúzias de roadies e engenheiros de som preparando o palco de acordo com as ultra-pessoais exigências de mega-artistas como Björk e Radiohead?

Sem dúvida que, na maioria dos casos, a treta compensa. Mas o Bananada e o Noise trazem um outro modelo de festival, muito mais curtível e agradável, onde o som ao vivo rola quase sem interrupção num ping-pong muito bem sincronizado entre os dois palcos. No Centro Cultural Martin Cererê, fundado em 1988, os shows ocorrem em dois espaços fechados, de acústica excelente (de modo que a música não se “dispersa” como ocorre em grandes espaços abertos), distantes um do outro uns míseros 50 passos ou 30 segundos de caminhada. Ou seja: são praticamente um do lado do outro.

Os shows são estritamente limitados a 30 minutos de duração, sem exceção. Não adianta a galera pedir bis. Acabou o show, todo mundo vaza rapidinho do teatro; as portas são fechadas e a próxima banda inicia a passagem de som; imediatamente, começa no outro palco um novo show; quando este acabar, o mesmo processo se repete.

Revista Bravo!


Este método é excelente por vários motivos. Primeiro: no Bananada e no Noise não existem aquelas pragas que eu chamaria de “lesmas de grade”. Ninguém consegue ficar grudado lá na frente do palco o tempo todo, feito um centro-avante que só fica na banheira, porque ao fim de cada show a galera é obrigada a circular. Isto também significa que cada show é um novo show: a galera entra junta no espaço, se aloca nele de modo sempre original e diferente em relação ao show anterior e ao posterior, numa excitante e constante “mobilidade” que contraste radicalmente com a “estagnação” que se nota nos grandes “shows de multidão”, onde é tão difícil andar quanto dentro dum busão lotado em Sampa na hora do rush.

Um festival de relevância na cultura não se limita à esfera da música, mas transborda para o domínio do comportamento. A galera, por exemplo, acende béques compridérrimos na frente dos seguranças, que tratam aquilo com a naturalidade de quem vê alguém comendo pamonha. Fica a sensação de que foram instruídos a levar numa boa o consumo de substâncias de expansão da consciência e só ficar de olho para coibir tretas --- que, aliás, se ocorrem, são extremamente raras. Eu mesmo não testemunhei nenhuma, no Noise e no Bananada inteiro, em que vige um clima de brôdágem e de zueira que nada tem a ver com animosidade ou violência. Nos grandes festivais capitalistas, há também uma cisão radical entre artista e público: nenhuma das 50 mil pessoas que estavam lá no About Us assistindo ao Radiohead poderiam acreditar que daria pra “trocar uma idéia” com o Thom Yorke ou o Johnny Greenwood ali no gramadão da Chácara do Jockey. Estamos frente a artistas que andam com guarda-costas armados, em carros blindados, que ficam em camarins inacessíveis, que só conversam com pouquíssimas pessoas da produção e quiçá um outro membro da grande impresa...

Mais uma vez, uma lógica totalmente diferente rola no Bananada e no Noise. Aqui não só não há fronteiras entre público e artistas; os artistas, aliás, são grande parte do público. São bandas prestigiando bandas, bandas aprendendendo com bandas, numa reunião-celebração que desdenha de hierarquias e separações. No começo da noite de sábado, por exemplo, os caras do Black Drawing Chalks, grandes headliners do festival, bebericavam e conversam numa bowa, no meio da galera, fundidos sem frescura no público.

Outro fator de fortalecimento da cena é a capacidade da “galera” de lidar com as diferenças sem rachar-se em panelinhas. Neste quesito, também, vejo o Bananada e o Noise como festivais muito positivos onde os punks, os metaleiros, os indies, os emos, os grunges, os folkies, os hippies, os roqueiros tiozões, dentre outras tribos e etiquetas, all come together. Seria impossível, aliás, que uma festival com 45 bandas conseguisse atingir algo parecido com uma “homogeneidade” musical --- e isso seria mais uma limitação de perspectiva do que uma virtude, creio eu. Muito melhor que seja como é: uma celebração da diversidade (de sons, batuques, melodias, ritmos, sotaques, cores, tribos e visões-de-mundo) que convivem em paz, deixando-se mutuamente se influenciar.

Estes são festivais pra quem leva a Independência a sério. Pra quem não quer comer só aquilo que já foi mastigado e empacotado pelo mainstream.  Pra quem quer fazer acontecer uma cultura que não nasça escravizada pelas grandes corporações. Pra quem não deixa seu gosto ser moldado pela MTV ou pelas FMs movidas a jabá. Pra quem tem fome de novidade e curiosidade para ouvir as bandas que despontam, ainda sem renome ou reputação, mas que nascem, muitas vezes, empolgadas, deslumbradas, cheias de sonhos e planos. Pra quem acredita no do-it-yourself. Ou melhor: no do-it-together, como sugeriu o Fábrico Nobre, do MQN, da Monstro e da Abrafin, em sua matéria para o Nagulha. Vale frisar, ainda, o quanto a cibercultura, com sua troca de dados e idéias de modo descentralizado e sem-censura, tem possibilitado uma discussão e um diálogo entre as diferentes "cenas" brasileiras inimaginável antes da internet --- vejam, por exemplo, os imensos debates-por-comments no Scream &  Yell e n'O Inimigo.

Pra terminar, queria sugerir um paralelo instigante desta "Nova Era dos Festivais" na música brasileira com as sugestões do "baderneiro" e "crítico cultural" Hakim Bey. Pois nem me parece absurdo dizer que aquilo que se cria durante um Noise ou Bananada é uma daquelas Zonas Autônomas Temporárias de que fala o Bey: espaços de florescimento cultural e libertação comportamental, provisórios mas cíclicos, onde as pessoas ganham voz e uma possibilidade de agirem longe das repressões costumeiras. 

Hakim Bey chegou a pensar na "TAZ como festival" no capítulo 3 - "A Psicotopologia da Vida Cotidiana", onde destaca o valor de um acontecimento coletivo
"no qual todas as estruturas de autoridade se dissolvem no convívio e na celebração", com a "emergência de uma cultura festiva distanciada ou mesmo escondida dos pretensos gerentes do nosso lazer. 'Lute pelo direito de festejar!', hino do grupo Beastie Boys, não é, na verdade, uma paródia da luta radical, mas uma nova manifestação dessa luta, apropriada para uma época que oferece a TV e o telefone como maneiras de 'alcançar e tocar' outros seres humanos, maneiras de 'estar junto'! (...) Seja ela apenas para poucos amigos, como é o caso de um jantar, ou para milhares de pessoas, como um carnaval de rua, a festa é sempre 'aberta' porque não é 'ordenada'. A espontaneidade é crucial.
A essência da festa: cara a cara, um grupo de seres humanos coloca seus esfoços em sinergia para realizar desejos mútuos, seja por boa comida e alegria, por dança, conversa, pelas artes da vida. Talvez até mesmo por prazer erótico ou para criar uma obra de arte comunal, ou para alcançar o arroubamento do êxtase. Em suma, uma 'união de únicos' (como coloca Stirner)..." (Zona Autônoma Temporária, pg. 25-27, editora Conrad).

Éissae!

domingo, 30 de maio de 2010

:: especial BANANADA... parte 4 ::


:: PRA MACACO ALGUM BOTAR DEFEITO ::

"Ao contrário do que gosta de pensar a maioria dos nossos deslumbrados visitantes casuais, acostumada a desembarcar em Goiânia somente na época dos principais festivais, o rock da cidade não é exclusividade das bandas interessadas em distorção, cerveja e... “atitude”. É claro que a popularidade local do garage-rock legitima a fama de que gozamos em outras praças, mas um olhar atento revela muito mais abaixo dessa superfície caótica e barulhenta..." --- HÍGOR COUTINHO, Gyn Rock News

O visitante casual que despenca em Goiânia desavisado, munido só do preconceito babaca de que está "na Terra do Sertanojo", onde "todo mundo" só ouve Zezé di Camargo e Bruno & Marrone, é capaz de se chocar com esta "caótica" e "barulhenta" explosão de "garage-rock" de que fala Higor Coutinho. E garage-rock daquele tipo que é tocado pra tentar explodir a garagem de tanto fazer barulho, fodendo com os tímpanos dos vizinhos e da polícia junto. Daquele tipo que gera no público, em um "mísero" show, uma perda auditiva equivalente à de meter a orelha ao lado de uma britadeira por cerca de uma semana, no stop.

O Goiânia Noise não se chama noise à toa, podem crer: aquilo faz um barulho dos infernos! E até a Wikipedia anda dizendo: "hoje é o maior festival do rock independente do Brasil." E o Bananada, o irmão caçula do Noise, não é menos ruidoso que seu irmão três anos mais velho, e também já recebeu honrarias condignas, como ser eleito pela revista Bravo! o melhor festival de música do país.

Numa cidade que é séria candidata a uma das metrópoles brasileiras mais judiadas pela poluição sonora, o rock que vem se erguendo dos porões e garagens de Goiânia é também poluído, nervoso, catártico, enérgico, cheio de músicas sobre "ódio e vontade de morrer", como cantam os veteranos dos Mechanics (mais de 15 anos na estrada), ou sobre bebedeiras e baladas homéricas e temerárias, repletas de razões para o super-ego se envergonhar, como o hedonismo deslavado dos Black Drawing Chalks nos leva a imaginar.

Mechanics

Desde os anos 90, quando nasceram os seminais MQN, Hang The Supertars e os já citados Mechanics [entrevista], em paralelo com a Monstro Discos, o rock goiano já mostrava uma predileção especial pela distorção e pela sujeira. Levada a tamanho extremo que o muitas vezes parecia ficar a um pulo do metal, ainda que mantivesse um pé no punk e outro no grunge.

De Porto Alegre até surgiram tendências semelhantes, com o Walverdes tentando ser o Nirvana gaúcho, tchê, ou com o Cachorro Grande emulando o The Who e os Kinks. E Sampa também teve seu momento de glória imunda no auge do Thee Butchers Orchestra e Forgotten Boys, que faziam aqueles shows de lavar nossos ossos naqueles pubs fedorentos e horríveis que a gente frequentava na facul, nas quebradas do interior paulista...

E decerto que de aqui e acolá acabam sempre pipocando alguns bons exemplos deste rockão garageiro puído (ou bad ass rock'n'roll, como diria o Fabrício Nobre), tal como o Amp, lá de Recife, mas somente em Goiânia esta tendência, me parece, se organizou em "cena". Além dos grupos  já tão sólidos e consolidados liderados por Nobre e Márcio "Mechanics" Jr, que prosseguem firmes com bandas já em sua segunda década de vida, a cidade hoje pulsa ainda com Bang Bang Babies, Hellbenders, Rockefellers [myspace], Johnny Suxxx & The Fucking Boys, Motherfish, Vícios da Era, Mugo, Diego de Moraes & o Sindicato, Demosonic, Gloom, Black Queen, Space Monkeys, Ultra Vespa, dentre outros...


Neste cenário é inegável que são os Black Drawing Chalks [G1, Rolling Stone, Nagulha, Recife Rock, ...] uma das bandas locais que mais estão "bombando", a ponto de já soar estúpido aos meus ouvidos alguém que define os Chalks como uma "banda local". Eles já estão bem maiores que Goiânia, ainda que pareçam muito fiéis à cidade-mãe. Foram eles os grandes headliners do Bananada deste ano, fechando a noite de Sábado (o fecho da véspera tinha ficado à cargo do Violins [2], já veterana e cultuada banda indie nacional, o mais próximo que temos dum Joy Division, eu diria).

E os Chalks não fizeram feio em mais um showzaço, com uma performance previsivelmente regada a riffões de hard-rock, cabelos ao vento molhados de cerveja e headbanging por todo lado. Mais pra Hellacopters que pra Guns'n'Roses (cujo show abriram na última passagem de Axl Rose e sua trupe pelo Brasil, agora em 2010), o som dos caras é inegavelmente poderoso, intenso e tocado com uma empolgação contagiante, infecciosa. São músicos do caralho, com uma química coletiva incomum de ver em qualquer banda por aí, nacional ou gringa.


Agindo ao modo galopante, just-for-fun, dum AC/DC, dum Kiss, do velho Aerosmith, ou mesmo dum Spinal Tap, a banda ao mesmo tempo traz elementos proto-punk, bem Radio Birdman e Stooges [2] circa-Funhouse, e demonstra ainda um certo tropismo pelo stoner (que se escancara também no design visual classudo de todo o material da banda, que parece homenagem à estética do Queens Of The Stone Age circa-Songs For The Deaf). Que as letras recheadas dum hedonismo beberrão batido não tragam nada de novo não impede em nada --- talvez só apimente --- a diversão geral.

Sem o mínimo grão de regionalismo, sotaque do sertão ou flerte com ritmos ou melodias abrasileiradas, o Black Drawing Chalks soa um pouco como uma banda feita para exportação, "de Goiânia para o mundo". A produção classuda do disco, o inglês perfeito e  a estética americanizada certamente deixam a banda com um "potencial comercial" que não se iguala por nenhuma outra banda da cidade, e por poucas (ou nenhuma) no Brasil de hoje, --- ainda que isto possa ser visto pelos  mais radicais mais como um perigo ou um vício (o "estrelismo") do que como uma virtude confiável. O fato é que não é nada temerário apostar que os Chalks tem plenas condições de terem seus dois primeiros álbuns lançadas na gringa (estão prestes a partir, aliás, numa turnê pela Argentina). ou mesmo conseguir, para os futuros discos, uma distribuição internacional que os coloque na trilha da ruidosa repercussão de Krisiun, Angra ou Sepultura, lá fora, mas desta vez mais no gênero do garage-rock que no do metal. 

Os detratores podem até ralhar que os Chalks são uns "americanizados", que seu rock é "prosaico" ou que eles levam mais a sério a famigerada "atitude" do que aquela exigência-de-crítico-de-música-mala conhecida como "expressão artística". Mas nada disso impede que Life Is a Big Holiday For Us seja um disco fodaço de hard-rock brasileiro, pulsante e apaixonado, talvez um dos melhores da história deste subgênero neste país tão fraco nesse quesito (pois cadê nosso AC/DC?!?!). Já "My Favorite Way" virou um "hitzão underground" inegável, até mesmo com suas incursões no mainstream (tendo sido indicado a clipe do ano num V.M.B. da M.T.V. recente). E tudo indica que o Black Drawing Chalks é um foguete em ascensão, que sobe soltando fogo pelas ventas e fazendo um barulho bom pra diabo, daqueles cujo terremoto parece ter a força para arrancar da letargia uma cidade inteira.



:: DOWLOAD
DOS ÁLBUNS COMPLETOS ::

"Life Is a Big Holiday For Us" (2009)
http://www.mediafire.com/?gnnznwcnmyh


"Big Deal" (2007)
http://www.mediafire.com/?tuvzo4zt3o4



sexta-feira, 28 de maio de 2010

:: Especial BANANADA - parte 3 ::

Mais dois destaques bananosos dignos de menção:


O Comma, apesar deste nome viril que me deixou imaginando que eu seria violentado por um thrash-metal ou um hardcore, é na verdade um duo de garotas paulistanas que faz um indie-folk minimalista que não pretende levar ninguém a um estado de coma (o nome de batismo se refere, na verdade, à palavra "vírgula" em inglês).

Só na base do violão e da batera, as moças fizeram um dos shows mais sussa do festival, o que não impediu de agradarem bastante ao público --- principalmente o masculino, diga-se de passagem. Não faltaram lamentos dos homens babantes ali presentes quanto à opção sexual da Mimi Lamers, a bela vocalista da banda, que (era pelo menos o que comentava-se, não sei se com base em fatos ou fofocas...) não dá muita bola pra quem tem cromossomos XY.

Bem: talvez elas se sintam ofendidas com a comparação, não sei, mas o Comma me soou como algo que vai meio que na "ondinha Mallu Magalhães" (que, quem diria, antes dos 18 anos já tá "fazendo escola"!). Tal como a Srta. Camelo, as moças do Comma andam estrelando vinhetas da MTV --- e inclusive já tiveram uma Brasília 76 turbinada no Pump My Ride e que transformou-se no "Commamóvel", como relata a matéria do Dykerama. Recentemente soltaram o CD de estréia, Monkey, que vale uma conferida.


* * * *
Direto de Santiago, no Chile, o La Hell Gang foi a única atração gringa do Bananada 2010. Apesar da recepção morna do público, que parecia aguardar com ansiedade impaciente os headliners do Sabadão, o Black Drawing Chalks, os moleques chilenos, todos abaixo dos 20 anos de idade, mandaram muito bem no que eu chamaria de "garage-rock introspectivo".


O talentoso guitarrista-e-vocalista Cábala praticamente não abriu os olhos durante o show inteiro --- e não parecia ser exatamente por timidez, mas sim por uma intensa concentração íntima nos solos cheios de feeling com que presenteou os amantes de guitarrismos.

Fiquei com uma ótima impressão da música da banda, ainda que tenha se escancarado o quanto eles deixam a desejar em matéria de "presença de palco" e "espetaculosidade" em comparação com bandas de Goiânia como os Chalks ou o Johnny Suxx & The Fucking Boys, que levam muito a sério o conceito de hard rock'n'roll de arena, cheio de pirotecnias e grandiosidades.

Cito abaixo uma descrição da La Hell Gang que achei supimpa, feita aliás num espanhol muito charmoso, que achei numa matéria da revista Super-45:
"Movilizados por la acidez sicodélica y el rock garajero, La Hell Gang se asoma como una de las nuevas bandas que de a poco comienzan a remecer la escena rockera santiaguina. Con un formato de power trío - todos menores de veinte años- que funciona desde la constancia hipnótica provocada por el bajo y la batería, dejan el justo espacio para que la profundidad de la guitarra alcance su temple de psicodelia impresionista. Con esta fórmula, ya se han hecho notar en sesiones guiadas por pasajes que equilibran la espacialidad lisérgica de Spacemen 3, el blues explosivo de Jimi Hendrix y la informalidad de canciones que provocan un refrescante desboque de electricidad en todas sus formas."



:: Especial BANANADA - parte 2 ::



:: A LÍNGUA MATERNA AINDA AMAMENTA ::

Na psicodelia, no brit-rock ou no power-pop, as letras em português ainda sobrevivem

Se não faltam bandas desencanando dos vocais e embarcando na onda montante do róque instrumental, uma tendência paralela também se mostra forte: a tentativa de fazer rock'n'roll nos moldes americano ou britânico com letras em português, muitas vezes ambiciosas e poéticas. São bandas que recusam a tese da obsolescência da voz (e da palavra) para a comunicação na música ao mesmo tempo que procuram não se submeter ao imperialismo cultural reinante, negando-se a fazer algo que é mero xerox do que bandas gringas já fizeram.

Se não faltam bandas desencanando dos vocais e embarcando na onda montante do róque instrumental, uma tendência paralela também se mostra forte: a tentativa de fazer rock'n'roll nos moldes americano ou britânico com letras em português, muitas vezes ambiciosas e poéticas. São bandas que recusam a tese da obsolescência da voz (e da palavra) para a comunicação na música ao mesmo tempo que procuram não se submeter ao imperialismo cultural reinante, fazendo algo que é xerox do que bandas gringas já fizeram.

Três bandas novas-em-folha que conheci através do Bananada 2010 me causaram uma boa impressão, cada uma à sua maneira, dentre esta turma do "róque em português" que nada tem de "regionalista", mas que já nasce com cara de "globalizado".

O Nublado, lá de João Pessoa (PB), tem uma sensibilidade melódica brit-pop que remete ao primeiro Radiohead ou ao Muse, unida a sonoridade guitarrenta que não fica longe dum Ride ou My Bloody Valentine. O vocal de Fábio Vianna, pelo menos ao vivo, me pareceu uma tentativa de atingir algo à la Rodrigo Amarante, como se o Nublado fosse um projeto paralelo do hermano que tentasse recriar The Bends numa roupagem mais brazuca.


Vale frisar o heroísmo fudido das duas bandas da Paraíba que foram à Goiânia para o Bananada, o Nublado e o Sex on The Beach, que pegaram estrada juntas numa van, saindo na segunda-feira e chegando na quinta-feira de madrugada! É preciso muita paixão pela música e muito respeito pela cena independente pra encarar uma epopéia dessas, o que, por si só, já merece muitos parabéns. E é também um grande tributo prestado à relevância do festival que bandas de locais tão distantes aceitem passar por todo um road movie para tocarem por meia-hora frente ao público desconhecido. E isto não é tão raro quanto se pensa: poucas semanas atrás, quando os gaúchos do Superguidis passaram por Goiânia pela 3a ou 4a vez, lembraram de como tinham sofrido na primeira viagem de busão para a cidade, em que gastaram cerca de 36 horas (!!!) de estrada. Um bagulho nada menos que HERÓICO!


Quem também veio de muito longe foi o Plástico Lunar [entrevista]. Esta bandaça de Aracaju (SE) consegue manter vivo no róque brazuca o espírito psicodélico e lúdico dos Mutantes sem soar retrô ou reaça em nenhum acorde. Pelo contrário: me parecem uma banda altamente "futurista", exploradora dos limites sônicos como um astronauta chapado de ácido. Apesar de idolatrarem só a aquela Geração de Ouro das antigas --- Beatles, Stones, Cream, Kinks, Dylan, Hendrix, Floyd, Barrett, Arnaldo... --- o Plástico Lunar parece ter seus olhos voltados para o futuro, numa tentativa de renovar e recriar estas sublimes influências numa sonzeira que alguns chamam de "prog-psicodelia" brasileira. O Cidadão Instigado que se cuide... porque tem gente muito boa querendo arrancar da banda de Catatau o cetro de "pivô" da atual cena psicodélica-guitarrenta nacional!


Lá do Paraná veio o também sensacional Nevilton [site oficial], que fez o show que eu particularmente achei o mais fóda do Bananada 2010. Esbanjando carisma, simpatia e energia, o paranaense "com nome de remédio" nos presenteou com 30 minutos de música dos mais memoráveis de que me lembro. Fiquei um pouco com a impressão de que o cara é uma espécie de herdeiro de Marcelo Camelo ou de Wado, dois dos maiores talentos da música brasileira atual, mas que possui no palco um entusiasmo rocker cabuloso que contrasta com a "sussidão" dos supracitados. A carreira solo do ex-Glaforréia Xilarmônica Frank Jorge também é uma referência que veio à mente. Mas seu som, uma espécie de power-pop classudo, com letrinhas bonitas e "de bom coração", sem falar nuns riffs de guitarra muito marcantes, também me trouxe à mente ótimas bandas gringas dos últimos tempos, como o The Shins e o New Pornographers.


O show foi tão empolgante, e os PULOS de Nevilton e do baixista foram tão sensacionais, que deu ao público ganas de gritar, ao modo de Paulo Bonfá narrando os feitos de "Clééééston!", um similar esgoelamento retardado... "Nevííííílton!!!!"


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quinta-feira, 27 de maio de 2010

:: Especial BANANADA - parte 1 ::



:: A OBSOLESCÊNCIA DA VOZ ::
- Bandas instrumentais fazem bonito no Bananada 2010 -

O róque instrumental vive um momento régio no cenário brazuca, como provam a profusão de bandas sem-vocais ducaralho já consolidadas ou que tem despontado: Macaco Bong (MT), Pata de Elefante (RS), Hurtmold (SP), The Dead Rocks (SP), Banalizando (SP), Burro Morto (PB), Fantasmagore (RJ), dentre outros.

O Bananada 2010 trouxe plena confirmação desta tendência com apresentações fuderosas de algumas bandas que vêm se somar a esta já respeitabilíssima companhia. É o caso do Caldo de Piaba, que vem lá do Acre --- um estado que, destroçando os preconceitos babacas de nós aqui do centro-sul, vem nos ofertando belas pepitas sônicas: é daquelas longínquas plagas que vêm também os Los Porongas, que nós aqui do Depredas adoramos.

"Diz uma expressão popular que Caldo de Piaba é um caldo ralinho, que é bom pra curar a ressaca. Moradores do alto rio Envira, no Acre, no entanto, afirmam que se trata de uma delicatessen. Outros informam que se trata de uma iguaria afrodisíaca.

Formado no final de 2008, o Caldo é um projeto idealizado por amigos que tem em comum o gosto pela mistura de ritmos e a vontade de experimentar com a música instrumental. Além das composições próprias, são apresentadas releituras de canções populares. Nesse consistente caldo quem conduz a melodia é a guitarra (como na lambada e na guitarrada paraense) que se encontra com a bateria e o baixo inspirados no funk, no ska e no samba-rock. Isso tudo misturado com um toque de psicodelia, com uma certa liberdade de improviso, e com o que mais for surgindo."
O power-trio apresentou seus grooves e batuques em Goiânia deixando excelente impressão, inclusive sendo "eleitos" pelo pessoal do Gyn Rock News, um dos blog mais responsa da cena goiana, como "a visita mais agradável". Abaixo, segue um vídeo dos caras tocando "I Want You" dos Beatles, com direito a "coralzinho" do público; o que começa como uma fidelíssima reprodução da original logo vira uma hetedoroxa desconstrução e reinvenção. Foda!



A surf-music, outro gênero tradicional para instrumentalidades cabulosas que dispensam vocalista, também esteve muitíssimo bem-representada pelos paraibanos do Sex On The Beach [myspace]. O trio mandou bala de um jeito a deixar Dick Dale e Link Wray orgulhosos e, no vídeo abaixo, são mostrados a "zoar" com ritmos regionais, como o baião, antes de cair naquela crááássica musiqueta do Pulp Fiction. E daí seguem surfando por outras loucas ondas...





Também do Nordeste, desta vez de Natal (RN), rolou o quinteto Camarones Orquestra Guitarrística [que tem um myspace pra lá de fita!]. A molecada é ambiciosa e "sofisticada", musical e visualmente, e junta elementos de hard-rock, surf, indie, electro e música de cartoon e vídeo-game. Apesar de alguns problemas técnicos que zicaram um pouco o show, exigindo a troca de guitarras, a banda, apesar duma certa insegurança, mostrou ser muito promissora. Tenho que confessar que achei a galerinha meio "estrelinha" e espetaculosa demais, mas isto talvez seja um fator que dê uma força pra banda estourar numa amplitude maior do que outros grupos instrumentais, que me soam mais "low-key" e humildes. Ah, e tenho que frisar!: a guitarrista-base, que é um pêssego, vestia uma roupinha do White Stripes que a faz merecedora de vestuário feminil mais firmeza do Bananada 2010...



E logo mais tem mais!